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domingo, 19 de maio de 2019

“Um novo Céu e uma nova Terra”


Um novo Céu e uma nova Terra ou o Universo renovado (como indica o adjetivo grego “kainós”). Tal é o cenário que o autor do Apocalipse tem na sua visão em que culmina o livro do Apocalipse (Ap 21 – 22), atribuído a João, o discípulo amado, e em que se destaca a Jerusalém nova”.
Não é fábula ou conto de fadas a perícopa apocalíptica (Ap 21,1-5a) que a Liturgia da Palavra do 5.º domingo da Páscoa assumiu como 2.ª leitura, mas é um mundo verdadeiramente novo, que surge da Ressurreição de Jesus e em que “Deus enxugará as lágrimas dos nossos olhos”. E a Igreja, que participa nos sofrimentos de Jesus, neste mundo, verá terminada esta experiência dolorosa, pois, na glória celeste, não haverá gemidos nem dor. Na verdade, o mundo antigo desaparecerá e nós, de peregrinos que somos, passaremos a cidadãos dos novos Céus e da nova Terra, porque Deus prometeu: “Eis que vou renovar todas as coisas!”.
A renovação do Universo comporta indubitavelmente um sentido ético, porque decorre da supressão do pecado, mas inclui também uma renovação física, sobretudo tendo em conta o que se diz em 2Pe 3,10-13 (Os céus desaparecerão com estrondo, os elementos do mundo abrasados dissolver-se-ão, assim como a terra e as obras que nela houver… Nós, porém, segundo a sua promessa, esperamos uns novos céus e uma nova terra, onde habite a justiça) e Rm 8,19-22 (A criação encontra-se em expectativa ansiosa, aguardando a revelação dos filhos de Deus. Foi sujeita à destruição… na esperança de que também será libertada da escravidão da corrupção, para alcançar a liberdade na glória dos filhos de Deus… Geme e sofre as dores de parto até ao presente). A expressão “Novo Céu e nova Terra” é tirada de Is 65,17 e 66,22, em que se refere a criação de “um novo céu e uma nova terra” e de “os novos céus e a nova terra”, respetivamente. O que se passará, em concreto, com o Universo no fim dos tempos continua um mistério (cf Gaudium et Spes, n.º 139). Em todo o caso, a renovação em causa é de ordem sobrenatural e misteriosa, não simples fruto dum processo evolutivo natural.
A Jerusalém nova é uma imagem da Igreja, a Esposa do Cordeiro (Ap 9-10), noiva adornada para o seu esposo. Coincide com a linguagem de Paulo, que chama à Igreja “a Jerusalém lá do alto, que é nossa Mãe” (Gl 4,26). E é uma aplicação da Tradição cristã – incluindo a Liturgia – a Nossa Senhora, a Esposa do Espírito Santo e a Mãe, modelo e membro destacado da Igreja. (2Cor 11,2; Ef 5,25; Mt 22,1; 25,1; Jo 3,29). A Igreja aparece aqui na sua fase definitiva e final, celeste e triunfante, mas, desde já, ela é a verdadeira “morada de Deus com os homens”: esta presença única de Deus e com Deus inicia-se com a Encarnação, é garantida na Última Ceia, no Calvário e na saída vitoriosa de Cristo do túmulo e é consumada no Céu na parusia, sendo que a Eucaristia é a sua vivência por antecipação e seu penhor.
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Todavia, há muito caminho por fazer nesta peregrinação terrestre da Igreja a caminho da realização plena da cidadania celeste. A luz que ilumina esta peregrinação é a glorificação de Jesus, o Filho, e a glorificação do Pai no Filho; e o caminho é o do amor fraterno. E a perícopa do Evangelho de hoje (Jo 13,31-33a.34-35) sintetiza estas duas vertentes.
Depois da Ceia, Judas sai para perpetrar a traição do Mestre. É Jesus quem o ordena (“O que tens a fazer fá-lo depressa” – Jo 13,27). Após a saída do traidor, Jesus fica profundamente perturbado com o pensamento da sua Paixão, mas tal perturbação transforma-se e Ele solta um grito de exultação. É como se tivesse já enfrentado a morte e se encontrasse na glória do Pai (para Deus não há o desgaste do tempo). Com efeito, a saída de Judas da Ceia para concretizar a prisão de Jesus, dando início à sua Paixão, aparece como o início da sua glorificação. É que a Paixão e a Morte do Senhor não é uma derrota, mas a vitória sobre o demónio e o pecado. E o texto joanino indica que na Paixão-Morte-Ressurreição se mostra a glória de Cristo, ao dar, pela sua Morte redentora, a Vida Eterna e o Espírito Santo aos que n’ Ele creem.
Jesus abre o seu coração na intimidade do grupo dos discípulos e desenvolve-se um terno e eficiente colóquio. Tal como antes, ao terminar o lava-pés, explicou o significado daquele gesto de serviço, agora interpreta a saída de Judas que o entregará, conforme o Mestre anunciara. Explica a aceitação que faz da morte em termos de manifestação da sua glória, que se identifica com a do Pai, porque a sua Morte, livremente aceite, é a grande prova do amor de Deus, que dá o seu Filho Unigénito (vd Jo 3,16).
A palavra “agora” (“nûn”, em grego) domina toda a frase e assinala o cumprimento da hora da Paixão e Morte, ou seja, da Glorificação. Na presença dos gregos, Jesus definiu a “hora” como o momento em que o Filho do Homem seria glorificado (Jo 12,23). Vendo realizar-se o anúncio feito pela multidão “Agora  o príncipe deste mundo será lançado fora” (Jo 12,31), experimenta já a vitória sobre o mal e sobre a morte e sente-se no coração de Deus. Através do “agora”, o evangelista exprime a convicção da fé dos primeiros cristãos: a Páscoa deu início à nova era.
É uma afirmação misteriosa e difícil de compreender. E Jesus, consciente disso, tem uma linguagem altamente evocativa. Fala de si recorrendo à expressão “Filho do Homem. Nos sinóticos, fala do Filho do Homem quando revela que a missão O levará ao sofrimento e ao despojamento. Na literatura apocalíptica judaica, o Filho do Homem é uma personagem celeste que se manifestará no fim dos tempos (vd Dn 7,13-14). Porém, no evangelho de João, a denominação “Filho do Homem” é utilizada nos textos em que se afirma que Jesus pertence a uma condição superior à humana, mesmo quando se fala da cruz. A primeira vez que João adota esta designação é no capítulo I (Jo 1,51), no episódio de Natanael (“Vereis o céu aberto e os anjos de Deus subirem e descerem sobre o Filho do Homem”). A última vez é em Jo 12,32 com o retomar do tema da glorificação, apresentada como já realizada em Jo 13, 31-32.
Outro elemento evocativo é a utilização dum estilo altamente lírico: é repetido 5 vezes o verbo glorificar e 3 vezes a palavra nele. O verbo glorificar tem valor quer para o passado (Jesus cumpriu a sua missão) quer para o futuro próximo (a sua Páscoa de morte e ressurreição) ou remoto e definitivo (a glória escatológica). O Filho do homem, na ótica de João, começa a ser glorificado com o início da Paixão que é “agora” e que tende para o Calvário. Ele é exaltado sobre a cruz como a serpente de bronze no poste (vd Jo 3,14ss). Desse trono manifesta em plenitude a sua divindade (vd Jo 8,28) e atrai todos a si (vd Jo 12,32). Com tal glorificação é revestido da glória divina que possuía antes da existência do cosmos (vd Jo 17,5). Portanto, o Filho do Homem foi glorificado. Foi glorificado é uma expressão proléptica, pois dá como já realizado o que com toda a certeza se vai realizar.
Pouco antes, o evangelista indicava a saída de Judas. Portanto, a glorificação de Cristo é posta em relação direta com a morte, considerada como já acontecida, mas não é Judas a causa de tal glorificação. O autor desta glorificação é Deus. Isto é indicado pelo uso da voz médio-passiva verbal (“edoxásthê”), que tem aqui um sentido manifestativo:foi glorificado” (subentende-se Deus como sujeito), isto é, Deus glorificou-o. E, glorificando Jesus, o Pai revelou a sua glória, sendo, por sua vez, glorificado. Poderia traduzir-se: “agora é que se revela a glória… (cf Jo 12,23; 17,1-5). Esta revelação realiza-se pela ressurreição de Jesus, pela sua exaltação, pela sua subida para junto do Pai. Mas, graças à relação com o Pai, o Filho estava já na glória. E com a ressurreição adquire uma outra glória: a de permitir que, por Ele, todos os crentes participem na própria vida de Deus (somos irmãos de Jesus). Jesus, elevado da terra, atrairá a si todos os homens (cf Jo 12,32) e realiza a reunião na unidade, o objetivo de Deus no envio e na obra confiada ao seu Filho único. O próprio Deus Se glorifica no Filho do Homem revelando, através dele, que é Amor.
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A partir do v. 33 há uma mudança de cena: Jesus dirige-se aos discípulos como um patriarca ou um pai que, à hora da morte, reúne os descendentes para lhes entregar o testamento, e usa um termo afetuoso: filhinhos. Anunciando  a sua partida, Jesus cria uma situação nova. Não estará mais com os seus como esteve até agora. Por isso, chama-os a continuar a amizade com Ele através duma fé profunda, que está em relação direta com o amor fraterno. O mandamento do amor que lhes dá evoca a ideia de Aliança, não a realizada através de Moisés, mas a nova e definitiva Aliança levada a cabo por Jesus. Eis porque o mandamento é apresentado como “novo” (em grego kainos, a indicar uma mudança qualitativa). O termo “mandamento”, no 4.º evangelho, significa a palavra que revela o amor de Deus Pai; por isso é apenas um, e não dois ou dez.
A lei do amor fraterno não era uma novidade em si (cf Lv 19,18). A novidade está na medida e no sentido. A medida já não é a do coração meramente humano, “como a ti mesmo”, mas a do coração de Cristo, “Como Eu vos amei”, na entrega da própria vida pela redenção de todos (cf 1Jo 4,9-11). Não se trata de os discípulos deverem imitar o comportamento do Mestre, o que seria redutor, tornando Jesus uma personagem do passado, de quem se herda algo a aplicar, de modo que a ação dos discípulos apenas perpetuasse no tempo a de Jesus. Ao invés, postula-se uma interpretação mais profunda. A conjunção “como” não tem o sentido de semelhança, mas de origem ou causa fundante. O sentido é: “Com o amor com que vos amei, amai-vos uns aos outros”. O amor do Filho de Deus pelos discípulos gera o seu movimento de amor: é o seu amor, o amor de Jesus que passa neles quando amam os irmãos e são por eles amados. É o amor com que Jesus ama cada homem que gera a fraternidade e nela empenha cada comunidade cristã, “um amor sempre novo, sempre gratuito e profundo, como a aliança que Deus revela amando a humanidade e o mundo”. Como se vê, não é só a medida que é nova, mas o sentido. Por outro lado, este amor fraterno é a medida da fé e do testemunho: é um amor que suscita a fé da parte dos outros e que torna credível o testemunho. Assim, é um sinal: Por isto é que todos conhecerão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros” (Jo 13,31). 
O amor recíproco manifestará a todos, também num ambiente não crente, a pertença a Cristo, através de quem cada pessoa pode passar da morte à vida. O amor que deve viver a comunidade cristã torna-se o rosto do Ressuscitado que vive na sua Igreja (1Jo 4,12), é a virtude essencial do cristão que vive na espera do regresso do Senhor. Para Tertuliano (Apolog. 39), os primeiros cristãos tomaram tão a sério as palavras do Senhor, que os pagãos exclamavam admirados: Vede como eles se amam! (cf Jo 15,12.13.17; 1Jo 2,8; Mt 22,39; Jo 17,23; At 4,32). Depois, o mandamento novo, sugerindo a Nova Aliança, difere da antiga economia, pois então Lei e Aliança eram duas noções paralelas; porém, aqui, Jesus atua não como simples intermediário de Deus, à maneira de Moisés, mas com uma autoridade própria, que explicita, e em seu nome próprio, pois: “Eu dou-vos um mandamento…. E este mandamento do amor fraterno é o testamento e a herança que o Senhor nos deixou. Por vontade expressa de Jesus é o amor o sinal que identifica os seus discípulos.
Este mandamento, que é também sinal da presença invisível, mas real, da presença do Mestre e Senhor no meio de nós, é ainda novo pela necessária universalidade do amor que Jesus recomenda em favor de todos os homens, inclusive dos inimigos. É ainda novo, porque Jesus é a sua origem, modelo e bitola: amai-vos como Eu vos amei. Daí a importância do amor fraterno que Jesus equiparou ao amor de Deus. O sinal que distinguirá os Seus seguidores será a caridade fraterna. É ainda novo porque, nascendo no contexto da Última Ceia em que Jesus fala na Nova Aliança no Seu Sangue derramado pela multidão dos homens, é eucarístico (entrega, comunhão e ação de graças). Não é uma imposição, mas dom concedido gratuitamente aos que acreditam em Jesus. Desta benevolência recebida na mesa da comunhão brota o amor cristão a Deus e ao próximo. O amor, com a fé, constitui o fundamento do cristianismo. Assim, reconhecer hoje os cristãos nas celebrações do culto, na participação da Missa, nas outras devoções tradicionais é interessante, mas a originalidade da vocação cristã, no nosso mundo, marcado pela incredulidade e pelo ódio, é a fé que atua e se exprime por meio da caridade ou do amor (Gl 5,6).
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É bom pertencer à Igreja, com os seus dogmas e tradições, a sua organização e estruturas. É bom recitar o Credo e participar na Missa, nas outras celebrações e nas orações. É bom dar esmola, trazer ou ter em casa objetos religiosos, como cruzes, imagens, medalhas… Porém, tudo isso são apenas sinais, mas não “o sinal”. O que nos constitui pessoalmente cristãos é o amor que o Pai nos tem em Cristo e que o Espírito Santo derrama nos nossos corações. Não se pode inventar outro sinal. Acolhamos o pedido de Jesus: amai-vos uns aos outros como Eu vos amei. Na Igreja primitiva, os crentes tinham um só coração e uma só alma (At 4,32). Se, no tempo de Tertuliano, as pessoas comentavam acerca dos cristãos: “Vede como eles se amam”, mais perto de nós, o poeta indiano Tagore tinha outra opinião. Depois de ter viajado pela Europa, afirmou dececionado:
Jesus, o Rabi da Galileia deveria ter vivido e ensinado a Sua mensagem de amor e de fraternidade nas margens do rio Ganges. A sua Boa Nova, certamente teria tido muito mais aceitação entre os povos orientais do que nos ocidentais.” (cf B. Caballero, En las fuentes de la Palabra, p. 884-887).
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Apesar dos problemas que existiam, a Igreja dos primeiros tempos dava sólido testemunho do Ressuscitado. A 1.ª leitura da 5.ª dominga pascal (At 14,21b-27) apresenta Paulo e Barnabé a narrarem o trabalho que tinham no crescimento da Igreja: exortavam os discípulos a perseverar na fé, animavam-nos, contra o escândalo das provações, a suportar os sofrimentos para entrar no Reino dos Céus. Oravam, jejuavam, designavam presbíteros e encomendavam-nos ao Senhor, em Quem tinham acreditado. E, agora percorrem em sentido inverso, desde o ponto extremo da 1.ª viagem missionária: isto é, desde Derbe, na Licaónia, voltaram a Listra, a Icónio e, passando por Perga, Pisídia e Panfília, embarcaram para Antioquia (da Síria, donde tinham saído, hoje à cidade turca de Antáquia) – tudo cidades que tinham evangelizado na Ásia Menor, a fim de virem confirmar na fé e organizar as comunidades cristãs aí fundadas. Não faltou a designação de “anciãos, que não eram meros chefes, como os havia nas comunidades judaicas da diáspora, mas homens que desempenhavam o ministério sagrado em virtude do sacramento da Ordem, recebido com a imposição das mãos e com asorações (v. 23).
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Ora, tendo em conta o novo mandamento legado por Jesus e o exemplo dos primeiros cristãos, a questão inquietante é: Ao sairmos da Eucaristia, alguém nos reconhecerá como discípulos de Jesus Cristo?
2019.05.19 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

A multidão dos bem-aventurados, filhos de Deus, que procuram o Senhor

A Liturgia da Solenidade de Todos os Santos assume para proclamar e meditar os textos das passagens: do Apocalipse (Ap 7,2-4.9-14), para 1.ª leitura; da 1.ª carta de São João (1Jo 3,1-3), para 2.ª leitura; e do Evangelho de São Mateus (Mt 5,1-12), 3.ª leitura. Estas leituras revelam o projeto de Deus a respeito do homem: torná-lo participante da sua Vida e Santidade.
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A perícopa do Apocalipse apresenta uma visão celestial em que o vidente, que se chama João, falando na 1.ª pessoa do singular se surpreende com a subida dum Anjo, que vinha do nascente trazendo “o selo do Deus vivo” (marca de propriedade, aqui de Salvação: a Cruz e o Batismo) e que bradou aos quatro anjos (dos 4 pontos cardeais, donde emergem as 4 virtudes humanas: prudência, justiça, fortaleza e temperança) a quem foi dado o condão de danificar a terra e o mar:
Não causeis dano à terra, nem ao mar, nem às árvores, até que tenhamos marcado na fronte os servos do nosso Deus”.
Essa ordem do Anjo lembra-nos que aqueles que procuram o Senhor, os que se deixam purificar no sangue vertido de Deus feito homem (representado na água do Batismo), recebem na fronte (para se tornar visível) a marca de filhos, de herdeiros; o selo de Deus, o selo do Espírito.
E o vidente, tornado ouvinte, escutou o número dos que foram marcados: cento e quarenta e quatro mil, de todas as tribos dos filhos de Israel – este número simbólico de 144 mil (formado por números sagrados de totalidade: 12 mil por cada uma das 12 tribos; ou 12 apóstolos x 12 mil) é o da totalidade dos filhos de Israel que se mantiveram na fidelidade ao seu Deus e ao Cristo que os remiu, continuando seu povo a integrar o reino messiânico, que desemboca no dia escatológico, onde se inclui, por mercê de Deus, toda a comunidade cristã, viva ela onde viver, porque herdeira das promessas e dos bens messiânicos e escatológicos.
Mas este vidente/ouvinte, testemunha das maravilhas de Deus e da caminhada do seu povo para a escatologia alargou a sua visão e ampliou a sua audição para contemplar “a multidão imensa, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas. Todos estavam de pé, diante do trono e na presença do Cordeiro (Jesus Cristo, o divino Alfa e Ómega, o perfeito “éscaton”, como é o perfeito “arque”), revestidos de túnicas brancas e com palmas na mão. É a Igreja militante que, mediante a sua condição de Igreja purgante, se torna Igreja triunfante, com os mártires na vanguarda. E clamavam em alta voz a saudação a Deus (o divino Grande Ancião) e ao seu Cordeiro:
A salvação ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro”.
Todos os Anjos (os espíritos celestes que servem a Deus e se incumbem de mensagens e missões da Divindade para os homens) formavam círculo em volta do trono, dos Anciãos e dos quatro Seres Vivos. Prostraram-se diante do trono, de rosto por terra, e adoraram a Deus, dizendo em doxologia:
Ámen! A bênção e a glória, a sabedoria e a ação de graças, a honra, o poder e a força ao nosso Deus, pelos séculos dos séculos. Ámen!”.
Um dos Anciãos tomou a palavra e interpelou o vidente: “Esses que estão vestidos de túnicas brancas, quem são e de onde vieram?”. E o vidente respondeu: “Meu Senhor, vós é que o sabeis”. E o Ancião, que de interpelante passou a profeta ou porta-voz do Altíssimo, declarou:
São os que vieram da grande tribulação, os que lavaram as túnicas e as branquearam no sangue do Cordeiro”.
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A grande tribulação de que fala o texto será certamente a prova escatológica antecipada por Daniel (Dn 12,1: surgirá Miguel, o grande chefe, o protetor dos filhos do seu povo. Será época de tal desolação, como jamais houve igual desde que as nações existem até àquele momento. Então, entre os filhos do teu povo, serão salvos todos aqueles que se acharem inscritos no livro), relacionada com o Dia do Senhor, de que falam também outros profetas. Aqui, será o longo e intenso tempo das perseguições a que foram sujeitos – e continuam a sê-lo – os cristãos.
As primeiras perseguições tinham feito destruições cruéis nas comunidades cristãs, ainda tão jovens. A questão que se levantava era: Iriam desaparecer estas comunidades, acabadas de fundar? E as visões do apóstolo ou profeta cristão trazem uma mensagem de esperança na provação, mas veiculada por uma linguagem codificada, que evoca Roma, perseguidora dos cristãos, sem a nomear diretamente, aplicando-lhe o qualificativo de Babilónia, qualificativo aplicável à onda das perseguições organizadas dos tempos históricos e dos atuais, muitas delas de índole terrorista. E a revelação proclamada é a da vitória do Cordeiro, que paradoxalmente fora imolado. Mas é o Cordeiro da Páscoa definitiva, o Ressuscitado, que transformou o caminho de morte em caminho de vida para todos aqueles que o seguem, em particular pelo martírio. E os mártires, tão numerosos, participam doravante no seu triunfo, numa festa eterna.
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A perícopa da 1.ª Carta de João assegura que somos efetivamente filhos de Deus mercê do admirável amor que o Pai nos consagrou em nos chamar seus filhos. E, garante que, se o mundo não nos reconhece como filhos de Deus, é porque O não conheceu a Ele.
E o texto joânico recorda-nos que a Vida divina de filhos de Deus, que se manifestará no final da vida, já está presente em nós desde agora. Desde o nosso batismo, somos chamados filhos de Deus e o nosso futuro tem a marca da eternidade e da santidade. O texto reforça esta mensagem de esperança, que responde às nossas interrogações sobre o destino dos defuntos: Que virão a ser? Como sabê-lo, pois desapareceram dos nossos olhos? E nós próprios, que viremos a ser? A resposta é uma dedução absolutamente lógica: se Deus, no seu imenso amor, faz de nós seus filhos, não nos pode abandonar. Ora, em Jesus, vemos já qual o futuro a nos conduz a pertença à família divina: seremos semelhantes a Ele, vê-Lo-emos tal como Ele é. E todo aquele que tem n’Ele esta esperança purifica-se a si mesmo, para ser puro, como ele é puro.
E esta pureza joânica da Carta liga-se perfeitamente à pureza das túnicas brancas do Apocalipse branqueadas no sangue do Cordeiro mártir. Ligamo-nos a Ele pelo batismo de água e/ou pelo batismo de sangue. E esta pureza remete para a pureza das bem-aventuranças, não assente na pureza ritual exterior imposta na Lei, mas sobretudo na do coração apregoada pelos profetas. Os puros de coração, que são filhos de Deus, mercê da bondade divina e da sua capacidade em fazer a paz, verão a Deus na sua luz e perfeição. Trata-se de uma pureza de coração, dom de Deus, que parte da limpidez do olhar e se reflete no olhar com que se olham os mistérios de Deus e a beleza do mundo, mas é também uma pureza que se ganha, constrói e cultiva.
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E estamos catapultados para o Evangelho das bem-aventuranças (pórtico do Sermão da Montanha, em Mateus) se quisermos, como discípulos, aproximar-nos de Jesus, que subiu ao monte e nos fala sentado, não com arrogância dos poderosos, mas com doçura e simplicidade (vd Mt 5,1-2).
Jesus apresenta a proposta das Bem-Aventuranças, como a melhor via para a Santidade. Cristo diz a palavra Bem-aventurados ou Felizes oito vezes com os verbos na 3.ª pessoa do singular e uma vez na 2.ª do plural endereçada diretamente aos discípulos. Vejamos:
Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o reino dos Céus; os humildes, porque possuirão a terra; os que choram, porque serão consolados; os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados; os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia; os puros de coração, porque verão a Deus; os que promovem a paz, porque serão chamados filhos de Deus; e os que sofrem perseguição por amor da justiça, porque deles é o reino dos Céus. Mas Bem-aventurados sereis, “quando, por minha causa, vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo o mal contra vós. Alegrai-vos e exultai, porque é grande nos Céus a vossa recompensa”. (Sublinhei os tipos de bem-aventurados e coloquei a negrito as expressões de recompensa).
A posse do reino dos Céus é para os pobres voluntários e não só à força e para os perseguidos, não por motivos políticos ou por teimosia pessoal, mas por amor da justiça e do Evangelho. Ver a Deus e ser chamado de filho de Deus são atributos dos puros de coração (que olham o mundo com olhar de criança e não de malícia) e para os que fazem a paz, respetivamente; a posse da terra, a consolação e a saciedade serão apanágio respetivamente dos mansos ou humildes, dos que choram e dos famintos e sedentos de justiça; e a misericórdia será atributo dos que usam de misericórdia para com todo aquele que se constitui em próximo pela exploração, necessidade, pela marginalização, roubo da dignidade, abandono ou fragilidade. Porém, tudo isto deverá coincidir harmoniosamente na pessoa do discípulo de Cristo; e a Igreja dos discípulos tem de ser mais a Igreja das bem-aventuranças que a dos 1752 cânones do Código de Direito Canónico e legislação complementar ou que a dos 1546 cânones do CODEX CANONUM ECCLESIARUM ORIENTALIUM e legislação complementar.
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As Bem-aventuranças revelam a misteriosa realidade da vida em Deus, iniciada no Batismo. Aos olhos do mundo, os servidores de Deus sofrem, efetivamente, formas de morte: pobreza, humildade, aceitação das provações (os que choram) ou privações (fome e sede) de justiça, simplicidade, perseguição, pacificidade, reconciliação e misericórdia, num mundo de violência e de lucro... Tudo isso aparece como não rentável, votado ao fracasso, à morte. Mas que pensa Cristo? Pelo contrário, proclama felizes a todos os seus amigos – os que O seguiram, se sentem filhos de Deus, beberam das águas da salvação e querem ser puros como Deus é puro – que o mundo despreza e considera como inúteis, descartáveis ou mortos, e consola-os, alimenta-os, chama-os filhos de Deus, introdu-los no Reino dos Céus e na Terra Prometida.
Ora, a Solenidade de Todos os Santos abre-nos assim o espírito e o coração às consequências da Ressurreição. O que se passou em Jesus realizou-se também nos seus bem-amados, os nossos antepassados na fé, e diz-nos igualmente respeito: sob as folhas mortas, sob a pedra do túmulo, a vida continua, misteriosa, para se revelar no Grande Dia, quando chegar o fim dos tempos. Para Jesus, foi o terceiro dia; para os seus amigos, isso acontecerá mais tarde.
É a festa da Vida, mesmo que renascida do turbilhão, dos escombros ou das cinzas, e celebra a plenitude da Vida cristã e a Santidade de Deus manifesta nos seus filhos, os santos da Igreja. Celebra como que, em antecipação e em comunhão com a liturgia celeste, a vitória dos irmãos que superaram “a grande tribulação” e estão marcados com o selo do Deus vivo; os que vivem para sempre diante de Deus, entre os quais, se encontram os nossos entes queridos já falecidos.
A fé é culto à Vida, porque o nosso Deus é um Deus de vivos e, pelo Espírito, nos dá a Vida em Cristo Jesus ressuscitado de entre os mortos. Por isso, esta é a festa do convite total à alegria e à esperança, que nasce das profundezas da Vida, da aspiração da felicidade sem ocaso.
A Fonte da santidade é Deus. E a santidade tem o seu início, crescimento e consumação na graça de Deus, no amor gratuito do Senhor, que derrama o seu Espírito nos nossos corações para que possamos chamá-lo “Paizinho”. A santidade não é, pois, um mero produto do esforço humano que procura alcançar Deus com as suas forças nem tão-pouco resultado automático da graça que paira nos ares, mas efeito da ação de Deus em nós. A santidade tem, assim, duas dimensões: é ação de Deus em nós pelo dom do Espírito Santo; e resposta do cristão a esse dom e presença de Deus. A Santidade manifesta-se como participação na vida de Deus, que se realiza com os meios que a Igreja nos oferece, especialmente através dos Sacramentos. E a morada dos Santos será o Céu, que não é tanto um lugar, mas sobretudo um estado de felicidade na presença e companhia de Deus, dos anjos e dos santos, que supera a nossa imaginação e entendimento:
Nem olhos viram, nem ouvidos escutaram nem o homem pode imaginar o que Deus preparou para aqueles que O amam” (1Cor 2,9). “Agora vemos como num espelho, mas depois veremos face a face” (1Cor 13,12).
A Eternidade não se reduz ao “eterno descanso”, mas é vida ativa e intensa com Deus.
Santo significa que não tem nada de imperfeito, de fraco, de precário. Neste sentido, só Deus é Santo. Porém, por sua graça, imitamo-Lo e participamos da sua Santidade e unimo-nos a todos os irmãos. Esta doutrina era tão viva nos primeiros séculos, que os membros da Igreja não hesitavam em chamar-se “Santos” e a própria Igreja era chamada de “Comunhão dos Santos”. Com efeito, diz o CIC (Catecismo da Igreja Católica) que esta expressão indica, em primeiro lugar, a comum participação de todos os membros da Igreja nas “coisas santas”: “a fé, os Sacramentos, os Carismas e outros dons espirituais” (cf CIC 194). E adiante, refere:
Designa também a comunhão entre as pessoas santas, ou seja, entre as que pela graça estão unidas a Cristo morto e ressuscitado. Alguns são peregrinos na terra; outros, tendo deixado esta vida, estão a purificar-se ajudados também pelas nossas orações; outros já gozam da glória de Deus e intercedem por nós. Todos juntos formamos em Cristo uma só família, a Igreja, para a glória da Trindade.” (CIC 195).
E os santos não são apenas os que estão nos altares, declarados santos pela Igreja – mediante a beatificação e a beatificação e a canonização. São todas as pessoas que vivem unidas a Deus, construindo o bem. São pessoas normais, que no passado e no presente dão testemunho de fidelidade a Cristo; vivem de forma excelente o que é comum a quem segue o Evangelho.
A Festa de hoje pretende homenagear todos os santos, beatificados e canonizados, é certo, mas sobretudo os que permanecem no anonimato ou porque não foram indigitados e examinados para o catálogo das honras dos altares ou porque apenas viveram seguindo Cristo na discrição. E a festa quer apresentar o ideal da santidade como possível hoje a todos e desejado por Deus. Com efeito, todos os fiéis são chamados à Santidade, que é a plenitude da vida cristã e perfeição da caridade e se realiza na união íntima ao Cristo e, Nele, com a Santíssima Trindade (cf CIC 428). Portanto, podemos e devemos ser Santos também nós. Acolhamos o apelo de Deus à Santidade e que os Santos sejam nossos modelos e intercessores nesta caminhada. Não esperemos vir a fazer milagres, pois nem os “santos” canonizados os fazem. É Deus e só Deus que faz milagres. E faz muitos através dos “santos” de altar e faz maravilhas através de nós tantas vezes. E invoquemos todos os santos: Omnes sancti et sanctae Dei, intercedite pro nobis!
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Porém, temos de apostar na pertença à “geração dos que procuram o Senhor” (cf Sl 24/23, 6).
Do Senhor é a terra e o que nela existe, o mundo e quantos nele habitam. Ele a fundou sobre os mares e a consolidou sobre as águas. Quem poderá subir à montanha do Senhor? Quem habitará no seu santuário? O que tem as mãos inocentes e o coração puro, o que não invocou o seu nome em vão. Este será abençoado pelo Senhor e recompensado por Deus, seu Salvador. Esta é a geração dos que O procuram, que procuram a face de Deus. (Sl 24/23, 1-2.3-4ab.5-6).

2017.11.01 – Louro de Carvalho