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sábado, 2 de maio de 2020

A propósito da Memória de São José Operário e Dia do Trabalhador


É bom não esquecer que o mês dedicado à Virgem Maria se iniciou com a comemoração universal do dia do trabalhador, que o Arcebispo do Rio de Janeiro considera “um clamor a reconhecer todas as circunstâncias que envolvem a realidade laboral, principalmente aquelas situações de exploração do trabalho e a realidade do crescente desemprego”.
No dia do trabalhador, que evoca a luta histórica de tantos e tantas pelo respeito da sua dignidade de pessoas humanas e que Pio XII colocou sob a égide do operário São José, esposo de Maria e pai adotivo de Jesus, instituindo a festa que a reforma conciliar categorizou como memória litúrgica, há que prestar a atenção orante e solidária a “todos aqueles homens e mulheres que se esforçam na luta pelo pão de cada dia, com honestidade e valentia, fazendo frutificar na terra os dons recebidos por Deus manifestos em suas habilidades e colhendo os frutos do suor do seu rosto”. E frisa o Cardeal Tempesta que “o trabalho foi desde o princípio um preceito para o homem, uma exigência da sua condição de criatura e expressão da sua dignidade”, bem como “a forma como colabora com a Providência Divina sobre o mundo”.
Se a solenidade do Pai Adotivo de Jesus, a 19 de março, o focaliza como Padroeiro da Igreja, a 1 de maio, apresenta-se-nos “o Homem do Trabalho, pobre, que ganhou o pão de cada dia com o suor do seu rosto”, um exemplo que o próprio Jesus seguiu trabalhando como operário até os 30 anos de idade. José, o homem discreto, sustentou a sua família durante toda a vida com o trabalho de suas próprias mãos, cumpriu os seus deveres para com a comunidade, ensinou uma profissão ao Filho de Deus e, assim, facilitou o cumprimento das profecias de salvação da Humanidade. E, proclamando-O protetor dos trabalhadores, a Igreja quis mostrar que está ao lado deles, dando-lhes como patrono o mais exemplar dos homens, que aceitou ser pai adotivo do Deus feito homem, mesmo sabendo o que poderia acontecer à sua família. José, que lutou pelos direitos da vida do ser humano, agora, coloca-se ombro a ombro na luta pelos direitos humanos dos trabalhadores do mundo por meio dos membros da Igreja, que aumentam as fileiras dos que defendem os operários e o seu direito a uma vida digna.
Já o Papa Leão XIII se sentiu obrigado a intervir na questão social com a Encíclica Rerum Novarum (15 de maio de 1891), sobre a condição dos operários, baseado nas ideias distributivistas de Wilhelm Emmanuel von Ketteler e Edward Manning. Na verdade, com a revolução industrial e o advento das sociedades democráticas afloraram algumas graves questões a que urgia dar resposta. Rejeitando o socialismo e defendendo claramente o direito de os trabalhadores formarem sindicatos, o Papa criticava fortemente a falta de princípios éticos e valores morais na sociedade progressivamente laicizante e aduzia alguns princípios que deveriam ser usados na procura de justiça na vida social, económica e industrial, como a melhor distribuição da riqueza, a a intervenção do Estado na economia em prol dos pobres e desprotegidos e a verdadeira caridade patronal em relação à classe operária.
Os sucessores de Leão XIII chamaram e esta encíclica a “Carta Magna” do “Magistério Social da Igreja” com que se iniciou a sistematização do pensamento social católico, passado ser o pilar fundamental da “Doutrina Social da Igreja(DSI).
Pio XI, na Encíclica Quadragesimo anno (15 de maio de 1931), embora considere legítimo o livre mercado, diz que não se pode deixá-lo governar o mundo e que o mundo não deve ser governado apenas pela economia, que agrilhoa a política, como evidencia a dura experiência dos trabalhadores, nem tampouco pode converter-se numa ditadura económica que se rege por si mesma ou como um fim em si mesma – despotismo económico. Considera que é tão funesto o nacionalismo ou imperialismo económico como o internacionalismo do dinheiro, que só têm pátria em si mesmos.
A Radiomensagem de Pio XII (1 de junho de 1941) reafirma o direito à propriedade como direito natural, mas limitado segundo a ordem objetiva estabelecida por Deus, pois não pode constituir obstáculo a que seja satisfeita a ‘exigência irrevogável de os bens, criados por Deus para todos os homens, estarem equitativamente à disposição de todos, segundo os princípios da justiça e da caridade”. E sustenta que as relações de trabalho devem ser reguladas primeiro entre os interessados e, no caso de estes não cumprirem ou não poderem cumprir os seus deveres, compete ao Estado intervir no campo da distribuição e divisão do trabalho na medida em que o requer o bem comum.
A Encíclica Mater et Magistra, de São João XXIII (15 de maio de 1961), considerando as grandes, rápidas e universais transformações no mundo e as desigualdades no plano económico e internacional, exortou “as nações mais ricas a ajudar as mais pobres” e defendeu “a participação dos trabalhadores na posse, gestão e lucros das empresas”.
São Paulo VI produziu dois documentos relevantes sobre a matéria: a Encíclica Populorum Progressio (26 de março de 1967) e a Carta Apostólica Octogesima adveniens (14 de maio de 1971). A primeira ensina que a terra foi dada a todos e não apenas aos ricos. Assim, a propriedade privada não constitui para ninguém um direito incondicional e absoluto. Ninguém tem o direito de reservar para seu uso exclusivo o que é supérfluo, quando a outros falta o necessário. Numa palavra, “o direito de propriedade nunca deve exercer-se em detrimento do bem comum, segundo a doutrina tradicional dos Padres da Igreja e dos grandes teólogos”. Surgindo algum conflito “entre os direitos privados e adquiridos e as exigências comunitárias primordiais”, é ao poder público que pertence “resolvê-lo, com a participação ativa das pessoas e dos grupos sociais”. A segunda refere, em nome da dignidade da pessoa humana:
Todo o homem tem direito ao trabalho, à possibilidade de desenvolver as próprias qualidades e a sua personalidade no exercício da profissão abraçada, a uma remuneração equitativa que lhe permita, a ele e à sua família, ‘cultivar uma vida digna no aspecto material, social, cultural e espiritual’, à assistência em caso de necessidade, quer esta seja proveniente de doença ou da idade. Se é certo que, para a defesa destes direitos, as sociedades democráticas aceitam o princípio da organização sindical, por outro lado, elas nem sempre estão abertas para o exercício do mesmo. Deve admitir-se o papel importante dos sindicatos: eles têm por objetivo a representação das diversas categorias dos trabalhadores, a sua legítima colaboração no progresso económico da sociedade e o desenvolvimento do seu sentido de responsabilidade, para a realização do bem comum. (…) Quando se trata de serviços públicos em particular, necessários para a vida quotidiana de toda a comunidade, dever-se-á saber determinar os limites, para lá dos quais o prejuízo causado se torna inadmissível.”.
São João Paulo II escreveu duas importantes encíclicas: a Laborem Exercens (14 de setembro de 1981); e Centesimus Annus (1 de maio de 1991). A primeira preconiza que os direitos de qualquer trabalhador, que exerce a sua atividade, para se engrandecer como pessoa humana. E, em particular, considera os direitos das mulheres que trabalham, dos emigrantes, dos camponeses, dos deficientes; realça a necessidade de um fundo de subsistência destinado aos trabalhadores desempregados; reconhece o direito de associação em sindicatos, o direito à greve justa (sem fins políticos e prejuízo para os serviços essenciais da sociedade), o direito ao salário, à família, à reforma ou aposentação; e apresenta a espiritualidade do trabalho, que vem a ser a continuação da obra do Criador, assim como a participação na Páscoa (cruz, morte e ressurreição) de Cristo. E a segunda evidencia quão sábias eram as advertências de Leão XIII relativas à propriedade particular e ao socialismo; considera que a propriedade particular é direito inerente a toda pessoa humana, mas que é meio (ou instrumento) para os homens crescerem em solidariedade e sentimentos fraternos; e admite que o lucro obtido honestamente por uma empresa de mercado é um valor reconhecido, mas um valor subordinado a finalidades humanitárias, pois o ser vale mais que o ter.
Bento XVI aborda o tema na Encíclica Caritas in Veritate (7 de julho de 2009), não pretendendo oferecer soluções económicas, mas orientações éticas, para que a economia, orientada por “uma ética amiga da pessoa que respeite a vida, os mais pobres e desfavorecidos”, possa “funcionar corretamente” e contribua para o autêntico desenvolvimento de todos os homens e para a minimização dos desequilíbrios mundiais. Exorta os países mais ricos a que ajudem as economias atingidas pela crise de modo a prevenir o agravamento da recessão e, em consequência, mais desequilíbrios. E realça a necessidade urgente “de uma nova e profunda reflexão sobre o sentido da economia e dos seus fins, bem como uma revisão profunda e clarividente do modelo de desenvolvimento”.
O Papa Francisco tem denunciado recorrentemente esta economia de capitalismo sem rosto e que mata e a queda intempestiva na corrupção. E, dentre os vários pronunciamentos que fez sobre a realidade concreta do trabalho, diz num deles:
É uma prioridade cristã valorizar o trabalho, e inclusive uma prioridade do Papa. Porque se origina daquele primeiro mandamento que Deus deu a Adão: ‘Vai, faz crescer a terra, trabalha a terra, domina-a’. Sempre houve uma amizade entre a Igreja e o trabalho, a partir de Jesus trabalhador. Onde houver um trabalhador ali estarão o interesse e o olhar de amor do Senhor e da Igreja. Penso que isto é claro.” (Visita pastoral a Génova, 27 de maio de 2017).
Na sua audiência geral no dia 1 de maio de 2013, dirigiu um apelo aos poderes públicos no sentido de terem em conta a dignidade do trabalho do homem: 
Eu gostaria de estender a todos o convite à solidariedade e aos chefes do setor público convidá-los ao encorajamento, a fazerem de tudo para darem novo impulso ao emprego, o que significa preocuparem-se com a dignidade da pessoa mas, acima de tudo, exorto-os a não perderem a esperança. São José também teve momentos difíceis, mas nunca perdeu a confiança e soube superá-los, na certeza de que Deus não nos abandona. E agora gostaria de falar especialmente a vós, meninos e meninas, a vós jovens: esforçai-vos em vossas tarefas diárias, no estudo, no trabalho, nas relações de amizade, contribuindo com os outros; o vosso futuro também depende de como vós ides viver esses preciosos anos de vida. Não tenhais medo do compromisso, do sacrifício e não olheis para o futuro com medo, mantende viva a esperança: há sempre uma luz no horizonte.”.
E transcrevo a “Súplica do Santo Padre pelos trabalhadores” na pedreira de granito de Mahatzana (Antananarivo), no domingo, 8 de setembro de 2019, no âmbito da viagem apostólica a Moçambique, Madagáscar e Maurício.

Deus nosso Pai, criador do céu e da terra,
Nós Vos damos graças por nos reunirdes aqui como irmãos,
Em frente desta pedreira britada pelo trabalho do homem:
Nós Vos pedimos por todos os trabalhadores.

Por aqueles que o fazem com as próprias mãos e enorme esforço físico.
Preservai os seus corpos do desgaste excessivo:
Que não lhes falte a ternura e a capacidade de acariciar os seus filhos e jogar com eles.
Concedei-lhes o vigor da alma e a saúde do corpo
Para que não fiquem esmagados pelo peso da sua tarefa.

Fazei que o fruto do trabalho lhes permita
Assegurar uma vida digna às suas famílias.
Que encontrem nelas, à noite, calor, conforto e encorajamento,
E que juntos, reunidos sob o vosso olhar,
Conheçam as verdadeiras alegrias.

Saibam as nossas famílias que a alegria de ganhar o pão
É perfeita, quando este pão é partilhado.
Que as nossas crianças não sejam forçadas a trabalhar,
Possam ir à escola e continuar os seus estudos,
E os seus professores consagrem tempo a esta tarefa,
Sem precisarem doutras atividades para a subsistência diária.

Deus da justiça, tocai os corações de empresários e dirigentes:
Que eles provejam a tudo o que é necessário
Para assegurar a quantos trabalham um salário digno
E condições respeitosas da sua dignidade de pessoas humanas.

Com paterna misericórdia, cuidai daqueles que não têm trabalho,
E fazei que o desemprego, causa de tantas misérias,
Desapareça das nossas sociedades.
Possa cada um conhecer a alegria e a dignidade de ganhar o pão
Para o trazer para casa e sustentar os seus queridos.

Pai, criai entre os trabalhadores um espírito de verdadeira solidariedade:
Saibam velar uns pelos outros,
Encorajar-se mutuamente, sustentar quem está extenuado, levantar aquele que caiu.

Perante a injustiça, que o seu coração nunca ceda ao ódio,
Ao rancor, à amargura, mas mantenha viva a esperança
De ver um mundo melhor e trabalhar por ele.

Que saibam, juntos e de forma construtiva,
Fazer valer os seus direitos
E que as suas vozes e o seu clamor sejam atendidos.

Deus nosso Pai, Vós destes, como protetor
Aos trabalhadores do mundo inteiro, São José,
Pai adotivo de Jesus, esposo corajoso da Virgem Maria:
A Ele, entrego quantos trabalham aqui, em Akamasoa,
E todos os trabalhadores de Madagáscar, especialmente aqueles
Que levam uma vida precária e difícil.

Que Ele os guarde no amor do vosso Filho
E os sustente na sua vida e na sua esperança. Ámen!

***
Imploremos, pois, a intercessão de São José para realizarmos bem o trabalho que nos ocupa tanto tempo: as tarefas domésticas, profissionais, o escritório, o serviço público, o balcão, a cozinha, o computador, o trabalho fabril e de estrada, a docência, o trabalho de carregar pacotes ou de cuidar da portaria dum edifício, o serviço aos doentes e aos idosos, sobretudo neste tempo de pandemia. A grandeza dum trabalho não reside no seu status ou na quantidade do salário, mas  na capacidade de nos aperfeiçoar humana e sobrenaturalmente, nas possibilidades que nos oferece de levar adiante a família e de colaborar nas obras em favor dos homens, na ajuda que através dele prestamos à sociedade.
Nestes tempos de instabilidade sanitária e económica, São José operário pode valer a todos os que sofrem o drama do desemprego e a todos aqueles que veem drasticamente reduzido o seu rendimento. Que o guardião da Sagrada Família interceda pelas nossas necessidades de paciência e ultrapassagem da crise de confinamento clamando ao Pai e a Cristo para que não nos falte o pão de cada dia, pão que alimenta o corpo e pão que alimenta o espírito.
2020.05.02 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 2 de maio de 2018

O Dia do Trabalhador visto pelo olhar do Papa Francisco


A Igreja Católica  celebra, desde 1955, a memória litúrgica de São José Operário como forma de se associar à comemoração mundial do Dia do Trabalhador. Foi por decisão do Papa Pio XII, tomada a 1 de maio de 1955 e anunciada perante milhares de pessoas reunidas nesse domingo, na Praça de São Pedro.
Já então aquele Papa italiano explicava que a decisão sublinhava a necessidade de que “a todos se reconheça a dignidade do trabalho”. E, celebrando liturgicamente São José Operário, evoca-se “o humilde artesão de Nazaré” que personifica a “dignidade do trabalhador manual”.
E, a 19 junho de 2013 (já no pontificado de Francisco), o nome de São José foi inserido nas Orações Eucarísticas II, III e IV do Missal Romano por decreto emitido pela Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos. A decisão de acrescentar esta referência na principal oração da celebração da missa justifica-se, de acordo com a Santa Sé, “pelo seu lugar singular na economia da salvação como pai de Jesus”, segundo a lei. E o texto do decreto discorre:
São José de Nazaré, colocado à frente da Família do Senhor, contribuiu generosamente na missão recebida na graça e, aderindo plenamente ao início dos mistérios da salvação humana, tornou-se modelo exemplar de generosa humildade, que os cristãos têm em grande estima, testemunhando aquela virtude comum, humana e simples, sempre necessária para que os homens sejam bons e fiéis seguidores de Cristo”.
São José foi desde cedo apresentado pela Igreja como símbolo e exemplo de pai e trabalhador; foi declarado patrono da Igreja universal em 1870, por Pio IX. E a sua iconografia é paralela à evolução do seu culto, como explica nota do Tesouro-Museu da Sé de Braga, precisando que, “a partir do século XVI, os artistas rejuvenesceram a figura de José, conferindo-lhe o aspeto de um homem de quarenta anos”.
***
Este ano, sublinhando linhas de pensamento e comunicação de Francisco, para quem “trabalho significa dignidade, significa amar”, Bianca Fraccalvieri veio repropor, a partir da Cidade do Vaticano, no Dia do Trabalhador e de São José Operário, alguns pronunciamentos papais a respeito do trabalho e do trabalhador.
Assim, frisou que o Papa deixou aos seguidores no Twitter, nesse dia, a seguinte mensagem:
Celebramos São José trabalhador, recordando-nos sempre que o trabalho é um elemento fundamental para a dignidade da pessoa humana”.
“Trabalho significa amar”. Francisco já pronunciou muitos discursos a respeito do trabalho e não se cansa de pedir dignidade para os trabalhadores, igualdade na retribuição salarial entre homens e mulheres e respeito pelos direitos conquistados.
Registe-se que, na visita pastoral a Cagliari, a 22 de setembro de 2013, o Pontífice sustentou:
Trabalho quer dizer dignidade, trabalho significa trazer o pão para casa, trabalho quer dizer amar”!
Segundo Francisco, é urgente um novo pacto social humano, um pacto para o trabalho, que diminua as horas de trabalho de quem está na última fase laboral, visando criar trabalho para os jovens que têm o direito-dever de trabalhar. A este respeito, no discurso aos delegados da Confederação Italiana Sindical dos Trabalhadores, a 28 de junho de 2017, dizia:
O do trabalho é o primeiro dom dos pais e das mães aos filhos e às filhas, é o primeiro património de uma sociedade. É o primeiro dote com o qual os ajudamos a levantar voo para a vida adulta.
No tocante às condições de trabalho, o Pontífice pede aos empresários atenção especial para a qualidade da vida laboral dos funcionários, que são o recurso mais precioso de uma empresa, em particular, para favorecer a harmonização entre trabalho e família.
E, no discurso à União Cristã de Empresários Dirigentes, a 31 de outubro de 2015, salientou a situação específica das mulheres:
Penso sobretudo nas trabalhadoras: o desafio é tutelar, ao mesmo tempo, quer o seu direito a um trabalho plenamente reconhecido quer a sua vocação à maternidade e à presença na família. Quantas vezes, quantas vezes ouvimos que uma mulher foi ter com o chefe para lhe dizer: ‘Tenho que lhe comunicar que estou grávida’ – ‘A partir do fim de mês já não vais trabalhar’. A mulher deve ser preservada, ajudada neste duplo trabalho: o direito a trabalhar e o direito à maternidade.”.
Também o desrespeito pela dignidade da pessoa espelhada na dignidade do trabalho justo e o flagelo da precariedade no trabalho são itens a que Francisco dedica acurada atenção em nome da dignidade humana que se consegue visualizar também pelo trabalho e da índole justa do trabalho como realização pessoal e contributo para o bem comum. Com efeito, “sem trabalho não há dignidade”, recorda, mas “nem todos os trabalhos são trabalhos dignos”. Há, na verdade, “trabalhos que humilham a dignidade das pessoas, os que nutrem as guerras com a construção de armas, que vendem o corpo para a prostituição e que exploram os menores”. E Francisco denuncia, de modo contundente, também o trabalho precário, por exemplo na videomensagem para a Semana Social da Conferência Episcopal Italiana, a 26 de outubro de 2017:
É uma ferida aberta para muitos trabalhadores, que vivem no medo de perder o próprio trabalho. Precariedade total. Isso é imoral. Isso mata: mata a dignidade, mata a saúde, mata a família, mata a sociedade.”.
Em suma, para o Pontífice, o mundo do trabalho é uma prioridade humana e, “por conseguinte, é uma prioridade cristã, nossa, e inclusive uma prioridade do Papa, porque se origina daquele primeiro mandamento que Deus deu a Adão: ‘Vai, faz crescer a terra, trabalha a terra, domina-a’. Sempre houve uma amizade entre a Igreja e o trabalho, a partir de Jesus trabalhador. Onde houver um trabalhador ali estarão o interesse e o olhar de amor do Senhor e da Igreja. (cf discurso na visita pastoral a Génova, a 27 de maio de 2017).
***
Entretanto, Papa recebeu, no dia 1 de maio, em audiência especial no Vaticano cerca de 400 funcionários do jornal italiano católico ‘Avvenire’ e seus familiares. Este diário foi fundado em Milão há 50 anos. E, no encontro com estes trabalhadores em dia dedicado a São José Operário, o Pontífice presenteou o grupo com uma reflexão sobre a figura do santo trabalhador definindo-o como ‘homem do silêncio’ e frisando que “o silêncio de José é habitado pela voz de Deus”. E alertou os jornalistas:
Não devemos fazer o bem de quem nos ouve, mas educá-los a pensar e a julgar”.
Acentuando que “o silêncio pode parecer como a antítese do comunicador”, o Papa sublinhou que “o silêncio de José é habitado pela voz de Deus e gera a obediência da fé”, assegurando que “homem justo, capaz de se doar ao sonho de Deus, José se encarrega das pessoas e situações que a vida lhe confia: é um educador e pai que sabe fazer crescer a vida, acompanhar as pessoas e transmitir o trabalho”. Depois, não se inibiu de vincar que “a dignidade humana não se relaciona com o dinheiro, com a visibilidade ou com o poder, mas com o trabalho”. E comparou a marcenaria de José à redação daquele jornal, onde o trabalho teve de ser reorganizado e harmonizado com as novas tecnologias e a colaboração com os outros medias ligados à Conferência Episcopal Italiana.
É óbvio que o trabalho não é um fim, mas um instrumento de dignificação compatível com o anúncio e a receção do Evangelho como beleza e bem comum.
Nestes termos, o Bispo de Roma, incitando os jornalistas, por um momento, a focarem a comunicação como verdade, beleza e bem comum, afiançou:
 Neste panorama, a Igreja sente que a sua voz não pode faltar, fiel à missão que a chama ao anúncio do Evangelho da misericórdia. Os media oferecem enormes potencialidades para contribuir na cultura do encontro.”.
Assim, segundo Francisco, o marceneiro de Nazaré convida-nos a reencontrar o sentido da saudável lentidão, da calma e da paciência, pois, “com o seu silêncio, recorda-nos que tudo tem início com a escuta, para abrir-se à palavra e à história do próximo”. E o Papa recomendou aos ‘amigos do Avvenire’:
Não vos canseis de buscar a verdade com humildade; escutai, aprofundai, comparai. Contribuí para superar contraposições estéreis e prejudiciais e sede companheiros de quem se dedica à justiça e à paz.”.
“É o diálogo a vencer o medo e a Igreja deve ser seu artífice”. E, porque ninguém é ‘excesso’, o Papa apela aos jornalistas no sentido da imparcialidade, atenção a todos e independência de pensamento e de ação:
Desejo que vós saibais afinar e defender esta visão; que supereis a tentação de não ver, afastar ou excluir. Encorajo-vos a não discriminar, a não considerar ninguém como ‘excesso’, a não vos contentardes com o que os outros já veem. Que ninguém, além dos pobres, dos últimos e dos sofredores, dite a vossa agenda. Não aumenteis a fila daqueles que contam a parte de realidade já iluminada pelos refletores. Começai pelas periferias, conscientes de que não são o fim, mas início da cidade.”.
E mencionou um discurso feito por Paulo VI em 1971 aos comunicadores: “Não devemos fazer o bem de quem nos ouve, mas educá-los a pensar e a julgar”. E, nesta ótica, encorajou os jornalistas a evitar a informação de fácil consumo, que não compromete; a aproximar-se das pessoas com respeito e a apostar em relações que constituem e reforçam as comunidades.
E, declarando que “nada cria proximidade como a misericórdia”, frisou, concluindo com outras palavras de Paulo VI:
Temos que ter um grande amor pela causa, dizer que acreditamos no que fazemos e no que queremos fazer”.
***
Também em conformidade com o previsto, Francisco peregrinou, na tarde do dia 1, ao santuário do Divino Amor, em Roma para rezar, com os fiéis, pela paz na Síria. Com efeito, a paz, se é fruto da educação e da vontade comum, também o é do trabalho justo, digno e estável.
Ao chegar ao templo, o Santo Padre foi acolhido por milhares de romanos na praça em frente à Torre do Primeiro Milagre do Santuário de Nossa Senhora do Divino Amor, poucos minutos antes das 17 horas locais.
Antes de entrar no antigo santuário para a oração do Terço, saudou os fiéis presentes na praça, agradeceu o acolhimento caloroso e pediu que rezassem todos com ele.
No santuário, deteve-se em oração diante da imagem de Nossa Senhora dos Milagres, enquanto a leitora repetia o seu apelo pela paz na “amada Síria”, proferido na Páscoa, na mensagem “Urbi et orbi”, do balcão central da Basílica de São Pedro. E, depois de invocar os frutos de paz, reconciliação e esperança para o mundo inteiro, o Papa acrescentou naquela ocasião: “Começando pela amada Síria, cuja população está esgotada por uma guerra que não tem fim”.
***
Enfim, paz, trabalho, dignidade humana, justiça, oração são vetores do discurso e das preocupações papais na linha do sensus Ecclesiae e do desejo de Cristo: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz”.
2018.05.02 – Louro de Carvalho