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segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Ano Jubilar dos Mártires de Marrocos e de Santo António em Coimbra


A Diocese de Coimbra está em jubileu desde o dia 12 de janeiro deste ano, com a abertura da Porta Santa, na Igreja de Santa Cruz, até 17 de janeiro de 2021, para celebrar o VIII centenário do martírio dos primeiros frades que São Francisco de Assis enviou em missão para Marrocos e cujas relíquias repousam em Coimbra, bem como a importância que este facto teve na vocação de Santo António, de modo que seja assumida de todo a espiritualidade antoniana.
O Jubileu foi convocado por Dom Virgílio Antunes, Bispo de Coimbra, em Carta Pastoral de Anúncio do Ano Santo, acompanhada pelo Decreto da Santa Sé que, em nome do Papa Francisco, proclama um Jubileu com indulgência plenária para todos os dias do Ano Santo.
Para participar no Ano Santo e alcançar a Indulgência Jubilar, propõe-se a peregrinação à Igreja de Santa Cruz e à de Santo António dos Olivais, que pode ser feita individualmente, em grupo e, de forma especial, por paróquia ou unidade pastoral. Um Itinerário do Peregrino ajudará cada um a viver mais profundamente a peregrinação.
Além da passagem pela Porta Santa, é possível a visita à Exposição Jubilar e a visualização de um documentário histórico. Também estará disponível a todos com diversos recursos um Guião Jubilar para preparar a vivência espiritual e catequética deste Ano Santo.
A 16 de Janeiro de 2020, comemoram-se os 800 anos do martírio de Berardo, Otão (sacerdotes), Pedro (diácono), Acúrsio e Adjuto (leigos), que se dedicaram apaixonadamente à pregação e à evangelização em Marrocos, não obstante a perseguição. São Francisco de Assis, ao saber do seu martírio, terá confessado: “Agora posso dizer que tenho cinco verdadeiros frades menores”.
Tal facto, juntamente com a chegada das Relíquias dos Mártires à Igreja de Santa Cruz, impressionou de tal modo o neossacerdote Fernando Martins de Bulhões que ele se decidiu, nesse ano de 1220, a fazer-se Frade Menor. E, assumindo o nome de António, foi recebido no convento de Santo António Abade dos Olivais.
Este Jubileu propõe à Igreja a celebração da fidelidade da fé, o reacendimento do ímpeto missionário nos corações dos fiéis e a dinamização duma cultura evangelizadora. Por outro lado, na preparação para a Jornada Mundial da Juventude Lisboa 2022, celebra-se o jovem António, que, seduzido pelo exemplo dos Mártires de Marrocos, se tornou um apaixonado pela missão. O Jubileu será porta aberta a todos, para que possa cada um redescobrir “a alegria do Evangelho [que] enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus” (EG 1), e o ensejo para a tomada de consciência do drama dos cristãos perseguidos atualmente e da necessidade de um salutar diálogo inter-religioso na construção da paz.
Na carta pastoral endereçada à diocese, Dom Virgílio Antunes aponta o “discurso forte contra todas as descriminações” das “sociedades modernas”, que, “não raro, dão lugar a outras, entre as quais a discriminação social e cultural dos cristãos”. E assegura:
Um ano jubilar é sempre um ano de graça para os cristãos que se dispõem a fazer caminho, no seguimento das inspirações próprias das figuras ou circunstâncias que o motivam”.
Na carta pastoral, o prelado define “cinco desafios” para o Ano Jubilar: o da Evangelização; o da Espiritualidade; o da Renovação Cultural; o da Vocação Cristã e das Vocações na Igreja; e o desafio da Renovação da Piedade Popular Antoniana”. Manifesta o desejo de que a celebração jubilar “constitua um forte incentivo para a renovação da Igreja, para o fortalecimento da fé das comunidades da Diocese de Coimbra e seja semente de novos cristãos”. Considera que “numa sociedade religiosa do passado ou numa sociedade secularizada do presente, persiste a urgência de evangelizar”. E, dando o exemplo de “Santo António que, não podendo ir para as terras de África, como desejou, percorreu os longos caminhos do Sul da Europa a anunciar o que viu e ouviu no encontro com Cristo”, sublinha:
Mais do que nunca, sente-se a necessidade de evangelizar o interior do ser humano, as suas conquistas científicas e técnicas, as relações sociais, económicas e políticas, e até a própria religiosidade cristã vivida no espaço eclesial”.
Por isso, entende que o Santo convoca a Diocese “para uma nova etapa evangelizadora e acompanha, com a sua intercessão, a nossa alegria e entusiasmo de seguir o seu exemplo”.
Segundo Dom Virgílio, “as perseguições aos cristãos ainda não acabaram e vão renascendo em lugares concretos, tornando-se o maior dos desafios e a prova de fogo para a fortaleza da fé”; e os cristãos estão “diante do desafio” do testemunho de fé e esperança, “perante a possibilidade de uma rejeição civilizada ou de uma perseguição cultural e ideológica bárbara”.
O Bispo, defendendo que o diálogo cultural e religioso é um dos fatores de que depende a paz no mundo, escreve:
A paz está dependente de muitos fatores e, entre eles, conta-se certamente o diálogo cultural e religioso, que assenta no respeito pelo princípio da dignidade da pessoa humana, com os consequentes direitos e deveres, e nos valores fundamentais, como são a vida, a paz, a verdade, a liberdade, a justiça, a solidariedade e a caridade”.
O prelado destaca que, de entre os muitos pontos a considerar no caminho de encontro e diálogo, se encontram as questões “ligadas à ética, muito frequentemente lugar de fraturas profundas”, vincando que, “de igual modo, as relações ecuménicas e o diálogo inter-religioso precisam de estar na ordem do dia, para que sejam elemento decisivo na construção de um mundo mais coeso e fator decisivo na construção da paz”. E aborda a devoção e a piedade popular antonianas sustentando que “precisam de forte renovação, para que não se reduzam a rituais ou festas vazias de sentido espiritual e pastoral, mas sejam momentos aptos para gerar o crescimento da fé, do amor a Deus e de santificação dos fiéis”.
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Os Mártires de Marrocos, naturais de Narni (Itália) abraçaram o exemplo de vida de Francisco de Assis e ingressaram na Ordem dos Frades Menores. Partindo de Assis em 1219, passaram por Coimbra, onde conheceram o Cónego Regrante Fernando de Bulhões (o futuro Santo António). De passagem por Sevilha pregavam a fé de Cristo nas mesquitas. Conduzidos ao sultão, foram encarcerados e transferidos para Marrocos com ordem de não pregarem mais o nome de Cristo. Porém, continuaram com grande coragem a anunciar o Evangelho, pelo que foram presos, torturados e decapitados em Marraquexe, a 16 de janeiro de 1220. E o Infante Dom Pedro trouxe para Santa Cruz de Coimbra os seus restos mortais, que foram acolhidos por grande multidão de fiéis, a qual lhes atribuiu singela veneração. Foi o corajoso exemplo de fé destes frades que motivou António a mudar de vida e a ingressar na nascente ordem franciscana.
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Um vasto programa celebrativo, reflexivo, orante e cultural ajudará os fiéis à vivência do jubileu, sendo de destacar, além das visitas às igrejas de Santa Cruz e de Santo António dos Olivais, a peregrinação de fiéis de Narni a Coimbra e a de fiéis de Coimbra a Marrocos, bem como a peregrinação das relíquias dos mártires e de António pela Diocese de Coimbra. É pena que o jubileu não tenha abrangido o país inteiro perpassado por forte devoção antoniana, nomeadamente a diocese de Lisboa. Mas a comunhão intereclesial pode prevalecer.
Enfim, pela fé, evangelização e cultura num mundo secularizado tantas vezes hostil, avante!
2020.01.13 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

O “Jubileu Jovem. Fátima 2017” – a minha reflexão ao retardador

O Santuário de Fátima, no âmbito da celebração do Centenário das Aparições de Nossa Senhora a Lúcia e aos seus primos, Francisco e Jacinta, os dois irmãos que o Papa canonizou em 13 de maio, promoveu o “Jubileu Jovem. Fátima 2017”, para celebrar o acontecimento e descobrir na Mensagem de Fátima uma proposta de espiritualidade para os jovens do século XXI.
Pensava escrever sobre este acontecimento memorável, de que tomei os devidos apontamentos. Porém, as reflexões sobre a Peregrinação Diocesana do Porto a Fátima e, sobretudo, o falecimento prematuro e inesperado do Bispo do Porto eclipsaram esta reflexão, eclipse de que penalizo e que passo a fazer com intolerável atraso, dada a sua inquestionável momentosidade.
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JubJovem 2017 teve como tema aglutinador “O segredo da paz, o caminho do coração”. Esta peregrinação juvenil quis oferecer a cada participante a oportunidade de descobrir algo do segredo de si mesmo que ainda não conhece e que só Deus lhe pode dizer, para alcançar a paz consigo mesmo e com todos à sua volta, na casa comum que todos partilhamos. Para chegar aí, há só um caminho, o do coração. Em Fátima, há 100 anos, a Virgem Maria mostrou o seu coração imaculado e ofereceu-o como lugar de encontro e de passagem para o coração de Deus, triste com o sofrimento do homem e o mal no mundo.
JubJovem 2017 propôs aos jovens uma experiência eloquente pela palavra e pela ação e intensa pela densidade do silêncio e da oração, para olhar o coração da Mãe de Jesus e Mãe de cada um de nós, escutando no próprio coração a interpelação à conversão pessoal que Ele, por Ela, dirige a todos e a cada um; e também propõe a celebração da gratidão por tanto bem que Fátima fez e continua a fazer acontecer neste tempo da história.
JubJovem 2017 foi a festa para a qual foram convidados todos os jovens, entre os 16 e os 35 anos, que aceitaram abrir o seu coração e o seu futuro a novas raízes de alegria e de confiança.
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O ‘Fátima Jovem’, que o DNPJ (Departamento Nacional da Pastoral Juvenil) dinamiza anualmente, este ano foi, em parceria com o Santuário de Fátima, um Jubileu dos Jovens do Centenário das Aparições, nos dias 9 e 10 de setembro.
O DNPJ, os Secretariados Diocesanos da Pastoral Juvenil e o Santuário de Fátima realizaram uma grande festa dos jovens intitulada o ‘Segredo da paz, caminho do coração’ no contexto do Centenário das Aparições (1917-2017).
Em razão da presença do Papa Francisco na Cova da Iria a 12 e 13 de maio e da vontade dos jovens em participarem nessas celebrações, o ‘Fátima Jovem’ foi adiado do primeiro fim de semana de maio, uma semana antes da visita do pontífice argentino, para os dias 9 e 10 de setembro. E, assim, o Padre José Nuno Silva, o responsável pelo Departamento da Pastoral Intergeracional, um novo setor no Santuário, na respetiva reunião preparatória dos secretariados juvenis, apresentou a proposta, “não imposta”, de programa para o jubileu. Foi manifestada disponibilidade para “recolher sugestões” que pudessem “incorporar e valorizar” o encontro, pois o objetivo era que o “grande acontecimento” fosse potenciador de dinamismo nos jovens.
Com o tema ‘Segredo da paz, caminho do coração’ este Jubileu dos Jovens do Centenário das Aparições pretendeu configurar uma peregrinação internacional à Cova da Iria. Para que o evento se revestisse do “caráter internacional próprio de Fátima e da Mensagem de Fátima” foram desenvolvidas iniciativas junto de outros países.
O Padre José Nuno salientou que o lema do JubJovem 2017 tem “três palavras fortes”, e o itinerário do encontro desenvolveu-se em torno dessa temática com um programa temático distribuído por quatros etapas ao longo dos dois dias: “preparar a paz”; “o coração da paz”; “a paz do coração”; e “viver a paz”.
O sacerdote fez questão de afirmar que o “desafio” da intergeracionalidade “é um dos grandes da sociedade” hoje e a Igreja não pode “correr o risco de alinhar no movimento mundano de exclusão dos idosos, mas fazer tudo o que estiver ao alcance para educar no tempo”. Neste âmbito, frisou que é preciso criar cristãos conscientes da “necessidade de não criar hiatos entre gerações” e com isso “vencer” o hiato que os “dinamismos sociais foram impondo”. E sustentou que o Departamento da Pastoral Intergeracional do Santuário de Fátima terá sempre “propostas concretas para cada geração” – crianças, adolescentes, jovens, famílias, idosos – mas deverá também desenvolver e propor projetos e programas “de congregação das gerações”.
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O jubileu dos Jovens do Centenário, em que se inscreveram mais de 3 mil jovens, começou oficialmente às 16,30 horas de 9 de setembro, mas, a partir da manhã, existiram propostas para as dioceses, grupos e movimentos com receção, acolhimento, ensaios e reuniões, no parque junto ao Espaço Jovem Papa Francisco. Relevam-se as atividades que se discriminam a seguir:
Encontro Temático 0: – Preparar a Paz [em vários lugares]; Sacramento da Reconciliação; Adoração Eucarística; Catequese sobre o Rosário; Visita aos Pastorinhos; Visita ao Carmelo; Visita à Exposição “As cores do Sol”; Percurso dos Murais; Visita à Casa das Candeias; Visita às Casas dos Pastorinhos.
A peregrinação internacional juvenil começou com a saudação a Nossa Senhora na Capelinha das Aparições. A concentração fez-se na cruz alta e em peregrinação os peregrinos atravessaram o pórtico do jubileu. E, às 18 horas, fizeram o sentido inverso rumo à Basílica da Santíssima Trindade para, a partir da imagem de Nossa Senhora, viverem ‘O Coração da Paz’, o Encontro Temático 1, sob a orientação da Irmã Ângela Coelho, médica e religiosa da Aliança de Santa Maria, ex-postuladora da causa de canonização de Francisco e Jacinta, que falou sobre a “Relação entre Maria e a Paz”.
Como é habitual no ‘Fátima Jovem’ a programação peregrinacional inseriu-se nas atividades do Santuário e, por isso, às 21,30 horas, a concentração foi na Capelinha para a participação no Rosário e na Procissão de Velas – “Directa Pacis”.
A partir das 23 horas, decorreu o festival ‘Para alcançar a Paz’ com a participação de cantores profissionais (que executaram composições de António Zambujo e Miguel Araújo sobre a paz, que desafiados pelo Santuário a “compor canções” sobre a paz), no parque junto ao Espaço Jovem Papa Francisco. A este respeito, o Padre José Nuno Silva frisou que são artistas com “impacto junto dos jovens” e intervenção cultural “compatível com o lugar” em termos de mensagem. Naquele momento, ouviram-se testemunhos de jovens e de pessoas que em jovens “tomaram decisões difíceis para alcançar a paz”: “testemunhos não piegas, mas exigência de vida.”
A noite continuou e o programa do Jubileu dos Jovens prosseguiu com ‘A Paz do Coração’, Encontro Temático 2, no Calvário Húngaro, a culminar a Via-Sacra nos Valinhos, etapa “marcada pelo silêncio”. E, às 5 horas, regressaram à Basílica da Santíssima Trindade para ‘Viver a Paz’, o Encontro Temático 3, com três momentos diferenciados: 1 – O Coração de Maria, caminho para a Trindade; 2 – A Palavra e a Eucaristia, apelo e fonte de paz; e 3 – A Paz, dom e compromisso.
No dia 10, domingo, os jovens reuniram-se às 10 horas na Capelinha das Aparições para rezarem o Rosário e, uma hora depois, participaram na Missa no Recinto de Oração, presidida pelo Bispo de Leiria-Fátima, Dom António Marto, a que se seguiu o rito de envio do JubJovem e a procissão do adeus e aclamação a Nossa Senhora, Rainha Universal.
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Dom Joaquim Mendes, presidente da Comissão Episcopal do Laicado e Família, elogiou a adesão dos mais novos à iniciativa desta proposta de espiritualidade que assinala o Centenário das Aparições que explora uma “cultura da noite”, diferente da discoteca, para “entrar no coração, para um encontro com eles mesmos, com Deus”.
Os jovens, além dos números de reflexão e celebração próprios, participaram nas atividades habituais do santuário.
Assim, o mencionado prelado esperava que esta constituísse uma “experiência forte” para os participantes com “repercussões na sua vida”, saudou os peregrinos num “momento particular” que procura ajudar os jovens a familiarizar-se com a mensagem de Fátima, abrindo o coração “ao projeto de Deus”, pois, como observou, “Deus não nos tira nada”.
Também a este respeito, o Padre Eduardo Novo, diretor do DNPJ declarou à agência Ecclesia:
Este ano, inseridos no Centenário das Aparições de Nossa Senhora em Fátima, decidimos com o Santuário celebrar e dar vida a este Jubileu dos Jovens, esta Igreja viva, peregrina, alegre, que é festa”.
O Padre Eduardo Novo falou num “desafio à interioridade” para que a fé “contagie” e ajuda os jovens a “olhar o outro”. E considerou que os jovens “não são superficiais” e é necessário desafiá-los com propostas de profundidade, “para uma melhor identidade” cristã, comprometidos com “valores mais altos”.
Por seu turno, o Santuário de Fátima informou que se inscreveram jovens das dioceses portuguesas e de Espanha, Singapura e Nicarágua; e explicou que este Jubileu visava “celebrar o acontecimento e descobrir” na mensagem de Fátima uma “proposta de espiritualidade” para os jovens do século XXI, como foi assaz referido.
Na sua homilia, o Bispo de Leiria-Fátima pediu aos jovens presentes naquele domingo no Santuário que sejam “sentinelas da paz”, expressão similar (“sentinelas da madrugada”) da que o Papa Francisco utilizara quando esteve em Fátima, em maio, e que se traduz em três posturas, segundo Dom António Marto.
A primeira é serem sentinelas da conversão e da esperança. Para o prelado, “a imagem da sentinela é muito sugestiva”, já que “está sempre alerta, à escuta e de olhos abertos, dia e noite, observa o horizonte da história e da alma humana, descobre os sinais do(s) tempo(s), isto é, os sinais de esperança ou de perigo”. “Ao mesmo tempo,” salienta o Bispo, “adverte o povo” de que, “se abandonar o seu Deus”, “caminhará para a ruína”. Por isso, “chama-o à conversão do coração, à reconstrução espiritual e moral da vida”, pois somente “o que passa pelo coração transforma a vida”.
A segunda postura é serem sentinelas da fraternidade, pois não basta dizer expressões como “eu não mato, não roubo, não faço mal”; mas “é preciso amar sempre”. Segundo o prelado, “a globalização atual quebra distâncias, torna-nos mais próximos, mas não nos faz irmãos” e “a fraternidade recorda-nos que somos todos filhos do mesmo Pai”.
Por outro lado, “face à cultura da indiferença e do descarte” que hoje predomina, “é necessário promover a cultura do encontro.” Isto leva-nos a “ser os primeiros a amar, a ir ao encontro do outro mais necessitado, a estender a mão, a partilhar a alegria e o sofrimento, a acolher e a dialogar com todos, a estender pontes”.
Para Dom António Marto, “o que muda muitas pessoas não são as grandes ideias ou pensamentos, mas o terem-se encontrado com alguém que se aproximou em atitude de acolhimento e amizade e as ajudou a renovar-se”.
Finalmente, serem sentinelas da reconciliação e do perdão, pois Jesus, como salientou o prelado, “pede que, no meio das tensões, conflitos, contendas e ofensas na vida quotidiana, permaneça e prevaleça a busca da reconciliação e do perdão sobre a tentação de vingança, de violência, de ódio, de rancor”. E acrescentou:
Jesus pede que se faça todo o possível para que quem se perdeu reencontre o caminho da vida e que quem ofendeu o irmão reencontre o caminho da reconciliação e do perdão”.
Dom António Augusto dos Santos Marto terminou recordando que “Nossa Senhora de Fátima veio lembrar aqui estes caminhos da paz, o segredo da paz” e exortou os participantes da celebração a serem “sentinelas da paz”, a construí-la “artesanalmente dia a dia na família, na escola, nos vossos ambientes”. Assim, concluiu o bispo, “a paz não será uma miragem”.
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Registe-se que o “Espaço Jovem Papa Francisco” se localiza na Avenida João XXIII e se destina ao acolhimento de grupos de jovens que desejem aí realizar encontros de reflexão, retiros e atividades formativas, no âmbito do aprofundamento da mensagem de Fátima, com programa próprio ou proposto pelo Santuário de Fátima. E a Casa do Jovem, que se propõe como um espaço de escuta e de diálogo, de oração e de reflexão, vocacionado para os jovens, está localizada na colunata norte, com acesso a partir do recinto de oração. Ambos os espaços procuram proporcionar o encontro.
A Casa do Jovem proporciona o encontro com Deus junto do Santuário. E o Espaço Jovem Papa Francisco – com o ensejo do Encontro com Deus, consigo mesmos e com os outros por meio da mensagem de Fátima – pretende proporcionar aos jovens, força particularmente viva e dinâmica da Igreja, para quem foi pensado e criado. Dispõe de capela, sala de audiovisual e sala de convívio, com livros, música e atividades várias, onde os jovens podem simultaneamente sentir o acolhimento próprio dum lugar mais reservado e a abertura para descobrir e partilhar vivências e aprofundar a mensagem de Fátima junto da cidade dos homens.
O Papa Francisco, cujo testemunho inspira este espaço e lhe dá nome, relança aos jovens cristãos o desafio a uma vida marcada pela resposta às interpelações de Deus, que chama à relação consigo e com os irmãos, marcada pelo “olhar de Cristo, cheio de amor” (vd Mensagem aos jovens por ocasião das Jornadas Mundiais da Juventude de 2015). É o olhar a que convida a Senhora do Rosário, que nos faz ver a nós próprios e aos outros segundo Deus, o Deus-amor.
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Para lá dos muitos reparos que se lhe possam fazer, Fátima não para de surpreender crentes e não crentes – pelo Evangelho, pela fé e pela paz!

2017.10.26 – Louro de Carvalho

domingo, 27 de novembro de 2016

Inauguração do Ano Jubilar de Fátima – 2016-2017

Como consta de documento do Santuário de Fátima, com o logótipo do centenário das Aparições de Fátima (1917-2017), foi estabelecido, com a inerente indulgência plenária, “a fim de dignamente celebrar o 100.º aniversário das Aparições de Fátima”, por mandato do Papa Francisco, um Ano Jubilar, de 27 de novembro de 2016 até 26 de novembro de 2017.
Segundo Dom António Marto, Bispo de Leiria-Fátima este ano jubilar coroa 6 anos de comemorações do centenário e convoca-nos a todos, como Igreja, à vivência este tempo favorável (Kairós, no grego bíblico) com três objetivos: “ação de graças, experiência de misericórdia e de compromisso com a paz. Na verdade, em finais de 2010, acolhendo o explícito desafio do Papa Bento XVI, o Santuário iniciou um itinerário celebrativo do centenário das Aparições de 7 anos. Chega-se agora, ao 7.º ciclo, que corresponde ao auge da celebração do Centenário, o Ano Jubilar, que hoje, dia 27 de novembro, foi solenemente inaugurado.
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A preceder a solene inauguração do Ano Jubilar de Fátima, realizou-se a 26, no Salão do Bom Pastor, no Centro Pastoral de Paulo VI, em Fátima, a Jornada de Abertura do Ano jubilar e do Ano Pastoral da diocese de Leiria-Fátima, em que o conferencista convidado foi Dom António Couto, Bispo de Lamego, que proferiu uma conferência em torno do título “O Senhor fez maravilhas: Maria na história da Salvação”, no quadro do tema do Ano Jubilar, “O Meu Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá até Deus”.
O bispo-conferente precisou que “para quem tem olhos para ver, Fátima entrega a este mundo insensato e violento uma mão cheia de luz e de bom senso”. Sublinhou mesmo “a luz nova e mansa” que a Senhora deixou aos pastorinhos e que se reveste hoje duma enorme atualidade já que “em Fátima encontramos Maria, as crianças, as ovelhas mansas, a oração, a conversão, as contas do rosário, os segredos profundos da guerra e da paz”.
Para revelar a contemporaneidade da mensagem deixada pela Senhora do Rosário, o prelado lamecense estabeleceu um paralelo entre o mundo de 1917 e o mundo de hoje. Com efeito, à semelhança do que sucedeu há cem anos, “nunca se abriram tantas valas comuns nem se produziu tanto sofrimento” fazendo ressurgir Deus “com uma violência inaudita”. E referiu:
“Não deixa de ser paradoxal que o Deus que a razão iluminada aniquilou tenha ressurgido desta forma tão violenta porque é em nome de Deus que se têm produzido as maiores crueldades e as decisões mais insensatas desde os trágicos acontecimentos de 11 de setembro de 2001”.
O prelado lembrou que, tal como há cem anos, de Fátima “continua a elevar-se um grito, que desvenda a história escura e o coração empedernido e esclerosado dos homens e deixa entrever um novo sol no meio dos grãos de chuva que ao mesmo tempo turvam e lavam o olhar”. “É uma Luz nova e mansa, vinda de Deus e a única que pode alimentar a nossa luz reflexa” pois “o caminho da humanidade não é a autorreferencialidade, mas sim a luz que vem de Deus”.
Na verdade, “em Fátima encontramos Jesus, o filho de Maria, verbo de Deus abreviado neste pão novo” que se afigura como a salvação para a “humanidade ferida e faminta”. De facto, “Fátima pode ser o lugar de encontro e recitação à volta de Maria e deste pão”.
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Também o reitor do Santuário de Fátima, Padre Carlos Cabecinhas participou nesta jornada, salientando que o Ano Jubilar é “um ano de graça e de compromisso”. O reitor convida todos os peregrinos que, durante este período, visitarem o Santuário ao “compromisso com Deus e com os irmãos, acolhendo os desafios da mensagem de Fátima e do exemplo de vida dos pastorinhos”. Acentuou que aqueles e aquelas que ali “participarem em alguma celebração ou rezarem, poderão receber a Indulgência de Deus, expressão da Sua misericórdia para connosco”. E sublinhou que, por se tratar de um ano particularmente festivo, “serão as celebrações a marcar o ritmo da vivência deste jubileu do primeiro Centenário das Aparições”.

O Padre Cabecinhas disse também que, “ao celebrarmos o grande acontecimento de Fátima, damos graças a Deus por todas as bênçãos que Ele derrama sobre nós em Fátima, através da mensagem transmitida neste lugar e dos seus protagonistas.
Explicou que, para assinalar e destacar o caráter festivo do Ano Jubilar, o Santuário propõe alguns sinais e gestos aos peregrinos nomeadamente: o Pórtico Jubilar, inspirado no arco festivo que, em 1917, assinalou o lugar das aparições e sob o qual foram fotografados os pastorinhos Francisco, Jacinta e Lúcia; o Itinerário Jubilar do Peregrino, com uma proposta orante a todos os peregrinos que se deslocam ao Santuário neste ano; e a Oração Jubilar de Consagração, de entrega a Maria para, com ela, nos consagrarmos a Deus.
Referiu o sentido do tema escolhido para este ano pastoral, “O Meu Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá até Deus”, que tem como ponto de partida a aparição de outubro de 1017. Depois, salientando que a devoção ao Coração Imaculado de Maria é “alma da mensagem de Fátima” e o elemento que une as suas diversas dimensões, afirmou que, “partindo desta frase inspiradora [a do tema do ano], somos convidados, ao longo deste ano pastoral, a refletir sobre o lugar de Maria na história da salvação, a reconhecer que “o Senhor fez maravilhas” em Maria e através dela, a deixarmo-nos conduzir por ela até Deus e a darmos graças a Deus pelo dom das aparições de Nossa Senhora em Fátima”.
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Por sua vez, Dom António Marto, o Bispo diocesano, que encerrou a jornada, sustenta que estes “convites e interpelações de Deus” neste Ano Jubilar significam “um maior compromisso com Deus, mas também com os irmãos respondendo aos apelos feitos por Nossa Senhora à conversão”. Porém, segundo o prelado, isso só se alcança “através de uma mudança de vida” que tenha por base “a justiça e a paz, tal como a Senhora pediu”.
E, evocando o tema do ano, salientou que ele “sintetiza toda a mensagem de Fátima” pois “só o coração é capaz de falar ao coração” e o de Nossa Senhora “é um coração cheio de ternura que canta e conta as maravilhas do Senhor”.
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O Ano Jubilar foi solenemente inaugurado este domingo, início do Advento, com a passagem pelo Pórtico Jubilar e com a celebração da eucaristia dominical na Basílica da Santíssima Trindade. Presidiu o Bispo de Leiria-Fátima, que encara o Ano Jubilar “Hora de despertar”.
O prelado relembra que “o tempo do Advento é bem mais que a simples espera e preparação do dia do Natal”, porque o Natal “não se reduz à recordação romântica de um acontecimento longínquo do passado como é o nascimento do menino Jesus”. “O Advento” – disse Dom António Marto – “introduz-nos no coração do mistério cristão: a vinda de Deus à nossa vida, o mistério grande e fascinante de Deus connosco! É tempo de alegria porque Deus vem ao nosso encontro”. E afirmou aos peregrinos que a palavra de ordem do 1.º domingo do Advento é “vigiai, despertai do sono, para não deixar afogar a vida na banalidade dos dias como nos tempos de Noé”. Assim avisou:
“Também hoje podemos viver adormecidos, distraídos, anestesiados pelo ‘ramram’ do dia a dia: comemos, bebemos, trabalhamos, casamos, fazemos a nossa vida de família e a nossa atenção reduz-se a este horizonte estreito. Ficam de fora, na penumbra ou excluídas, outras realidades tão importantes e belas: a fé em Deus, o amor de Deus em nós, a vida espiritual, os valores morais. É hora de despertar!”.
O prelado, recordando que “foi esta advertência que Nossa Senhora fez ecoar aqui em Fátima, com uma urgência impressionante, para a humanidade que esquecera Deus, que vivia de costas voltadas para Ele e caminhava para a catástrofe da guerra e da destruição”, assegurou que “também hoje nos chama a uma vigilância interior, a despertar da indiferença, a voltarmo-nos para Deus, a abrir o nosso coração ao seu amor e a descobrir os sinais da sua vinda ao nosso mundo. Com Deus ou sem Ele a nossa vida e a vida do mundo serão diferentes!”.
E, considerando que a “outra palavra de ordem do Advento é ‘caminhemos à luz do Senhor’, porque à sua luz todos os povos podem caminhar para o Reino da justiça e da paz”, disse:
“Este caminho nunca está concluído. Há sempre necessidade de recomeçar, de se erguer de novo, de reencontrar e reavivar o sentido da meta, de renovar sempre o horizonte comum para o qual caminhamos, de transformar os instrumentos de guerra e de morte em instrumentos de progresso, de paz e de vida. É o horizonte da esperança que nos chama a fazer um bom caminho”.
O Bispo diocesano entende que o Advento “restitui-nos este horizonte da esperança que não desilude porque Deus é fiel” e, em Fátima, a Senhora trouxe “esta esperança firme de paz”, sendo “impressionante o seu apelo à oração e ao empenho pela paz e pela defesa da dignidade dos oprimidos e dos inocentes, vítimas de guerras e genocídios sem precedentes na história”.
Por consequência, “a terceira indicação do advento é um apelo a mudar de atitude de vida e a revestir-se das armas da luz, como que a um rearmamento espiritual e moral das consciências para viver a paz de Deus, a paz do coração, a paz com os outros”. E assegura o Bispo:
“Foi este apelo à conversão que Nossa Senhora fez em Fátima quando pedia penitência. O milagre mais importante de Fátima não é propriamente a dança do sol, mas antes a conversão do coração e da vida de tanta gente, que aqui acontece sem dar nas vistas, e que podemos chamar também a ‘dança da conversão’ ao ritmo da música de Deus que ressoa no Magnificat da Virgem e enche de alegria”.
O prelado deixou o desafio de vivência do ano Jubilar com “alegria e a esperança”, como “tempo favorável de ação de graças pelo dom da visita e da mensagem da Senhora e pelas graças recebidas”, “de experiência da ternura e da misericórdia de Deus, de devoção terna ao Imaculado Coração de Maria, de conversão e de compromisso com Deus e a favor dos outros e da paz no mundo, a exemplo dos pastorinhos”. E concluiu, dizendo:
“A passagem pelo Pórtico do Jubileu seja o sinal exterior de que entramos em peregrinação interior e queremos deixar-nos guiar pela Virgem Santa que é mãe e sabe como conduzir-nos até Deus. Deixemo-nos, pois, guiar por Ela neste tempo de perturbação e de esperança!”.
A celebração terminou com a bênção papal concedida pelo bispo da diocese de Leiria-Fátima, por mandato do Papa, cujo documento estabelece, para além do Pai-Nosso, o Credo e as orações em Fátima (ou perante uma venerável imagem da Virgem de Fátima e, para doentes uma simples imagem sua):
“Para obter a indulgência plenária, os fiéis, verdadeiramente penitentes e animados de caridade, devem cumprir ritualmente as seguintes condições: confissão sacramental, comunhão eucarística e oração pelas intenções do Santo Padre”.
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A Oração Jubilar de Consagração pode ver-se em:
Frutuoso Ano Jubilar!

2016.11.27 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

A perenidade da Misericórdia

Avançamos a largos passos para o encerramento do Jubileu da Misericórdia. Com efeito, no próximo domingo dia 20 de novembro, encerrar-se-á na Basílica de São Pedro a Porta Santa. Antecipadamente e para que as atenções se voltassem para o Vaticano a 20 de novembro, solenidade de Jesus Cristo Rei do Universo, as igrejas jubilares do mundo fecharam as portas da Misericórdia.
Destaca-se historicamente a Porta Santa de Bangui, na República Centro Africana, a primeira a ser aberta pelo Papa em novembro de 2015. Mas devem ser tidas em conta as palavras de Dom Dieudonné Nzapalainga, arcebispo de Bangui e Presidente da Conferência Episcopal da República Centro Africana que, apesar do encerramento oficial, sublinhou que, na Catedral, a porta permanecerá aberta para significar que todos os dias são “tempo de misericórdia” e pediu “que o fruto deste Ano Santo seja o fim da guerra”. Na verdade, a paz na África Central é uma urgência, bem como a especial atenção aos “deslocados” da guerra.
Aqui temos de sublinhar que, se a misericórdia for um objetivo, uma prática e um estilo de vida nas relações interpessoais e se, nesse dinamismo se enquadrarem os decisores das nações, a misericórdia tem necessariamente como fruto político a paz e cria as condições para o desenvolvimento das pessoas no culto da sua dignidade, na procura e na oferta de pão, casa e trabalho par cada uma, bem como o crescimento de uma sociedade sadia.
Entretanto, foram também encerradas no passado domingo, dia 13, em Roma, as portas santas das Basílicas de Santa Maria Maior, São João de Latrão e São Paulo fora de Muros. O Cardeal Vigário Agostino Vallini, que presidiu à celebração na Basílica de São João de Latrão, afirmou na sua homilia que “o destino final do mundo não está nas mãos dos homens, mas na misericórdia de Deus” e sublinhou que a “misericórdia não é um sinal de fraqueza”, mas a “irradiação poderosa da omnipotência amorosa do Pai”. Por seu turno, o Cardeal Santos Abril y Castello, que presidiu à celebração na Basílica de Santa Maria Maior, afirmou que “a Porta Santa simboliza Jesus” e salientou que no caminho rumo à santidade precisamos da “mão materna de Maria” que nos indica o caminho para Cristo, que é a porta do Reino.
E, também nesse domingo, dia 13, Francisco recordou, na recitação do Angelus, o encerramento das portas santas nas catedrais e santuários do mundo e declarou que o Ano Santo nos solicita a termos o “olhar fixo no cumprimento do Reino de Deus” e a “construir o futuro sobre esta terra, trabalhando para evangelizar o presente”. É esta a batalha de todos os dias.
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O padre Manuel Morujão, um dos padres portugueses missionários da misericórdia, diz que o Ano da Misericórdia promovido pelo Papa foi um “treino” que deu “balanço” aos cristãos para “exercitarem no dia a dia a misericórdia” no mundo. Em entrevista ao Programa ECCLESIA, da RTP2, o sacerdote salientou a importância de a Igreja Católica e as suas comunidades não se deixarem ficar pelas “celebrações, com mais ou menos pompa e circunstância”, a marcar o evento. Este jesuíta, autor do livro ‘Celebrar e Praticar a Misericórdia’, que forneceu propostas para a vivência deste Jubileu, sustenta que a misericórdia e as suas obras devem concretizar-se no quotidiano “das pessoas, das famílias, das paróquias, das dioceses e da Igreja”.
Lançado pelo Papa Francisco a 8 de dezembro de 2015, para tornar mais evidente a missão da Igreja Católica como testemunha e praticante da misericórdia de Deus no mundo, o Jubileu da Misericórdia congregou as dioceses e comunidades cristãs de todo o mundo numa atenção especial aos mais marginalizados e excluídos da sociedade. Para o padre Morujão, o evento veio numa altura em que o mundo vive “uma urgência de misericórdia”. Nas suas palavras, “o mundo era irrespirável se não houvesse tolerância, compreensão, aceitação, ou seja, se não vivêssemos a praticar obras de misericórdia, nos mais variados campos”; e, neste sentido, com este Ano Santo “procurou-se que este aspeto exterior passasse para a vida das pessoas”.
No início do Jubileu, o Papa Francisco enviou mais de mil ‘missionários da misericórdia’ pelo mundo, chamados a ser expressão do perdão de Deus e convite de conversão a todas as pessoas. Neste quadro, o sacerdote elogiou os “sinais” e “gestos” que, ao longo do ano, permitiram concretizar a preocupação com a misericórdia, sublinhando, por exemplo, a abertura das Portas Santas, simbolizando a “peregrinação” e a “abertura” do coração. E inferiu:
“É preciso uma conversão, acho que todos temos de nos converter sempre mais à misericórdia que vem da fonte de Deus, que é rico em misericórdia, diria multimilionário de misericórdia, e depois traduzir isso em gestos fraternos”.
A vivência deste Ano Santo extraordinário na história da Igreja deve servir como “rampa de lançamento” para continuar a “concretizar este ideal em obras concretas de misericórdia”.
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O Bispo do Algarve, na celebração da Eucaristia de encerramento, na diocese algarvia, do Ano Santo Extraordinário da Misericórdia, proclamado por Francisco para se realizar de 8 de dezembro de 2015 a 20 de novembro de 2016, disse que a iniciativa se conclui, “mas a misericórdia de Deus continua”. Assegurou, na celebração a que presidiu na Sé de Faro com vários sacerdotes do Algarve, que “a misericórdia de Deus não se encerra nunca”. Especificou que “a porta deste coração, donde brota esta fonte de misericórdia, fica sempre escancarada”, devendo, por conseguinte, continuar a ser lema dos cristãos o lema deste ano, “Sede misericordiosos como o Pai é misericordioso”. Na verdade, “temos que aprender, constantemente, a ser misericordiosos como Ele é misericordioso”, sabendo que este “é um critério que nos identifica e que torna mais credível o nosso testemunho”. E prosseguiu:
 “E por isso, recorda-nos também o Papa, onde estiver a Igreja, cada batizado, tem de estar presente a misericórdia do Pai. Onde houver um discípulo de Cristo tem de estar aí também presente, de maneira viva e atuante a misericórdia do Pai e continua a misericórdia de Deus a distribuir-se abundantemente por todos”.
O Bispo do Algarve desafiou mesmo a “olhar para trás” e a “fazer uma espécie de exame de consciência”, interrogando, para desafiar à continuação da crescente identificação com Jesus:
“Como é que foi este tempo para nós? Como é que celebrámos a misericórdia? De que modo é que este Ano da Misericórdia nos ajudou a ser melhores discípulos de Jesus, nos ajudou a ser membros desta Igreja que é nossa, a partir das nossas comunidades paroquiais, de maneira mais consciente, corresponsável e participativa?”.
Depois, citando o Papa, sentenciou:
“É possível estarmos contentes pelo caminho percorrido, mas que, olhando para o nosso percurso e para o estado da nossa conversão, ainda verifiquemos que nos falta muito caminhar. Esta conversão pessoal, comunitária, eclesial tem que continuar para que o nosso testemunho seja mais forte, convincente e eficaz, para que este regresso ao essencial seja permanente e constante em cada dia da nossa vida, para que esta Igreja que nós constituímos seja verdadeiramente ‘uma casa para muitos e uma mãe para todos’.”.
Considerando o Jubileu como uma “feliz iniciativa do Papa Francisco”, exclamou:
“Quanta riqueza tivemos oportunidade de beneficiar, abrindo-nos, celebrando e partilhando a misericórdia de Deus”!
E, assumindo a celebração a que presidia como um “hino de louvor e ação de graças” por tudo quanto nos foi dado “viver, celebrar e usufruir, pessoalmente, individualmente, mas também comunitariamente e eclesialmente, ao longo deste Ano Jubilar”, terminou com a seguinte referência ao Cântico do Magnificat:
“Quer exprimir este grito pessoal, mas também de toda a Igreja, particularmente da nossa Igreja diocesana, no louvor ao Senhor pelo dom deste Ano Jubilar”.
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Também o Bispo do Porto se referiu, em nota pastoral de 6 de novembro, ao ano jubilar. Começou por dizer que, no Ano Santo da Misericórdia, o Papa “não esqueceu nada nem ninguém”, antes, “procurou integrar-nos a todos neste movimento que a misericórdia de Deus abraça, envolve e anima”. Assim se entende tudo quanto “Francisco tem dito e tem feito em mensagens e em gestos”; e assim “se devem ler as suas palavras do passado dia 21 de outubro”, aos Membros do Congresso Internacional da Pastoral Vocacional, promovido pela Congregação do Clero, em que os convidava a: “sair, ver e chamar”. Aqui radica, segundo o Papa, “a pedagogia de uma pastoral vocacional pró-ativa”, sendo que a pastoral vocacional é, “antes de mais e acima de tudo, um convite ao encontro com o Senhor Jesus” e deve “levar-nos a aprender o estilo de Jesus, que passou pelos lugares da vida quotidiana daqueles que chamou e passou sem pressa”. E fez a ponte para a vivência da Semana dos Seminários, que então começava, sob o tema: “Movidos pela misericórdia de Deus”.
Depois, vem a palavra sobre o sentido deste jubileu à semelhança dos demais:
“Como em todos os Jubileus celebrados ao longo da história, as razões que os determinaram, as motivações que lhes deram sentido no coração de cada Papa e a bênção que trouxeram à Igreja devem permanecer e continuar para lá do tempo circunscrito da sua realização”.
Acentuou o caráter providencial desta iniciativa de Francisco e garantiu:
“Percebemos bem como a Igreja precisava desta lufada de nova missão que irrompe da misericórdia divina, acolhida e traduzida na vida de todos os dias. E não nos surpreende a alma aberta do mundo que acolheu esta iniciativa do Papa Francisco com alargada aprovação e atento interesse. Todos precisávamos deste Jubileu e de quanto ele nos trouxe de bênção, de compaixão e de apelo a vidas transformadas pela misericórdia de Deus e realizadoras das obras de misericórdia.”.
Depois especificou as diversas valorações que o Jubileu trouxe: a da “urgente cultura do encontro, da proximidade, da compaixão e da misericórdia”; a da abertura “à Igreja de caminhos novos duma pastoral próxima, atenta a todos e capaz de fazer chegar a cada pessoa esta certeza única de que Deus nos ama como Pai, rico de misericórdia”; a do gosto e coragem de sabermos “que a porta da misericórdia está sempre aberta para nos conduzir a Deus na procura de reconciliação, de misericórdia, de perdão e de paz”; a do incentivo “a de sairmos ao encontro dos irmãos, renovados nas fontes da alegria”; e de ter acordado “em todos nós e bem para lá de nós o desejo e o dever de praticar as obras de misericórdia, com alegria”.
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Que a misericórdia é exigência permanente do Evangelho já o sabíamos e o Ano Santo veio lembrá-lo de muitos modos. E agora seria um verdadeiro e anacrónico episódio se quiséssemos ou pudéssemos parar. Na verdade, a afirmação de Maria, “a Sua misericórdia estende-se de geração em geração” (Lc 1,50), não conhece limites locais ou temporais, bem como a Bem-aventurança dos que “são misericordiosos porque alcançarão misericórdia” (Mt 5,7) ou a ordem de Jesus, “Ide aprender o que significa: quero a misericórdia e não os sacrifícios” (Mt 9,13).
De facto, a misericórdia tem de ser um estilo à imitação do Pai espelhado em Cristo. Os pobres, os homens com carências persistem e só Deus é capaz de contorcer-se e condoer-se adequadamente segundo as necessidades de cada um dos homens. Cristo mostrou-o em si próprio. Porém, por indicação, desejo e ordem de Jesus, nós somos solicitados a empreender, por imitação, o mais perfeita possível, a mesma ação de misericórdia, amor e fidelidade. Deu-nos o exemplo para que façamos como Ele fez (cf Jo 13,15).

2016.11.16 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

Não olhar o excluído é “virar a face a Deus”

O Vaticano promoveu, no quadro do Ano da Misericórdia, o jubileu dos reclusos, a 6 de novembro, e o jubileu das pessoas excluídas socialmente no passado dia 13.
Por motivos diferentes, reclusos, sem-abrigo, migrantes (muitos deles) e refugiados e população remetida a guetos, bairros de lata, bairros problemáticos e acampamentos de massas são excluídos pela sociedade sob pretextos vários.
Olhando o mundo com olhos cristãos, não pode deixar de ressoar nas mentes, nas famílias e nas comunidades eclesiais a força interpelante das duas obras de misericórdia atinentes a estas situações: visitar os encarcerados e acolher os peregrinos. Porém, estas obras de visita ou de acolhimento não podem ser entendidas como uma floração sobejante da vida do homem que se deixou tocar pela fé, mas como radicalmente resultantes da força que tem a “visita” de Deus ao seu povo – visita redentora ou libertadora e não simpática ou acomodatícia – e com a abrangência e intensidade do que significa acolher. Não é visitar para se mostrar, dizer palavras e aconselhar paciência ou receber dando uma sopa quente e deixando dormir no palheiro.
A resposta às situações de emergência impõe-se em primeira linha sem ter que filosofar muito e sem esperar por planificações estruturadas e com estratégias eivadas de eficácia. Todavia, não podemos resignar-nos à resposta às emergências; é preciso preparar a estruturação da mudança de encarcerado, logo que possível, a integrado “económica e socialmente”, banindo estigmas e preconceitos, o que implica tanto a mudança de vida do ex-recluso como a conversão de mentalidade e de postura da parte dos elementos da sociedade considerada sã; e é preciso pensar no acolhimento e integração dos sem-abrigo e de todos os estigmatizados pela migração sofrida, situação de refugiado, drogado, delinquente ou residente em gueto ou bairro problemático.
Depois, é de analisar as estruturas económicas, políticas, financeiras e sociais que possibilitam e deixam aninhar e desenvolver estas situações de degradação, indignidade e exploração – que podem ter sido construídas intencionalmente na luta pelo poder, riqueza e prestígio. Ou seja, como dizia Bruto da costa, recém-falecido, é preciso ultrapassar (não quer dizer que esta não deva continuar a ter lugar) a caridade interpessoal e passar à caridade política, pois é neste patamar que se constrói a justiça social que leva a não dar só por caridade o que é devido por justiça.
Além disso, há que relacionar estas duas obras de misericórdia (que o são enquanto espelho da compaixão divina e que levam os homens a comportamentos adequados), que são imperativo da justiça à moda de Deus, com as demais. Com efeito, na cadeia, na rua, no bairro ou na falta de abrigo pode abundar o abandono e a solidão, a fome e a sede, a nudez e a falta de teto, a doença e a enfermidade, o erro e o vício. E lá urge a palavra e a escuta, aconselhamento, correção fraterna, saciedade da fome e da sede, cobertura da nudez, construção ou reparação da casa e sua higienização, abertura do futuro pela via do trabalho e do amparo na doença e na velhice.
E é necessário fazermos destas obras o critério da preparação para a vinda do Senhor como refere o Evangelho de Mateus na terceira e última parte do capítulo 25 (vd Mt 25,31-46) e assumirmos a responsabilidade pelo cuidado dos irmãos para que se sintam pessoas.
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Mas as obras de misericórdia acima referenciadas têm a sua voz concreta específica.
Assim o Papa, no jubileu dos reclusos, dirigiu o apelo a favor do melhoramento das condições de vida nas prisões de todo o mundo, para que seja respeitada plenamente a dignidade humana dos reclusos. Além disso, reafirmou a importância da reflexão sobre a necessidade duma justiça penal que não seja exclusivamente punitiva, mas aberta à esperança e à perspetiva de reinserção do réu na sociedade, e submeteu à consideração das competentes Autoridades civis de cada país a possibilidade de realizarem, neste Ano Santo da Misericórdia, “um ato de clemência em relação aos reclusos considerados idóneos para beneficiar de tal medida”.
Resta saber se o Ano da Misericórdia tem eco suficiente nos Estados para que a resposta ao apelo papal seja o mais completa possível. É óbvio que o referido ato de clemência pode ser oferecido na modalidade de indulto ou na de amnistia. E é sempre de ter conta a situação de cada um. Todavia, os Estados ofereceram amnistia por motivos menos ponderosos.
Na homilia da Missa do dia 6, Francisco ofereceu aos encarcerados a palavra da misericórdia como expressão do amor de Deus e contrapôs à privação da liberdade, eventualmente merecida pela violação da lei, a esperança que “não pode desfalecer”, sublinhando:
“Uma coisa é o que merecemos pelo mal realizado; outra, diversa, é a ‘respiração’ da esperança, que não pode ser sufocada por nada nem ninguém. O nosso coração sempre espera o bem; devemos isso à misericórdia com que Deus vem ao nosso encontro sem nos abandonar jamais.”.
Citando a Carta aos Romanos, em que o apóstolo Paulo fala de Deus como sendo o “Deus da esperança” (15,13), o Papa ensina: 
Deus espera! A sua misericórdia não O deixa tranquilo. É como aquele Pai da parábola, que sempre espera o regresso do filho que errou (cf Lc 15,11-32). Deus não Se dá trégua nem descanso, enquanto não encontrar a ovelha que estava perdida (cf Lc 15,5).”.
E infere:
“Ora, se Deus espera, então a esperança não pode ser tirada a ninguém, porque é a força para continuar; é a tensão para o futuro, a fim de transformar a vida; é um impulso para o amanhã, a fim de o amor – com que, apesar de tudo, somos amados – se poder tornar um caminho novo... Em suma, a esperança é a prova interior da força da misericórdia de Deus, que pede para olhar em frente e, com a fé e o abandono n’Ele, vencer a atração para o mal e o pecado.”.
Sabendo que não depende do Papa nem da Igreja a concessão da liberdade, o Pontífice frisa que ninguém pode ser impedido de desejar a liberdade e de acalentar a esperança contra a a dureza das estruturas, a imobilidade das mentes e os preconceitos e estigmatizações. Por outro lado, sabe que ninguém se pode considerar justo diante de Deus e o cárcere pode ter de acolher qualquer um de nós, já que todos erramos. E para todos está disponível o perdão de Deus, como dom de Deus e como interpelação à capacidade de perdão da parte dos homens. 
E Francisco apontou a imagem da Virgem Maria que representa a Mãe que “sustenta nos seus braços Jesus com uma corrente quebrada, as correntes da escravidão e da prisão”; e implorou que Ela pouse sobre cada um o seu olhar materno; e faça brotar do coração a força da esperança “para uma vida nova e digna de ser vivida na liberdade plena e no serviço do próximo”.
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Na homilia do dia 13, Francisco denunciou a esclerose espiritual que se concentra na produção de bens e serviços e não nas pessoas a amar. Partindo destas palavras de Malaquias, “…nascerá o sol de justiça, trazendo nos seus raios a salvação” – dirigidas aos que têm confiança no Senhor e depõem a sua esperança n’Ele, escolhendo-O como bem supremo da vida e recusando-se a viver só para si mesmos e para os seus interesses –, o Pontífice colocou algumas questões:
Onde procuro a minha segurança? No Senhor ou noutras seguranças que desgostam a Deus? Para onde está direcionada a minha vida? Está dirigida ao Senhor da vida ou para coisas que passam e não saciam?”.
São questões similares das que sugere a passagem  evangélica (Lc 21,5-19) do XXXIII domingo do Tempo Comum (Ano C). Com efeito, “Jesus encontra-se em Jerusalém, para a última e mais importante página da sua vida terrena: a sua morte e ressurreição. As pessoas estavam a falar das belezas exteriores do templo, quando Jesus lhes disse: Dias virão em que, de tudo o que estais a ver, não ficará pedra sobre pedra: tudo será destruído. Tais enunciados suscitaram a interrogação sobre quando aquelas coisas iriam acontecer e qual o sinal desse momento. 
Obviamente, a curiosidade e o medo são coisas que preocupam as pessoas e não o essencial. Ora, se as pessoas, que são discípulos de Cristo, se preocuparem com o essencial, não temerão as provas mais graves e injustas que lhes venham a acontecer. Porque o essencial é a perseverança no bem e colocar a plena confiança em Deus. Com efeito, se as pessoas se moldarem pelo coração de Deus manifestado em Cristo, não temerão a fornalha ardente que as atravessará como diz Malaquias. O fogo queima a palha, mas preserva e endurece a pedra rija. Para os pobres de si, mas ricos de Deus, brilhará o sol da sua justiça: são os pobres em espírito, a quem Jesus promete o reino dos céus (cf Mt 5,3) e de quem Deus, pela boca do profeta Malaquias, declara: são meus (Ml 3,17). O profeta contrapõe-nos aos soberbos, aos que puseram em autossuficiência e nos bens do mundo a segurança da vida.
E, se esperamos a “visita” de Cristo, não nos dedicamos à futilidade, mas trabalhamos para termos a morada preparada para O receber quando bater à nossa porta; não cruzamos os braços como faziam os Tessalonicenses. Mas trabalhamos para merecermos o alimento e o repouso e progredimos na fé e na caridade, mostrando as razões da nossa esperança aos demais. E, como promete o Evangelho, será pela constância da nossa fé que salvaremos as nossas almas.
Quem segue Jesus não escuta os profetas da desgraça, a futilidade dos horóscopos, a pregação e a previsão que amedronta, distraindo daquilo que conta. Ele convida a distinguir, de entre as muitas vozes que se ouvem, aquilo que vem d’Ele e o que vem do falso espírito, e a não temer os cataclismos de cada época ou as perseguições pela fé. Pede a perseverança no bem e a plena confiança em Deus, que não desilude, não esquece os seus fiéis, a sua propriedade preciosa.
Assim o Papa diz-nos que Jesus nos pede que perseveremos no bem e que ponhamos “plena confiança em Deus” porque “há duas riquezas que não desaparecem nunca” e que têm verdadeiro “valor na vida”: “o Senhor e o próximo”; e, em particular, as “pessoas concretas”, as pessoas excluídas:
“A pessoa humana, colocada por Deus no cume do criado, é muitas vezes descartada, porque são preferidas as coisas que passam. E isto é inaceitável, porque o homem é o bem mais precioso aos olhos de Deus. E é grave que se habituem a este descarte”.
No jubileu dos excluídos, das pessoas sem-abrigo e em situação de precariedade, clamando que não olhar o excluído é “virar a face a Deus”, é uma “esclerose espiritual”, Francisco afirmou:
“ É um sintoma de esclerose espiritual quando o interesse se concentra nas coisas a produzir, e não nas pessoas a amar. Assim, nasce a trágica contradição dos nossos tempos: quanto mais aumentam o progresso e as possibilidades, o que é um bem, tanto mais são aqueles que não lhe podem aceder.”
Apesar de, neste dia 13, se encerrarem as Portas da Misericórdia nas Catedrais e nos Santuários de todo o mundo, o Santo Padre apelou a que não fechemos “os olhos perante Deus que nos olha e perante o próximo que nos interpela” – o “Lázaro” ou “irmão excluído” para quem deve ser direcionada a nossa atenção deixando para trás “interesses”, “privilégios” e “poder”.
Está em jogo o dever e direito da Igreja (dos cristãos) de olhar a humanidade que sofre e chora e, simbolicamente, fazer deste dia “O dia dos pobres”, como quer o Papa Francisco.

2016.11.14 – Louro de Carvalho