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segunda-feira, 20 de abril de 2020

Não podemos esquecer-nos de que também somos natureza


É a advertência que se infere das palavras do Cardeal Patriarca de Lisboa em entrevista à Ecclesia no passado dia 19 de abril, em que, falando nas novas possibilidades e desafios despertados pela covid-19, alerta para as “más visões de Deus” por causa do novo coronavírus.
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Confrontado com o provérbio “Deus perdoa sempre, os homens às vezes, a natureza nunca”, citado pelo Papa Francisco em entrevista recente, em que se referiu às causas desta pandemia, Dom Manel Clemente vinca o facto de nós sermos “natureza personalizada” em cada ser humano, pelo que não nos podemos excluir da natureza. Com efeito, “cada um de nós é aquilo que consome, aquilo que respira”. Só que, “em nós, a natureza tem a qualidade de consciência e de responsabilidade que não tem em relação a outros seres e, por isso, mais nos responsabiliza”. Ora, se esquecemos esta conexão fundamental, “as coisas não andam bem e podem ser muito perigosas”. E, convindo que isto não sucede só nesta pandemia, desenvolve:
Como se tem visto ao longo da história da Humanidade, há fenómenos e até catástrofes que não são da nossa responsabilidade humana, mas outros são. E tudo o que a crise ecológica manifesta, [para o] que o Papa nos tem alertado tanto, é sinal de que há muita coisa de errado na nossa relação com a restante natureza.”.
Depois, estabelece o confronto entre a presente pandemia e outras, observando:
A pandemia é uma epidemia generalizada que toca o planeta no seu conjunto. Mas em termos de epidemias, não precisamos de ir lá muito para trás, para a gripe espanhola do princípio do século passado, ou outras. Elas têm existido, mas nós, na Europa, às vezes, não damos muito conta disso: o que tem acontecido com o ébola e outras epidemias em África e noutras partes do mundo? Elas existem! Agora tocam-nos de perto e são tão generalizadas, porque hoje a mobilidade – a que existia até começarem estas medidas de confinamento – é de tal ordem que tudo circula muito mais rapidamente. (…) Mas epidemias e contrastes com a natureza não são só de agora.”.
Admite que seja um teste à globalização e, sendo esta um bem, por nos tornar mais próximos, o purpurado anota que postula cuidados redobrados. Se não se entra no avião como há 20 anos, também tem de haver cuidado no atinente “à preservação da saúde e da não contaminação”.
Quanto à tentação de atribuir a pandemia a um castigo de Deus, aponta que é “um discurso muito velho, muito mais do que 2000 anos”. E explica o seu sentido antropológico:
Desde que os nossos antepassados começaram a fazer desenhos nas grutas pré-históricas ou riscos nas pedras, já exprimiam um certo receio sobre o que a divindade pudesse fazer ou não fazer e, por isso, era importante estar bem com essa divindade. (…) É um sentimento natural, espontâneo, face a qualquer coisa que nos limita e nos atemoriza: procurar apoio e tentar que não haja nenhuma reprimenda forte da parte dessa entidade mais ou menos suposta, imaginária ou real.”.
Assegura que “nós é que nos castigamos a nós próprios”. Na verdade, como refere, “toda a Bíblia nos diz que Deus cria um mundo bom, mas tudo aquilo que nos implica nem sempre corre da mesma maneira e pode transtornar não só a nossa relação com Deus, mas com a criação no seu conjunto”. E sintetiza a visão dos cristãos nesta matéria afastando as más visões de Deus:
Somos cristãos e olhamos para Deus como Jesus nos ensinou a olhar: com tudo o mais que ele herdou e que nele se completa. Quando olhamos para Deus com os olhos de Jesus, olhamos como um Pai, que, mesmo na cruz do mundo, não deixa de nos acolher e até de nos ressuscitar. (…) Nós olhamos para o mundo e olhamos para Deus com os olhos de Jesus Cristo: filiais em relação a Deus e fraternais em relação aos outros.”.
Quanto à Participação de Deus na resolução do problema, Dom Manuel sublinha “a que em Jesus Cristo se manifesta”: não a de “um Deus que está por fora para premiar ou castigar”, mas “que, em Jesus Cristo, assume o que nós somos, a nossa natureza humana e a reconstrói por dentro”, o que implica aceitar a vida “de que a cruz e a morte fazem parte”, ou seja, “aceitá-las como Jesus as assumiu fazendo de tudo isso mais vida”.
Indica o treino que se está a fazer no âmbito duma pastoral “monástico-internética” por força da pandemia, precisando os termos daquela palavra composta a começar pela atitude monástica: 
Monástica é uma atitude que existe desde sempre no cristianismo, e não só no cristianismo, que nos retém a nós próprios no mais fundo de nós próprios para encontrar aí outra profundidade e outro lastro para viver. (…) O próprio Jesus tem momentos monásticos (…): quando se retira, para o deserto (…); nas várias ocasiões em que os discípulos andam à procura dele e o encontram retirado. Jesus resolve as coisas absolutamente por dentro, na sua relação com o Pai. E estas circunstâncias de confinamento (…) desenvolvem essa tal atitude monástica: de aprofundamento das motivações, de afervoramento da oração, da relação com Deus, por nós, pelos outros.”.
A seguir, fala da atitude digital com a utilização da internet e de todos os recursos que os media hoje oferecem para estarmos com as pessoas, o que tem sido vincado “nas mensagens para os dias mundiais de comunicação dos sucessivos Papas”. E diz estarem a desenvolver-se realidades que ficarão, “mesmo quando pudermos voltar à nossa pastoral normal”. 
Admitindo que as experiências têm surgido muito segmentadas, como tudo no início, vinca:
Os párocos nas suas paróquias, não podem estar diretamente com os seus paroquianos, mas têm preocupação por eles: as coisas têm de continuar a andar, a Palavra de Deus tem de continuar a ser anunciada, os ritos sacramentais continuar a ser celebrados, embora não com o povo, (…) o acompanhamento das pessoas em tudo o que é sócio-caritativo, quer sejam instituições ligadas à Igreja ou instituições onde os católicos estejam, públicas e privadas, nos sistemas de saúde e tudo o mais.”.
Em relação a uma pretensa centralidade comunicacional da Igreja a nível nacional, opõe que a Igreja não é nacional, ao invés do que sucede com algumas das outras confissões cristãs. Refere que “o Papa tem estado constantemente presente nos media pela força com que se manifesta celebrando sozinho, mas para uma multidão”. E repara que os bispos, à frente das igrejas locais, “têm estado presentes nessas redes, quer nas suas dioceses, quer quando são entrevistados pelos media nacionais e até outros”. Mas, sem confinar a presença católica à presença do Santo Padre ou à de cada bispo na sua diocese, destaca “a presença constante dos católicos nos vários domínios da sociedade, quer pessoalmente, porque estão presentes em todo o lado, quer da parte dos ministros ordenados que, em cada comunidade cristã, os estimulam, os impulsionam e acompanham e levam as coisas por diante”.
Não esquece o que passa no mundo da família, que, neste confinamento, se descobre como Igreja doméstica, o que imprime densidade à vivência familiar, que permanecerá no futuro.
Interpelado onde está o centro da Igreja quando emergem tantas formas de participação, diz que “o centro é policêntrico: está em cada cristão, em cada cristã onde o Evangelho se pratique”, mas que há posições-chave na Igreja “para articular, organizar, para que nada se disperse, se conjugue e seja espiritualmente alimentado”. Assim, a maior parte dos “bispos, sacerdotes, diáconos, estão com uma contenção enorme do que gostariam de fazer na linha do que têm feito, no sentido de estar com as pessoas” e só não o fazem para dar o exemplo de contenção.
Em relação ao pós-pandemia, fala da “nova normalidade” porque algumas medidas de proteção terão de permanecer. Porém, enunciando a doutrina, alimenta a esperança:
Nós acreditamos na encarnação: Deus encarna na pessoa de Jesus, hoje ressuscitada, que está presente no meio de nós com muitos sinais e sobretudo com sinais sacramentais. Mas os sinais sacramentais são coisas que se veem e com pessoas que ali estão. Portanto, tudo isso voltará.”.
Pensa que a forma de pertença digital permanecerá em sistema de complementaridade, pois “há muita população que não pode sair de casa, que habitualmente já não participa”.
Tendo a suspensão da celebração comunitária das Missas causado discordância também da parte de bispos e teólogos, o entrevistador pergunta pelas consequências na Igreja e no atual pontificado, ao que Manuel Clemente responde:  
Tudo isto tem um resultado muito positivo no aprofundamento daquelas dimensões monástico-mediáticas de que falava. Aprofundou o porquê da Igreja no seu sentido mais íntimo e encontrou novas maneiras de manter esta convivência que a Igreja também é e continuará a ser.”.
Não receia que este modo de participação excecional se transforme em ordinário, apontando para a experiência humana, que mantém a correspondência tradicional e a atual, nada nos dispensando de nos encontrarmos, pois a relação, “quando é verdadeira, quer mais, quer ver”.
Questionado se, nestas circunstâncias, a boa intenção da pessoa basta para a reconciliação com Deus, para a participação na comunhão, sustenta que “temos de ver as coisas do lado de Deus” e que Ele vê os corações e sabe o que há no coração de cada um”. E chama a atenção para o exemplo de Jesus: “não perdoava em geral, mas tinha encontros de reconciliação”. Assim, “não podemos refluir, para a subjetividade de cada um, estas coisas que Deus quer connosco como manteve em Jesus Cristo em termos de relação verdadeira”, sendo possível.
À sugestão de que a reconciliação é sempre possível, conta: 
Os cristãos antigos, quando, para aderir ao cristianismo era preciso quase uma rutura com os usos e costumes, faziam aquelas longas preparações e os catecumenatos prolongados, muitos deles morriam antes de serem batizados, porque havia uma perseguição. Em qualquer imprevisto falava-se de batismo de desejo, como agora se fala de comunhão espiritual.”.
Recorda que, nestes 2000 anos, já cristandades estiveram privadas da vida sacramental habitual durante séculos. No Japão, entre meados do século XVII e meados do século XIX, os ‘cristãos ocultos’, sem qualquer sacerdote, “batizavam os filhos, transmitiam a doutrina e sobreviveram 200 anos, tal como na Coreia ou Vietname, onde aparecia um sacerdote, que ia das Filipinas, e, se era bispo fazia, ordenava novos sacerdotes se era bispo, ou como nas guerras civis africanas. E conclui que o confinamento não é inédito na vida da Igreja”. E as cristandades prevaleceram.
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Por fim, pronuncia-se sobre as consequências sociais da pandemia, começando por dizer:
Tudo aquilo que pode e deve ser feito, por quem gere o bem comum, quer a nível do nosso país quer a nível da Europa, tem mesmo de ser feito. (…) Ou fazemos um apoio forte a estas economias que estão tão abaladas ou não há Europa que chegue nem que sobre.”.
Depois, vem a responsabilidade e a cidadania, devendo o mundo empresarial manter os postos de trabalho, recorrendo ao layoff ou a outras alternativas, mantendo a base humana que garanta a empresa. Regista que essa preocupação existe. Defende que iniciativas deste género, quer por parte de entidades públicas nacionais ou europeias, quer por parte de entidades privadas e do setor social, são fundamentais. E sustenta que tem sido belo e importante verificar que essa preocupação existe. Com efeito, “a subsistência das famílias é um problema grande”.
Porém, como a pandemia atinge a saúde física das pessoas, mas também a mental e económica, é de considerar que o confinamento das pessoas, que não têm “vocação monástica”, requer “uma  adaptação mental de grande agilidade” e, depois, “o sustento, a vida, o mundo das escolas, das empresas”. Aí, há muitas organizações que dependem da Igreja Católica e atitudes pessoais concretas, tomando-se decisões “com risco e com responsabilidade e apelando à responsabilidade de outras pessoas que estão nessas comunidades”.
Mais disse que, no Patriarcado, há toda a preocupação no sentido de os postos de trabalho não serem extintos em organizações que dependem da Igreja Católica e também no da subsistência dessas organizações. Concorda com a asserção do Bispo de Santarém e presidente da Comissão Episcopal da Pastoral social de que “chegou o momento de ir às reservas e partilhá-las” e assegura que “há muita gente a ir às reservas”, lembrando o que tiveram de fazer as Cáritas diocesanas como a Cáritas Portuguesas, a que o confinamento subtraiu receitas significativas, mas emergindo uma nova solidariedade de base, que deve “ser devidamente canalizada para chegar às necessidades concretas, definidas e com a melhor resposta”.
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No fim do mandato de presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), recorda que, não podendo ser antes, a assembleia plenária, que agora também é eletiva, está marcada para junho, pois os titulares dos órgãos da CEP terminariam os mandatos em abril e é preciso que se façam as eleições para estes órgãos, que apoiam as dioceses, para garantia do trabalho no futuro.
Dá como “muito positiva” a sua presidência (terminou o anterior mandato e cumpriu dois inteiros), pelo que a CEP deve ser: “uma possibilidade de os vários bispos diocesanos de um determinado país se encontrarem, aprofundarem temáticas dos diversos campos da pastoral, da relação com a sociedade”, o que se faz com encontro, “estreitamento de laços” e orientações que ajudam muito “a seguir em cada uma das dioceses”. E refere coisas que têm de ser tratadas conjuntamente:
O que diz respeito à liturgia, à catequese, ao campo social, da cultura, ecumenismo. São grandes linhas que tratamos em comum e depois continuamos, cada um na sua diocese, dentro da base comum de debate, perspetivação e fazendo alguns documentos que partilhamos com os cristãos e a sociedade numa ligação constante com o centro da Igreja Católica, os vários serviços que a Igreja mantém em Roma.”.
Sobre a possível maior autonomia das Conferências Episcopais preconizada pelo Papa Francisco, dando-lhes não só a possibilidade de consulta, mas também de governo, revela que já vai acontecendo, relevando a importância de se manter “esta ligação do que se faz entre as dioceses de um país e o que se faz entre as dioceses de todo o mundo à volta do centro romano”. Em vez da sugerida criação de instâncias intermédias, opta pela “instância conjunta” e justifica:
Temos a referência evangélica e da tradição da Igreja, onde temos o grupo dos apóstolos e Pedro, onde vemos a sucessão episcopal e do bispo de Roma. Não há (…) nenhuma instância que se sobreponha ao que se passa nas dioceses e no conjunto das dioceses. Não é piramidal. É algo de concêntrico.”.
Tendo as conferências episcopais surgido em meados do século XX e após o Vaticano II como órgãos de convivência e cooperação dos episcopados num país ou numa região, crê que “essa referência evangélica ao que acontecia entre Pedro e demais apóstolos é suficiente para a vida da Igreja e não obstacula que, quer a nível da Igreja universal quer particular, o Evangelho progrida e as coisas se vão resolvendo, nesta cooperação que vamos cimentando e que é efetiva e afetiva”, pois, “se não for afetiva, também não é efetiva”.
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Que Dom Manuel tem razão em garantir que nós também somos natureza é secundado pela ecologia integral preconizada pelo Papa Francisco, segundo o qual o atentado contra a Casa Comum atinge os mais pobres e pela “lex orandi, lex credendi”, nos termos da qual o sacerdote (ou o diácono), ao misturar água com o vinho no cálice, diz: “Pelo mistério desta água e deste vinho, sejamos participantes da divindade d’Aquele que assumiu a nossa humanidade(algumas versões dizem: “natureza humana”). E a doutrina, falando da única pessoa de Cristo, diz, contra o monofisismo, que Ele tem duas naturezas: a humana e a divina. Por isso, não vale cuidar da natureza sem cuidar dos homens, cujo dom maior é a vida, com a dignidade que lhe é inerente.
2020.04.20 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Uma mulher à frente do Secretariado Nacional das Comunicações Sociais


É Isabel Figueiredo, que tem como primeira prioridade “conhecer a realidade”, como revelou ao portal da Santa Sé, e para quem “é uma lição diária ouvir e ver o Papa Francisco”.
Em entrevista ao VATICAN NEWS, a diretora do SNCS (Secretariado Nacional das Comunicações Sociais), órgão da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais, da CEP (Conferência Episcopal Portuguesa) sublinhou ter acolhido “com um sentimento de gratidão” a sua nomeação para diretora do Secretariado Nacional das Comunicações Sociais. Foi uma escolha dos bispos portugueses na assembleia plenária da CEP que terminou no passado dia 2 de maio, que nomearam, pela primeira vez, para estas funções uma mulher – escolha que recaiu na responsável pelos conteúdos religiosos das rádios do Grupo Renascença Multimédia onde trabalha desde 1990 e adjunta do presidente do Conselho de Gerência.
A novel diretora do SNCS, que mantém as demais funções e sucede no cargo Dom Américo Aguiar, Bispo Auxiliar de Lisboa, refere que um dos primeiros e-mails que recebeu depois de sair a nomeação recomendava que não se esquecesse das “periferias”, pelo que um dos seus primeiros trabalhos foi “visitar os secretariados diocesanos” para “os conhecer localmente”. E, reafirmando, neste contexto, o apelo de Francisco para a importância da linguagem e da comunicação digital onde a Igreja deve estar presente, deixa um alerta: “Não podemos perder nunca de vista o que é fundamental”, ou seja, a “comunhão local”.
Ao portal da Santa Sé, a também colaboradora regular da revista Mensageiro do Coração de Jesus e autora de várias obras (nomeadamente: “Vale a Pena Pensar nisto”, “Via Sacra com Maria”, “Advento para Crentes e Não Crentes” e “Linhas Tecidas com Tempo) realça ainda a importância dos pontificados de São João Paulo II, Bento XVI e Francisco para a valorização dos ‘media’ da Igreja. 
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Entretanto, a 24 de maio, Isabel Figueiredo deu uma entrevista à Renascença e à Ecclesia em que assegurou ter acabado “o tempo em que o trabalho de comunicação era feito em projetos isolados” e sublinhou a necessidade de prestar atenção ao público para quem se produzem os conteúdos. Dela se respigam alguns dados, em virtude da sua pertinência.         
A entrevista foi a propósito da sessão agendada para o dia 30 de maio, em Lisboa, em que foi apresentado o Dia Mundial das Comunicações Sociais que a Igreja Católica celebrou a 2 de junho, e em que foi entregue o prémio de jornalismo ‘Dom Manuel Falcão’.
E a questão de chofre incidiu sobre o facto de ser uma leiga e mulher a dirigir aquele organismo e sobre que mais-valia o caso traz à causa, replicando que não vê as coisas por esse prisma, pois, embora seja diferente o contributo de cada pessoa, não se pode pensar que os contributos de outros traga menos-valias. Por isso, é melhor esperar pelo que “o trabalho mostra”.
Quanto a expectativas para o desempenho do cargo, uma vez que se sente “orgulhosa, grata, tranquila”, entende que “as expectativas decorrem desta forma de estar”. E explica:
As expectativas que tenho são que possamos continuar o trabalho – por isso dizia que me sentia orgulhosa, porque vinha atrás de pessoas cujo trabalho e qualidade são reconhecidos por todos; quando digo que estou grata à Igreja, digo também que espero continuar a merecer essa mesma gratidão, fazer algo de diferente que mereça a confiança que é depositada; a tranquilidade, outra expressão que eu utilizei, também é engraçado misturá-la com isso – já tive oportunidade de dizer que tenho dias mais tranquilos e outros menos, à medida que o tempo passa. (…) Há alguns acontecimentos que já sabemos que aí vêm, que são claramente importantes. Vamos ver o que vai trazer.”.
No atinente a prioridades definidas ou a definir, atém-se à lição do pároco velhinho da paróquia onde cresceu, que ensinava ao grupo de jovens que, ao chegar-se a um novo cargo, “ durante um período de tempo não se deve fazer absolutamente nenhuma mudança, deve ficar-se quieto e observar, só depois é que se fazem as mudanças”. Assim, a sua postura atual “é observar o que se passa” para, depois, “conseguir trabalhar”.
Passando a aspetos substanciais da entrevista, pronunciou-se sobre a missão do SNCS de animar o setor na linha do Vaticano II equilibrando a prestação do dado religioso por meios próprios, a ajuda a que outros também o prestem e a abertura dos canais de comunicação da Igreja a temas mais abrangentes. E, em relação a esta matéria, vincou o “caminho feito pela Igreja Católica nos últimos anos”, sublinhou o facto de o Papa Francisco vir falando “quase todas as semanas para a Comunicação Social, de uma maneira ou de outra”, pensando que ele está a fazer o “trabalho de alargar horizontes”. Entende que temos de alargar cada vez mais os horizontes, mas num caminho “que tem de ser feito sem que pareça ser uma novidade, porque não é”. E ilustrou o seu pensamento com a diferença de atuação da Renascença e da Ecclesia em termos de trabalho de comunicação entre o que se faz hoje e o que se fazia dantes – um caminho que se percorre na dialética da continuidade e da inovação. Entretanto, identificou as redes sociais como “o desafio mais evidente”.
Questionada sobre como conseguirá essa relação com todos os meios de Comunicação Social equilibrando a tensão entre ter meios próprios e ajudar outros meios a comunicar o religioso, afirmou que essa questão “assenta num princípio que todos partilhamos, embora nem sempre o verbalizemos”, ou seja, em termos de comunicação de Igreja “temos de avançar sempre num caminho de comunhão”, pois “o tempo em que cada um fazia o seu trabalhinho de comunicação”, segundo a entrevistada, “pertence ao passado”. E, concedendo, adianta:
Foi rico, teve o seu caminho, fizeram-se as suas coisas, mas olhando para o presente e para o futuro, será sempre uma tentativa de alargarmos o trabalho e todos podermos estar uns com os outros. Julgo que conhecer os secretariados diocesanos, procurar fazer um trabalho a nível nacional, é precisamente com esse enfoque, é isso que a Igreja espera.”.
Estabelecendo que o agora dito “é uma prioridade”, passou à preocupação com a chamada comunicação institucional da Igreja Católica e aos alegados “problemas na forma como as dioceses reagem a determinadas notícias, como usam as redes sociais, como partilham informação nos seus sites, [sendo que] algumas nem sequer têm site…”. Disse que esta preocupação “decorre do momento que nós estamos a viver, que tem isto de bom e tem o lado menos bom”. E apontou:
O facto de, hoje em dia, termos praticamente uma comunicação instantânea – o efeito de um post no Facebook é replicado em muito pouco tempo, o efeito de uma notícia ou determinada abertura, sem se ler a notícia toda, ganha uma velocidade que escapa a toda a gente”.
Sabe que “é um problema de comunicação institucional”, que “a Igreja tem sempre de pensar o que é comunicar para dentro e o que é comunicar para fora, estar com outros órgãos de comunicação social”, não se podendo dizer que “está tudo feito nos dois campos”, mas “tem de se avançar”. Porém, afasta a preocupação com problemazinhos, porque “a vida se encarrega de nos mostrar que aquilo que hoje parece uma coisa, amanhã será outra”, devendo nós ter “a real consciência da dimensão das coisas, ir tateando e melhorando”.
No respeitante à formação e gestão mais profissional dos meios que a Igreja tem ao seu dispor, confessou sentimentos mistos: sabe que “já há profissionais a trabalhar em muitos” [meios de comunicação da Igreja], não tendo a situação atual “nada a ver com o que se vivia há 10 anos”; que “há trabalho profissional feito em muitos lados”, de modo que “não podemos dizer que estamos a trabalhar com amadores, em termos institucionais”; mas tem de se prestar grande “atenção a quem consome tudo aquilo que se faz”, pois, não se faz comunicação “só para comunicadores”, mas “para toda a gente”; e “é aí que as redes sociais dão uma dimensão enorme a tudo isto [de] que estamos a falar”. Isto, “para o bem e para o mal”. E vincou:
Portanto, quando se diz que a comunicação é feita para uma multidão de gente – que não fazemos a mais pequena ideia de como é que lê, quando é que vai ler, quando é que vai ver, como é que vai ouvir, se vai ouvir do princípio até ao fim – isto é que obriga os profissionais (…) a estarem permanentemente atentos a isto”.
Relativamente ao enquadramento empresarial dos Meios de Comunicação Social da Igreja, lembrou que já várias pessoas alertaram para a questão, inclusivamente Dom Américo Aguiar (anterior diretor do Secretariado das Comunicações Sociais), pois “estamos a viver um tempo especial e difícil (…) em termos de empresas de Comunicação”. E explicou recorrendo a uma das últimas palavras do Papa ao agradecer “o trabalho dos jornalistas e da Comunicação Social”, afirmando a importância da Comunicação Social numa sociedade livre, pois “nós precisamos de gente, de profissionais de Comunicação Social que saibam pôr o dedo nas feridas da sociedade atual”, inclusive nas feridas eclesiais, “porque sem esse trabalho nós não conseguimos, a sociedade não é verdadeiramente livre, nem é uma sociedade de comunhão a que todos aspiramos, e todos temos essa inquietação interior da comunhão”. E Francisco acrescentava:
Isto é tudo verdade, mas nós ao mesmo tempo precisamos de gente que seja completamente humilde no seu trabalho, e gente que seja completamente dedicada à verdade”.
Por isso, Isabel Figueiredo vê a dificuldade do que se passa em termos empresariais, mas sustenta a necessidade de toda a sociedade ter consciência de que precisa da Comunicação Social, avançando que a presença da Igreja nos media faz cada vez mais sentido. E alerta:
Não é um assunto que pense que se pode tornar menor, ou ao qual se pode dizer: vamos-lhe dar menos meios, vamos-lhe dar menos importância, porque há imensas notícias horríveis que correm, há imensas mentiras, há imensa coisa mal feita”.
Questionada sobre a presença da Igreja num espaço inter-religioso no âmbito do serviço público de rádio e televisão e sobre o contributo que nele vê para a informação na sociedade portuguesa sobre a dimensão religiosa e para a convivência e diálogo inter-religioso que marcam a nossa sociedade, respondeu com o orgulho que tem no trabalho da Ecclesia. E contou:
Ainda hoje me falavam de que no Brasil consultavam a Ecclesia diariamente, tinham o ecrã aberto e tinham a Ecclesia e o Vaticano, as notícias do Vaticano. E eu achei muito simpático, e claro que não tinham necessidade de dizer, portanto, se o disseram é porque é a pura das verdades.”.
Depois,  disse que um programa eclesial no serviço público de rádio e televisão acaba por ser mais abrangente e inter-religioso, com uma mais-valia nessa marca. E explanou:
A experiência da Ecclesia é a prova evidente disto. Sim, nós temos de caminhar para isso, caminhamos exatamente para isso. E eu acho que Portugal, aí também, dá muitas cartas, porque a nossa capacidade de estarmos ao lado das outras confissões religiosas e de fazermos um caminho é algo que tem muitos anos. Eu volto atrás, à história da minha pequena paróquia, onde eu cresci como adolescente, e há muitos, muitos anos já havia uma Missa que era celebrada em inglês e já tínhamos momentos de oração feita com outras comunidades religiosas.”.
Relativamente aos problemas dos media que preocupam as empresas, nomeadamente as ‘fake news’ e a tendência para o jornalismo-espetáculo ou o jornalismo de chicote, se isso se reflete no SNCS e como este organismo pode refletir e contribuir para enfrentar estas dificuldades, começou por defender o jornalismo da Rádio Renascença como “sinónimo de jornalismo de qualidade e de seriedade”, como atestam os muitos prémios recebidos pela estação. Quanto às ‘fake news’, disse que “vão continuar sempre”, pois “sempre existiram”, embora atualmente tenham um “impacto completamente fora do habitual porque elas se espalham com uma velocidade enorme e são incontroláveis”. E, em relação ao facto de o Papa as ter denunciado na sua mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais deste ano, comentou:
O Papa também dizia uma coisa muito interessante, dizia que nesta questão das ‘fake news’ e da comunicação de hoje em dia, já não é possível pôr a errata, que se punha antigamente nos livros: quando havia uma coisa que estava errada, punha-se uma errata e resolvia-se o problema. E hoje em dia já não é possível pôr erratas, portanto, as ‘fake news’ têm este problema muito real.”.
Em relação à predita sessão, aberta a todas as pessoas, no dia 30 de maio, pelas 17 horas, no auditório da Rádio Renascença, frisou o facto de o primeiro convite ser para os secretariados diocesanos de comunicação e o facto de se pôr a mensagem do Papa “a ser debatida por diversos olhares” e exemplificou: o olhar do diretor da Faculdade de Ciências Humanas (UCP), Nelson Ribeiro, antigo diretor da Renascença, e que ensina comunicação; o de uma antiga aluna da UCP, que neste momento trabalha numa televisão, essencialmente na questão das redes; e o de Nello Scavo, jornalista que tem escrito alguns livros, um dos quais sobre o Papa que se tornou mais conhecido, e agora este, que lançou em Portugal exatamente sobre as ‘fake news’ acerca do Papa, comentando também a mensagem papal. Depois, referiu que o tema da sessão ‘Esta é a rede que queremos’ inspirado nessa mensagem onde diz:
Nós queremos uma rede, mas não queremos a rede como dela se fala habitualmente, queremos uma rede que caminhe para a comunhão das pessoas, que cruze as pessoas de outra maneira”.
E explicou:
A imagem da rede é muito poderosa, porque a rede traz tudo com ela, o que entra dentro da rede, o que sai fora da rede, o que cai da rede, a rede cheia, a rede vazia, a rede que se lança, a rede que se recolhe. Portanto, esta é uma rede que toca claramente o coração das pessoas e eu acho que é por aí que nós podemos pegar na mensagem do Papa, olhar para ela de outra maneira e ir à procura do que é que ela tem a dizer a cada um dos profissionais de comunicação social.”.
Sobre o título da mensagem papal Das ‘Community’ às comunidades’, frisou que é “um desafio muito oportuno” e que o Papa dá exemplos concretos, enaltecendo o mérito da família que utiliza a rede para comunicar entre si, mas ao fim do dia se senta à volta da mesa e fala olhos nos olhos, e o da paróquia que usa a rede para comunicar o que faz e anunciar iniciativas, mas depois as pessoas, ao domingo estão na Missa todas juntas e fazem comunhão. Mas, se não é assim, segundo o Pontífice, “há aqui um sinal vermelho que tem de se abrir” e “as pessoas têm de pensar”. Obviamente, para Isabel Figueiredo, esta “é uma questão pertinente”.
E a nova diretora do SNCS acha que as redes sociais são muito relevantes antes e depois das JMJ (Jornadas Mundiais da Juventude) e um desafio a encarar e a aproveitar para a que se vai realizar em Portugal. Só esteve nas primeiras JMJ de Roma, mas afiança:
Nem nós, nem as pessoas que já estiveram em Jornadas Mundiais têm a consciência do que é o desafio de receber uma Jornada Mundial da Juventude, e de comunicar uma JMJ. Portanto, acho que é um enorme desafio, sendo que tenho sempre presente, a tocar cá na minha campainha que – e foi dito pelo senhor Cardeal-Patriarca – a JMJ é dos jovens, feita pelos jovens e para os jovens. E, portanto, nós temos de olhar, até para a comunicação, temos de olhar assim. Temos de saber o que é que eles querem ouvir, o que é que eles precisam de dizer, como é que eles entendem as coisas.”.
Por fim, fez referência ao prémio de jornalismo ‘Dom Manuel Falcão’. Concorreram os órgãos de comunicação social e o júri escolheu, na dúzia de trabalhos entrados, o trabalho que tem o título ‘É como se a Mãe descesse à terra’ – muito bom do ângulo da imagem (joga muito bem com a imagem, a fotografia, o texto e a música) – que nos situa “no universo da religiosidade popular” e com “a questão mariana”. É a grande reportagem da TVI, de Catarina Canelas, em cuja equipa trabalham João Franco, Tiago Donato, Rodrigo Cortegiano e João Pedro Ferreira. Também o prémio foi atribuído ao Diário do Minho em forma honorífica pelo seu centenário.
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Em suma, uma entrevista a reler por quem se preocupe com a Igreja e com a Comunicação.
2019.06.12 – Louro de Carvalho