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sábado, 2 de maio de 2020

A propósito da Memória de São José Operário e Dia do Trabalhador


É bom não esquecer que o mês dedicado à Virgem Maria se iniciou com a comemoração universal do dia do trabalhador, que o Arcebispo do Rio de Janeiro considera “um clamor a reconhecer todas as circunstâncias que envolvem a realidade laboral, principalmente aquelas situações de exploração do trabalho e a realidade do crescente desemprego”.
No dia do trabalhador, que evoca a luta histórica de tantos e tantas pelo respeito da sua dignidade de pessoas humanas e que Pio XII colocou sob a égide do operário São José, esposo de Maria e pai adotivo de Jesus, instituindo a festa que a reforma conciliar categorizou como memória litúrgica, há que prestar a atenção orante e solidária a “todos aqueles homens e mulheres que se esforçam na luta pelo pão de cada dia, com honestidade e valentia, fazendo frutificar na terra os dons recebidos por Deus manifestos em suas habilidades e colhendo os frutos do suor do seu rosto”. E frisa o Cardeal Tempesta que “o trabalho foi desde o princípio um preceito para o homem, uma exigência da sua condição de criatura e expressão da sua dignidade”, bem como “a forma como colabora com a Providência Divina sobre o mundo”.
Se a solenidade do Pai Adotivo de Jesus, a 19 de março, o focaliza como Padroeiro da Igreja, a 1 de maio, apresenta-se-nos “o Homem do Trabalho, pobre, que ganhou o pão de cada dia com o suor do seu rosto”, um exemplo que o próprio Jesus seguiu trabalhando como operário até os 30 anos de idade. José, o homem discreto, sustentou a sua família durante toda a vida com o trabalho de suas próprias mãos, cumpriu os seus deveres para com a comunidade, ensinou uma profissão ao Filho de Deus e, assim, facilitou o cumprimento das profecias de salvação da Humanidade. E, proclamando-O protetor dos trabalhadores, a Igreja quis mostrar que está ao lado deles, dando-lhes como patrono o mais exemplar dos homens, que aceitou ser pai adotivo do Deus feito homem, mesmo sabendo o que poderia acontecer à sua família. José, que lutou pelos direitos da vida do ser humano, agora, coloca-se ombro a ombro na luta pelos direitos humanos dos trabalhadores do mundo por meio dos membros da Igreja, que aumentam as fileiras dos que defendem os operários e o seu direito a uma vida digna.
Já o Papa Leão XIII se sentiu obrigado a intervir na questão social com a Encíclica Rerum Novarum (15 de maio de 1891), sobre a condição dos operários, baseado nas ideias distributivistas de Wilhelm Emmanuel von Ketteler e Edward Manning. Na verdade, com a revolução industrial e o advento das sociedades democráticas afloraram algumas graves questões a que urgia dar resposta. Rejeitando o socialismo e defendendo claramente o direito de os trabalhadores formarem sindicatos, o Papa criticava fortemente a falta de princípios éticos e valores morais na sociedade progressivamente laicizante e aduzia alguns princípios que deveriam ser usados na procura de justiça na vida social, económica e industrial, como a melhor distribuição da riqueza, a a intervenção do Estado na economia em prol dos pobres e desprotegidos e a verdadeira caridade patronal em relação à classe operária.
Os sucessores de Leão XIII chamaram e esta encíclica a “Carta Magna” do “Magistério Social da Igreja” com que se iniciou a sistematização do pensamento social católico, passado ser o pilar fundamental da “Doutrina Social da Igreja(DSI).
Pio XI, na Encíclica Quadragesimo anno (15 de maio de 1931), embora considere legítimo o livre mercado, diz que não se pode deixá-lo governar o mundo e que o mundo não deve ser governado apenas pela economia, que agrilhoa a política, como evidencia a dura experiência dos trabalhadores, nem tampouco pode converter-se numa ditadura económica que se rege por si mesma ou como um fim em si mesma – despotismo económico. Considera que é tão funesto o nacionalismo ou imperialismo económico como o internacionalismo do dinheiro, que só têm pátria em si mesmos.
A Radiomensagem de Pio XII (1 de junho de 1941) reafirma o direito à propriedade como direito natural, mas limitado segundo a ordem objetiva estabelecida por Deus, pois não pode constituir obstáculo a que seja satisfeita a ‘exigência irrevogável de os bens, criados por Deus para todos os homens, estarem equitativamente à disposição de todos, segundo os princípios da justiça e da caridade”. E sustenta que as relações de trabalho devem ser reguladas primeiro entre os interessados e, no caso de estes não cumprirem ou não poderem cumprir os seus deveres, compete ao Estado intervir no campo da distribuição e divisão do trabalho na medida em que o requer o bem comum.
A Encíclica Mater et Magistra, de São João XXIII (15 de maio de 1961), considerando as grandes, rápidas e universais transformações no mundo e as desigualdades no plano económico e internacional, exortou “as nações mais ricas a ajudar as mais pobres” e defendeu “a participação dos trabalhadores na posse, gestão e lucros das empresas”.
São Paulo VI produziu dois documentos relevantes sobre a matéria: a Encíclica Populorum Progressio (26 de março de 1967) e a Carta Apostólica Octogesima adveniens (14 de maio de 1971). A primeira ensina que a terra foi dada a todos e não apenas aos ricos. Assim, a propriedade privada não constitui para ninguém um direito incondicional e absoluto. Ninguém tem o direito de reservar para seu uso exclusivo o que é supérfluo, quando a outros falta o necessário. Numa palavra, “o direito de propriedade nunca deve exercer-se em detrimento do bem comum, segundo a doutrina tradicional dos Padres da Igreja e dos grandes teólogos”. Surgindo algum conflito “entre os direitos privados e adquiridos e as exigências comunitárias primordiais”, é ao poder público que pertence “resolvê-lo, com a participação ativa das pessoas e dos grupos sociais”. A segunda refere, em nome da dignidade da pessoa humana:
Todo o homem tem direito ao trabalho, à possibilidade de desenvolver as próprias qualidades e a sua personalidade no exercício da profissão abraçada, a uma remuneração equitativa que lhe permita, a ele e à sua família, ‘cultivar uma vida digna no aspecto material, social, cultural e espiritual’, à assistência em caso de necessidade, quer esta seja proveniente de doença ou da idade. Se é certo que, para a defesa destes direitos, as sociedades democráticas aceitam o princípio da organização sindical, por outro lado, elas nem sempre estão abertas para o exercício do mesmo. Deve admitir-se o papel importante dos sindicatos: eles têm por objetivo a representação das diversas categorias dos trabalhadores, a sua legítima colaboração no progresso económico da sociedade e o desenvolvimento do seu sentido de responsabilidade, para a realização do bem comum. (…) Quando se trata de serviços públicos em particular, necessários para a vida quotidiana de toda a comunidade, dever-se-á saber determinar os limites, para lá dos quais o prejuízo causado se torna inadmissível.”.
São João Paulo II escreveu duas importantes encíclicas: a Laborem Exercens (14 de setembro de 1981); e Centesimus Annus (1 de maio de 1991). A primeira preconiza que os direitos de qualquer trabalhador, que exerce a sua atividade, para se engrandecer como pessoa humana. E, em particular, considera os direitos das mulheres que trabalham, dos emigrantes, dos camponeses, dos deficientes; realça a necessidade de um fundo de subsistência destinado aos trabalhadores desempregados; reconhece o direito de associação em sindicatos, o direito à greve justa (sem fins políticos e prejuízo para os serviços essenciais da sociedade), o direito ao salário, à família, à reforma ou aposentação; e apresenta a espiritualidade do trabalho, que vem a ser a continuação da obra do Criador, assim como a participação na Páscoa (cruz, morte e ressurreição) de Cristo. E a segunda evidencia quão sábias eram as advertências de Leão XIII relativas à propriedade particular e ao socialismo; considera que a propriedade particular é direito inerente a toda pessoa humana, mas que é meio (ou instrumento) para os homens crescerem em solidariedade e sentimentos fraternos; e admite que o lucro obtido honestamente por uma empresa de mercado é um valor reconhecido, mas um valor subordinado a finalidades humanitárias, pois o ser vale mais que o ter.
Bento XVI aborda o tema na Encíclica Caritas in Veritate (7 de julho de 2009), não pretendendo oferecer soluções económicas, mas orientações éticas, para que a economia, orientada por “uma ética amiga da pessoa que respeite a vida, os mais pobres e desfavorecidos”, possa “funcionar corretamente” e contribua para o autêntico desenvolvimento de todos os homens e para a minimização dos desequilíbrios mundiais. Exorta os países mais ricos a que ajudem as economias atingidas pela crise de modo a prevenir o agravamento da recessão e, em consequência, mais desequilíbrios. E realça a necessidade urgente “de uma nova e profunda reflexão sobre o sentido da economia e dos seus fins, bem como uma revisão profunda e clarividente do modelo de desenvolvimento”.
O Papa Francisco tem denunciado recorrentemente esta economia de capitalismo sem rosto e que mata e a queda intempestiva na corrupção. E, dentre os vários pronunciamentos que fez sobre a realidade concreta do trabalho, diz num deles:
É uma prioridade cristã valorizar o trabalho, e inclusive uma prioridade do Papa. Porque se origina daquele primeiro mandamento que Deus deu a Adão: ‘Vai, faz crescer a terra, trabalha a terra, domina-a’. Sempre houve uma amizade entre a Igreja e o trabalho, a partir de Jesus trabalhador. Onde houver um trabalhador ali estarão o interesse e o olhar de amor do Senhor e da Igreja. Penso que isto é claro.” (Visita pastoral a Génova, 27 de maio de 2017).
Na sua audiência geral no dia 1 de maio de 2013, dirigiu um apelo aos poderes públicos no sentido de terem em conta a dignidade do trabalho do homem: 
Eu gostaria de estender a todos o convite à solidariedade e aos chefes do setor público convidá-los ao encorajamento, a fazerem de tudo para darem novo impulso ao emprego, o que significa preocuparem-se com a dignidade da pessoa mas, acima de tudo, exorto-os a não perderem a esperança. São José também teve momentos difíceis, mas nunca perdeu a confiança e soube superá-los, na certeza de que Deus não nos abandona. E agora gostaria de falar especialmente a vós, meninos e meninas, a vós jovens: esforçai-vos em vossas tarefas diárias, no estudo, no trabalho, nas relações de amizade, contribuindo com os outros; o vosso futuro também depende de como vós ides viver esses preciosos anos de vida. Não tenhais medo do compromisso, do sacrifício e não olheis para o futuro com medo, mantende viva a esperança: há sempre uma luz no horizonte.”.
E transcrevo a “Súplica do Santo Padre pelos trabalhadores” na pedreira de granito de Mahatzana (Antananarivo), no domingo, 8 de setembro de 2019, no âmbito da viagem apostólica a Moçambique, Madagáscar e Maurício.

Deus nosso Pai, criador do céu e da terra,
Nós Vos damos graças por nos reunirdes aqui como irmãos,
Em frente desta pedreira britada pelo trabalho do homem:
Nós Vos pedimos por todos os trabalhadores.

Por aqueles que o fazem com as próprias mãos e enorme esforço físico.
Preservai os seus corpos do desgaste excessivo:
Que não lhes falte a ternura e a capacidade de acariciar os seus filhos e jogar com eles.
Concedei-lhes o vigor da alma e a saúde do corpo
Para que não fiquem esmagados pelo peso da sua tarefa.

Fazei que o fruto do trabalho lhes permita
Assegurar uma vida digna às suas famílias.
Que encontrem nelas, à noite, calor, conforto e encorajamento,
E que juntos, reunidos sob o vosso olhar,
Conheçam as verdadeiras alegrias.

Saibam as nossas famílias que a alegria de ganhar o pão
É perfeita, quando este pão é partilhado.
Que as nossas crianças não sejam forçadas a trabalhar,
Possam ir à escola e continuar os seus estudos,
E os seus professores consagrem tempo a esta tarefa,
Sem precisarem doutras atividades para a subsistência diária.

Deus da justiça, tocai os corações de empresários e dirigentes:
Que eles provejam a tudo o que é necessário
Para assegurar a quantos trabalham um salário digno
E condições respeitosas da sua dignidade de pessoas humanas.

Com paterna misericórdia, cuidai daqueles que não têm trabalho,
E fazei que o desemprego, causa de tantas misérias,
Desapareça das nossas sociedades.
Possa cada um conhecer a alegria e a dignidade de ganhar o pão
Para o trazer para casa e sustentar os seus queridos.

Pai, criai entre os trabalhadores um espírito de verdadeira solidariedade:
Saibam velar uns pelos outros,
Encorajar-se mutuamente, sustentar quem está extenuado, levantar aquele que caiu.

Perante a injustiça, que o seu coração nunca ceda ao ódio,
Ao rancor, à amargura, mas mantenha viva a esperança
De ver um mundo melhor e trabalhar por ele.

Que saibam, juntos e de forma construtiva,
Fazer valer os seus direitos
E que as suas vozes e o seu clamor sejam atendidos.

Deus nosso Pai, Vós destes, como protetor
Aos trabalhadores do mundo inteiro, São José,
Pai adotivo de Jesus, esposo corajoso da Virgem Maria:
A Ele, entrego quantos trabalham aqui, em Akamasoa,
E todos os trabalhadores de Madagáscar, especialmente aqueles
Que levam uma vida precária e difícil.

Que Ele os guarde no amor do vosso Filho
E os sustente na sua vida e na sua esperança. Ámen!

***
Imploremos, pois, a intercessão de São José para realizarmos bem o trabalho que nos ocupa tanto tempo: as tarefas domésticas, profissionais, o escritório, o serviço público, o balcão, a cozinha, o computador, o trabalho fabril e de estrada, a docência, o trabalho de carregar pacotes ou de cuidar da portaria dum edifício, o serviço aos doentes e aos idosos, sobretudo neste tempo de pandemia. A grandeza dum trabalho não reside no seu status ou na quantidade do salário, mas  na capacidade de nos aperfeiçoar humana e sobrenaturalmente, nas possibilidades que nos oferece de levar adiante a família e de colaborar nas obras em favor dos homens, na ajuda que através dele prestamos à sociedade.
Nestes tempos de instabilidade sanitária e económica, São José operário pode valer a todos os que sofrem o drama do desemprego e a todos aqueles que veem drasticamente reduzido o seu rendimento. Que o guardião da Sagrada Família interceda pelas nossas necessidades de paciência e ultrapassagem da crise de confinamento clamando ao Pai e a Cristo para que não nos falte o pão de cada dia, pão que alimenta o corpo e pão que alimenta o espírito.
2020.05.02 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

“Aperuit illis”


Com a Carta Apostólica Aperuit illissob a forma de Motu Proprio, Francisco institui o “Domingo da Palavra de Deus”. Em conformidade com este documento pontifício,o III Domingo do Tempo Comum de cada ano litúrgico será dedicado à celebração, reflexão e divulgação da Palavra de Deus”.
O Motu Proprio, que responde aos muitos pedidos dos fiéis para que na Igreja se celebrasse o Domingo da Palavra de Deus, foi publicado a 30 de setembro passado, o dia em que a Igreja celebra a memória litúrgica de São Jerónimo, início dos 1.600 anos da morte do insigne tradutor da Bíblia para latim que vincava: “A ignorância das Escrituras é a ignorância de Cristo”.
A Carta Apostólica parte da seguinte passagem do Evangelho de Lucas (Lc 24,45):
Encontrando-se os discípulos reunidos, Jesus aparece-lhes, parte o pão com eles e abre-lhes o entendimento à compreensão das Sagradas Escrituras”.
Ora, no dizer do Sumo Pontífice, o Senhor “revela àqueles homens, temerosos e desiludidos, o sentido do mistério pascal”, ou seja, segundo o desígnio do Pai, “Ele devia sofrer a paixão e ressuscitar dos mortos para oferecer a conversão e o perdão dos pecados”, para o que “promete o Espírito Santo que lhes dará a força para serem testemunhas deste mistério de salvação”.
E, como Jesus abre as mentes para a compreensão das Escrituras, impõe-se na Igreja de discípulos a redescoberta da Palavra de Deus, que, não obstante os esforços desenvolvidos no sentido da sua proclamação, reflexão, estudo aprofundado e leitura para iluminar e enformar a vida, ainda é terreno desconhecido para tantos crentes que a conhecem pela rama ou que mal ouviram falar dela. Assim, o Santo Padre almeja que “possa o domingo dedicado à Palavra fazer crescer no povo de Deus uma religiosa e assídua familiaridade com as sagradas Escrituras, tal como ensinava o autor sagrado já nos tempos antigos: esta palavra ‘está muito perto de ti, na tua boca e no teu coração, para a praticares’ (Dt 30,14).”.
Francisco estriba-se, por um lado, na 2.ª Carta de Paulo a Timóteo, em que o apóstolo, como que, em testamento espiritual, “recomenda ao seu fiel colaborador que frequente assiduamente a Sagrada Escritura”, porque “toda a Escritura é inspirada por Deus e adequada para ensinar, refutar, corrigir e educar na justiça”. Mas, por outro lado e em conformidade com o discurso de Paulo, apoia-se no Concílio Vaticano II que “deu um grande impulso à redescoberta da Palavra de Deus” sobretudo com a Constituição Dogmática Dei Verbum”, o que pôs a Igreja a refletir sobre a importância da Palavra de Deus, a dar-lhe significativo relevo na liturgia e a perspetivar a reflexão eclesial e eclesiológica à luz da Palavra divina. E, mais perto de nós, Bento XVI convocou o Sínodo, em 2008, sobre o tema “A Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja” e escreveu a Exortação Apostólica “Verbum Domini” que “constitui um ensinamento imprescindível para as nossas comunidades” e onde se aprofunda “o caráter performativo da Palavra de Deus, sobretudo quando o seu caráter sacramental emerge na ação litúrgica”.
No dizer do Papa Bergoglio, o Domingo da Palavra de Deus situa-se num período do ano que em Igreja se convida ao reforço dos laços com os judeus e “a rezar pela unidade dos cristãos”. Não se trata, pois de mera coincidência temporal, pois “celebrar o Domingo da Palavra de Deus expressa um valor ecuménico, porque as Sagradas Escrituras indicam para aqueles que se colocam à escuta o caminho a percorrer para alcançar uma unidade autêntica e sólida”. E a Bíblia e o interesse por ela é comum a todas as confissões cristãs.
***
Sobre modo de celebrar o Domingo da Palavra de Deus, Francisco exorta a vivê-lo “como um dia solene, podendo entronizar-se o texto sagrado na celebração litúrgica, de modo a tornar evidente aos olhos da assembleia o valor normativo que possui a Palavra de Deus. Também os Bispos poderão celebrar o rito de instituição do ministério de Leitor ou conferir um ministério semelhante, de modo a chamar a atenção para a importância da proclamação da Palavra de Deus na liturgia. Deve, pois, fazer-se todo o esforço possível no sentido de preparar alguns fiéis para serem verdadeiros anunciadores da Palavra com uma preparação adequada. Os párocos poderão encontrar formas de entregar a Bíblia, ou um dos seus livros, a toda a assembleia, para fazer emergir a importância de continuar na vida diária a leitura, o aprofundamento e a oração com a Sagrada Escritura, com particular referência à lectio divina.
Com efeito, como escreve o Pontífice, “A Bíblia não pode ser património só de alguns”, nem “uma coletânea de livros para poucos privilegiados”. Na verdade, “a Bíblia é o livro do povo do Senhor que, escutando-a, passa da dispersão e divisão à unidade”. De facto, a Palavra que nos convoca une-nos e faz de nós “um só povo”.
E o Papa reitera a importância da preparação da homilia, dada a obrigação de explicar a Sagrada Escritura, sem discurso enfatuado e sem divagações despropositadas:
Os Pastores têm a grande responsabilidade de explicar e fazer compreender a todos a Sagrada Escritura (...) com uma linguagem simples e adaptada a quem escuta (...). Para muitos dos nossos fiéis, esta é a única ocasião que têm para captar a beleza da Palavra de Deus e a ver referida à sua vida diária (...). Não se pode improvisar o comentário às leituras sagradas. Sobretudo a nós, pregadores, pede-se o esforço de não nos alongarmos desmesuradamente com homilias enfatuadas ou sobre assuntos não atinentes. Se nos detivermos a meditar e rezar sobre o texto sagrado, então seremos capazes de falar com o coração para chegar ao coração das pessoas que escutam.”.
Evocando o episódio dos discípulos de Emaús, o Santo Padre vinca a indivisível relação entre a Sagrada Escritura e a Eucaristia”. Citando a Constituição Dogmática “Dei Verbum”, que ilustra “a finalidade salvífica, a dimensão espiritual e o princípio da encarnação para a Sagrada Escritura”, o Papa argentino explicita:
A Bíblia não é uma coletânea de livros de história nem de crónicas, mas está orientada completamente para a salvação integral da pessoa. A inegável radicação histórica dos livros contidos no texto sagrado não deve fazer esquecer esta finalidade primordial: a nossa salvação. Tudo está orientado para esta finalidade inscrita na própria natureza da Bíblia, composta como história de salvação na qual Deus fala e age para ir ao encontro de todos os homens e salvá-los do mal e da morte.”.
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E há um elemento fundamental para que a palavra de homens, formulada e passada à escrita verdadeiramente encarnada em contextos culturais, históricos e geográficos, se torne Palavra de Deus e palavra da salvação: o papel do Espírito Santo na Sagrada Escritura. Diz o Papa:
Para alcançar esta finalidade salvífica, a Sagrada Escritura, sob a ação do Espírito Santo, transforma em Palavra de Deus a palavra dos homens escrita à maneira humana. O papel do Espírito Santo na Sagrada Escritura é fundamental. Sem a sua ação, estaria sempre iminente o risco de ficarmos fechados apenas no texto escrito, facilitando uma interpretação fundamentalista, da qual é necessário manter-se longe para não trair o caráter inspirado, dinâmico e espiritual que o texto possui. Como recorda o Apóstolo, ‘a letra mata, enquanto o Espírito dá a vida’.”.
Por isso, se torna oportuna a afirmação dos Padres conciliares “segundo a qual a Sagrada Escritura deve ser lida e interpretada com o mesmo Espírito com que foi escrita”. Na verdade, com Jesus Cristo, a revelação de Deus alcança a sua realização e plenitude; e o Espírito Santo continua a sua ação. Mas a ação do Espírito Santo não se circunscreve à natureza divinamente inspirada da Sagrada Escritura e aos seus diversos autores. Antes, ela “continua a realizar uma peculiar forma de inspiração, quando a Igreja ensina a Sagrada Escritura, quando o Magistério a interpreta de forma autêntica e quando cada fiel faz dela a sua norma espiritual” – escreve o Papa Francisco. De facto, a fé bíblica funda-se na Palavra viva, não sobre um livro.
Falando sobre a encarnação do Verbo de Deus que “dá forma e sentido à relação entre a Palavra de Deus e a linguagem humana, com as suas condições históricas e culturais”, o Pontífice frisa que “muitas vezes corre-se o risco de separar Sagrada Escritura e Tradição, sem compreender que elas, juntas, constituem a única fonte da Revelação”. Na verdade, a maior parte dos livros bíblicos passaram à escrita após a vivência e o filtro da tradição, que os fixou, sendo que o Espírito Santo lhes deu o aval de inspirados. Assim, “quando a Sagrada Escritura é lida com o mesmo Espírito com que foi escrita, permanece sempre nova”; e “quem se alimenta dia a dia da Palavra de Deus torna-se, como Jesus, contemporâneo das pessoas que encontra; não se sente tentado a cair em nostalgias estéreis do passado, nem em utopias desencarnadas relativas ao futuro”. “Por isso, é necessário que nunca nos abeiremos da Palavra de Deus por mero hábito, mas nos alimentemos dela para descobrir e viver em profundidade a nossa relação com Deus e com os irmãos. A Palavra de Deus apela constantemente para o amor misericordioso do Pai, que pede a seus filhos que vivam na caridade. A Palavra de Deus é capaz de abrir os nossos olhos, permitindo-nos sair do individualismo que leva à asfixia e à esterilidade enquanto abre a estrada da partilha e da solidariedade.
E a carta conclui com uma referência a Maria, a serva do Senhor e a facilitadora da ação da Palavra e que nos acompanha “no caminho do acolhimento da Palavra de Deus”, sendo que “a bem-aventurança de Maria antecede todas as bem-aventuranças pronunciadas por Jesus para os pobres, os aflitos, os mansos, os pacificadores e os que são perseguidos, porque é condição necessária para qualquer outra bem-aventurança”.
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Em entrevista ao Vatican News, o Arcebispo Rino Fisichella, presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização, explica os principais temas da Carta Apostólica “Aperuit Illis”, dizendo que “temos necessidade de entrar em confidência constante com as Escrituras Sagradas, caso contrário o coração permanece frio e os olhos permanecem fechados, atingidos como somos por inúmeras formas de cegueira”. Por outro lado, permitindo-nos a leitura constante da Sagrada Escritura abrir os olhos para sair “do individualismo”, também se nos constitui como a chave para nos levar à partilha e à solidariedade.
Ao comentar a Carta, Rino Fisichella, destaca o “valor histórico” da iniciativa do Pontífice para o amadurecimento do povo cristão, definindo-a como “uma oportunidade pastoral” para revigorar o anúncio neste momento histórico cheio de desafios, sendo que a Palavra de Deus se expressa com o testemunho.
Diz o Arcebispo que, apesar de resultar de tantos pedidos de pastores e leigos após o Jubileu da Misericórdia, esta ideia do Papa não é só de agora:
Então, na sua Carta Apostólica ‘Misericordia et Misera’, na conclusão do Jubileu, ele havia acenado a que nas Igrejas, segundo a própria criatividade – porque muito já é feito a esse respeito – fosse instituído um domingo no qual a Palavra de Deus fosse colocada no centro do coração da vida da comunidade cristã, como sinal unitário e assim, dessa maneira, a força da Palavra de Deus para a comunidade poderia emergir ainda mais, mas também a responsabilidade que a comunidade sente de ter de tornar partícipe por meio de uma ação realmente evangelizadora”.
É certo que todos os domingos são da Palavra de Deus. Mas Rino Fisichella, afirmando que o domingo tem um valor histórico, explica:
Cada domingo (…) celebramos o sacrifício de sua Paixão, a morte e o mistério de sua ressurreição. Portanto, a ação litúrgica com a celebração da Eucaristia torna-se o ápice da vida cristã. (…) É verdade que todos os domingos escutamos a Palavra de Deus, mas isso não impede que num domingo a Palavra de Deus possa estar em toda a Igreja, em todas as comunidades cristãs, proclamada com maior solenidade e possa haver uma reflexão particular acompanhada por sinais mais visíveis sobre a importância que essa Palavra tem para a Igreja.”.
Quanto ao valor ecuménico deste domingo, explica o presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização:
O Papa escolheu celebrar este domingo no III Domingo do Tempo Comum, quando todas as leituras que são proclamadas no Evangelho apresentam a figura de Jesus como anunciador do Reino de Deus. Não esqueçamos, porém, que isso ocorre também em um momento temporal em que se celebra, alguns dias antes, o Dia do Diálogo com os Judeus e, em seguida, é celebrada a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos. Não esqueçamos, isso não é o mesmo que os Dias Mundiais, como normalmente estamos acostumados a pensar, este é um domingo que, mesmo que apenas uma vez por ano, vale por todo o ano. O Papa diz isso explicitamente: o dia dedicado à Bíblia quer ser não uma vez por ano, mas uma vez por todo o ano, a fim de se tornar mais familiar com o texto sagrado.”.
Depois, Rino Fisichella abordou as três imagens bíblicas apontadas por Francisco. A de Emaús, serve ao Papa para fazer as pessoas compreenderem como, por meio da Palavra do Senhor, Ele acompanha a vida de cada fiel, a vida da Igreja e “queima o coração de cada um de nós quando essa Palavra é proclamada porque fala d’Ele”. A do retorno do povo judeu após o exílio e a redescoberta dos livros da Lei, ressaltando a proclamação então feita no livro de Neemias, que recorda esse momento histórico do povo judeu (com esta imagem indica-se que a Palavra cria um povo e faz com que as pessoas se sintam reunidas para a ouvirem e a viverem e que a palavra proclamada vivida traz a alegria). E, por fim, vem imagem mista da doçura e amargura da Palavra, espelhada no profeta Ezequiel e no Apocalipse, com que o Pontífice nos explica que a Palavra de Deus é doce, mas ao mesmo tempo é amarga porque às vezes não é acolhida, não é vivida ou é rejeitada.
A Carta abunda em indicações concretas aos batizados, mas, como se pode ver lendo-a, também há indicações concretas aos sacerdotes  e aos bispos. O Papa recorda aos sacerdotes o valor da homilia como “ocasião pastoral que não deve ser perdida”, que requer dos sacerdotes o chamamento ao contacto diário com aquela Palavra que depois devem explicar e da qual o povo “tem o direito de ter uma explicação inteligente e coerente que toque a vida e as necessidades presentes em cada um”. E recorda aos bispos que, neste domingo, poderão celebrar, por exemplo, a criação do Ministério da Leitura. Mas o Papa vai mais além e diz que, a partir dos próximos anos, “é bom que o papel de um serviço extraordinário seja mais enfatizado, assim como existe o serviço extraordinário da Comunhão, que também possa haver um ministério e um mandato específico com o qual as pessoas se preparam primeiro para um contacto mais imediato de estudo, de reflexão com a Palavra de Deus, e depois sejam também instituídos e em um ministério extraordinário”. E Fisichella vê aqui “uma provocação pastoral”. Com efeito, sucede em nossas igrejas, que muitas vezes lê a primeira pessoa que achamos disponível. Mas isto não é valorizar devidamente a Palavra de Deus, que “deve encontrar pessoas, mulheres, homens capazes de uma proclamação autêntica” e capaz da “inteligência do texto sagrado”.
***
É uma Carta Apostólica que merece ser lida e refletida. A Palavra de Deus merece-o e espera o entusiasmo dos fiéis e o cuidado dos pastores.
2019.09.01 – Louro de Carvalho