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sexta-feira, 19 de junho de 2020

Igreja – memória que dá força e inspiração


Dom José Ornelas Carvalho, Bispo de Setúbal, é o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) desde o passado dia 16 de junho e nessa qualidade falou à Renascença e à Ecclesia em entrevista publicada hoje (dia 19) dando a conhecer as suas principais preocupações em relação ao país e ao dinamismo das comunidades católicas.
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Sobre o significado da eleição para coordenar a CEP, fala em “confusão” inicial e na dificuldade em conjugar “a diocese com mais este trabalho”, mas não dramatiza a exigência de grande ginástica, pois Setúbal é a “quarta diocese maior do país em termos populacionais”, que o fascina e com que se identifica “muito bem”. Porém, como não há “um bispo que cai do céu para ser presidente da CEP”, reconhece que os outros colegas “também estão igualmente assoberbados de trabalho”.
Não valoriza demasiado o facto de o presidente da CEP provir de Setúbal, diocese considerada periférica, pois quem fica em evidência é a CEP. Por outro lado, “ser bispo de Setúbal e presidente da CEP” é ideia que lhe “tem de entrar na cabeça” para “olhar para a Igreja em Portugal de forma global”. Com efeito, diz não poder “pensar em Setúbal como se fosse a Igreja”, mas, antes, “uma das Igrejas da Igreja Universal”. Todavia, não se contradiz quando assegura não poder deixar de pensar que é “da Igreja de Setúbal” e com a qual está “identificado”: “são dois níveis que se juntam para formar a rede que somos”.
Quanto ao facto de o Papa falar muito da Igreja em saída para as periferias e eventualmente o Bispo de Setúbal ter sido eleito pela sua experiência no terreno, Dom José dá uma resposta tão modesta como magistral, que vale a pena ruminar:
Nós temos desde o início quatro Evangelhos. Quatro leituras de Jesus. São o mesmo Jesus, mas quatro modos de viver a Igreja. A Igreja é como uma orquestra. Tem vários instrumentos e todos juntos formam essa orquestra. Fazendo músicas complementares para a melodia final. A Igreja tem de ser sempre assim. Cada um junta à sua experiência eclesial aquilo que a Igreja anuncia. A narração dos discípulos de Emaús é precisamente isso. Cada pessoa que acredita está fazendo crescer a Igreja. Cada bispo que interpreta e vive na sua realidade eclesial está a contribuir para a Igreja.”.
No atinente ao perfil da Igreja que o Papa vem tentando delinear como sendo marcadamente laical e sinodal e ao papel das conferências episcopais na sinodalidade da Igreja, anota a acentuação da “unidade e do sucessor de Pedro como centro desta unidade que é feita pelo Espírito Santo”, mas com “concretização na figura do Papa”. Porém, repara que as Igrejas Ortodoxas “acentuaram as outras sedes apostólicas originais como igrejas irmãs”, sendo que hoje “a primazia do bispo de Roma não é totalmente posta em causa por estas igrejas e também pelas igrejas saídas da Reforma”. E frisa que “também na Igreja Católica é importante ter isso presente: a sinodalidade não é inimiga, antes pelo contrário, da unidade”. Assim, entende que “a catolicidade da Igreja tem de ser vivida dentro de cada uma das Igrejas particulares, mas, ao mesmo tempo, temos de fazer caminho em conjunto”.
Quanto à relevância das conferências episcopais, assinala o seu importante papel instrumental “saído, particularmente, do Concílio Vaticano II”, mas refere que “estão na história da Igreja refletidas desde o início” e assenta em que “a unidade tem de estar ligada com a pluralidade”.
Relativamente à dimensão laical da Igreja, foca-se no Batismo pelo qual granjeamos a filiação divina dando o Espírito “os seus dons a todos e cada um para o bem de todos”, ou seja, “para colaborarem na construção da Igreja e construção do mundo”. Assim, na ótica do novo presidente da CEP, o primeiro papel da autoridade não é ser “dominador”, mas “criador de leões” e, sendo esta a “forma de fazer uma Igreja viva”, não podemos esquecer que “a Igreja funciona com todos os seus carismas e ministérios”; e, como “o ministério da autoridade não é incompatível com a sinodalidade, o exercício da autoridade dentro da Igreja está ao serviço da comunhão e da unidade”: e o Bispo provê a que nada falte e “ninguém fique para trás”.
No quadro da missionariedade da Igreja, a uma Igreja parada, institucionalizada e acomodada onde a estruturação e o esquema ganham maior preponderância, contrapõe “uma Igreja que vive fazendo-se”, caminhando, “uma Igreja que tem de ir sempre inventando”, para concluir:
A Igreja missionária é por natureza uma Igreja constantemente criativa, tem de se adaptar a novos meios, novas culturas, novas línguas, criar o que ainda não estava criado”.
Depois, referiu que pandemia nos ensinou que não chega fixarmo-nos no que temos, mas que importa ir criando outras coisas, o que se faz nas missões. E, no âmbito da fé criativa, vinca:
Quando a Igreja se deixa mover pelo Espírito, não deixa de ser uma Igreja missionária. A Igreja tem de ser missionária em todo o lado. A secularização veio dizer-nos, para quem ainda não se convenceu, que não vivemos em cristandade.”.
E, em face da dúvida dos entrevistadores, esclareceu que “não somos um país cristão no sentido de que a nossa Igreja determina e onde tudo conflui para a Igreja” e desenvolve:
Na Diocese de Setúbal, a maioria considera-se crente, mas os que frequentam a Igreja são uma minoria muito pequena. Isso significa que o nosso espírito missionário é tão necessário aqui como em África. Aliás, os países mais cristãos, nesse ponto de vista, já não são os europeus.”.
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No âmbito das necessidades que surgem e exigem à Igreja a criação de respostas para este tempo e a ultrapassagem de problemas, destacam-se as comissões de proteção de menores. A este respeito, Dom José assegurou que “é um chamamento a toda a Igreja” e que estas comissões “vêm ao encontro de uma situação que não é simplesmente eclesial” e que “é um problema mundial onde o principal foco de preocupação não são verdadeiramente os ambientes eclesiais”, que “existem” e poderão continuar a existir. Obviamente as comissões foram criadas para ajudar a ultrapassar o problema. Porém, este Bispo, sustentando a necessidade de criar “sistemas de deteção e ajuda” e “uma mentalidade de intolerância a este estado de coisas”, vê estas comissões não só como “prontas para intervir em caso de avaria, mas sobretudo manter sãos os nossos ambientes, ajudar a formar para outra cultura de respeito para com as pessoas”.
E, do documento aprovado nesta sessão plenária da CEP, diz que “dá muitas perspetivas” para a postura da Igreja na pós-pandemia, salientando: a primazia da vida, a convergência de valores para a vida e os meios que defendem a vida; e a atenção aos mais frágeis. Neste âmbito, aponta “a convergência de política interna e internacional”, mas ensombrada por “sistemas de interesses”, o que “é dramático de ver”. Ao mesmo tempo, considera que a atual retoma da discussão em torno da eutanásia “é punho no estômago e em contramão de tudo aquilo que se veio a dizer até aqui”, devendo-se “enquadrar também a questão dos cuidados paliativos” e “criar um ambiente para que as pessoas tenham um gosto de viver”.
Destaca também o facto de, pela primeira vez, a União Europeia (UE) aparecer “com uma capacidade de intervenção para dizer que ninguém fica para trás” – “uma medida inteligente” e “questão de inteligência económica, social e política”, pois a UE “não pode ser apenas para os mais potentes e não pode deixar de lado os mais fragilizados.
Obviamente que isso não evita que a pandemia tenha posto a nu bolsas de pobreza, bairros mais problemáticos e pessoas mais fragilizadas, que abundam pela Europa fora, sendo que “os níveis de pobreza podem ser diferentes, mas a sua equidade e dramaticidade existem em todos os países”, pelo que “ temos de criar condições mínimas de dignidade para todos”. Observando que, se não formos capazes de fazer isso, as consequências vão ser dramáticas para todos”, cita os fenómenos dos coletes amarelos em França, as revoltas nos bairros periféricos de Bruxelas (Bélgica) e os protestos em Portugal sobre as discriminações, para alertar de forma esclarecida:
O mundo está sempre a refazer-se. São sinais e sintomas de uma doença que não está curada. Os coletes amarelos paralisaram a França, mesmo com muita manipulação à mistura, mas revelam um mal-estar a que é preciso atender.”.
Das manifestações de violência e de antirracistas que têm marcado a sociedade no mundo, diz que revelam, pela positiva, “uma consciência onde se juntaram muitas raças e etnias e disseram: Não pode ser”. Evoca o significado da “exclusão política da África”, que leva tantos “a entrarem desesperados, arriscando tudo para atravessarem o Mediterrâneo”. Refere que os estudantes africanos da Congregação a que pertence, a maioria deles nos Camarões, falam de África com ceticismo. Ora, jovens que “deviam ser fonte de esperança” olham “para os vários setores da sociedade” e não encontram “os motivos de esperança”. E, posto que “a Igreja tem se ser motivo de esperança e de denúncia”, urge “criar um mundo alternativo que não se faz simplesmente por contraposição, mas por criar”.
E, para vincar que o mundo está cheio de autênticos profetas, mencionou Nelson Mandela, “homem que sofreu a discriminação, a opressão política e a opressão”, mas, quando saiu da prisão, em vez de se mostrar “um homem completamente amargurado”, resolveu fazer com que “um país se erguesse e deu passos significativos na criação de um novo mundo”.
Entende que aquilo que pode tornar a fé atrativa nos dias de hoje, concretamente para os jovens, será encarar a fé como “uma forma de viver que nos faz interpretar as coisas”, antes de mais, “a realidade do mundo onde vivemos”, porque não vivemos “em mundos ideais”, sendo que “o mundo novo tem de nascer” dentro de cada um, isto é, temos de “sonhá-lo” como os profetas que “viram esse mundo”.
Na perspetiva do presidente da CEP, trata-se dum “sonho realista”, pois é “a base da criação de caminhos”. Nesta linha, “a Igreja vai ser sempre isto: ter um sonho e querer realizá-lo e depois ser capaz de dar a vida por esse sonho”; e “o cristão tem de ser alguém ativamente presente na criação deste mundo”, não se limitando a esperar que ele aconteça.
Sobre as motivações que os jovens e a sociedade portuguesa poderão encontrar na “realização da Jornada Mundial da juventude (JMJ) para essa participação”, aponta o caso de Setúbal em que se fala do ‘Partilha’: “em missão, na solidariedade, na construção” e “ao nível do sonho”. E frisa que “a Igreja do Concilio Vaticano II foi o levantar-se para estar ativa na construção da sociedade” e que “a Igreja em si e no seu modo de viver tem de ser um laboratório do mundo novo que Deus sonha para a humanidade”.
Por fim, vincando que “a Igreja é chamada a discernir sem saudosismos”, pretende que atue sempre “com gratidão e alegria, memória”. E enfatiza a dimensão de “memória”, mas “memória daquilo que ela é e sem medo e sem constrangimentos”, não “uma memória saudosista e bolorenta”, mas “memória que dá força e inspiração”.
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De facto, a Igreja, que faz a Eucaristia e vive da Eucaristia (sacrum convivium), celebra a memória da Morte e Ressurreição do Senhor até que Ele venha.  
Enfim, votos de um bom desempenho na presidência da CEP, sem receio do 4.º presidente da CEP não cardeal, como Dom Manuel d’Almeida Trindade, Dom João Alves e Dom Jorge Ferreira da Costa Ortiga
2020.06.19 – Louro de Carvalho

sexta-feira, 11 de maio de 2018

Diferentes maneiras de dizer Fátima


A primeira Peregrinação Internacional Aniversária de 2018 ao Santuário de Fátima, que se inicia hoje, dia 11, presidida pelo Arcebispo emérito de Hong Kong, cardeal John Tong, segue o tema deste ano pastoral em Fátima: “Tempo de graça e misericórdia: dar graças pelo dom de Fátima”, que sublinha a consciência do dom recebido, iniciativa gratuita e amorosa de Deus. Enquadrado no que já foi definido pelo reitor do Santuário de Fátima como uma viragem a Oriente, no âmbito do qual, em outubro, será a vez de o bispo de Hiroshima (Japão) estar na Cova da Iria.
A propósito da peregrinação e do seu tema pronunciaram-se vários especialistas, pronúncias de cujo teor aqui se faz súmula. 
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1. “Fátima não é unívoca, é plural” – diz à agência Ecclesia Paulo Fontes, diretor do Centro de Estudos de História Religiosa (CEHR), da Universidade Católica Portuguesa (UCP), para quem o caráter cada vez mais global de Fátima coloca questões ao tipo de experiências religiosas ali oferecidas, sendo esta “uma boa ocasião para uma reflexão mais aturada do uso, da forma de estar, de rezar e de celebrar um santuário”. E realça que hoje “Fátima não é unívoca, é plural, porque representa para cada um que vem coisas muito diferentes”. E o professor auxiliar da Faculdade de Teologia da UCP encontra justificação para o facto:
Hoje o que falta muitas vezes é uma capacidade de aprofundar, de levar mais longe, porque a sociedade está aberta a que esse lugar, esse papel da religião, e concretamente do cristianismo possa ser trabalhado a nível das sociedades”.
Em 2017, ano de Centenário das Aparições e da vinda do Papa Francisco, o Santuário mariano recebeu perto de 10 milhões de peregrinos, com destaque para a subida do número de visitantes asiáticos, em particular da China, com cerca de 100 grupos diferentes, mas também da Coreia do Sul, do Vietname e das Filipinas. No entanto, o maior contingente de peregrinos continua a chegar da Europa e do continente americano, de países como Espanha, Itália, Polónia, EUA, Brasil e Argentina. Esse ano foi também de ligação aos países da antiga União Soviética, muito presente na mensagem de Fátima. Durante a peregrinação internacional aniversária de julho, vieram ao Santuário cerca de 70 peregrinos provenientes das ex-repúblicas soviéticas, com as celebrações a serem presididas pelo arcebispo de Moscovo, Dom Paolo Pezzi.
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2. “Vitalidade do Santuário parte dos peregrinos” é asserção do Investigador Alfredo Teixeira, que fala em fenómeno “interclassista”, com dupla dimensão pessoal e comunitária, que tem sabido acompanhar as transformações sociais e religiosas. O antropólogo português, responsável pelo Instituto de Estudos de Religião (IER) da UCP, em declarações à agência Ecclesia, sustenta que a vitalidade de Fátima se liga à capacidade de abrir-se à história de cada peregrino e de incorporar as transformações que acompanham a vida das pessoas. E explica:
O santuário, só em parte, é construído pela própria instituição. Grande parte da sua construção, do que nós chamamos o Santuário de Fátima, é feita pelos próprios peregrinos com as suas histórias, com o que transportam nas suas orações e práticas.”.
Para o investigador, esta dimensão humana tem renovado o Santuário de Fátima e, “na medida em que Fátima mantiver esta capacidade de se abrir à construção do próprio peregrino, de ser um santuário construído em parte pelo peregrino, terá condições de futuro”. A Cova da Iria apresenta-se como um local interclassista: as pessoas “podem chorar coletivamente” e viver “a sua vulnerabilidade” numa dupla dimensão pessoal e de conjunto; cada história encaixa na “plasticidade” do Santuário. Estes são fatores que, para Alfredo Teixeira, mostram o fenómeno “complexo” de Fátima. E o investigador precisa:
Também a partir destas diferenças as pessoas olharão e praticarão Fátima de forma diferente. Mas a plasticidade, o facto de ser muitas coisas, permite que pessoas de origens muito diferentes encontrem ali qualquer coisa. Fátima é, de longe, o contexto mais plural que podemos encontrar em Portugal.”.
O especialista diz que Fátima acompanha as “transformações das identidades nas sociedades complexas” de hoje, pelo que a sua importância vai “fortalecer-se” no “trânsito cultural” que a sociedade portuguesa enfrentou nas últimas décadas fruto da “modernização, urbanização, industrialização, do fluxo de novos comportamentos e ideias decorrentes da migração”, com consequências “nos imaginários e práticas religiosas”. E discorre:
As pessoas que nos anos 60 se deslocaram para as zonas periféricas ou periurbanas em Lisboa chegaram a Santa Apolónia de comboio e não encontraram aqui o Deus da sua terra. Foi necessário encontrar outros lugares simbólicos que acompanhassem o processo de reidentificação num outro contexto. Fátima ofereceu isso. E. pela importância de Fátima na emigração nas comunidades portuguesas, conseguimos perceber essa dimensão.”.
Segundo a observação de Alfredo Teixeira, em Fátima “não se encontram” os indicadores de “erosão de identificação religiosa” que se podem perceber na “prática dominical católica”. Para o docente da UCP, que diz ser, para a Igreja Católica, o maior desafio a perceção da identidade do peregrino que vai a Fátima, fruto duma emancipação de pertença, fica evidente:
A possibilidade de alguém viver a sua identidade religiosa já não a partir do que é tradicional – que é a inscrição numa comunidade e a sua vivência religiosa a partir de uma pertença –, passarmos a ter uma vivência religiosa que tem como escala o longo curso da sua vida, onde alguns momentos fortes do ponto de vista religioso, como uma peregrinação, vão ser os grandes articuladores dessa identidade, mas num forte distanciamento a outras dinâmicas comunitárias”.
Alfredo Teixeira assinala  na receção às palavras do Papa Francisco em Fátima, por ocasião da sua visita de 2017, mudanças nas práticas devocionais e a falta de articulação pastoral.
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3. Uma “experiência de fé coletiva” que continua a inspirar o mundo bem podia constituir um rótulo emblemático de Fátima. Com efeito, a italiana Teresa Bartolomei – membro do Conselho de Direção do Centro de Investigação em Estudos de Teologia e Religião (CITER), da UCP em Lisboa, e investigadora que analisa Santuário à luz da visita do Papa em maio de 2017 – salienta, em entrevista à Ecclesia, que “seria errado ficar apenas pela dimensão mediática” que a passagem do Papa argentino significou há um ano, enquanto “fenómeno das massas”.
Considerando a peregrinação aniversária de 12 e 13 de maio uma ocasião para revisitar a vinda de Francisco ao Santuário, a investigadora adianta que o Papa legitimou, pelas suas mensagens, uma “experiência de fé coletiva”, nascida da “intuição religiosa popular”, que continua hoje a inspirar o mundo a viver as dimensões da “misericórdia” e da “humildade”; e que, ao mesmo tempo, quis mostrar uma Igreja Católica que surja diante das pessoas “não como vencedora e dominadora”, mas feita “de homens que se põe nas mãos de Deus”, que, neste caso por intercessão de Nossa Senhora, “pedem a Deus a salvação porque não são autossuficientes”. Como afirmou o Papa argentino no Santuário, “sempre que olhamos para Maria, voltamos a acreditar na força revolucionária da ternura e do carinho”.
Para a investigadora do CITER, frases como esta sublinham o cariz contracorrente da mensagem de Fátima, num tempo em que a sociedade carece de exemplos de “solidariedade” e “inclusão”; e responsabilizam os cristãos a afirmar-se como “testemunhas não de condenação, mas de abertura e de diálogo” com o mundo. Ademais, segundo aquela especialista, “esse momento de cada cristão ser fator de reconciliação, de conversão, de acolhimento é essencial e representa um passo em frente, não na atualização da mensagem, mas na atualização da nossa receção da mensagem”. Por outro lado, em maio de 2017, Francisco fez questão de “suplicar a paz e a esperança” para os cristãos e para a sociedade em geral, “de modo especial para os doentes e pessoas com deficiência, os presos e desempregados, os pobres e abandonados”. E denunciou o atual contexto de “indiferença” que cega o coração humano e “agrava a miopia do olhar” perante as dificuldades dos irmãos. Assim, Teresa Bartolomei sustenta:
Fátima torna-se importante para todos nós nos momentos de necessidade, de incerteza, de dor. E é esse encontrarmo-nos pequeninos perante a graça de Deus, na necessidade perante Deus, que nos torna também capazes de aceitar as fragilidades e as pobrezas dos outros.”.
E considera esta referência a Fátima, enquanto refúgio para “os problemas e esperanças” dos homens e mulheres deste tempo, como outro “momento importantíssimo em que o Papa reconhece essa beleza de uma intuição da religiosidade popular”.

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4. Fátima vive hoje “um desafio fascinante de reinterpretação”. António Martins, investigador da UCP, destaca o “contributo renovador” deixado há um ano pelo Papa, para dizer que Fátima vive um “desafio fascinante de reinterpretação” à luz dos novos tempos.
Este membro do CITER considera este “recentrar” da Mensagem de Fátima na “narrativa primeira, fundadora do acontecimento das Aparições”, visível “na reflexão que se vai produzindo hoje” a partir do Santuário, “quer do ponto de vista teológico (de rigor mais científico), quer do ponto de vista da espiritualidade para alimentar a experiência crente dos fiéis”.
Martins baseia-se num estudo que o CITER está a promover sobre as publicações feitas entre 2015 e 2017, na caminhada do primeiro centenário das Aparições. Para o investigador, assiste-se atualmente ao esforço de “despojamento” da mensagem de Fátima, de tudo o que são leituras que surgiram para responder a determinados desafios da História e do mundo ao longo dos últimos 100 anos, que hoje estão “ultrapassados” e “não têm pertinência”, por exemplo, como “toda uma linguagem profundamente ideológica, anticomunista, antimarxista – à volta da famosa frase da conversão da Rússia – e o que isso significou no contexto da Guerra Fria e da luta em relação à afirmação da violência das perseguições em países de Leste”.
O especialista em Teologia Antropológica destaca, neste aspeto, “o contributo renovador que o Papa deixou” há um ano em Fátima, a 12 e 13 de maio, nas comemorações do Centenário das Aparições – fundamentalmente, no que toca à “revalorização e refontalização de Fátima” no que foi “a presença ou manifestação de Nossa Senhora” na Cova da Iria e no que disse aos pastorinhos Francisco, Jacinta e Lúcia. Ao dizer a frase ‘Temos Mãe’, o Papa frisou junto dos peregrinos que eles vão ao Santuário ao encontro “não de uma senhora milagreira, mas de alguém que envia as pessoas constantemente para o seu Filho”, Jesus Cristo.
Para o docente da UCP, esta posição papal marcou posição contra a que pode ser a “excessiva religiosidade espontânea” ou “reinterpretação piedosa” e “popular” de Fátima, “que tem os seus riscos de deriva”, para a recentrar “na mensagem evangélica”. E, segundo Martins, “isso constitui, para o presente e para o futuro, um profundo desafio teológico e pastoral”.
Neste sentido, o CITER promove, para 22 de maio, um simpósio sobre o Santuário de Fátima, intitulado ‘Centenário de Fátima: momento de leitura plural’ – com início previsto para as 9,15 horas, no Auditório Padre José Bacelar e Oliveira, na UCP em Lisboa. No painel de debate estarão oradores como José Pedro Angélico, Teresa Bartolomei, José Jacinto de Farias, Pedro Feliciano, Paulo Fontes, Alexandre Palma, Sérgio Pinto, Alfredo Teixeira e Domingos Terra. E, de acordo com António Martins, que participará neste encontro, o objetivo será refletir sobre um fenómeno, Fátima, que se centrou na experiência de três pastorinhos, três crianças, mas que tem sido “um acontecimento em sucessiva reinterpretação”. Este académico evoca o contexto de Lúcia, a mais velha, que “à medida que foi vivendo novas situações”, como “o contexto da guerra civil de Espanha” ou a “formação com as irmãs Doroteias”, foi “reinterpretando a experiência originária, fundadora de 1917, com novas aquisições linguísticas”.
Martins, para quem estas “diferentes narrativas são um desafio hermenêutico, porque, de vez em quando, se encontram contradições, alterações”, sustenta”:
Uma coisa é a experiência ali, no lugar, no tempo, no momento, outra coisa é o dizer dessa experiência através da memória, na elaboração da linguagem”.
E o especialista completa:
Fátima é uma experiência de fé, protagonizada por aqueles três videntes, mas ao mesmo tempo se oferece a sucessivas reinterpretações e por isso o nosso título: Fátima – Um acontecimento interpretativo plural”.

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5. Viragem a Oriente e reconhecimento de santidade de várias figuras ligadas ao Santuário prova “atualidade” das Aparições. É assim que o Padre Carlos Cabecinhas, reitor do Santuário de Fátima, perspetiva peregrinação aniversária de 12 e 13 de maio, considerando que esta peregrinação aniversária internacional abre um novo ciclo de vitalidade para o recinto de oração e para a difusão da Mensagem. Em entrevista à Ecclesia, o reitor destaca dois fatores marcantes do ano: o interesse pelos novos santos Francisco e Jacinta; e a presidência às celebrações pelo arcebispo de Hong Kong. A canonização dos Pastorinhos é fruto saído da visita do Papa ao recinto, no Centenário das Aparições, em maio de 2017 – um acontecimento que, de acordo com o reitor, trouxe “um desafio enorme” para o Santuário, em primeiro lugar, pelos “novos horizontes” que abriu para a difusão da espiritualidade mariana, enquanto espaço para uma proposta de “santidade” mais “próxima” das pessoas, no tempo e no espaço, a partir da simplicidade de vida de duas crianças. E, a este respeito, refere o sacerdote:
Eu recordo que Francisco e Jacinta, os santos Francisco e Jacinta, são os mais jovens santos canonizados pela Igreja, não-mártires. Isto é, com eles abriu-se uma página nova na santidade, na forma como a Igreja encara a própria santidade.”.
Para o Padre Cabecinhas, o reconhecimento prestado pela Igreja a Francisco Marto e a Jacinta Marto, a par de outras figuras como a religiosa Luiza Andaluz e o cónego Manuel Formigão, tem trazido “uma nova aproximação à mensagem de Fátima”. Estes dados representam mesmo “a maior prova da atualidade de Fátima” e das Aparições, 100 anos depois. E realça o reitor:
Nós falamos de Luiza Andaluz e Manuel Formigão, mas poderíamos falar de tantos outros, já com processos a decorrer, que se reviram em Fátima, que encontraram em Fátima precisamente orientação para a sua vivência exemplar como cristãos”.
A peregrinação aniversária de maio é presidida pelo arcebispo emérito de Hong Kong – facto explicado pelo Santuário com o aumento verificado, nos últimos anos, do número de peregrinos provenientes da Ásia, em especial da China (que tem vindo a “trazer cada vez mais” grupos). E, em outubro virá a Fátima o bispo de Hiroxima, no Japão, Dom Alexis Mitsuru Shirahama, como reconhecimento de um continente onde o cristianismo está a florescer.
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Em suma, Fátima surge com a atualidade que lhe é emprestada pela pluralidade e pela capacidade de acompanhamento dos fenómenos humanos, cada vez mais universais.
2018.05.11 – Louro de Carvalho