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segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Factos ocorridos a que a escola é alheia!

Hoje, dia 29 de janeiro, por volta das 10 horas, uma rixa entre familiares de dois alunos da Escola Básica e Secundária Amadeu Gaudêncio na Nazaré levou a uma cena de agressão, que envolveu tiros e uma arma branca no pátio, no interior daquele estabelecimento de ensino, de que resultou uma vítima mortal.
A vítima, um homem de 67 anos, ainda foi transportada para o Hospital de Alcobaça, pois apresentava ferimentos graves, tendo sido mais tarde transferida para o Hospital de Santo André, em Leiria, onde morreu na sequência dos ferimentos.
Segundo o comissário Bruno Soares, do Comando distrital da PSP de Leiria, o agressor, um homem de 40 anos, acabou por ser “controlado e detido no local” por elementos da Escola Segura, que lhe apreenderam a arma. O homem encontra-se à guarda da PSP e a investigação foi entregue à Polícia Judiciária.
A escola foi encerrada devido ao pânico gerado – e por precaução. Os alunos, à vista do que viam, começavam a telefonar aos pais, que chegaram e acolheram os filhos dentro do estabelecimento escolar. Alguns dos alunos receberam acompanhamento psicológico.
O referido comissário da Polícia de Segurança Pública disse ao Expresso que “houve disparos”, embora não se possa “falar em tiroteio, que pressupõe troca de tiros”. De facto, “um indivíduo do sexo masculino recorreu a uma arma de fogo para agredir outro indivíduo”. E “há também referência à utilização prévia de uma arma branca”.
Por sua vez, fonte do comando Distrital de Operações de Socorro (CDOS) de Leiria contou que o desentendimento ocorreu às 10,22 horas, “no pátio da escola”, onde se encontravam os alunos, alguns dos quais ficaram “em estado de choque”, mas “nenhum sofreu ferimentos”.
A agência Lusa confirmou com o vereador da Educação da Câmara Municipal da Nazaré que “a escola foi encerrada”. No local estiveram três ambulâncias, uma viatura de comando e sete operacionais dos bombeiros da Nazaré e, obviamente, elementos da PSP.
De acordo com o Hospital de Santo André, em Leiria, o homem, de 67 anos de idade, foi “admitido na emergência em manobras de Suporte Avançado de Vida, efetuadas pela equipa da VMER”, e foram tentadas manobras de reanimação "sem sucesso, sendo verificado o óbito".
Ainda segundo aquela unidade hospitalar, a vítima apresentava “lesões provocadas por arma de fogo e por arma branca”.
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Pode dizer-se que se trata de um caso isolado e até inusitado. Porém, o ambiente de segurança nas escolas, embora não registe casos tão expostos como em alguns países e não seja igual por todo o país, é já bastante problemático. Os casos de insolência e indisciplina, por vezes disfarçados de hiperatividade, desconcentração, indiferença e desmotivação, abundam e são crescentes, ainda que o registo de crimes tenha diminuído um pouco.
O Programa Escola Segura, que tem a sua origem num protocolo celebrado, em 1992, entre o Ministério da Administração Interna e o Ministério da Educação, ganhou novo vigor no tempo de António Guterres com a entrega, desde 1996, de veículos automóveis à PSP e À GNR e à criação de equipas especializadas com vista à garantia da segurança e vigilância das áreas escolares. Agora precisa de novo impulso e de reforço de competências.  
Do seu lado, a GNR está a realizar campanhas de sensibilização em escolas para prevenir ocorrências indesejáveis.
Na verdade, os crimes mais registados em ambiente escolar pela GNR no ano letivo de 2016/2017 foram ofensas à integridade física, injúrias ou ameaças e furtos.
Em comunicado, a Guarda Nacional Republicana adianta que realiza, entre hoje e quarta-feira, várias ações de sensibilização junto da comunidade escolar, no âmbito do Dia Internacional da Não Violência e da Paz nas Escolas, que se assinala na terça-feira, com “o objetivo de alertar para a necessidade de prevenir comportamentos violentos”.
Segundo esta força policial, as ofensas à integridade física, as injúrias/ameaças e os furtos foram os crimes mais registados nos 5.097 estabelecimentos de ensino policiados por esta força de segurança.
Os dados enviados à agência Lusa indicam que a GNR registou, no último ano letivo, 268 crimes de ofensas à integridade física em ambiente escolar (menos 81 do que no ano letivo 2015/2016), 108 crimes de injúrias/ameaças (menos 33) e 125 furtos (menos 42).
A GNR refere também que as ações de sensibilização nas escolas pretendem prevenir este tipo de ocorrências, estando mobilizados para esta atividade mais de 600 militares das secções de prevenção criminal e policiamento comunitário da corporação, que vão abordar com os alunos temas como ‘bullying’, violência doméstica, violência no namoro e ofensas à integridade física.
Aquela força de segurança realizou, no ano letivo de 2016/2017, um total de 16.248 ações de sensibilização com crianças e jovens, tendo sido alcançados 925.329 alunos em 5.097 estabelecimentos.
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Entretanto, o Agrupamento de Escolas da Nazaré publicou um comunicado na sua página de Facebook, esclarecendo que “a situação está devidamente resolvida com a colaboração das autoridades, não tendo havido alunos, professores e funcionários envolvidos nos acontecimentos lamentáveis”.
Eis o teor do comunicado:
Informação à Comunidade
Depois de factos ocorridos a que a escola é alheia, informam-se todos os pais, encarregados de educação e demais Comunidade que a situação está devidamente resolvida com a colaboração das autoridades, não tendo havido alunos, professores e funcionários envolvidos nos acontecimentos lamentáveis. Todos os serviços na escola sede se mantêm em funcionamento retomando a normalidade a partir de amanhã. Apela-se à compreensão da Comunidade e à manutenção da tranquilidade necessária.
A Direção do Agrupamento de Escolas da Nazaré”.
É óbvio que Direção do Agrupamento não tem culpa do que sucedeu. E, se lhe sucede, como em muitas escolas, que não tem pessoal suficiente para assegurar o funcionamento da unidade orgânica por que é responsável, a responsabilidade passa por muitas entidades, nomeadamente por aquelas que tentam o controlo orçamental e o depauperamento das instituições públicas.
Porém, há que referir que as grandes causas estão a montante da escola. Entre elas, destacam-se: a falta de autoridade do Estado; a irresponsabilidade dos titulares dos cargos de topo, que vivem mais em função dos calendários eleitorais e do serventualismo a grupos de interesses; a convicção de que todos mandam em tudo; o hipercriticismo em relação aos serviços, sobretudo aos serviços públicos, que são constantemente desacreditados; a desvalorização da escola, do seu papel e do verdadeiro papel dos professores; os efeitos do contexto de crise global, sobretudo no atinente ao cultivo dos valores axiais; e a incapacidade de a educação formal atingir as suas finalidades em virtude dos constrangimentos que rodeiam a escola, a que se alia a cultura da preparação para o teste e para o exame, que algumas Escolas inscrevem nos seus planos de ação. Depois, a jusante é o que se vê: a falta de capacidade para combater o que não se foi capaz de prevenir.
Mesmo assim, é inadequado, do meu ponto de vista, vir a Direção do Agrupamento confessar que “é alheia” aos “factos ocorridos”. Não. O órgão de administração e gestão é responsável por tudo o que se passa no espaço escolar e suas imediações. Isto não quer dizer que seja culpado pelo que ali ocorre. Não se trata de responsabilidade criminal, civil ou mesmo disciplinar. Isso apenas aconteceria se, perante uma situação estranha, os responsáveis pelo Agrupamento não mobilizassem todos os meios ao seu alcance para neutralizar ou, pelo menos, minorar as consequências do ocorrido.
Ora, tudo leva a crer que, no caso, não houve negligência em chamar as autoridades e os meios de socorro. Ao invés, acolheram os alunos em pânico e os encarregados de educação que iam chegando, proporcionaram apoio psicológico aos alunos que dele necessitaram, encerraram o estabelecimento para serenar os ânimos e tranquilizaram a população dando conta de que tudo estava regularizado, prometendo a reabertura para amanhã.
Portanto, afirmar que a Direção do Agrupamento “é alheia” aos “factos ocorridos”, além de ser inadequado, vem descabido, até porque não corresponde ao esforço feito pela escola, esforço que é nosso dever saudar e aplaudir.   
Enfim, quem detém autoridade – e a Direção do Agrupamento é autoridade escolar – não é alheio aos factos de que tem conhecimento. Tanto assim é que intervém, se pode e se deve!

2018.01.29 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 24 de janeiro de 2018

“Cabras sapadoras”, uma forma de controlo do combustível florestal

O Governo quer arrancar ainda este ano com projetos-piloto de “cabras sapadoras” integradas em rebanhos dedicados à gestão de combustível florestal na rede primária, destacando o assim o reforço na prevenção de incêndios florestais.
A notícia foi avançada, há dias, pelo Secretário de Estado das Florestas, Miguel Freitas, que considera “essencial” a questão silvo-pastoral.
De acordo com o Secretário de Estado, o Governo vai intervir na rede primária através duma componente mecânica com o fogo controlado e através duma componente biológica com silvo-pastorícia. Assim, no âmbito do projeto, as organizações de produtores florestais serão “os parceiros privilegiados” para a defesa da floresta contra incêndios.
No âmbito de uma audição parlamentar na Comissão de Agricultura e Mar, requerida pelo Bloco de Esquerda, o governante responsável pelas florestas lembrou que já foram disponibilizados 17 milhões de euros para executar ações de defesa da floresta contra incêndios, destinados essencialmente à rede primária. E explicou que “temos 130 mil hectares para executar” e que “estão feitos apenas 40 mil hectares”, sendo o objetivo e havendo a expectativa de, nos próximos três anos, conseguir “executar a totalidade da rede primária da defesa da floresta contra incêndios”.
Aos aludidos 17 milhões disponíveis neste âmbito “serão somados 15 milhões para executar este ano cerca de mil quilómetros de rede primária de defesa da floresta contra incêndios e manter os 20 mil hectares da rede primária que está executada”.
De acordo com o Secretário de Estado, o país vai ter, “pela primeira”, um equilíbrio orçamental entre a prevenção e o combate aos incêndios florestais.
O governante avançou também que Portugal vai ter uma diretiva única de prevenção e combate aos fogos. Assegura:
Pela primeira vez em Portugal, vamos ter uma diretiva operacional que mostra bem aquilo que se vai fazer quer em combate quer em prevenção. Até agora, a diretiva operacional era apenas de combate.”.
Questionado pelos deputados do PSD na audição parlamentar na Comissão de Agricultura e Mar sobre como é que o Governo vai garantir que a Infraestruturas de Portugal (IEP) cumpre a lei para a limpeza das faixas de gestão de combustível florestal, Miguel Freitas salientou que a empresa pública já abriu um concurso, no valor de 18 milhões de euros, para fazer a limpeza da rede viária, considerando que “há uma grande determinação para avançar com a limpeza”.
***
Quem não gostou da ideia de chamar “sapadoras” àquelas cabras foi a Associação Nacional de Bombeiros Profissionais (ANBP), que veio a terreiro a lamentar a designação “cabras sapadoras” dada ao projeto do Governo para gestão de combustível florestal, considerando abusiva a utilização do termo sapadores. No seu comunicado, pode ler-se:
A ANBP considera abusiva a utilização do termo ‘sapadoras’, uma vez que o mesmo reporta a uma classe profissional que conta com mais de 600 anos de história em Portugal e que merece o respeito de todos e sobretudo dos órgãos de soberania”.
A reação da ANBP surge após o Governo ter anunciado a medida de utilização de caprinos em rebanhos dedicados à gestão de combustível florestal na rede primária. A ANBP diz não contestar a importância do projeto, mas adianta que a designação é “infeliz e desrespeitosa para com uma classe que este ano foi tão sacrificada na defesa do seu país”. E sustenta que “nunca na história, nem no tempo em que o Rei Dom João I criou os bombeiros profissionais, nem no tempo do Salazar, os bombeiros foram alvo de um tratamento tão pouco digno”.
Mais diz a ANPP que a atribuição desta designação ao projeto “mostra uma manifesta falta de sensibilidade para com a classe profissional, que luta há anos para que todos os bombeiros profissionais do país – sapadores, municipais e profissionais das associações humanitárias – sejam designados de bombeiros sapadores”. E refere que a recetividade dos sucessivos governos para esta questão “tem sido nula, recusando-se inclusivamente a aprovar o estatuto do bombeiro profissional”.
No seu comunicado, a ANBP questiona também o que aconteceria se o Governo designasse outras forças de segurança como ‘cabras PSP’ ou ‘cabras GNR’ ou ‘cabras técnicos de proteção civil’. E considera que os bombeiros estão a ser “desconsiderados por quem, no tempo dos trágicos incêndios que assolaram o país em 2017, lhes prometeu mais dignidade e melhorias das suas condições de trabalho e carreira profissional”. E conclui que, embora não conteste a importância dos caprinos, considera que vir “comparar as funções de um animal a um ser humano é desrespeitoso por parte de um Estado de Direito”.
***
Admitindo a legitimidade de os bombeiros ficarem sensíveis e melindrados com a designação, devo recordar que muito pouco me impressiona isso, tratando-se de mera questão de nomenclatura, até porque já temos alguma tradição em questões do género. Quem nunca ouviu falar, por exemplo, dos cães-polícias ou dos pombos-correios ou do bicho homem? E há o contrário: atribuir popularmente designações animais a pessoas, como Zé Cabra, Padre Boi (um antigo padre de Condeixa que teve muitos filhos de várias mulheres), Zé Macaco, Roberto Carneiro, Manuel Leão, Joaquim Lobo, Diogo Cão, Dirceu Borboleta, Jorge Coelho, José Raposo e tantos outros.
Entretanto, li um artigo de opinião de Manuel Silveira da Cunha no semanário O Diabo, edição do dia 23 intitulado “O mistério da cabra sapadora”, que acho pertinente, embora só venha ao caso a referência aos aspetos conexos com o controlo do combustível florestal.
Focando “o efeito pernicioso das cabras à solta, livres e devoradoras nos terrenos urbanos e campestres”, recorda que, em 1835, uma portaria proibia a cabra na comarca de Lisboa, sendo que qualquer destes animais que fosse encontrado à solta seria abatido de pronto, sendo cobrada ao proprietário ou ao pastor a quantia de 20 cruzados de multa. Apenas era permitido possuir uma a duas cabras, bem presas e com a exclusiva finalidade de produção de leite para o agregado familiar.
Mais refere que a cabra e a ovelha (menos esta) são as causadoras da queda do Império Árabe do Norte de África, que passou da arborização à desertificação. Não comendo o porco campestre, “o muçulmano tornou a cabra a praga devastadora que desfolhou regiões imensas do Norte de África e conduziu à decadência absoluta de uma região notavelmente próspera e amena”, diz.
Em Portugal, a explosão caprina deu-se a partir do século XVIII com vista ao consumo regular de leite, até então de uso puramente medicinal. E a rusticidade deste animal (descendente da cabra selvagem europeia”), que o leva a comer o que os outros desprezam, fizeram dele a “vaca do pobre”, que lhe dá “o leite rico e nutritivo”, com que se pode fazer um queijo excelente e o suculento cabritinho largamente consumível, apesar da míngua de mães – o que faz lembrar o provérbio “Quem cabritos vende e cabras não tem… dalgum lado lhe vem”.
Foi nesta sabedoria que Miguel Freitas fez ressurgir o tema da cabra devastadora e a nomeou “sapadora”, para desmoitar e decapar o território e – quem sabe – obviar à míngua do apetitoso cabritinho cujo preço bem poderia ser menor.
A cabra, deixada em liberdade, limparia os terrenos florestais, que deixariam de arder, mas também os agrícolas, que garantem a produção de cereais, legumes e leguminosas, hortaliças e pastagens.
Também é verdade que muitos dos cantoneiros da antiga JAE e guardas florestais possuíam rebanhos de pequenos ruminantes, que, devidamente controlados, ajudavam nas operações de limpeza de bermas de estrada e matas.
Diz o referido articulista que havia no país, no início da década de 70, mais de 10 milhões de ovinos e caprinos; em fins do século XX, perto de 4 milhões; e, hoje, menos de 2 milhões deste grupo de animais, sendo que o número de cabras não atinge as 400 mil neste cômputo.
Para poder usar as cabras como sapadoras, é necessário recuperar e manter em regime de continuidade, pelo menos 4 milhões destes pequenos ruminantes (cabras e bodes, carneiros e ovelhas) e controlar os seus movimentos para obstar a que venham a limpar tudo a eito, devastando apenas tudo o que é para devastar e limpar.
E as questões que se levantam são: “Aonde é que o Secretário de Estado vai recrutar pelo menos 4 mil pastores?”; e “Porque fala somente em 130 mil hectares, quando a área florestal cobre pelo menos 3 milhões de hectares de território?”.
E eu recordo-me de que, no tempo em que as “doutas” autoridades europeias pretendiam que Portugal funcionasse quase apenas como repositório da floresta, criaram-se uns tantos cursos profissionais da área agro-florestal, que foram decaindo progressivamente, e a União Europeia subsidiava, quase garantidamente, projetos de produção e exploração com pequenos ruminantes. Porém, isso dava trabalho. E era apenas necessário garantir a manutenção da unidade de produção durante cinco anos, como para os outros projetos, durabilidade que os queimava cedo!
Mesmo, com este ceticismo todo, erros e dificuldades, venham daí as cabras sapadoras; e os bombeiros que tenham paciência e as aceitem! Mas que não seja esse o único meio de prevenção. Que venham outros: limpeza de margens de estradas, vias férreas, passagens de linhas de alta e média tensão, zonas envolventes de casas, fábricas, armazéns, quartéis, mato rasteiro nas florestas, etc.; reflorestação com base em folhosas; entre florestas, construção de aceiros, clareiras, pontos de água, charcas e zonas de cereal; e vigilância contínua.
Para prevenir os incêndios, tudo o que se faça será sempre pouco.

2018.01.24 – Louro de Carvalho

domingo, 14 de janeiro de 2018

Tragédia de inverno em Vila Nova da Rainha, Tondela

Um incêndio na sede da Associação Cultural, Recreativa e Humanitária de Vila Nova da Rainha, no concelho de Tondela (Viseu) originou 8 vítimas mortais e 38 feridos, neste fim de semana.
Os bombeiros receberam o alerta às 20,53 horas. José António de Jesus, Presidente da Câmara Municipal de Tondela, explicou que “uma salamandra de aquecimento terá provocado um foco de ignição na cobertura do teto falso do primeiro piso” do edifício.
Com efeito, o aparelho de aquecimento dispunha dum tubo que o ligava ao telhado, mas que passava por um teto falso, que continha placas de gesso cartonado, com material de isolamento e fibra de vidro, e que rapidamente “ganhou combustão”. Segundo Ricardo Ribeiro, Presidente da Associação Portuguesa de Técnicos de Segurança e Proteção Civil (AsproCivil), os materiais do teto falso, além de serem “inflamáveis”, podem exalar “gases tóxicos” caso se incendeiem.
Carlos Dias, comandante dos Bombeiros Voluntários de Tondela, diz que “o aumento da temperatura em contacto com aquele tipo de material fez com que os gases que se acumulam no topo da chaminé saturassem, começassem a descer”. Assim, sucedeu que “os gases solidificaram, acumularam-se ali [entre o teto falso e o telhado] e, no contacto com o material inflamável, entraram em combustão”. Isso levou a que o teto desabasse e o ar ficou saturado de partículas tóxicas.
O Presidente da autarquia referiu ainda que a abertura duma janela terá permitido “a entrada de massa de ar” e “acelerado a combustão”, criando uma densa massa de fumo e fazendo com que as pessoas ficassem desorientadas e perdessem as “fontes de referência” no momento da fuga. Na verdade, “este tipo de fogos resolve-se sem água, basta tirar o oxigénio”. Mas, “com o pânico, as pessoas abriram as janelas, o ar entrou e foi aí que houve a explosão”. E isso aconteceu por força das pessoas que estavam enclausuradas como por parte de populares que tentaram socorrer a partir do exterior.
A este respeito, Carlos Dias disse que, ao chegarem os bombeiros, não havia chamas.
Segundo informação do Presidente da Câmara, estavam entre 60 a 70 pessoas na associação recreativa no momento do incêndio, ao passo que a Proteção Civil fala em cerca de 70. No 1.º andar, decorria um torneio de sueca enquanto no rés-do-chão havia outras pessoas a jogar snooker e a ver o início do jogo entre o Benfica e entre o Sporting de Braga.
As pessoas que morreram estavam no 1.º andar e precipitaram-se pelas escadas para fugir ao fogo. Segundo o autarca, o pânico levou a que algumas pessoas caíssem entre as escadas e a porta que dava para o exterior. Com as pessoas caídas, não foi possível sair, uma vez que a porta abria para dentro. Foi preciso um jipe para arrombar a porta, que estava fechada devido ao frio.
Existia uma segunda porta no salão onde se encontrava o bar e a televisão, que transmitia o jogo de futebol e pela qual terá saído grande parte dos que se encontravam no rés-do-chão. Se as pessoas que desceram as escadas tivessem virado à esquerda, teriam um salão com outra porta para o exterior. Porém, o pânico e a densidade do fumo levaram a que as pessoas não discernissem aquela saída alternativa.
O comandante dos Bombeiros Voluntários de Tondela acrescentou:
Quando chegámos, os bombeiros encontraram uma pilha de corpos. De certeza que não conseguiram sair pela porta da esquerda porque se pisaram e amontoaram uns em cima dos outros, quando caíram das escadas.”.
***
De acordo com o Presidente da Câmara, a associação recreativa existe há mais de 30 anos e o edifício, localizado no centro de Vila Nova da Rainha, apesar de já ter “alguns anos” estava “em bom estado de conservação”.
No que toca à salamandra, Ricardo Ribeiro, da AsproCivil, não duvida de que, tendo em conta o material inflamável do teto falso, a descarga deveria ser feita diretamente para a rua por uma “parede de alvenaria” ou por “uma janela” e “nunca por um teto falso.”
Também o comandante Carlos Dias considera que “não é correto” que o tubo de uma salamandra dê para o teto falso, mas considera que é prática recorrente. Provavelmente, se não houvesse aquele tipo de teto falso, ter-se-ia evitado muita coisa, “porque as pessoas foram banhadas com o produto inflamado a cair em cima delas”.
Já, para Ricardo Ribeiro, o grande problema não foi a salamandra, mas a falta de “medidas de prevenção de incêndios urbanos naquele espaço” e a “falta de medidas de segurança para receber um evento de 70 pessoas”, evento que ocorria no mesmo local há 16 anos, todos os sábados dos meses de janeiro e fevereiro, mas em que nada de similar tinha acontecido, embora outras informações rezem que o evento estava para se realizar em dezembro, mas que foi adiado para agora por causa da ainda fresca memória dos incêndios de outubro passado.
Ricardo Ribeiro sustenta que o espaço não cumpria as medidas de segurança necessárias para receber um evento com 70 pessoas. Com efeito, não tem portas com barras antipânico, isto é, portas com uma barra de metal a meio que permitam uma abertura e saída rápidas. A porta abria para dentro e, no meio do pânico, as pessoas encaminharam-se todas para ela. A primeira pessoa que chegou tentou abri-la, mas não conseguiu porque foi empurrada pelas outras. E, ainda que a porta abrisse para fora, era necessário ter a barra antipânico para que, quando o aglomerado de pessoas fizesse força para sair, ela se abrisse automaticamente.
O Regulamento Técnico de Segurança contra Incêndio em Edifícios define as caraterísticas das portas que podem ser utilizadas por mais de 50 pessoas. Uma delas é “abrir facilmente no sentido da evacuação”, o que não aconteceu neste caso.
O Presidente da Associação Portuguesa de Técnicos de Segurança e Proteção Civil destaca ainda a necessidade de haver “planos de evacuação e de emergência”. O regulamento refere também que os edifícios devem ter “no seu interior meios próprios que permitam a atuação imediata sobre focos de incêndio”, nomeadamente “extintores portáteis e móveis”, e devem ser equipados com instalações que permitam detetar o incêndio e, em caso de emergência, difundir o alarme para os ocupantes, alertar os bombeiros e acionar sistemas e equipamentos de segurança.
Os bombeiros, contudo, não souberam esclarecer se a associação tinha planos de emergência ou de evacuação, extintores ou detetores e alarmes de incêndio, visto que, segundo o comandante Carlos Dias, os licenciamentos e a fiscalização do alvará são da responsabilidade do município.
E não se descarta a possibilidade de uma tragédia destas se repetir. Esta falta de medidas de segurança é recorrente em muitas associações em todo o país, dado que se trata de associações sem fins lucrativos e com “muitas condicionantes financeiras”. Mas isto não pode justificar as oito mortes e aquelas dezenas de feridos.
A solução poderia passar por proibir este tipo de eventos com um determinado número de pessoas em locais sem condições de segurança – o que não seria a melhor e a mais plausível solução, tendo em conta o “serviço” que estas associações prestam à população. Devia o Estado desenvolver apoios que permitam a estas associações terem medidas de segurança nos eventos que promovem e obrigar a que estes se desenvolvessem com a presença e a vigilância de quem tem competência para tal: polícia e bombeiros.
***
O Presidente da República, acompanhado do Ministro da Administração Interna, visitou este domingo Vila Nova da Rainha e referiu-se ao incidente como “um daqueles choques que são muito fundos nas vidas das pessoas”.
Em declarações aos jornalistas, Marcelo explicou que foi o pânico que fez com que as pessoas utilizassem a “porta que abre para dentro”, junto às escadas, para saírem. E frisou que “havia precisamente ao lado uma [outra] porta”. “A que ficava em frente às escadas era a mais utilizada e a outra normalmente estava fechada.” Mas, infelizmente, não foi essa que foi utilizada, causando a confusão. O Chefe de Estado aproveitou o ensejo para elogiar o trabalho de todos envolvidos na operação de socorro e também dos autarcas, que se dirigiram rapidamente para o local, reconhecendo e louvando “a forma abnegada e competente como várias instituições intervieram em tão curto espaço de tempo”. E afirmou:
A situação era difícil e foram todos excecionais – da Saúde à Proteção Civil, passando pelo contributo da Força Aérea pelas estruturas de socorro mais próximo ou mais distante, pelo transporte e evacuação. Tudo funcionou.”.
O Presidente não deixou de apresentar “as condolências e o testemunho da solidariedade aos familiares das vítimas mortais e também aos familiares as vítimas que estão a ser assistidas com mais ou menos gravidade em várias unidades hospitalares”. E, interpelado pelos jornalistas sobre o facto de a região ter sido afetada muito recentemente pelos incêndios, defendeu que os habitantes de Tondela, e os portugueses em geral, são “resistentes”. E acrescentou:
        “Nunca sabemos compreender porque é que de repente se acumulam tantos factos negativos, em tão pouco tempo, nos mesmos sítios. 
          Mas a verdade é que o português é resistente e estamos todos fraternalmente solidários. Estamos a acompanhar essa resistência.”.
O Presidente afirmou a intenção de visitar, a partir de hoje, os doentes hospitalizados em Coimbra e em outras localidades e mostrou-se disponível para se encontrar com os familiares das vítimas, mas admitiu que isso dependerá da sua disponibilidade. E, à tarde, em intervenção pública, junto a uma capela de Vila Nova da Rainha, onde está sediada a associação, Marcelo dirigiu-se aos presentes, lembrando que a primeira solidariedade na sequência do incêndio foi da população local, que acorreu na tentativa de socorrer quem tentava fugir das chamas. E exortou:
O primeiro sinal de solidariedade foi vosso e continua a ser vosso. Aquilo que vos peço é que não desmobilizem [desmobilizeis]. Há famílias com dor, há famílias – e ainda não passaram 24 horas – que não percebem o que aconteceu e estão sob choque, são amigos e amigas. […] E esse é o vosso grande desafio –, o desafio que têm [tendes] de vencer, como têm [tendes] estado a vencer o desafio de outubro.”.
E o Chefe de Estado, voltando a enaltecer o trabalho de “todas as instituições” que participaram nas operações de socorro às vítimas “e que fizeram mais do que era preciso fazer para que haja quem continue a lutar pela vida”, garantiu:
Uma coisa é certa, o país está aqui unido convosco. Está aqui o Governo, esteve ontem e está hoje aqui o Governo, esteve ontem e está hoje aqui a Assembleia da República e está hoje o Presidente da República. Com os vossos autarcas, mas sobretudo convosco. […] É um sinal de que estamos todos juntos. Nesta hora de dor, a vossa dor é a nossa dor”.
***
O Presidente, afinal, já refez as pazes com o Governo. Tondela e o povo português merecem!

2018.01.14 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Juntos Por Todos – concerto em homenagem às vítimas dos incêndios

Vasco Sacramento (neto de Mário Sacramento, grande nome da história contemporânea de Aveiro, médico, resistente antifascista, várias vezes preso pelo regime de Salazar) deitou-se, a 17 de junho, o sábado dos incêndios, impressionado com o que vira nas televisões e acordou com mensagens de pânico no telemóvel. Era-lhe impossível ficar quieto, pelo que provocou o movimento que desemboca no esgotadíssimo concerto do dia 27, que todas as televisões e rádios transmitiram.
O próprio Vasco Sacramento, de 39 anos, promotor de concertos, responsável pela Sons em Trânsito, deu o primeiro sinal exterior de que algo poderia estar para acontecer, quando, às 20,47 horas do dia seguinte, escrevia na sua página de Facebook o que lhe ia na alma. Impressionado, começou por dizer que, na manhã daquele domingo, não conseguira “ficar parado com as notícias e as imagens que chegavam de Pedrógão Grande”. E continuou:
“Arregacei as mangas e desafiei a MEO Arena, algumas empresas parceiras e muitos dos principais artistas nacionais. Não tive uma única resposta negativa, para além daqueles que, infelizmente, não dispunham de agenda. Dia 27, teremos um concerto com mais de 20 artistas e transmitido em direto pela RTP, que também se associou imediatamente. Obviamente que ninguém vai ganhar um tostão com isto e todas as receitas obtidas reverterão para o apoio às vítimas e à reconstrução das áreas afetadas. Mais informações nas próximas horas. Agora é preciso encher o MEO Arena.”.
Foi o começo duma iniciativa empenhada e emocionante. Logo na manhã do dia 19, o Expresso falou com Vasco, para este contar o que estava a acontecer. Ciente da delicadeza sempre contida numa iniciativa deste tipo, Sacramento optou naquele dia, como nos dias seguintes, por não falar, pois não queria assumir qualquer protagonismo suscetível de ser mal interpretado. Interessava-lhe assegurar a realização do concerto e nada fazer para pôr qualquer espécie de grão de areia na engrenagem. Mas acabou por, momentos antes do concerto, se dispor a contar como tudo sucedeu. Se no sábado do início da tragédia foi dormir já muito impressionado, no domingo apercebeu-se da troca de mensagens entre pessoas que habitualmente com ele trabalham e aconteceu o seguinte:
“Começo a perceber que há amigos comuns desaparecidos, outros com as casas destruídas e sinto a necessidade de fazer algo”. 
Telefonou aos responsáveis do MEO Arena “para saber se tinha ajuda e se estariam comigo” e “disseram imediatamente que sim”. Porém, começando a colocar-se o problema da logística necessária a iniciativa desta dimensão, foi preciso conversar muito e em várias frentes. Hoje estarão a trabalhar na maior sala de concertos lisboeta mais de 900 pessoas, todos solidários: “ninguém vai receber um cêntimo; e estarão lá técnicos de todo o tipo, profissionais de incontáveis áreas”, porque “há na verdade um imenso trabalho acrescido, resultante do facto de o concerto ser transmitido por todas as televisões”. No dito comentário no Facebook, só falava na RTP, mas tinha a grande ambição de reunir todas as televisões. E agora disse:
“Nunca imaginei que assumisse estas proporções. Achava quase impossível ter todos os canais de televisão a transmitir, mas fomos ainda mais longe ao conseguir reunir também as rádios, todos unidos neste esforço solidário”.
Importante era a questão dos artistas. Sacramento representa alguns dos principais nomes nacionais, com Ana Moura à cabeça. Depressa percebe que os Amor Eletro estavam a colocar de pé algo de parecido e logo se estabelece contacto para unir esforços. Foi assim que na noite do dia 27 se tornou possível ver e ouvir artistas tão diversos como: Agir, Amor Eletro, Ana Moura, Áurea, Carlos do Carmo e Camané, Carminho, D.A.M.A., David Fonseca, Diogo Piçarra, Gisela João, Jorge Palma e Sérgio Godinho, Luís Represas e João Gil, Helder Moutinho, Luísa Sobral, Matias Damásio, Miguel Araújo, Paulo Gonzo, Pedro Abrunhosa, Raquel Tavares, Rita Redshoes, Rui Veloso e Salvador Sobral (que não devia ter dito o que disse no fim). O cartaz ficou concluído em duas ou três horas – rapidez de que resultou a impossibilidade de integrar no alinhamento muitos outros artistas que se disponibilizaram. Foram centenas que ficaram de fora, porque era inviável estar a pensar num espetáculo com muito mais do que os 25 que subiram ao palco. Ainda assim o espetáculo durou mais de três horas.
Juntos Por Todos”, iniciativa coproduzida pela Sons em Trânsito, Nação Valente, Meo Arena, Blueticket, RTP, SIC e TVI, contou com a generosidade e solidariedade de numerosas empresas e parceiros e, ainda, com o contributo das editoras Sony Music Portugal, Universal Music Portugal, Valentim de Carvalho e Warner Music Portugal na sua divulgação artística e o Alto Comissariado da Fundação Calouste Gulbenkian. As verbas arrecadadas serão entregues à UMP (União das Misericórdias de Portugal), porque não se queria “beneficiar apenas um concelho ou uma situação específica” e porque são as misericórdias quem está “no terreno a fazer o levantamento das necessidades, além de estarem a gerir o fundo de meio milhão de euros atribuído pela Fundação Gulbenkian”. E, ao comentar tudo quanto se tem estado a passar nos últimos dias, Sacramento diz ser ainda cedo para se perceber até que ponto estes acontecimentos estão a transformá-lo. Não obstante, declarou ao Expresso:
“Estou ainda tão anestesiado com tudo e com a montagem desta operação que não dá para perceber de que forma é que isto nos afeta ou transforma”.
Já durante o concerto declarou saber que organizar espetáculos “é sempre algo de efémero”. Porém, “aqui sabemos que estamos a contribuir para algo mais sólido, mais permanente”, pois, os problemas são tão vastos que, se conseguirmos ajudar a que uma casa se erga, que um posto de trabalho se mantenha, já sentiremos que valeu a pena”. E, questionado se esperava um espetáculo com esta dimensão, respondeu que esperava um espetáculo grande, mas que lhe caiu no colo um espetáculo gigante.
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Na noite de 27, no Meo Arena, em Lisboa, assisti pela TV ao concerto especial de 25 artistas portugueses, já referidos, num espetáculo montando apenas numa semana, cuja receita reverte a favor das vítimas do incêndio de Pedrógão Grande e similares, que angariou 1 153 000 euros, dinheiro (além do dos bilhetes e bilhetes-participação) que ajudará a pessoas atingidas em diversas vertentes da subsistência. Na plateia, entre as 14 mil pessoas, que homenagearam com um aplauso de pé os bombeiros, estavam o Presidente da República (em cuja pessoa a UMP agradeceu a Portugal esta bela iniciativa de solidariedade) e o Presidente da Assembleia da República, que disse:
É importante que estejamos juntos o ano inteiro e não apenas nestas ocasiões”.
Outros testemunhos surgiram da parte de artistas, apresentadores e outros. Destacam-se, a seguir, palavras de artistas e do Presidente da União das Misericórdias de Portugal.
Carminho resumiu o espírito geral dos músicos que se apresentaram em palco, garantindo que estavam ali para lá do que representam e do percurso individual de cada um: “Estamos aqui para ajudar a vida das pessoas que sozinhas não conseguem fazer a reconstrução”. E David Fonseca, de Leiria, disse que o choque da tragédia de Pedrógão “não foi um choque regional”:
“Somos um país pequeno, mas temos uma ideia de comunidade muito forte. Quando acontece algo, isto que aconteceu, temos uma extraordinária capacidade de ajudar.”.
Por seu turno, Gisela João entrou em palco, pedindo: “vamos todos dançar pelos bombeiros portugueses”. E, quando começou a interpretação de “Sr. Extraterrestre”, disse:
“Acredito em todos os portugueses que estão aqui neste momento, acredito de coração”.
E recordou ainda a mensagem de uma bombeira, que integrava o batalhão do bombeiro que morreu durante o combate às chamas:
“Ela queria fazer uma última homenagem a esse bombeiro, tive que me certificar de que ela estava aqui”.
Helder Moutinho reforçou a necessidade de acabar com “alguns negócios que estão por trás disto tudo, de forma a que isto não aconteça”, referindo-se à “tragédia dos incêndios”. E Luís Represas, depois de interpretar, com João Gil, “Memórias de um Beijo”, dos Trovante, disse:
“Não é novidade que os portugueses estão presentes quando são chamados a isso”.
Afinal veio gente”, exclamou Sérgio Godinho ao começar o dueto que protagonizou com Jorge Palma, num medley que juntou “Portugal Portugal”, do segundo, e “O Primeiro Dia”, do primeiro. Jorge Palma recordou:
“Há um ano estava a fazer um concerto em Pedrógão, na semana passada fiquei horrorizado. A prevenção, precisamos de gastar o dinheiro que for preciso para que isto não volte acontecer.”.
E Sérgio Godinho afirmou que “é sempre preciso lembrar os bombeiros”.
Por seu turno, Luísa Sobral, uma das vozes em cartaz, confessou não estar previsto falar antes de cantar “Cupido” (acompanhada por Mário Delgado à guitarra), mas foi isso que fez:
“Normalmente, para um espetáculo deste tamanho são necessários alguns meses. Neste caso, foi tudo feito numa semana. Acabamos por ser nós a dar a cara. Eu dormi bem esta semana, mas as pessoas que organizaram isto mal dormiram.”
E falou sobre todos os músicos que não estiveram no Meo Arena, mas que gostariam de estar.
“Estamos aqui porque, quando é preciso. as pessoas juntam-se.” Miguel Araújo cantou “Anda Comigo Ver os Aviões” e assumiu que para lá das canções, “as palavras falham nestes momentos”. Antes, cantou Matias Damásio. E Paulo Gonzo cantou “Sei-te de cor”: “A música é sempre uma boa causa e ajuda a mudar as coisas. A música pode ajudar a cicatrizar a dor”.
“A tempestade há de passar” é o 1.º verso de “Toma Conta de Mim”, que Pedro Abrunhosa levou ao Meo Arena. “Que saibamos tomar conta uns dos outros nos momentos mais aflitivos da nossa vida”, disse a meio do tema e confessou: “A música acaba por ser um abraço invisível, mesmo com vontades e crenças diferentes”. Logo a seguir, cantou Raquel Tavares, que disse:
“Esta noite significa que as pessoas de Pedrógão não estão sozinhas. E prometemos que não nos vamos esquecer deles.”
Por sua vez, Rita Redshoes, que escolheu o tema “Mulher”, apontou o fundamental:
“Esta noite é muito bonita, mas não podemos esquecer porque estamos aqui. Há responsabilidades políticas e individuais que têm de ser apuradas. Só isso é que devolve o respeito à memória dos que não ficaram cá. Como cidadãos temos que exigir justiça por essas pessoas.”.
Depois de “Primeiro Beijo”, Rui Veloso deixou “um recado para os nossos políticos, que tanto falam, tanto põem as culpas nuns como põem nos outros” e disse:
“Já toda a gente ouviu essa conversa, mas nós temos que nos unir e resolver a questão de uma vez por todas. O país e os homens estão a ser destruídos.”
E Salvador Sobral foi o último a atuar sozinho, com despedida em grande. E, em vez de cantar primeiro “Amar Pelos Dois”, a canção com a qual ganhou o Eurofestival, apresentou antes uma versão de “A Case of You”, de Joni Mitchell. Depois, atirou-se ao sucesso entoado em coro pelos 14 mil que esgotaram o Meo Arena, a cantar já não a amar pelos dois, mas por todos.
E o Presidente da UMP interveio a meio do concerto em postura de gratidão e garantia de que a UMP está no terreno, conhece as populações e, após esta fase de emergência e luto, acabará o levantamento das reais necessidades e gastará bem todos os cêntimos que administra, suscitando a colaboração de todas as entidades. E, no fim, agradeceu emocionado a todo o país.
2017.06.27 – Louro de Carvalho