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domingo, 3 de novembro de 2019

Não lhe puxou as orelhas nem lhe pregou um sermão


Na homilia da missa das 12 horas do 31.º domingo do Tempo Comum no Ano C, na igreja dos Passionistas, em Santa Maria da Feira, o Padre Porfírio Sá comentava o Evangelho assumido para a Liturgia da Palavra que narra a história do encontro de Jesus com Zaqueu (Lc 19,1-10) e, ao falar do encontro destas duas personagens, sublinhava que não foi Zaqueu quem tomou a iniciativa de falar a Jesus e convidá-lo a ir a sua casa, mas que foi Jesus quem olhou para Zaqueu e lhe disse: “Zaqueu, desce depressa, pois hoje tenho de ficar em tua casa”.
Referia o sacerdote passionista que Jesus falou como se fosse devedor para com Zaqueu e não como credor. E, ao entrar em casa de Zaqueu, não aproveitou a oportunidade para lhe dar um forte puxão de orelhas, pôr toda vida do pecador em evidência ou pregar-lhe um incontornável e solene sermão. Não, o Mestre dos mestres utilizou o seu olhar de empatia e misericórdia.
Zaqueu vivia em Jericó, o oásis situado nas margens do mar Morto, a cerca de 34 quilómetros de Jerusalém. Era a última etapa dos peregrinos que, da Pereia e da Galileia, se dirigiam a Jerusalém para as grandes festividades (o “caminho de Jerusalém”, que Jesus vem a percorrer, segundo Lucas, está a chegar ao fim). Jericó uma cidade próspera (sobretudo graças à produção de palmeiras e bálsamo), com grandes e belos jardins e palácios (por ação de Herodes, o Grande, e seu filho Arquelau, que fizeram desta cidade a sua residência de inverno). Sita em lugar privilegiado de importante rota comercial, era espaço de oportunidades e grandes negócios (e de negócios “duvidosos”).
Segundo Flávio Josefo, Jericó possuía um importante polo de produção de palmeiras e bosques de bálsamo. E o unguento derivado deste bálsamo de Jericó era muito desejado na época. Isto significa que aquela área era uma fonte muito significativa de impostos, uma das três principais coletorias de impostos da Palestina, e Zaqueu era um dos principais responsáveis por essa arrecadação.
O nome hebraico de Zankkaîos (Zaqueu) é contração de Zacarias, a significar “aquele de quem Yahweh se lembra” ou “aquele que é justo” (o antípoda da vida que levava). E ele era um “chefe de publicanos”, portanto, um homem que o judaísmo considerava um pecador público, um explorador dos pobres, um colaboracionista ao serviço dos opressores romanos e, portanto, um excluído da comunidade da salvação. Como os demais publicanos servia-se do cargo para enriquecer de modo ilícito (exigia impostos muito acima do fixado pelos romanos e arrecadava para si a diferença). E, se os publicanos eram considerados ladrões, então o chefe seria um superladrão.
A designação de “chefe de publicanos” traduz o grego arkhitelónês e indica que ele era um subcontratante de outros coletores. Portanto, tinha a supervisão de alguns responsáveis por arrecadar os impostos indiretos para o império romano, pelo que era um homem importante, uma pessoa proeminente na região. Por isso, o texto bíblico completa a informação dizendo que era um homem rico. Era, pois, um pecador público sem hipótese de perdão, excluído do convívio com as pessoas decentes e sérias, um marginal, considerado amaldiçoado por Deus e desprezado pelos homens. A sua pequena estatura – mais que indicação de caráter físico – pode significar a sua pequenez e insignificância do ponto de vista sociomoral.
Porém, este pecador procurava ver Jesus. Ora, este ver indicará aqui mais do que a simples curiosidade: a procura, a vontade firme de encontro com algo novo, talvez o desejo de fazer parte dessa comunidade de salvação que Jesus anunciava. Entretanto, o Mestre parecer-lhe-ia distante e inacessível, rodeado dos “puros” e “santos” que desprezavam os marginais. O subir “a um sicómoro” indica o desejo de encontro com Jesus, desse por onde desse, muito mais forte do que o medo do ridículo ou das vaias da multidão.
Jesus lança o olhar para o homem que espreita o Mestre do meio dos ramos do sicómoro. E incute o seu interesse em entrar em comunhão com Ele, estabelecer laços de familiaridade. Parece, em quadro escandaloso, esquecer-se dos “puros” que O rodeiam e O escutam, que agora ficam como que suspensos à espera do que vai acontecer naquela casa de pecador e marginal.
É a concretização do “deixar as noventa e nove ovelhas para ir à procura da que estava perdida”. É o espelho da fragilidade do coração de Deus que, ante o pecador que busca a salvação, deixa tudo para ir ao seu encontro.
Obviamente a multidão reage murmurando: “Foi hospedar-se em casa de um pecador”. É a postura de quem se considera “justo” e despreza os outros, de quem vive das suas certezas, de quem está convicto de que a lógica de Deus é a lógica de castigo, marginalização, exclusão. No entanto, Jesus mostra que a lógica de Deus é diferente da lógica dos homens e que a oferta de salvação que Deus faz não exclui nem marginaliza ninguém; é mesmo para todos.
Tudo termina com um banquete, onde está Zaqueu, o chefe dos publicanos, que simboliza o “banquete do Reino”. Assim, Jesus mostra que os pecadores têm lugar no “banquete do Reino”, que Deus os ama, que quer integrá-los na sua família e estabelecer com eles laços de comunhão e de amor. Jesus mostra que Deus não exclui nem marginaliza nenhum dos seus filhos – mesmo os pecadores – mas a todos oferece a salvação.
Dizia o Padre Porfírio Sá que não houve da parte do hospedeiro do Senhor um formal ato de contrição, uma demonstração, por palavras, do arrependimento que se exige. Mas a troca de olhares iniciada por Jesus provocou as condições de aceitação do Reino, da conversão: dar metade dos bens aos pobres e restituir o quádruplo de quanto terá roubado. E Zaqueu, feita a experiência do amor de Deus, acolhe o dom de Deus, converte-se ao amor, torna-se generoso. A repartição dos bens pelos pobres e a restituição de tudo o que foi roubado em quádruplo, vai muito além do que a lei judaica exigia; é sinal da transformação do coração. O amor de Deus não se derramou sobre Zaqueu depois de ele ter mudado de vida, mas foi o amor de Deus – que Zaqueu experimentou quando ainda era pecador – que provocou a conversão e que converteu o egoísmo em generosidade e levou o pecador a seguir Jesus. Assim se conclui que só a lógica do amor pode transformar o mundo e os corações dos homens.
É interessante notar que, apesar da ansiedade de Zaqueu em querer ver Jesus, ele parece ter ficado surpreendido pelo facto de a iniciativa do contacto entre eles ter partido do próprio Senhor, e não dele. Isto sugere que Zaqueu desejava vê-Lo, mas era Jesus quem estava à procura dele. Além disso, Jesus não pediu permissão a Zaqueu para entrar e permanecer em sua casa. E este também não propôs uma possibilidade de encontro. Literalmente o Senhor simplesmente disse: hoje eu vou ficar em sua casa.
Face à atitude de Jesus, a multidão começou a reclamar. Ficaram indignados porque Jesus havia dito que visitaria a casa de Zaqueu e não a de outrem. Os judeus odiavam os publicanos: e agora emergiu a inveja à mistura com o ódio. Consideravam os coletores de impostos como ladrões, extorquidores e traidores. Mas Jesus havia decidido ficar na casa do principal desses coletores, pois estava em busca de um dos homens mais detestados da cidade, pois todos têm lugar no Reino de Deus.
No encontro com Jesus, Zaqueu demonstrou realmente um arrependimento genuíno, que não ficou na teoria ou em palavras vazias. Revelou o arrependimento na prática ao declarar a doação aos pobres. Não estava a tentar obter a salvação com as boas obras, mas a entregar diante de Jesus a sua oferta de ação de graças. Mas não parou neste ponto: comprometeu-se ainda a devolver em quádruplo qualquer quantia com que tivesse defraudado alguém.
Normalmente a Lei Mosaica exigia que numa restituição fosse acrescentado um quinto do valor como um tipo de juros (Lv 6,1-5; Nm 5,7). Zaqueu, no entanto, decidiu fazer ainda mais do que isso. Não ofereceu um quinto de acréscimo na restituição, mas quatro vezes mais.
Considerando o facto de ter doado metade dos seus bens aos pobres e de ter declarado na presença de todos uma restituição tão generosa, é de inferir que Zaqueu tinha sido desonesto ao longo da sua vida. Direta ou indiretamente, o chefe dos cobradores de impostos havia permitido e também feito uma cobrança excessiva.
Muitos tentam provar que Zaqueu não teria sido um extorquidor, como se Cristo não pudesse jamais ter olhado para um corrupto. Todavia, o contexto da história de Zaqueu aponta noutra direção. Naquele dia, Jesus mostrou compaixão para com alguém que certamente não a merecia. É caso parecido com o da eleição de Mateus para o seguimento de Jesus, como se lê em Mateus:
Partindo dali, Jesus viu um homem chamado Mateus, sentado no posto de cobrança, e disse-lhe: ‘Segue-me!’ E ele levantou-se e seguiu-O.  
“Encontrando-se Jesus à mesa em sua casa, numerosos cobradores de impostos e outros pecadores vieram e sentaram-se com Ele e os seus discípulos. Os fariseus, vendo isto, diziam aos discípulos: ‘Porque é que o vosso Mestre come com os cobradores de impostos e os pecadores?’
“Jesus ouviu-os e respondeu-lhes: ‘Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Ide aprender o que significa: Prefiro a misericórdia ao sacrifício. Porque Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores’.” (Mt 9,9).
Zaqueu pôde ouvir de Jesus as doces palavras: Hoje a salvação entrou nesta casa, porque até este homem é um filho de Abraão (Lc 19,9). Jesus não disse que havia entrado na casa de Zaqueu um mero conforto, uma alegria superficial ou uma prosperidade terrena e passageira. Foi claro ao dizer que a salvação, não menos que isto, havia entrado naquela casa. Zaqueu e as demais pessoas daquele lar estavam diante da maior bênção que poderiam receber.
Consequentemente, Jesus declarou que Zaqueu era filho de Abraão. Obviamente o objetivo de Jesus não era dizer que o publicano era um descendente biológico do grande patriarca (não podia ser). Mas, ao dizer que também ele era um filho de Abraão, vincava o sentido espiritual. Zaqueu estava a juntar-se, pela fé no Filho de Deus, à verdadeira descendência de Abraão (cf GL 3,9.29).
A história termina com a confirmação por parte de Jesus de que havia sido Ele quem encontrou o chefe dos publicanos, e não o contrário. Ele disse: Porque o Filho do homem veio buscar e salvar o que estava perdido (Lc 19,10). Jesus buscou, encontrou e salvou Zaqueu. O Bom Pastor encontrou uma das suas ovelhas perdidas (Lc 15,1-7). Poucos dias depois, Aquele a quem Zaqueu recebeu em casa, derramaria o seu sangue e entregaria a sua vida também em seu favor.
***
Também o Papa Francisco comentou esta perícopa evangélica antes da recitação do Angelus com os fiéis e peregrinos concentrados na Praça de São Pedro. E, exortando a que, a exemplo de Zaqueu, nos deixemos converter pelo olhar misericordioso de Jesus, observou:
Quem nunca se sentiu procurado pela misericórdia de Deus tem dificuldade em compreender a extraordinária grandeza dos gestos e palavras com que Jesus se aproxima de Zaqueu”.
E, ao concluir a sua alocução, pediu que a Virgem Maria obtenha para nós a graça de sempre sentirmos sobre nós o olhar misericordioso de Jesus, para então, com misericórdia, irmos ao encontro dos que praticam o mal. Com efeito, como referiu, “o desprezo e o fechamento em relação ao pecador não fazem senão isolá-lo e endurecê-lo no mal que ele faz contra si e contra a comunidade”.
O fio condutor da reflexão papal foi a conversão de Zaqueu, que muda radicalmente de mentalidade pela atenção e acolhimento que recebe de Jesus e que, ao encontrar o Amor e descobrir que é amado, se torna capaz de amar os outros, restituindo quatro vezes mais a quem havia prejudicado. Diz o Pontífice que este chefe de “publicanos”, isto é, dos judeus cobradores de impostos “era rico não devido a ganhos honestos, mas por exigir a gratificação adicional (Como o império lhes pagava mal, eles cobravam em excesso), o que aumentava o desprezo por ele”. Mas, ao saber da passagem de Jesus por ali, fica curioso em ver quem era Ele, pois ouvira  dizer coisas extraordinárias a seu respeito. Sendo de baixa estatura, sobe a uma árvore. Mas é Jesus quem, entre tantos rostos que o cercavam, “olha para cima e o vê”. E diz o Papa:
Isso é importante: o primeiro olhar não é de Zaqueu, mas de Jesus, que entre os muitos rostos que o cercam, procura exatamente aquele. O olhar misericordioso do Senhor alcança-nos antes mesmo que nós percebamos que temos necessidade de sermos salvos.”.
E foi precisamente com esse olhar do divino Mestre – salienta o Santo Padre – que  se iniciou “o milagre da conversão do pecador”. Jesus chama-o pelo nome e pede que desça depressa, pois quer estar com ele em sua casa. E, como dizia o Padre Porfírio Sá, também Francisco enfatiza que Jesus não censura Zaqueu, não lhe faz um ‘sermão’, mas mostra-lhe que deve ir até ele: ‘deve’, porque é a vontade do Pai”. As pessoas murmuram por Jesus optar pela entrada na casa de um pecador público, desprezado por todos. E o Pontífice comentou:
Nós também teríamos ficado escandalizados com esse comportamento de Jesus. Mas o desprezo e o fechamento em relação ao pecador não fazem senão que isolá-lo e endurecê-lo no mal que ele faz contra si e contra a comunidade. Em vez disso, Deus condena o pecado, mas tenta salvar o pecador, vai procurá-lo para trazê-lo de volta ao caminho reto. (…) Quem nunca se sentiu procurado pela misericórdia de Deus tem dificuldade em compreender a extraordinária grandeza dos gestos e palavras com que Jesus se aproxima de Zaqueu.”.
Frisou o Santo Padre que a atenção de Jesus e a forma como foi acolhido levaram Zaqueu a uma mudança de mentalidade. Naquele instante percebeu quanto é mesquinha uma vida movida pelo dinheiro, à custa de roubar os outros e ser desprezado por eles”. E o Bispo de Roma vincou:
Ter o Senhor ali, em sua casa, faz com que ele veja tudo com olhos diferentes, também com um pouco da ternura com que Jesus olhou para ele. E muda também o seu modo de ver e de usar o dinheiro: substitui o gesto do extorquir pelo de dar. De facto, decide dar metade do que possui aos pobres e restituir quatro vezes mais àqueles de quem roubou. Zaqueu descobre de Jesus que é possível amar gratuitamente: até agora ele era avarento, agora torna-se generoso; gostava de acumular, agora alegra-se em distribuir. (…) Encontrando o Amor, descobrindo que é amado apesar dos seus pecados, torna-se capaz de amar os outros, fazendo do dinheiro um sinal de solidariedade e de comunhão.”.
Por fim, formulou o desejo de que “a Virgem Maria nos obtenha a graça de sempre sentir sobre nós o olhar misericordioso de Jesus, para sairmos com misericórdia ao encontro dos que fizeram mal, para que possam acolher Jesus, que “veio buscar e salvar o que estava perdido”. 
***
E, após a oração do Angelus e o apelo pelas vítimas da violência na Etiópia, o Papa agradeceu à Prefeitura e à Diocese de San Severo (na Puglia), a assinatura do Protocolo de Intenções, de 28 de outubro, “que permitirá aos trabalhadores dos assim chamados guetos da Capitanata, na região de Foggia, obter uma residência em paróquias e o registo no cartório municipal”. E frisou:
A possibilidade de ter documentos de identidade e de residência oferecer-lhes-á nova dignidade e permitir-lhes-á sair de uma condição de irregularidade e de exploração”.
Muitos trabalhadores são explorados nas plantações por pessoas de má-fé, que se aproveitam da sua condição irregular. Mal remunerados, sem nenhum direito ou garantia, vivendo em galpões sem as mínimas condições de uma vida digna, são os novos marginalizados que urge acolher.
2019.11.03 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Não olhar o excluído é “virar a face a Deus”

O Vaticano promoveu, no quadro do Ano da Misericórdia, o jubileu dos reclusos, a 6 de novembro, e o jubileu das pessoas excluídas socialmente no passado dia 13.
Por motivos diferentes, reclusos, sem-abrigo, migrantes (muitos deles) e refugiados e população remetida a guetos, bairros de lata, bairros problemáticos e acampamentos de massas são excluídos pela sociedade sob pretextos vários.
Olhando o mundo com olhos cristãos, não pode deixar de ressoar nas mentes, nas famílias e nas comunidades eclesiais a força interpelante das duas obras de misericórdia atinentes a estas situações: visitar os encarcerados e acolher os peregrinos. Porém, estas obras de visita ou de acolhimento não podem ser entendidas como uma floração sobejante da vida do homem que se deixou tocar pela fé, mas como radicalmente resultantes da força que tem a “visita” de Deus ao seu povo – visita redentora ou libertadora e não simpática ou acomodatícia – e com a abrangência e intensidade do que significa acolher. Não é visitar para se mostrar, dizer palavras e aconselhar paciência ou receber dando uma sopa quente e deixando dormir no palheiro.
A resposta às situações de emergência impõe-se em primeira linha sem ter que filosofar muito e sem esperar por planificações estruturadas e com estratégias eivadas de eficácia. Todavia, não podemos resignar-nos à resposta às emergências; é preciso preparar a estruturação da mudança de encarcerado, logo que possível, a integrado “económica e socialmente”, banindo estigmas e preconceitos, o que implica tanto a mudança de vida do ex-recluso como a conversão de mentalidade e de postura da parte dos elementos da sociedade considerada sã; e é preciso pensar no acolhimento e integração dos sem-abrigo e de todos os estigmatizados pela migração sofrida, situação de refugiado, drogado, delinquente ou residente em gueto ou bairro problemático.
Depois, é de analisar as estruturas económicas, políticas, financeiras e sociais que possibilitam e deixam aninhar e desenvolver estas situações de degradação, indignidade e exploração – que podem ter sido construídas intencionalmente na luta pelo poder, riqueza e prestígio. Ou seja, como dizia Bruto da costa, recém-falecido, é preciso ultrapassar (não quer dizer que esta não deva continuar a ter lugar) a caridade interpessoal e passar à caridade política, pois é neste patamar que se constrói a justiça social que leva a não dar só por caridade o que é devido por justiça.
Além disso, há que relacionar estas duas obras de misericórdia (que o são enquanto espelho da compaixão divina e que levam os homens a comportamentos adequados), que são imperativo da justiça à moda de Deus, com as demais. Com efeito, na cadeia, na rua, no bairro ou na falta de abrigo pode abundar o abandono e a solidão, a fome e a sede, a nudez e a falta de teto, a doença e a enfermidade, o erro e o vício. E lá urge a palavra e a escuta, aconselhamento, correção fraterna, saciedade da fome e da sede, cobertura da nudez, construção ou reparação da casa e sua higienização, abertura do futuro pela via do trabalho e do amparo na doença e na velhice.
E é necessário fazermos destas obras o critério da preparação para a vinda do Senhor como refere o Evangelho de Mateus na terceira e última parte do capítulo 25 (vd Mt 25,31-46) e assumirmos a responsabilidade pelo cuidado dos irmãos para que se sintam pessoas.
***
Mas as obras de misericórdia acima referenciadas têm a sua voz concreta específica.
Assim o Papa, no jubileu dos reclusos, dirigiu o apelo a favor do melhoramento das condições de vida nas prisões de todo o mundo, para que seja respeitada plenamente a dignidade humana dos reclusos. Além disso, reafirmou a importância da reflexão sobre a necessidade duma justiça penal que não seja exclusivamente punitiva, mas aberta à esperança e à perspetiva de reinserção do réu na sociedade, e submeteu à consideração das competentes Autoridades civis de cada país a possibilidade de realizarem, neste Ano Santo da Misericórdia, “um ato de clemência em relação aos reclusos considerados idóneos para beneficiar de tal medida”.
Resta saber se o Ano da Misericórdia tem eco suficiente nos Estados para que a resposta ao apelo papal seja o mais completa possível. É óbvio que o referido ato de clemência pode ser oferecido na modalidade de indulto ou na de amnistia. E é sempre de ter conta a situação de cada um. Todavia, os Estados ofereceram amnistia por motivos menos ponderosos.
Na homilia da Missa do dia 6, Francisco ofereceu aos encarcerados a palavra da misericórdia como expressão do amor de Deus e contrapôs à privação da liberdade, eventualmente merecida pela violação da lei, a esperança que “não pode desfalecer”, sublinhando:
“Uma coisa é o que merecemos pelo mal realizado; outra, diversa, é a ‘respiração’ da esperança, que não pode ser sufocada por nada nem ninguém. O nosso coração sempre espera o bem; devemos isso à misericórdia com que Deus vem ao nosso encontro sem nos abandonar jamais.”.
Citando a Carta aos Romanos, em que o apóstolo Paulo fala de Deus como sendo o “Deus da esperança” (15,13), o Papa ensina: 
Deus espera! A sua misericórdia não O deixa tranquilo. É como aquele Pai da parábola, que sempre espera o regresso do filho que errou (cf Lc 15,11-32). Deus não Se dá trégua nem descanso, enquanto não encontrar a ovelha que estava perdida (cf Lc 15,5).”.
E infere:
“Ora, se Deus espera, então a esperança não pode ser tirada a ninguém, porque é a força para continuar; é a tensão para o futuro, a fim de transformar a vida; é um impulso para o amanhã, a fim de o amor – com que, apesar de tudo, somos amados – se poder tornar um caminho novo... Em suma, a esperança é a prova interior da força da misericórdia de Deus, que pede para olhar em frente e, com a fé e o abandono n’Ele, vencer a atração para o mal e o pecado.”.
Sabendo que não depende do Papa nem da Igreja a concessão da liberdade, o Pontífice frisa que ninguém pode ser impedido de desejar a liberdade e de acalentar a esperança contra a a dureza das estruturas, a imobilidade das mentes e os preconceitos e estigmatizações. Por outro lado, sabe que ninguém se pode considerar justo diante de Deus e o cárcere pode ter de acolher qualquer um de nós, já que todos erramos. E para todos está disponível o perdão de Deus, como dom de Deus e como interpelação à capacidade de perdão da parte dos homens. 
E Francisco apontou a imagem da Virgem Maria que representa a Mãe que “sustenta nos seus braços Jesus com uma corrente quebrada, as correntes da escravidão e da prisão”; e implorou que Ela pouse sobre cada um o seu olhar materno; e faça brotar do coração a força da esperança “para uma vida nova e digna de ser vivida na liberdade plena e no serviço do próximo”.
***
Na homilia do dia 13, Francisco denunciou a esclerose espiritual que se concentra na produção de bens e serviços e não nas pessoas a amar. Partindo destas palavras de Malaquias, “…nascerá o sol de justiça, trazendo nos seus raios a salvação” – dirigidas aos que têm confiança no Senhor e depõem a sua esperança n’Ele, escolhendo-O como bem supremo da vida e recusando-se a viver só para si mesmos e para os seus interesses –, o Pontífice colocou algumas questões:
Onde procuro a minha segurança? No Senhor ou noutras seguranças que desgostam a Deus? Para onde está direcionada a minha vida? Está dirigida ao Senhor da vida ou para coisas que passam e não saciam?”.
São questões similares das que sugere a passagem  evangélica (Lc 21,5-19) do XXXIII domingo do Tempo Comum (Ano C). Com efeito, “Jesus encontra-se em Jerusalém, para a última e mais importante página da sua vida terrena: a sua morte e ressurreição. As pessoas estavam a falar das belezas exteriores do templo, quando Jesus lhes disse: Dias virão em que, de tudo o que estais a ver, não ficará pedra sobre pedra: tudo será destruído. Tais enunciados suscitaram a interrogação sobre quando aquelas coisas iriam acontecer e qual o sinal desse momento. 
Obviamente, a curiosidade e o medo são coisas que preocupam as pessoas e não o essencial. Ora, se as pessoas, que são discípulos de Cristo, se preocuparem com o essencial, não temerão as provas mais graves e injustas que lhes venham a acontecer. Porque o essencial é a perseverança no bem e colocar a plena confiança em Deus. Com efeito, se as pessoas se moldarem pelo coração de Deus manifestado em Cristo, não temerão a fornalha ardente que as atravessará como diz Malaquias. O fogo queima a palha, mas preserva e endurece a pedra rija. Para os pobres de si, mas ricos de Deus, brilhará o sol da sua justiça: são os pobres em espírito, a quem Jesus promete o reino dos céus (cf Mt 5,3) e de quem Deus, pela boca do profeta Malaquias, declara: são meus (Ml 3,17). O profeta contrapõe-nos aos soberbos, aos que puseram em autossuficiência e nos bens do mundo a segurança da vida.
E, se esperamos a “visita” de Cristo, não nos dedicamos à futilidade, mas trabalhamos para termos a morada preparada para O receber quando bater à nossa porta; não cruzamos os braços como faziam os Tessalonicenses. Mas trabalhamos para merecermos o alimento e o repouso e progredimos na fé e na caridade, mostrando as razões da nossa esperança aos demais. E, como promete o Evangelho, será pela constância da nossa fé que salvaremos as nossas almas.
Quem segue Jesus não escuta os profetas da desgraça, a futilidade dos horóscopos, a pregação e a previsão que amedronta, distraindo daquilo que conta. Ele convida a distinguir, de entre as muitas vozes que se ouvem, aquilo que vem d’Ele e o que vem do falso espírito, e a não temer os cataclismos de cada época ou as perseguições pela fé. Pede a perseverança no bem e a plena confiança em Deus, que não desilude, não esquece os seus fiéis, a sua propriedade preciosa.
Assim o Papa diz-nos que Jesus nos pede que perseveremos no bem e que ponhamos “plena confiança em Deus” porque “há duas riquezas que não desaparecem nunca” e que têm verdadeiro “valor na vida”: “o Senhor e o próximo”; e, em particular, as “pessoas concretas”, as pessoas excluídas:
“A pessoa humana, colocada por Deus no cume do criado, é muitas vezes descartada, porque são preferidas as coisas que passam. E isto é inaceitável, porque o homem é o bem mais precioso aos olhos de Deus. E é grave que se habituem a este descarte”.
No jubileu dos excluídos, das pessoas sem-abrigo e em situação de precariedade, clamando que não olhar o excluído é “virar a face a Deus”, é uma “esclerose espiritual”, Francisco afirmou:
“ É um sintoma de esclerose espiritual quando o interesse se concentra nas coisas a produzir, e não nas pessoas a amar. Assim, nasce a trágica contradição dos nossos tempos: quanto mais aumentam o progresso e as possibilidades, o que é um bem, tanto mais são aqueles que não lhe podem aceder.”
Apesar de, neste dia 13, se encerrarem as Portas da Misericórdia nas Catedrais e nos Santuários de todo o mundo, o Santo Padre apelou a que não fechemos “os olhos perante Deus que nos olha e perante o próximo que nos interpela” – o “Lázaro” ou “irmão excluído” para quem deve ser direcionada a nossa atenção deixando para trás “interesses”, “privilégios” e “poder”.
Está em jogo o dever e direito da Igreja (dos cristãos) de olhar a humanidade que sofre e chora e, simbolicamente, fazer deste dia “O dia dos pobres”, como quer o Papa Francisco.

2016.11.14 – Louro de Carvalho