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sábado, 18 de julho de 2020

No sesquicentenário da proclamação do Primado e da infalibilidade


Há 150 anos, a 18 de julho de 1870, foi promulgada, pelo Papa Beato Pio IX, a Constituição dogmática “Pastor Aeternus”, do Concílio Vaticano I, que definia dois dogmas: o do Primado do Papa; e o da sua Infalibilidade. A este respeito, o Vatican News, pela voz de Sérgio Centofanti, conduziu uma oportuna reflexão sobre estas duas verdades consignadas no predito documento aprovado unanimemente pelos 535 Padres conciliares presentes (83 não participaram na votação), “após discussões longas, briosas e agitadas”, como referia São Paulo VI na Audiência Geral de 10 de dezembro de 1969, ao descrever aquele dia como “uma página dramática na vida da Igreja, mas nem por isso, menos clara e definitiva”.
O texto foi aprovado no último dia do Concílio, suspenso (e adiado “sine die”) por via da guerra franco-prussiana, que se iniciou a 19 de julho de 1870 e se prolongou por muito tempo, tendo as tropas italianas tomado Roma pelas em 20 de setembro e sancionado o fim do Estado pontifício.
O documento aprovado e promulgado reflete uma posição intermédia entre as discussões dos participantes, excluindo, por exemplo, que a extensão integral da definição da Infalibilidade às Encíclicas ou a outros Documentos doutrinais. Não obstante, deste Concílio e, em especial, destas definições resultou o Cisma dos velhos católicos, que recusaram o dogma do Magistério infalível do Papa. E os poderes políticos, a leste da dinâmica eclesial (não havia ainda o poder da comunicação social) receberam a notícia com ironia quando o Estado Pontifício estava em falência.
A proclamação dos preditos dogmas surge depois da proclamação do atinente à racionalidade e sobrenaturalidade da fé, plasmado na Constituição dogmática “Dei Filius(de 24 de abril de 1870), segundo a qual “Deus, princípio e fim de todas as coisas, pode ser conhecido, com certeza, sob a luz natural da razão humana, pelas coisas criadas, pois as coisas invisíveis de Deus podem ser conhecidas pela inteligência da pessoa humana através das suas obras” (Rm 1,20).
São Paulo VI referiu, na susodita Audiência Geral que “a razão, somente pela sua própria força, pode chegar ao conhecimento seguro do Criador através das criaturas” e que a Igreja defende, no século do racionalismo, o valor da razão”, afirmando “a superioridade da revelação e da fé sobre a razão e sobre as suas capacidades”, mas declarando que “não pode haver contraste entre verdade da fé e verdade da razão, pois Deus é a fonte, tanto de uma como da outra”.
Na “Pastor Aeternus”, antes da proclamação do dogma do Primado, o Concílio recorda a oração de Jesus ao Pai para que os discípulos sejam “um só”, pelo que Pedro e seus sucessores são “o princípio imutável e o fundamento visível” da unidade da Igreja. E declara solenemente, “com base nos testemunhos do Evangelho, que a Primazia da jurisdição sobre toda a Igreja de Deus foi prometida e conferida, pelo Senhor Jesus Cristo, ao Beato apóstolo Pedro, de modo imediato e direto”, sendo que, “para tornar contínua a salvação e o bem perene da Igreja”, é preciso, por vontade do instituidor, que tal primazia dure para sempre na Igreja, “que, fundada sobre a rocha, permanecerá firme até o fim dos séculos”. Por conseguinte, é necessário que “quem suceder a Pedro nesta Cátedra, em virtude da instituição do próprio Cristo, obtenha a Primazia de Pedro sobre toda a Igreja”. Assim, “todos, pastores e fiéis, de qualquer rito e dignidade, estão vinculados, sob ele, pela obrigação de subordinação hierárquica e verdadeira obediência” nas coisas atinentes “à fé e aos costumes” e “nas concernentes à disciplina e ao governo da Igreja, no mundo inteiro”. Deste modo, salvaguardada a unidade da comunhão e da profissão da fé com o Pontífice Romano, a Igreja “haverá um só rebanho sob um único sumo Pastor”.
Depois, o Concílio infere do Primado do Papa “o supremo poder do Magistério”, conferido a Pedro e seus sucessores “para a salvação de todos”, de acordo com “a constante tradição da Igreja”. Porém, num tempo, em que se sente de modo peculiar a necessidade salutar da presença do ministério Apostólico, muitos se opõem ao seu poder. Daí, a necessidade de proclamar, de forma solene, a prerrogativa de que o Filho de Deus Se dignou vincular ao supremo cargo pastoral. Assim, o Concílio, “na fidelidade à tradição recebida da fé cristã”, proclama e define, para a glória de Deus, exaltação da religião católica e salvação dos povos cristãos, o dogma, revelado por Deus, de que o Romano Pontífice, quando fala “Ex Cathedra”, isto é, “quando exerce o cargo supremo de Pastor e Doutor de todos os cristãos e, pelo seu supremo poder Apostólico define uma doutrina sobre a fé e os costumes”, vincula toda a Igreja, “pela divina assistência, prometida na pessoa do Beato Pedro” e “goza da infalibilidade, com que o divino Redentor quis que a sua Igreja fosse acompanhada ao definir a doutrina sobre fé e os costumes.  
Porém, a infalibilidade pontifícia não é prerrogativa utilizável de ânimo leve. Só ocorre nos termos precisos da declaração da “Pastor Aeternus” e pressupõe o sensus Ecclesiae, confirmado geralmente pelos pastores, institutos de religião e academias pontifícias.
São João Paulo II explicou o significado e os limites da Infalibilidade na Audiência geral de 24 de março de 1993, frisando que ela “não é dada ao Pontífice como a uma pessoa em particular, mas enquanto cumpre o cargo de pastor e mestre de todos os cristãos”, que “não a exerce por autoridade em si mesma e por si mesma”, mas “pela sua suprema autoridade apostólica” e “por assistência divina”. Mais: o Papa não dispõe da Infalibilidade como se pudesse usar dela em todas as circunstâncias, mas só “quando fala Ex Cathedra” e só em campo doutrinal, limitado às verdades da fé e da moral e àquelas que lhe estão intimamente ligadas”, devendo declará-lo expressamente. Foi o que sucedeu com a definição do Dogma da Imaculada Conceição de Maria, sobre a qual o Beato Pio IX afirmou tratar-se de “doutrina revelada por Deus” e, como tal, dever ser “firme e constantemente aceite por todos os fiéis”; e na definição do Dogma da Assunção de Maria Santíssima, em que o Venerável Pio XII disse: “Com a autoridade de Nosso Senhor Jesus Cristo, dos Beatos Apóstolos Pedro e Paulo, e com a minha autoridade, a declaramos e definimos Dogma, divinamente revelado”. Só com estas condições se fala de magistério papal extraordinário, cujas definições são irreformáveis “per se”, não pela aprovação da Igreja”. Embora podendo fazê-lo, muitos Papas não exerceram tal magistério extraordinário.
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Os dogmas são verdades de fé que a Igreja crê e ensina como reveladas por Deus (cf CIC/ Catecismo da Igreja Católica, 88-95), assentes na tradição e pregação apostólicas com continuidade na sucessão e confiadas a toda a Igreja – definíveis pelos concílios que o declarem expressamente e pelo magistério extraordinário papal. Os principais Dogmas são: Deus é Uno e Trino; o Pai é o criador de todas as coisas; Jesus, o Filho, é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, encarnado, morto e ressuscitado pela nossa salvação; o Espírito Santo é Deus; a Igreja é una, como o Batismo é uno. E mais: o perdão dos pecados, a ressurreição dos mortos, o Paraíso, o Inferno e o Purgatório, a transubstanciação, a maternidade divina de Maria, a sua virgindade, conceção imaculada e assunção. Todas estas verdades devem ser entendidas no âmbito da grande verdade de Deus, que é Amor e deseja que as suas criaturas participem da vida divina. O próprio Jesus revelou quais são os maiores mandamentos: amar a Deus e ao próximo (Mt 22,36-40) – a bitola do nosso julgamento final.
Um dogma é um ponto firme da vida de fé, definido pelo Magistério da Igreja, que o reconhece na Sagrada Escritura como revelado por Deus, em estreita conexão com a Tradição. Contudo, a
Tradição não é imóvel e estática, mas, como João Paulo II diz na esteira do Concílio Vaticano II (vd Carta Apostólica “Ecclesia Dei”), “é viva e dinâmica à medida que aumenta a inteligência da fé”.
Os dogmas não mudam, mas, graças ao Espírito Santo, podemos entender, cada vez melhor, a amplidão e profundidade das verdades. Assim, o Papa polaco afirmou que “o exercício do magistério concretiza e manifesta a contribuição do Pontífice Romano para o desenvolvimento da Doutrina da Igreja” (Audiência geral, 24 de março de 1993).
Na referida Audiência Geral de 1969, o Papa Montini reivindicou a atualidade do Concílio Vaticano I e sua conexão com o Vaticano II assegurando que ambos “são complementares”, embora muito divergentes “por várias razões”. Por exemplo, a atenção às prerrogativas do Pontífice Romano, no Vaticano I, foi alargada, no Vaticano II, ao Povo de Deus, com os conceitos de colegialidade e comunhão. Porém, a unidade da Igreja, que tem, em Pedro, o seu ponto de referência visível, desenvolve-se com o forte compromisso com o diálogo ecuménico. E São João Paulo II, no “Ut unum sint(vd n. 95), lançou o apelo às Comunidades cristãs para o encontro duma forma de exercício da Primazia, que, apesar de não renunciar “à essencialidade da sua missão, se abra a uma nova situação”, como “serviço de amor, reconhecido por todos”.
Francisco fala, na “Evangelii Gaudium(EG), duma “conversão do papado”. Com efeito, o Vaticano II afirmou que, “de modo análogo às antigas Igrejas patriarcais, as Conferências Episcopais podem dar uma contribuição múltipla e fecunda, para que o sentido de Colegialidade seja concretizado” (vd LG, 23), auspício que não se realizou suficientemente porque não havia sido esclarecido que as Conferências Episcopais o concebessem como sujeitos de atribuições concretas, inclusive de alguma autoridade doutrinária autêntica. E o Papa avisa que “uma centralização excessiva, ao invés de ajudar, pode complicar a vida da Igreja e o seu dinamismo missionário” (EG, 32), sendo necessário recordar que, segundo o Vaticano II, “a infalibilidade, prometida à Igreja, também reside no corpo episcopal, quando exerce o magistério supremo com o Sucessor de Pedro” (LG, 25).
Para lá dos Dogmas, São Pio X recordava, numa audiência de 1912, a necessidade de amar o Papa e obedecer-lhe. Dom Bosco exortava os seus colaboradores e os jovens a manterem nos corações “três amores brancos”: a Eucaristia, Nossa Senhora e o Papa. E Bento XVI, em 27 de maio de 2006, dizia aos jovens que cresceram sob o pontificado de João Paulo II o que as verdades da fé, proclamadas no distante 1870, queriam dizer:
Não vos deixeis enganar pelos que opõem Cristo à Igreja! Há só uma rocha sobre a qual vale a pena de construir a casa: esta rocha é Cristo! Há só uma rocha sobre a qual vale a pena de apoiar tudo. Esta rocha é aquela a quem Cristo disse: “Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (Mt 16,18). Vós, jovens, conheceis bem quem o Pedro dos nossos tempos. Não esqueçais que nem o Pedro, que observa o nosso encontro da janela de Deus Pai, nem este Pedro, que está diante de vós, nem qualquer outro Pedro estão contra vós, nem contra a construção duma casa duradoura sobre a rocha. Antes compromete o seu coração e as mãos para vos ajudar a construir a vida em Cristo e com Cristo.”.
É bom que não receemos os dogmas, que são ajuda para esta vida e para a que há de vir, e que registemos este termo abrupto do Concilio Vaticano I.
2020.07.18 – Louro de Carvalho

terça-feira, 26 de maio de 2020

Pelo 25.º aniversário da publicação da Carta Encíclica “Ut unum sint”


Passou, a 25 de maio, o 25.º aniversário da publicação da Carta Encíclica “Ut unum sint”, de São João Paulo II. Em 1995, era dia da Solenidade da Ascensão do Senhor.
Para assinalar a efeméride, Francisco dirigiu uma carta ao cardeal Kurt Koch, presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, em que exprime o sentimento de gratidão ao seu venerável predecessor e sublinha a ideia-força do compromisso pela magna questão da Unidade, rogada por Cristo ao Pai no discurso testamentário subsequente à Ultima Ceia em que instituiu a Eucaristia e estabeleceu o mandato do amor fraterno em serviço recíproco, afetivo e efetivo – no quadro íntimo da paixão que ia sofrer propter nos homines.  
O Santo Padre lembra, na carta, o contexto epocal: com o olhar voltado para o horizonte do Jubileu do Ano 2000 (comemoração da Encarnação do Filho de Deus, que Se fez homem para salvar o homem), o Papa Woijtyla queria que a Igreja mantivesse bem presente e viva a oração do seu Mestre e Senhor: “Que todos sejam um”. Assim, vem com a Encíclica confirmar, de modo irreversível, o empenho ecuménico da Igreja Católica, colocando-o sob o signo do Espírito Santo, artífice da unidade na diversidade, princípio da unidade da Igreja.
Porém, como refere o Vatican News, a encíclica da Unidade reitera que “a legítima diversidade não se opõe de forma alguma à unidade da Igreja, antes lhe aumenta o decoro contribuindo significativamente para o cumprimento da sua missão”  (n. 50).
E o Papa Francisco, embora compreenda a “impaciência” de quem pensa que poderia e deveria ser feito mais, dá graças ao Senhor pela via que nos levou a “percorrer como cristãos na busca da plena comunhão” e exorta à fé e ao reconhecimento porque “muitos passos foram feitos nestas décadas para curar feridas seculares e milenárias”. Com efeito, o Pontífice, dirigindo o seu pensamento também aos Irmãos que estão à frente das diversas Igrejas e comunidade cristãs e a todos os cristãos de todas as tradições, “que são os nossos companheiros de viagem”, frisa que são visíveis os progressos no maior conhecimento e estima recíprocos, no avanço no diálogo teológico e caritativo, e em várias formas de colaboração no diálogo da vida, no plano pastoral e cultural.
Agradecendo a quem trabalha e trabalhou no Dicastério dedicado ao ecumenismo, o Papa Bergoglio anunciou duas iniciativas: um Vademecum ecuménico para os Bispos, a publicar no 2.º semestre “como encorajamento e guia no exercício da suas responsabilidades ecuménicas”; e o lançamento da revista Acta Œcumenica, como subsídio para quem trabalha a serviço da unidade. Depois, fazendo memória da via percorrida, recorda a importância de perscrutar o horizonte, perguntando-se ‘Quanta est nobis via?(n. 77), “quanta estrada nos resta por fazer?”. E, concluindo que a unidade não é principalmente o resultado da nossa ação, mas dom do Espírito Santo (não acontecerá como um milagre, mas caminhando juntos), exorta:
Invoquemos confiantes, portanto, o Espírito, para que guie os nossos passos e cada um sinta, com renovado vigor, o apelo a trabalhar pela causa ecuménica. Ele inspire novos gestos proféticos e reforce a caridade fraterna entre todos os discípulos de Cristo, ‘para que o mundo creia’ (Jo 17,21) e se multiplique o louvor ao Pai que está nos Céus.”.
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Constituindo um apelo apaixonado aos cristãos para que respondam à oração de Jesus pela unidade de todos, a Encíclica ajuda-nos a olhar para a realidade das comunidades cristãs de hoje com um renovado compromisso ecuménico. Com 25 anos sobre a sua publicação, mantém íntegra a sua frescura e impacto profético. Voltada para o futuro aponta a meta, que parece longínqua. Na verdade, o Papa polaco sente fortemente este ardente desejo do Senhor, fá-lo seu; e o ecumenismo torna-se uma das prioridades do Pontificado, pois a divisão dos cristãos é o escândalo que afeta a obra de Jesus, porque a fé em Cristo postula necessariamente a unidade, posto que a fé, enquanto ato de obediência amplia os horizontes do coração e da mente.
Porém, como anota Sergio Centofanti, publicado pelo “Jornal da Madeira”, no dia 25, é o Papa da unidade que sofre a grande dor do cisma: alguns irmãos não entendem este impulso para o futuro”. Trata-se do cisma de Marcel Lefebvre, que em 1988 consumou a separação de Roma.
Os tradicionalistas acusavam o Papa e o Vaticano II de “falso ecumenismo”, que, destruindo a verdadeira fé e introduzindo “uma conceção protestante da Missa e dos Sacramentos, leva “a Igreja à ruína e os católicos à apostasia”, sendo que a Providência confiara a Lefebvre a missão de se opor à Roma modernista, para que, voltando a ser a Roma católica, reencontre a sua Tradição bimilenária.
Tendo Lefebvre morrido em 1991, os sucessores atacaram a Encíclica por alegadamente levar ao relativismo dogmático (e já o conter) – posição baseada em “noção incompleta e contraditória da Tradição”, como afirmara Wojtyla na Carta Apostólica “Ecclesia Dei”, pois não considera a Tradição viva e em crescimento transmitida de geração em geração nem compreende que a Tradição não pode separar-se da comunhão com o Papa e com os pastores de todo o mundo.
O documento pontifício, olhando corajosamente o futuro, indica o diálogo como prioridade e passo necessário para descobrir a riqueza dos outros, vê os passos dados para a unidade com as diversas Igrejas e Comunidades cristãs, vincando a mútua abolição das excomunhões entre Roma e Constantinopla e as Declarações Cristológicas comuns com as Igrejas do Oriente, e ressalva que, tal como foi dito acima, “a diversidade legítima não se opõe de forma alguma à unidade”. Na verdade, “polémicas e controvérsias intolerantes” transformaram em “afirmações incompatíveis” dois pontos de vista de escrutínio da mesma realidade. Porém, está aberto um caminho que ajuda “a descobrir a insondável riqueza da verdade” e a presença de elementos de santificação “para além das fronteiras visíveis da Igreja Católica”.
E o Papa Wojtyla advertia que não se trata de “modificar o depósito da fé” e “mudar o sentido dos dogmas”, mas que “a expressão da verdade pode ser multiforme”, pois “a doutrina deve ser apresentada de modo compreensível para aqueles a quem o próprio Deus a destina”, qualquer cultura a que pertençam, evitando qualquer forma de “particularismo exclusivismo étnico ou preconceito racial”, como “qualquer sobranceria nacionalista”.
A Encíclica indica a necessidade de “o modo e o método de enunciar a fé católica” não serem “obstáculo ao diálogo com os irmãos”, embora haja “hierarquia nas verdades da doutrina católica”. Segundo São João Paulo II, a Igreja é chamada por Cristo a contínua reforma”, que “pode exigir revisões de declarações e atitudes”, e o “diálogo não se articula exclusivamente em torno da doutrina”, mas envolve “a pessoa toda”, porque “é também um diálogo de amor”, pois é do amor que “nasce o desejo de unidade”, e é um caminho que exige “trabalho paciente e corajoso”, não se podendo impor “outras obrigações além das indispensáveis”.
Não obstante, como observa o Papa polaco, no ecumenismo, a primazia pertence à oração comum em convergência para o essencial. Com efeito, os cristãos, orando juntos, descobrem que o que nos une é muito mais forte do que aquilo que nos divide, sendo que a renovação litúrgica realizada na Igreja Católica e noutras Comunidades eclesiais gerou convergências sobre o essencial e, juntos, cada vez nos voltamos mais para o Pai num só coração, de modo que, às vezes, parece estar perto a selagem desta comunhão real, embora ainda não plena. E, a par deste diálogo orante, a Encíclica aponta a crescente colaboração dos cristãos pertencentes a várias confissões no compromisso com “a liberdade, a justiça, a paz, o futuro do mundo”, já que “a voz comum dos cristãos tem mais impacto que uma voz isolada” para “fazer triunfar o respeito pelos direitos e necessidades de todos”, em especial os pobres, humilhados e indefesos. Não se trata, como frisa Wojtyla, de mera ação humanitária, mas de responder à palavra de Jesus lida no cap. 25 do Evangelho de Mateus: “Tive fome e me destes de comer…”.
São João Paulo II propõe uma mudança de linguagem e de atitudes de modo a evitar o estilo oposicionista, agressivo e antagónico, a visão derrotista que vê tudo negativo, o fechamento não evangélico na condenação dos outros e o desprezo resultante duma “presunção insalubre”. Ao invés, há que envidar todos os esforços, com a ajuda de Deus, para demolir muros de divisão e desconfiança, ultrapassar obstáculos e preconceitos, eliminando termos que ferem e escolhendo a rota da humildade, mansidão e generosidade fraternas – sem falar mais de hereges ou inimigos da fé, mas de “outros cristãos”, “outros batizados”. Tal reconversão lexical espelha significativa evolução das mentalidades e a via de conversão que postula o arrependimento mútuo pelos erros cometidos, que levou Woijtyla a pedir perdão pelas faltas dos membros da Igreja.
Entretanto, há que assentir que a unidade plena tem em Pedro o ponto visível de referência, pelo que São João Paulo II apela às Comunidades cristãs a que encontrem uma forma de exercício do primado petrino que, “sem renunciar de forma alguma ao que é essencial da sua missão, se abra a uma situação nova”, como “um serviço de amor reconhecido por uns e por outros”.
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Em suma, a “Ut unum sint” sintetiza, de modo peculiar a caminhada da Igreja nos 2000 anos da sua história, com uma luz que aponta o caminho a seguir na mesma direção dos que nos precederam e mostra a índole viva da Tradição em crescimento, que tem, segundo a “Dei Verbum”, origem nos Apóstolos e progride na Igreja com a assistência do Espírito Santo, sendo graças ao Espírito que a inteligência da fé cresce rumo à “unidade na diversidade”. E São João Paulo II afirma, citando São Cipriano de Cartago, que os irmãos, neste caminho, devem aprender a reconciliar-se com o altar, porque “Deus não aceita o sacrifício dos que estão em desacordo” e, ao invés, o maior sacrifício a oferecer a Deus é a paz e harmonia fraternas, o povo reunido na unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo”.   
Segundo Arturo Mari (cf L'Osservatore Romano, de 25 de maio), 25 anos depois, a encíclica sobre o empenho ecuménico continua a ser preciosa fonte para a compreensão da vocação ecuménica da Igreja e pretexto para uma reflexão sobre o papel de São João Paulo II no desenvolvimento do caminho ecuménico. Da leitura dos seus textos, mais que das interpretações que se vêm fazendo, fruto da apreciação dum gesto ou palavra fora do contexto, colhe-se quanto para si foi prioritário “o compromisso quotidiano para a construção da unidade visível da Igreja”.
Propondo “empenho, construção, unidade, alimentados por uma conversão do coração da parte de todos os cristãos”, retomou um tema recuperado pelo Vaticano II (e querido da Aula conciliar que lhe dedicou sobretudo o Decreto “Unitatis Redintegratio” e a Declaração “Nostra Aetate”), da descoberta de “uma relação privilegiada com o povo judaico, na profunda distinção entre caminho ecuménico e diálogo inter-religioso, na descoberta da própria identidade enquanto premissa irrenunciável e fundamental para viver a unidade na diversidade”.
2020.05.26 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Uma mulher à frente do Secretariado Nacional das Comunicações Sociais


É Isabel Figueiredo, que tem como primeira prioridade “conhecer a realidade”, como revelou ao portal da Santa Sé, e para quem “é uma lição diária ouvir e ver o Papa Francisco”.
Em entrevista ao VATICAN NEWS, a diretora do SNCS (Secretariado Nacional das Comunicações Sociais), órgão da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais, da CEP (Conferência Episcopal Portuguesa) sublinhou ter acolhido “com um sentimento de gratidão” a sua nomeação para diretora do Secretariado Nacional das Comunicações Sociais. Foi uma escolha dos bispos portugueses na assembleia plenária da CEP que terminou no passado dia 2 de maio, que nomearam, pela primeira vez, para estas funções uma mulher – escolha que recaiu na responsável pelos conteúdos religiosos das rádios do Grupo Renascença Multimédia onde trabalha desde 1990 e adjunta do presidente do Conselho de Gerência.
A novel diretora do SNCS, que mantém as demais funções e sucede no cargo Dom Américo Aguiar, Bispo Auxiliar de Lisboa, refere que um dos primeiros e-mails que recebeu depois de sair a nomeação recomendava que não se esquecesse das “periferias”, pelo que um dos seus primeiros trabalhos foi “visitar os secretariados diocesanos” para “os conhecer localmente”. E, reafirmando, neste contexto, o apelo de Francisco para a importância da linguagem e da comunicação digital onde a Igreja deve estar presente, deixa um alerta: “Não podemos perder nunca de vista o que é fundamental”, ou seja, a “comunhão local”.
Ao portal da Santa Sé, a também colaboradora regular da revista Mensageiro do Coração de Jesus e autora de várias obras (nomeadamente: “Vale a Pena Pensar nisto”, “Via Sacra com Maria”, “Advento para Crentes e Não Crentes” e “Linhas Tecidas com Tempo) realça ainda a importância dos pontificados de São João Paulo II, Bento XVI e Francisco para a valorização dos ‘media’ da Igreja. 
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Entretanto, a 24 de maio, Isabel Figueiredo deu uma entrevista à Renascença e à Ecclesia em que assegurou ter acabado “o tempo em que o trabalho de comunicação era feito em projetos isolados” e sublinhou a necessidade de prestar atenção ao público para quem se produzem os conteúdos. Dela se respigam alguns dados, em virtude da sua pertinência.         
A entrevista foi a propósito da sessão agendada para o dia 30 de maio, em Lisboa, em que foi apresentado o Dia Mundial das Comunicações Sociais que a Igreja Católica celebrou a 2 de junho, e em que foi entregue o prémio de jornalismo ‘Dom Manuel Falcão’.
E a questão de chofre incidiu sobre o facto de ser uma leiga e mulher a dirigir aquele organismo e sobre que mais-valia o caso traz à causa, replicando que não vê as coisas por esse prisma, pois, embora seja diferente o contributo de cada pessoa, não se pode pensar que os contributos de outros traga menos-valias. Por isso, é melhor esperar pelo que “o trabalho mostra”.
Quanto a expectativas para o desempenho do cargo, uma vez que se sente “orgulhosa, grata, tranquila”, entende que “as expectativas decorrem desta forma de estar”. E explica:
As expectativas que tenho são que possamos continuar o trabalho – por isso dizia que me sentia orgulhosa, porque vinha atrás de pessoas cujo trabalho e qualidade são reconhecidos por todos; quando digo que estou grata à Igreja, digo também que espero continuar a merecer essa mesma gratidão, fazer algo de diferente que mereça a confiança que é depositada; a tranquilidade, outra expressão que eu utilizei, também é engraçado misturá-la com isso – já tive oportunidade de dizer que tenho dias mais tranquilos e outros menos, à medida que o tempo passa. (…) Há alguns acontecimentos que já sabemos que aí vêm, que são claramente importantes. Vamos ver o que vai trazer.”.
No atinente a prioridades definidas ou a definir, atém-se à lição do pároco velhinho da paróquia onde cresceu, que ensinava ao grupo de jovens que, ao chegar-se a um novo cargo, “ durante um período de tempo não se deve fazer absolutamente nenhuma mudança, deve ficar-se quieto e observar, só depois é que se fazem as mudanças”. Assim, a sua postura atual “é observar o que se passa” para, depois, “conseguir trabalhar”.
Passando a aspetos substanciais da entrevista, pronunciou-se sobre a missão do SNCS de animar o setor na linha do Vaticano II equilibrando a prestação do dado religioso por meios próprios, a ajuda a que outros também o prestem e a abertura dos canais de comunicação da Igreja a temas mais abrangentes. E, em relação a esta matéria, vincou o “caminho feito pela Igreja Católica nos últimos anos”, sublinhou o facto de o Papa Francisco vir falando “quase todas as semanas para a Comunicação Social, de uma maneira ou de outra”, pensando que ele está a fazer o “trabalho de alargar horizontes”. Entende que temos de alargar cada vez mais os horizontes, mas num caminho “que tem de ser feito sem que pareça ser uma novidade, porque não é”. E ilustrou o seu pensamento com a diferença de atuação da Renascença e da Ecclesia em termos de trabalho de comunicação entre o que se faz hoje e o que se fazia dantes – um caminho que se percorre na dialética da continuidade e da inovação. Entretanto, identificou as redes sociais como “o desafio mais evidente”.
Questionada sobre como conseguirá essa relação com todos os meios de Comunicação Social equilibrando a tensão entre ter meios próprios e ajudar outros meios a comunicar o religioso, afirmou que essa questão “assenta num princípio que todos partilhamos, embora nem sempre o verbalizemos”, ou seja, em termos de comunicação de Igreja “temos de avançar sempre num caminho de comunhão”, pois “o tempo em que cada um fazia o seu trabalhinho de comunicação”, segundo a entrevistada, “pertence ao passado”. E, concedendo, adianta:
Foi rico, teve o seu caminho, fizeram-se as suas coisas, mas olhando para o presente e para o futuro, será sempre uma tentativa de alargarmos o trabalho e todos podermos estar uns com os outros. Julgo que conhecer os secretariados diocesanos, procurar fazer um trabalho a nível nacional, é precisamente com esse enfoque, é isso que a Igreja espera.”.
Estabelecendo que o agora dito “é uma prioridade”, passou à preocupação com a chamada comunicação institucional da Igreja Católica e aos alegados “problemas na forma como as dioceses reagem a determinadas notícias, como usam as redes sociais, como partilham informação nos seus sites, [sendo que] algumas nem sequer têm site…”. Disse que esta preocupação “decorre do momento que nós estamos a viver, que tem isto de bom e tem o lado menos bom”. E apontou:
O facto de, hoje em dia, termos praticamente uma comunicação instantânea – o efeito de um post no Facebook é replicado em muito pouco tempo, o efeito de uma notícia ou determinada abertura, sem se ler a notícia toda, ganha uma velocidade que escapa a toda a gente”.
Sabe que “é um problema de comunicação institucional”, que “a Igreja tem sempre de pensar o que é comunicar para dentro e o que é comunicar para fora, estar com outros órgãos de comunicação social”, não se podendo dizer que “está tudo feito nos dois campos”, mas “tem de se avançar”. Porém, afasta a preocupação com problemazinhos, porque “a vida se encarrega de nos mostrar que aquilo que hoje parece uma coisa, amanhã será outra”, devendo nós ter “a real consciência da dimensão das coisas, ir tateando e melhorando”.
No respeitante à formação e gestão mais profissional dos meios que a Igreja tem ao seu dispor, confessou sentimentos mistos: sabe que “já há profissionais a trabalhar em muitos” [meios de comunicação da Igreja], não tendo a situação atual “nada a ver com o que se vivia há 10 anos”; que “há trabalho profissional feito em muitos lados”, de modo que “não podemos dizer que estamos a trabalhar com amadores, em termos institucionais”; mas tem de se prestar grande “atenção a quem consome tudo aquilo que se faz”, pois, não se faz comunicação “só para comunicadores”, mas “para toda a gente”; e “é aí que as redes sociais dão uma dimensão enorme a tudo isto [de] que estamos a falar”. Isto, “para o bem e para o mal”. E vincou:
Portanto, quando se diz que a comunicação é feita para uma multidão de gente – que não fazemos a mais pequena ideia de como é que lê, quando é que vai ler, quando é que vai ver, como é que vai ouvir, se vai ouvir do princípio até ao fim – isto é que obriga os profissionais (…) a estarem permanentemente atentos a isto”.
Relativamente ao enquadramento empresarial dos Meios de Comunicação Social da Igreja, lembrou que já várias pessoas alertaram para a questão, inclusivamente Dom Américo Aguiar (anterior diretor do Secretariado das Comunicações Sociais), pois “estamos a viver um tempo especial e difícil (…) em termos de empresas de Comunicação”. E explicou recorrendo a uma das últimas palavras do Papa ao agradecer “o trabalho dos jornalistas e da Comunicação Social”, afirmando a importância da Comunicação Social numa sociedade livre, pois “nós precisamos de gente, de profissionais de Comunicação Social que saibam pôr o dedo nas feridas da sociedade atual”, inclusive nas feridas eclesiais, “porque sem esse trabalho nós não conseguimos, a sociedade não é verdadeiramente livre, nem é uma sociedade de comunhão a que todos aspiramos, e todos temos essa inquietação interior da comunhão”. E Francisco acrescentava:
Isto é tudo verdade, mas nós ao mesmo tempo precisamos de gente que seja completamente humilde no seu trabalho, e gente que seja completamente dedicada à verdade”.
Por isso, Isabel Figueiredo vê a dificuldade do que se passa em termos empresariais, mas sustenta a necessidade de toda a sociedade ter consciência de que precisa da Comunicação Social, avançando que a presença da Igreja nos media faz cada vez mais sentido. E alerta:
Não é um assunto que pense que se pode tornar menor, ou ao qual se pode dizer: vamos-lhe dar menos meios, vamos-lhe dar menos importância, porque há imensas notícias horríveis que correm, há imensas mentiras, há imensa coisa mal feita”.
Questionada sobre a presença da Igreja num espaço inter-religioso no âmbito do serviço público de rádio e televisão e sobre o contributo que nele vê para a informação na sociedade portuguesa sobre a dimensão religiosa e para a convivência e diálogo inter-religioso que marcam a nossa sociedade, respondeu com o orgulho que tem no trabalho da Ecclesia. E contou:
Ainda hoje me falavam de que no Brasil consultavam a Ecclesia diariamente, tinham o ecrã aberto e tinham a Ecclesia e o Vaticano, as notícias do Vaticano. E eu achei muito simpático, e claro que não tinham necessidade de dizer, portanto, se o disseram é porque é a pura das verdades.”.
Depois,  disse que um programa eclesial no serviço público de rádio e televisão acaba por ser mais abrangente e inter-religioso, com uma mais-valia nessa marca. E explanou:
A experiência da Ecclesia é a prova evidente disto. Sim, nós temos de caminhar para isso, caminhamos exatamente para isso. E eu acho que Portugal, aí também, dá muitas cartas, porque a nossa capacidade de estarmos ao lado das outras confissões religiosas e de fazermos um caminho é algo que tem muitos anos. Eu volto atrás, à história da minha pequena paróquia, onde eu cresci como adolescente, e há muitos, muitos anos já havia uma Missa que era celebrada em inglês e já tínhamos momentos de oração feita com outras comunidades religiosas.”.
Relativamente aos problemas dos media que preocupam as empresas, nomeadamente as ‘fake news’ e a tendência para o jornalismo-espetáculo ou o jornalismo de chicote, se isso se reflete no SNCS e como este organismo pode refletir e contribuir para enfrentar estas dificuldades, começou por defender o jornalismo da Rádio Renascença como “sinónimo de jornalismo de qualidade e de seriedade”, como atestam os muitos prémios recebidos pela estação. Quanto às ‘fake news’, disse que “vão continuar sempre”, pois “sempre existiram”, embora atualmente tenham um “impacto completamente fora do habitual porque elas se espalham com uma velocidade enorme e são incontroláveis”. E, em relação ao facto de o Papa as ter denunciado na sua mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais deste ano, comentou:
O Papa também dizia uma coisa muito interessante, dizia que nesta questão das ‘fake news’ e da comunicação de hoje em dia, já não é possível pôr a errata, que se punha antigamente nos livros: quando havia uma coisa que estava errada, punha-se uma errata e resolvia-se o problema. E hoje em dia já não é possível pôr erratas, portanto, as ‘fake news’ têm este problema muito real.”.
Em relação à predita sessão, aberta a todas as pessoas, no dia 30 de maio, pelas 17 horas, no auditório da Rádio Renascença, frisou o facto de o primeiro convite ser para os secretariados diocesanos de comunicação e o facto de se pôr a mensagem do Papa “a ser debatida por diversos olhares” e exemplificou: o olhar do diretor da Faculdade de Ciências Humanas (UCP), Nelson Ribeiro, antigo diretor da Renascença, e que ensina comunicação; o de uma antiga aluna da UCP, que neste momento trabalha numa televisão, essencialmente na questão das redes; e o de Nello Scavo, jornalista que tem escrito alguns livros, um dos quais sobre o Papa que se tornou mais conhecido, e agora este, que lançou em Portugal exatamente sobre as ‘fake news’ acerca do Papa, comentando também a mensagem papal. Depois, referiu que o tema da sessão ‘Esta é a rede que queremos’ inspirado nessa mensagem onde diz:
Nós queremos uma rede, mas não queremos a rede como dela se fala habitualmente, queremos uma rede que caminhe para a comunhão das pessoas, que cruze as pessoas de outra maneira”.
E explicou:
A imagem da rede é muito poderosa, porque a rede traz tudo com ela, o que entra dentro da rede, o que sai fora da rede, o que cai da rede, a rede cheia, a rede vazia, a rede que se lança, a rede que se recolhe. Portanto, esta é uma rede que toca claramente o coração das pessoas e eu acho que é por aí que nós podemos pegar na mensagem do Papa, olhar para ela de outra maneira e ir à procura do que é que ela tem a dizer a cada um dos profissionais de comunicação social.”.
Sobre o título da mensagem papal Das ‘Community’ às comunidades’, frisou que é “um desafio muito oportuno” e que o Papa dá exemplos concretos, enaltecendo o mérito da família que utiliza a rede para comunicar entre si, mas ao fim do dia se senta à volta da mesa e fala olhos nos olhos, e o da paróquia que usa a rede para comunicar o que faz e anunciar iniciativas, mas depois as pessoas, ao domingo estão na Missa todas juntas e fazem comunhão. Mas, se não é assim, segundo o Pontífice, “há aqui um sinal vermelho que tem de se abrir” e “as pessoas têm de pensar”. Obviamente, para Isabel Figueiredo, esta “é uma questão pertinente”.
E a nova diretora do SNCS acha que as redes sociais são muito relevantes antes e depois das JMJ (Jornadas Mundiais da Juventude) e um desafio a encarar e a aproveitar para a que se vai realizar em Portugal. Só esteve nas primeiras JMJ de Roma, mas afiança:
Nem nós, nem as pessoas que já estiveram em Jornadas Mundiais têm a consciência do que é o desafio de receber uma Jornada Mundial da Juventude, e de comunicar uma JMJ. Portanto, acho que é um enorme desafio, sendo que tenho sempre presente, a tocar cá na minha campainha que – e foi dito pelo senhor Cardeal-Patriarca – a JMJ é dos jovens, feita pelos jovens e para os jovens. E, portanto, nós temos de olhar, até para a comunicação, temos de olhar assim. Temos de saber o que é que eles querem ouvir, o que é que eles precisam de dizer, como é que eles entendem as coisas.”.
Por fim, fez referência ao prémio de jornalismo ‘Dom Manuel Falcão’. Concorreram os órgãos de comunicação social e o júri escolheu, na dúzia de trabalhos entrados, o trabalho que tem o título ‘É como se a Mãe descesse à terra’ – muito bom do ângulo da imagem (joga muito bem com a imagem, a fotografia, o texto e a música) – que nos situa “no universo da religiosidade popular” e com “a questão mariana”. É a grande reportagem da TVI, de Catarina Canelas, em cuja equipa trabalham João Franco, Tiago Donato, Rodrigo Cortegiano e João Pedro Ferreira. Também o prémio foi atribuído ao Diário do Minho em forma honorífica pelo seu centenário.
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Em suma, uma entrevista a reler por quem se preocupe com a Igreja e com a Comunicação.
2019.06.12 – Louro de Carvalho

sexta-feira, 13 de julho de 2018

Do Movimento Litúrgico à Reforma Litúrgica e a uma Teologia Litúrgica


O Concílio Vaticano II deu azo à primeira grande Reforma Geral da Liturgia na História da Igreja com a aprovação da Constituição Sacrosanctum Concilium (SC), que Paulo VI promulgou a 4 de dezembro de 1963 e a que se seguiram os subsequentes textos de execução, desenvolvimento e regulamentação. Na verdade, a Liturgia não era já de facto, para o povo cristão (pessoas e comunidades), a Oração da Igreja, como decorre da noção de Liturgia.
O vocábulo “Liturgia” (em grego, λειτουργία, formado pelas raízes leit- de “laós”, povo, e –urgía, trabalho, ofício), significa serviço ou trabalho público. Assim, a Liturgia é, antes de tudo, ‘serviço do povo’; e essa experiência é fruto duma vivência fraterna, ou seja, é o culto cristão como que a levar os fiéis para diante do Crucificado. Não se trata de encenação, pois o mistério é contemplado em “espírito e verdade”. A Liturgia cristã tem, assim, raízes absolutamente cristológicas. Com efeito, Cristo rompe com o ritualismo e torna a liturgia um “culto agradável a Deus”, conforme escreve o apóstolo Paulo de Tarso (vd Rm 12,1-2).
Porém, a Liturgia não era olhada pelos fiéis como a forma principal e normal da sua oração, como o fora no princípio, mas monopólio de clérigos e religiosos (ficaram sozinhos com os livros).
No entanto, o Concílio não produziu de repente um normativo sem que antes tenha havido todo um esforço de restituição da oração litúrgica ao povo crente. É esse o esforço que se atribui ao movimento litúrgico enquanto processo amplamente participado de recuperação dos valores da vida litúrgica da comunidade cristã, surgido entre meados do século XIX e princípios do século XX e que foi maturando até à SC. Trata-se de fenómeno tão vasto que implicou a mobilização da atividade dos mosteiros, centros de estudo, estudiosos, pastores, congressos e intervenções magisteriais dos diversos Papas. 
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Nos séculos XIX e XX
Distinguiram-se como obreiros do movimento litúrgico homens como Dom Guéranger que, desde Solesmes (restaurado por si em 1833), concitou o interesse pela liturgia romana, publicando “O Ano Litúrgico” e as “Institutions Liturgiques”; Dom Lambert Bauduin, já no século XX, que impulsionou a formação litúrgica de sacerdotes e fiéis, sobretudo a partir do Congresso de Malines de 1909 e com os escritos “A Piedade da Igreja” e a revista “Les Questions Liturgiques et Paroissiales”; Odo Casel do mosteiro Maria Laach, na Alemanha; Pius Parsch, em Klosterneuburg (Áustria); José António Jungmann, com os estudos sobre a história da Missa; Romano Guardini, com as reflexões sobre “O Espírito da Liturgia”; Mario Righetti, com a “História da Liturgia”; a “Rivista Liturgica italiana”, fundada em 1914; e centros como os grandes mosteiros de Solesmes, Maria Laach, Mont-César, Beuron, Maredsous, o Instituto Litúrgico de Paris, de Trier (Alemanha) e o Instituto de Santo Anselmo, em Roma… 
Foram também decisivas as estimulantes intervenções de Papas do século XX. Entre estes, sobressai Pio X, que, em 1903, pelo Motu Proprio “Tra le sollecitudine”, provocou a purificação do canto e da música na liturgia e deu a orientação de que “os fiéis devem encontrar o verdadeiro espírito cristão na sua fonte primeira e indispensável, a participação ativa nos sacrossantos mistérios e na oração pública e solene da Igreja”. Pio XII escreveu as encíclicas “Mystici Corporis” (1943), sobre a Igreja, e a “Mediator Dei” (1947), sobre a Liturgia, a magna carta da Liturgia até ao Concílio, que inspirou, em grande parte, a SC. Em 1948, nomeou uma comissão para a reforma da Liturgia; em 1951, reformou a Vigília Pascal; em 1955, a Semana Santa; em 1955, simplificou rubricas e textos da Liturgia das Horas; em 1956, introduziu a missa vespertina; e, em 1955 e 1958, publicou duas instruções sobre a música sagrada. E João XXIII já antes de anunciar e convocar o Concílio, em 1959, dera mostras dum espírito pastoral e litúrgico, sobretudo com as suas visitas às paróquias e a celebração das estações quaresmais
Em Portugal, a Liturgia mereceu especial atenção nos Congressos Litúrgicos de Vila Real (17 a 19 de junho de 1926), Braga (1928), Lisboa (1932) e Porto/Santo Tirso (1932). Entre os grandes animadores nacionais, destacam-se Dom António Coelho (Mosteiro de Singeverga) e Monsenhor Pereira dos Reis (Seminário dos Olivais), com as revistas “Opus Dei”, “Mensageiro de São Bento”, “Ora et Labora” e Novellae Olivarum”. E, desde 1927, Monsenhor Freitas Barros deixou grandes sinais desta renovação nas edições da tradução portuguesa do Missal. Ademais, durante os trabalhos conciliares, foi constituída a Comissão Episcopal da Liturgia que, através do seu Secretariado, garantiu a tradução e edição dos novos livros litúrgicos. E daqui nasceram os Encontros Nacionais de Pastoral Litúrgica que ainda hoje se realizam anualmente em Fátima. 
Todas as pessoas, entidades e ações, que deram corpo ao Movimento Litúrgico através de estudos históricos e teológicos, esforços de divulgação entre o clero e o povo, reformas parciais dos cânticos e das celebrações e com tentativas também de introdução das línguas vernáculas (por parte de Pio XII), foram preparando as mentes e os materiais para o que viria ser a obra magna do Concílio, a reforma litúrgica, o fenómeno conciliar que mais deu nas vistas. 
Contudo, este movimento não foi pacífico. Não faltaram, ao invés, no interior da Igreja, discussões, ataques, bispos céticos e com muitas reservas a todo este desenvolvimento. Não obstante, as reformas de Pio XII contribuíram para uma nova Teologia Litúrgica e, se o Vaticano II configurou uma Teologia da Liturgia foi graças às bases das reformas lentas e amadurecidas que o movimento litúrgico suscitou. No crescendo da reforma litúrgica toda a Igreja se abria à inestimável riqueza do mistério pascal, centro da vida da Igreja e do cristão.
Ficou célebre o I Congresso Internacional de Pastoral litúrgica de Assis pelas palavras de Pio XII, no Discurso final, na sala das Bênçãos do Vaticano, a 23 de setembro de 1956:
O Movimento Litúrgico apareceu como um sinal das providenciais disposições divinas no nosso tempo, como uma passagem do Espírito Santo na sua Igreja para aproximar ainda mais os homens aos mistérios da fé e às riquezas da graça, que provêm pela participação ativa dos fiéis na vida litúrgica.
E J. A. Jungmann, SJ sustentava que “a chave da história da liturgia é a pastoral”.
Quando João XXIII anunciou a convocação do Concílio provavelmente não estaria no seu pensamento o tema litúrgico. Contudo, entre as 9.384 propostas dos primeiros inquéritos, 1.855 delas (cerca de 20%) referiam-se à liturgia. E estas numerosas respostas, provindas da Secretaria-Geral, via comissão antepreparatória, foram lidas como sinal de interesse pelos temas litúrgicos, presente nos futuros Padres conciliares. E o próprio Papa Roncalli, no Motu proprio Rubricarum Instructum, de 25 de julho de 1960, dizia:
Depois de ter examinado por muito tempo o assunto, decidimos que no Concílio Ecuménico se devem propor os grandes princípios ‘altiora principia’ para a reforma litúrgica geral.
E a Sacrosanctum Concilium surge a 4 de dezembro de 1963, precisamente 400 anos depois da conclusão do Concílio de Trento (4 de dezembro de 1563). Pela primeira vez, um Concílio Ecuménico tratou expressamente e em regime de sinodalidade o tema litúrgico em geral. E a reforma litúrgica enquadra-se na finalidade geral do Concílio:
Fomentar a vida cristã entre os fiéis, adaptar melhor às necessidades do nosso tempo as instituições suscetíveis de mudança, promover tudo o que pode ajudar à união de todos os crentes em Cristo e fortalecer o que pode contribuir para chamar a todos ao seio da Igreja”.
Assim, os seus grandes princípios são: o incremento da vida cristã; a adaptação das instituições eclesiais ao nosso tempo; o fomento da união dos cristãos (ecumenismo); a proposta a todos os homens do convite a entrar na Igreja (missão); e a realização da nobre simplicidade e clareza na brevidade dos ritos. Ademais, ficou vincado que o sujeito da ação litúrgica é o povo de Deus, valorizaram-se as Igrejas locais e procedeu-se à recentração da Palavra de Deus na liturgia.
Como reforma eclesial penetrante no âmago da vida cristã, a reforma litúrgica suscitou incompreensões e levou a situações abusivas, mas, no geral, foi bem acolhida na Igreja de Rito Romano. Não obstante, após os primeiros anos, surgiu uma fase de crise, perda de entusiasmo e até desencanto por não se obterem rapidamente os resultados esperados em relação aos esforços iniciais. Esperava-se da reforma uma “utilidade” pastoral, que não lhe era própria. De facto, a liturgia não é um instrumento de pastoral, mas ação pastoral própria da Igreja no seu núcleo e na sua fonte, ou seja, “o lugar de encontro santificante dos homens e glorificante do Pai mediante Jesus Cristo no Espírito Santo” (refere Dom José Manuel Cordeiro). Por outro lado, a renovação litúrgica não é movimento isolado; interage com os movimentos bíblico e ecuménico, o ardor missionário e a investigação teológica pré e pós-conciliar; e aparece como padrão e condição para se pôr em prática o ensinamento conciliar. E, no Sínodo extraordinário dos Bispos (1985) para o balanço dos 20 anos do Concílio, os Padres sinodais afirmaram claramente:
A renovação litúrgica é o fruto mais visível de toda a obra conciliar. Ainda que tenha havido algumas dificuldades, em geral ela foi acolhida pelos fiéis com alegria e com fruto.
Esta renovação não pode confinar-se às cerimónias, ritos ou textos, mas deve levar à desejada participação ativa e consciente, incrementada pelo Concílio. De facto, a mensagem conciliar foi percebida por muitos através da reforma litúrgica. Não obstante, Bento XVI recordou:
A Liturgia da Igreja vai além da própria ‘reforma conciliar’, cuja finalidade não era principalmente mudar os ritos e os textos, mas sim renovar a mentalidade e colocar no centro da vida cristã e da pastoral a celebração do Mistério Pascal de Cristo. Infelizmente, talvez, também da nossa parte, Pastores e peritos, a Liturgia foi acolhida mais como um objeto para reformar do que como um sujeito capaz de renovar a vida cristã.
Na verdade, a renovação da Liturgia e a renovação da vida da Igreja estão intimamente relacionadas, pois, como se reza, crê-se; e como se crê, age-se.
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Nas origens da Liturgia da Igreja
Desde o início os discípulos de Cristo, os cristãos (At 11,26), reuniam-se para a oração. Era a ecclesia (assembleia, igreja). E eram elementos fundamentais da ecclesia o ensino dos Apóstolos, a fração do pão (Eucaristia), as orações, o sentido da comunhão fraterna (At 2,42.46). De facto, os crentes reúnem-se para a celebração dos mistérios da fé, ou seja, para a oração, que é de todos e de cada um. É a assembleia da oração ou a Igreja em oração. Não havia um plano litúrgico, oficial, distante dos fiéis e acessível quase só aos que seriam de futuro designados por clérigos, e um plano paralelo, destinado aos que viriam a ser ditos os leigos. Havia, sim, a oração da Assembleia cristã, presidida pelos Apóstolos e, de futuro, pelos seus sucessores e cooperadores.
Obviamente, os cristãos oravam também individualmente, porque bem entendiam que é preciso orar sem interrupção, como se lê na 1.ª carta de Paulo e dirigida a uma comunidade cristã (ITs 5,17). Porém, a oração da assembleia em que participavam era verdadeiramente oração de cada um. Era então verdade, mais do que viria a ser no futuro, que a Liturgia constituía a oração da Igreja, da assembleia dos cristãos reunidos em oração para ouvir a Palavra, para as orações e/ou para a Ceia do Senhor (I Cor 11,20). E a unidade de vida, ‘um só coração e uma só alma’ (At 4,32) nascia da união na assembleia celebrante e nela se manifestava. Mas o tempo e os lugares criaram perspetivas e linhas novas.
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Evolução subsequente
A Liturgia surgiu com a Igreja, em Jerusalém e a partir de muitos elementos à Sinagoga do povo de Deus do Antigo Testamento. Porém à medida que a pregação atingia outros lugares (e sucedeu muito cedo) a Liturgia das várias comunidades foi-se diversificando, sem fragmentação, o que prova que a Liturgia era a expressão viva da oração de cada uma das Igrejas. E impressiona a unidade litúrgica fundamental em Igrejas tão diferentes e distantes entre si, do rio Eufrates à costa atlântica, da África do Norte ao Norte da Europa. É a unidade no mistério celebrado e nos ritos fundamentais aliada à diversidade na organização desses ritos. Porém, os tempos foram passando, bem como as pessoas e as circunstâncias das próprias comunidades. Assim, no fim do século V, a sociedade do antigo império romano é maioritariamente cristã. A vida litúrgica não oferece novidade e é tida como herança legada de geração em geração. Cessa o catecumenado, porque os sacramentos de iniciação são ministrados, a maior parte das vezes, a crianças; o regime da Penitência afasta da Eucaristia os cristãos; as invasões bárbaras modificam a face e o modo de vida da terra europeia; e o latim, mantido na Liturgia, deixa de ser entendido pelo povo a partir dos séculos VIII-IX. É certamente esta última a causa maior do distanciamento popular da Oração da Igreja. A Oração litúrgica dá lugar à oração individual e a orações populares; e torna-se cada vez mais a oração dos clérigos, que tomaram à sua conta a participação direta e ativa na celebração litúrgica, mercê do seu conhecimento do latim e da especial consagração ao serviço de Deus. O povo passa a espectador. A assembleia celebrante cede o passo à assembleia assistente. O modo de participar é ouvir e ver. Era, assim dado relevo à elevação da hóstia e do cálice na missa para que fossem vistos e adorados, bem como à exposição do Santíssimo Sacramento e às genuflexões e vénias do celebrante em plena oração eucarística. Ver a hóstia foi a grande devoção do século XIII. E quase se não comungava. Foi necessário determinar o preceito da comunhão anual, pela Páscoa (1215). Mas, paralelamente ao abandono da participação do povo na Liturgia, surge forte movimento espiritual que gera toda a plêiade das Ordens Mendicantes e influencia, de modo decisivo, a piedade popular, apoiada na sensibilidade e no subjetivismo em detrimento da linguagem bíblica (exceto nos Evangelhos da Infância e nas narrativas da Paixão), diretamente inspiradora da oração litúrgica. O povo cristão rezava muito, à margem da Liturgia ou até durante ela sobrepondo-se-lhe, porque a Liturgia não era oração para ele. Surgiu, assim, uma infinidade de fórmulas (algumas vieram até ao nosso tempo) que fiéis e até os ministros, incluindo o presidente, intercalavam nos textos da celebração. No atinente à compreensão da celebração litúrgica é de observar como se explicava a Missa e se rezava durante ela. Desde os alvores do segundo milénio se via a Missa como encenação da Paixão. Palavras, objetos e ritos foram interpretados como momentos evocativos dos diversos passos da Paixão (eclipsaram-se as vertentes de banquete, reunião e comunhão) – explicações que vieram até aos nossos dias. Perdera-se a significação mais profunda da sacramentalidade. Quase tudo era jogo cénico, evocação psicológica, subjetivismo sentimental. Não obstante, a vida de fé servia, muitas vezes, de suporte firme a tais expressões. E, coevas do renascimento clássico e pagão, nos séculos XV a XVII, avultaram extraordinárias figuras de santidade. O Espírito, que não se apaga, agia na Liturgia, mesmo se a sua ação não era muito percetível nos sinais litúrgicos.
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O Concílio Tridentino
O século XVI foi doloroso para a Igreja. Não era apenas a Liturgia que não ia bem. No entanto, muitos não se limitaram a contestar a Igreja no sítio donde ela o pode ser de modo autêntico e eficaz, ou seja, de dentro de si mesma. A par dos movimentos de contestação à Igreja Católica, de que resultou o aprofundamento e a extensão da divisão entre cristãos, o Concílio reunido em Trento (1545-1563) intentou a reforma interna da Igreja. Também a área da Liturgia precisava de ser reformada, como prova o elenco de abusos conexos com a celebração da Eucaristia apresentado ao Concílio. E, se o Concílio não se ocupou diretamente da Liturgia, as definições dogmáticas sobre vários pontos da fé trouxeram implicações litúrgicas. A obviar aos abusos que desfiguravam a sua verdadeira face, o Concílio propôs-se reencontrar a Tradição da Liturgia, reconduzindo-a à norma dos Santos Padres; e, com os elementos então disponíveis sobre a história da Liturgia dos primeiros séculos, passou-se à revisão dos livros litúrgicos, não se tendo ido muito além da reforma dos livros, que foram sendo sucessivamente publicados ao longo dos 50 anos seguintes. A sua publicação foi largamente facilitada pela descoberta da imprensa. Os livros litúrgicos do século XVI eram fundamentalmente livros dos ministros da Liturgia e quase exclusivamente do presidente, que dava pela designação de celebrante. Da assembleia quase se não falava. Os livros purificaram-se e reorganizaram a celebração com base em critérios de simplificação e clareza, mas uniformizaram e fixaram a Liturgia num imobilismo que nunca antes tinha sido atingido. Começava a era do rubricismo. Quase toda a atividade litúrgica dos séculos subsequentes a Trento se reduziu a comentários jurídicos e rubricistas aos livros litúrgicos e aos Decretos da Sagrada Congregação do Ritos, criada a seguir ao Concílio (1587) para acompanhar a execução da reforma litúrgica. Esta situação percorreu os 4 séculos – justamente 4 séculos (4 de Dezembro de 1563 a 4 de Dezembro de 1963) que medeiam entre os concílios de Trento e do Vaticano II. Caberia a este realizar o que o primeiro desejou, mas não conseguiu.
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O movimento litúrgico em torno da construção duma Teologia Litúrgica
No final do século XIX, a Liturgia voltou a ser objeto de atenção, mas em perspetivas que passaram a ser o que hoje se chamaria de pastorais. Começou o movimento em aliança com a restauração da ordem beneditina, em França, sob o impulso de Dom Guéranger, restaurador do mosteiro de Solesmes (1837). O movimento, que era, a princípio, monástico e bastante virado ao passado, voltou-se para o mundo dos leigos. Tomou corpo sobretudo na Bélgica, onde, em 1909, se proclamou como movimento litúrgico, graças ao dinamismo de Dom Lambert Beauduin (1873-1960), outrora capelão de mineiros e agora monge beneditino do mosteiro de Mont-César (1899), em Louvaina. O objetivo do movimento era trazer o povo à participação ativa no mistério e na celebração da Liturgia. O movimento ganhou sólidos alicerces na palavra enérgica de Pio X (1904-1914), que, três meses após a sua eleição, no seu primeiro grande documento pontifical, o célebre Motu proprio Tra le sollecitudine”, sobre a música sacra, de 22 de Novembro de 1903, apresentava a participação dos fiéis nos mistérios da Liturgia como a fonte primária e indispensável do espírito, palavra que o Vaticano II fez sua e introduziu na Constituição sobre a Sagrada Liturgia (SC 14). O movimento cresceu, mas foi a partir da I Grande Guerra (1914-1918) e mais ainda durante e depois da II (1939-1945) que se foi sentindo cada vez mais a necessidade de os fiéis participarem diretamente na Liturgia, de modo que ela fosse, em princípio e de facto, a sua oração como membros que são da Igreja orante. 
Foi-se ultrapassando a oposição, a princípio dolorosa, entre oração pessoal e oração litúrgica, entre oração individual e oração comunitária. E, ao mesmo tempo, ia-se desvendando o mistério da própria Igreja. Pio XII (1938-1958), que não era, por formação, homem da liturgia, mas era, por situação eclesial, o Papa, lançou as raízes doutrinais das futuras grandes reformas. As encíclicas “Mystici Corporis”, sobre a Igreja, Corpo místico de Cristo (1942), e “Mediator Dei”, sobre a Liturgia (1947) foram importantes marcos na pré-história da reforma litúrgica, que ele próprio iria em breve encetar. Foi efetivamente Pio XII que iniciou a reforma da Liturgia. Desse esforço resultaram, por exemplo: a admissão da língua vernácula (Rituais bilingues e Missal bilingue); a reforma da Vigília pascal (1951), seguida da de toda a Semana Santa (1955); a simplificação do jejum eucarístico, as missas vespertinas (quotidianas); a nova tradução do Saltério admitida na Liturgia; a reforma o breviário; a limitação da exposição eucarística durante a Missa, para distinguir a celebração do simples ato de oração; a celebração versus populum; a centralidade do altar; a encíclica Musicae sacrae (1955); o I Congresso Internacional de Liturgia (1956), que tanto impacto deu que o próprio Pontífice quis encerrar; e, a poucos dias da morte, como seu testamento espiritual, seria ainda dada, já no leito onde morreu, a Instrução “De Música Sacra et de Sacra Liturgia” (1958). Será justo dizer que foi a reforma litúrgica, iniciada por Pio XII, que forneceu maturidade e solidez ao esquema proposto aos Padres conciliares, o único que não foi substituído por outro e que, depois veio a ser aprovado, embora com muitas correções.
E João XXIII mandou publicar o novo “Codex Rubricarum”, que simplificava muito certas normas da celebração e deixava prever a iminência, a breve trecho, da reforma global. Foi pela Liturgia que se iniciou o Concílio Vaticano II, que o Papa João havia de inaugurar no dia 11 de outubro de 1962 e cujo primeiro fruto foi precisamente a Constituição sobre a Sagrada Liturgia, que mereceu o placet de 2147 Padres Conciliares.
Mas não se pode olvidar que, a pari, se desenvolveu, na Aula Conciliar, embora sob a proeminência da vertente pastoral, um corpo de doutrina, que por um lado, implicou a SC (daí as emendas e melhorias no documento) e, por outro, dela recebeu influência, sobretudo em relação ao acento cristológico e ao acento eclesiológico, fundados ambos na Constituição “Dei Verbum Dei”, sobre a Divina Revelação. A Teologia abriu-se à Liturgia e a Liturgia tornou-se Teologia.    
Cf Bernardino Costa, O Movimento litúrgico e a redescoberta da qualidade teológica da liturgia, UCP-Porto, in Didaskalia xl (2010)2, pgs. 135-156; Jackson Erpen, Mensagem de Pio XII antes da Sacrosanctum Concilium, in Vatican News, 11 de julho de 2018;José Aldazábal, Dicionário elementar de liturgia, Ed. Paulinas, 2008; José Ferreira, A Liturgia antes do Vaticano II, http://www.liturgia.pt/anodafe/A_Liturgia_antes_do_Concilio_Vaticano_II.pdf; D. José Manuel Cordeiro, bispo de Bragança-Miranda, Do Movimento Litúrgico à Reforma Litúrgica, in Ecclesia, 2011.
2018.07.13 – Louro de Carvalho