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domingo, 3 de novembro de 2019

Não lhe puxou as orelhas nem lhe pregou um sermão


Na homilia da missa das 12 horas do 31.º domingo do Tempo Comum no Ano C, na igreja dos Passionistas, em Santa Maria da Feira, o Padre Porfírio Sá comentava o Evangelho assumido para a Liturgia da Palavra que narra a história do encontro de Jesus com Zaqueu (Lc 19,1-10) e, ao falar do encontro destas duas personagens, sublinhava que não foi Zaqueu quem tomou a iniciativa de falar a Jesus e convidá-lo a ir a sua casa, mas que foi Jesus quem olhou para Zaqueu e lhe disse: “Zaqueu, desce depressa, pois hoje tenho de ficar em tua casa”.
Referia o sacerdote passionista que Jesus falou como se fosse devedor para com Zaqueu e não como credor. E, ao entrar em casa de Zaqueu, não aproveitou a oportunidade para lhe dar um forte puxão de orelhas, pôr toda vida do pecador em evidência ou pregar-lhe um incontornável e solene sermão. Não, o Mestre dos mestres utilizou o seu olhar de empatia e misericórdia.
Zaqueu vivia em Jericó, o oásis situado nas margens do mar Morto, a cerca de 34 quilómetros de Jerusalém. Era a última etapa dos peregrinos que, da Pereia e da Galileia, se dirigiam a Jerusalém para as grandes festividades (o “caminho de Jerusalém”, que Jesus vem a percorrer, segundo Lucas, está a chegar ao fim). Jericó uma cidade próspera (sobretudo graças à produção de palmeiras e bálsamo), com grandes e belos jardins e palácios (por ação de Herodes, o Grande, e seu filho Arquelau, que fizeram desta cidade a sua residência de inverno). Sita em lugar privilegiado de importante rota comercial, era espaço de oportunidades e grandes negócios (e de negócios “duvidosos”).
Segundo Flávio Josefo, Jericó possuía um importante polo de produção de palmeiras e bosques de bálsamo. E o unguento derivado deste bálsamo de Jericó era muito desejado na época. Isto significa que aquela área era uma fonte muito significativa de impostos, uma das três principais coletorias de impostos da Palestina, e Zaqueu era um dos principais responsáveis por essa arrecadação.
O nome hebraico de Zankkaîos (Zaqueu) é contração de Zacarias, a significar “aquele de quem Yahweh se lembra” ou “aquele que é justo” (o antípoda da vida que levava). E ele era um “chefe de publicanos”, portanto, um homem que o judaísmo considerava um pecador público, um explorador dos pobres, um colaboracionista ao serviço dos opressores romanos e, portanto, um excluído da comunidade da salvação. Como os demais publicanos servia-se do cargo para enriquecer de modo ilícito (exigia impostos muito acima do fixado pelos romanos e arrecadava para si a diferença). E, se os publicanos eram considerados ladrões, então o chefe seria um superladrão.
A designação de “chefe de publicanos” traduz o grego arkhitelónês e indica que ele era um subcontratante de outros coletores. Portanto, tinha a supervisão de alguns responsáveis por arrecadar os impostos indiretos para o império romano, pelo que era um homem importante, uma pessoa proeminente na região. Por isso, o texto bíblico completa a informação dizendo que era um homem rico. Era, pois, um pecador público sem hipótese de perdão, excluído do convívio com as pessoas decentes e sérias, um marginal, considerado amaldiçoado por Deus e desprezado pelos homens. A sua pequena estatura – mais que indicação de caráter físico – pode significar a sua pequenez e insignificância do ponto de vista sociomoral.
Porém, este pecador procurava ver Jesus. Ora, este ver indicará aqui mais do que a simples curiosidade: a procura, a vontade firme de encontro com algo novo, talvez o desejo de fazer parte dessa comunidade de salvação que Jesus anunciava. Entretanto, o Mestre parecer-lhe-ia distante e inacessível, rodeado dos “puros” e “santos” que desprezavam os marginais. O subir “a um sicómoro” indica o desejo de encontro com Jesus, desse por onde desse, muito mais forte do que o medo do ridículo ou das vaias da multidão.
Jesus lança o olhar para o homem que espreita o Mestre do meio dos ramos do sicómoro. E incute o seu interesse em entrar em comunhão com Ele, estabelecer laços de familiaridade. Parece, em quadro escandaloso, esquecer-se dos “puros” que O rodeiam e O escutam, que agora ficam como que suspensos à espera do que vai acontecer naquela casa de pecador e marginal.
É a concretização do “deixar as noventa e nove ovelhas para ir à procura da que estava perdida”. É o espelho da fragilidade do coração de Deus que, ante o pecador que busca a salvação, deixa tudo para ir ao seu encontro.
Obviamente a multidão reage murmurando: “Foi hospedar-se em casa de um pecador”. É a postura de quem se considera “justo” e despreza os outros, de quem vive das suas certezas, de quem está convicto de que a lógica de Deus é a lógica de castigo, marginalização, exclusão. No entanto, Jesus mostra que a lógica de Deus é diferente da lógica dos homens e que a oferta de salvação que Deus faz não exclui nem marginaliza ninguém; é mesmo para todos.
Tudo termina com um banquete, onde está Zaqueu, o chefe dos publicanos, que simboliza o “banquete do Reino”. Assim, Jesus mostra que os pecadores têm lugar no “banquete do Reino”, que Deus os ama, que quer integrá-los na sua família e estabelecer com eles laços de comunhão e de amor. Jesus mostra que Deus não exclui nem marginaliza nenhum dos seus filhos – mesmo os pecadores – mas a todos oferece a salvação.
Dizia o Padre Porfírio Sá que não houve da parte do hospedeiro do Senhor um formal ato de contrição, uma demonstração, por palavras, do arrependimento que se exige. Mas a troca de olhares iniciada por Jesus provocou as condições de aceitação do Reino, da conversão: dar metade dos bens aos pobres e restituir o quádruplo de quanto terá roubado. E Zaqueu, feita a experiência do amor de Deus, acolhe o dom de Deus, converte-se ao amor, torna-se generoso. A repartição dos bens pelos pobres e a restituição de tudo o que foi roubado em quádruplo, vai muito além do que a lei judaica exigia; é sinal da transformação do coração. O amor de Deus não se derramou sobre Zaqueu depois de ele ter mudado de vida, mas foi o amor de Deus – que Zaqueu experimentou quando ainda era pecador – que provocou a conversão e que converteu o egoísmo em generosidade e levou o pecador a seguir Jesus. Assim se conclui que só a lógica do amor pode transformar o mundo e os corações dos homens.
É interessante notar que, apesar da ansiedade de Zaqueu em querer ver Jesus, ele parece ter ficado surpreendido pelo facto de a iniciativa do contacto entre eles ter partido do próprio Senhor, e não dele. Isto sugere que Zaqueu desejava vê-Lo, mas era Jesus quem estava à procura dele. Além disso, Jesus não pediu permissão a Zaqueu para entrar e permanecer em sua casa. E este também não propôs uma possibilidade de encontro. Literalmente o Senhor simplesmente disse: hoje eu vou ficar em sua casa.
Face à atitude de Jesus, a multidão começou a reclamar. Ficaram indignados porque Jesus havia dito que visitaria a casa de Zaqueu e não a de outrem. Os judeus odiavam os publicanos: e agora emergiu a inveja à mistura com o ódio. Consideravam os coletores de impostos como ladrões, extorquidores e traidores. Mas Jesus havia decidido ficar na casa do principal desses coletores, pois estava em busca de um dos homens mais detestados da cidade, pois todos têm lugar no Reino de Deus.
No encontro com Jesus, Zaqueu demonstrou realmente um arrependimento genuíno, que não ficou na teoria ou em palavras vazias. Revelou o arrependimento na prática ao declarar a doação aos pobres. Não estava a tentar obter a salvação com as boas obras, mas a entregar diante de Jesus a sua oferta de ação de graças. Mas não parou neste ponto: comprometeu-se ainda a devolver em quádruplo qualquer quantia com que tivesse defraudado alguém.
Normalmente a Lei Mosaica exigia que numa restituição fosse acrescentado um quinto do valor como um tipo de juros (Lv 6,1-5; Nm 5,7). Zaqueu, no entanto, decidiu fazer ainda mais do que isso. Não ofereceu um quinto de acréscimo na restituição, mas quatro vezes mais.
Considerando o facto de ter doado metade dos seus bens aos pobres e de ter declarado na presença de todos uma restituição tão generosa, é de inferir que Zaqueu tinha sido desonesto ao longo da sua vida. Direta ou indiretamente, o chefe dos cobradores de impostos havia permitido e também feito uma cobrança excessiva.
Muitos tentam provar que Zaqueu não teria sido um extorquidor, como se Cristo não pudesse jamais ter olhado para um corrupto. Todavia, o contexto da história de Zaqueu aponta noutra direção. Naquele dia, Jesus mostrou compaixão para com alguém que certamente não a merecia. É caso parecido com o da eleição de Mateus para o seguimento de Jesus, como se lê em Mateus:
Partindo dali, Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado no posto de cobrança, e disse-lhe: ‘Segue-me!’ E ele levantou-se e seguiu-O.  
“Encontrando-se Jesus à mesa em sua casa, numerosos cobradores de impostos e outros pecadores vieram e sentaram-se com Ele e os seus discípulos. Os fariseus, vendo isto, diziam aos discípulos: ‘Porque é que o vosso Mestre come com os cobradores de impostos e os pecadores?’
“Jesus ouviu-os e respondeu-lhes: ‘Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Ide aprender o que significa: Prefiro a misericórdia ao sacrifício. Porque Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores’.” (Mt 9,9).
Zaqueu pôde ouvir de Jesus as doces palavras: Hoje a salvação entrou nesta casa, porque até este homem é um filho de Abraão (Lc 19,9). Jesus não disse que havia entrado na casa de Zaqueu um mero conforto, uma alegria superficial ou uma prosperidade terrena e passageira. Foi claro ao dizer que a salvação, não menos que isto, havia entrado naquela casa. Zaqueu e as demais pessoas daquele lar estavam diante da maior bênção que poderiam receber.
Consequentemente, Jesus declarou que Zaqueu era filho de Abraão. Obviamente o objetivo de Jesus não era dizer que o publicano era um descendente biológico do grande patriarca (não podia ser). Mas, ao dizer que também ele era um filho de Abraão, vincava o sentido espiritual. Zaqueu estava a juntar-se, pela fé no Filho de Deus, à verdadeira descendência de Abraão (cf GL 3,9.29).
A história termina com a confirmação por parte de Jesus de que havia sido Ele quem encontrou o chefe dos publicanos, e não o contrário. Ele disse: Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que estava perdido (Lc 19,10). Jesus buscou, encontrou e salvou Zaqueu. O Bom Pastor encontrou uma das suas ovelhas perdidas (Lc 15,1-7). Poucos dias depois, Aquele a quem Zaqueu recebeu em casa, derramaria o seu sangue e entregaria a sua vida também em seu favor.
***
Também o Papa Francisco comentou esta perícopa evangélica antes da recitação do Angelus com os fiéis e peregrinos concentrados na Praça de São Pedro. E, exortando a que, a exemplo de Zaqueu, nos deixemos converter pelo olhar misericordioso de Jesus, observou:
Quem nunca se sentiu procurado pela misericórdia de Deus tem dificuldade em compreender a extraordinária grandeza dos gestos e palavras com que Jesus se aproxima de Zaqueu”.
E, ao concluir a sua alocução, pediu que a Virgem Maria obtenha para nós a graça de sempre sentirmos sobre nós o olhar misericordioso de Jesus, para então, com misericórdia, irmos ao encontro dos que praticam o mal. Com efeito, como referiu, “o desprezo e o fechamento em relação ao pecador não fazem senão isolá-lo e endurecê-lo no mal que ele faz contra si e contra a comunidade”.
O fio condutor da reflexão papal foi a conversão de Zaqueu, que muda radicalmente de mentalidade pela atenção e acolhimento que recebe de Jesus e que, ao encontrar o Amor e descobrir que é amado, se torna capaz de amar os outros, restituindo quatro vezes mais a quem havia prejudicado. Diz o Pontífice que este chefe de “publicanos”, isto é, dos judeus cobradores de impostos “era rico não devido a ganhos honestos, mas por exigir a gratificação adicional (Como o império lhes pagava mal, eles cobravam em excesso), o que aumentava o desprezo por ele”. Mas, ao saber da passagem de Jesus por ali, fica curioso em ver quem era Ele, pois ouvira  dizer coisas extraordinárias a seu respeito. Sendo de baixa estatura, sobe a uma árvore. Mas é Jesus quem, entre tantos rostos que o cercavam, “olha para cima e o vê”. E diz o Papa:
Isso é importante: o primeiro olhar não é de Zaqueu, mas de Jesus, que entre os muitos rostos que o cercam, procura exatamente aquele. O olhar misericordioso do Senhor alcança-nos antes mesmo que nós percebamos que temos necessidade de sermos salvos.”.
E foi precisamente com esse olhar do divino Mestre – salienta o Santo Padre – que  se iniciou “o milagre da conversão do pecador”. Jesus chama-o pelo nome e pede que desça depressa, pois quer estar com ele em sua casa. E, como dizia o Padre Porfírio Sá, também Francisco enfatiza que Jesus não censura Zaqueu, não lhe faz um ‘sermão’, mas mostra-lhe que deve ir até ele: ‘deve’, porque é a vontade do Pai”. As pessoas murmuram por Jesus optar pela entrada na casa de um pecador público, desprezado por todos. E o Pontífice comentou:
Nós também teríamos ficado escandalizados com esse comportamento de Jesus. Mas o desprezo e o fechamento em relação ao pecador não fazem senão que isolá-lo e endurecê-lo no mal que ele faz contra si e contra a comunidade. Em vez disso, Deus condena o pecado, mas tenta salvar o pecador, vai procurá-lo para trazê-lo de volta ao caminho reto. (…) Quem nunca se sentiu procurado pela misericórdia de Deus tem dificuldade em compreender a extraordinária grandeza dos gestos e palavras com que Jesus se aproxima de Zaqueu.”.
Frisou o Santo Padre que a atenção de Jesus e a forma como foi acolhido levaram Zaqueu a uma mudança de mentalidade. Naquele instante percebeu quanto é mesquinha uma vida movida pelo dinheiro, à custa de roubar os outros e ser desprezado por eles”. E o Bispo de Roma vincou:
Ter o Senhor ali, em sua casa, faz com que ele veja tudo com olhos diferentes, também com um pouco da ternura com que Jesus olhou para ele. E muda também o seu modo de ver e de usar o dinheiro: substitui o gesto do extorquir pelo de dar. De facto, decide dar metade do que possui aos pobres e restituir quatro vezes mais àqueles de quem roubou. Zaqueu descobre de Jesus que é possível amar gratuitamente: até agora ele era avarento, agora torna-se generoso; gostava de acumular, agora alegra-se em distribuir. (…) Encontrando o Amor, descobrindo que é amado apesar dos seus pecados, torna-se capaz de amar os outros, fazendo do dinheiro um sinal de solidariedade e de comunhão.”.
Por fim, formulou o desejo de que “a Virgem Maria nos obtenha a graça de sempre sentir sobre nós o olhar misericordioso de Jesus, para sairmos com misericórdia ao encontro dos que fizeram mal, para que possam acolher Jesus, que “veio buscar e salvar o que estava perdido”. 
***
E, após a oração do Angelus e o apelo pelas vítimas da violência na Etiópia, o Papa agradeceu à Prefeitura e à Diocese de San Severo (na Puglia), a assinatura do Protocolo de Intenções, de 28 de outubro, “que permitirá aos trabalhadores dos assim chamados guetos da Capitanata, na região de Foggia, obter uma residência em paróquias e o registo no cartório municipal”. E frisou:
A possibilidade de ter documentos de identidade e de residência oferecer-lhes-á nova dignidade e permitir-lhes-á sair de uma condição de irregularidade e de exploração”.
Muitos trabalhadores são explorados nas plantações por pessoas de má-fé, que se aproveitam da sua condição irregular. Mal remunerados, sem nenhum direito ou garantia, vivendo em galpões sem as mínimas condições de uma vida digna, são os novos marginalizados que urge acolher.
2019.11.03 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

A multidão dos bem-aventurados, filhos de Deus, que procuram o Senhor

A Liturgia da Solenidade de Todos os Santos assume para proclamar e meditar os textos das passagens: do Apocalipse (Ap 7,2-4.9-14), para 1.ª leitura; da 1.ª carta de São João (1Jo 3,1-3), para 2.ª leitura; e do Evangelho de São Mateus (Mt 5,1-12), 3.ª leitura. Estas leituras revelam o projeto de Deus a respeito do homem: torná-lo participante da sua Vida e Santidade.
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A perícopa do Apocalipse apresenta uma visão celestial em que o vidente, que se chama João, falando na 1.ª pessoa do singular se surpreende com a subida dum Anjo, que vinha do nascente trazendo “o selo do Deus vivo” (marca de propriedade, aqui de Salvação: a Cruz e o Batismo) e que bradou aos quatro anjos (dos 4 pontos cardeais, donde emergem as 4 virtudes humanas: prudência, justiça, fortaleza e temperança) a quem foi dado o condão de danificar a terra e o mar:
Não causeis dano à terra, nem ao mar, nem às árvores, até que tenhamos marcado na fronte os servos do nosso Deus”.
Essa ordem do Anjo lembra-nos que aqueles que procuram o Senhor, os que se deixam purificar no sangue vertido de Deus feito homem (representado na água do Batismo), recebem na fronte (para se tornar visível) a marca de filhos, de herdeiros; o selo de Deus, o selo do Espírito.
E o vidente, tornado ouvinte, escutou o número dos que foram marcados: cento e quarenta e quatro mil, de todas as tribos dos filhos de Israel – este número simbólico de 144 mil (formado por números sagrados de totalidade: 12 mil por cada uma das 12 tribos; ou 12 apóstolos x 12 mil) é o da totalidade dos filhos de Israel que se mantiveram na fidelidade ao seu Deus e ao Cristo que os remiu, continuando seu povo a integrar o reino messiânico, que desemboca no dia escatológico, onde se inclui, por mercê de Deus, toda a comunidade cristã, viva ela onde viver, porque herdeira das promessas e dos bens messiânicos e escatológicos.
Mas este vidente/ouvinte, testemunha das maravilhas de Deus e da caminhada do seu povo para a escatologia alargou a sua visão e ampliou a sua audição para contemplar “a multidão imensa, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas. Todos estavam de pé, diante do trono e na presença do Cordeiro (Jesus Cristo, o divino Alfa e Ómega, o perfeito “éscaton”, como é o perfeito “arque”), revestidos de túnicas brancas e com palmas na mão. É a Igreja militante que, mediante a sua condição de Igreja purgante, se torna Igreja triunfante, com os mártires na vanguarda. E clamavam em alta voz a saudação a Deus (o divino Grande Ancião) e ao seu Cordeiro:
A salvação ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro”.
Todos os Anjos (os espíritos celestes que servem a Deus e se incumbem de mensagens e missões da Divindade para os homens) formavam círculo em volta do trono, dos Anciãos e dos quatro Seres Vivos. Prostraram-se diante do trono, de rosto por terra, e adoraram a Deus, dizendo em doxologia:
Ámen! A bênção e a glória, a sabedoria e a ação de graças, a honra, o poder e a força ao nosso Deus, pelos séculos dos séculos. Ámen!”.
Um dos Anciãos tomou a palavra e interpelou o vidente: “Esses que estão vestidos de túnicas brancas, quem são e de onde vieram?”. E o vidente respondeu: “Meu Senhor, vós é que o sabeis”. E o Ancião, que de interpelante passou a profeta ou porta-voz do Altíssimo, declarou:
São os que vieram da grande tribulação, os que lavaram as túnicas e as branquearam no sangue do Cordeiro”.
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A grande tribulação de que fala o texto será certamente a prova escatológica antecipada por Daniel (Dn 12,1: surgirá Miguel, o grande chefe, o protetor dos filhos do seu povo. Será época de tal desolação, como jamais houve igual desde que as nações existem até àquele momento. Então, entre os filhos do teu povo, serão salvos todos aqueles que se acharem inscritos no livro), relacionada com o Dia do Senhor, de que falam também outros profetas. Aqui, será o longo e intenso tempo das perseguições a que foram sujeitos – e continuam a sê-lo – os cristãos.
As primeiras perseguições tinham feito destruições cruéis nas comunidades cristãs, ainda tão jovens. A questão que se levantava era: Iriam desaparecer estas comunidades, acabadas de fundar? E as visões do apóstolo ou profeta cristão trazem uma mensagem de esperança na provação, mas veiculada por uma linguagem codificada, que evoca Roma, perseguidora dos cristãos, sem a nomear diretamente, aplicando-lhe o qualificativo de Babilónia, qualificativo aplicável à onda das perseguições organizadas dos tempos históricos e dos atuais, muitas delas de índole terrorista. E a revelação proclamada é a da vitória do Cordeiro, que paradoxalmente fora imolado. Mas é o Cordeiro da Páscoa definitiva, o Ressuscitado, que transformou o caminho de morte em caminho de vida para todos aqueles que o seguem, em particular pelo martírio. E os mártires, tão numerosos, participam doravante no seu triunfo, numa festa eterna.
***
A perícopa da 1.ª Carta de João assegura que somos efetivamente filhos de Deus mercê do admirável amor que o Pai nos consagrou em nos chamar seus filhos. E, garante que, se o mundo não nos reconhece como filhos de Deus, é porque O não conheceu a Ele.
E o texto joânico recorda-nos que a Vida divina de filhos de Deus, que se manifestará no final da vida, já está presente em nós desde agora. Desde o nosso batismo, somos chamados filhos de Deus e o nosso futuro tem a marca da eternidade e da santidade. O texto reforça esta mensagem de esperança, que responde às nossas interrogações sobre o destino dos defuntos: Que virão a ser? Como sabê-lo, pois desapareceram dos nossos olhos? E nós próprios, que viremos a ser? A resposta é uma dedução absolutamente lógica: se Deus, no seu imenso amor, faz de nós seus filhos, não nos pode abandonar. Ora, em Jesus, vemos já qual o futuro a nos conduz a pertença à família divina: seremos semelhantes a Ele, vê-Lo-emos tal como Ele é. E todo aquele que tem n’Ele esta esperança purifica-se a si mesmo, para ser puro, como ele é puro.
E esta pureza joânica da Carta liga-se perfeitamente à pureza das túnicas brancas do Apocalipse branqueadas no sangue do Cordeiro mártir. Ligamo-nos a Ele pelo batismo de água e/ou pelo batismo de sangue. E esta pureza remete para a pureza das bem-aventuranças, não assente na pureza ritual exterior imposta na Lei, mas sobretudo na do coração apregoada pelos profetas. Os puros de coração, que são filhos de Deus, mercê da bondade divina e da sua capacidade em fazer a paz, verão a Deus na sua luz e perfeição. Trata-se de uma pureza de coração, dom de Deus, que parte da limpidez do olhar e se reflete no olhar com que se olham os mistérios de Deus e a beleza do mundo, mas é também uma pureza que se ganha, constrói e cultiva.
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E estamos catapultados para o Evangelho das bem-aventuranças (pórtico do Sermão da Montanha, em Mateus) se quisermos, como discípulos, aproximar-nos de Jesus, que subiu ao monte e nos fala sentado, não com arrogância dos poderosos, mas com doçura e simplicidade (vd Mt 5,1-2).
Jesus apresenta a proposta das Bem-Aventuranças, como a melhor via para a Santidade. Cristo diz a palavra Bem-aventurados ou Felizes oito vezes com os verbos na 3.ª pessoa do singular e uma vez na 2.ª do plural endereçada diretamente aos discípulos. Vejamos:
Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos Céus; os humildes, porque possuirão a terra; os que choram, porque serão consolados; os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados; os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia; os puros de coração, porque verão a Deus; os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus; e os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o reino dos Céus. Mas Bem-aventurados sereis, “quando, por minha causa, vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós. Alegrai-vos e exultai, porque é grande nos Céus a vossa recompensa”. (Sublinhei os tipos de bem-aventurados e coloquei a negrito as expressões de recompensa).
A posse do reino dos Céus é para os pobres voluntários e não só à força e para os perseguidos, não por motivos políticos ou por teimosia pessoal, mas por amor da justiça e do Evangelho. Ver a Deus e ser chamado de filho de Deus são atributos dos puros de coração (que olham o mundo com olhar de criança e não de malícia) e para os que fazem a paz, respetivamente; a posse da terra, a consolação e a saciedade serão apanágio respetivamente dos mansos ou humildes, dos que choram e dos famintos e sedentos de justiça; e a misericórdia será atributo dos que usam de misericórdia para com todo aquele que se constitui em próximo pela exploração, necessidade, pela marginalização, roubo da dignidade, abandono ou fragilidade. Porém, tudo isto deverá coincidir harmoniosamente na pessoa do discípulo de Cristo; e a Igreja dos discípulos tem de ser mais a Igreja das bem-aventuranças que a dos 1752 cânones do Código de Direito Canónico e legislação complementar ou que a dos 1546 cânones do CODEX CANONUM ECCLESIARUM ORIENTALIUM e legislação complementar.
***
As Bem-aventuranças revelam a misteriosa realidade da vida em Deus, iniciada no Batismo. Aos olhos do mundo, os servidores de Deus sofrem, efetivamente, formas de morte: pobreza, humildade, aceitação das provações (os que choram) ou privações (fome e sede) de justiça, simplicidade, perseguição, pacificidade, reconciliação e misericórdia, num mundo de violência e de lucro... Tudo isso aparece como não rentável, votado ao fracasso, à morte. Mas que pensa Cristo? Pelo contrário, proclama felizes a todos os seus amigos – os que O seguiram, se sentem filhos de Deus, beberam das águas da salvação e querem ser puros como Deus é puro – que o mundo despreza e considera como inúteis, descartáveis ou mortos, e consola-os, alimenta-os, chama-os filhos de Deus, introdu-los no Reino dos Céus e na Terra Prometida.
Ora, a Solenidade de Todos os Santos abre-nos assim o espírito e o coração às consequências da Ressurreição. O que se passou em Jesus realizou-se também nos seus bem-amados, os nossos antepassados na fé, e diz-nos igualmente respeito: sob as folhas mortas, sob a pedra do túmulo, a vida continua, misteriosa, para se revelar no Grande Dia, quando chegar o fim dos tempos. Para Jesus, foi o terceiro dia; para os seus amigos, isso acontecerá mais tarde.
É a festa da Vida, mesmo que renascida do turbilhão, dos escombros ou das cinzas, e celebra a plenitude da Vida cristã e a Santidade de Deus manifesta nos seus filhos, os santos da Igreja. Celebra como que, em antecipação e em comunhão com a liturgia celeste, a vitória dos irmãos que superaram “a grande tribulação” e estão marcados com o selo do Deus vivo; os que vivem para sempre diante de Deus, entre os quais, se encontram os nossos entes queridos já falecidos.
A fé é culto à Vida, porque o nosso Deus é um Deus de vivos e, pelo Espírito, nos dá a Vida em Cristo Jesus ressuscitado de entre os mortos. Por isso, esta é a festa do convite total à alegria e à esperança, que nasce das profundezas da Vida, da aspiração da felicidade sem ocaso.
A Fonte da santidade é Deus. E a santidade tem o seu início, crescimento e consumação na graça de Deus, no amor gratuito do Senhor, que derrama o seu Espírito nos nossos corações para que possamos chamá-lo “Paizinho”. A santidade não é, pois, um mero produto do esforço humano que procura alcançar Deus com as suas forças nem tão-pouco resultado automático da graça que paira nos ares, mas efeito da ação de Deus em nós. A santidade tem, assim, duas dimensões: é ação de Deus em nós pelo dom do Espírito Santo; e resposta do cristão a esse dom e presença de Deus. A Santidade manifesta-se como participação na vida de Deus, que se realiza com os meios que a Igreja nos oferece, especialmente através dos Sacramentos. E a morada dos Santos será o Céu, que não é tanto um lugar, mas sobretudo um estado de felicidade na presença e companhia de Deus, dos anjos e dos santos, que supera a nossa imaginação e entendimento:
Nem olhos viram, nem ouvidos escutaram nem o homem pode imaginar o que Deus preparou para aqueles que O amam” (1Cor 2,9). “Agora vemos como num espelho, mas depois veremos face a face” (1Cor 13,12).
A Eternidade não se reduz ao “eterno descanso”, mas é vida ativa e intensa com Deus.
Santo significa que não tem nada de imperfeito, de fraco, de precário. Neste sentido, só Deus é Santo. Porém, por sua graça, imitamo-Lo e participamos da sua Santidade e unimo-nos a todos os irmãos. Esta doutrina era tão viva nos primeiros séculos, que os membros da Igreja não hesitavam em chamar-se “Santos” e a própria Igreja era chamada de “Comunhão dos Santos”. Com efeito, diz o CIC (Catecismo da Igreja Católica) que esta expressão indica, em primeiro lugar, a comum participação de todos os membros da Igreja nas “coisas santas”: “a fé, os Sacramentos, os Carismas e outros dons espirituais” (cf CIC 194). E adiante, refere:
Designa também a comunhão entre as pessoas santas, ou seja, entre as que pela graça estão unidas a Cristo morto e ressuscitado. Alguns são peregrinos na terra; outros, tendo deixado esta vida, estão a purificar-se ajudados também pelas nossas orações; outros já gozam da glória de Deus e intercedem por nós. Todos juntos formamos em Cristo uma só família, a Igreja, para a glória da Trindade.” (CIC 195).
E os santos não são apenas os que estão nos altares, declarados santos pela Igreja – mediante a beatificação e a beatificação e a canonização. São todas as pessoas que vivem unidas a Deus, construindo o bem. São pessoas normais, que no passado e no presente dão testemunho de fidelidade a Cristo; vivem de forma excelente o que é comum a quem segue o Evangelho.
A Festa de hoje pretende homenagear todos os santos, beatificados e canonizados, é certo, mas sobretudo os que permanecem no anonimato ou porque não foram indigitados e examinados para o catálogo das honras dos altares ou porque apenas viveram seguindo Cristo na discrição. E a festa quer apresentar o ideal da santidade como possível hoje a todos e desejado por Deus. Com efeito, todos os fiéis são chamados à Santidade, que é a plenitude da vida cristã e perfeição da caridade e se realiza na união íntima ao Cristo e, Nele, com a Santíssima Trindade (cf CIC 428). Portanto, podemos e devemos ser Santos também nós. Acolhamos o apelo de Deus à Santidade e que os Santos sejam nossos modelos e intercessores nesta caminhada. Não esperemos vir a fazer milagres, pois nem os “santos” canonizados os fazem. É Deus e só Deus que faz milagres. E faz muitos através dos “santos” de altar e faz maravilhas através de nós tantas vezes. E invoquemos todos os santos: Omnes sancti et sanctae Dei, intercedite pro nobis!
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Porém, temos de apostar na pertença à “geração dos que procuram o Senhor” (cf Sl 24/23, 6).
Do Senhor é a terra e o que nela existe, o mundo e quantos nele habitam. Ele a fundou sobre os mares e a consolidou sobre as águas. Quem poderá subir à montanha do Senhor? Quem habitará no seu santuário? O que tem as mãos inocentes e o coração puro, o que não invocou o seu nome em vão. Este será abençoado pelo Senhor e recompensado por Deus, seu Salvador. Esta é a geração dos que O procuram, que procuram a face de Deus. (Sl 24/23, 1-2.3-4ab.5-6).

2017.11.01 – Louro de Carvalho