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quarta-feira, 7 de março de 2018

Muito estranho Fátima não relevar a canonização de Paulo VI


Já estranhei o silêncio da página Web do Santuário de Fátima sobre a notícia adiantada pelo próprio Papa Francisco no encontro com o Clero da diocese de Roma, apesar de a comunicação social portuguesa ter relevado aquela novidade no próprio dia.
Porém, hoje a agência Ecclesia e a Rádio Renascença, como outros órgãos de comunicação social relevam o facto: “Papa aprova novos santos, entre eles ​Paulo VI e Óscar Romero”.
O reconhecimento de milagres anunciado hoje pela Sala de Imprensa da Santa Sé era a etapa que faltava para a canonização do Papa que encerrou o Concílio Vaticano II e do arcebispo de San Salvador, assassinado em 1980, enquanto celebrava missa.
O Papa Francisco já tinha anunciado que Paulo VI seria santo ainda este ano, mas a aprovação de um milagre atribuído à sua intercessão foi formalmente anunciada hoje pela Congregação para as Causas dos Santos.
O Pontífice que foi beatificado por Francisco a 19 de outubro de 2014, liderou a Igreja Católica entre 1963 e 1978, período em que encerrou o Concílio Vaticano II e foi o primeiro Papa a visitar Fátima, em 1967, como foi o primeiro a oferecer ao Santuário a Rosa de Ouro.
De facto, a primeira Rosa de Ouro oferecida ao Santuário de Fátima foi concedida pelo Papa Paulo VI, em 21 de novembro de 1964, na clausura da III sessão do Concílio Vaticano II, tendo sido benzida pelo Sumo Pontífice em 28 de março de 1965. A entrega ao Santuário foi feita a 13 de maio de 1965 pelo cardeal Fernando Cento, legado do Papa.
Na cerimónia de bênção, Paulo VI recordou a simbologia das Rosas de Ouro, que, no seu “significado místico, representam a alegria da dupla Jerusalém – Igreja Triunfante e Igreja Militante – e a belíssima Flor de Jericó – a Virgem Imaculada – que é também ‘a vossa Padroeira’ (sic) e é a alegria e a coroa de todos os Santos”. Frisou que a Rosa de Ouro “é o testemunho do Nosso paternal afeto que mantemos pela nobre Nação Portuguesa; é penhor da Nossa devoção que temos ao insigne Santuário, onde foi levantado à Mãe de Deus um Seu altar”. E acrescentou que a rosa é o símbolo da penitência, recordando a mensagem de Nossa Senhora aos Pastorinhos, nas Aparições de maio a outubro de 1917:
Vindo a Virgem a Fátima para recordar ao mundo a mensagem evangélica da penitência e da oração, então por ele tão esquecida, deveis ser vós, amados filhos, a dar o exemplo no cumprimento desta mensagem”.
O dia em que esteve em Fátima foi o 13 de maio de 1967, por ocasião das celebrações cinquentenárias. Quis vir pessoalmente a Fátima como peregrino, apesar da tensão diplomática por causa da viagem papal ao Congresso Eucarístico a Bombaim, em 1964, já depois de a Índia ter anexado Goa, Damão e Diu.
A viagem foi anunciada na audiência geral de 3 de maio de 1967 e apresentada como uma “peregrinação para honrar Maria Santíssima e invocar a sua intercessão em favor da paz da Igreja e do mundo”. A peregrinação “rapidíssima” tinha um caráter “totalmente privado”, como explicou o Papa italiano aos fiéis reunidos no Vaticano.
Paulo VI decidiu que o avião que o transportava desde Roma não aterraria em Lisboa, mas em Monte Real, e ficou alojado na então Diocese de Leiria (hoje Leiria-Fátima).
Além da homilia na Missa do 13 de maio, Paulo VI teve outras seis intervenções. No Santuário da Cova da Iria, recordou que foram as crianças e os pobres os primeiros destinatários da mensagem de Fátima e, na sua homilia, deixou uma referência aos regimes ateus, “países em que a liberdade religiosa está praticamente suprimida e onde se promove a negação de Deus, como se esta representasse a verdade dos tempos novos e a libertação dos povos”.
Trazendo à Cova da Iria a sua preocupação com um mundo em perigo por causa da corrida às armas e da fome. E disse:
Por este motivo, viemos nós aos pés da Rainha da paz a pedir-lhe a paz, dom que só Deus pode dar”.
Já na despedida, Paulo VI explicava que se apresentou em Portugal como peregrino “para rezar humilde e fervorosamente pela paz da Igreja e pela paz do mundo”. E implorou:
Maria Santíssima que, nesta terra abençoada, desde há cinquenta anos, se tem mostrado tão generosa para com todos aqueles que a Ela recorrem com devoção, digne-se ouvir a Nossa ardente prece, concedendo à Igreja aquela renovação espiritual que o Concílio Ecuménico Vaticano II teve em vista empreender e à humanidade, aquela paz de que ela hoje se mostra tão desejosa e necessitada”.
A biografia divulgada pelo Vaticano aquando da beatificação referia que Paulo VI “sofreu muito por causa das crises que afetaram repetidamente o corpo da Igreja”, durante a sua vida, respondendo com “uma corajosa transmissão da fé, garantindo a solidez doutrinal num período de mudanças ideológicas”. Por outro lado, “manifestou uma grande capacidade de mediação em todos os campos, foi prudente nas decisões, tenaz na afirmação dos princípios, compreensivo com as fraquezas humanas”.
O milagre necessário para a canonização foi a cura de uma bebé, ainda no ventre da sua mãe. O semanário da Diocese de Bréscia, ‘La Voce del Popolo’, explica que a grávida, da província de Verona, correndo o risco de abortar devido a uma patologia que comprometia a vida da criança e da mãe peregrinou ao Santuário delle Grazie, na terra natal de Paulo VI. E a menina nasceu a 25 de dezembro de 2014, em boas condições de saúde e sem qualquer explicação médica para a sua cura.
O milagre que permitiu a beatificação, em 2010, também tinha sido a cura de um feto gravemente doente, ocorrida em 2001 nos Estados Unidos da América.
Giovanni Battista Montini nasceu, a 26 de setembro de 1897, em Concesio, Bréscia, na região italiana da Lombardia, e foi ordenado presbítero ainda antes de completar 23 anos, em 1920, tendo feito doutoramentos em filosofia, direito civil e direito canónico.
Como padre, esteve ao serviço diplomático da Santa Sé e da pastoral universitária italiana, tendo vivido a II Guerra Mundial no Vaticano, onde se ocupou da ajuda aos refugiados e aos judeus.
Após o conflito, colaborou na fundação da Associação Católica de Trabalhadores Italianos, antes de ser nomeado arcebispo de Milão, em 1954. São João XXIII criou-o cardeal em 1958 e participou nos trabalhos preparatórios do Concílio Vaticano II.
A 21 de junho de 1963, foi eleito Papa, escolhendo o nome de Paulo VI, e concluiu os trabalhos do Concílio “entre várias dificuldades, estimulando a abertura da Igreja ao mundo e o respeito pela tradição”. E, como Papa, escreveu sete encíclicas, entre as quais a “Ecclesiam Suam” (1964), sobre o ser da Igreja e a sua necessidade de dialogar, a ‘Humanae vitae’ (1968), sobre a regulação da natalidade, e a ‘Populorum progressio’ (1967), sobre o desenvolvimento dos povos, tendo instituído o Sínodo dos Bispos e o Dia Mundial da Paz. E é notável como guia da ação pastoral e inserção do espírito evangélico nos mais diversos setores do mundo a sua exortação apostólica “Evangelii Nuntiandi” (1975).
Foi o primeiro Papa a fazer viagens internacionais, tendo visitado Terra Santa, EUA, Índia, Portugal, Turquia, Filipinas e Austrália, de entre outros países.
Na homilia de beatificação, em 19 de outubro de 2014, Francisco disse que “enquanto se perfilava uma sociedade secularizada e hostil, ele soube reger com clarividente sabedoria – e às vezes em solidão – o timão da barca de Pedro, sem nunca perder a alegria e a confiança no Senhor. […] Verdadeiramente Paulo VI soube dar a Deus o que é de Deus”.
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Da lista de novos santos, ora divulgada, faz parte Óscar Arnolfo Romero Galdámez, martirizado enquanto celebrava missa, a 24 de março de 1980, a soldo da Junta Militar que dominava o país.
Em 2015, o antigo arcebispo de El Salvador foi beatificado, depois de a comissão de teólogos da Congregação para as Causas dos Santos ter reconhecido que o arcebispo morreu como mártir, “por ódio à fé”. O reconhecimento como válido de um milagre que lhe é atribuído abriu agora portas à sua canonização.
Nos 3 anos de serviço à comunidade católica da capital de El Salvador (São Salvador), o arcebispo denunciou a repressão do regime militar e da violência praticada pelos esquadrões da morte.
O Papa Francisco enviou uma carta, aquando da sua beatificação, prestando homenagem a uma figura “que construiu a paz com a força do amor, deu testemunho da fé com a sua vida entregue até o fim”, referindo que, “em tempos difíceis de convivência, Dom Óscar Romero soube guiar, defender e proteger o seu rebanho, permanecendo fiel ao Evangelho e em comunhão com toda a Igreja”, destacando-se o seu ministério “pela atenção especial aos pobres e marginalizados”.
E acrescentou:
E no momento da sua morte, enquanto celebrava o Santo Sacrifício do amor e da reconciliação, recebeu a graça de se identificar plenamente com Aquele que entregou a vida pelas suas ovelhas. […] Dom Romero convida-nos ao bom senso e à reflexão, ao respeito pela vida e à concórdia. É necessário renunciar à ‘violência da espada, do ódio’, e viver ‘a violência do amor, que nos deixou Cristo pregado numa cruz, aquela que cada um deve fazer a si mesmo para vencer os próprios egoísmos e a fim de que não haja desigualdades tão cruéis entre nós’.”.
Em 2007, durante a viagem para o Brasil, Bento XVI disse aos jornalistas que Oscar Romero “foi certamente uma grandiosa testemunha da fé, um homem de grandes virtudes cristãs, que se comprometeu pela paz e contra a ditadura e que foi assassinado durante a celebração da Missa”.
A comissão de teólogos da Congregação para as Causas dos Santos (Santa Sé) reconheceu em 2015 o martírio do arcebispo, morto “por ódio à fé”.
A causa de beatificação de Oscar Arnulfo Romero, cujos restos mortais jazem na catedral da capital salvadorenha, iniciou a sua fase diocesana em 1994, que foi concluída em 1996.
O processo foi então apresentado ao Vaticano, no mesmo ano e, em 1997, foi recebido por Roma o decreto por meio do qual a causa era oficialmente aceite como válida.
Dom Gregorio Rosa, amigo e colaborador de Dom Oscar Romero, este em Portugal em maio de 2013, dizendo então à agência Ecclesia que o prelado foi um “mártir” que incomodou poderes, em defesa dos Direitos Humanos.
Óscar Arnulfo Romero nasceu a 15 de agosto de 1917 numa família modesta em Ciudad Barrios (El Salvador). Aos 14 anos, entra no seminário, mas afasta-se, seis anos depois, para ajudar a família que estava com dificuldades e passa a trabalhar nas minas de ouro, com os irmãos.
Após retomar os estudos, é enviado para Roma, onde estuda Teologia, na Universidade Gregoriana. Ordenado sacerdote em 1942, regressa a El Salvador e assume uma paróquia do interior, antes de ser transferido para a Catedral de San Miguel, onde fica durante 20 anos.
Em 1970 é nomeado bispo auxiliar de San Salvador e, em 1974, Paulo VI designa-o bispo da Diocese de Santiago de Maria, no meio de um contexto político de forte repressão, sobretudo contra as organizações camponesas. Em 1977, é nomeado arcebispo de San Salvador. Pouco tempo depois, é assassinado o jesuíta padre Rutílio Grande, figura próxima do futuro santo, que passa então a denunciar a repressão, a violência do Estado e a exploração imposta ao povo pela aliança entre os setores político-militares e económicos, apoiada pelos EUA, bem como a violência da guerrilha revolucionária.
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Nos Decretos da Congregação das Causas dos Santos autorizados por Francisco constam ainda o reconhecimento dos seguintes milagres, martírio e virtudes heroicas:
- Os milagres atribuídos à intercessão do Beato Francesco Spinelli, sacerdote diocesano, fundador da Instituto das Irmãs Adoradoras do Santíssimo Sacramento (Itália); à intercessão do Beato Vincenzo Romano, Sacerdote diocesano (Itália); à intercessão da Beata Maria Caterina Kasper, Fundadora do Instituto das Pobres Servas de Jesus Cristo (Alemanha); e à intercessão da Venerável Serva de Deus Maria Felícia de Jesus Sacramentado, Irmã professa da Ordem dos Carmelitas Descalços (Paraguai);
- O martírio da Serva de Deus Anna Kolesárová, leiga, assassinada por ódio à fé em 1944 (Eslováquia);
- As virtudes heroicas do Servo de Deus Bernardo Łubieński, Sacerdote professo da Congregação do Santíssimo Redentor (Polónia); do Servo de Deus Cecilio Maria Cortinovis, Religioso professo da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos (Itália); da Serva de Deus Giustina Schiapparoli, Fundadora da Congregação das Irmãs Beneditinas da Divina Providência de Voghera (Itália); da Serva de Deus Maria Schiapparoli, Fundadora da Congregação das Irmãs Beneditinas da Divina Providência de Voghera (Itália); da Serva de Deus Maria Antonella Bordoni, Leiga, Fundadora da Fraternidade das Pequenas Filhas da Mãe de Deus (Itália); e da Serva de Deus Alessandra Sabattini, Leiga (Itália).

São ao todo cinco beatos a canonizar (um deles mártir); e a caminho da beatificação encontram-se: uma venerável, um mártir e seis servos e servas de Deus.  
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As datas e os locais para as cerimónias de canonização só vão ser decididos num próximo consistório (reunião de cardeais), no Vaticano.
A canonização atribui o estatuto de santo a alguém que a Igreja já tinha reconhecido como beato e autoriza que lhe seja prestada veneração pública em todas as nações e congregações religiosas.
Quanto ao Santuário de Fátima, não se percebe como não releva a canonização do primeiro Papa que o agraciou com a Rosa de Ouro e o primeiro que o visitou, ultrapassando a tensão diplomática com o líder do regime de então. Além disso, o seu pontificado deu o devido relevo ao culto mariano na melhor linha cristológica e eclesiológica.
2018.03.07 – Louro de Carvalho

sábado, 17 de fevereiro de 2018

O Papa Beato Paulo VI vai ser canonizado em 2018


É uma revelação feita pelo próprio Papa Francisco num encontro com o Clero em Roma, no passado dia 15 de fevereiro, na Basílica de São João de Latrão, a Igreja Catedral do Papa enquanto Bispo de Roma.
A Sala de Imprensa da Santa Sé fez uma recolha das respostas do Pontífice às questões levantadas por diversos grupos etários de sacerdotes, a que Monsenhor Angelo De Donatis, vigário geral de Sua Santidade para a diocese de Roma, Arcipreste da Basílica de São João de Latrão, administrador apostólico de Ostia e Grão-Chanceler da Pontifícia Universidade Latrão, deu uma redação mais orgânica.
Francisco respondeu às questões dos sacerdotes mais jovens acautelando a necessidade de não deixar afrouxar a vocação sacerdotal, conservando o encanto do enamoramento sacerdotal e construindo um estilo de sacerdote na relação com o mundo, o que não se consegue sem o acolhimento de momentos fortes de oração pessoal.
Compreendeu a crise que pode invadir os sacerdotes de média idade, pela multiplicidade de circunstâncias que rodeiam a vida do clero e que podem gerar algum tédio e um descentrar da atenção relativamente ao que é essencial, pelo que se torna necessário um revigoramento da vocação e do cultivo da personalidade sacerdotal. É o tempo da segunda chamada, que requer o diálogo psicoespiritual, a saída dos moralismos vazios e a tomada de consciência de que somos pecadores e pessoas imperfeitas – mas chamadas a redimensionar o nosso projeto de vida e de proximidade com Jesus Cristo.
Aos sacerdotes anciãos, que já ultrapassaram a crise do meio-dia e viram desfilar pelas suas vidas muitas e diversas circunstâncias, o que lhes dá a sensação de estarem a perder a corrida, o Bispo de Roma, pede que sejam testemunhas da alegria e da entrega generosa e se decidam a enveredar pelo caminho da compreensão intergeracional.
E a todos solicitou que não decaiam do fervor da entrega sacerdotal, cultivem o sentido de pertença ao Reino e que estejam disponíveis para auscultar e ler os sinais destes tempos.
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E foi precisamente no fim do encontro que veio a comunicação que encima esta reflexão.
Mons. De Donatis tomou a palavra para dizer:
Agora, antes da bênção, agradecemos ao Papa Francisco este momento muito intenso, belo, desta manhã e recebemos um pequeno texto em que foram recolhidas, pelo Papa Francisco, meditações de Paulo VI: são trechos a utilizar neste tempo da Quaresma como segunda leitura do Breviário [Ofício de Leitura], de modo que o empenho na oração possa ser comum. E refletiremos um pouco dobre o que os nossos Bispos [Os Bispos de Roma], nestes anos, nos comunicaram sobre a vida sacerdotal. Creio que nos fará bem, porque nos preparará para outras passagens que viveremos – espero – de futuro sobre o aprofundamento do nosso modo de ser sacerdotes em Roma, hoje. Agora, os Prefeitos podem tomar os textos, assim como distribui-los e, depois, receberemos a bênção.”.
E o Papa Francisco comentou:
Eu vi isto e agradou-me imenso. São dois [recentes] Bispos de Roma já Santos [João XXIII e João Paulo II]. Paulo VI será santo este ano. Um outro, João Paulo I, tem a causa de beatificação em curso, a causa já foi aberta. E Bento e eu [tem piada] estamos em lista de espera: [A sério] rezai por nós!”.
E assim se ficou a saber que Paulo VI (Giovanni Battista Enrico Antonio Maria Montini, 1897-1978), o Pontífice que liderou a Igreja Católica entre 1963 e 1978, período em que encerrou o Concílio Vaticano II, vai ser canonizado. A data e local para a cerimónia de canonização do Papa que foi beatificado por Francisco a 19 de outubro de 2014, vão ser decididos num próximo consistório (reunião de cardeais), no Vaticano.
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Já no dia 6 de fevereiro, o semanário da Diocese de Brescia, ‘La Voce del Popolo’, insistia na notícia que avançara no passado mês de dezembro. A este respeito, Mons. Fabio Peli, pároco de Concesio dizia: “A comunidade, quando o souber, não deixará de se regozijar”. Referia-se o sacerdote à notícia, lançada no site do Vaticano, da aprovação unânime do reconhecimento do milagre atribuído à intercessão de João Batista Montini na reunião daquele dia dos Bispos e Cardeais da Congregação para as Causas dos Santos.
Concesio, terra natal do Pontífice bresciano, espera com ansiedade a canonização, cuja data seria conhecida após a aprovação do Papa Francisco. De momento, sabe-se da intenção da canonização, faltando saber a data e o local. O mencionado pároco referia:
Estamos a preparar este evento através de encontros, momentos de oração e aprofundamento para a ele chegarmos com alegria”.
Muito já foi escrito sobre o milagre reconhecido a 13 de dezembro de 2017 e descrito pormenorizadamente na “positio” para sustentar a causa da canonização. A 23 de setembro de 2014, Vanna Pironato, de 35 anos, mãe dum menino de 5 anos e à espera dum segundo filho, já na 13.ª semana de gravidez, baixou ao hospital por ameaça de aborto devida a rutura prematura da placenta. Durante o internamento, não melhorava a situação e os médicos não esconderam da mãe a sua preocupação: esta gravidez era de risco. Agravando-se a situação, propunha-se o discreto aborto terapêutico, mas Vanna e o marido decidem levar por diante a gravidez. Passado algum tempo, por sugestão duma amiga, confiaram a aquela difícil gravidez à intercessão de Paulo VI, que fora beatificado a 14 de outubro daquele ano em virtude dum milagre operado, em 2001, sobre um feto gravemente doente, ocorrido nos Estados Unidos da América.
A 29 de outubro, Vanna e o marido vão rezar ao Beato Montini em peregrinação ao Santuário das Graças, um dos lugares que lhe era mais querido. Ali celebrara a sua primeira missa no dia seguinte ao da ordenação sacerdotal
Desde o dia da peregrinação a Brescia, o casal invoca quotidianamente a intercessão do Beato e paralelamente, através do internamento em diversas estruturas hospitalares, têm a gravidez sob controlo, que prossegue com uma constante perda de líquido amniótico. A situação avança com notícias mais ou menos preocupantes e com a submissão a terapias que os postuladores descrevem de modo pormenorizado. Entretanto, às 4 horas de 25 de dezembro, Vanna é hospitalizada com os sintomas de parto iminente. Mais de duas horas depois, na 26.ª semana de gestação, dá à luz, com parto prematuro e em apresentação pélvica, a pequenina Amanda Maria Paola. Transferida imediatamente para uma unidade de terapia intensiva neonatal, a bebé é sujeita a todos os cuidados necessários. Passados dois dias, já estabilizada, passa para uma unidade de patologia neonatal para a prossecução dos cuidados. Quase quatro meses depois, deixa o hospital em boas condições de saúde, que perduram até hoje.
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Giovanni Battista Montini nasceu em Concesio, Bréscia, na região italiana da Lombardia, e foi ordenado sacerdote ainda antes de completar 23 anos, em 1920, tendo estudado no seminário e na Universidade Gregoriana, na Universidade de Roma e na Pontifícia Academia Eclesiástica e concluído doutoramentos em filosofia, direito civil e direito canónico. O talento levou-o a uma carreira na Cúria Romana, a administração do Vaticano. Em 1937, foi nomeado Substituto para Assuntos Correntes pelo Cardeal Pacelli, o Secretário de Estado da Santa Sé no papado de Pio XI. Quando Pacelli foi eleito como Papa Pio XII, Montini manteve o cargo com o novo Secretário de Estado. Em 1944, o Secretário de Estado faleceu e o cargo foi tomado diretamente pelo Papa, e Montini passou a trabalhar diretamente sob orientação do Sumo Pontífice.
Ainda como sacerdote, esteve ao serviço diplomático da Santa Sé e da pastoral universitária italiana, tendo vivido a II Guerra Mundial no Vaticano, onde se ocupou da ajuda aos refugiados e judeus. Após aquele conflito, colaborou na fundação da Associação Católica de Trabalhadores Italianos, antes de ser nomeado arcebispo de Milão, em 1954. São João XXIII criou-o cardeal em 1958 e participou nos trabalhos preparatórios do Concílio Vaticano II.
A 21 de junho de 1963, foi eleito Papa, adotando o nome de Paulo VI, e concluiu os trabalhos do Concílio “entre várias dificuldades, estimulando a abertura da Igreja ao mundo e o respeito pela tradição”.
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O futuro santo deu continuidade ao Concílio Vaticano II, que tinha cumprido apenas a 1.º sessão, promulgou as 4 constituições, os 9 decretos e as 3 declarações e publicou todos os instrumentos necessários à execução das reformas conciliares. E apresentou um rosto novo e aberto da Igreja, já sem o estigma dos anátemas ou a perspetiva do divórcio entre a Igreja e o mundo. O mistério da Igreja e a sua relação com o mundo contemporâneo brilham na Lumen gentium (Constituição dogmática sobre a Igreja), na Sacrosanctum concilium (Constituição sobre a Sagrada Liturgia) e na Gaudium et spes (Constituição Pastoral sobre a Igreja no Mundo Atual), com apoio na Dei verbum (Constituição sobre a Divina Revelação).
Não precisaríamos de mais documento algum para enaltecer a figura de Paulo VII se tivéssemos apenas a encíclica Ecclesiam suam, sobre o ser da Igreja e da sua necessidade de se estabelecer no diálogo. Porém, o relevo dado à Doutrina Social da Igreja está bem patente na encíclica Populorum progressio, sobre o desenvolvimento dos povos, bem como na Carta Apostólica Octogesima adveniens no 80.º aniversário da encíclica Rerum Novarum, de Leão XIII, sobre a questão social.
No atinente à sinodalidade, instituiu o Sínodo dos Bispos e, no concernente a grandes problemas mundiais, instituiu o Dia Mundial da Paz, o Dia Mundial do Migrante, o Dia Mundial das Comunicações Sociais, o Dia Mundial do Enfermo e o Dia Mundial das Vocações.E foi colossal a sua exortação apostólica Evangelii nuntiandi sobre a evangelização no mundo contemporâneo, na linha do Sínodo de 1974; e este Papa não perdeu qualquer oportunidade de fazer apelos à paz, não só como ausência de guerra, mas como desenvolvimento e objeto de educação. Não é despiciendo referir que o Papa Paulo VI veio ao Santuário de Fátima como peregrino implorar de Maria a unidade interna da Igreja e a paz no Mundo.Paulo VI foi o primeiro Papa a visitar os cinco continentes e, até a João Paulo II, o mais viajado, pelo que foi chamado o Papa Peregrino. Em 1970, sobreviveu a uma tentativa de assassinato nas Filipinas. Embora o Vaticano negue, provas determinadas posteriormente indicam que o papa sofreu um ligeiro golpe de arma branca no incidente. Foi o primeiro Papa a encontrar-se com o arcebispo de Cantuária e o primeiro, em vários séculos, a encontrar-se com os dirigentes das diversas Igrejas Ortodoxas orientais, dando com outras ações forte impulso ao ecumenismo.
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Foi quem abriu o precedente da dispensa das obrigações do ministério sacerdotal aos que a solicitaram, incluindo a autorização para contrair matrimónio, embora nem sempre o discurso sobre esta matéria fosse de todo benevolente. E, apesar de fundamentar bastante bem a opção celibatária por motivos de serviço ao Reino de Deus, a sua encíclica Sacerdotalis coelibatus não foi recebida com grande conforto, dado que o manteve obrigatório para os sacerdotes de rito latino, embora tenha oferecido a ordenação diaconal a homens casados. Nesta matéria, o Pontífice não se revelou audaz, mas também não sabemos se o resultado da possível audácia não seria contraproducente ao tempo. Pena é que a evolução esteja em ponto morto.
Porém, o que mais desconforto causou na opinião pública e em muitos cristãos foi a publicação da encíclica Humanae vitae, mal recebida por muitos elementos do Episcopado, alegadamente por se desviar quase na totalidade das conclusões da comissão que constituiu para estudar a matéria. Nela sustenta a visão tradicional da Igreja sobre métodos anticoncecionais artificiais e aborto – posição reiterada e reforçada por João Paulo II na exortação Familiaris consortio e na encíclica Evangelium vitae. A Humanae vitae serviu de base fundamental para dois outros documentos do Magistério da Igreja as instruções Donum vitae e Dignitas personae, ambos sobre moral sexual e ética reprodutiva.
A encíclica foi considerada pelos opositores como um retrocesso em relação ao Vaticano II iniciado por João XXII, mas vem na linha da encíclica Mater et Magistra, do próprio João XXIII, entre outros pontos afirma: A vida humana é sagrada, desde o seu alvorecer compromete diretamente a ação criadora de Deus. E vem na continuidade da Constituição Pastoral Gaudium et spes, do próprio Vaticano II, que deixou expresso no capítulo que trata da família (ns. 47 a 52) que se haveria, na regulação da natalidade, de recorrer à castidade conjugal:
Quando se trata, portanto, de conciliar o amor conjugal com a transmissão responsável da vida, a moralidade do comportamento não depende apenas da sinceridade da intenção e da apreciação dos motivos; deve também determinar-se por critérios objetivos, tomados da natureza da pessoa e dos seus atos; critérios que respeitem, num contexto de autêntico amor, o sentido da mútua doação e da procriação humana. Tudo isto só é possível se se cultivar sinceramente a virtude da castidade conjugal. Segundo estes princípios, não é lícito aos filhos da Igreja adotar, na regulação dos nascimentos, caminhos que o magistério, explicitando a lei divina, reprova.”.
Neste aspeto, o Papa Francisco sublinha que Paulo VI foi um visionário porque anteviu o recrudescimento do neomalthusianismo, resultante, a meu ver, do hedonismo campeante e do consumismo, bem como da dificuldade em articular a vida de trabalho com a vida familiar. A mentalidade disseminada em muitos países espelha-se no spot publicitário aparentemente inocente, mas cheio de egoísmo grassante, posto na boca do bebé: O papá diz ‘preservativo’, a mamã diz ‘pílula’ e eu digo ‘surpresa!’. Quer dizer que o filho ou é programado ou é tolerado, não? É curioso que os dois milagres do seu processo estão conexos com problemas de gestação!
Montini foi tão profético e audaz como hesitante: viagens, interrompidas pela artrose; abdicação da tiara, sede gestatória, algum aparato pontifício; reforma da Cúria; ecumenismo, sinodalidade e diálogo; receio do recrudescimento do tradicionalismo e do excesso do progressismo; tentativa da preservação do depósito da fé e a abertura à exposição doutrinal em novos moldes.
A biografia exposta aquando da beatificação rezava que Paulo VI “sofreu muito por causa das crises que afetaram repetidamente o corpo da Igreja”, tendo respondido com “uma corajosa transmissão da fé, garantindo a solidez doutrinal num período de mudanças ideológicas”. E manifestou grande capacidade de mediação em todos os campos, foi prudente nas decisões, tenaz na afirmação dos princípios, compreensivo com as fraquezas humanas”.
Muito me agrada a canonização deste Papa. A História há de reconhecer os seus méritos!
2018.02.17 – Louro de Carvalho

sábado, 11 de novembro de 2017

O Papa João Paulo I (dantes: Albino Luciani) já no caminho da beatificação

No passado dia 8 de novembro, o Santo Padre Francisco recebeu em audiência o Cardeal Angelo Amato, Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos, tendo na mesma audiência autorizado a Congregação a promulgar os Decretos respeitantes:
- Às virtudes heroicas do Servo de Deus João Paulo I, Sumo Pontífice, que nasceu, de Giovanni Luciani e Bortola Tancon, a 17 de outubro de 1912, em Forno di Canale (Itália), hoje Canale d’Agordo, Diocese de Belluno, no Veneto, era patriarca de Veneza com o nome de nascimento e batismo de Albino Luciani (foi batizado em casa por iminente perigo de vida, tendo sido levado à igreja para suprimento das cerimónias a 19 do mesmo mês), quando foi eleito no 2.º dia do conclave que terminou a 26 de agosto de 1978, assumindo o nome de João Paulo I e vindo a falecer 28 de setembro de 1978, no Palácio Apostólico no Vaticano, ficando considerado o “Papa do Sorriso”.
Na mesma audiência de 8 de novembro, Francisco autorizou ainda a promulgação dos seguintes decretos respeitantes:
- Ao martírio do Servo de Deus João Brenner, sacerdote diocesano, nascido a 27 de dezembro de 1931, em Szombathely, na Hungria, e que morreu, in odium fidei, a 15 de dezembro de 1957, em Rabakethely, na Hungria;
- Ao martírio da Serva de Deus Leonella Sgorbati (Rosa, no século), irmã  professa do Instituto das Missionárias da Consolata, que nasceu, a 9 de dezembro de 1940, em Rezzanello di Gazzola, na Itália, e morreu, in odium fidei, a 17 de setembro de 2006, em Mogadíscio, na Somália;
- Às virtudes heroicas do Beato Bernardo di Baden, marquês de Baden, que nasceu entre o fim de 1428 e os inícios de 1429, no Castelo de Hohenbaden, na Alemanha, e morreu, a 15 de julho de 1458, em Moncalieri, na Itália;
- Às virtudes heroicas do Servo de Deus Gregório Fioravanti (Luís ou Ludovico, no século), sacerdote professo da Ordem dos Frades Menores, fundador da Congregação das Irmãs Franciscanas Missionárias do Sagrado Coração, que nasceu, a 24 de abril de 1822, em Grotte di Castro, na Itália, e morreu a 23 janeiro de 1894, em Gemona, na Itália;
- Às virtudes heroicas do Servo de Deus Tomás Morales Pérez, sacerdote professo da Companhia de Jesus, fundador dos Institutos Seculares Cruzados e Cruzadas de Santa Maria, que nasceu, a 30 de outubro de 1908, em Macuto, na Venezuela, e morreu, a 1 de outubro de 1994, em Alcalá de Henares, na Espanha;
- Às virtudes heroicas do Servo de Deus Marcellino da Capradosso (no século, João Maoloni), leigo professo da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, que nasceu, a 22 de setembro de 1873, em Villa Sambuco di Castel di Lama, na Itália, e morreu, a 26 de fevereiro de 1909, em Fermo, na Itália;
- Às virtudes heroicas da Serva de Deus Teresa Fardella, viúva De Blasi, fundadora do Instituto das Irmãs Pobres, Filhas de Maria Santíssima Coroada, que nasceu, a 24 de maio de 1867, em Nova Iorque, nos Estados Unidos, e morreu, a 26 de agosto de 1957, em Trapani, na Itália.
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João Paulo I foi o primeiro pontífice, desde Clemente V, a recusar a coroação e que não quis ser carregado na cadeira gestatória, que Paulo VI passou a dispensar, bem como a tiara pontifícia que também Paulo VI deixou de utilizar, substituindo-a pela mitra episcopal. Ele que dirigira a primeira radiomensagem ‘Urbi et Orbi’ a 27 de agosto de 1978 e iniciara solenemente o seu ministério pastoral a 3 de setembro, vir a ser, a 28 de setembro do mesmo ano, encontrado sem vida, no seu quarto, 33 dias após a eleição pontifical e aos 65 anos de idade.
O “Papa sorriso” foi um pontífice italiano e um dos mais efémeros. Durante o breve período do seu Pontificado luminoso, simples e sorridente, levou a Santa Sé a adotar uma maior simplicidade, mas a Cúria, o governo do Vaticano, não gostou muito de seu estilo direto.
Não obstante e para lá das teses que foram posta sem circulação, a jornalista Stefania Falasca, vice-postuladora da causa de canonização de João Paulo I, lançou, no passado dia 7, terça-feira, um novo livro sobre o Papa italiano, que desmonta as “teorias da conspiração” sobre a sua morte precoce e súbita.
Por sua vez, o Secretário de Estado do Vaticano, cardeal Pietro Parolin, fala da obra como uma reconstrução efetuada com “uma pesquisa histórica rigorosa, com base numa documentação de exceção, até agora inédita”. E a autora do livro disse à Rádio Vaticano que procurou reconstruir “os últimos instantes da morte do Papa” italiano, com testemunhos e documentação médica, tendo chegado à certeza de que João Paulo I “morreu por causa de um acidente isquémico que provocou um enfarte”, acrescentando que “esta é a verdade nua e crua”.
O reconhecimento das “virtudes heroicas” é uma fase central do processo que leva à proclamação de um fiel católico como venerável e, depois, como beato, sendo esta a penúltima etapa para a declaração da santidade exemplar. No caso, por exemplo de João Paulo I, a aprovação de um milagre, obtido mediante a sua intervenção, é agora o passo necessário para a proclamação de João Paulo I como beato.
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Na minúscula biografia (antes, uma cronologia) constante do website do Vaticano pode ler-se:
Para lá do nascimento e batismo, entra na 1.ª classe elementar em outubro de 1918; recebe o crisma em 26 de setembro de 1919, das mãos do bispo Monsenhor Giosuè Cattarossi; entra no seminário menor de Feltre em outubro de 1923; ingressa no seminário Gregoriano de Belluno em outubro de 1928; é ordenado subdiácono em 1934; é ordenado diácono, a 2 de fevereiro de 1935; a 7 de julho do mesmo ano, recebe a ordenação sacerdotal na igreja de São Pedro de Belluno, a 9, é nomeado vigário cooperador de Canale d”Agordo e, a 18 de dezembro, é transferido como vigário cooperador para Agordo e nomeado professor de religião no Instituto técnico mineiro de Agordo.
No ano de 1937, em julho, é nomeado vice-reitor do seminário Gregoriano de Belluno, iniciando a atividade didática em outubro, que mantém até 1947, ano em cujo mês de fevereiro, a 27, conclui o doutoramento em Teologia na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma com a tese sobre ‘A origem da alma humana segundo Antonio Rosmini’, sendo nomeado por Monsenhor Girolamo Bortignon pró-chanceler episcopal de Belluno, a 16 de novembro. E, a 16 de dezembro, é nomeado camareiro secreto supranumerário e secretário do sínodo diocesano.
A 2 de fevereiro de 1948, é nomeado pró-vigário geral da diocese de Belluno e diretor do Serviço Catequístico diocesano; em dezembro de 1949, publica Catequética em pedacinhos; em março de 1950, publica a tese de doutoramento; a 6 de fevereiro de 1954, é nomeado vigário geral da diocese de Belluno; a 30 de junho de 1956, é nomeado cónego da catedral; e, em 1958, João XXIII elege-o Bispo de Vittorio Veneto, conferindo-lhe a sagração episcopal a 27, pelo que toma posse a 11 de Janeiro de 1959 e, a 17 de julho começa as visitas pastorais. É como bispo desta diocese que participa nas 4 sessões do Concílio Vaticano II, retornando reiteradamente à diocese.
De 16 de agosto a 2 de setembro de 1966, visita a missão diocesana de Vittorio Veneto no Burundi.
A 15 de dezembro de 1969, Paulo VI promove-o a Patriarca de Veneza; a 1 de fevereiro de 1970, recebe no município a cidadania honorária de Vittorio Veneto; e, a 8 de fevereiro entra oficialmente no Patriarcado de Veneza, iniciando as vistas pastorais a 25 de outubro.
Enquanto Patriarca de Veneza, faz uma viagem à Suíça, de 12 a 14 de junho de 1971, regressando por Saboia; faz uma viagem pastoral à Alemanha, a 18 de maio de 1975, ano em que de 6 a 21 de novembro empreende uma viagem pastoral ao Brasil, onde é feito doutor honoris causa pela Universidade Estatal de Santa Maria, no Rio Grande do Sul.
Em junho de 1972, é eleito vice-presidente da Conferência Episcopal Italiana, permanecendo no cargo até 2 de junho de 1975; e, 16 de setembro, recebe, em Veneza, a visita de Paulo VI.
A 5 de março de 1973, é criado Cardeal da Santa Igreja Romana por Paulo VI; em janeiro de 1976, publica Illustrissimi”; e, de 10 a 13 de setembro do mesmo ano, como representante da Conferência Episcopal Italiana, participa nas celebrações comemorativas em Spalato, na então Jugoslávia.
Participa nas seguintes assembleias ordinárias dos Sínodo dos Bispos: II, de 28 de setembro a 5 de novembro de 1971, sobre “O sacerdócio ministerial e a justiça no mundo” (reentrando na diocese de 23 a 31 de outubro); III, de 27 de setembro a 26 de outubro de 1974, sobre “A evangelização no mundo moderno”; e IV, de 30 de setembro a 29 de outubro de 1977, sobre “A catequese no nosso tempo”.
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E, sobre o seu brasão, refere-se que:
O duplo nome deste Papa recorda os dos dois imediatos predecessores (João XXIII e Pulo VI), pelo que se topa no seu brasão algo dum e doutro. De João XXIII, pelo facto de Albino Luciani ter sido seu sucessor em Veneza, herdou o que em heráldica se chama o chefe, (a parte superior do brasão), o chefe patriarcal de São Marcos: “de prata com leão andante, alado e nimbado ao natural, segurando com a pata direita anterior um livro aberto com a legendaPax tibi, Marce, Evangelista meus”. Este chefe deriva da insígnia da República de Veneza, com pequena variante nas cores. A insígnia da Sereníssima dizia: “de púrpura com leão de ouro, com a cabeça em majestade”. Tornando-se papal, o emblema como que renega a significação política, pelo que o campo passa de púrpura a prata e, portanto, muda de cor o nobre animal de ouro, não podendo tolerar-se em heráldica a sobreposição dum metal sobre outro metal. O leão fica, pois, “ao natural”, em amarelo escuro. Sob o chefe aparece o brasão do Papa, que, jogando com o nome Luciani aparentado com a palavra latina lux (luz), consiste basicamente em 3 estrelas de 5 pontas em campo azul. Acrescenta-se, porém, – aqui aparece a recordação do Papa Montini – o “monte de 6 cimos à italiana saindo da ponta do escudo”, uma das peças do brasão montiniano (note-se o jogo de palavras: montes, montini). O monte de 6 cimos, que, no caso de João Paulo I, vem acompanhado por 3 estrelas, era, tratando-se de Paulo VI, guarnecido com 3 flores de lis, outra peça muito frequente em heráldica. Quem sabe se Luciani não quis recordar com esses cimos as montanhas da sua terra natal?
Concluindo com ousada “extrapolação”, o Papa, chegado ao sopé da montanha do pontificado e encontrando-se, na sua humildade, um pouco incerto sobre as suas forças, levanta os olhos e descobre por cima dos montes, como os Reis Magos, a esplêndida luz estelar que o anima e lhe dá a esperança de chegar até ao alto. Isto aplica-se, afinal, a todos. Oxalá a nossa vida seja contínua ascensão, iluminada pela luz que vem do alto, a luz da fé, a luz de Cristo Senhor.
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Nos seus 33 dias de Sumo Pontificado, legou-nos 2 homilias, 3 mensagens, 3 cartas apostólicas, 4 cartas, 4 catequeses, 5 recitações do Angelus e 9 discursos.
Foi objetivamente muito pouco, mas deu para entender como o Papado pode ser diferente. A seguir ao inovador, mas sofrido Paulo VI, vem o Papa Luciani, com a timidez de Ratzinger, mas com a simplicidade de Francisco, marcada pela normal introdução do discurso na 1.ª pessoa do plural, exceto na homilia da inauguração solene do pontificado e nos documentos mais formais, em que manteve o plural papal em “nós” (muitos não o sabiam; outros o esqueceram). As suas catequeses (nas audiências gerais) ou as alocuções por ocasião do Angelus, em que partia de temas atuais do mundo, dos problemas da vida real, de histórias da vida pessoal e do diálogo com as crianças, mostram um brilho humano, dialogante e desmistificador da distância papal. É bonito o discurso que fez sobre a humildade (1.ª audiência geral), de irmão mais velho ente os iguais; a fé (2.ª audiência geral), aberta a todos, a das verdades agradáveis e desagradáveis, fé na doutrina de Cristo e não da Igreja; a esperança (3.ª audiência geral), que permite, apesar das faltas, esperar e aceitar a misericórdia de Deus; e a caridade (4.ª audiência geral), que nos leva a viajar para o amado (Deus e o próximo) e com ele permanecer, levando-nos a perdoar sempre e a aceitar o perdão. Pena foi não lhe restar mais tempo para abordar as 7 lâmpadas da santificação – fé, esperança, caridade, prudência, justiça, fortaleza e temperança (que viu numa nota de João XXIII).
Interessantes são algumas das afirmações nos momentos de recitação do Angelus:
No 1.º, falando da sua postura como Papa, revelou o que dissera aos cardeais após a eleição:
Chamar-me-ei João Paulo. Eu não tenho nem a sabedoria de coração do Papa João, nem a preparação e a cultura do Papa Paulo. Estou, porém, no lugar deles e devo procurar servir a Igreja. Espero que me ajudeis com as vossas orações.”.
No 2.º, falando de São Gregório Magno, referiu:
“Ensina aos Bispos o seu ofício, mas, na parte final, tem estas palavras: ‘Eu descrevi o bom pastor, mas não o sou; mostrei a praia da perfeição a que é preciso chegar, mas pessoalmente encontro-me ainda nas tempestades dos meus defeitos, das minhas faltas. Sendo assim, –  por favor disse ele – para que não venha a naufragar, lançai-me uma tábua de salvação com as vossas orações’. Eu digo o mesmo; mas não é só o Papa que precisa de orações, é também o mundo. Um autor espanhol escreveu: ‘O mundo vai mal porque há mais batalhas que orações’. Procuremos que haja mais orações e menos batalhas.”.
No 3.º, depois de falar da cimeira de paz em que os líderes rezaram, apontou naturalmente o rosto materno de Deus:
Sabemos que tem os olhos sempre abertos para nos ver, mesmo quando parece que é de noite. Ele é papá; mais ainda, é mãe. Não quer fazer-nos mal, só nos quer fazer bem, a todos, Os filhos, se por acaso estão doentes, possuem um título a mais para serem amados pela mãe. Também nós, se por acaso estamos doentes de maldade, fora do caminho, temos um título a mais para que o Senhor nos ame. Com estes sentimentos vos convido a que oreis, juntamente com o Papa, por cada um de nós, pelo Próximo Oriente, pelo Irão e pelo mundo inteiro.
No 4.º, em sintonia com quem regressa à escola, sugeriu:
Peçamos ao Senhor que ajude os professores, os estudantes e também as famílias que olham para a escola com o mesmo afecto e a mesma preocupação que o Papa”. 
E, no 5.º e último, comentando o Diálogo das Carmelitas de Bernanos, disse (condensei):
Ouviu-se a condenação: ‘À morte por fanatismo’. Uma freira perguntou ao juiz o que era o fanatismo, ao que ele respondeu: ‘É pertencerdes tolamente à religião’. ‘Oh, irmãs!’ – disse a freira – condenam-nos pelo apego à fé. Que felicidade morrer por Jesus!’. Fizeram-nas sair da prisão, meteram-nas na carreta fatal e elas foram cantando hinos religiosos; chegando ao palco da guilhotina, de joelhos ante da Prioresa, renovaram o voto de obediência, entoaram o ‘Veni Creator’, que se foi tornando cada vez mais débil à medida que iam caindo da guilhotina as cabeças das irmãs. Ficou para o fim a Prioresa, cujas últimas palavras foram: ‘O amor sempre vencerá, o amor tudo pode’. Eis a palavra exata: não é a violência que tudo pode, é o amor que tudo pode. Peçamos ao Senhor a graça de que uma nova onda de amor para com o próximo invada este pobre mundo
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Foi pena este Papa ter sido pura e simplesmente esquecido, entretendo-se a opinião pública com o sorriso e as diversões especulativas sobre as causas da morte e eventuais alterações que não fez. Merecia ser lido e tido em conta. Esta é a responsabilidade dos cristãos e dos seus líderes!

2017-11.11 – Louro de Carvalho