Mostrar mensagens com a etiqueta Magos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Magos. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Em tempo de Epifania, o discurso papal da adoração


A homilia do Papa Francisco na Missa da Solenidade da Epifania do Senhor, que se celebrou neste dia 6 de janeiro no Vaticano, gravita em torno do conceito, da necessidade e da atitude da adoração na vida cristã, sendo que nos temos de questionar assiduamente se, de facto, somos “cristãos adoradores”.
Diz o Pontífice, em consonância com o texto mateano do Evangelho (Mt 2,1-11), que os magos começaram por confessar perante Herodes a intenção, o objetivo de adorar o Rei dos Judeus. Com efeito, o objetivo da caminhada daqueles estrangeiros era a adoração, pelo que, ao verem o menino e a mãe, “prostrando-se, adoraram-no”.
Cabe aqui uma palavra parentética sobre a postura corporal da adoração. O Papa Bento XVI, na homilia da Missa de encerramento da JMJ de Colónia, dizia sobre o sentido da adoração:
A palavra grega ressoa proskynesis. Significa o gesto da submissão, o reconhecimento de Deus como a nossa verdadeira medida, cuja norma aceitamos seguir. Significa que liberdade não quer dizer gozar a vida, considerar-se absolutamente autónomo, mas orientar-se segundo a medida da verdade e do bem, para, desta forma, nos tornarmos nós próprios verdadeiros e bons. Este gesto é necessário, mesmo se a nossa ambição de liberdade num primeiro momento resiste a esta perspetiva. Fazê-la completamente nossa só será possível na segunda passagem que a Última Ceia nos apresenta [tomar e comer, tomar e beber, deixar lavar os pés…]. A palavra latina para adoração é ad-oratio contacto boca a boca, beijo, abraço e, por conseguinte, fundamentalmente amor. A submissão torna-se união, porque Aquele ao qual nos submetemos é Amor. Assim, submissão adquire um sentido, porque não nos impõe coisas alheias, mas liberta-nos em função da verdade mais íntima do nosso ser.”.
Sendo assim, adorar pode fazer-se de pé, ajoelhado, prostrado em terra, alçado ao alto. E, dificilmente deitado ou sentado, a não ser que o adorado esteja ao nosso colo ou dentro de nós, como na e depois da comunhão sacramental.
Obviamente os magos não podiam adorar o menino montados nos camelos, tiveram que se apear. E, como ele estava no colo de sua mãe ou na manjedoura, adoraram-no ajoelhados ou prostrados em terra (neste caso, por se reconhecerem indignos de estar ao nível dele), pois, não podiam estar em nível superior. Por outro lado, como os reis recebiam as saudações sentados no seu trono, os súbditos veneravam-nos ajoelhando-se ou prostrando-se nunca ficando a um nível superior. Por isso, ainda hoje se diz que, perante os homens, ficamos sempre de pé e podemos ajoelhar face a Deus.  
Diz o Santo Padre que, “se perdermos o sentido da adoração, falta-nos o sentido de marcha da vida cristã, que é um caminho rumo para o Senhor, e não para nós” e que o risco existe quando temos ao lado “personagens incapazes de adorar”. E o exemplo do Evangelho é Herodes e a sua corte, sendo que o rei “usa o verbo ‘adorar’, mas de maneira falaciosa”, pois quer que os magos o informem do local do encontro do Menino para também o ir adorar. Só que Herodes adorava-se apenas a si mesmo, pelo que tentava livrar-se do menino que lhe surgia como rival. Ora isto ensina-nos – diz o Pontífice – que “o homem, quando não adora a Deus, é levado a adorar-se a si mesmo” e que a “vida cristã, sem adorar o Senhor, pode tornar-se uma forma educada de se louvar a si mesmo e a sua habilidade”. Na verdade, há cristãos que “não sabem adorar”, não rezam adorando; servem-se de Deus em vez de servirem a Deus, trocam os interesses do Evangelho pelos seus, revestem de religiosidade o que lhes convém, confundem o poder, que é servir os outros, com o poder, que é servir-se a si mesmo.
Também os sumos sacerdotes e os escribas do povo, que indicam com precisão a Herodes o local onde nasceria o Messias, pois conhecem as profecias, mas não vão adorar o Messias.
E daqui Francisco infere:
Na vida cristã, não basta saber. Sem sair de si mesmo, sem ir ao encontro de Deus, sem O adorar, não O conhecemos. De pouco ou nada servem a teologia e a ação pastoral, se não se dobram os joelhos; se não se faz como os magos, que não se limitaram a ser sábios organizadores duma viagem, mas caminharam e adoraram. Quando se adora, apercebemo-nos de que a fé não se reduz a um belo conjunto de doutrinas, mas é a relação com uma Pessoa viva, que devemos amar.”.
Ora, adorar, segundo Bergoglio, é permanecer face a face com Jesus, conhecendo e contemplando o seu rosto. E o Santo padre diz cumulativamente:
Adorar é “fazer o êxodo” da escravidão de si; é “colocar o Senhor no centro”; é “predispor as coisas na sua justa ordem, reservando o primeiro lugar para Deus”; é “antepor os planos de Deus” ao nosso tempo, direitos, espaços; é aceitar o ensinamento da Escritura: ‘Ao Senhor, teu Deus, adorarás’; é “sentir que nos pertencemos mutuamente, eu e Deus”; é tratá-Lo por ‘Tu’ na intimidade e “depor a seus pés a nossa vida, permitindo-Lhe entrar nela”; é fazer descer sobre o mundo a sua consolação; é descobrir que basta dizer ‘Meu Senhor e meu Deus’ e deixar-se invadir pela sua ternura; é ir ter com Jesus com o único pedido de estar com Ele; é “descobrir que a alegria e a paz crescem com o louvor e a ação de graças”; é “permitir a Jesus que nos cure e transforme”; é “dar-Lhe a possibilidade de nos transformar com o seu amor, iluminar as nossas trevas, dar-nos força na fraqueza e coragem nas provações”; é ir ao essencial: ‘o caminho para se desintoxicar de tantas coisas inúteis, de dependências que anestesiam o coração e estonteiam a mente’; é aprender a rejeitar o que não deve ser adorado: ‘o deus dinheiro, o deus consumo, o deus prazer, o deus sucesso, o nosso eu arvorado em deus’; é “fazer-se pequenino na presença do Altíssimo”; é descobrir que a grandeza da vida não consiste em ter, mas em amar; é “descobrirmo-nos como irmãos e irmãs face ao mistério do amor que ultrapassa todas as distâncias”; é “beber o bem na fonte”; é encontrar no Deus próximo a coragem de nos aproximarmos dos outros; é saber calar face do Verbo divino, para aprender a dizer palavras que consolem; é “um gesto de amor que muda a vida”; é fazer como os Magos: levar-Lhe o ouro, para Lhe dizer que nada é mais precioso do que Ele, oferecer-Lhe o incenso, para Lhe dizer que só com Ele se eleva para o alto a nossa vida, apresentar-Lhe a mirra (com ela se ungiam os corpos feridos e dilacerados) “como promessa a Jesus de que socorreremos o próximo marginalizado e sofredor, porque nele está o Senhor”.
Se soubermos ajoelhar diante de Jesus, venceremos a tentação de olhar apenas aos nossos interesses. Ao adorá-Lo, descobrimos que a vida cristã é uma história de amor com Deus, onde não basta ter boas ideias sobre Ele, mas é preciso colocá-Lo em primeiro lugar, como faz um namorado com a amada e como deve ser a Igreja: “a adoradora enamorada de Jesus, seu esposo”.
É preciso redescobrir a adoração como exigência da fé. Ao rezar, sabemos pedir e agradecer ao Senhor; mas a Igreja deve progredir ainda na oração de adoração; “devemos crescer na adoração”, pois ela é uma ciência que temos de aprender todos os dias: rezar adorando.
Cabe-nos a nós, como Igreja, colocar em prática as palavras que acabamos de rezar no Salmo: ‘Adorar-Vos-ão, Senhor, todos os povos da terra’. Na verdade, adorando em qualquer lugar, mas em espírito e verdade – sós ou acompanhados (somos pessoas e comunidade) – descobriremos, como os Magos, “a direção certa do nosso caminho” e, como eles, sentiremos “imensa alegria”.
2020.01.06 – Louro de Carvalho

domingo, 5 de janeiro de 2020

Depois do Natal, a manifestação de Jesus a todos os homens e povos


Este é o tema da celebração da Solenidade da Epifania do Senhor. Com efeito, a luz de Deus, encarnada em Cristo na história humana, ilumina a Terra inteira, atrai a si todos os povos e todos os homens podem conhecer o Senhor e acolher a Salvação que Ele oferece gratuitamente a todos sem exceção. Na Liturgia da Palavra, a 1.ª leitura (Is 60,1-6) anuncia a chegada da luz salvadora que transfigurará Jerusalém pela ternura maternal de Deus e que atrairá à cidade de Deus os povos de todo o mundo. O texto do Evangelho (Mt 2,1-11) mostra a concretização desse anúncio, com os magos que vêm de longe e representam os povos de toda a Terra. Troca-se Jerusalém por Belém, a mais modesta das cidades de Judá, onde nasceu o Salvador. E a 2.ª leitura (Ef 3,2-3a.5-6) apresenta o projeto salvador de Deus como uma realidade que vai atingir toda a humanidade, juntando judeus e pagãos na comunidade fraterna dos crentes em Jesus.
***
A passagem da 1.ª leitura insere-se no Tritoisaías (capítulos 56-66 do Livro de Isaías), um conjunto de textos cuja proveniência não é consensual; uns dizem que se trata dum profeta anónimo pós-exílico, que profetizou em Jerusalém após o regresso dos exilados da Babilónia, nos anos 537/520 a.C.; mas a maioria pensa que são textos provenientes de diversos autores pós-exílicos e redigidos ao longo de um longo arco de tempo (entre os séculos. VI e V a.C.). Em todo o caso, trata-se da época pós-exílica e na reconstrução de Jerusalém, notando-se as marcas do passado nas pedras calcinadas, com poucos e pobres judeus ali estabelecidos, o que torna lenta e muito modesta a reconstrução, sendo que os inimigos espreitam a população desanimada.
Assim, a profecia, anunciando o dia futuro em que Deus vai chegar em seu esplendor tornando bela, harmoniosa e jubilosa a cidade, glorifica Jerusalém, a cidade da luz ou “dos dois sóis” (o sol nascente e o sol poente: pela situação geográfica, a cidade é iluminada desde o nascer do dia até ao pôr do sol) e Deus habitará para sempre no seio do seu Povo, como testemunhará o Templo reconstruído.
Inspirado pelo sol nascente que ilumina as pedras brancas das construções de Jerusalém e faz com que a cidade se transfigure pela manhã e sobressaia brilhante por entre as montanhas que a circundam, o profeta sonha com uma Jerusalém mui diferente da que os retornados do Exílio conhecem; essa nova cidade levantar-se-á quando chegar a luz de Deus, que lhe dará uma nova face. Então, Jerusalém atrairá os olhares de todos os que esperam a salvação. Por conseguinte, a cidade será abundantemente repovoada e os povos de toda a terra – atraídos pela promessa do encontro com a salvação de Deus – convergirão para lá, inundando-a de riquezas e cantando os louvores de Deus.
Como pano de fundo deste texto está a expressão da constante preocupação de Deus com a vida e a felicidade daqueles e daquelas que Ele criou. Deus está sempre presente no coração das pessoas e acompanha a caminhada do seu Povo oferecendo-lhe a vida definitiva. E esta “fidelidade” de Deus aquece-nos o coração e renova-nos a esperança. Caminhamos pela vida de fronte erguida confiantes no amor infinito de Deus e na sua vontade de nos salvar e libertar.
Na catequese cristã dos primeiros tempos, esta Jerusalém nova, que já “não necessita de sol nem de lua para a iluminar, porque é iluminada pela glória de Deus”, é a Igreja – a comunidade dos que aderiram a Jesus e acolheram a luz salvadora que Ele veio trazer. É, pois, necessário que nas nossas comunidades e estruturas brilhe a luz libertadora de Deus em Cristo e aí haja espaço para todos os que buscam a luz libertadora, de modo que os irmãos que têm a vida destroçada, ou os que não se comportam de acordo com as regras da Igreja, sejam acolhidos, respeitados e amados e que as diferenças próprias da diversidade de culturas sejam vistas como uma riqueza que importa preservar e acarinhar.
***
A visita dos magos ao menino de Belém é um episódio terno que, ao longo dos temos, tem provocado considerável impacto nos sonhos e nas fantasias dos cristãos. Todavia é de recordar, que estamos no “Evangelho da Infância” e que os factos narrados não são o relato preciso de acontecimentos históricos, mas uma catequese sobre Jesus e a sua missão e o modo como é acolhido ou rejeitado. Ou seja, Mateus não apresenta uma reportagem da visita de três Chefes de Estado estrangeiros à gruta de Belém, mas, recorrendo a símbolos e imagens bem expressivos para os primeiros cristãos, apresenta Jesus como o enviado de Deus Pai, que vem oferecer a salvação de Deus aos homens de toda a terra. É um relato epifânico, mas não o único. Também a mudança da água em vinho em Caná, a teofania do Jordão após o Batismo de Jesus por João, a transfiguração no Tabor, a ressurreição de Lázaro e as aparições do Ressuscitado são manifestações salvadoras de Cristo com vista à expressão do seu messianismo em prol de todos os homens. E a epifania continua na ação da Igreja em saída missionária a todas as periferias.
O relato de Mateus elege os magos como as primícias dos adoradores. O texto eminentemente catequético localiza reiteradamente o nascimento de Jesus em Belém, a terra natal do rei David, e liga Jesus aos anúncios proféticos que falavam do Messias como o descendente de David que havia de nascer em Belém (cf Mq 5,1.3; 2 Sm 5,2) e restaurar o reino ideal de seu pai. Quer, assim, Mateus desdizer os que pensavam que Jesus tinha nascido em Nazaré vendo nisso obstáculo para O reconhecerem como o Messias.
Depois, o texto mateano releva uma estrela “especial” que apareceu no céu por esta altura e que conduziu os “magos” para Belém. A interpretação supostamente histórica desta referência levou alguém a cálculos astronómicos para concluir que, no ano 6 a.C., uma conjunção de planetas explicaria o fenómeno luminoso da estrela mencionada por Mateus; outros procuraram um cometa que, por esta época, devia ter sulcado os céus do antigo Médio Oriente. Não é disto que se trata. Mateus pede emprestada à crença popular epocal a ideia de que o nascimento duma importante personagem era acompanhado da aparição duma nova estrela, tal como a tradição judaica que fazia acompanhar o nascimento do Messias por uma estrela que surge de Jacob (cf Nm 24,17). Com estes elementos postos ao serviço da catequese, Mateus fornece aos cristãos da sua comunidade argumentos para rebater os que negavam que Jesus era o Messias esperado.
Quanto aos magos, importa referir que o termo grego “mágos” usado por Mateus abarca vasta panóplia de significados e é aplicado a personagens diversas: sacerdotes persas, reis, mágicos, feiticeiros, charlatães, propagandistas religiosos. Aqui, pode designar astrólogos mesopotâmicos conhecedores do messianismo judaico. Em todo o caso, esses “magos” representam, na catequese mateana, os povos estrangeiros de que fala o Tritoisaías (cf Is 60,1-6), que se põem a caminho de Jerusalém (os magos pediram informação em Jerusalém, que ficou com medo) com as suas riquezas (ouro, incenso e mirra) para encontrar a luz salvadora que brilha sobre a cidade santa e que é Jesus. O que se manifestou na carne, foi justificado pelo Espírito e foi contemplado pelos anjos não se fechou numa redoma dourada, mas foi revelado aos gentios, para ser acreditado no mundo e exaltado na glória. Por isso, merece o louvor de todos os povos (cf 1Tm 3,16). 
Além disso, o relato mateano recolhe, de forma paradigmática, duas atitudes que se repetem ao longo de todo o Evangelho: o Povo de Israel rejeita Jesus, ao passo que os “magos” do oriente (pagãos) O adoram; Herodes e Jerusalém “ficam perturbados” ante da notícia do nascimento do menino e planeiam a sua morte, enquanto os pagãos sentem uma indizível alegria e reconhecem em Jesus o seu salvador. Herodes dissimula com a promessa de adoração a ideia de O matar.
Mateus anuncia, assim, que Jesus será rejeitado pelos seus, mas que vai ser acolhido pelos pagãos, que entrarão a fazer parte do novo Povo de Deus. O itinerário seguido pelos “magos” reflete a caminhada que os pagãos percorreram para encontrar Jesus: estão atentos aos sinais (estrela), percebem que Jesus é a luz que traz a salvação, põem-se decididamente a caminho para O encontrarem, perguntam aos judeus (que conhecem as Escrituras) o que fazer, encontram Jesus e adoram-No como “o Senhor”. É muito possível que um grande número de pagano-cristãos da comunidade de Mateus descobrisse neste relato as etapas do seu próprio caminho rumo a Jesus.
***
A Carta aos Efésios apresenta-se como uma “carta de cativeiro”, escrita por Paulo da prisão. Os que sustentam a autoria paulina da carta discutem o lugar onde Paulo está preso, nesta altura, embora a maioria ligue a carta ao cativeiro de Paulo em Roma entre 61 e 63. É, porém, uma sólida apresentação duma catequese bem estruturada e amadurecida, parecendo constituir uma espécie de síntese do pensamento paulino, em que o tema aglutinador é o que o autor, que evangeliza por força da graça que recebeu em prol da comunidade, chama de “o mistério”: o projeto salvador de Deus, definido e elaborado desde sempre, escondido durante séculos, revelado e concretizado plenamente em Jesus, comunicado aos apóstolos e, nos “últimos tempos”, tornado presente no mundo pela Igreja.
Na parte dogmática da carta (Ef 1,3-3,19), Paulo apresenta a catequese sobre “o mistério”: depois dum hino que põe em relevo a ação do Pai, do Filho e do Espírito Santo na obra da salvação (cf Ef 1,3-14), o autor fala da soberania de Cristo sobre os poderes angélicos e do seu papel de cabeça da Igreja (cf Ef 1,15-23); a seguir, reflete sobre a situação universal do homem, mergulhado no pecado e afirma a iniciativa salvadora e gratuita de Deus em favor do homem (cf Ef 2,1-10); e expõe como Cristo, realizando “o mistério”, levou a cabo a reconciliação de judeus e pagãos num só corpo, que é a Igreja (cf 2,11-22). O texto da Solenidade vem na sequência: o Apóstolo apresenta-se como testemunha do mistério ante judeus e ante pagãos (cf Ef 3,1-13).
A Paulo, como aos Doze, foi revelado “o mistério”. É esse “mistério” que Paulo aqui desvela aos crentes da Ásia Menor. Paulo insiste que, em Cristo, chegou a salvação definitiva para os homens; e essa salvação não se destina só aos judeus, mas a todos os povos da terra. Paulo é, por chamamento divino, o pregoeiro desta novidade. Agora, judeus e gentios são membros de um mesmo e único “corpo”, o “corpo de Cristo” ou Igreja, partilham o mesmo projeto que os faz, em igualdade de circunstâncias com os judeus, “filhos de Deus”; e todos participam da promessa feita por Deus a Abraão (cf Gn 12,3) – promessa realizada em Cristo com todo o esplendor espelhado no Tritoisaías. E a grande novidade da Carta aos Efésios é que Jesus Cristo é a revelação e a realização plena do projeto de Deus, que não se destina apenas “a Jerusalém” (ao mundo judaico), mas é para ser oferecido a todos os povos, sem exceção.
***
Por tudo isto, se nos guindámos, pelo Natal, a trombeteiros do presépio, agora temos que ser trombeteiros, de coração e de boca, do episódio da adoração dos magos, apontadores da estrela, vasculhadores corajosos das Escrituras, lucíferos do Evangelho da Salvação e da Paz, fermento dum novo mundo segundo o coração de Cristo.
2020.01.05 – Louro de Carvalho     

segunda-feira, 7 de janeiro de 2019

Virão adorar o Senhor todos os povos da Terra


Celebrou-se hoje, 6 de janeiro, a Solenidade da Epifania do Senhor e os textos assumidos para a liturgia foram Is 60,1-6 (1.ª leitura), Ef 3,2-3a.5-6 (2.ª leitura) e Mt 2,1-12 (3.ª leitura, Evangelho).
O termo epifania é uma modalidade da teofania. Houve, de facto, muitas teofanias ou manifestações de Deus no AT (Antigo Testamento). São conhecidas as plasmadas no arco-íris, na nuvem, no trovão e na Sarça Ardente. Só que estas são de âmbito limitado, reservadas aos velhos Patriarcas e aos líderes de Israel. E o Natal é a grande teofania de Deus manifestado num menino reclinado na manjedoura dum estábulo, cantado pelos anjos e visitado pelos pastores, mas tudo na Palestina. Ora, a Epifania é a manifestação do Senhor para fora, ou seja, a revelar-Se aos gentios, hoje representados pelos Magos (cf Ef 3,6), desvendando-se “a verdade sublime de que “Deus veio para todos: todas as nações, línguas e povos são acolhidos e amados por Ele” – facto simbolizado na luz, que tudo alcança e ilumina (cf homilia do Papa, de hoje).
E esta revelação sucede por iniciativa de Deus, que dá os seus sinais e Se mostra em Jesus, o qual põe os discípulos a correr o mundo anunciando a Boa-Nova. Com efeito, Paulo conhece “o mistério”, desígnio ou projeto salvador de Deus, definido desde toda a eternidade, escondido durante séculos, revelado e concretizado plenamente em Jesus, comunicado aos apóstolos, desfraldado e dado a conhecer ao mundo na e pela Igreja. E a Paulo, apóstolo como os Doze, também foi revelado esse “mistério” que ele desvela aos crentes de fora da Palestina.
E o mistério consiste na verificação de que, em Cristo, chegou a salvação definitiva para os homens, que não é exclusivamente para os judeus, mas se destina a todos os povos da terra, sem exceção. Agora, judeus e gentios são membros de um mesmo e único “corpo” (o “corpo de Cristo” ou “Igreja”), partilham o mesmo projeto que os faz, em igualdade de circunstâncias, “filhos de Deus” e todos participam da promessa feita por Deus a Abraão (cf Gn 12,3) – promessa que Jesus realizou em pleno. E o profeta Isaías apresenta a luz de Deus que incide sobre Jerusalém. Inspirado pelo sol nascente que ilumina as belas pedras brancas das construções de Jerusalém e faz a cidade transfigurar-se pela manhã, o profeta anuncia a chegada da luz salvadora de Deus, que dará à cidade um rosto jovial e atraente.
***
Mas a Epifania tem de acontecer também pelo movimento dos homens. O profeta refere que a predita luz fará concentrar na cidade iluminada os olhares de todos os que esperam e procuram a salvação. Por consequência, Jerusalém será abundantemente repovoada (com o regresso de muitos “filhos” e “filhas”) e os povos convergirão para Jerusalém, inundando-a de riquezas (nomeadamente, incenso para o serviço do Templo) e cantando os louvores de Deus. 
E o Papa Francisco, um profeta dos nossos tempos diz que surpreende o modo como o Senhor Se revela a todos. Na homilia de hoje, refere que o Evangelho mostra “o redopio de gente desencadeado em torno do palácio do rei Herodes”, quando se designa Jesus como rei.
Os magos, vindos do Oriente e que tinham visto a estrela do Rei dos Judeus, perguntavam onde estava o rei dos judeus que acabava de nascer. Haviam de O encontrar. Encontrá-Lo-iam, não no palácio real de Jerusalém, “mas numa casa humilde de Belém” – diz o Pontífice.
Já tinha sucedido isso no Natal: nenhum dos poderosos de então se apercebeu de ter nascido, nos seus dias, o Rei da história. E, mais tarde, quando Jesus Se manifesta publicamente, tendo o Batista como precursor, o Evangelho proporciona a apresentação do contexto: depois de elencar todos os grandes de então, no poder secular e no religioso (Tibério César, Pôncio Pilatos, Herodes, Filipe, Lisânias, os sumos-sacerdotes Anás e Caifás), conclui que “a Palavra de Deus foi dirigida a João, filho de Zacarias, no deserto” (Lc 3,2), ou seja, não foi dirigida a nenhum grande. E esta é a surpresa: Deus não sobe à ribalta do mundo para Se manifestar – frisa o Papa.
A estrela de Jesus poderia ter aparecido em Roma, sede do Império, que se tornaria cristão de imediato, ou poderia ter brilhado no palácio de Herodes e este poderia “fazer o bem em vez do mal”. Porém, em vez do êxito, poderíamos assistir ao insucesso, revolta ou encandeamento. E Francisco assegura que “a luz de Deus não vai para quem brilha de luz própria” e “Deus propõe-Se, não Se impõe; ilumina, mas não encandeia”. E esclarece o mysterium lunae  da Igreja:
É sempre grande a tentação de confundir a luz de Deus com as luzes do mundo. Quantas vezes corremos atrás dos clarões sedutores do poder e da ribalta, convencidos que prestamos um bom serviço ao Evangelho! Mas, assim, voltamos os holofotes para o lado errado, porque Deus não estava lá. A sua luz amável resplandece no amor humilde. Além disso, quantas vezes tentamos, como Igreja, brilhar de luz própria! Mas, não somos nós o sol da humanidade; somos a lua que, mesmo com as suas sombras, reflete a luz verdadeira, o Senhor. A Igreja é mysterium lunae e o Senhor é a luz do mundo (cf Jo 9,5). Ele…, não nós!”.
Vincando que “a luz de Deus vai para quem a acolhe”, comenta o texto de Isaías, segundo o qual “a luz divina não impede as trevas e o nevoeiro denso de cobrirem a terra, mas resplandece em quem está pronto para a receber”, não na indiferença e inércia (de escribas e sacerdotes do palácio). Assim, o profeta convida interpelando: “Levanta-te e resplandece”. E considera o Papa:
É preciso levantar-se, isto é, erguer-se do próprio sedentarismo e prontificar-se a caminhar. Caso contrário, fica-se parado como os escribas consultados por Herodes, que sabiam bem onde nascera o Messias, mas não se moveram. Além disso, é preciso revestir-se de Deus – que é a luz – todos os dias, até que Jesus Se torne a nossa vestimenta diária.”.
Porém, para se revestir da luz de Deus, é preciso despojar-se das roupas vistosas que impedem de receber a divina luz, como aconteceu com Herodes. Já os magos cumprem a profecia, pois, como diz o Bispo de Roma, “levantam-se para serem revestidos de luz”. Só eles viram a estrela de Jesus no céu.
Depois, é preciso ter em conta que, para encontrar Jesus, é preciso enveredar pelo caminho certo e permanecer nele. Quando os magos se desviaram da rota certa, deixaram de ver a estrela e foram ter a Jerusalém em vez de Belém, ao Palácio em vez da casa humilde. Não se pode seguir o caminho de Herodes (distinto do caminho do mundo), do medo, da inveja, do cinismo, da perfídia. Ao direcionarem-se para Belém, recuperaram a visão da estrela e chegaram ao sítio certo. E o Papa assegura que, na conclusão desta passagem evangélica se diz que os magos, tendo encontrado Jesus, ‘regressaram ao seu país por outro caminho’ (Mt 2,12), um caminho como o percorrido pelos que estão com Jesus no Natal: Maria e José, os pastores. Como eles, os magos, deixaram as suas casas e tornaram-se peregrinos pelas rotas de Deus. De facto, “só encontra o mistério de Deus quem deixa os próprios apegos mundanos e se põe a caminho”.
E não basta saber onde nasceu Jesus, como os escribas, se não caminharmos até ao lugar indicado; não basta saber que Jesus nasceu, como Herodes, se não O encontrarmos. Quando o onde de Jesus se torna o nosso, Jesus nasce dentro e torna-Se Deus vivo para cada um de nós.
Depois, Francisco refere que os magos “não discutem, caminham”; não ficam de fora a ver, entram na casa; não se colocam no centro, prostram-se-lhe aos pés; não se fincam nos seus planos, prontificam-se a tomar outro rumo; têm um contacto estreito com Jesus, uma abertura radical, um envolvimento total. Mais: os magos vão ter com o Senhor, não para receber, mas para dar. Com efeito, o Evangelho contém uma trilogia de prendas: ouro, incenso e mirra. O ouro, como o elemento mais precioso, lembra que Deus merece o primeiro lugar, o da adoração, para o que temos de nos privar do primeiro lugar e “considerar-nos necessitados, não autossuficientes”; o incenso, que simboliza o relacionamento com o Senhor na oração, sendo que, para exalar o seu perfume, se deve queimar, lembra que é preciso ‘queimar’ um pouco de tempo na oração com o Senhor; e a mirra, unguento que seria utilizado para envolver amorosamente o corpo de Jesus descido da cruz (cf Jo 19,39), sugere que agrada ao Senhor que cuidemos dos corpos provados pelo sofrimento, da sua carne mais frágil, de quem ficou para trás”. Com efeito, recorda o Pontífice fazendo a apologia da gratuitidade:
É preciosa aos olhos de Deus a misericórdia com quem não tem para restituir, a gratuitidade. É preciosa aos olhos de Deus a gratuitidade. Neste tempo de Natal que está a terminar, não percamos a ocasião para dar um lindo presente ao nosso Rei, que veio para todos, não nos cenários faustosos do mundo, mas na pobreza luminosa de Belém. Se o fizermos, resplandecerá sobre nós a sua luz.”.
***
Sobre a Epifania, o SNPC (Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura), no respetivo site, publica um texto de Ermes Ronchi (a parti do Avvenire), traduzido por Rui Jorge Martins, sob o título “Epifania, festa dos buscadores de Deus a caminho”. 
Segundo o autor, esta é “a festa dos buscadores de Deus, dos que estão longe”, mas que se puseram a caminho atrás de palavras como as de Isaías: “ergue a cabeça e vê” – dois verbos belíssimos, em que um (ergue a cabeça) faz olhar para o alto e à volta e leva a abrir “as janelas de casa ao grande respiro do mundo”; e o outro () faz procurar “uma fissura, um espaço de céu, uma estrela polar, e de lá interpreta a vida, a partir de uma perspetiva elevada”.
E diz o autor que o Evangelho (Mt 2, 1-12) “narra a procura de Deus como uma viagem, ao ritmo da caravana, nos passos de uma pequena comunidade”. Na verdade são três (uma comunidade) que “caminham juntos, atentos às estrelas” e “uns aos outros”; e fixam “o céu e os olhos de quem caminha ao lado, abrandando o passo segundo a medida do outro, de quem está mais fatigado”.
A seguir, regista que surpreendentemente:
O caminho dos magos está cheio de erros: perdem a estrela, encontram a grande cidade em vez da pequena povoação; perguntam pelo menino a um assassino de meninos; procuram um palácio e encontram um casebre. Mas têm a infinita paciência de recomeçar”.
E extrai a lição: “o nosso drama não é cair, mas rendermo-nos às quedas”.
Depois, os magos veem o Menino nos braços da mãe, prostram-se e oferecem-Lhe presentes, mas o presente mais precioso é “a sua própria viagem” ou “os meses passados à procura, andar e andar atrás de um desejo mais forte que desertos e fadigas”.
E outra lição: “Deus tem sede da nossa sede: o nosso presente maior”.
“Entraram, viram o Menino e a Sua Mãe e adoraram-No”. E isto constitui uma lição misteriosa: não adoraram aqui “o homem da cruz” ou “o ressuscitado”, nem “um sábio de palavras de luz nem um jovem na plenitude do vigor”, mas “simplesmente um menino”. De facto, “não é só no Natal que Deus é como nós, não só é o Deus connosco, mas é um Deus pequeno entre nós”, de quem “não se pode ter medo” nem “distância”. Por isso, Se fez menino.
Herodes mandou que se informassem com cuidado sobre o Menino e lho transmitissem, para que também ele O fosse adorar. É “o homicida de sonhos ainda embrulhados em faixas” que também “está dentro de nós”, com “o cinismo, o desprezo que destroem sonhos e esperanças”. Era pertinente, como diz o autor, “resgatar aquelas palavras da profecia de morte com que foram proferidas e repeti-las ao amigo, ao teólogo, ao artista, ao poeta, ao cientista, ao homem de rua, a cada um: ‘encontraste o Menino?’, para recomendar depois:
Continua à procura, cuidadosamente, na história, nos livros, no coração das coisas, no Evangelho e nas pessoas; continua a procurar atentamente, fixando os abismos do céu e os abismos do coração, e depois conta-mo como se conta uma história de amor, para que também eu vá adorá-lo, com os meus sonhos resgatados de todos os Herodes da história e do coração”.

***
Também, antes da recitação do Angelus, o Papa Francisco falou aos peregrinos frisando a manifestação de Jesus simbolizada pela luz, que, nos textos proféticos, é promessa. Isaías, de facto, dirige-se a Jerusalém convidando: “Levanta-te, brilha, pois chegou a sua luz, a glória do Senhor brilha sobre ti”. E este convite “aparece surpreendente, porque se insere depois do duro exílio e das inúmeras opressões que o povo havia vivido” diz o Papa, que vinca:
Este convite, hoje, ressoa também para nós, que celebramos o Natal de Jesus e nos encoraja a deixar-nos alcançar pela luz de Belém. Também nós fomos convidados a não nos deter nos sinais exteriores do acontecimento, mas a recomeçar dele e percorrer em novidade de vida o nosso caminho de homens e fiéis.”.      
Com efeito, “a luz que o profeta Isaías tinha pré-anunciado, no Evangelho está presente e foi encontrada. É Jesus, nascido em Belém, que veio trazer a salvação a próximos e a distantes: a todos – sendo que Mateus mostra diversos modos pelos quais se pode encontrar Cristo e reagir à sua presença. Assim, o Papa sublinhou que “Herodes e os escribas”, com um coração duro e obstinado, rejeitaram a visita do Menino, fecharam-se “para a luz”, representando todos os que “têm medo da vinda de Jesus e fecham o coração aos irmãos e às irmãs que necessitam de ajuda”. Herodes, com medo de perder o poder, não pensa no bem das pessoas, mas na própria vantagem; e os escribas e chefes do povo têm medo porque, não sabendo olhar além das próprias certezas, não conseguem colher a novidade que está em Jesus.
Já os magos, vindos de longe, representam todos os povos distantes da fé hebraica e deixam-se guiar pela estrela, abertos à “novidade”. Revela-Se-lhes Deus feito homem e eles prostram diante de Jesus e oferecem dons simbólicos, porque “a busca do Senhor implica não só a perseverança no caminho, mas também a generosidade do coração”. Depois, regressaram ‘ao seu país’, não pela via de Herodes, mas levando dentro de si o mistério daquele Rei humilde e pobre. Terão contado a experiência: a salvação oferecida por Deus em Cristo é para todos os homens. Não é possível tomar posse do Menino, um dom para todos. E o Pontífice exorta:
Façamos também nós um pouco de silêncio em nosso coração e deixemo-nos iluminar pela luz de Jesus que provém de Belém. Não permitamos que os nossos medos nos fechem o coração, mas tenhamos a coragem de nos abrir a esta luz que é mansa e discreta.[…] Então, como os Magos, experimentaremos uma grande alegria que não poderemos manter para nós. Que nos sustente neste caminho a Virgem Maria, estrela que nos conduz a Jesus, e Mãe que mostra Jesus aos Magos e a todos aqueles que se aproximam dele.”.
Depois do Angelus, Francisco referiu alguns aspetos da atualidade:
- Sabendo que, durante vários dias, 49 pessoas resgatadas no Mediterrâneo estão a bordo de dois navios de ONGs, em busca de refúgio seguro para a terra, dirigiu “um apelo sincero aos líderes europeus para que demonstrem a sua solidariedade para com essas pessoas”.
- Anotando que algumas igrejas orientais, católicas e ortodoxas, seguindo o calendário juliano, celebrarão o Natal no dia 7, saudou-as cordial e fraternamente “no sinal de comunhão entre todos nós cristãos, que reconhecem a Jesus como Senhor e Salvador”. 
- Referindo a Epifania é também o Dia Missionário da Juventude, frisou que este ano convida os jovens a serem “atletas de Jesus”, para testemunhar o Evangelho na família, na escola e nos locais de lazer.
- Dirigiu cordial saudação a todos os peregrinos, famílias, paróquias e associações, provenientes da Itália e de diferentes países e, em particular, aos fiéis de Marsala, Peveragno e San Martino in Rio, os meninos do Cresima di Bonate Sotto e o grupo “Fraterna Domus”. E endereçou uma saudação especial à procissão histórico-folclórica que promove os valores da Epifania e que este ano é dedicada ao território de Abruzzo, mencionou a procissão dos magos que ocorre em muitas cidades da Polónia com grande participação de famílias e associações; e saudou os músicos da banda que ouviu tocar, incitando a que continue a tocar a alegria deste dia da Epifania.
***
Enfim, doutrina, reflexão, preocupação e simpatia!
2019.01.06 – Louro de Carvalho

domingo, 2 de dezembro de 2018

Tu também tens de ser o presépio


Com o 1.º domingo do Advento, inicia-se o novo Ano Litúrgico e o seu 1.º ciclo, o do Natal.
O comércio já vem enxameando, desde fins de outubro, as ruas e praças, as montras e lojas e os spots publicitários de motivos e objetos natalícios, como também – é justo registá-lo – de campanhas a favor de quem precisa e de agendamento de encontros e outros atos de confraternização com familiares, vizinhos e amigos.
Na ótica do combate à banalização consumista que, muitas vezes, encandeia, adorna e atordoa o Natal com as luzes, decorações e sons do mundanismo, fazemos o esforço de evidenciação da profundidade do mistério do Natal centrando-nos em Jesus menino que, pelo Seu Nascimento, deu o primeiro passo na Terra para a cruz redentora, que possibilita a presente e a eterna confraternização dos filhos de Deus na e com a comunhão trinitária.
Por isso, fiquei algo espantado quando anotei que o Papa Francisco e o Bispo do Porto (que têm razão) recomendaram a colocação antecipada do Presépio e da Árvore de Natal nas igrejas, nas casas de família, nas ruas e nas praças. E hoje, dia 2 de dezembro, o sacerdote que celebrou a missa transmitida pela Rádio Renascença frisou que muitos e muitas que não são crentes celebram o Natal e dizia “ainda bem”, porque festejam a vida, o nascimento, a convivência.
E o Papa, na mensagem que dirigiu ao simpósio sobre as igrejas que deixam de estar ao culto e que podem ser destinadas a fins profanos não sórdidos, segundo o cânone 1222 do Código de Direito Canónico, disse que o fenómeno de muitas igrejas, necessárias até há poucos anos, mas não hoje, seja por falta de fiéis e de clero, seja por uma distribuição diferente da população nas cidades e nas zonas rurais, não deve ser acolhida com ansiedade pela Igreja. Ao invés, este fenómeno deve ser interpretado como um sinal dos temposque nos convida a uma reflexão e nos impõe uma adaptação”.
Talvez também o consumismo natalício, muito fomentado pelo comércio e pelas relações socioeconómicas, nos possa levar a uma oportuna reflexão e a encarar catequeticamente este pretenso alargamento dos festejos. Por isso, em vez de tentarmos obstruir o cortejo das vaidades, talvez seja mais conveniente tentar alinhá-lo pela linha da eficácia e tolerância evangélicas: continuar a semear o trigo, mas não impedir primariamente o crescimento conjunto do joio ou das ervas neutras. Não desistindo, mas sendo criteriosos!
***
Só por motivos metodológicos se distinguem Natal e Advento. Advento (do nome latino adventus, us – chegada, por sua vez derivado do verbo advenire: vir, chegar, vir até junto de) significa vinda, chegada até junto de nós. Obviamente, no contexto cristão, trata-se da vinda de Jesus, o Messias. Ao longo dos tempos, Deus aproximou-se dos homens e falou-lhes implicitamente pelos sinais natureza e explicitamente pelos patriarcas, juízes, reis e profetas. Agora, fala-nos por seu filho Jesus Cristo. O Advento já celebra a vinda de Jesus, que tira o pecado do mundo – e nesse sentido, chamamo-Lo Messias em hebraico e Cristo em grego – como foi prometido ao longo do Antigo Testamento. Pelo Natal (no latim, dies natalis – dia do nascimento – de que o tempo assumiu o adjetivo “natalis” como nome deixando cair o “dies”), celebramos a vinda de Jesus pela modalidade factual do nascimento a partir do seio virginal de Maria onde fora concebido por obra do Espírito Santo.
Diga-se que um só dia do calendário seria exíguo para celebrar tão misterioso e portentoso mistério da Encarnação do Verbo de Deus.
Por isso, em douta antropagogia, a Igreja, embora centre a celebração na Solenidade do Natal do Senhor, fá-la preceder de quadra preparatória em que releva (para nossa edificação) mensagens, factos e figuras humanas – precursores da vinda de Jesus –, tal como subsequentemente lhe apõe uma oitava festiva para a sapiência e a deglutição do augusto mistério e, ainda, mais uns dias para absorvermos o dinamismo do Evangelho da Infância até ao Batismo do Senhor.
***
Entre os vários motivos natalícios, destaca-se o presépio como lugar central do Natal. Devo, contudo, anotar que originariamente o “presépio” (em grego, “φάτνη” – phátnê: em latim: praesepium ou praesepe) é a manjedoura, que por sinédoque passou a designar também a gruta, estábulo, cabana.
Diz o Evangelho de Lucas que Maria deu à luz o Seu filho primogénito, O envolveu em panos e O reclinou sobre uma manjedoura (cf Lc 2,7). Porém, deve ter-se em conta que a manjedoura está abrigada na gruta ou cabanal e que ali foram acolhidos os visitantes e adoradores do menino.
Ora, do meu ponto de vista, a manjedoura passou, com o Natal, a ser o primeiro altar, na Terra, de adoração familiar: Maria e José acarinharam o menino, apaparicaram-no, beijaram-no, contemplaram-no e mostraram-no a quem aparecia, nomeadamente anjos e pastores.
Recordo que Bento XVI, na homilia da missa na Esplanada de Marienfeld, em Colónia, a 21 de agosto, no âmbito da XX Jornada Mundial da Juventude (JMJ), falou do sentido da adoração:
A palavra grega ressoa proskynesis. Ela significa o gesto da submissão, o reconhecimento de Deus como a nossa verdadeira medida, cuja norma aceitamos seguir. Significa que liberdade não quer dizer gozar a vida, considerar-se absolutamente autónomo, mas orientar-se pela medida da verdade e do bem, para, assim, nos tornarmos nós próprios verdadeiros e bons. Este gesto é necessário, mesmo se a nossa ambição de liberdade num primeiro momento resiste a esta perspetiva. […]. A palavra latina para adoração é ad-oratio contacto boca a boca, beijo, abraço e, por conseguinte, fundamentalmente amor. A submissão torna-se união, porque Aquele a quem nos submetemos é Amor. Assim, submissão adquire um sentido, porque não nos impõe coisas alheias, mas liberta-nos em função da verdade mais íntima do nosso ser.”.
Então, para adorar, pomo-nos de pé, inclinamo-nos, ajoelhamos, prostramo-nos, sentamo-nos consoante o que nos parece ser a postura do amado, de quem nos abeiramos. Antigamente, ao invés do que muitos pensam, o trono real estava perto do solo. Logo, para “adorar” o rei, o único que estava sentado, era mister fletir, ajoelhar ou prostrar-se, dependendo da estatura do súbdito (isto antes da instituição de práticas humilhantes). É, assim, preciso colocar a boca de modo a podermos beijar a pessoa amada e falar-lhe, ouvi-la para lhe podermos responder e podermos vir a falar em seu nome a outrem. Todavia, mais do que a posição física para adorar importa adorar em espírito e verdade (cf Jo 4,23.24). 
A adoração deve ser cultivada em família, mas não pode fechar-se nela. Imaginemos que Maria e José se tinham trancado na gruta de Belém e escondiam o menino… Mas não: aquele primeiro altar familiar abriu-se à adoração de quem acorreu ali: os anjos fizeram-se ouvir a cantar Glória a Deus no Céu e paz na Terra aos homens do seu agrado (cf Lc 2,14); entretanto, um deles fora avisar os pastores que pernoitavam nas imediações da cidade:
Não temais, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo: Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura.” (Lc 2,10-12).
E os pastores apostolaram-se reciprocamente “Vamos a Belém ver o que aconteceu e que o Senhor nos deu a conhecer”. Foram apressadamente e encontraram Maria, José e o menino deitado na manjedoura. Depois de terem visto, começaram a divulgar o que lhes tinham dito a respeito daquele menino. Todos os que ouviram se admiravam do que lhes diziam os pastores. Quanto a Maria, conservava todas estas coisas, ponderando-as no seu coração. E os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido, conforme lhes fora anunciado (Lc 2,15-20).
***
Ora tudo isto tem em vista dizer-nos que a vinda do Senhor, o nascimento de Jesus não aconteceu somente há dois mil anos. Este mistério sucede hoje em realização permanente na Igreja e pela Igreja, que tem a missão de oferecer Jesus ao mundo e de oferecer o mundo a Jesus. Mas ela só cumpre cabalmente esta missão se todos e cada um aceitarmos ser a manjedoura atual onde Jesus está reclinado e exposto à aprendizagem e adoração de todos a começar pelos pobres – que são também o presépio onde devemos ver e adorar Jesus e cuidar dele. E isso faz-se com as palavras da boca originadas na cabeça e com o coração terno e aberto. Depois, nós também devemos ser a gruta que protege este tesouro menino e acolhe todos os que vierem por bem, nunca lhes tolhendo a entrada, mas facilitando-lha.
Por isso, o presépio – manjedoura e cabanal – sou eu e és tu. E seremos cada mais presépio se aceitarmos ser anjos que fazem e cantam a glória de Deus e a paz entre os homens e pastores que também vêm adorar e incitam os outros à adoração.
Para tanto, teremos também de ser outros sinais do presépio: a árvore, ao resistirmos aos ventos e dificuldades da vida e semearmos a esperança; a luz, quando iluminamos com a nossa vida o caminho dos outros com a bondade, paciência, alegria e generosidade; o sino, quando chamamos, envolvemos e convidamos, congregamos e procuramos unir; as decorações, as nossas virtudes, que são as cores que embelezam a nossa vida; os anjos, quando cantamos para o mundo uma mensagem de paz, justiça e amor; a estrela, quando levamos alguém ao encontro com o Senhor; os magos, quando damos o melhor que temos sem termos em conta a quem o damos; o presente de Natal, ao sermos verdadeiros amigos e irmãos de todos os seres humanos; os cantares de Natal, quando conquistamos e irradiamos a harmonia dentro de nós; os votos de Natal, se perdoamos e restabelecemos a paz, mesmo quando sofremos por isso; a ceia, quando saciamos com pão e esperança o pobre que está ao nosso lado; a noite, quando, humildes e conscientes, recebemos no silêncio da noite o Salvador do mundo, sem ruídos nem grandes celebrações, sendo o sorriso da confiança e ternura na paz interior de um Natal perene que estabelece o reinado de Deus, dentro de cada um de nós.
O Natal somos nós, quando decidimos nascer de novo em cada dia e deixar que Deus entre e permaneça na nossa alma, na nossa vida. Se efetivamente assim acontecer, se assim o quisermos, o presépio será mesmo lugar de encontro em casa, na igreja e na rua!
***
Por isso e para isso, ante as dificuldades, mesmo que catastróficas, temos que ousar erguer-nos e levantar a cabeça porque a nossa libertação está próxima. Mas devemos ter cuidado connosco: o nosso grande inimigo será o coração pesado pela intemperança (a falta de tempero ou de moderação) ou devassidão (viver não vivendo, andar ao toledo, em roda livre, sem leme), a embriaguez (do álcool, das drogas, dos prazeres, das ambições) e as preocupações (ainda que lícitas) da vida. E, sobretudo, devemos vigiar e orar em todo o tempo, para que possamos livrar-nos de tudo o que vai acontecer
e comparecer diante do Filho do homem (vd Lc 21,28.34.36).

E teremos de  crescer e abundar na caridade, uns para com os outros e para com todos e progredir cada vez mais numa santidade irrepreensível (cf 1 Ts 3,12.13; 4,1).
O presépio és tu, o presépio sou eu, o presépio somos nós; e o nosso presépio são os pobres!
2018.12.02 – Louro de Carvalho