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segunda-feira, 11 de março de 2019

Para uma leitura do livro de Jonas


Nota prévia
O padre passionista João Paulo Silva, no dia 10, recomendou a leitura do livro de Jonas nesta Quaresma, que se lê depressa, pois só tem 4 capítulos. Contudo, tem muito a dizer-nos.
Sabe-se, por 2 Rs 14,25, da existência do profeta Jonas, “filho de Amitai”, que terá exercido a missão no tempo de Jero­boão II (séc. VIII a.C.). O nome e a filiação coincidem, de facto, com o protagonista deste livro. Mas não foi o profeta quem o escreveu, como se verifica pela data em que terá sido escrito. Entretanto, a sua leitura mostra que o autor, além de ser hábil artista, possuía larga formação bíblica. São claras, na obra, influências de alguns Salmos, de Jeremias, Ezequiel, Joel e outros. Jonas é caso único na literatura profética: nunca utiliza o nome “nabi” (profeta), nem o verbo “profetizar”, nem a fór­mula do mensageiro; e toda a pregação do profeta se resume em 3,4: “Dentro de quarenta dias Nínive será destruída”.
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O género do livro
O livro faz parte do género literário chamado midráshico, que toma um dado bíblico como tema de desenvolvimento redacional com intenção didática, sem pretender narrar acontecimentos históricos. A base histórica é muito reduzida: apenas o nome do profeta (Yonah, pombo) do tempo de Jero­boão II, que apoiou as ideias nacionalistas do rei, atitude à qual se opõe o livro. O segundo elemento de aparência histórica é a cidade de Nínive. Mas não há qualquer testemunho que fale ou suponha tal missão profética e a correspondente conversão sensacional.
O livro de Jonas, que integra a coleção dos livros proféticos, situa-se entre os livros de Abdias e Miqueias. Porém, em vez de anúncio e denúncia, como era de esperar, temos o relato que parte do chamamento dum profeta que, do início ao fim, se opõe à sua missão. Em vez de oráculos, temos uma historieta – uma narrativa de episódios breves, construídos com elementos da vida real e com o recurso a exagero, suspense e ironia. A sua preocupação não é documentar factos, mas instruir quem lê ou escuta. Na Bíblia, há muitas historietas: vg, a narrativa de Job (1-2 e 42,7-17), os contos do livro de Daniel (Dn 1-6) e as histórias de Tobias, Judite e Susana, entre outras.
Para melhor entender o livro, vamos recordar a origem do nome da personagem central: “Jonas, filho de Amati” (Jn 1,1). De acordo com a tradição, há um profeta do tempo de Jeroboão II com o mesmo nome (783-743 a.C.), de Gat-Ofer, que anunciou o restabelecimento das fronteiras de Israel (2Rs 14,25). A narrativa adotou um nome histórico, adaptando-o a outro contexto. A cidade de Nínive só se tornou a capital da Assíria com Senaquerib (704-681 a.C.).
A narrativa de Jonas, uma das mais populares, quer na tradição judaica quer na cristã, é lida no Dia do Perdão (Yom Kippur), o dia do arrependimento e do retorno ao bem, uma data muito importante na religião judaica, celebrada com um jejum de 25 horas e intensa oração. Na tradição cristã, essa história é conhecida e citada desde o tempo das primeiras comunidades cristãs. A estada de Jonas no ventre do monstro marinho prefigura a morte e a ressurreição de Jesus (Mt 12,40). A conversão dos ninivitas é tida como modelo e censura para Israel (Mt 12,41-42; Lc 11,32). A história de Jonas é lida na liturgia da Igreja Católica na 27.ª semana do tempo comum (segunda, terça, quarta-feira, respetivamente Jn 1,1-2, 1.11; 3,1-10 e 3,10-4,11; e na quarta-feira da 1.ª semana da Quaresma, Jn 3,1-10). É uma história lida, contada, recontada, desenhada e celebrada, que mostra que não se brinca com Deus, que a salvação vem de Deus, que a conversão pode suceder contra toda a expectativa e que Deus quer salvar todos os homens.
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O essencial da história de Jonas
Jonas é enviado para a cidade de Nínive, mas vai em direção oposta: embarca num navio para Társis. Quer fugir para bem longe. Javé provoca forte tempestade e toda a tripulação trabalha arduamente para sobreviver ao temporal, exceto Jonas, encontrado em sono profundo. O capitão ordena-lhe que invoque o seu Deus. E, ao ser questionado pelos marinheiros, Jonas reconhece a sua culpa e pede que o atirem ao mar para aplacar a ira de Javé. Se morrer, não terá de assumir a ordem de Javé. Prefere morrer a cumprir a missão, mas um grande peixe, por ordem de Javé, engole-o. No ventre do peixe, Jonas reza e agradece a Javé pela sua salvação. E Deus atende a sua oração: o peixe, não o aguentando, vomita Jonas em terra firme. De novo, Jonas recebe a ordem para ir a Nínive e, desta vez, obedece: vai e anuncia a destruição da cidade. Todos os habitantes se convertem: homens, mulheres, rei e animais. Deus compadece-Se, mas Jonas fica indignado com a atitude misericordiosa de Javé.
A narrativa de Jonas termina com uma pergunta repreensiva de Deus ao profeta
Sentes pena de um rícino que não te custou tra­balho algum para o fazeres crescer, que nasceu nu­ma noite, e numa noite pereceu! E não hei de Eu compadecer-me da grande cidade de Nínive, onde há mais de cento e vinte mil pessoas, que não sabem distinguir entre a sua mão direita e a sua mão esquerda, e um grande número de animais?” (Jn 4,10-11).
É pergunta que ecoa em nossos ouvidos e nos insta a refletir. E, além desta pergunta, surgem outras: Afinal, quem são os autores dessa narrativa que ainda hoje provoca riso? Quando foi escrita? Não há respostas exatas a estas questões, pelo que se tentam respostas prováveis.
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Autor e data
Quem começa a ler o livro de Jonas constata que o texto é uma narrativa coerente, com unidade de tema e estilo. Somente o capítulo 2,3-10, uma narrativa poética, um salmo que foi depois provavelmente acrescentado, apresenta uma teologia bem diferente do resto do livro. Em todo o texto, não há menção alguma a Jonas como um profeta.
Não sabemos quem foi o autor ou os autores do livro. Na época de Jonas, um dos grupos responsáveis pela educação eram os sacerdotes, cuja obrigação era ensinar ao povo a instrução (Lei). Em geral, o ensinamento dos sacerdotes estava mais conexo com o culto e o sacrifício. Esse ensinamento e a centralidade do templo são mencionados no cap 2, que é um salmo posterior (2,5.8.10). Além do grupo dos sacerdotes, outros ensinavam ao povo: os sábios. Em Israel, a sabedoria oficial estava ligada ao Templo, mas no meio do povo havia pessoas sábias, comprometidas com a fé e a vida. O autor do livro não terá sido do círculo de sacerdotes; deve ter, antes, a sua origem entre os sábios de Israel, pois conhecia bem a tradição do seu povo, bem como a de outros povos; devia manter contacto com estrangeiros, considerando-os com bons olhos. A história revela que Javé teve compaixão dos estrangeiros e, em especial, dum grande inimigo. É uma ironia contra a corrente judaica da época de Esdras, que acreditava ser o povo judeu o único povo eleito e santo e considerava os estrangeiros impuros.
A narrativa não oferece nenhuma evidência de datação no texto. A existência dum profeta de nome Jonas no século VIII não significa que o livro tenha sido escrito naquela época. O objetivo do livro é transmitir um ensinamento às pessoas que viviam no tempo em que foi escrito. Há alguns indícios que possibilitam uma datação tardia, sendo os mais significativos: os seguintes:
A narrativa apresenta várias palavras de origem aramaica. Efetivamente o aramaico tornou-se a língua oficial no período persa. As palavras que designam os marinheiros (Jn 1,5), o navio (Jn 1,5), o decreto do rei de Nínive (Jn 3,7) e outras mais, vêm do aramaico. No atinente à compreensão de Deus, o autor utiliza a expressão “Deus do céu”, que aparece nos livros do pós-exílio (cf Esd 1,2; 5,11; Ne 1,4.5; Dn 2,18). A história de Jonas alude a costumes persas, por exemplo, a participação de animais nos rituais de penitência (Jn 3,7-8). Há estreitos paralelos com a teologia do livro de Jeremias e de Joel (cf Jr 18,7-10 e Jn 3,9-10; Jl 2,13b.14a e Jn 4,2b; 3,9). O livro de Jeremias foi relido e atualizado no exílio e no pós-exílio. O livro de Joel surgiu no século IV ou meados do século III a.C. Nínive só se tornou importante no tempo de Senaquerib, em 704 a.C., quando o livro identifica Nínive como capital da Assíria no tempo de Jonas. O rei seria tratado como rei da Assíria e não rei de Nínive. Para um profeta de Gat-Ofer, aldeia da Galileia, era mais fácil embarcar nos portos de Tiro ou Aco, e não em Jope, porto próximo para quem vivia em Jerusalém e nas regiões próximas.
A data da composição não pode ser deduzida senão a partir das suas caraterísticas literárias e da sua teologia. Como pensa a maioria dos críticos, o estilo, o vocabulário e cer­tos ara­maísmos (1,5.6.7; 3,7; 4,11) apontam para um período posterior ao regresso do Exílio (séc. V).
No livro, não há influência da época helenística, do tempo de Alexandre Magno e sucessores (333 a.C.-134 a.C.). Não aparece o conflito com os samaritanos, nem a questão dos casamentos com mulheres estrangeiras, abordados por Neemias e Esdras (Ne 13,23-27; Esd 4; 9-10). Não há uma precisão quanto à data, mas, face aos elementos apresentados, é possível afirmar que o livro terá sido escrito no final do século IV ou no início do século III a.C., no período persa.
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Estrutura e conteúdo
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Em termos de estrutura, trata-se duma história bem organizada e desenvolvida, que pode ser dividida em duas partes com desenvolvimentos paralelos. Na 1.ª, Jonas opõe-se à vontade de Deus e foge para Társis, é engolido pelo peixe e vomitado na praia (1,1-2,11); na 2.ª, Jonas prega em Nínive, que se converte (3,1-4,11). Nas duas, encontramos a palavra do Senhor, a reação de Jonas, a presença de personagens estrangeiras e de elementos da natureza.
Pode esquematizar-se a narrativa da seguinte forma (Magonet, 1992: 937-938):
1.ª Parte – capítulos 1 e 2: no mar
2.ª Parte – capítulos 3 e 4: em terra
A. 1,1-2: Chamamento de Jonas
A. 3,1-2: Chamamento de Jonas
B. 1,3: Jonas levanta-se e foge
B. 3,3: Jonas levanta-se e vai a Nínive
C. 1,4: Ação do Senhor: a grande tempestade
C. 3,4: Ação de Jonas: pregação
D. 1,5: Ação dos marinheiros.
D. 3,5: Ação dos ninivitas: jejum.
E. 1,6: O capitão sente o poder divino na tempestade

E. 3,6-8: O rei sente o poder de Deus, faz penitência e proclama um jejum
F. 1,7-13: Os marinheiros acham o culpado
F. 3,8b: Ordena a conversão
G. 14: Os marinheiros rezam a Javé
G. 3,9: A oração pode mover a ação de Deus
H. 15: Jonas é lançado ao mar e cessa a tempestade
H. 3,10: Deus arrependeu-Se e não fez o que ameaçara fazer-lhes
I. 16: Os marinheiros temem a Javé
I. 3,5: Homens de Nínive creram em Deus
J. 2,1: O Senhor salva Jonas
J. 4,1.5.8c: Jonas fica desgostoso com o Senhor
L. 2,2-10: Jonas reza e agradece a sua salvação
L. 4,2-4: Jonas reza pedindo a morte
M. 2,11: O Senhor responde: Jonas é devolvido a terra firme
M. 4,4.6-8b.9: Deus responde a Jonas interpelando-o 

O chamamento de Jonas é feito duas vezes: na 1.ª, ele foge; na 2.ª, obedece. Os marinheiros e os ninivitas representam os estrangeiros, descritos de modo positivo, reconhecem o poder de Deus e rezam, enquanto Jonas, representante do povo de Israel, continua fechado na recusa à Javé.
Há recursos narrativos, como a repetição de palavras, o uso de citações e s inversão irónica.
No atinente à repetição de palavras, é de relevar que o verbo yārad (descer) aparece 3 vezes no cap. 1, indicando o caminho descendente de Jonas: para Jope, para o navio (Jn 1,3), para o fundo do navio, onde dormia profundamente (Jn 1,5), e, no cap 2, afirma-se que desceu até as raízes das montanhas (Jn 2,7); gādol (grande) é um adjetivo que o autor utiliza para falar de Nínive (Jn 1,2; 3,2.3; 4,11), para o vento (Jn 1,4), para a tempestade (Jn 1,4.12) e para o temor dos marinheiros (Jn 1,10.16), para os ninivitas (Jn 3,5.7); o verbo tûl (lançar, atirar ou jogar) surge 4 vezes no cap 1 (Jn 1,4.5.12.15), quando, no cap 2 (2,7), se usa outro verbo para lançar (shālak); e a mesma raiz verbal de mānah (mandar, determinar, designar) introduz os 4 eventos miraculosos que aparecem na história: o grande peixe (Jn 2,1), a planta (Jn 4,6), o verme (Jn 4,7) e o vento (Jn 4,8).
Em relação ao uso de citações, refira-se que o cap 2 é um texto sálmico com citações de outros textos congéneres:
Tuas vagas todas e tuas ondas passaram sobre mim” (Sl 42,8b; cf Jn 2,4b); “Quanto a mim, na minha ânsia eu dizia: ‘Fui excluído para longe dos teus olhos!’ Tu, porém, ouvias a minha voz suplicante, quando eu gritava por ti” (Sl 31,23; cf Jn 2,5); “Salva-me, ó Deus, pois a água sobe-me até ao pescoço” (Sl 69,2; cf Jn 2,6), “Javé, tiraste minha vida do Xeol, tu me reavivaste dentre os que descem à cova” (Sl 30,4; cf. Sl 16,10; Jn 2,7b); “Tu detestas os que veneram ídolos vazios; quanto a mim, confio em Javé” (Sl 31,7; cf Jn 2,9); “De ti vem meu louvor na grande assembleia, cumprirei meus votos frente àqueles que o temem”; “A Javé pertence a salvação! E sobre o teu povo, a tua bênção” (Sl 3,9; 22,26; cf Jn 2,10).
Por outro lado, o argumento do rei de Nínive (Jn 3,8-9) pode ser uma releitura de Jeremias:
Ora, eu falo sobre uma nação ou contra um reino, para arrancar, arrasar, destruir, mas se esta nação, contra a qual falei, se converte de sua perversidade, então arrependo-me do mal que jurara fazer-lhe (…). Converta-se, pois, cada um de seu caminho perverso, melhorai vossos caminhos e vossas obras.” (Jr 18,7-8.11b; cf. Jr 26,3.13.19).
O segmento textual “Tu és um Deus de piedade e de ternura, lento para a ira e rico em amor e que se arrepende do mal” (Jn 4,2) é uma citação de Ex 34,6-7. E ao segmento textual “Então Jonas pediu a morte e disse: ‘É melhor para mim morrer do que viver’.” (Jn 4,8c), assemelha-se o do pedido de Elias em 1Rs 19,4: Elias “pediu a morte, dizendo: ‘Agora basta, Javé! Retira-me a vida, pois não sou melhor que meus pais’.”.
No âmbito da inversão irónica, verifica-se que o autor inverte a narrativa bíblica convencional. A personagem central age de forma inesperada. Logo no início, há a ordem a Jonas “Levanta-te e vai”, esperando-se que ele obedeça. Mas ele “levantou-se e fugiu para Társis” (Jn 1,1.3). Os marinheiros e os ninivitas têm um comportamento exemplar. Os primeiros tentam salvar Jonas; os ninivitas creram em Deus, convocaram jejum e fizeram penitência; e o rei convoca um jejum, faz penitência e exorta o povo à conversão. Outra inversão notória é Jonas a rezar pedindo a morte, “Eu peço-Te, tira a minha vida, pois é melhor para mim a morte do que a vida” (Jn 4,3), ao contrário dos marinheiros que pedem a vida, “Ah, Senhor, não queremos perecer por causa da vida deste homem! Mas não ponhas sobre nós o sangue inocente, pois tu agiste como quiseste.” (Jn 1,14).
No entanto, no cap 2, Jonas reza, mas sem uma palavra sequer sobre a missão ou fuga. Apenas agradece a Javé pela salvação (Jn 2,7) e destaca a importância do Templo. Um Jonas muito diferente do resto do livro: rezar um salmo dentro da barriga de peixe é ideia tão absurda como a de que podia sobreviver ali de um a três dias – história de pescador.
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Teologia e mensagem do livro
O autor reage contra o particularismo sócio-religioso em voga na época de Neemias e Esdras, mostrando os desígnios de salvação que Deus tem para com os pagãos, mesmo que inimigos de Israel, ao enviar-lhes um pregador. Rompendo assim com esse particularismo, no livro toda a gente é simpática: os marinheiros pagãos no momento do naufrágio, o rei, os habitantes e até os animais de Nínive; todos, exceto o profeta, o único israelita que aparece em cena.
Deus, por seu turno, compadece-se do seu profeta e de todos, porque a sua misericórdia é universal. Para conseguir tais intentos, o narrador serve-se dum profeta de que se conhecia pouco mais que o nome, fazendo uma composição cheia de hipérboles e de humor, fácil de fixar. De facto, a aventura de Jonas no ventre do “grande peixe” (2,1) ficou na imaginação popular e tocou a fantasia dos artistas de diversas épocas. Não esqueçamos, porém, que a mensagem fundamental deste livro é a do amor universal de Deus.
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O livro de Jonas surge da pena de quem conhece a tradição do povo de Israel, um sábio que mantém vivas algumas memórias importantes. Os recursos narrativos, especialmente o uso de citações, apontam para o período do pós-exílio a elaboração dum texto que apresenta uma teologia do Deus da gratuitidade e da misericórdia para com todos os povos, incluindo os piores inimigos do povo.
Assim a mensagem de Jonas, a intenção desta narrativa, decorre das preocupações emergentes, embora a contrario, no tempo de Neemias e Esdras (450-350 a.C.), em que se destacavam, entre os interesses principais, a reconstrução de Jerusalém, a restauração da Lei e das práticas rituais, a eliminação de influências estrangeiras e a proibição de casamentos mistos. O livro de Jonas ignora esses temas. Ao invés, ironiza o comportamento do judeu nacionalista e tem um olhar favorável ao estrangeiro. A personagem Jonas representa, na sua resistência, os grupos que não aceitam que Javé seja misericordioso com estrangeiros – muito menos com os assírios –, como Abdias, Joel, Neemias e Esdras.
De acordo com a narrativa, as pessoas de Nínive são chamadas à mudança de vida:
Invocarão a Deus com vigor e se converterá cada qual de seu caminho perverso e da violência que está em suas mãos” (Jn 3,8).
Nínive, cidade chamada de “sanguinária” (Na 3,1.3), era símbolo do império opressor e da sua crueldade. O termo hebraico traduzido por ações violentas é hamás, que significa, nos textos proféticos, as mais diversas injustiças sociais. Não se trata aqui só da conversão dos opressores ao verdadeiro Deus, mas de abandonar toda forma de injustiça social. Portanto, o perdão e a misericórdia de Deus são para todas as pessoas, até para os piores inimigos do povo de Israel. Assim, os grupos nacionalistas e exclusivistas de Israel são chamados à conversão. Jonas é, pois, símbolo de um povo que não acredita na intervenção de Deus em favor daqueles que consideram seus inimigos. Mas o autor do livro de Jonas segue noutra direção: crê que o perdão e a ação de Deus não têm fronteiras.
As pessoas que liam ou ouviam a narrativa de Jonas eram convidadas a rever sua compreensão de Deus. O livro de Jonas foi usado contra a visão reduzida de alguns grupos de judeus que pensavam serem eles o único povo abençoado por Deus. Apresentar Javé que se compadece dos assírios e se arrepende do mal não é o mesmo que afirmar que todos os povos são escolhidos por ele, mas que ele é favorável a todos os que se convertem de sua má conduta e ações violentas. De acordo com o ensinamento das primeiras comunidades, haurido no Evangelho, Deus alegra-se por um só pecador que se converte (cf Lc 15,7.10).
Há muitas perguntas na história de Jonas. Diante da tempestade, o capitão o questiona: “Como podes dormir?” (Jn 1,6). Os marinheiros querem saber qual é a missão de Jonas, de onde vem ele, qual a sua terra e o povo a que pertence (Jn 1,8). Sabendo da identidade de Jonas, questionam-no: “Que é isso que fizeste?” (Jn 1,10). E, na tentativa de encontrar soluções, dizem-lhe: “Que te faremos para que o mar se acalme em torno de nós?” (Jn 1,11). No cap 4, há duplo questionamento de Javé para Jonas: “Tens, por acaso, motivo para te irar?” “Está certo que te aborreças por causa dum rícino?” (Jn 4,4.9). “E eu não terei pena de Nínive?” (Jn 4,11). E o questionamento continua hoje.
A história de Jonas é tão antiga e tão nova. A releitura dessa narrativa ajudar-nos-á a refletir sobre a necessidade de assumirmos a nossa missão de cada dia e convida-nos a identificar os nossos preconceitos e a eliminá-los. Refletindo sobre a oração de Jonas, ampliaremos os nossos horizontes para reconhecer a presença de Deus em cada pessoa que vive e pratica a justiça, independentemente da sua confissão religiosa. O coração de Deus, capaz de se comover diante da pessoa que se converte, deve inspirar a nossa postura em relação aos outros. Essa história nos recorda a importância de dar o perdão, e dá-lo em primeiro lugar a si mesmo. Deus é compaixão e misericórdia; portanto, criados à sua imagem e semelhança, é nossa vocação desenvolver as mesmas atitudes. São essas as perspetivas para a nossa leitura de Jonas. Aliás, o único sinal que Jesus deu àquela geração – má e adúltera – que lhe pedia um sinal, só deu o sinal de Jonas:
Assim como Jonas esteve no ventre do monstro marinho, três dias e três noites, assim o Filho do Homem estará no seio da terra, três dias e três noites. No dia do juízo, os habitantes de Nínive hão de levantar-se contra esta geração para a condenar, porque fizeram penitência quando ouviram a pregação de Jonas. Ora, aqui está quem é maior do que Jonas! (Mt 12,40-41).
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Chaves de leitura
Para compreensão do horizonte sociocultural e histórico em que surgiu o livro e auxiliar a sua leitura, podem ser úteis as chaves de leitura seguintes:
- Nacionalismo judaico. Em 587 a.C., o Templo e Jerusalém foram destruídos e foi parte da população deportada para a Babilónia, onde já havia colónias de judeus exilados da 1.ª deportação (597 a.C.). É o exílio da Babilónia. Em 539 a.C., os persas dominaram os babilónios e os judeus exilados puderam retornar a Jerusalém no ano seguinte. No exílio, para garantir a unidade e a coesão dos judeus, surgiu a ideia do povo eleito. E, no pós-exílio, sobretudo no tempo de Neemias e Esdras (450-350 a.C.), consolidou-se a noção de que Israel era o único povo santo, escolhido e privilegiado de Deus. Essa visão nacionalista gerou a exclusão de outros grupos, principalmente estrangeiros. Nesse contexto, o livro mostra Jonas como enviado por Javé a pregar a Nínive, a capital dos assírios. Mas ele foge em direção contrária, descendo para Jope, donde embarca para Társis, tido como o lugar mais distante de Israel. Ora, na mentalidade da época, o único lugar da morada de Javé era Jerusalém. Por isso, os profetas de Israel pregaram contra as outras nações, mas Jonas é o único enviado para pregar a destruição de uma cidade (no caso, Nínive) na própria cidade. Assim, aponta-se para uma novidade na intenção do autor: mais do que destruição, o objetivo é que a palavra de Deus seja ouvida.
- Estrangeiros, considerados excluídos, vivem a justiça. O pós-exílio inicia o processo de exclusão até se chegar à eliminação do estrangeiro. No livro do Êxodo, que teve a sua redação final nesse período, lê-se:
Fica atento para observar o que hoje te ordeno: expulsarei de diante de ti os amorreus, os cananeus, os heteus, os ferezeus, os heveus e os jebuseus. Abstém-te de fazer aliança com os moradores da terra para onde vais, para que não sejam uma cilada.” (Ex 34,11-12).
A ideia de povo eleito e santo, que possibilitara manter a coesão e a identidade dos judeus no exílio, provoca o fechamento e isolamento de outros povos e dos judeus que haviam ficado na Babilónia. Oficialmente, o povo judeu era considerado puro e os estrangeiros, impuros. Ser puro significava pertencer ao povo eleito e cumprir com todas as exigências da Lei, sobretudo as leis da pureza (Lv 11-15). Segundo a teologia do Templo, o único lugar da manifestação de Deus, a pessoa fiel à Lei era abençoada com riqueza, terra e descendência. Porém, só os sacerdotes da linhagem de Aarão podiam oferecer sacrifícios a Javé. O estrangeiro, sob pena de morte, não podia entrar no Templo (Nm 3,38). Ora, a história de Jonas mostra os estrangeiros a trabalhar arduamente para sobreviverem à tempestade, enquanto Jonas, que acredita que só o povo de Israel é privilegiado por Deus, dorme, permanece distante das pessoas e de Deus.
Não obstante, houve vozes contra a exclusão de estrangeiros. Alguns ecos sentem-se em Job, Jonas, Rute, Trito Isaías e em alguns salmos, que propuseram a inclusão do estrangeiro.
- A presença de Deus não é presa ao Templo. Jonas, na sua oração, continua, mesmo dentro do peixe, no abismo mais profundo, a olhar para o Templo esperando que a sua prece chegue até ao Templo. Na verdade, desde a sua reconstrução, em 515 a.C., o Templo tornou-se o centro da vida religiosa e política do povo judeu. É a teocracia que consiste no governo a partir do Templo e da liderança do sumo-sacerdote. O livro de Jonas mostra Deus a agir na tempestade, no mar, nos elementos da natureza; a agir para lá das fronteiras de Israel: em Jope e em Nínive. Porém, na narrativa poética (Jn 2,3-10) da oração de Jonas, Deus ouve a prece e realiza a salvação a partir do Templo. Jonas representa, pois, as pessoas que creem ser o Templo o único lugar da presença de Deus. É possível rezar o salmo de Jonas crendo que Deus Se faz presente nos momentos de dificuldade e sofrimento, mas temos de alargar os horizontes e reconhecer a sua presença em todo o universo e em todos os seres criados. Como o grupo do Trito Isaías, cremos que tudo que existe foi feito por Deus, os seus olhos estão voltados “para o pobre, o abatido, para o que treme ante a minha palavra” (Is 66,2) e está presente onde reina o amor e a justiça. Com efeito, veio Jesus pregar a adoração em espírito e verdade, por que Deus é espírito (Jo 4,23.24.25).
- Deus perdoa sempre, mesmo ao pior inimigo de Israel. Nínive era considerada o símbolo dos opressores de todos os tempos, os assírios eram famosos pela violência e crueldade e o povo de Israel (do norte e do sul) experimentou durante muito tempo a crueldade do império assírio. Desde 738 a.C., Manaém, o rei do Norte, pagava tributo ao rei da Assíria. Cerca de 732 a.C., os assírios apropriaram-se de várias cidades do reino do Norte. Dez anos depois, a Samaria foi invadida e transformada em província assíria, a elite foi deportada e substituída por estrangeiros (2Rs 17,24). O reino do Sul viveu situação igual. Desde 732 a.C., pagava tributo para a Assíria. Foi invadido em 701 a.C. por Senaquerib, que se apoderou de 36 cidades-fortalezas. Ora, é para Nínive que Javé envia Jonas. Mesmo contra a vontade, o enviado vai e anuncia a destruição da cidade. Segundo a narrativa, os ninivitas jejuam, fazem penitência e convertem-se do caminho perverso e da violência (Jn 3,5.8). Por isso, Deus amolece o coração e tem compaixão. Afinal, o objetivo do autor do livro é desafiar os leitores/ouvintes a aceitarem que Javé, compadecendo-Se do pior inimigo de Israel, oferece a todos a sua compaixão e a misericórdia – a salvação (cf 1Tm 2,4; Tt 2,11; At 10,34-36).
- A misericórdia e a gratuitidade de Deus não têm fronteiras. Após a queda de Jerusalém (587 a.C.), as pessoas atingidas, sobretudo as elites, tentaram encontrar os motivos de sua destruição e, apesar do sofrimento e deceção, acreditavam que o exílio era castigo de Javé. Alguns salmos fazem eco deste pensamento: “Até quando te esconderás, ó Javé? Até o fim vai arder como fogo tua cólera?” (Sl 89,47). “Tu nos entregaste como ovelhas de corte, tu nos dispersaste por entre as nações; vendes o teu povo por um nada, e nada lucras com seu preço” (Sl 44,12-13).
No pós-exílio, a identidade de um judaíta não advém da pertença ao povo, mas da sua fé em Javé, o que se confirma no livro de Jonas. Com efeito quando os marinheiros lhe perguntam: “Donde vens, qual a tua terra e a que povo pertences?” Jonas responde: “Sou hebreu e temo a Javé, o Deus do céu, que fez o mar e a terra” (Jn 1,8-9). Os membros da comunidade judaica eram designados como tementes a Deus: “Vós que temeis a Iahweh, louvai-o! Glorificai-o, descendência toda de Jacob! Temei-o, descendência toda de Israel” (Sl 22,26; cf. Sl 85,10). A fé em Javé e a ideia de ser o povo eleito permitiram ao povo judeu manter identidade no exílio. Mas, no pós-exílio, a categoria de povo eleito, que inclui a noção de privilégios e superioridade, provocou atitudes exclusivistas e separatistas de grupos divergentes e estrangeiros. Riqueza, descendência e vida longa eram tidas como bênçãos divinas para a pessoa que observava a Lei de Deus, adorando somente o Deus de Israel. As leis da pureza determinavam quem estava mais próximo de Deus e quem estava mais distante. As pessoas ligadas ao Templo criam que a misericórdia de Javé era apenas para o Israel puro. Em contramão da teologia oficial, o livro de Jonas apresenta um Deus que age com misericórdia para com todos os povos.
Abrir-se para o outro, superar preconceitos, desenvolver na nossa vida atitudes de misericórdia e compaixão são passos de um projeto para a vida toda.
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Referências
ALVES, Herculano (1998) (Coord.). Nova Bíblia dos Capuchinhos. Lisboa/Fátima: Difusora Bíblica, pp 1496-1499.
CARDOSO PEREIRA, Nancy (2000). “Lições de cartografia: pequena introdução ao livro de Jonas”. Revista de Interpretação Bíblica Latino-Americana. Petrópolis: Vozes; São Leopoldo: Sinodal, nº 35-36, pp. 199-205.
KILPP, Nelson (1994). Jonas. 2.ª ed. Petrópolis: Vozes; São Leopoldo: Sinodal.
Gowan, Jean (1951). “Jonas”. In Brown, Raymond E. Comentario bíblico “San Jeronimo”,Tomo II.Madrid: Ediciones Christiandad, pgs 753.763.
LIVERANI, Mario (2008). Para além da Bíblia: história antiga de Israel. São Paulo: Paulus, Loyola.
MAGONET, Jonathan (1992). “Book of Jonah”, in: FREEDMAN, David Noel (org.). The anchor Bible dictionary. New York: Doubleday, v. 3, pp. 936-942.
MARQUES, M. Antônia (2010). “Levanta-te e vai à grande cidade: uma introdução ao livro de Jonas”. Vida Pastoral, Setembro-Outubro de 2010, pp. 6-13.
Storniolo, Ivo (1993) (coord.) Bíblia Pastoral. Lisboa: São Paulo, pp 1264-1267.
TRIBBLE, Phyllis (1996). “The book of Jonah”, in: KECK, Leander E. (org.). The new interpreter’s Bible. Nashville: Abingdon, pp. 463-529.
2019.03.11 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Seguiu a vida militar para servir os irmãos na fé perseguidos


É o que referem alguns cronistas a propósito de Sebastião, que não teria natural inclinação para a carreira das armas, mas que se propusera segui-la para melhor servir os cristãos perseguidos pelo poder que então dominava o mundo, sendo que os não pertencentes ao Império eram considerados ‘bárbaros’ (palavra onomatopaica) por alegadamente não falarem língua de gente.
Já antes do nascimento de Cristo os romanos chamavam ao Mediterrâneo (mar no meio da Terra) Mare Nostrum (nosso mar), visto que todas as terras por ele banhadas faziam parte do Império romano. Foi numa região costeira, na província da Gália, correspondente à atual cidade de Narbonne (França), que Sebastião veio ao mundo. A sua família, nobre, era de Milão (na atual Itália: por isso, alguns têm-no como natural de Milão), e não era inclinado à vida militar, tendo-a seguido pelo desejo de servir os irmãos na fé, que sofriam a perseguição por mor do Reino de Deus.
Os numerosos homens que dão pelo nome de Sebastião, Bastião ou simplesmente Tião (e as mulheres de nome Sebastiana e Tiana), bem como as inúmeras paróquias que o têm como orago, lhe dedicam uma igreja ou uma capela ou ainda as que lhe veneram uma imagem – e é o padroeiro principal da grande cidade e arquidiocese do Rio de Janeiro, no Brasil, e da vetusta diocese de Lamego, em Portugal e dá o nome a muitos bairros, ruas, vilas e freguesias – permitem imaginar quanto e como este santo militar é admirado e venerado em inúmeras nações, especialmente no Ocidente.
É também assumido como padroeiro dos soldados, arqueiros e atletas, sendo muito invocado no combate às epidemias ou pestes, às fomes e às guerras. 
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Os registos oficiais a seu respeito são escassos. Não obstante, há dele muitas informações que emanam da indissociável combinação entre a história e a piedade popular, complexo por vezes escorrente da lenda que enforma o espírito da realidade com que este militar cristão, servindo no exército de Diocleciano, um dos mais sanguinários imperadores romanos, ajudou numerosas almas a não enfraquecerem na fé, confortando-as e permitindo-lhes enveredar de cabeça erguida pelo caminho do Paraíso, sem qualquer laivo de desânimo. E ele próprio não deixou, no momento certo, de se declarar cristão, dando o testemunho e servindo de exemplo a numerosos outros seguidores de Jesus que enfrentavam as perseguições da Era dos Mártires, como foi denominado o período de busca e morte aos fiéis conforme ordem imperial.
Sebastião desempenhou corretamente o dever militar, mas por baixo da farda pulsava o genuíno cristão; e o seu corpo fazia palpitar um coração ardente de desejo de apoiar os perseguidos e ajudá-los a seguir o Mestre, não só nesta vida, mas também quando se encontravam prestes a partir para a outra. Mantinha em segredo a fé, como era comum entre os cristãos em tempo de perseguição, pois assim podia ajudar os que dele precisavam, mas não tinha receio de perder os bens ou a própria vida. Uma das suas ações apostólicas refere-se aos gémeos Marcos e Marceliano, que aprisionados em Roma, eram visitados diariamente por Sebastião. Depois de serem submetidos a chicotadas, apesar de membros de família de senadores, foram condenados à decapitação, tendo os seus familiares obtidos do administrador Cromácio um prazo para que se tentasse demovê-los das suas convicções. Acorrentados na casa de Nicóstrato, escriba da prefeitura, eram submetidos a tentativas de convencimento por parte dos amigos, pais, esposas e filhos ainda pequenos. E, quando estavam em risco de fraquejar, foram as palavras do oficial Sebastião que os reanimaram, o que impressionou todos aqueles que as ouviram.
Zoé, esposa de Nicóstrato, vendo em Sebastião um homem de Deus, atirou-se-lhe aos pés e por gestos indicou-lhe a doença de que padecia e que lhe fizera perder a fala. Sebastião fez o sinal da cruz sobre a boca de Zoé e, em voz alta, rogou ao Senhor a cura. E, de imediato, ela recobrou a dicção e pôs-se a louvar aquele homem, acrescentando crer em tudo o que ele acabara de dizer. Face à cura da esposa, Nicóstrato lançou-se aos pés de Sebastião e pediu perdão por ter mantido os dois cristãos aprisionados e libertou-os declarando-se feliz se fosse aprisionado e morto em vez deles. E os dois irmãos, ora libertados, recusaram abandonar a luta para a ela exporem outrem e firmaram-se na fé ao verem a ação de Deus, que anulou todos os esforços para os fazer abandonar a Igreja, em que ingressaram os donos da casa em que estiveram aprisionados. E mais pessoas abraçaram a fé cristã nas horas subsequentes, sendo 68 o número de pessoas convertidas e batizadas por Policarpo, ali chamado por Sebastião: Nicóstrato, Zoé, toda a família de Nicóstrato e seu irmão Castor, o carcereiro Cláudio com dois filhos e sua esposa Sinforosa, Tranquilino, o pai dos gémeos, com a sua esposa Márcia e 6 amigos, as esposas dos gémeos e 16 outros encarcerados.
O prefeito Cromácio, que havia concedido aos gémeos o período de espera visando a renúncia à fé, sentindo-se enganado, chamou o pai de ambos e ordenou que eles oferecessem incenso aos deuses. Porém, Tranquilino afirmou-se cristão, dizendo que seria curado da enfermidade de que o prefeito também padecia. Cromácio disponibilizou dinheiro para a cura, arrancando de Tranquilino risos, tendo este assegurado que, para ser curado, bastaria recorrer a Cristo.
Após um instrutivo catecumenado, em que foi explanada a superioridade da fé sobre a simples cura da doença, Cromácio e o filho tornaram-se cristãos, permitindo que fossem quebradas mais de 200 estátuas de ídolos expostos à adoração e que fossem destruídos os instrumentos utilizados para astrologia e outras práticas divinatórias. Porém não só pai e filho se tornaram cristãos em sua casa, mas um total de 1.400 pessoas, incluindo escravos a quem deu a liberdade dizendo que os que passaram a ter Deus como pai não mais podiam ser escravos de homem.
Diocleciano, tendo assumido o império, conservou Sebastião no curso das armas e deu-lhe o posto de capitão general da guarda pretoriana em Roma, depositando nele toda a confiança.
Chegada a hora de Sebastião se afirmar cristão, após cuidar de que muitos trilhassem o caminho do Paraíso, o imperador avisado pelo governador Fabiano, inconformado, condenou-o à morte. Assim, foi preso a um tronco e o corpo perfurado por flechas. Crendo-o morto, os supliciantes abandonaram-no, mas Irene, uma piedosa viúva, querendo sepultá-lo cristãmente, encontrando-o vivo, cuidou dele para que se restabelecesse. Tempo depois, ei-lo a apresentar-se a Diocleciano (surpreendido ao vê-lo vivo), a quem censurou pela injustiça com que perseguia os cristãos, pois estes rezavam pelo império e pelos seus exércitos e, em contrapartida, eram supliciados como se fossem inimigos do Estado. Mas o imperador, obstinado no erro, ordenou que Sebastião fosse prestes levado a um local próximo e morto a bordoadas. Foi sepultado na catacumba que atualmente leva o seu nome, sobre a qual se ergue uma das sete principais igrejas de Roma, a Basílica de São Sebastião, na Via Appia. Assim, como refere Santo Ambrósio, São Sebastião, mártir que, oriundo de Milão, partiu para Roma, onde grassavam violentas perseguições e aí sofreu martírio, na Urbe romana, aonde tinha acorrido como hóspede, o seu corpo granjeou domicílio de imortalidade perpétua. No dia 20 de janeiro de 288 ou de 300, foi depositado nas Catacumbas de Roma.   
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O mártir é uma referência que inspira a viver o Evangelho na identificação com Jesus Cristo, morto e ressuscitado. Ainda que tenha vivido em contexto social, cultural e religioso muito diferente do hodierno, é mister conhecer a sua vida, acolher o testemunho, a adesão e fidelidade a Cristo, a defesa do Evangelho e dos cristãos. Quem O reconhece como padroeiro, invoca-O como intercessor junto de Deus, como amigo de Jesus, através de quem se confia à soberania do Senhor Deus do Universo, e procura imitá-Lo no seguimento aguerrido e apaixonado por Jesus.
Os mártires ganharam uma enorme projeção nas comunidades cristãs dos primeiros séculos e pelos seguintes. Nesta ótica, Sebastião, Eufémia, Inês, Luzia, o diácono Vicente e Bárbara impõem-se por todo o mundo cristão pela fidelidade ao Evangelho e a Jesus, arriscando a própria vida. E contribuem para catequizar as comunidades através de exemplos concretos.
A vida de Sebastião, no que a tradição assimilou e transmitiu, é exemplo de como a fé ajuda a ultrapassar os obstáculos da vida e como o cristão se pode santificar em diversas profissões e/ou ocupações, pois, mais forte que tudo é o amor a Deus. As suas qualidades são amplamente elogiadas: imponente de figura, prudente, bondoso e bravo, era estimado pela nobreza e respeitado por todos.
De Milão, o jovem soldado deslocou-se para Roma, onde a perseguição era mais intensa e feroz, para testemunhar a fé e defender os cristãos. Primeiro cai nas graças do imperador; depois, a defesa da fé cristã e a intercessão pelos cristãos perseguidos desencadeiam a sua morte. Cada novo mártir que surgia tornava-se um alento e um desafio para Sebastião.
A iconografia é muito plástica a seu respeito, inconfundível. Sebastião é representado com o corpo praticamente desnudo e pejado com várias setas, e surge preso a um tronco de árvore.
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Logo após o seu martírio começou a ser venerado como santo. Testemunhou a fé com coragem e alegria, a partir da sua vida, como jovem militar, cristão. Daqui se conclui que a santidade é possível em qualquer trabalho, em qualquer vocação, em qualquer compromisso humano – exemplo do que o leigo pode fazer.
O nosso tempo e ambiente não são, entre nós, de perseguição declarada aos cristãos, sendo-o infelizmente em muitas partes do mundo e de forma cruciante, mas a nossa tarefa não é mais fácil. A sua fé confrontou-se com a perseguição, ajudando os que estavam perto do desânimo; e nós, hipócrita e debilmente, deixamo-nos contagiar pelo contexto, por valores e leis contrários à fé que professamos, desperdiçamos muitas oportunidades de nos afirmarmos cristãos, por cobardia, sufragamos (por medo da chacota) formas de perseguição aos valores que dizemos defender; e descuramos os cristãos que precisam de que os animemos na fé, na sua caminhada espiritual… Vale a pena ler um texto de Ambrósio sobre o Salmo 118, apresentando Sebastião como testemunha fiel de Cristo, e que é apresentado na Liturgia das Horas, no Ofício de Leitura:
É necessário passar por muitas tribulações para entrar no reino de Deus. As muitas perseguições correspondem muitas provações: onde há muitas coroas de vitória tem de ter havido muitos combates. É bom para ti que haja muitos perseguidores, pois entre tantas perseguições mais facilmente encontrarás o modo de ser coroado. Consideremos o exemplo do mártir Sebastião, que hoje celebramos. Nasceu em Milão. Talvez o perseguidor já se tivesse afastado, ou talvez ainda não tivesse vindo a este lugar, ou seria mais condescendente. De qualquer modo, Sebastião compreendeu que aqui, ou não haveria luta, ou ela seria insignificante.
Partiu para Roma, onde grassavam severas perseguições por causa da fé; aí foi martirizado, isto é, aí foi coroado. Deste modo, ali onde tinha chegado como hóspede, encontrou a morada da imortalidade eterna. Se não houvesse mais que um perseguidor, talvez este mártir não tivesse sido coroado. Mas o pior é que os perseguidores não são só os que se veem: há também os que não se veem, e estes são muito mais numerosos. Assim como um único rei perseguidor emitia muitos decretos de perseguição, e desse modo havia diversos perseguidores em cada uma das cidades ou das províncias, também o diabo envia muitos servos seus a mover perseguições, não apenas no exterior, mas dentro da alma de cada um.
Destas perseguições foi dito: ‘Todos os que querem viver piedosamente em Cristo Jesus sofrem perseguição’. E disse ‘todos’, não excluiu nenhum. Quem poderia na verdade ser excetuado, quando o próprio Senhor suportou os tormentos das perseguições? Quantos há que, em segredo, todos os dias são mártires de Cristo e dão testemunho do Senhor Jesus! Conheceu esse martírio aquele apóstolo e testemunha fiel de Cristo, que disse: ‘Esta é a nossa glória e o testemunho da nossa consciência’.”.
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São Sebastião é invocado pelas gentes de Roma, cerca do ano de 680, para proteção de uma terrível peste. A partir daquela altura, passa a ser invocado para a proteção de cidades, vilas e burgos contra as pestes, que na Idade Média martirizaram as populações europeias. Só as pestes por volta de 1348 provocaram a morte de um terço da população europeia. Houve lugares que ficaram quase desabitados e as Terras de Santa Maria, em que a Feira se insere, não foram exceção. Foi durante uma das pestes que as gentes de Santa Maria invocaram o Santo e a prece foi atendida. Por isso, foi decidida uma festa de ação de graças anual com a colaboração dos condes da Feira.
Esta festividade teve início, provavelmente, por volta de 1505 sob financiamento do 2.º Conde da Feira, Dom Diogo Pereira. No cumprimento do voto, os ofertantes participavam numa procissão que saía do Paço dos Condes, a seguir passava pela Igreja do Convento do Espírito Santo (Loios), onde eram benzidas as fogaças, partidas e distribuídas pelo povo.
Nos tempos atuais, da parte da manhã, sai o cortejo cívico dos Paços do Concelho para a Igreja Matriz, onde se celebra Missa Solene com sermão, se benzem as fogaças que são levadas por centenas de meninas, as fogaceiras (este ano, foram 362), e aí permanecem até à tarde. Então, a procissão sai da Igreja, percorre as ruas da zona histórica da cidade, regressando à Igreja. No final da procissão, as crianças levam consigo as fogaças que transportaram, sendo uma das maiores oferecidas a quem preside à festa, muitas vezes o Bispo do Porto ou um dos Bispos Auxiliares e as outras a autoridades locais.
Durante 4 anos a tradição quebrou-se e a peste regressou, o que fez reatar a tradição com o aumento da devoção.
Um guia do concelho feirense afirma que a data de início do culto é o ano de 1505 e sob o patrocínio do 2.º Conde da Feira, Dom Diogo Pereira. Porém, este só ascendeu ao título a 2 de janeiro de 1515. Terá sido o seu patrocínio concedido não sendo ainda o conde? Terá sido no tempo do 1.º conde da Feira, o conde de Moncorvo Dom Rui Pereira (não quis usar deste título, por já ter sido dado por Dom Afonso V a outros fidalgos, e ordenou aos vassalos que lhe chamassem conde dalguma das suas terras e eles o intitulavam conde de Santa Maria da Feira), 4.º senhor das terras de Santa Maria e 2.º senhor do seu castelo.  
FONTES: António José Coelho (2003). Santos de cada dia I, Braga: Apostolado da Oração; CEP (1989), Liturgia das Horas, vol. III, Gráfica de Coimbra; J. H. BARROS DE OLIVEIRA (2003). Santos de todos os Tempos, Apelação: Paulus Editora; Padre Rohrbacher (1959). Vida dos Santos, vol II, Editora das Américas; “Lendas de Santa Maria da Feira”; http://www.arqnet.pt/dicionario/feiracondes.html https://pt.wikipedia.org/wiki/Conde_da_Feira.
2019.01.21 – Louro de Carvalho