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quarta-feira, 25 de setembro de 2019

O Presidente da República não é referido no processo de Tancos


A poucos dias das eleições legislativas e quando o Presidente da República participa na Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), em Nova Iorque, foi finalizado hoje, dia 25 de setembro, o despacho da acusação do caso de Tancos, que deverá seguir por correio para os arguidos, como adianta o Correio da Manhã, sendo que alegadamente o prazo para deduzir a acusação terminava no próximo dia 27 (curiosa coincidência: as eleições e a Assembleia-Geral do ONU estão agendadas de há muito). E, ao invés do que a TVI veiculara, Marcelo não é referido no processo, como refere o Diário de Notícias.
Segundo a estação de Queluz de Baixo, os procuradores terão em sua posse uma escuta telefónica na qual o major Vasco Brazão, da PJM (Polícia Judiciária Militar), alegadamente envolvido no esquema, refere que o “papagaio-mor do Reino” sabia de tudo. De acordo com a TVI, a investigação acredita que Vasco Brazão se referia ao Presidente da República. Porém, a defesa de Vasco Brazão veio a terreiro dizer que a expressão “papagaio-mor do Reino” não dizia respeito ao Presidente da Republica. E o DN sabe que a expressão “papagaio-mor do Reino” não consta no processo.
O ex-chefe da Casa Militar foi investigado pelo MP (Ministério Público) mas, segundo o DN, não foram reunidas provas de que João Cordeiro saberia dos pormenores que tornaram o caso num crime da PJM. E, quanto ao Presidente, sabe-se que numa visita aos paióis ouviu as queixas do diretor da PJM sobre a investigação lhe ter sido retirada, tendo-se resumido a isso o seu papel. 
O que fez chegar a Belém o caso de Tancos foi uma escuta ao major Vasco Brazão, em abril de 2019, escuta que envolveu João Cordeiro. Porém, em todo o processo não há qualquer referência ao Presidente nem a qualquer conhecimento sobre a encenação que levou à apreensão do material furtado de Tancos, caso que constitui crime. A única informação que chegou claramente a Marcelo foi a da indignação que a PJM estava a sentir por ter sido afastada da investigação do assalto a Tancos. Foi o próprio Coronel Luís Vieira, diretor da PJM, que lho transmitiu numa reunião que tiveram em Tancos depois do furto.
Como consta no processo, nessa reunião participaram Marcelo, Azeredo Lopes, o então chefe de gabinete Martins Pereira, o Secretário de Estado da Defesa Nacional Marcos Perestrello e o CEMGFA Pina Monteiro. Ante os presentes, o coronel Luís Vieira terá desabafado a sua revolta sobre a titularidade do inquérito. Pelos vistos, para explicar porque é que a PJ não era de confiança, Luís Vieira terá revelado que a PJ teria tido conhecimento da denúncia dum assalto a um alvo não determinado e que não teria avisado a PJM – o que, já então, era falso, pois a informação fora passada a Pinto da Costa, elemento da PJM também arguido no processo. E, para tentar saber o impacto que a sua conversa teria tido em Marcelo, Vieira terá feito diversas chamadas para o chefe da Casa Militar, que o processo regista.
Na tarde do dia 24, marcando presença numa conferência em Nova Iorque, ao saber destas notícias, Marcelo Rebelo de Sousa voltou a negar ter tido algum tipo de conhecimento privilegiado em torno da operação. Disse, citado pela TSF:
Nem através do Governo, nem através de ninguém no Parlamento, nem através das chefias militares, nem através de quaisquer entidades de investigação criminal, civil ou militar, nem através de elementos da minha equipa, da Casa Civil ou da Casa Militar, nem através de terceiros, não tive”.
O Presidente da República não só nega ter tido conhecimento privilegiado da investigação paralela que levou à encenação da recuperação das armas de Tancos pela PJM como quer que não haja o mínimo de dúvidas acerca do seu envolvimento no Caso Tancos. Declarou-o, naquele dia, depois de uma alegada escuta divulgada pela TVI parecer implicar o Presidente.
O Chefe de Estado foi ainda mais longe:
Para que não restem dúvidas, por uma questão, não só de honra pessoal, mas porque estou aqui [nos Estados Unidos] a defender a posição de Portugal, é bom que não esteja a defender a posição de Portugal na Assembleia-geral das Nações Unidas ao mesmo tempo que surge uma vaga dúvida sobre se o Presidente é criminoso. É bom que fique claro que o Presidente não é criminoso..
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O ex-Ministro da Defesa Nacional José Alberto Azeredo Lopes é um dos 25 acusados no processo de Tancos e vai responder perante a Justiça. Segundo o Correio da Manhã, o despacho da acusação do processo, que foi finalizado hoje, dia 25 de setembro, deverá seguir por correio para os arguidos ainda esta semana.
No início da semana, a Renascença já avançara que o MP está convencido de que Azeredo teve um papel central na recuperação do armamento roubado dos Paióis Nacionais e criticou o ex-governante pelo “exercício perverso” de funções públicas, dificultando o apuramento da verdade. O antigo Ministro da Defesa Nacional é acusado de participação ativa na encenação da PJM para recuperar as granadas, explosivos e munições furtadas. Azeredo terá então usado a encenação da PJM para benefício político próprio e do Governo em geral, num momento em que o Executivo estava debaixo de críticas devido aos trágicos incêndios de outubro de 2017.
De acordo com a tese dos procuradores, a participação na encenação terá sido feita também através de declarações aos órgãos de comunicação social, para convencer a opinião pública das capacidades da PJM.
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O caso de Tancos divide-se em dois: o furto, propriamente dito, que já era grave; e a encenação da descoberta das armas pela PJM em conluio com a GNR e com a conivência dos assaltantes, que a PJ e o MP, pelos vistos, consideram mais grave que o furto, quando o mais importante, a meu ver, era a punição do furto e a recuperação do material furtado. 
Numa primeira fase, a PJM estava a investigar o caso, mas, a partir do momento em que o processo foi considerado de especial gravidade – com ligações possíveis a terrorismo (tese que veio a ser desmentida e abandonada) – foi passado pela Procuradora Geral da República, na altura Joana Marques Vidal, para a tutela da PJ. Foi com isto que os militares nunca se conformaram e dizem alguns que terá sido essa frustração que esteve na base da “encenação” da descoberta do material, em conluio com os assaltantes e à revelia da PJ e do MP. Para entender todo este processo tem de se passar por este pormenor que é, alegadamente, psicológico e que foi algo complexo de investigar. Recorde-se que o nome que a PJ deu a esta investigação foi “Hýbris”, a que atribuem o significado de “perigosa autoconfiança”.
Além de ser duvidoso saber onde está a dita autoconfiança, deve considerar-se excessivo o designativo da operação. No grego, o nome hýbris significa: excesso, orgulho, insolência, impetuosidade, fogosidade, desenfreio, desespero, ultraje, insulto, violência, violação (de mulher ou criança). O nome “hybristês” significa: violento, impetuoso, insultante, malfeitor. O nome “hybrisma” significa: ultraje, violência. O verbo “hybrízô” significa: (intransitivo) – abandonar-se a excessos, ser presunçoso ou insolente, se sensual ou desenfreados; (transitivo) – tratar com insolência, maltratar, ultrajar, desonrar; (na voz passiva grega) – ser desonrado, ser maltratado, cobrir-se de infâmia; (na voz média grega) – ser orgulhoso, ser fastuoso. Os adjetivos “hybristikós” e “hybristós” significam: arrogante, lascivo, desenfreado, criminoso, burlão, satírico.  E o advérbio “hybristikôs” significa insolentemente. Ora, se não é excessivo atribuir o designativo Hýbris” à investigação do caso de Tancos, em razão do crime e desafio às autoridades, então esse designativo bem poderia ser dado a qualquer processo investigatório mediático. Recorde-se que o elemento “Hýbris” na tragédia grega era o desafio do protagonista aos deuses, ao destino ou às autoridades.
Ora, na vontade férrea de tentar reverter a situação, o coronel Luís Vieira e o major Vasco Brazão tentaram pressionar quem fazia parte da sua rede de conhecimentos, entre os quais o chefe da Casa Militar do Presidente da República. Foi isso que levou Brazão a dizer ao telefone, numa chamada que ficou escutada: 
Nós temos provas concretas em que a Casa Militar foi informada. A Casa do Presidente, temos provas concretas, há e-mails (...) Portanto, não há que fugir a isso. (...) Agora não sei se ele quer falar já ou se só em julgamento. Portanto, vamos ver.”.
Quando leu a transcrição desta escuta o major Brazão confirmou que Luís Vieira lhe tinha reencaminhado um e-mail que enviara a Cordeiro. Mas, nos e-mails que constam no processo, de 2017, Luís Vieira falava apenas da questão da titularidade da investigação. Num texto relativamente longo, o coronel vinca a oposição à decisão da PGR e, em outro, pedia que o chefe da Casa Militar voltasse a intervir no sentido de Marcelo sensibilizar a PGR a devolver a investigação à PJM. Não se conhecem as respostas de Cordeiro, mas estas são as únicas informações concretas sobre o conteúdo da troca de mensagens entre Vieira e ele. E, para o MP, não reúnem provas suficientes para saber se o ex-chefe da Casa Militar teria mais informações, nomeadamente do que constitui o crime da encenação de roubo.
No entanto, foram registadas diversas chamadas e mensagens entre Vieira e Cordeiro, uma delas no dia do ‘achamento’, antes do comunicado oficial. Em nenhuma o conteúdo é concretizado. O major Brazão também fez referência no seu depoimento a telefonemas do chefe da casa militar e do CEMGFA para o diretor da PJM para falar sobre Tancos.
Brazão terá dito que o ex-chefe da Casa Militar sabia que a PJM trabalhava com um informador e que, desde o assalto, Vieira falava regularmente com Cordeiro sobre o que faziam para recuperar o material. Mas a investigação não conseguiu provar nenhuma destas informações.
Quando João Cordeiro prestou depoimento fê-lo por escrito e negou que tivesse conhecimento do que se estava a passar; e negou que tivesse recebido e-mails da PJM – algo em que estava a faltar à verdade, segundo as provas reunidas no processo. Confirmou que, no 2.º semestre de 2017, Vieira lhe foi telefonando a dar conta da investigação e de algumas suspeitas que tinha em relação a suspeitos do Algarve e da possível localização do armamento, mas negou que alguma vez lhe tivesse sido dito que estava em curso um acordo com os assaltantes para devolverem o armamento. Ou seja, trata-se de um pormenor que faz toda a diferença num caso rocambolesco que envolveu várias esferas da sociedade e da política e que chegou a Belém, através do chefe da Casa Militar, que esteve na mira do DCIAP, mas não atingiu o Presidente da República.
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A ser verdade que o Presidente da República não sabia de nada, é na notícia de TVI que reside a “Hýbris” da tragédia grega! E com alguma razão, pois, se se diz que o chefe da Casa Militar faltou à verdade, é porque sabia do caso; e, sabendo, é muito estranho que não tenha falado sobre isso com o Presidente ou então a comunicação em Belém segue a lógica da batata.
O certo é que, a haver suspeitas do conhecimento do Presidente da República, a investigação tinha de correr sob autorização do STJ (Supremo Tribunal de Justiça) e pelo MP que trabalha junto dessa instituição. E, como é óbvio, muito dificilmente se chegaria a conclusões úteis, a menos que o processo fosse desmembrado e os arguidos respondessem em processo autónomos.
Que o Presidente não é criminoso todos o sabemos, mas manda a prudência dizer que os ora acusados também só podem ser considerados criminosos depois de decisão judicial condenatória transitada em julgado. E veremos se e quando isso acontecerá.
É óbvio que os partidos políticos não querem – e fazem muito bem – afrontar o Presidente, pois não aceitam que um despacho de acusação do MP, ora proferido, possa interferir na campanha eleitoral. Por outro lado, em termos simbólicos uma acusação a Marcelo significaria a decapitação das forças armadas e do próprio Estado.
Por fim, se realmente o Presidente da República soube da encenação, que poderia ter realmente feito, a não ser exigir que tudo fosse investigado até às últimas consequências, custe o que custar, dia a quem doer? E isso fê-lo. Penso não competir ao Presidente o pedido à PGR de instauração de um processo-crime. Não faz parte das suas competências constitucionais…
2019.09.25 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

“Justos e tenazes”

O n.º 1290 da revista Visão, de 23 de novembro, publicou um trabalho de J. Plácido Júnior sobre a PJM (Polícia Judiciária Militar), uma entidade de que se fala muito pouco, mas cuja ação acaba por ser relevante nalguns casos. Gloso-o um pouco em razão da importância da PJM nos últimos tempos.
Tem a PJM competências de investigação dos “crimes estritamente militares” e dos ilícitos cometidos no interior de instalações das Forças Armadas e da Guarda Nacional Republicana. Se os processos chegarem a tribunal para serem julgados segundo o CJM (Código de Justiça Militar), o coletivo de juízes tem de integrar, por lei, um oficial especializado das Forças Armadas, que completa o terno de magistrados.
É lema dos investigadores da PJM o enunciado em epígrafe “Justos e tenazes”. A este corpo de investigadores concorrem voluntários (oficiais, que têm de ser, pelo menos, licenciados, e sargentos) dos três ramos das Forças Armadas (Exército, Armada e Força Aérea) e da GNR. Após a sujeição a testes psicotécnicos e à passagem por uma entrevista de seleção, vem o veredicto de aprovação ou de exclusão. Os escolhidos passam, depois, por um longo curso na PJM, que inclui um módulo de formação na PJ (Polícia Judiciária civil) e outro no SIS (Serviço de Informações de Segurança). E trabalham em regime de comissão de serviço de três anos prorrogáveis, sendo valorizada a experiência e a rede de contactos.
O major Vasco Brazão, atual porta-voz da PJM, é um bom exemplo disto. Trata-se de um Oficial de Cavalaria licenciado em Ciências Militares pela Academia Militar, que esteve cerca de 11 anos na Polícia do Exército, antes de ser abordado para ingressar na PJM. Como recompensa, para lá do vencimento, elege-se a consciência do dever cumprido ao serviço duma missão especial, uma espécie de dever cívico nas estruturas militares e a partir delas. São 35 militares (13 oficiais e 22 sargentos) os investigadores que atualmente constituem as Unidades de Investigação Criminal da PJM, em Lisboa e no Porto, assessorados por vários peritos.
São rijos, fortes e mal pagos – lamentam-se. E quem dirá o contrário hoje na sua profissão?
Os telefones dos investigadores e peritos de piquete tocam muitas vezes. “A PJM é a polícia que em Portugal averigua a maior tipologia de crimes”, sublinha o major Vasco Brazão. Está inscrito na lei orgânica da Judiciária Militar um “subsídio de serviço permanente”, mas aguarda-se há cinco anos que uma portaria o regulamente e concretize o respetivo pagamento. E os militares não podem fazer greve… Mesmo assim, há avanços. Os DIAP de Lisboa e Porto têm assessores jurídicos militares que ajudam os procuradores nos inquéritos averiguados pela PJM.
Os elementos da PJM têm a consciência clara de que interferem com lealdades corporativas arreigadas nas diversas unidades militares, o que lhes pode prejudicar a progressão na carreira, se voltarem às fileiras. Isto, porque, desde 1993, a PJM possui, por lei, uma única dependência hierárquica: o Ministro da Defesa Nacional. Os seus elementos não têm justificações a dar às chefias militares. Por isso, proliferam os anticorpos castrenses. E o diretor da PJM, o coronel Luís Vieira, sentiu-os recentemente na pele. Este Oficial Comando não recebeu o habitual convite para participar no “Dia dos Comandos”, comemorado a 29 de junho pp. E, este seria o único dia do ano em que envergaria o uniforme militar com o garbo que lhe é peculiar como aos demais comandos. Nos outros dias tem de andar à civil tal como os operacionais que lidera. Suspeita-se que a razão de ser desta discriminação se prende com o desempenho da PJM a propósito do curso n.º 127 de Comandos.
Apesar de tudo, são exímios no trabalho. O mencionado colunista de Visão diz: “esfalfam-se a trabalhar”. Além das diligências e do expediente diários, têm de fazer piquetes à chamada de 24 horas durante uma semana, em equipas de dois elementos, tanto em Lisboa como no Porto. E, na mesma semana, são sempre os mesmos durante 168 horas seguidas. Têm o mesmo tipo de escala os peritos do Laboratório de Polícia Técnico-Científica.
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Foi esta força de investigação e peritagem que investigou em tempo recorde o caso das mortes nos Comandos, o assalto aos paióis de Tancos e a rede de corrupção nas messes da Força Aérea.
Os investigadores PJM estão disponíveis para “operações-relâmpago”.
No caso do predito Curso de Comandos, de que resultaram as mortes, em setembro de 2016, de dois recrutas, em razão dos badalados “golpes de calor” e desidratação extrema, na “Prova Zero” do curso n.º 127, os restantes 65 instruendos foram ouvidos de imediato na sede da PJM, no Restelo, em Lisboa, numa longa sessão em que o tempo não era problema. Em salas autónomas, eram inquiridas seis pessoas de cada vez, em audições em que um depoente chegava a demorar meia dúzia de horas. Além disso, foram ouvidas mais de cem testemunhas, algumas mais de uma vez, segundo o que referiu o major Vasco Brazão, porta-voz da PJM. Um mês após as mortes dos referidos recrutas, procuradora Cândida Vilar, do DIAP (Departamento de Investigação e Ação Penal) de Lisboa, recebia da PJM um relatório intercalar com propostas de constituição de arguidos. A magistrada acolheu tais propostas e, com o desenrolar das averiguações, exarou, em junho de 2017, um despacho de acusação em que atribui a 19 arguidos, oficiais e sargentos, o crime de abuso de autoridade por ofensa à integridade física (em graus diferentes), para o qual o CJM prevê uma moldura penal de 8 a 16 anos (art.º 93.º/3 b). O processo seguiu para instrução sob a direção de um juiz de instrução criminal.
É certo que se levantou a dúvida se o caso deve ser julgado pelo CJM, que prevê a predita moldura penal (tese perfilhada pela PJM), se pelo Código Penal, que prevê para os crimes em causa penas de prisão bem mais suaves, com máximos de dois e três anos (tese perfilhada pelo DIAP). A dissipação de tal dúvida cabe, em 1.ª instância, ao juiz de instrução criminal.
Porém, independentemente do sucesso ou do insucesso da tese da PJM, a procuradora Cândida Vilar disse à Visão que gostou do trabalho daquela entidade, pois, segundo a magistrada:
Respeitam a autonomia da condução do inquérito pelo Ministério Público e são coesos entre eles. E dentro dos meios militares, muito fechados, têm informações que mais ninguém terá.”.
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Sobre os crimes relacionados com material de guerra, salienta-se que, no total dos 310 processos concluídos, em 2016, pela PJM, 39 têm a ver com “comércio ilícito de material de guerra”. Porém, o major porta-voz da PJM desvaloriza o caso:
O elevado número desses inquéritos acontece devido ao recorrente aparecimento de munições, muitas vezes ainda provenientes do Ultramar, e a sua posse, seja por militar ou civil, enquadra-se no referido crime, de acordo com o Código de Justiça Militar”.
Contudo, o registo de processos do ano de 2016 também averba 9 inquéritos por “extravio de material de guerra”, 8 por “furto/roubo de material de guerra”, e 2 por “detenção ou tráfico de armas proibidas”. Isto seria relevante se não tivesse ocorrido, em junho último, o roubo de armamento nos paióis militares de Tancos, entre os dias 25 e 28. Nesse lapso de tempo, os patrulhamentos habituais não foram feitos segundo as regras que estavam a ser seguidas ou não se efetuaram de todo.
A PJM, com a tomada de conhecimento do caso, avançou logo para uma “operação-relâmpago”. Em poucos dias ouviu largas dezenas de pessoas, maioritariamente militares, mas também civis que, antes do assalto, trabalhavam em reparações dos paióis de Tancos e das cercas de vedação – cortada para concretizar o roubo do arsenal. Há quem defenda ter sido esta batelada de inquirições que “apertou” assaltantes e mandantes, levando-os a devolver o armamento roubado.
Não se sabe se assim foi. Porém, é certo que, às três horas da madrugada de 18 de outubro, um oficial da PJM, de piquete nessa semana, recebeu uma rápida chamada anónima, feita a partir de uma cabina telefónica pública, que descreveu o suficiente para localizar, na Chamusca, material de guerra abandonado. Era noite de tempestade, com chuva intensa e trovoada. À luz de lanternas, os investigadores descortinaram um amontoado de caixotes no sítio indicado pela voz anónima, uma valeta marginada de canavial. E perceberam a existência ali de caixas de granadas. Era necessária uma morosa operação de segurança, certificadora de que as caixas e os caixotes não estavam armadilhados, de modo a ser possível o transporte para o campo militar de Santa Margarida. Aí, após a abertura das embalagens, os números de série do armamento permitiram a obtenção da certeza de que se tratava do arsenal roubado de Tancos cerca de 4 meses antes. Todavia, no conjunto devolvido, faltavam as 1 500 munições de 9 mm, que continuam desaparecidas e que especialistas em segurança creem ter sido o objetivo do roubo. O restante material levado pelos assaltantes (264 unidades de explosivo plástico e mais de 200 granadas, algumas das quais antitanque) terá resultado do aproveitamento da oportunidade, mas, às tantas, terá começado “a queimar-lhes as mãos”. Por outro lado, crê-se haver ligação entre as munições de 9 mm roubadas em Tancos e o desaparecimento, detetado no início de 2017, de 57 pistolas Glock, que se encontravam num armazém da Direção Nacional da PSP, em Lisboa. A investigação daquele caso ficou entregue à PSP, que sobre nada disse.
Em relação ao processo de Tancos e apesar dos reiterados avisos do Presidente da República de que pretende a conclusão o mais rápida possível do inquérito, são crescentes os desentendimentos e incidentes entre a UNCT (Unidade Nacional Contra Terrorismo), da PJ, que a Procuradora-Geral da República colocou a liderar no terreno as investigações, e a PJM, à qual Joana Marques Vidal atribuiu o papel de “coadjuvante”. O porta-voz da PJM não se pronuncia sobre qualquer aspeto do processo. Apenas informa que o relatório do Laboratório de Polícia Técnico-Científica da PJM de “exame ao local do crime”, na Chamusca, foi enviado DCIAP (Departamento Central de Investigação e Ação Penal).
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Mas a PJM não vive só de “operações-relâmpago”. Também mostra resultados em investigações sistemáticas e de rotina. Foi o caso duma rede de corrupção e sobrefaturação que se estendia por 12 messes da Força Aérea (FAP), de Norte a Sul do País.
Em abril de 2014, uma denúncia anónima levou a PJM a arrancar com a averiguação. A carta, segundo o major Vasco Brazão, mencionava nomes de vários militares ligados às messes e empresas que há muito tempo forneciam bens alimentares à FAP. Por isso, diz a propósito aquele oficial superior: 
Fizemos uma recolha exaustiva, mas com cautela extrema, para não levantar suspeitas, de todos os militares e civis que trabalhavam nessas messes, bem como dos diferentes fornecedores”.
A certa altura, o Ministério Público (MP) questionou se valeria a pena continuar a investigar o caso, cujos crimes podiam estar já prescritos – um oficial, importante na rede, havia passado à reserva em 2007. Mas a PJM defendeu que “a probabilidade de a atividade criminosa em causa manter-se em curso era muito alta”. O MP aceitou que as diligências prosseguissem. E a PJM, em novembro de 2015, deparou-se com uma ocorrência que deu enorme impulso à investigação. Um oficial da FAP cuja função interessava à rede, recém-chegado a uma base, foi “convidado” a entrar no esquema. E denunciou o que se passava à sua hierarquia e, com luz verde ao mais alto nível da FAP, tornou-se num agente encoberto da PJM dentro da rede.
Confrontada com um processo de grandes dimensões, a PJM pediu a colaboração da Unidade Nacional de Combate à Corrupção, da PJ, com mais investigadores e meios. Ao contrário do caso de Tancos, aqui a colaboração entre as duas polícias foi impecável. Em novembro de 2016, a “Operação Zeus” desmantelou a rede. E, recentemente, o MP acusou 86 arguidos (40 militares e 46 empresários, empresas e trabalhadores) de associação criminosa, corrupção ativa e passiva agravadas, falsidade informática e falsificação de documentos. Segundo o despacho de acusação, a “conduta indiciada representou uma sobrefaturação em montante não apurado, mas significativamente superior a 2,5 milhões de euros”. E, de acordo com o MP, era um major-general quem encabeçava a rede, recebendo luvas mensais dos seus subordinados.
A imaginação policial e a cooperação ou a força do Zeus grego desfizeram um esquema que parecia perfeito.
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E é assim. Polícias que deviam cooperar desentendem-se às vezes; outras vezes, deixam desaparecer armas e munições. Militares que deviam preparar a defesa das populações e do território, não guardam depósitos de material bélico, entram em jogadas com empresários e homens do negócio ilícito e não querem ser policiados, investigados e eventualmente acusados pelos seus pares.
Enfim, quem guarda os guardas?

2018.01.03 – Louro de Carvalho