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segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Falar de anjos e arcanjos e outras entidades invisíveis


Os Anjos que integram o mundo invisível, a que se estende também a ação criadora de Deus, vivem totalmente dedicados ao louvor e serviço de Deus. A inteligência humana tem dificuldade em exprimir a natureza dessas criaturas, cuja missão conhecemos pela Bíblia, que, em tantos passos, testemunha a sua existência. Esses Mensageiros de Deus, em momentos decisivos da História da Salvação, estão encarregados da Guarda dos homens (Mt 18,10; At 12,3) e da proteção da Igreja (Ap 12,1-9). A fé cristã leva também a crer que cada nação em particular tem um Anjo encarregado de velar por ela.  Em Portugal a devoção ao Anjo da guarda é muito antiga. Tomou, porém, um incremento especial com as Aparições do Anjo, em Fátima, aos Pastorinhos, pelo que Pio XII mandou inserir esta comemoração no nosso calendário litúrgico.
O imaginário popular e a imaginária artística brindam-nos com muitas modalidades de espíritos celestes e infernais algo estereotipadas. Os anjos bons são representados corporeamente como seres anafados ou esguios, bebés gorduchos, meninas esbeltas e garotinhos meio efeminados e todos com asas brancas ou de outras cores saindo-lhes pelas costas; os anjos maus, que se recusaram a servir a Deus e seu desígnio sãos os demónios representados corporeamente como feios seres humanos predominantemente masculinos ou animais – todos habitualmente com cauda e chifres e cores negra e/ou vermelha. Muitos dos espíritos celestes estão representados corporeamente consoante as funções que deles conhecemos pela Bíblia ou pela tradição e os escritos sobre eles refletem essas mesmas funções ou as mensagens de que são portadores. Todavia, às vezes, vêm deformados por uma certa cultura esotérica pseudomística.
Os anjos de Deus não são “reencarnações”, nem homens ou mulheres alados, nem “lugares” em que se sinta a presença do Criador, muito menos gnomos, duendes uma espécie de “energia” ou algum tipo de fumaça branca – como querem insinuar vários sites da Internet.
Em todo o caso, um dos artigos confiáveis de angelologia que se encontram na Internet é o de P. B. Celestino que, sobre isto, refere:
A humanidade no seu conjunto parece obedecer a uma espécie de ‘lei do bêbado’: depois de uma queda para a direita, procura compensá-la inclinando-se para a esquerda, e acaba por cair nessa direção. Assim, às épocas de racionalismo exacerbado e míope, seguem-se outras em que proliferam as mais tresloucadas fantasias e crendices, e a doutrina sobre os anjos está entre as que mais facilmente se prestam a essas deformações. O nosso tempo inclui-se entre as segundas, a julgar pelo número de ‘caricaturas’ deformadas desses seres não humanos, sob a forma de duendes, gnomos, espíritos ‘desencarnados’, deidades e extraterrestres, que se misturam inextricavelmente nas estantes das livrarias e lojas de bibelôs, bem como nas cabeças de alguns…”.
O Calendário Litúrgico tem duas celebrações angélicas: a 29 de setembro, a Festa dos Arcanjos, São Miguel, São Gabriel e São Rafael; e, a 2 de outubro, a Memória dos Anjos da Guarda. E, como se disse, temos ainda, em Portugal, a 10 de junho, a Memória do Anjo de Portugal.
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O termo ‘anjo’ é tradução do grego angelos, que traduz o hebraico mal’ak, que, de maneira geral, significa “mensageiro”, “legado”. Segundo a Bíblia, em termos gerais, os anjos são filhos de Deus (cf Jb 1,6; 2,1); são protetores dos homens (cf Sl 91,11); vivem nos Céus (cf Mt 28,2); são de natureza espiritual (cf 1 Re 22,19-21; Dn 3,86; Heb 1,14); há anjos bons e anjos maus (cf Zc 3,1). 
Especificamente existem os Serafins (cf Is 6), Querubins (cf Gn 3,24; Ex 25,22; Ez 10,1-20), TronosDominaçõesPotestades e Principados (cf Cl 1,16), Virtudes (cf Ef 1,21), Arcanjos (cf 1Ts 4,15-16; Jd 9) e os anjos que cuidam dos indivíduos (cf Tb 5; Sl 91,11; Dn 3,49s; Mt 18,10). Em relação aos três Arcanjos,  Gabriel, cujo nome significa “Deus é Força”, aparece em Dn 8,16; 9,21; Lc 1,19.26; Miguel, cujo nome significa “Quem (é ou pode ser) como Deus?”, aparece em Dn 10,13.22; 12,1; Jd 9; Ap 12,7 – São Miguel é o Padroeiro de toda a Igreja; e Rafael, cujo nome significa “Deus Cura”, aparece em Tb 3,25. 
Os Evangelhos dizem que os anjos  contemplam a Face de Deus (Mt 22,30; 18,10), que se alegram pela conversão dos homens (Lc 15,10) e que levaram Lázaro ao seio de Abraão (Lc 16,22).
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Em termos da hierarquia angélica e as relações com os seres humanos, São Tomás de Aquino ensina que a Luz Divina é comunicada aos Anjos de maneira hierárquica (“hierarquia” significa Principado Sagrado), graduada e ordenada, da 1.ª hierarquia até à última. A hierarquia ou principado compreende duas realidades: o Príncipe e a multidão ordenada sob ele. O Principado Sagrado, entendido no seu significado pleno e perfeito, designa a multidão das criaturas racionais e chamadas a participar nas coisas santas sob o governo único de Deus, Príncipe supremo e Rei soberano de toda esta multidão.
Não há uma classificação total e uniformemente definida na Igreja sobre os Nove Coros dos Anjos. Por isso, servem de referência a de Dionísio Areopagita e a do Papa São Gregório.
A distinção mais divulgada da hierarquia angélica aparece na obra De Coelesti Hierarquia (Sobre a Hierarquia Celeste), atribuída ao Areopagita e datada entre os séculos IV e V. classifica os anjos em três Ordens, cada uma formada por três Coros, num total de nove Coros Angélicos: fazem parte da 1.ª hierarquia dos anjos os Serafins, os Querubins e os Tronos; formam a 2.ª hierarquia as Dominações, as Virtudes e as Potestades; e formam a 3.ª hierarquia os Principados, os Arcanjos e os Anjos (como os de guarda). Todos esses anjos têm, segundo J. Daniélou, duas funções: louvar a Santíssima Trindade; e guardar e defender tudo o que é de Deus. E o Catecismo da Igreja Católica (CIC) ensina que os anjos são criaturas pessoais, ou seja, dotadas de inteligência e vontade; são imortais, porque puramente espirituais, e superam em perfeição as criaturas visíveis (CIC§330). Porem, a perfeição dos anjos não permite que penetrem as nossas consciências; temos de lhes manifestar as nossas necessidades, bastando falar com eles mentalmente, para nos entenderem. O facto de serem pessoas faz-nos ver que são capazes de relações de amizade e fraternidade com pessoas humanas. Nessas angélicas relações amistosas, o nosso anjo da guarda ocupa o primeiro posto é o anjo mais disponível para nós.
Os coros da 1.ª Hierarquia – Serafins, Querubins e Tronos representam Deus nas suas íntimas perfeições: amor ardente, luz viva, santidade inalterável; os da 2.ª – Dominações, Virtudes e Potestades – representam-no na sua Soberania sobre todas as criaturas: poder sem limites, força irresistível, justiça imutável; e os da 3.ª – Principados, Arcanjos e Anjos – representam-No nas suas ações: sábio governo, sublimes revelações, constantes testemunhos de bondade.   
A Bíblia apresenta as seguintes referências a elementos destas hierarquias: Anjos, Principados, Potestades (Rm 8,38; 1Pe 3,22); Arcanjo (1Ts 4,16); Arcanjo Miguel (Jd 9); Glórias (2Pe 10,11); Exércitos Celestes, Miguel (2 Mac, caps vv); Dominações e Potestades celestes (Ef 3,10); exército incontável de Anjos (Heb 12,22); Miríades Angélicas, Gabriel e Miguel (Dn, caps vv); Principados e Potestades (Ef 6,2; Cl 2,10; 2,15); Principados, Dominações, Potestades (1Cor 15, 24); Principados, Potestades, Virtudes, Senhorias ou Dominações (Ef 1,21); Querubins (Gn 3,24); Querubins e Tronos (Ez 10,3); Rafael (Tb, cps vv); Serafins (Is 5,2); Sete Anjos, Miguel, Vigilantes, etc. (Ap, vv caps vários); Tronos, Dominações, Principados e Potestades (Cl 1,15).
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A devoção aos anjos não contraria a centralidade de Cristo, pois eles estão ao serviço de Cristo, sendo uma honra para eles servir a Jesus e a todos os seres humanos por amor ao Deus Triuno. O CIC (Catecismo da Igreja Católica) frisa o serviço humilde e eficaz a Cristo e à Igreja (CIC 333-335). E os santos foram muito devotos dos anjos. Assim, São Josemaría Escrivá deixava que o seu anjo da guarda lhe contasse as orações e mortificações que ele ia fazendo, tinha-o presente nos trabalhos apostólicos, chamando-o “Relojoeirinho” (por ser muito pontual em despertá-lo e até lhe ter consertado um relógio), dedicava-lhe as terças-feiras a tratá-lo mais intensamente e rezava ao anjo da guarda de alguém com quem queria conversar ou escrever-lhe uma carta.
Os anjos estão presentes na Liturgia da Igreja, muito especialmente aquando da celebração da Santa Missa. Os textos litúrgicos fazem referências a estes celestes adoradores de Deus. O “Glória a Deus nas alturas” foi um hino entoado por eles (cf Lc 2,13-14). As Orações Eucarísticas, na sua 1.ª parte (prefácios), terminam “com os anjos e os arcanjos e com todos os coros celestiais” a cantar o triságio, o hino da glória de Deus que é o “Santo, Santo, Santo”, Hino dos Serafins (cf Is 6). E há o prefácio dos Santos Anjos. Na Oração Eucarística I (o Cânon Romano), a oferenda é levada ao Deus Todo-Poderoso “per manus sancti angeli” (ou seja, pelas mãos do santo anjo). São Beda dizia que “da mesma maneira que vemos como os anjos rodeavam o Corpo do Senhor no sepulcro, devemos crer que estão fazendo a corte a Jesus na consagração”.
Enfim, toda a vida da Igreja do Deus vivo, o novo Povo de Deus, recebe a proteção dos anjos. E nós, membros da Igreja, podemos e devemos intensificar a devoção a estes celestiais guardiões da nossa fé, esperança e caridade, do nosso trabalho pela causa de Deus e do nosso caminho rumo ao Céu.
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Parece que o Concílio da Igreja que mais se dedicou a explicar a doutrina sobre os anjos foi o de Latrão IV, no ano 1215. Nele se afirmou, em contexto de profissão da fé, que os anjos foram criados por Deus desde o início do tempo. E os demónios foram anjos criados bons, mas que se tornaram maus pelo abuso do seu livre arbítrio. Houve, não obstante, pronunciamentos magisteriais sobre os anjos antes desta data, por exemplo, o do Papa Zacarias, no ano 745, que rejeitou os vários nomes dos anjos, ficando só com os de Miguel, Gabriel e Rafael, por serem os mencionados na Sagrada Escritura. E o Concílio de Aix-la-Chapelle, no ano 789, fez o mesmo.
O CIC ensina que “a existência dos seres espirituais, não corporais, que a Bíblia chama habitualmente de anjos, é verdade de fé: os anjos não são uma invenção mitológica. Trata-se de seres reais, que estão sempre diante de Deus, mas agindo no meio dos homens. Por isso, estando na presença dos anjos, os seres humanos nunca estão sozinhos. Deus colocou essas criaturas ao seu lado, não só para os guardarem, mas também para se relacionarem com eles – de facto, são muitas as personagens das Escrituras que recebem a assistência e a visita dos anjos de Deus.
Ao invés do que se pensa hoje, os anjos não são figuras “piegas” de contos românticos, mas criaturas realmente terríveis que, se aparecessem diante de nós, incutiriam não só paz e alegria, mas também grande temor. Como Aslam, a personagem das Crónicas de Nárnia que é uma alegoria de Jesus Cristo, eles são simultaneamente bons e terríveis. E, como Gandalf, da saga “O Senhor dos Anéis”, são “perigosos”, pois, embora o seu poder, ainda que grande, manifesta-se, sobretudo, nas suas inspirações. Em “O Senhor dos Anéis” – Frodo, Merry, Pippin e Sam –, no começo do livro, nem sequer sabiam manusear a espada. Mas, no fim, terminam como heróis, pois foram treinados e capacitados por Gandalf, que é, segundo o próprio Tolkien, uma espécie de anjo.
Os anjos são assim: protegem-nos e querem capacitar-nos. São nossos companheiros, mas são muito maiores do que nós, e o seu serviço, mais do que um simples “fazer a nossa vontade”, é instigar-nos e incomodar-nos, a fim de que façamos a vontade de Deus. Muitas vezes, achamos que os anjos foram colocados ao nosso lado apenas para resolver os nossos problemas materiais ou dar-nos segurança neste mundo. Eles podem agir como “ministros dos milagres de Deus”, mas o seu trabalho principal é inspirar-nos para o serviço de Cristo, com a sua presença ativa e poderosa – “presença virtual” – junto de nós.
São Jerónimo ensina que “grande é a dignidade das almas, pois ao nascer cada uma tem um anjo delegado a sua guarda”. No combate desta vida, em que Céu e Inferno disputam entre si para ganhar as almas, seria desproporcional estas não terem perto de si protetores. Se é inconcebível manter um carro forte sem segurança, quanto mais as almas dos homens, que custaram o sangue de Jesus Assim se expressa Santo Tomás, na questão 113 da prima pars da Suma Teológica:
O homem, na vida presente, encontra-se em uma espécie de caminho que deve tender para a pátria. Nesse caminho, são muitos os perigos que o ameaçam, dentro e fora (...). Por isso, aos homens que andam por caminhos não seguros são dados guardas. Assim também a cada homem em sua peregrinação terrestre é delegado um anjo para sua guarda.”.
Deus, porque é omnipotente, poderia muito bem agir de modo direto para proteger os homens. Mas a pedagogia divina escolhe sempre colaboradores para exercer o seu plano de salvação. É preciso que os católicos se libertem da visão arrogante que despreza a ação de intermediários na redenção humana, quando o próprio Senhor escolheu fazer-se um de nós, submeter-se a Maria e a José e criar a Igreja visível para dispensar as Suas graças no meio dos homens. “A cada homem”, portanto, “é atribuído um anjo para sua guarda”, como ensina Santo Tomás, que, respaldando a opinião de São Jerónimo, o Aquinate afirma que o anjo da guarda é dado ao homem desde o seu nascimento, ao invés da opinião de que “o anjo é delegado à guarda do homem desde o batismo”. E vinca:
Os benefícios que o homem recebe de Deus pelo facto de ser cristão começam com o batismo; por exemplo, a receção da Eucaristia e outros semelhantes. Todavia, os benefícios que Deus dispõe para o homem pelo facto de ele ter uma natureza racional são-lhe concedidos desde o momento em que, pelo nascimento, adquire tal natureza. Ora, esse benefício é a guarda dos anjos (...). Portanto, tão logo nasce, o homem tem um anjo delegado para sua guarda.”.
O Doutor Angélico diz que, ainda que o homem peque, isso não o afasta do seu anjo da guarda, que nunca o abandona totalmente, e que os pecados dos homens, embora ofendam os anjos, não os fazem sofrer, pois eles, sendo perfeitamente bem-aventurados”, “nada sofrem”. A doutrina católica tem como sólida a fé nos anjos da guarda, mas não se sabe se há um “demónio específico” para tentar cada pessoa e levá-la para o inferno. E o certo é que os anjos da guarda, embora pertençam aos graus inferiores da hierarquia, lutam contra os anjos maus, pela nossa salvação.
Santo Tomás dedica outra questão inteira da Suma Teológica ao modo como os anjos agem em nossa vida: é a questão 111 da prima pars. Aí, ele explica que, dentre as várias potências do homem, os anjos agem mais nas faculdades sensitivas – no sentido interno da imaginação e nas paixões, principalmente. Atuam, por exemplo, quando uma pessoa está a trabalhar e tem uma ideia criativa, ou quando está a rezar e vem à sua mente alguma cena ou inspiração. Só que têm poder de atuação tanto os anjos bons como os demónios. Mas, enquanto estes são intrusivos, os anjos da guarda agem quanto maiores forem a docilidade e a abertura a eles.
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Frei Bento Domingues apela, na crónica do dia 10, no Público, a que “não nos preocupemos com os anjos”. E o seu texto, bem como uma formação havida em Arouca, de que fizeram parte intervenções do Professor Luís Alberto Esteves Casimiro sobre angelologia, instam a que nos tornemos anjos (ou mensageiros) de Deus e do seu Cristo junto dos irmãos e, com os espíritos celestes e à semelhança deles, nos honremos no compromisso de adorar e servir a Deus (também nos irmãos).
2019.02.11 – Louro de Carvalho

domingo, 2 de dezembro de 2018

Tu também tens de ser o presépio


Com o 1.º domingo do Advento, inicia-se o novo Ano Litúrgico e o seu 1.º ciclo, o do Natal.
O comércio já vem enxameando, desde fins de outubro, as ruas e praças, as montras e lojas e os spots publicitários de motivos e objetos natalícios, como também – é justo registá-lo – de campanhas a favor de quem precisa e de agendamento de encontros e outros atos de confraternização com familiares, vizinhos e amigos.
Na ótica do combate à banalização consumista que, muitas vezes, encandeia, adorna e atordoa o Natal com as luzes, decorações e sons do mundanismo, fazemos o esforço de evidenciação da profundidade do mistério do Natal centrando-nos em Jesus menino que, pelo Seu Nascimento, deu o primeiro passo na Terra para a cruz redentora, que possibilita a presente e a eterna confraternização dos filhos de Deus na e com a comunhão trinitária.
Por isso, fiquei algo espantado quando anotei que o Papa Francisco e o Bispo do Porto (que têm razão) recomendaram a colocação antecipada do Presépio e da Árvore de Natal nas igrejas, nas casas de família, nas ruas e nas praças. E hoje, dia 2 de dezembro, o sacerdote que celebrou a missa transmitida pela Rádio Renascença frisou que muitos e muitas que não são crentes celebram o Natal e dizia “ainda bem”, porque festejam a vida, o nascimento, a convivência.
E o Papa, na mensagem que dirigiu ao simpósio sobre as igrejas que deixam de estar ao culto e que podem ser destinadas a fins profanos não sórdidos, segundo o cânone 1222 do Código de Direito Canónico, disse que o fenómeno de muitas igrejas, necessárias até há poucos anos, mas não hoje, seja por falta de fiéis e de clero, seja por uma distribuição diferente da população nas cidades e nas zonas rurais, não deve ser acolhida com ansiedade pela Igreja. Ao invés, este fenómeno deve ser interpretado como um sinal dos temposque nos convida a uma reflexão e nos impõe uma adaptação”.
Talvez também o consumismo natalício, muito fomentado pelo comércio e pelas relações socioeconómicas, nos possa levar a uma oportuna reflexão e a encarar catequeticamente este pretenso alargamento dos festejos. Por isso, em vez de tentarmos obstruir o cortejo das vaidades, talvez seja mais conveniente tentar alinhá-lo pela linha da eficácia e tolerância evangélicas: continuar a semear o trigo, mas não impedir primariamente o crescimento conjunto do joio ou das ervas neutras. Não desistindo, mas sendo criteriosos!
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Só por motivos metodológicos se distinguem Natal e Advento. Advento (do nome latino adventus, us – chegada, por sua vez derivado do verbo advenire: vir, chegar, vir até junto de) significa vinda, chegada até junto de nós. Obviamente, no contexto cristão, trata-se da vinda de Jesus, o Messias. Ao longo dos tempos, Deus aproximou-se dos homens e falou-lhes implicitamente pelos sinais natureza e explicitamente pelos patriarcas, juízes, reis e profetas. Agora, fala-nos por seu filho Jesus Cristo. O Advento já celebra a vinda de Jesus, que tira o pecado do mundo – e nesse sentido, chamamo-Lo Messias em hebraico e Cristo em grego – como foi prometido ao longo do Antigo Testamento. Pelo Natal (no latim, dies natalis – dia do nascimento – de que o tempo assumiu o adjetivo “natalis” como nome deixando cair o “dies”), celebramos a vinda de Jesus pela modalidade factual do nascimento a partir do seio virginal de Maria onde fora concebido por obra do Espírito Santo.
Diga-se que um só dia do calendário seria exíguo para celebrar tão misterioso e portentoso mistério da Encarnação do Verbo de Deus.
Por isso, em douta antropagogia, a Igreja, embora centre a celebração na Solenidade do Natal do Senhor, fá-la preceder de quadra preparatória em que releva (para nossa edificação) mensagens, factos e figuras humanas – precursores da vinda de Jesus –, tal como subsequentemente lhe apõe uma oitava festiva para a sapiência e a deglutição do augusto mistério e, ainda, mais uns dias para absorvermos o dinamismo do Evangelho da Infância até ao Batismo do Senhor.
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Entre os vários motivos natalícios, destaca-se o presépio como lugar central do Natal. Devo, contudo, anotar que originariamente o “presépio” (em grego, “φάτνη” – phátnê: em latim: praesepium ou praesepe) é a manjedoura, que por sinédoque passou a designar também a gruta, estábulo, cabana.
Diz o Evangelho de Lucas que Maria deu à luz o Seu filho primogénito, O envolveu em panos e O reclinou sobre uma manjedoura (cf Lc 2,7). Porém, deve ter-se em conta que a manjedoura está abrigada na gruta ou cabanal e que ali foram acolhidos os visitantes e adoradores do menino.
Ora, do meu ponto de vista, a manjedoura passou, com o Natal, a ser o primeiro altar, na Terra, de adoração familiar: Maria e José acarinharam o menino, apaparicaram-no, beijaram-no, contemplaram-no e mostraram-no a quem aparecia, nomeadamente anjos e pastores.
Recordo que Bento XVI, na homilia da missa na Esplanada de Marienfeld, em Colónia, a 21 de agosto, no âmbito da XX Jornada Mundial da Juventude (JMJ), falou do sentido da adoração:
A palavra grega ressoa proskynesis. Ela significa o gesto da submissão, o reconhecimento de Deus como a nossa verdadeira medida, cuja norma aceitamos seguir. Significa que liberdade não quer dizer gozar a vida, considerar-se absolutamente autónomo, mas orientar-se pela medida da verdade e do bem, para, assim, nos tornarmos nós próprios verdadeiros e bons. Este gesto é necessário, mesmo se a nossa ambição de liberdade num primeiro momento resiste a esta perspetiva. […]. A palavra latina para adoração é ad-oratio contacto boca a boca, beijo, abraço e, por conseguinte, fundamentalmente amor. A submissão torna-se união, porque Aquele a quem nos submetemos é Amor. Assim, submissão adquire um sentido, porque não nos impõe coisas alheias, mas liberta-nos em função da verdade mais íntima do nosso ser.”.
Então, para adorar, pomo-nos de pé, inclinamo-nos, ajoelhamos, prostramo-nos, sentamo-nos consoante o que nos parece ser a postura do amado, de quem nos abeiramos. Antigamente, ao invés do que muitos pensam, o trono real estava perto do solo. Logo, para “adorar” o rei, o único que estava sentado, era mister fletir, ajoelhar ou prostrar-se, dependendo da estatura do súbdito (isto antes da instituição de práticas humilhantes). É, assim, preciso colocar a boca de modo a podermos beijar a pessoa amada e falar-lhe, ouvi-la para lhe podermos responder e podermos vir a falar em seu nome a outrem. Todavia, mais do que a posição física para adorar importa adorar em espírito e verdade (cf Jo 4,23.24). 
A adoração deve ser cultivada em família, mas não pode fechar-se nela. Imaginemos que Maria e José se tinham trancado na gruta de Belém e escondiam o menino… Mas não: aquele primeiro altar familiar abriu-se à adoração de quem acorreu ali: os anjos fizeram-se ouvir a cantar Glória a Deus no Céu e paz na Terra aos homens do seu agrado (cf Lc 2,14); entretanto, um deles fora avisar os pastores que pernoitavam nas imediações da cidade:
Não temais, pois anuncio-vos uma grande alegria, que o será para todo o povo: Hoje, na cidade de David, nasceu-vos um Salvador, que é o Messias Senhor. Isto vos servirá de sinal: encontrareis um menino envolto em panos e deitado numa manjedoura.” (Lc 2,10-12).
E os pastores apostolaram-se reciprocamente “Vamos a Belém ver o que aconteceu e que o Senhor nos deu a conhecer”. Foram apressadamente e encontraram Maria, José e o menino deitado na manjedoura. Depois de terem visto, começaram a divulgar o que lhes tinham dito a respeito daquele menino. Todos os que ouviram se admiravam do que lhes diziam os pastores. Quanto a Maria, conservava todas estas coisas, ponderando-as no seu coração. E os pastores voltaram, glorificando e louvando a Deus por tudo o que tinham visto e ouvido, conforme lhes fora anunciado (Lc 2,15-20).
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Ora tudo isto tem em vista dizer-nos que a vinda do Senhor, o nascimento de Jesus não aconteceu somente há dois mil anos. Este mistério sucede hoje em realização permanente na Igreja e pela Igreja, que tem a missão de oferecer Jesus ao mundo e de oferecer o mundo a Jesus. Mas ela só cumpre cabalmente esta missão se todos e cada um aceitarmos ser a manjedoura atual onde Jesus está reclinado e exposto à aprendizagem e adoração de todos a começar pelos pobres – que são também o presépio onde devemos ver e adorar Jesus e cuidar dele. E isso faz-se com as palavras da boca originadas na cabeça e com o coração terno e aberto. Depois, nós também devemos ser a gruta que protege este tesouro menino e acolhe todos os que vierem por bem, nunca lhes tolhendo a entrada, mas facilitando-lha.
Por isso, o presépio – manjedoura e cabanal – sou eu e és tu. E seremos cada mais presépio se aceitarmos ser anjos que fazem e cantam a glória de Deus e a paz entre os homens e pastores que também vêm adorar e incitam os outros à adoração.
Para tanto, teremos também de ser outros sinais do presépio: a árvore, ao resistirmos aos ventos e dificuldades da vida e semearmos a esperança; a luz, quando iluminamos com a nossa vida o caminho dos outros com a bondade, paciência, alegria e generosidade; o sino, quando chamamos, envolvemos e convidamos, congregamos e procuramos unir; as decorações, as nossas virtudes, que são as cores que embelezam a nossa vida; os anjos, quando cantamos para o mundo uma mensagem de paz, justiça e amor; a estrela, quando levamos alguém ao encontro com o Senhor; os magos, quando damos o melhor que temos sem termos em conta a quem o damos; o presente de Natal, ao sermos verdadeiros amigos e irmãos de todos os seres humanos; os cantares de Natal, quando conquistamos e irradiamos a harmonia dentro de nós; os votos de Natal, se perdoamos e restabelecemos a paz, mesmo quando sofremos por isso; a ceia, quando saciamos com pão e esperança o pobre que está ao nosso lado; a noite, quando, humildes e conscientes, recebemos no silêncio da noite o Salvador do mundo, sem ruídos nem grandes celebrações, sendo o sorriso da confiança e ternura na paz interior de um Natal perene que estabelece o reinado de Deus, dentro de cada um de nós.
O Natal somos nós, quando decidimos nascer de novo em cada dia e deixar que Deus entre e permaneça na nossa alma, na nossa vida. Se efetivamente assim acontecer, se assim o quisermos, o presépio será mesmo lugar de encontro em casa, na igreja e na rua!
***
Por isso e para isso, ante as dificuldades, mesmo que catastróficas, temos que ousar erguer-nos e levantar a cabeça porque a nossa libertação está próxima. Mas devemos ter cuidado connosco: o nosso grande inimigo será o coração pesado pela intemperança (a falta de tempero ou de moderação) ou devassidão (viver não vivendo, andar ao toledo, em roda livre, sem leme), a embriaguez (do álcool, das drogas, dos prazeres, das ambições) e as preocupações (ainda que lícitas) da vida. E, sobretudo, devemos vigiar e orar em todo o tempo, para que possamos livrar-nos de tudo o que vai acontecer
e comparecer diante do Filho do homem (vd Lc 21,28.34.36).

E teremos de  crescer e abundar na caridade, uns para com os outros e para com todos e progredir cada vez mais numa santidade irrepreensível (cf 1 Ts 3,12.13; 4,1).
O presépio és tu, o presépio sou eu, o presépio somos nós; e o nosso presépio são os pobres!
2018.12.02 – Louro de Carvalho

domingo, 17 de dezembro de 2017

Um Natal de Anjos, de Luz e de Cantares

Nesta quadra natalícia, tenho a obrigação e o gosto de desejar a todos os meus amigos e amigas um Bom Natal, um Natal Feliz, um Natal Santo e um Natal que seja prenúncio de um Novo Ano próspero e de realização pessoal, familiar, profissional e social.
***
- Faço, assim, votos para que o Natal seja de Anjos, que dissipem o temor, que vivam e anunciem a alegria grande do Nascimento de Jesus, o Messias Senhor, e sejam pregoeiros da Glória de Deus e da Paz na Terra.
Porém, não estou à espera dos anjos da Bíblia e do património coletivo, mas espero que esses anjos do Natal sejam as pessoas de hoje que acreditam no Senhor e na Sua Palavra, O adoram e O servem – tanto na Eucaristia como na pessoa dos que têm fome e sede, dos que não têm que vestir, do que estão sem-abrigo, sem teto, terra e trabalho, dos que são peregrinos, migrantes ou refugiados, do que são vítimas do roubo da dignidade, da soberba de alguns, da exploração, do espezinhamento, do descarte, e dos que estão no limiar da pobreza e nas condições de vida privada da decência.  
Não estou à espera dos anjos a que o imaginário popular colocou umas asas para voarem pelos ares indo a todos os lugares, mas espero que as pessoas que vivem, falam, trabalham e andam se sirvam de todos os meios ao seu alcance para testemunharem o mistério do Natal de Jesus, que, sendo Deus, não se valeu dessa condição, mas baixou à Terra para que nós, feitos deste pó terreno e deste húmus perecível, nos tornássemos mais altos como filhos do Pai celeste, do Pai das misericórdias. Espero que, enquanto testemunhas desta humildade divina e humana sejam profetas de Deus falando em seu nome àqueles que precisam de ouvir esta mensagem.
Enfim, espero que estes anjos da modernidade sejam testemunhas do presépio, profetas de Deus, pregoeiros da sua Palavra, mensageiros da sua vontade e apóstolos do seu Cristo, que nasceu pobre, abandonado e rejeitado, porque para si não havia lugar na cidade, e que veio a consumar a sua obra morrendo na cruz e pedindo ao Pai que perdoasse aos algozes porque não sabiam o que estavam a fazer. É de pedir que, para isto, estejam no trabalho, no desporto e lazer, na família e na sociedade, mesmo na política, e andem – a pé, a cavalo, de carro, de autocarro, de comboio, de navio ou de avião – por terra, mar e ar, com humildade, mas rumo à eficácia, confiantes no poder de Deus, dispensando o esforço pessoal e mobilizando o dos outros.
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- Espero que o Natal de 2017 seja para todos um Natal de Luz. Não é a luz elétrica ou das lamparinas e das velas, mas a luz de Deus e do seu Cristo, a que ilumina todo o homem que veio a este mundo.
É premente que haja luz nas mentes e nas consciências para que se afaste o mal e se pratique o bem e este vença. E isso pressupõe acesso à educação para que todos e todas usufruam dos benefícios da literacia, da cultura e da civilização, de modo que possam orientar-se nos caminhos do progresso e do desenvolvimento humano, integral e sustentável, afastando as situações de miséria, indignidade e vitimização, de qualquer ordem que seja.
Desejo que a luz do Natal seja a luz da fé que nos encaminha para Cristo, a estrela maior que ilumina a terra inteira e nos abre os olhos do coração e da mente para entendermos o plano divino de Salvação aberto a todas as pessoas, mostrando a todos as raízes da árvore do discernimento ou da ciência do bem e do mal, o tronco da força desta ciência viva que se ramifica diversamente e se espraia na sua frondosidade, rebenta em flores de beleza e produz abundantes frutos de graça e verdade – a vida na sua maior pujança e fecundidade.
Que a estrela de Cristo se torne para todos a referência de vida, que, andemos por onde andarmos, nos sirva de farol que, pela esperança luminosa nos leve a porto seguro, o porto onde encontraremos a barca do Senhor da Pesca e da Viagem para a festa que, uma vez começada, não mais conhecerá fim.
É bom que o Natal de 2017 nos fixe na luz de Cristo e faça com que nos deixemos iluminar por Ele e passemos a transmitir essa luz aos nossos semelhantes, que são nossos irmãos.
Obviamente que a esta luz está necessariamente unido o calor inerente à luz. Ninguém imagina uma fogueira que não aqueça, uma lâmpada que não esteja cheia de calor, uma fonte de energia que não seja capaz de irradiar calor, bastando que se acione esse registo em consonância com os fins em vista.
Desejo, pois, que este Natal não seja o de uma luz fria, inócua, mas que brilhe pelo fulgor da luz e aqueça pelo dinamismo da caridade e da justiça. Não posso esquecer que o Natal é, no fundo e acima de tudo, o mistério de amor de Deus pelo homem, amor tão terno que passa pelo mistério visível da ternura e simplicidade duma criança recém-nascida e reclinada numa manjedoura envolta em panos. É, neste dinamismo do amor que Jesus infante cresce e se capacita para, além de pregar o reino da Vida e da Santidade, dá a sua vida para que todos nós tenhamos a vida e a tenhamos em abundância.
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- E pretendo que o Natal seja de cantares, com música e sinos. Com efeito, se é de anjos que se deixam iluminar pela calorosa luz do Natal, é natural que estes anjos sintam o impulso irresistível de cantar “Glória nas alturas a Deus e paz na Terra aos homens que Ele ama”. É a festa máxima e nos seu melhor!
E a glória de Deus e a paz dos homens têm de coincidir. Não são realidades diferentes, mas faces da mesma moeda. Cantar a glória é cantar a paz. E a paz acontece quando há alegria, caridade, luz, vida, esperança, fé. A paz acontece quando há testemunho, profecia, mensagem, apostolado, dedicação – quando os homens são anjos uns para os outros, amigos, solidários, irmãos – e não lobos, diabos, exterminadores.
Vamos neste Natal cantar a glória e a paz espelhadas na luta pela educação integral para todos, pela saúde e bem-estar a alcance de todos, pela erradicação da miséria e da pobreza, deixando apenas a possibilidade da pobreza para aqueles e aquelas que a professem voluntariamente pelo reino de Deus.
Mas, para isso, temos de autoestabelecer que este Natal terá de ser um tempo de muito trabalho e de trabalho – de mensagem e de canto – que há de prolongar-se por muito tempo. Por isso, este Natal há de ser o dos cantares do esforço, da luz e da alegria das bem-aventuranças:

Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus.
Felizes os que choram, porque serão consolados.
Felizes os mansos, porque possuirão a terra.
Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados.
Felizes os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia.
Felizes os puros de coração, porque verão a Deus.
Felizes os pacificadores, porque serão chamados filhos de Deus.
Felizes os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus.(Mt 5,3-10).

Na verdade, é necessário erradicar a pobreza que lança os homens na miséria e exploração; e enaltecer a pobreza de quem a abraça no íntimo e contra as avarezas e ganâncias, para lutar pelo Reino de Deus. É preciso experimentar o pranto, mas tentar evitar o dos outros, para saborear o sentido do consolo e do conforto de Deus. É preciso cultivar a mansidão, para ter a capacidade de possuir, sem se deixar escravizar pelos bens. É preciso fomentar a justiça, para que todos sejam saciados, fruindo do que lhes é necessário, sem peias. É preciso sermos misericordiosos como Deus é misericordioso e pedirmos-lhe esta capacidade, para termos “direito” ao acesso à misericórdia de Deus e dos irmãos. É preciso cultivar a pureza de coração, para podermos olhar o mundo com os olhos de Deus e podermos, ao fim e ao cabo, contemplar o rosto de Deus, agora nos demais, e na eternidade no próprio rosto divino. É preciso educar para a paz, apreciá-la, cultivá-la e lutar por ela, para sermos de facto filhos de Deus e filhos da paz – Ele é a Paz! É preciso aceitar a perseguição por causa de Deus, do seu Reino e da sua Justiça para sermos dignos de aceder à posse do Reino de Deus.
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Enfim, cantando as bem-aventuranças, seremos mensageiros, arautos, profetas, apóstolos e missionários das bem-aventuranças. E, sendo cantores da luz e calor das bem-aventuranças, seremos sentinelas da noite de Natal e da sua justiça terna e amorosa.
E, sendo verdadeiros mensageiros, pediremos e faremos mais luz, mais cantares!
2017.12.17 – Louro de Carvalho


quinta-feira, 8 de junho de 2017

“Um povo ordeiro e entusiasta, crente e sem respeitos humanos”

Foram divulgadas, a 7 de junho, duas cartas do Papa Francisco, datadas de 22 de maio, uma dirigida a Dom Manuel Clemente e outra a Dom António Marto.
Na carta que enviou ao Cardeal Patriarca de Lisboa e Presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), renova a expressão do seu “grato apreço” aos “bispos, sacerdotes, pessoas consagradas e fiéis leigos” pelo “cuidado pastoral e espiritual com que as diversas dioceses se prepararam e estão a viver o centenário das Aparições de Fátima, nomeadamente com a visita da Virgem Peregrina a tudo quanto era cidade e aldeia desse abençoado Portugal, donde agora vieram pessoas sem conta ‘ver’ a Mãe do Céu”. Na que enviou ao Bispo de Leiria-Fátima, exprime a este prelado “e aos seus colaboradores de sempre e para esta especial ocasião, nomeadamente ao Padre Carlos Cabecinhas”, Reitor do Santuário e coordenador da visita papal, a sua “profunda gratidão pelo acolhimento fraterno e a hospitalidade fidalga” que reservaram ao Pontífice e aos seus colaboradores, “frutificando em solertes atenções e obras que lhes vinham do coração e chegavam ao coração”.
Trata-se de um gesto de cortesia, sem dúvida, mas também de apreço pela índole da alma portuguesa, como se pode comprovar atentando pela sua asserção na carta ao Presidente da CEP: “Vi um povo ordeiro e entusiasta, crente e sem respeitos humanos, no roteiro que me levou de Monte Real até Fátima e vice-versa”. Só se espera, digo eu, que este sentir do povo e seus pastores nunca venha a desmentir aquilo que o Papa generosamente afirmou de nós e se redima pela sua atitude nem sempre consentânea com tal enunciado papal.
Mas Francisco vai mais longe no elogio rasgado àquela multidão que o comoveu pela fé, esperança e caridade manifestadas no silêncio orante, nas velas acesas, na ovação aos novos santos e no acenar Feliz à Branca Senhora:
“E, no Santuário de Nossa Senhora, comoveu-me a solidez da fé, a indómita esperança e a ardente caridade que anima o caminho humano e cristão daquele povo santo fiel de Deus, com destaque para o silêncio de um milhão de peregrinos unidos ao meu silêncio orante, o mar de luz feito por um milhão de velas acesas na noite de vigília, a ovação elevada por dois milhões de mãos aos novos Santos Francisco e Jacinta e o acenar de lenços brancos à Branca Senhora por um milhão de corações felizes: Mãe, nunca Vos esqueceremos!”.
E não deixou de sublinhar a felicidade dos corações revelada pela multidão na proclamação da realeza universal de Maria e no seu adeus sentido e comovido espelhado na pureza branca mas largas centenas de milhar de lencinhos. Não sei mesmo se merecemos aqueles adjetivos “indómita” aplicado à nossa esperança, a de quem vive num mundo mais de profetas da desgraça que de anunciadores da Boa Nova, ou o adjetivo de “ardente” caraterizador da nossa caridade, tantas vezes à mistura com interesses e egoísmos. E que dizer da “solidez” da nossa fé, por vezes, contente com a mera exterioridade ou com o pietismo estéril ou com o momento de fervor efémero? Oxalá que o Papa tenha razão nos elogios que nos faz!  
Como recompensa, assegura a sua “oração pela Igreja de Portugal para que continue a caminhar com perseverança e coragem, testemunhando a todos o amor misericordioso do Pai do Céu” e, enquanto de coração nos abençoa, pede que rezemos por si.
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Na missiva enviada ao prelado leiriense, o Sumo Pontífice reconhece que foi “envolvido pelo carinho e entusiasmo da fé da multidão incontável de peregrinos”, pelo que exprime a sua gratidão ao Bispo e colaboradores pelo acolhimento fraterno e hospitalidade fidalga de que foi alvo no Santuário, aliás na diocese de Leiria-Fátima. Acentua que tais atitudes frutificaram “em solertes atenções e obras que lhes vinham do coração e chegavam ao coração”.
Depois, falou de Fátima e dos pastorinhos. No dizer do Pontífice, “Fátima oferece a todos um Coração grande de Mãe e convida o coração de cada um a parecer-se um pouco mais com o d’Ela”. Aos dois pastorinhos já canonizados considera-os como corações parecidos com o coração grande da Mãe e confessa que lhe deu muita alegria “o facto de poder propô-los à veneração da Igreja inteira”.
E Dom António Marto bem pode sentir-se contente por via de o Papa ter encontrado na terra um coração semelhante ao de Maria e ao dos pastorinhos na pessoa do Bispo fatimita e “na legião de ‘anjos’ que o representavam, com igual solicitude e eficácia de serviço, em toda a parte desde a mesa ao altar”.
Gosto desta referência de Francisco, já que os anjos são aqueles que servem ao altar de Deus e à mesa dos seus pobres e dos seus ministros – e, neste sentido lato, são ministros de Deus todos os batizados e/ou todos os que sofrem. Também são anjos os mensageiros de Deus e todos os que participam no bom combate por Deus e pelas suas causas.
Além disso, na sua carta, Francisco louvou a “Virgem Mãe pelo bom trabalho que Ela tem feito naqueles que assim A amam e servem” e agradeceu, em especial, ao prelado responsável pela superior orientação do Santuário “pelo seu efusivo testemunho de alegria e amor a Nossa Senhora de Fátima”.
E a toda a diocese de Leiria-Fátima quis encorajá-la “a prosseguir no anúncio e serviço dos desígnios de misericórdia que a Santíssima Trindade nutre pela humanidade inteira”. E, se estávamos habituados a ver esta diocese como uma Igreja predominantemente mariana, temos de nos habituar a olhá-la como uma diocese trinitária e eucarística onde tem lugar de destaque a Virgem Maria e os Santos Pastorinhos por cuja intercessão o Papa invoca “a abundância dos dons e consolações do Céu sobre o Pastor e todos aqueles que lhe estão confiados”. E também a todos estes renova “o pedido de não se esquecerem de rezar” si e a quem, de bom grado, concede “a Bênção Apostólica”.
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Francisco esteve em Fátima a 12 e 13 de maio no âmbito da celebração do Centenário das Aparições como peregrino da paz e da esperança e propôs a “revolução” centrada na misericórdia e no perdão, pedindo à Senhora que estenda o seu manto de Luz por toda a humanidade.
Do programa constaram essencialmente momentos de oração e três intervenções discursivas – a saudação aos peregrinos na noite de 12 de maio, a homilia da missa do dia 13 e a saudação aos doentes antes da Bênção com o Santíssimo Sacramento.
Francisco aterrou na Base Aérea de Monte Real na tarde de dia 12. Após a cerimónia de boas vindas e o encontro com o Presidente da República, fez uma visita à Capela de Nossa Senhora do Ar, ainda dentro da Base, onde também Paulo VI e João Paulo II tinham rezado.
Chegou ao Santuário de Fátima vindo do Estádio de Fátima, a bordo do papamóvel, após ter sido saudado por milhares de pessoas ao longo do caminho, ter sobrevoado o Recinto de Oração e tendo à sua espera, na Capelinha das Aparições, centenas de crianças das escolas do Sagrado Coração de Maria, de São Miguel e do Centro de Estudos de Fátima.
Na primeira passagem pela Capelinha, onde permaneceu 8 minutos em silêncio orante diante da imagem venerada, secundado pela enorme multidão de peregrinos, o Papa apresentou uma oração mariana em que refletia, à luz da Mensagem de Fátima, as grandes preocupações pela Igreja do Evangelho e dos pobres e pela solidez da fé, a intrepidez da esperança e o ardor da caridade. E antes da recitação do Rosário e da bênção das velas, abordou o devido lugar da devoção e do culto mariano na Igreja e a recolocação da pessoa de Maria no mistério de Cristo e no mistério da Igreja, bem como os candentes temas da justiça e da misericórdia, considerando que é necessário valorizar mais a misericórdia divina no discurso católico, sustentando que “devemos antepor a misericórdia ao julgamento, e em todo o caso o julgamento de Deus será sempre feito à luz da sua misericórdia”. E, lembrando os “desterrados” e “excluídos” da nossa sociedade contemporânea, explicitou:
“No crer e sentir de muitos peregrinos, se não mesmo de todos, Fátima é sobretudo este manto de Luz que nos cobre, aqui como em qualquer outro lugar da Terra, quando nos refugiamos sob a proteção da Virgem Mãe”.
Durante as celebrações, o Papa frisou “as bênçãos sem conta que o Céu concedeu nestes cem anos, passados sob o referido manto de Luz que Nossa Senhora, a partir deste esperançoso Portugal, estendeu sobre os quatro cantos da Terra (...)”. E exclamou:
“Queridos peregrinos, temos Mãe. Temos Mãe! Agarrados a Ela como filhos, vivamos da esperança que assenta em Jesus”.
Por outro lado, confidenciou que “não podia deixar de vir aqui venerar a Virgem Mãe e confiar-lhe os seus filhos e filhas” e pediu paz e esperança “para todos os seus irmãos no Batismo e em humanidade, de modo especial para os doentes e pessoas com deficiência, os presos e desempregados, os pobres e abandonados”. Aos doentes pediu que não se considerassem apenas beneficiários dos cuidados dos outros, mas verdadeiros participantes no mistério de Cristo e o melhor tesouro da Igreja. E aos peregrinos pediu que vissem nos doentes as chagas do corpo sofrente de Cristo em redenção da humanidade
No avião, a caminho de Roma, Francisco lembrou que a mensagem de Fátima “é uma mensagem de paz, levada à humanidade por três grandes comunicadores”, os pastorinhos. Com efeito, disse que “há uma ligação ao branco: o bispo de branco, a Senhora de branco, a alvura branca da inocência das crianças após o Batismo”. E afirmou que se trata do “desejo de inocência, de paz, de não fazer mal aos outros, não fazer guerra” e que “isto é a paz”.
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No dia seguinte, em Roma, à recitação do Regina Coeli, disse que a prece mariana do dia adquiria “um significado especial, repleto de memória e de profecia para quantos contemplam a história com os olhos da fé”, pois em Fátima, imergira-se “na prece do santo povo fiel, uma oração que lá escorre há cem anos como um rio, para implorar a proteção maternal de Maria sobre o mundo inteiro”. E passou a dizer:
“Desde o início, quando na Capelinha das Aparições permaneci por muito tempo em oração, acompanhado pelo silêncio orante de todos os peregrinos, criou-se um clima de recolhimento e contemplação, no qual tiveram lugar os vários momentos da prece. E no centro de tudo estava e está o Senhor Ressuscitado, presente no meio do seu Povo mediante a Palavra e a Eucaristia; presente no meio dos numerosos enfermos, que são protagonistas da vida litúrgica e pastoral de Fátima, assim como de todos os santuários marianos.”.
Falando de Fátima, referiu que
“A Virgem escolheu o coração inocente e a simplicidade dos pequeninos, Francisco, Jacinta e Lúcia, como depositários da sua mensagem. Estas crianças receberam-na com dignidade, a ponto de serem reconhecidas como testemunhas confiáveis das aparições, tornando-se modelos de vida cristã”.
No atinente ao autêntico sentido da canonização de Francisco e Jacinta, explicitou:
“Eu quis propor à Igreja inteira o seu exemplo de adesão a Cristo e o seu testemunho evangélico, mas também desejei convidar toda a Igreja a cuidar das crianças. A sua santidade não é consequência das aparições, mas da fidelidade e do ardor com que corresponderam ao privilégio recebido, de poder ver a Virgem Maria. Após o encontro com a ‘bela Senhora’ – assim lhe chamavam – elas recitavam frequentemente o Rosário, faziam penitência e ofereciam sacrifícios para alcançar o fim da guerra e pelas almas mais necessitadas da misericórdia divina.”.
Sobre a atualidade da Mensagem de Fátima, verificou:
“Até hoje há muita necessidade de oração e de penitência para implorar a graça da conversão, para suplicar o fim de tantas guerras que existem em toda a parte no mundo e que se difundem cada vez mais, assim como o fim dos conflitos absurdos, grandes e pequenos, que desfiguram o semblante da humanidade”.
E, por fim, o apelo:
“Deixemo-nos guiar pela luz que provém de Fátima. O Coração Imaculado de Maria seja sempre o nosso refúgio, a nossa consolação e o caminho que nos há de conduzir a Cristo.”.

2017.06.08 – Louro de Carvalho