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quinta-feira, 16 de julho de 2020

A versão preliminar do documento de Costa e Silva (uma síntese)


António Costa e Silva, gestor nomeado pelo Primeiro-Ministro para coordenar os trabalhos preparatórios do plano de relançamento da economia, apresentou ao Governo, no passado dia 9 de julho, a Visão Estratégica para o plano de recuperação económica e social de Portugal 2020-2030’, um documento de 119 páginas em que adverte para urgência de dar respostas, pois o que vem aí é pior que o esperado. Antecipa que a queda do PIB (produto interno bruto) pode, este ano, ascender aos 12%, contra as  previsões constantes do Orçamento Suplementar, que apontam para uma contração de 6,9%. E deixa claro que “não vale a pena ter ilusões”.
A justificar tão acentuada queda da economia, sustenta que o consumo pode registar, em 2020, uma queda de 11% e o investimento 26% e admite que a taxa de desemprego chegue aos 11,5%, pelo que preconiza um “pacto entre Estado e empresas”, em que o Estado não se limite a pôr dinheiro nas empresas, mas as leve a gestão eficiente, áreas e produtos de maior rentabilidade e manutenção de empregos. Alertando para a probabilidade de, a partir de setembro, a situação de muitas empresas se deteriorar significativamente assegura que “é fundamental existir no terreno um programa agressivo para evitar o colapso de empresas rentáveis”. E adverte que, mediando grande lapso de tempo entre a deterioração da economia no 2.º semestre de 2020 e a chegada da ajuda europeia, muitas empresas podem não se aguentar se não houver respostas adequadas.
A par do predito programa agressivo, o consultor propõe o reforço do investimento no cluster da economia de Defesa como uma prioridade, pois servirá de alavanca para o desenvolvimento tecnológico do país. Nestes termos, considera que devem ser apoiados projetos relacionados com a mobilidade aérea urbana, os microlançadores e microssatélites, a inovação no desenho e fabrico de estruturas aeronáuticas, a vigilância marítima, o comando e controlo, a ciberdefesa e os sistemas submarinos. E sugere uma série de instrumentos de ajuda à tesouraria das empresas, incluindo um “fundo soberano”, dirigido a companhias de base exportadora, pois as empresas estão muito descapitalizadas e é essencial criar condições para o reforço dos capitais próprios através de políticas fiscais e financeiras adequadas.
Entende que Portugal deve reforçar a cooperação geopolítica e económica para se tornar um ‘player(ator) atlântico (não só europeu) e se transformar numa potência média do ‘soft power’ (poder de persuasão), ligando a diplomacia, as missões de solidariedade internacional das Forças Armadas, a tecnologia e a necessidade de combater as ameaças globais, para abrir caminho à criação de plataformas colaborativas que podem resolver problemas e abrir novas vias para a cooperação geopolítica e económica. Salienta a atenção a dar “à necessidade de aumentar a eficácia dos reguladores, essenciais para o mercado funcionar de forma aberta e competitiva, tendo em conta o papel central da regulação, que deve ser simples, desburocratizada e ativa”. Por isso, sugere a elaboração dum balanço do trabalho das agências reguladoras em Portugal e a identificação de meios e mecanismos para melhorar toda a sua ação. E considera que se deve eliminar o limite de anos que os bancos e as empresas têm para deduzir prejuízos fiscais ao IRC. A forma de resolver o problema seria através de “uma medida que vise a eliminação do prazo de reporte de prejuízos fiscais em sede de IRC, em sintonia com o que acontece noutros países europeus”, medida “extensível às empresas, em especial às micro, pequenas e médias empresas”. E pede a retoma dos projetos de ligação entre o Porto e Lisboa por alta velocidade ferroviária e do novo aeroporto de Lisboa. Assim, sustenta a necessidade de “construir um eixo ferroviário de alta velocidade Porto-Lisboa para passageiros, começando com o troço Porto-Soure” (onde há mais constrangimentos de circulação), ligação que “potenciará a afirmação das duas áreas metropolitanas do país e o seu funcionamento em rede”, além de trazer “grandes ganhos ambientais por dispensar as ligações aéreas”.
E, embora o plano incida na recuperação económica, não pode deixar de se centrar nas pessoas, o que implica a necessidade de identificar e corrigir as vulnerabilidades do setor social, com o combate à pobreza, ao desemprego, à exclusão social. Com efeito, “as pessoas são a base do sistema democrático e a ação para preservar a sua dignidade é elemento indissociável do contrato social que rege os estados democráticos avançados”.
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No âmbito do apoio às empresas, o predito fundo soberano será o germe da criação dum fundo, de base pública com “capital aberto a fundos privados”, preferencialmente para “operações em coinvestimento, dirigido a empresas com orientação exportadora e potencialidades de exploração de escala”. Propõe-se a revisão do sistema nacional de garantia mútua; a criação dum banco promocional (tipo Banco do Fomento), com uma clara matriz da operação em torno dos segmentos de empresas com maior capacidade de arrastamento e não na lógica de assunção das operações de risco que o sistema financeiro não está disponível para aceitar, bem como tendo o mandato dum banco verde para garantir maior capitalização de investimentos verdes; o desenvolvimento duma “abordagem integrada entre financiamento à exportação, seguros de crédito, estímulo ao investimento internacional, que integrem a oferta de soluções, com maior presença dos estímulos públicos”; a criação de mecanismos que facilitem o acesso a seguros de crédito às empresas, o que passa por criar a verdadeira Cosec portuguesa; um programa de apoio à reestruturação de empresas, apoiando a recuperação e a realocação de capital nas mais produtivas, com reafetação de meios de produção e trabalhadores; e a possibilidade de dedução de lucros nos últimos exercícios, mecanismos de incentivo e créditos fiscais visando revitalizar as empresas, deduzir prejuízos acumulados, incentivar fusões e aquisições e criar massa crítica na economia.
No quadro das obras públicas, é preciso: construir um eixo ferroviário de alta velocidade (TGV) Porto-Lisboa para passageiros, começando com o troço Porto-Soure, com posterior ligação a Espanha, visando favorecer todo o litoral português e facilitar o equilíbrio financeiro da exploração; equacionar, para o médio prazo, a ligação ferroviária Porto-Vigo; dispor de linhas ferroviárias totalmente elétricas; construir o eixo Sines-Madrid e renovar a Linha da Beira Alta, dois eixos fundamentais para o tráfego de mercadorias para Espanha; investir nos portos de Sines e de Leixões para aumento da competitividade; construir um terminal portuário de minérios para exportação dos recursos minerais estratégicos (em particular o lítio, entre outros); estabelecer, no porto de Lisboa, uma plataforma de negociação que leve a um pacto entre as empresas e as entidades sindicais que salvaguarde o funcionamento dessa estrutura; desenvolver o plano para reconversão do porto da praia da Vitória, nos Açores, numa espécie de estação de fornecimento de gás natural liquefeito aos navios que cruzam o Atlântico; construir um novo aeroporto para a grande AML (Onde?); e alargar a rede do metro de Lisboa e do Porto incluindo uma nova travessia do Douro a montante da ponte da Arrábida, com aposta na mobilidade elétrica.
A nível dos recursos humanos, é vital que Portugal reforce o seu papel como centro europeu de engenharia, para o que  tem de formar mais engenheiros, não só de ‘software’ ou eletrotecnia, mas também mecânicos, civis, químicos, mineiros, físicos tecnológicos, aeroespaciais e outros; é preciso criar ‘kits’ pedagógicos ilustrativos das profissões mais necessárias para atrair estudantes do ensino secundário; importa implementar um “novo ciclo de investimento e desenvolvimento” para “cobrir fragilidades que ainda existem na capacidade do sistema científico” na formação de investigadores e no acesso às tecnologias, devendo as escolas superiores de sistemas digitais, escolas de pós-graduação e centros colaborativos de formação ser dos principais destinatários destes investimentos; é imperioso incrementar a ligação de projetos como a rede de laboratórios colaborativos e as parcerias das universidades portuguesas com grandes instituições científicas norte-americanas (MIT e Carnegie Mellon, por exemplo) e com as empresas”; há que dar prioridade ao “projeto para a Rede Ibérica de Computação Avançada e Supercomputação Verde”; e é de reforçar os meios do Centro de Computação Avançada da Universidade do Minho.
No campo da afirmação externa, Portugal deve reforçar a cooperação geopolítica e económica para se tornar um ‘player’, pois o Atlântico, a ressurgir como grande plataforma energética e comercial, “será uma das grandes vias marítimas do século XXI”, o que representa uma possibilidade imensa de mudar o estatuto e a trajetória de Portugal. O objetivo é transformar Portugal numa potência média do ‘soft power’ (poder de persuasão), ligando a diplomacia, as missões de solidariedade internacional das Forças Armadas, a tecnologia e a necessidade de combater as ameaças globais e abrindo caminho para a criação de plataformas colaborativas que podem resolver problemas e abrir novas vias para a cooperação geopolítica e económica.
Como exemplos de ‘soft power’, menciona-se a cooperação com os países do Norte de África para minimizar o avanço da desertificação, combater a ameaça climática e a escassez de água, e com as nações do Atlântico Sul, para preservar as rotas internacionais de comércio e prevenir os ataques piratas”; e preconiza-se a parceria científica e tecnológica e a cooperação geoeconómica entre as nações do Atlântico “para o desenvolvimento sustentável dos recursos energéticos e minerais e para proteger o oceano e os seus ecossistemas” e a criação duma grande Universidade do Atlântico e um centro de previsão do clima, atraindo parceiros internacionais para os Açores.
Quanto à justiça fiscal, recomenda-se a utilização dos meios de resolução alternativa de litígios e o estímulo aos operadores judiciais a essa utilização, por maior rapidez e menor onerosidade; a gestão mais produtiva dos processos judiciais, com a simplificação das suas etapas; e a remoção dos tribunais dos processos que parasitam o sistema (insolvências, litígios específicos e fiscalidade…).
No Pacto entre Estado e empresas, importa que o Estado reúna com as empresas, por ‘clusters’, para fazer o levantamento da situação, definir os critérios de apoio e condicionar o apoio a uma aposta forte das empresas na manutenção dos postos de trabalho e na sua responsabilidade de gestão eficiente dos capitais a que têm acesso para reinventarem os seus planos de negócio e apostarem em áreas e produtos que assegurem uma maior sustentabilidade em termos de futuro; é imperioso que o pacto regule o papel de ambos e em que a concessão de apoios públicos ao tecido empresarial seja pautada por critérios definidos idos pelo Estado.
Em termos da Prioridade de produção, Portugal deve tornar-se numa fábrica da Europa nos dispositivos médicos, como ventiladores, e consolidar a fileira dos equipamentos de proteção individual, revendo os sistemas de certificação; tem de explorar a capacidade de utilizar as valências da metalomecânica ligeira e da indústria de moldes para, com base na impressão 3D e nas tecnologias digitais, “criar produtos inovadores para os profissionais de saúde, da proteção marinha e da proteção civil”; e há que reconverter o Centro Nuclear de Sacavém e criar um polo de terapia oncológica com protões, baseado em Loures, mas em rede de IPO: Coimbra, Porto e Lisboa.
Em relação ao Serviço Nacional de Saúde (SNS), há que fazer evoluir a sua organização para um modelo mais flexível e rápido, mas “mantendo e consolidando a qualidade e sustentabilidade; concluir a rede do SNS com o novo Hospital de Lisboa Oriental, o novo Hospital do Seixal, o novo Hospital de Évora, o novo Hospital do Algarve; requalificar o parque e a tecnologia hospitalar e ampliar a Rede Nacional de Cuidados Continuados; dotar os centros de saúde de meios de diagnóstico em termos de radiologia e de colheita de análises para diminuir recurso às urgências; e desenvolver uma cultura nutricional e de atividade física, pilotada pela rede de Centros de Saúde, que comece nas escolas e se propague ao conjunto da sociedade.
Relativamente ao Turismo, importa direcionar programas de apoio específico para a revitalização do turismo, setor que representa 13% do PIB; promover um grande plano para captar a atenção dos mercados mais importantes com base nas valências que apresenta em termos da diversidade geográfica e paisagística; apostar na qualidade e ter como indicadores não só o número de visitantes, mas também a rentabilidade por turista; combinar o turismo convencional com o da natureza, o da saúde, o cultural e o oceânico, construindo assim uma oferta competitiva; e evitar o recurso sistemático a mão-de-obra precária e desqualificada.
Para a valorização da cultura, urge: criar um fundo público para a criatividade digital, para projetos inovadores que associem arte e tecnologia; instalar “incubadoras para a criatividade e arte digital”, com ligação a universidades e centros tecnológicos; investir mais na investigação científica em cultura e património e na digitalização de conteúdos e obras artísticas, como cinema e obras de artes; criar várias redes de cultura (Rede Nacional de Cineteatros e Cineclubes, Rede Nacional de Arte Contemporânea e Rede de Residências Artísticas…), para capitalizar espaços e centros de arte contemporânea, muitos dos quais fechados ou com utilização muito reduzida, a necessitarem de modernização tecnológica, com prioridade para os agentes culturais que não dispõem de espaços para criar; estabelecer programas de apoio a atividades artesanais, “assentes na tradição e a reabilitar património cultural e natural para futuros “programas ecoartísticos”; e assegurar e reforçar o mercado de bens e serviços culturais, promovendo e preservando o emprego nesta área e reconhecer o valor económico e geopolítico da cultura.
Enfim, é crucial prestar atenção às PME (pequenas e médias empresas), que fazem mais de 95% do tecido empresarial e empregam mais de 75% das pessoas. A saída da crise quer empresas mais saudáveis e que resolvam os problemas de financiamento, o que implica o alívio da sua carga fiscal, “que é muito elevada e torna o país menos competitivo”. E as empresas, candidatas à injeção de capital público, devem melhorar a qualidade da gestão; identificar e explorar os nichos certos do mercado globalizado; abrir capital; evitar o foco no financiamento pela dívida; aumentar a competitividade, não pelos baixos salários, mas pela inovação; internacionalizar-se; cooperar e criar massa crítica para intervirem nos nichos do mercado global.
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Um programa muito caro e de difícil execução política e económica. Quase esquece Madeira e Açores e é magro no TGV de ligação à Europa. Não aposta claramente na via férrea de bitola UIC, parece ignorar o parque escolar e a problemática do transporte rodoviário, bem como o custo da eletricidade, da água e das telecomunicações. Que vão fazer os decisores políticos?    
2020.07.15 – Louro de Carvalho

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Diferentes maneiras de dizer Fátima


A primeira Peregrinação Internacional Aniversária de 2018 ao Santuário de Fátima, que se inicia hoje, dia 11, presidida pelo Arcebispo emérito de Hong Kong, cardeal John Tong, segue o tema deste ano pastoral em Fátima: “Tempo de graça e misericórdia: dar graças pelo dom de Fátima”, que sublinha a consciência do dom recebido, iniciativa gratuita e amorosa de Deus. Enquadrado no que já foi definido pelo reitor do Santuário de Fátima como uma viragem a Oriente, no âmbito do qual, em outubro, será a vez de o bispo de Hiroshima (Japão) estar na Cova da Iria.
A propósito da peregrinação e do seu tema pronunciaram-se vários especialistas, pronúncias de cujo teor aqui se faz súmula. 
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1. “Fátima não é unívoca, é plural” – diz à agência Ecclesia Paulo Fontes, diretor do Centro de Estudos de História Religiosa (CEHR), da Universidade Católica Portuguesa (UCP), para quem o caráter cada vez mais global de Fátima coloca questões ao tipo de experiências religiosas ali oferecidas, sendo esta “uma boa ocasião para uma reflexão mais aturada do uso, da forma de estar, de rezar e de celebrar um santuário”. E realça que hoje “Fátima não é unívoca, é plural, porque representa para cada um que vem coisas muito diferentes”. E o professor auxiliar da Faculdade de Teologia da UCP encontra justificação para o facto:
Hoje o que falta muitas vezes é uma capacidade de aprofundar, de levar mais longe, porque a sociedade está aberta a que esse lugar, esse papel da religião, e concretamente do cristianismo possa ser trabalhado a nível das sociedades”.
Em 2017, ano de Centenário das Aparições e da vinda do Papa Francisco, o Santuário mariano recebeu perto de 10 milhões de peregrinos, com destaque para a subida do número de visitantes asiáticos, em particular da China, com cerca de 100 grupos diferentes, mas também da Coreia do Sul, do Vietname e das Filipinas. No entanto, o maior contingente de peregrinos continua a chegar da Europa e do continente americano, de países como Espanha, Itália, Polónia, EUA, Brasil e Argentina. Esse ano foi também de ligação aos países da antiga União Soviética, muito presente na mensagem de Fátima. Durante a peregrinação internacional aniversária de julho, vieram ao Santuário cerca de 70 peregrinos provenientes das ex-repúblicas soviéticas, com as celebrações a serem presididas pelo arcebispo de Moscovo, Dom Paolo Pezzi.
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2. “Vitalidade do Santuário parte dos peregrinos” é asserção do Investigador Alfredo Teixeira, que fala em fenómeno “interclassista”, com dupla dimensão pessoal e comunitária, que tem sabido acompanhar as transformações sociais e religiosas. O antropólogo português, responsável pelo Instituto de Estudos de Religião (IER) da UCP, em declarações à agência Ecclesia, sustenta que a vitalidade de Fátima se liga à capacidade de abrir-se à história de cada peregrino e de incorporar as transformações que acompanham a vida das pessoas. E explica:
O santuário, só em parte, é construído pela própria instituição. Grande parte da sua construção, do que nós chamamos o Santuário de Fátima, é feita pelos próprios peregrinos com as suas histórias, com o que transportam nas suas orações e práticas.”.
Para o investigador, esta dimensão humana tem renovado o Santuário de Fátima e, “na medida em que Fátima mantiver esta capacidade de se abrir à construção do próprio peregrino, de ser um santuário construído em parte pelo peregrino, terá condições de futuro”. A Cova da Iria apresenta-se como um local interclassista: as pessoas “podem chorar coletivamente” e viver “a sua vulnerabilidade” numa dupla dimensão pessoal e de conjunto; cada história encaixa na “plasticidade” do Santuário. Estes são fatores que, para Alfredo Teixeira, mostram o fenómeno “complexo” de Fátima. E o investigador precisa:
Também a partir destas diferenças as pessoas olharão e praticarão Fátima de forma diferente. Mas a plasticidade, o facto de ser muitas coisas, permite que pessoas de origens muito diferentes encontrem ali qualquer coisa. Fátima é, de longe, o contexto mais plural que podemos encontrar em Portugal.”.
O especialista diz que Fátima acompanha as “transformações das identidades nas sociedades complexas” de hoje, pelo que a sua importância vai “fortalecer-se” no “trânsito cultural” que a sociedade portuguesa enfrentou nas últimas décadas fruto da “modernização, urbanização, industrialização, do fluxo de novos comportamentos e ideias decorrentes da migração”, com consequências “nos imaginários e práticas religiosas”. E discorre:
As pessoas que nos anos 60 se deslocaram para as zonas periféricas ou periurbanas em Lisboa chegaram a Santa Apolónia de comboio e não encontraram aqui o Deus da sua terra. Foi necessário encontrar outros lugares simbólicos que acompanhassem o processo de reidentificação num outro contexto. Fátima ofereceu isso. E. pela importância de Fátima na emigração nas comunidades portuguesas, conseguimos perceber essa dimensão.”.
Segundo a observação de Alfredo Teixeira, em Fátima “não se encontram” os indicadores de “erosão de identificação religiosa” que se podem perceber na “prática dominical católica”. Para o docente da UCP, que diz ser, para a Igreja Católica, o maior desafio a perceção da identidade do peregrino que vai a Fátima, fruto duma emancipação de pertença, fica evidente:
A possibilidade de alguém viver a sua identidade religiosa já não a partir do que é tradicional – que é a inscrição numa comunidade e a sua vivência religiosa a partir de uma pertença –, passarmos a ter uma vivência religiosa que tem como escala o longo curso da sua vida, onde alguns momentos fortes do ponto de vista religioso, como uma peregrinação, vão ser os grandes articuladores dessa identidade, mas num forte distanciamento a outras dinâmicas comunitárias”.
Alfredo Teixeira assinala  na receção às palavras do Papa Francisco em Fátima, por ocasião da sua visita de 2017, mudanças nas práticas devocionais e a falta de articulação pastoral.
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3. Uma “experiência de fé coletiva” que continua a inspirar o mundo bem podia constituir um rótulo emblemático de Fátima. Com efeito, a italiana Teresa Bartolomei – membro do Conselho de Direção do Centro de Investigação em Estudos de Teologia e Religião (CITER), da UCP em Lisboa, e investigadora que analisa Santuário à luz da visita do Papa em maio de 2017 – salienta, em entrevista à Ecclesia, que “seria errado ficar apenas pela dimensão mediática” que a passagem do Papa argentino significou há um ano, enquanto “fenómeno das massas”.
Considerando a peregrinação aniversária de 12 e 13 de maio uma ocasião para revisitar a vinda de Francisco ao Santuário, a investigadora adianta que o Papa legitimou, pelas suas mensagens, uma “experiência de fé coletiva”, nascida da “intuição religiosa popular”, que continua hoje a inspirar o mundo a viver as dimensões da “misericórdia” e da “humildade”; e que, ao mesmo tempo, quis mostrar uma Igreja Católica que surja diante das pessoas “não como vencedora e dominadora”, mas feita “de homens que se põe nas mãos de Deus”, que, neste caso por intercessão de Nossa Senhora, “pedem a Deus a salvação porque não são autossuficientes”. Como afirmou o Papa argentino no Santuário, “sempre que olhamos para Maria, voltamos a acreditar na força revolucionária da ternura e do carinho”.
Para a investigadora do CITER, frases como esta sublinham o cariz contracorrente da mensagem de Fátima, num tempo em que a sociedade carece de exemplos de “solidariedade” e “inclusão”; e responsabilizam os cristãos a afirmar-se como “testemunhas não de condenação, mas de abertura e de diálogo” com o mundo. Ademais, segundo aquela especialista, “esse momento de cada cristão ser fator de reconciliação, de conversão, de acolhimento é essencial e representa um passo em frente, não na atualização da mensagem, mas na atualização da nossa receção da mensagem”. Por outro lado, em maio de 2017, Francisco fez questão de “suplicar a paz e a esperança” para os cristãos e para a sociedade em geral, “de modo especial para os doentes e pessoas com deficiência, os presos e desempregados, os pobres e abandonados”. E denunciou o atual contexto de “indiferença” que cega o coração humano e “agrava a miopia do olhar” perante as dificuldades dos irmãos. Assim, Teresa Bartolomei sustenta:
Fátima torna-se importante para todos nós nos momentos de necessidade, de incerteza, de dor. E é esse encontrarmo-nos pequeninos perante a graça de Deus, na necessidade perante Deus, que nos torna também capazes de aceitar as fragilidades e as pobrezas dos outros.”.
E considera esta referência a Fátima, enquanto refúgio para “os problemas e esperanças” dos homens e mulheres deste tempo, como outro “momento importantíssimo em que o Papa reconhece essa beleza de uma intuição da religiosidade popular”.

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4. Fátima vive hoje “um desafio fascinante de reinterpretação”. António Martins, investigador da UCP, destaca o “contributo renovador” deixado há um ano pelo Papa, para dizer que Fátima vive um “desafio fascinante de reinterpretação” à luz dos novos tempos.
Este membro do CITER considera este “recentrar” da Mensagem de Fátima na “narrativa primeira, fundadora do acontecimento das Aparições”, visível “na reflexão que se vai produzindo hoje” a partir do Santuário, “quer do ponto de vista teológico (de rigor mais científico), quer do ponto de vista da espiritualidade para alimentar a experiência crente dos fiéis”.
Martins baseia-se num estudo que o CITER está a promover sobre as publicações feitas entre 2015 e 2017, na caminhada do primeiro centenário das Aparições. Para o investigador, assiste-se atualmente ao esforço de “despojamento” da mensagem de Fátima, de tudo o que são leituras que surgiram para responder a determinados desafios da História e do mundo ao longo dos últimos 100 anos, que hoje estão “ultrapassados” e “não têm pertinência”, por exemplo, como “toda uma linguagem profundamente ideológica, anticomunista, antimarxista – à volta da famosa frase da conversão da Rússia – e o que isso significou no contexto da Guerra Fria e da luta em relação à afirmação da violência das perseguições em países de Leste”.
O especialista em Teologia Antropológica destaca, neste aspeto, “o contributo renovador que o Papa deixou” há um ano em Fátima, a 12 e 13 de maio, nas comemorações do Centenário das Aparições – fundamentalmente, no que toca à “revalorização e refontalização de Fátima” no que foi “a presença ou manifestação de Nossa Senhora” na Cova da Iria e no que disse aos pastorinhos Francisco, Jacinta e Lúcia. Ao dizer a frase ‘Temos Mãe’, o Papa frisou junto dos peregrinos que eles vão ao Santuário ao encontro “não de uma senhora milagreira, mas de alguém que envia as pessoas constantemente para o seu Filho”, Jesus Cristo.
Para o docente da UCP, esta posição papal marcou posição contra a que pode ser a “excessiva religiosidade espontânea” ou “reinterpretação piedosa” e “popular” de Fátima, “que tem os seus riscos de deriva”, para a recentrar “na mensagem evangélica”. E, segundo Martins, “isso constitui, para o presente e para o futuro, um profundo desafio teológico e pastoral”.
Neste sentido, o CITER promove, para 22 de maio, um simpósio sobre o Santuário de Fátima, intitulado ‘Centenário de Fátima: momento de leitura plural’ – com início previsto para as 9,15 horas, no Auditório Padre José Bacelar e Oliveira, na UCP em Lisboa. No painel de debate estarão oradores como José Pedro Angélico, Teresa Bartolomei, José Jacinto de Farias, Pedro Feliciano, Paulo Fontes, Alexandre Palma, Sérgio Pinto, Alfredo Teixeira e Domingos Terra. E, de acordo com António Martins, que participará neste encontro, o objetivo será refletir sobre um fenómeno, Fátima, que se centrou na experiência de três pastorinhos, três crianças, mas que tem sido “um acontecimento em sucessiva reinterpretação”. Este académico evoca o contexto de Lúcia, a mais velha, que “à medida que foi vivendo novas situações”, como “o contexto da guerra civil de Espanha” ou a “formação com as irmãs Doroteias”, foi “reinterpretando a experiência originária, fundadora de 1917, com novas aquisições linguísticas”.
Martins, para quem estas “diferentes narrativas são um desafio hermenêutico, porque, de vez em quando, se encontram contradições, alterações”, sustenta”:
Uma coisa é a experiência ali, no lugar, no tempo, no momento, outra coisa é o dizer dessa experiência através da memória, na elaboração da linguagem”.
E o especialista completa:
Fátima é uma experiência de fé, protagonizada por aqueles três videntes, mas ao mesmo tempo se oferece a sucessivas reinterpretações e por isso o nosso título: Fátima – Um acontecimento interpretativo plural”.

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5. Viragem a Oriente e reconhecimento de santidade de várias figuras ligadas ao Santuário prova “atualidade” das Aparições. É assim que o Padre Carlos Cabecinhas, reitor do Santuário de Fátima, perspetiva peregrinação aniversária de 12 e 13 de maio, considerando que esta peregrinação aniversária internacional abre um novo ciclo de vitalidade para o recinto de oração e para a difusão da Mensagem. Em entrevista à Ecclesia, o reitor destaca dois fatores marcantes do ano: o interesse pelos novos santos Francisco e Jacinta; e a presidência às celebrações pelo arcebispo de Hong Kong. A canonização dos Pastorinhos é fruto saído da visita do Papa ao recinto, no Centenário das Aparições, em maio de 2017 – um acontecimento que, de acordo com o reitor, trouxe “um desafio enorme” para o Santuário, em primeiro lugar, pelos “novos horizontes” que abriu para a difusão da espiritualidade mariana, enquanto espaço para uma proposta de “santidade” mais “próxima” das pessoas, no tempo e no espaço, a partir da simplicidade de vida de duas crianças. E, a este respeito, refere o sacerdote:
Eu recordo que Francisco e Jacinta, os santos Francisco e Jacinta, são os mais jovens santos canonizados pela Igreja, não-mártires. Isto é, com eles abriu-se uma página nova na santidade, na forma como a Igreja encara a própria santidade.”.
Para o Padre Cabecinhas, o reconhecimento prestado pela Igreja a Francisco Marto e a Jacinta Marto, a par de outras figuras como a religiosa Luiza Andaluz e o cónego Manuel Formigão, tem trazido “uma nova aproximação à mensagem de Fátima”. Estes dados representam mesmo “a maior prova da atualidade de Fátima” e das Aparições, 100 anos depois. E realça o reitor:
Nós falamos de Luiza Andaluz e Manuel Formigão, mas poderíamos falar de tantos outros, já com processos a decorrer, que se reviram em Fátima, que encontraram em Fátima precisamente orientação para a sua vivência exemplar como cristãos”.
A peregrinação aniversária de maio é presidida pelo arcebispo emérito de Hong Kong – facto explicado pelo Santuário com o aumento verificado, nos últimos anos, do número de peregrinos provenientes da Ásia, em especial da China (que tem vindo a “trazer cada vez mais” grupos). E, em outubro virá a Fátima o bispo de Hiroxima, no Japão, Dom Alexis Mitsuru Shirahama, como reconhecimento de um continente onde o cristianismo está a florescer.
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Em suma, Fátima surge com a atualidade que lhe é emprestada pela pluralidade e pela capacidade de acompanhamento dos fenómenos humanos, cada vez mais universais.
2018.05.11 – Louro de Carvalho