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domingo, 3 de maio de 2020

Em domingo do Belo Pastor, a valorização da mãe e do educador


O capítulo 10 do 4.º Evangelho releva a figura e a missão do “Bom Pastor” ou do “Belo Pastor”. A frase grega é “Egô eimi ho poimên ho kalós(Jo 10,11). “kalós”, que se traduz aqui por “bom”, tem o sentido originário e primário de “belo”. Mas o belo, o bom e o verdadeiro andam juntos.
Como refere Frederico Lourenço, já os poemas homéricos referiam os reis como “pastores do povo”. O mesmo sucede em Israel: Deus é muitas vezes referido como o rei-pastor – sobretudo quando se contrapõe aos maus pastores, os censura e lhes tira a guarda das ovelhas (vd Ez cap. 34) – e o seu ungido também será o rei-pastor (Mq 5,3). E o Salmo 23 (recitado como salmo responsorial neste domingo) é um hino ao solícito e zeloso pastoreio de Deus e ao conforto que esse pastoreio de sempiterna tranquilidade e alento dá ao crente.
Também David é referido como o pastor da grei divina, por exemplo, no Salmo 78,70-72 e em Ezequiel 34,23-31. E Jesus é, à maneira de David, o belo pastor, como se pode ler em 1Sm 16,1-13. Samuel foi ter com Jessé para ungir como rei um dos seus filhos. Depois de todos terem desfilado e Samuel ter indicação de Deus para não escolher nenhum, perguntou Samuel a Jessé se não tinha mais nenhum. Jessé disse que o outro andava a apascentar as ovelhas. E Samuel mandou-o chamar. E apareceu David, que era loiro, de belos olhos e de aparência formosa. E o Senhor disse a Samuel que era aquele, que o ungisse. E David fez-se rei. 
São João utiliza esta imagem, que não inventa, do pastor, do redil e das ovelhas para uma catequese sobre a missão de Jesus, pois a obra do “Messias” é conduzir o homem às pastagens verdejantes e às fontes cristalinas de onde brota a vida em plenitude (embora geralmente e no v. 10 “vida” se diga “zoê”, nos vv. 15 e 17, o termo grego para “vida” ou “alma” é “psikhê”). É em Ez 34 que temos a chave para a compreensão da metáfora (não apenas comparação como induz a versão do lecionário em português) do “pastor” e do “rebanho”. Dirigindo-se aos exilados da Babilónia, Ezequiel anota que os líderes de Israel foram, ao longo da história, maus “pastores”. Por isso é que Jesus diz que todos (“pantes”) os que vieram antes de si são ladrões e bandidos (“kléptai kai lêstaí”). “Lêstai” é o plural de “lêstês”, termo que pode significar “pirata” e se aplica a Barrabás, ao passo que “kléptês” se aplica a quem rouba, como Judas. Aquele “pántes” obviamente não se aplica a Moisés ou aos patriarcas e aos profetas que serviram de pedagogos do povo rumo a Cristo, mas àqueles juízes, reis, sacerdotes e falsos profetas que levaram o Povo por caminhos de morte e de desgraça. E, em Ezequiel, o próprio Deus promete que vai assumir a condução do seu Povo: colocará à frente do seu Povo um “Bom Pastor”, que o livrará da escravidão e o conduzirá à liberdade de vida. Esta promessa ensaiada com David cumpre-se plenamente em Jesus.
O texto deste domingo no Ano A (Jo 10,1-10) situa-se no quadro da denúncia da atuação dos líderes judaicos. O episódio do cego de nascença evidenciou que os dirigentes não estavam interessados em acolher a luz e deixar que o Povo escolhesse o caminho da liberdade. Por isso, Jesus advertiu-os de que veio chamá-los a juízo (“krima”) por causa da sua má condução do Povo de Deus (cf Jo 9,39-41). Mas eles preferiram continuar na obscuridade da sua autossuficiência e impedir o Povo de descobrir a luz.
A primeira parte da perícopa (Jo 10,1-6) apresenta Jesus preferencialmente como “o Pastor”, cuja ação se contrapõe à dos mercenários que se arrogam o direito de pastorear o “rebanho” do Povo de Deus a seu bel-prazer, mas não são “pastores”. Como ladrões e bandidos que são, usam as suas prerrogativas (sociais, políticas e religiosas) para explorar o Povo (ladrões) e são violentos para o manterem sob a sua pata (bandidos). Aproximam-se de forma abusiva e ilegítima, pois Deus não lhes confiou essa missão (“não entram pela porta”): usurparam o redil (“aulê”, palavra tão antiga como os poemas homéricos: veja-se o que é a nossa “aula”). O seu objetivo não é o bem das “ovelhas”, mas o próprio interesse. Ao invés, Jesus entra pela porta, que o porteiro do redil Lhe abre, pois tem mandato do Pai. Ora, ao apresentar-se como Aquele “que entra pela porta”, Jesus declara-Se o “Messias” enviado por Deus para conduzir o seu Povo e o guiar para as pastagens mais verdejantes. Entra no redil das “ovelhas” para cuidar delas, não para as explorar, libertando-as das trevas em que os dirigentes as trazem e conduzi-las ao encontro da luz libertadora. E exerce a sua missão chamando pelo nome, pois bem as conhece, cada uma as suas ovelhas (“tà ídia próbata”), dando a entender que há outras no rebanho que ainda não são dele. Porém, no v. 16, dirá que as ovelhas que ainda não são do rebanho pertencem já ao Bom Pastor. Segue à frente delas e condu-las para fora ensinando-lhes a rota para os bons lugares. E elas seguem-No porque conhecem a sua voz de pastor, mas fugirão do estranho, por não lhe conhecerem a voz.
Ora é nesta imagem de conhecerem o pastor e o seguirem quando ele vai à frente que o Padre Alberto Gomes, pároco de Cristo Rei da Portela, vê a missão do educador e do professor, pois os termos latinos “educere” e “educare” significam “chamar” e “conduzir” a criança, o adolescente e o jovem para fora de si e do seu ambiente e, como o pastor, levá-los às pastagens esperançosas e prazenteiras das suas possibilidades. E, referindo as dimensões da posição do pastor como o Papa Francisco recorrentemente enuncia em relação às ovelhas, aplica-as aos pastores e aos educadores e professores: ir à frente para lhes fazer descobrir e desbravar novos caminhos e horizontes; estar no meio, para garantir acompanhamento, proximidade e sintonia; e seguir atrás para ajudar os que têm mais dificuldade ou maior fragilidade, garantindo que ninguém fica para trás. Isto fazem-no os pastores, os educadores os professores, como o fazem as mães na sua perspicaz solicitude maternal, não olhando a sacrifícios para cada um dos alunos ou dos filhos sentir o cuidado e o carinho da dedicação, afeto, cultura e educação integral.      
Para Jesus, como para os educadores/professores e para as mães (esse domingo é o Dia da Mãe), não há massas, mas pessoas concretas, com a sua identidade própria, a sua riqueza e necessidades, e a sua dignidade, que precisam da proximidade e da atenção como se fossem únicas.
Jesus não obriga ninguém a segui-Lo, mas àqueles que O seguem condu-los para fora. Não se instalando na antiga instituição judaica, geradora de opressão, vem criar uma comunidade humana nova e apresenta-se como o caminho de vida, luz e verdade que essa comunidade há de trilhar. Escutar a sua voz e segui-la é a atitude do discípulo. Dizia o Padre Alberto Gomes que alguns não gostam muito desta imagem do pastor e das ovelhas por elas, apesar de muito meigas, serem muito gregárias. Porém, estas ovelhas do Cristo, o Belo Pastor, são inteiramente livres e em Cristo, além do caminho, veem, pela docilidade, a verdade e a vida.
Na segunda parte da perícopa (Jo 10,7-9), porque os judeus não perceberam a alegoria d’Aquele que entra pela porta e chama as ovelhas pelo nome e elas seguem-No, Jesus reforça a sua missão assumindo-se como a porta. Nos sinóticos, Jesus ensina, por exemplo, “o reino de Deus é como…”, “é semelhante a…”. Em João, Jesus fala por metáforas, já não por comparações ou símiles. E fala na 1.ª pessoa do singular “Eu sou” (“Egô eimí”). A alegoria da porta aplicada a Jesus refere-se aos líderes que pretendem o acesso ao rebanho e às próprias ovelhas. No atinente aos líderes, significa que ninguém pode aceder às ovelhas se não tiver um mandato de Jesus (os pastores replicam o pastoreio de Jesus), se não for chamado por Ele e se não tiver os d’Ele, a atitude de Jesus; no concernente às ovelhas, quer dizer que Jesus é o único lugar de acesso para que as ovelhas possam encontrar as pastagens que dão vida. Assim, “passar pela porta” que é Jesus significa aderir a Ele e segui-Lo e estar disposto a dar a vida por Ele e pelos irmãos.
Aqui a palavra grega que se traduz por “porta” é “thúra”, que faz pensar nas “portas do céu” (Sl 78,23). Para a “porta do céu” (Gn 28,17), a versão dos LXX emprega a palavra grega “pulê”, que tem mais o sentido de “portão”.
E a perícopa termina com a reafirmação do contraste entre Jesus e os dirigentes judaicos: estes utilizam a grei para satisfazerem os seus interesses egoístas, despojam e exploram o povo, ao passo que Jesus só procura que o rebanho tenha vida e a tenha em abundância.
É preciso esperar pelo Ano B para se chegar ao clímax do discurso pastoril de Jesus. Começou por dizer que é Aquele que entra pela porta, porque é o pastor das ovelhas; assume-se como a porta; e afirma-se como o Belo Pastor (vv 11.14). E aqui já não se compara por dissemelhança com os ladrões e bandidos, mas com os assalariados (“misthôtoí”), acusando a indiferença destes: se veem vir o lobo, fogem porque não são pastores, não têm amor e dedicação pelas ovelhas, mas apenas o desejo do salário. Ao invés, Jesus dá a vida pelas ovelhas mesmo com o risco de ser morto pelo lobo. E diz que é por isso que o Pai O ama: é capaz de dar a vida pelas suas ovelhas. E bem conhece o Pai e o Pai O conhece a Ele.
Estas últimas considerações fazem-me recordar o episódio que se conta da vida de São Bartolomeu dos Mártires. Num dos percursos que fazia de regresso duma visita pastoral, encontrou um rebanho grande a pastar tranquilamente em abundante pastagem entre montanhas. E do cimo dum fraguedo, o zagal vigiava o rebanho com muita atenção, mas sob intenso frio e chuva copiosa. O santo Arcebispo de Braga, vendo que ali perto havia uma gruta, perguntou ao pastorinho porque não se abrigava nela. E ele esclareceu que o seu paizinho o mandara guardar o rebanho e não abrigar-se. E acrescentou que o pai gostava muito dele, mas, se o lobo apanhasse uma ovelha e soubesse que o filho estava abrigado na gruta, o repreenderia.  
Aqui fica, segundo o Arcebispo, uma bela lição do que deve ser o pastor solícito, embora não por medo, mas por amor oblativo.
E, para que haja pastores assim, mães e pais dedicados, religiosos e religiosas solícitos, missionários e missionárias incansáveis, bons educadores e professores – que têm dado provas da sua dedicação no contexto da pandemia da Covid-19 – se rezou neste dia de oração pelas vocações se deve continuar a rezar, de modo que a violência e a indiferença sejam erradicadas.
De facto, como garante Jesus (cf Jo 10,26-30), ao contrário do que acontece com aqueles que não são ovelhas de Jesus porque não acreditam n’Ele, as ovelhas de Jesus ouvem a voz d’Ele e Ele conhece-as e elas seguem-No. E mais: Ele dá-lhes a vida eterna e elas não perecerão, ninguém Lhas arrebata da mão. Foi o Pai que Lhas deu, o que o Pai Lhe deu ninguém o arrebata nada das mãos do Pai e do Filho. O Filho e o Pai são uma só coisa (“unum” em latim e “én” em grego).
Jesus diz não “Eu e o Pai sou um só”, mas “Eu e o Pai somos um” (no plural somos: “esmén”). A afirmação da unidade Pai-Filho é a mais arrebatadora definição cristológica: indispôs os judeus e despertou acesas controvérsias nos primeiros séculos do cristianismo, a que puseram cobro concílios como os de Niceia e de Constantinopla.
Enfim, “Kýrios poimaínei me(em latim: “Dominus pascit me”): “o Senhor me apascenta e nada me faltará” (Sl 23,1).
2020.05.03 – Louro de Carvalho  

domingo, 12 de maio de 2019

Ele conhece as suas ovelhas e elas seguem-No


Jesus é o Cordeiro que revela Deus-Pastor ou a faceta pastoral de Deus, o Cordeiro porque segue o Pai, Bom-Pastor. É o Cordeiro porque, sendo Filho, se faz cordeiro manso e amigo, próximo e voz do Bom Pastor, que dá a vida pelas suas ovelhas. É o Cordeiro que vai à frente do rebanho, como Mestre, e nos desafia a ser cordeiros à sua imagem e no seu seguimento. É o Cordeiro frágil e de coração grande, cuja palavra é vida e luz, que a todos purifica e faz ver o valor que o quotidiano esconde.
Este Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo, além do chamamento que a todos e a todas faz à vida da Graça e de apostolado, que deriva do Batismo que nos foi ministrado, chamou e continua a chamar vocações de especial consagração: monges, frades, freiras, leigas e leigos consagrados, sacerdotes, missionários e missionárias. São vidas de cordeiro obediente que se tornam bons pastores, num mundo inquieto e a grande velocidade, que vertiginosamente corre à volta de si correndo o risco de se aniquilar. São opções de vida alternativa que transfiguram o sentido da vida e mostram a força da liberdade de servir com alegria. Constituem um modo dinâmico de aprendizagem com o Cordeiro a fazer a diferença no rebanho, não pela vestimenta, pela aparência ou pela ausência, mas pelo olhar, pelo sentir, pelo amar e pelo acreditar. É necessário um excesso de contemplação do Cordeiro imaculado, no meio de tantos programas de distração a passar.
O Senhor, Bom Pastor, ontem, hoje e para sempre, desvela-se em cuidado paciente, amoroso e misericordioso. Cristo, Cordeiro de Deus, que é o rosto humano do Bom Pastor, abre-nos o coração à Palavra que nos ama e ilumina, para que não nos cansemos em vão nem esqueçamos os irmãos ao longo desta sacra peregrinação terrestre. De coração magnânimo nos chama ao serviço da missão e coloca o tesouro do Evangelho no barro frágil das nossas vidas, que se encarregam de retransmitir o programa de Deus. Ele dá força e entusiasmo àqueles e àquelas que chama a segui-Lo numa vida consagrada ao Evangelho e à Igreja, para que saibam dizer “sim” e serem fiéis ao chamamento divino, em ordem à transformação do mundo.
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O 4.º domingo da Páscoa é o “Domingo do Bom Pastor”, pois todos os anos a liturgia propõe um trecho do capítulo 10 do Evangelho de São João, em que Jesus Se apresenta como o Bom Pastor. Por outro lado, a perspicácia de São Paulo VI fez deste domingo o Dia Mundial de Oração pelas vocações Sacerdotais e Religiosas, a cujo tema a evolução dos tempos acabou por consagrar a semana que o antecede e alargou o sentido do dia a todas as vocações especiais que acima se referiram. Como foi referido, no Evangelho (Jo 10,27-30) apresenta-Se Cristo como o Bom Pastor, cuja missão é trazer a vida plena às ovelhas do seu rebanho, as quais, por sua vez, são convidadas a escutar o Pastor, a acolher a sua proposta e a segui-Lo para encontrarem a vida em abundância. Ante a proposta do Pastor, a 1.ª leitura (At 13,14.43-52) evidencia duas atitudes: a das ovelhas autossuficientes e comodamente instaladas nas suas certezas; e a das ovelhas atentas à voz do Pastor e dispostas a arriscar segui-Lo até às pastagens verdejantes da vida abundante e plena. Obviamente, esta segunda atitude é que é evangélica. E a 2.ª leitura (Ap 7,9.14b-17) apresenta a meta final do rebanho que seguiu Jesus, o Bom Pastor: a vida total, de felicidade infinda.  
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A partir do cap. 13, o livro dos Atos dos Apóstolos apresenta a via da Igreja no mundo greco-romano, etapa cujo protagonista humano é Paulo (animado e conduzido pelo Espírito do Ressuscitado).
Efetivamente, a comunidade cristã de Antioquia da Síria, ansiosa por fazer chegar a todos os povos a Boa Nova de Jesus, envia Barnabé e Paulo a evangelizar. Entre 13,1 e 15,35, descreve-se o envio dos missionários, a viagem, a evangelização de Chipre e da Ásia Menor (Perga, Antioquia da Pisídia, Icónio, Listra, Derbe) e os problemas colocados à jovem Igreja pela entrada maciça de gentios, para os quais ela sentiu a necessidade de se voltar.
A perícopa proclamada nesta liturgia dominical situa-nos na cidade de Antioquia da Pisídia (a atual Yalvas, na Turquia), na Ásia Menor. Nos versículos anteriores, o autor de Atos pôs na boca de Paulo, em longo discurso, uma síntese da catequese primitiva sobre Jesus, que enquadra no plano de Deus a oferta de salvação que Jesus trouxe (cf At 13,16-41). E a questão central gira em torno da reação dos judeus (e os cristãos provindos do judaísmo) e pagãos (e os cristãos provindos do paganismo) ao anúncio de salvação apresentado por Paulo e Barnabé. Os que pensavam ter o monopólio de Deus e da verdade, instalados em suas certezas, não estavam dispostos a “embarcar” na aventura do seguimento de Cristo. Porém, os que, no desafio do Evangelho, descobriram a universalidade da vida verdadeira, questionaram-se, arriscaram e responderam com alegria e entusiasmo à oferta libertadora feita por Deus por intermédio dos missionários. Na verdade, a Boa Nova de Jesus é dirigida a todos os homens, de todas as raças e nações; não é proposta fechada, exclusivista, destinada a um grupo de eleitos, mas uma oferta universal em prol de todos os homens (sem exceção). Decisivo não é ter nascido neste ou naquele ambiente, mas a capacidade de aceitar o desafio, acolher com simplicidade, alegria e entusiasmo a oferta de Jesus e partir, no quotidiano, para e pelo caminho onde Deus nos põe a encontrar a vida total.
Os judeus e cristãos provindos do judaísmo são hoje os que se acomodaram à religião morna, segura, feita de hábitos, leis, devoções, ritos externos e fórmulas fixas, mas que não põe em causa a consciência e o coração, nem tem impacto real na vida diária da família e da sociedade. É a religião dos certinhos, que têm medo da novidade de Deus. São o irmão mais velho da parábola do Pai Misericordioso (vd Lc 15,11-32). Ao invés, os cristãos provindos do paganismo e os próprios pagãos são hoje os que, tendo tantas vezes uma história pessoal complicada e uma caminhada de fé nem sempre exemplar, estão abertos à novidade de Deus e se deixam questionar por Ele. São o irmão o filho mais novo da parábola do Pai Misericordioso. Não têm medo de se desinstalar, de arriscar partir para uma vida nova e mais exigente, ainda que seja um caminho de cruz e de perseguição.
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A liturgia do 3.º domingo da Páscoa apresentava-nos o Cordeiro, o Senhor da história, que Se prepara para abrir e ler o livro dos sete selos (sete o número simbólico da totalidade), o livro onde estava escrita a história humana. Segundo o autor do Apocalipse, a abertura dos selos expõe a realidade do mundo: na caminhada histórica dos homens, pontifica Cristo vitorioso em combate permanente contra tudo o que escraviza o homem (1.º selo – o cavaleiro branco); está patente a guerra e o sangue (2.º selo – o cavaleiro vermelho), a fome e a penúria (3.º selo – o cavaleiro negro), a morte, a doença, a decomposição (4.º selo – o cavaleiro esverdeado). Em pano de fundo jazem os mártires, os que sofreram perseguições por causa da fé e que, dia a dia, clamavam a Deus por justiça (5.º selo). Por conseguinte, prepara-se o “grande dia da ira”, que anuncia a intervenção de Deus na história para destruir o mal (6.º selo). E a revelação final apresenta o combate definitivo, em que as forças de Deus derrotam as do mal (7.º selo). Os 4 primeiros selos representam o nosso mundo, sobressaindo o mais excelso dos homens, Cristo, o cavaleiro branco (branca é a cor de Deus e a cor originária da luz), o da alegria da vitória, ao passo que os outros três selos, representam o mundo que ostenta o poder de Deus concretizado na bem-aventurança dos mártires, no domínio da natureza a reagir à soberba humana e nas trombetas a anunciar o juízo de Deus. 
A perícopa proclamada na liturgia de hoje situa-nos no contexto do 7.º selo (o anúncio do “Dia do Senhor”). Aos mártires que clamam por justiça, o autor do “Apocalipse” descreve o que vai resultar da intervenção de Deus: a libertação definitiva. Como que através da fresta duma janela entreaberta, João apresenta-nos uma inumerável, imensa e universal multidão. Os seus componentes estão de pé, em sinal de vitória, pois participam da ressurreição de Cristo; envergam túnicas brancas, já que pertencem à esfera de Deus, aclamam com palmas e louvam Deus e o Cordeiro. Esta aclamação e louvor aludem à Festa das Tendas, celebrada no final das colheitas, marcada pela alegria e pelo louvor, em memória do êxodo (em que os israelitas viveram em “tendas”) e que, por influência de Zc 14,16, assume claras ressonâncias escatológicas. Na liturgia dessa festa, a multidão entrava em cortejo no recinto do Templo, agitando palmas e cantando.
Estes – como diz o vidente – são os que “vieram da grande tribulação e que branquearam as vestes no sangue do Cordeiro” (v. 14), isto é, que suportaram a perseguição mais feroz e alcançaram a redenção pela entrega de Jesus. Diante de Deus tributam-Lhe, dia e noite, o culto, que não é o somatório dum conjunto de ritos, mas fruto da gozosa presença diante de Deus e do Cordeiro.
Recorde-se que a Festa das Tendas aludia à marcha do Povo de Deus pelo deserto, desde a terra da escravidão até à terra da liberdade. A referência a esta festa significa que se cumpre agora o novo e definitivo êxodo: depois da intervenção final de Deus na história, a multidão dos que aderiram ao Cordeiro alcança a libertação definitiva, acolhida na tenda de Deus (É Deus que faz a colheita), onde não haverá a morte, o sofrimento, as lágrimas. Cristo ressuscitado, sentado no trono, é o Pastor deste novo Povo e condu-lo para “as fontes de águas vivas”, isto é, à plenitude dos bens definitivos. Aos santos que gritam por justiça, anuncia-se a mensagem da esperança sustentada. O quadro antecipa o tempo escatológico: o da intervenção definitiva de Deus na história, de que resultará a libertação definitiva do Povo de Deus.  
O autor do Apocalipse deixa-nos, assim, a mensagem da esperança sustentada, pois em vez da condenação ao fracasso, teremos a vida plena, a felicidade total. Basta que acolhamos o dom da salvação que nos é feito por Deus. A resposta positiva à oferta de salvação que Deus nos faz introduz em nós um novo dinamismo que nos fortalece a coragem e nos permite continuar a lutar, desde já, pela concretização do novo céu e da nova terra.
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O capítulo 10 do 4.º Evangelho contém a catequese do Bom Pastor. O autor utiliza esta imagem para apresentar a missão de Jesus: a obra do Messias consiste em conduzir o homem às pastagens verdejantes e às fontes cristalinas de onde brota a vida em plenitude.
Não foi o autor do 4.º Evangelho que inventou a imagem do Bom Pastor. Este discurso simbólico está construído com materiais do Antigo Testamento. Tem presente Ez 34 onde se encontra a chave de compreensão da metáfora do pastor e do rebanho. Falando aos exilados na Babilónia, Ezequiel realça que os líderes de Israel foram falsos pastores que levaram o Povo por ínvios caminhos de morte e de desgraça; mas, segundo Ezequiel, Deus vai assumir a condução do seu Povo e porá à frente dele um Bom Pastor, o Messias, ali referido como “o meu Servo David”, que o livrará da escravidão e o conduzirá à vida. Assim, a catequese que o 4.º Evangelho nos faz do Bom Pastor sugere que a promessa de Deus afirmada por Ezequiel se cumpre em Jesus. O texto joânico acentua, sobretudo, a relação estabelecida entre o Pastor, Cristo, e as ovelhas, os seus discípulos (e todos aqueles que são chamados à salvação). A missão do Pastor é dar vida às e pelas ovelhas. Sendo assim, João descreve a ação de Jesus como uma recriação e revivificação do homem, no sentido de fazer nascer o Homem Novo (cf Jo 3,3.5-6), o homem que, seguindo Jesus, se torna “filho de Deus” (cf Jo 1,12) e que é capaz de oferecer a vida por amor lúcido e generoso. Quem aceita a oferta de Jesus não se perderá (“nunca hão de perecer e ninguém as arrebatará da minha mão” – Jo 10,28), pois a qualidade de vida que Jesus lhes comunica supera a própria morte (cf Jo 3,16;8,51). Jesus está disposto a defender os seus até dar a própria vida por eles (cf Jo 10,11), a fim de que nada nem ninguém (os dirigentes, os que estão interessados em perpetuar mecanismos de egoísmo, de injustiça, de escravidão) possa privar os discípulos dessa vida em abundância. As ovelhas (os discípulos), por sua vez, têm de fazer a sua parte: escutar a voz do Pastor e segui-Lo (cf Jo 10,27), ou seja, comprometer-se com Ele e, como Ele, entregar-se sem reservas numa vida de amor e de doação ao Pai e aos homens.
O texto termina com uma referência à identificação plena entre o projeto do Pai e o projeto de Jesus: para ambos, o objetivo é fazer nascer uma nova humanidade. Em Jesus está presente e manifesta-se o plano salvador do Pai de dar vida ao homem e pelo homem; pela ação de Jesus, a obra criadora de Deus atinge o seu ponto culminante.
Na nossa cultura urbana, a imagem do pastor é uma parábola de outras eras. Em contraponto, conhecemos a figura do líder: não raras vezes, é alguém que que exige, que manipula, que arrasta, que se impõe despoticamente. Mas o Evangelho convida-nos a descobrir a figura bíblica do Pastor, que evoca doação, simplicidade, amor gratuito, a ponto de dar a vida para defender das garras das feras as ovelhas que lhe foram confiadas. Para os cristãos, o Pastor é Cristo: só Ele nos leva para as “pastagens verdadeiras”, onde encontramos vida em plenitude.
Nas nossas comunidades cristãs, temos pessoas que presidem e que animam. Aceitamos, sem problemas, que receberam essa missão de Cristo e da Igreja, apesar dos seus limites e imperfeições, mas não podemos parar nelas, mas, através delas, escutar e seguir sem condições Cristo, o único e Bom Pastor. As ovelhas da grei de Jesus têm de “escutar a voz” do Pastor e segui-Lo, ou seja, percorrer o mesmo caminho de Jesus, numa entrega total ao projeto de Deus e numa doação total, de amor e de serviço aos irmãos.
A voz de Jesus, o nosso Pastor, distingue-se de outros apelos, de cantos de sereia que não conduzem à vida em plenitude, pelo confronto permanente com a Palavra, pela participação nos sacramentos onde se nos comunica a vida que o Pastor nos oferece e num permanente e íntimo diálogo com Ele. E isto nos fará ver o que se passa no mundo e analisá-lo com o olhar de Deus, estando atentos aos seus sinais neste tempo e nestes lugares, sujeitando o que observamos ao juízo de Deus, e, segundo este juízo, colocarmo-nos em ação para a transformação, mas, se calhar, começando pela aproximação, atendimento, escuta e apoio.
Pessoas que vivem da Páscoa e a testemunham não podem ficar ensimesmadas. Têm que romper cadeias, partir pedra, ser apóstolos, estar e ir em missão.
2019.05.12 – Louro de Carvalho

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Desafios para uma Igreja Semper Renovanda

Desafios para uma Igreja ‘Semper Renovanda’ – Secularização, Diálogo, Discernimento” é o tema geral das jornadas de atualização do clero das dioceses do Sul – Évora, Setúbal, Beja e Algarve – com cerca de uma centena de participantes, que o Instituto Superior de Teologia de Évora (ISTE) está a organizar já em 11.ª edição anual (desde 2008), desta feita, em Albufeira, de 29 de janeiro a 1 de fevereiro.
Entre os oradores convidados, conta-se o Cardeal Gianfranco Ravasi, Presidente do Conselho Pontifício da Cultura, que proferirá, no dia 30 de janeiro a conferência “Diálogo: a nova postura de uma Igreja em saída” e, no dia 31, a conferência “A evangelização da Cultura: desafio e tarefa ingente”. Para lá deste responsável da Santa Sé, as jornadas de formação do clero do Sul contarão ainda com a intervenção do teólogo Juan Pablo García, do investigador Sérgio Ribeiro Pinto e do antigo comissário europeu João de Deus Pinheiro, entre outros.
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Assim, o vasto programa é preenchido pelas seguintes rubricas;
No início da tarde do dia 29 de janeiro, teve lugar o acolhimento aos participantes e a sessão de abertura, a que se seguiu, pelas 16 horas, a conferência “Vaticano II, sinal de uma Igreja aggiornata, num Mundo em mutação”, por Juan Pablo Garcia, religioso da Ordem Trinitária e professor da Universidade Pontifícia de Salamanca, após o que se procedeu ao trabalho de grupos, seguido de diálogo com o conferencista. E o primeiro dia finalizou com a oração litúrgica de Vésperas.
O dia 30 principiou com a oração litúrgica de Laudes. Às 9,30 horas foi proferida a conferência “As múltiplas raízes da Secularização nos países de tradição religiosa cristã”, por Sérgio Pinto, investigador do Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa. Às 11,30 horas, foi a conferência “Os desafios que a Europa e o projeto europeu nos colocam”, por João de Deus Pinheiro, antigo Ministro da Educação, antigo Ministro dos Negócios Estrangeiros e antigo Comissário Europeu. Às 15 horas, o Cardeal Gianfranco Ravasi proferiu a conferência “Diálogo: a nova postura de uma Igreja em saída”. Procedeu-se ao trabalho de grupos, seguido de diálogo com o conferencista. E os trabalhos do segundo dia terminaram com a oração litúrgica de Vésperas e a celebração da Eucaristia.
No dia 31, começar-se-á com a oração litúrgica de Laudes. Às 9h30, será proferida a segunda conferência do Cardeal Gianfranco Ravasi, esta em torno do tema “A evangelização da Cultura: desafio e tarefa ingente”. À tarde, haverá duas mesas redondas sobre o tema “Diálogo em várias frentes”: A primeira, “Diálogo em várias frentes I”, abordará as questões da ética e ciências da vida, com os especialistas Michel (fundador e diretor do Instituto de Estudos Fenomenológicos, Ontológicos e Axiológicos, hoje Centro de Ética e Ontologia, da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa) e Isabel Renaud (professora catedrática da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, da Universidade Nova de Lisboa), e do diálogo inter-religioso, com Susana Mateus, investigadora do Centro de Estudos de História Religiosa da Universidade Católica Portuguesa. A segunda, “Diálogo em várias frentes II”, incidirá sobre as dimensões dos cristãos na política, com José Filipe Pinto, investigador e coordenador do Centro de Investigação em Ciência Política, Relações Internacionais e Segurança, e da Educação e Ensino, com o antigo Ministro da Educação e ex-Presidente do Conselho Nacional de Educação, David Justino. E o terceiro dia terminará com a oração litúrgica de Vésperas e a celebração da Eucaristia.
A 1 de fevereiro, às 7,30 horas, recitar-se-á a oração litúrgica de Laudes e celebrar-se-á a Eucaristia. Às 9,30 horas, desenrola-se o painel “Experiências positivas de diálogo e evangelização, numa sociedade multicultural, multirreligiosa e secularizada”, constituído por representantes das dioceses envolvidas. E o encerramento dos trabalhos está previsto para as 12,30 horas.
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Sobre a participação do Presidente do Conselho Pontifício da Cultura – um dos oradores do evento, que vai sublinhar aos participantes a importância do “diálogo” enquanto “postura de uma Igreja” que quer estar permanentemente “em saída”, como refere o Papa Francisco”, e a “evangelização da cultura” como um dos desafios mais “ingentes” da Igreja Católica na atualidade – disse à Rádio Renascença o cónego José Morais Palos, Presidente do ISTE e responsável pela organização das jornadas:
É uma das pessoas mais cultas da Igreja […] Vem-nos falar como a Igreja se pode caraterizar e como esta evangelização da cultura é sempre um desafio.”.
Quanto às Jornadas, refere que, desde 2008, “nestes moldes, procuramos promover o estudo, a reflexão, a celebração e o convívio entre os participantes”, acentuando a importância dos temas e a necessidade de “corresponderem, quer do ponto de vista teológico, quer do ponto de vista pastoral, a desafios que se colocam à Igreja” e que podem ser úteis à atividade pastoral nesta sociedade secularizada.
Advertindo que “ou nos situamos neste mundo secularizado e procuramos dialogar com ele nas suas diferentes manifestações ou, então, fechamo-nos no nosso castelo”. questiona: “Mas, depois, onde está o desenvolvimento da pastoral e a evangelização?”.
Realçando a importância de se refletir sobre um tema desafiante que postula “avaliação e muito diálogo”, o Presidente do ISTE acredita que “há muitas pontes” e que é possível a Igreja posicionar-se “sem abdicar da nossa matriz como pessoas de fé e que procuram levar Cristo a todos os ambientes.”
E sublinha que, da História à Política, da situação de Portugal na Europa à Edução, passando pelo Diálogo Inter-religioso, os temas são variados e reúnem especialistas diversos que se debruçam sobre “temas que se colocam de forma diferente e com os quais a Igreja tem de estabelecer o diálogo”.
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Para já, é de destacar o que o Padre Juan Pablo García disse ao clero do sul do país, sublinhando que a Igreja está a viver com o Papa Francisco uma nova fase do acolhimento às diretrizes emanadas do Concílio Vaticano II (1962-1965).
O sacerdote da Ordem da Santíssima Trindade explicou que esta etapa, vivida na atual “cultura da pós-verdade”, se carateriza, sobretudo, pelo “regresso ao Evangelho” e sustentou que “é uma releitura do evangelho à luz da cultura contemporânea”, considerando que “o concílio continua a ser um desafio para a igreja atual” no momento em que vivemos o período da “pós-verdade”.
Com efeito, segundo o ilustre conferencista – que lamentou ser esta última designação do tempo atual caraterizada pelo insulto e por “difamar com mentiras” – “a Igreja esteve implicada com a modernidade, com a pós-modernidade e hoje diríamos também com as respostas à cultura da pós-verdade porque esta é a palavra-chave do ano 2017”.
O teólogo, que abordou o tema “Vaticano II, sinal de uma Igreja aggiornata, num Mundo em mutação”, disse que o Papa Francisco, apesar de não ter participado no concílio, “fá-lo visível” “a partir da sua vida e do seu modo de ser pastor”.
Considerando que a crise atual é também a do homem “porque neste caso é o homem que está doente”, o teólogo disse que “o acolhimento ao Concílio Vaticano II e a sua atualidade neste mundo em transformação passa por aceitar que vivemos em crise, não da Igreja mas de Deus”.
Neste sentido, disse ser preciso “reconhecer a debilidade da fé de muitos crentes”, da Igreja e das paróquias, pois “hoje vivemos, não uma crise existencial, mas uma crise eclesial, uma crise de Deus e uma debilitação da vida teologal dos crentes”, pelo que entende ser “muito importante” introduzir o tema de Deus na sociedade atual. Para isso, defendeu a criação de “escolas de oração”, de “lugares onde se faça a experiência de Deus através da palavra” e apelou a “uma espiritualidade forte”.
O orador aludiu à necessidade de “recuperar a sinodalidade”, lembrando que o termo “significa caminhar juntos”, ou seja, “com e ao lado uns dos outros” e “não uns em cima e outros em baixo, de forma piramidal”. E frisou que “a sinodalidade é o contrário de uma Igreja piramidal”, garantindo que o modelo sinodal supera o “problema do clericalismo na Igreja”.
Por outro lado, Pablo García considerou que esta fase se carateriza também por levar à prática as “exigências do Batismo e da Eucaristia” que induzem a Igreja a “passar de uma vida pastoral de manutenção a uma pastoral missionária”, indo às periferias como pretende o Papa. E advertiu para o facto de a Igreja se ter convertido “ela mesma numa periferia” e não poder “evangelizar se não se deixar evangelizar primeiro”.
Neste âmbito, alertou para a necessidade de preparação. Com efeito, “o Papa atual insistiu que não quer ‘príncipes’ nem carreiristas na Igreja, mas que a Igreja necessita de pastores com cheiro a ovelha”. Porém, o orador acrescentou: “com cheiro a biblioteca, porque sem estudo o cheiro a ovelha não chega”. Considerou, assim, que “temos também de parar para estudar”, dado que, “para podermos ir às periferias existenciais e até periféricas, não podemos ir de qualquer maneira”.
O conferencista referiu ainda a importância do “pluralismo de eclesiologias”, recordando que “o contrário da pluralidade é a uniformidade”. Ora, como observou, importa “manter a unidade” nesta pluralidade, onde se requer a “corresponsabilidade de todos” e o predomínio da caridade”, tomando-se consciência de que hoje vivemos na “sociedade do descarte e dos invisíveis”. E sustentou que a globalização que interessava era a que nos faz “mais irmãos” e não a da busca desenfreada do dinheiro e do poder.
O teólogo destacou ainda a “importância do ecumenismo para a evangelização”, advertindo que a “falta da unidade” entre cristãos “é um obstáculo” àquele desígnio. Verificando que se está a “matar cristãos porque acreditam em Cristo”, defendeu que “o martírio será o futuro do ecumenismo”. Na verdade, “há um ecumenismo de sangue e um diálogo inter-religioso de sangue”, como assegurou, frisando haver “irmãos cristãos que dão a vida por pessoas que não são cristãs”. Neste sentido, disse que “continua a ser muito importante o diálogo com o mundo”, mormente ao nível inter-religioso.
Relevando a “importância do laicado” na Igreja e no mundo, desafiou a “superar todo o individualismo da fé e a recuperar a dimensão comunitária da fé”. E terminou lamentando que não haja “tempo para as perguntas existenciais de hoje” e exortando a que provoquemos “grandes interrogações às pessoas de hoje”.
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A insistência no ser e papel do laicado, na unidade pela diversidade, regada pelo diálogo ecuménico e inter-religioso; a pertinência da valorização da sinodalidade; o regresso ao Evangelho e ao desempoeiramento das doutrinas e das práticas; a perspetiva da Igreja missionária em saída, evangelizada e evangelizadora – tudo isto são pontos a ter em conta na formação contínua dos pastores que se desejam com cheiro a ovelhas e a biblioteca. A proximidade e o profetismo não dispensam o estudo; e o estudo, animado pela fé pessoal e comunitária que se faz oração, esclarece e reforça as vias da proximidade e do profetismo.  

2018.01.30 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

“Cabras sapadoras”, uma forma de controlo do combustível florestal

O Governo quer arrancar ainda este ano com projetos-piloto de “cabras sapadoras” integradas em rebanhos dedicados à gestão de combustível florestal na rede primária, destacando o assim o reforço na prevenção de incêndios florestais.
A notícia foi avançada, há dias, pelo Secretário de Estado das Florestas, Miguel Freitas, que considera “essencial” a questão silvo-pastoral.
De acordo com o Secretário de Estado, o Governo vai intervir na rede primária através duma componente mecânica com o fogo controlado e através duma componente biológica com silvo-pastorícia. Assim, no âmbito do projeto, as organizações de produtores florestais serão “os parceiros privilegiados” para a defesa da floresta contra incêndios.
No âmbito de uma audição parlamentar na Comissão de Agricultura e Mar, requerida pelo Bloco de Esquerda, o governante responsável pelas florestas lembrou que já foram disponibilizados 17 milhões de euros para executar ações de defesa da floresta contra incêndios, destinados essencialmente à rede primária. E explicou que “temos 130 mil hectares para executar” e que “estão feitos apenas 40 mil hectares”, sendo o objetivo e havendo a expectativa de, nos próximos três anos, conseguir “executar a totalidade da rede primária da defesa da floresta contra incêndios”.
Aos aludidos 17 milhões disponíveis neste âmbito “serão somados 15 milhões para executar este ano cerca de mil quilómetros de rede primária de defesa da floresta contra incêndios e manter os 20 mil hectares da rede primária que está executada”.
De acordo com o Secretário de Estado, o país vai ter, “pela primeira”, um equilíbrio orçamental entre a prevenção e o combate aos incêndios florestais.
O governante avançou também que Portugal vai ter uma diretiva única de prevenção e combate aos fogos. Assegura:
Pela primeira vez em Portugal, vamos ter uma diretiva operacional que mostra bem aquilo que se vai fazer quer em combate quer em prevenção. Até agora, a diretiva operacional era apenas de combate.”.
Questionado pelos deputados do PSD na audição parlamentar na Comissão de Agricultura e Mar sobre como é que o Governo vai garantir que a Infraestruturas de Portugal (IEP) cumpre a lei para a limpeza das faixas de gestão de combustível florestal, Miguel Freitas salientou que a empresa pública já abriu um concurso, no valor de 18 milhões de euros, para fazer a limpeza da rede viária, considerando que “há uma grande determinação para avançar com a limpeza”.
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Quem não gostou da ideia de chamar “sapadoras” àquelas cabras foi a Associação Nacional de Bombeiros Profissionais (ANBP), que veio a terreiro a lamentar a designação “cabras sapadoras” dada ao projeto do Governo para gestão de combustível florestal, considerando abusiva a utilização do termo sapadores. No seu comunicado, pode ler-se:
A ANBP considera abusiva a utilização do termo ‘sapadoras’, uma vez que o mesmo reporta a uma classe profissional que conta com mais de 600 anos de história em Portugal e que merece o respeito de todos e sobretudo dos órgãos de soberania”.
A reação da ANBP surge após o Governo ter anunciado a medida de utilização de caprinos em rebanhos dedicados à gestão de combustível florestal na rede primária. A ANBP diz não contestar a importância do projeto, mas adianta que a designação é “infeliz e desrespeitosa para com uma classe que este ano foi tão sacrificada na defesa do seu país”. E sustenta que “nunca na história, nem no tempo em que o Rei Dom João I criou os bombeiros profissionais, nem no tempo do Salazar, os bombeiros foram alvo de um tratamento tão pouco digno”.
Mais diz a ANPP que a atribuição desta designação ao projeto “mostra uma manifesta falta de sensibilidade para com a classe profissional, que luta há anos para que todos os bombeiros profissionais do país – sapadores, municipais e profissionais das associações humanitárias – sejam designados de bombeiros sapadores”. E refere que a recetividade dos sucessivos governos para esta questão “tem sido nula, recusando-se inclusivamente a aprovar o estatuto do bombeiro profissional”.
No seu comunicado, a ANBP questiona também o que aconteceria se o Governo designasse outras forças de segurança como ‘cabras PSP’ ou ‘cabras GNR’ ou ‘cabras técnicos de proteção civil’. E considera que os bombeiros estão a ser “desconsiderados por quem, no tempo dos trágicos incêndios que assolaram o país em 2017, lhes prometeu mais dignidade e melhorias das suas condições de trabalho e carreira profissional”. E conclui que, embora não conteste a importância dos caprinos, considera que vir “comparar as funções de um animal a um ser humano é desrespeitoso por parte de um Estado de Direito”.
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Admitindo a legitimidade de os bombeiros ficarem sensíveis e melindrados com a designação, devo recordar que muito pouco me impressiona isso, tratando-se de mera questão de nomenclatura, até porque já temos alguma tradição em questões do género. Quem nunca ouviu falar, por exemplo, dos cães-polícias ou dos pombos-correios ou do bicho homem? E há o contrário: atribuir popularmente designações animais a pessoas, como Zé Cabra, Padre Boi (um antigo padre de Condeixa que teve muitos filhos de várias mulheres), Zé Macaco, Roberto Carneiro, Manuel Leão, Joaquim Lobo, Diogo Cão, Dirceu Borboleta, Jorge Coelho, José Raposo e tantos outros.
Entretanto, li um artigo de opinião de Manuel Silveira da Cunha no semanário O Diabo, edição do dia 23 intitulado “O mistério da cabra sapadora”, que acho pertinente, embora só venha ao caso a referência aos aspetos conexos com o controlo do combustível florestal.
Focando “o efeito pernicioso das cabras à solta, livres e devoradoras nos terrenos urbanos e campestres”, recorda que, em 1835, uma portaria proibia a cabra na comarca de Lisboa, sendo que qualquer destes animais que fosse encontrado à solta seria abatido de pronto, sendo cobrada ao proprietário ou ao pastor a quantia de 20 cruzados de multa. Apenas era permitido possuir uma a duas cabras, bem presas e com a exclusiva finalidade de produção de leite para o agregado familiar.
Mais refere que a cabra e a ovelha (menos esta) são as causadoras da queda do Império Árabe do Norte de África, que passou da arborização à desertificação. Não comendo o porco campestre, “o muçulmano tornou a cabra a praga devastadora que desfolhou regiões imensas do Norte de África e conduziu à decadência absoluta de uma região notavelmente próspera e amena”, diz.
Em Portugal, a explosão caprina deu-se a partir do século XVIII com vista ao consumo regular de leite, até então de uso puramente medicinal. E a rusticidade deste animal (descendente da cabra selvagem europeia”), que o leva a comer o que os outros desprezam, fizeram dele a “vaca do pobre”, que lhe dá “o leite rico e nutritivo”, com que se pode fazer um queijo excelente e o suculento cabritinho largamente consumível, apesar da míngua de mães – o que faz lembrar o provérbio “Quem cabritos vende e cabras não tem… dalgum lado lhe vem”.
Foi nesta sabedoria que Miguel Freitas fez ressurgir o tema da cabra devastadora e a nomeou “sapadora”, para desmoitar e decapar o território e – quem sabe – obviar à míngua do apetitoso cabritinho cujo preço bem poderia ser menor.
A cabra, deixada em liberdade, limparia os terrenos florestais, que deixariam de arder, mas também os agrícolas, que garantem a produção de cereais, legumes e leguminosas, hortaliças e pastagens.
Também é verdade que muitos dos cantoneiros da antiga JAE e guardas florestais possuíam rebanhos de pequenos ruminantes, que, devidamente controlados, ajudavam nas operações de limpeza de bermas de estrada e matas.
Diz o referido articulista que havia no país, no início da década de 70, mais de 10 milhões de ovinos e caprinos; em fins do século XX, perto de 4 milhões; e, hoje, menos de 2 milhões deste grupo de animais, sendo que o número de cabras não atinge as 400 mil neste cômputo.
Para poder usar as cabras como sapadoras, é necessário recuperar e manter em regime de continuidade, pelo menos 4 milhões destes pequenos ruminantes (cabras e bodes, carneiros e ovelhas) e controlar os seus movimentos para obstar a que venham a limpar tudo a eito, devastando apenas tudo o que é para devastar e limpar.
E as questões que se levantam são: “Aonde é que o Secretário de Estado vai recrutar pelo menos 4 mil pastores?”; e “Porque fala somente em 130 mil hectares, quando a área florestal cobre pelo menos 3 milhões de hectares de território?”.
E eu recordo-me de que, no tempo em que as “doutas” autoridades europeias pretendiam que Portugal funcionasse quase apenas como repositório da floresta, criaram-se uns tantos cursos profissionais da área agro-florestal, que foram decaindo progressivamente, e a União Europeia subsidiava, quase garantidamente, projetos de produção e exploração com pequenos ruminantes. Porém, isso dava trabalho. E era apenas necessário garantir a manutenção da unidade de produção durante cinco anos, como para os outros projetos, durabilidade que os queimava cedo!
Mesmo, com este ceticismo todo, erros e dificuldades, venham daí as cabras sapadoras; e os bombeiros que tenham paciência e as aceitem! Mas que não seja esse o único meio de prevenção. Que venham outros: limpeza de margens de estradas, vias férreas, passagens de linhas de alta e média tensão, zonas envolventes de casas, fábricas, armazéns, quartéis, mato rasteiro nas florestas, etc.; reflorestação com base em folhosas; entre florestas, construção de aceiros, clareiras, pontos de água, charcas e zonas de cereal; e vigilância contínua.
Para prevenir os incêndios, tudo o que se faça será sempre pouco.

2018.01.24 – Louro de Carvalho