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quarta-feira, 1 de maio de 2019

Uma encíclica para o desenvolvimento na era da globalização


Nação, Estado. Estado Nação” é o tema da Assembleia Plenária da Pontifícia Academia das Ciências Sociais a decorrer no Vaticano de 1 a 3 de maio, com especialistas de todo o mundo que refletem sobre os perigos dos soberanismos e dos nacionalismos num encontro ilustrado com reflexões do Papa Francisco, que receberá em audiência os participantes no dia 2 de maio.
Segundo Federico Piana, o objetivo da Assembleia (extremamente atual) é lançar luz sobre os mecanismos que geram os nacionalismos e os soberanismos, que lentamente estão a tomar conta das sociedades em muitos países. 
O professor Stefano Zamagni, economista, presidente da Pontifícia Academia das Ciências Sociais, explicou ao Vatican News o sentido dos debates a realizar, ressaltando:
A linha da Igreja não é a de rejeitar o sentimento nacional. A Igreja nunca foi contra o conceito de nação, de identidade nacional, mas sim contra a sua degeneração, isto é, quando a ideia de nação se transforma em nacionalismo.”.
Assim, a Igreja assume o papel de “mostrar que é possível conciliar o conceito de nação com o de uma democracia avançada, que leve em consideração a forte globalização e interconexões entre os povos”. A não ser deste modo, os nacionalismos assumirão o controlo do devir, sufocando a liberdade, destruindo economias e impondo soberanismos disfuncionais.
A Pontifícia Academia de Ciências Sociais põe a nu a evidência do renascimento e do vertiginoso crescimento dos populismos, que estarão no centro dos debates e no contexto da análise do encontro poliédrico. Na verdade, para Zamagni, “os neopopulismos de hoje são caraterizados por razões específicas: as reações, imotivadas e irracionais, em relação à globalização e contra o aumento das desigualdades”.
E o distinto professor reconhece que os fenómenos que mobilizam os neopopulistas são verdadeiros, mas pensa que a reação é inadequada e piora “o mal que gostaria de erradicar”.
Mais: segundo Zamagni é a Europa o laboratório dos neopopulismos, atendo-nos ao que está a suceder no campo político e social como “um caso paradigmático”. E o professor discorre:
Pensemos nos casos da Polónia, da Hungria, dos países do antigo bloco soviético da Europa central: ali se invoca o nacionalismo aliado a soberanismos. E, quando o nacionalismo é somado a soberanismo, surgem problemas muito sérios. É preciso evitar que o poder político possa anular o poder da sociedade civil, aquelas expressões da sociedade civil chamadas  ‘corpos intermediários’, a Igreja incluída.”.
O caminho para combater os neopopulismos e os nacionalismos deformados pode ser encontrado no último capítulo da Carta Encíclica Social do Papa Bento XVI, a Caritas in Veritate, publicada em 2009, logo após a crise económica mundial – período em que os soberanismos começaram a ressurgir – que teve resultados dramáticos. E Zamagni observa:
O último capítulo propõe como linha de ação, uma poliarquia. Há dez anos ninguém prestava atenção a essa solução. Hoje, pelo contrário, é necessário recuperar a sabedoria presente na Caritas in Veritate. Mas o que o documento entende com ‘poliarquia’? Quer dizer a pluralidade dos centros de poder. As várias formas de poder, económico, político e social, não devem acabar nas mãos de poucos.”.
Diz temeroso Zamagni que acabarem as várias formas de poder nas mãos de poucos seria um revés perigoso para as nossas sociedades. E, nesta ótica, a Caritas in Veritate constituirá um antídoto contra os neopopulismos, desde que devidamente refletida e posta em prática.
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Na verdade, como refere em 2009 o site da Ecclesia, a encíclica social de Bento XVI versa um vasto conjunto de problemas da atualidade, em torno do “desenvolvimento humano integral”, numa conjuntura tão complexa como a que estamos a viver, em termos sociais e económicos, com diretas incidências na cultura e no direito. Começando por reler a encíclica Populorum progressio (Paulo VI, 1967), desenvolve mais os seguintes temas: o desenvolvimento humano no nosso tempo; fraternidade, desenvolvimento económico e sociedade civil; desenvolvimento dos povos, direitos e deveres, ambiente; a colaboração da família humana; e o desenvolvimento dos povos e a técnica. E, na conclusão, o Papa mostra-se convicto da conveniência da religião, no sentido mais essencial do termo, para a consolidação da sociedade humana, vincando:
Somente se pensarmos que somos chamados, enquanto indivíduos e comunidade, a fazer parte da família de Deus como seus filhos, é que seremos capazes de produzir um novo pensamento e desenvolver novas energias ao serviço de um verdadeiro humanismo integral”.
É um documento doutrinário relevante que atualiza duas das mais marcantes encíclicas dos últimos séculos. De facto, mergulha as suas raízes na Rerum Novarum, de Leão XIII e assume-se na continuidade da Populorum Progressio, de São Paulo VI, que já era considerada a Rerum Novarum da época contemporânea.
Nela sobressaem dois aspetos: a clarificação de que a doutrina social da Igreja (DSI) não se opõe à economia de mercado, nem impõe uma economia comandada, isto é, não é anticapitalista, como, por vezes, é interpretada por alguns; e a clareza da abordagem da falência das instituições multilaterais, das Nações Unidas às diferentes organizações de cooperação económica.
No centro da encíclica está o conceito de “responsabilidade”, pois “o desenvolvimento humano integral supõe a liberdade responsável da pessoa e dos povos”. Assim, observa que atualmente o quadro do desenvolvimento é policêntrico, sendo errado atribuir as culpas da crise a um só fator e devendo nós libertar-nos das ideologias que simplificam, de forma artificiosa, a realidade e examinar com objetividade a espessura humana dos problemas.
Bento XVI assume que a doutrina da Rerum Novarum e da Populorum Progressio tem hoje de atender à realidade da globalização, cujos processos, se “adequadamente concebidos e geridos, oferecem a possibilidade de uma riqueza a nível mundial, como antes nunca tinha acontecido”. Porém, gerir a globalização não é limitá-la, nem deixá-la expandir aleatoriamente, nem compensar os seus efeitos perversos. Por isso, o Papa alemão se manifestava contra a “filantropia dos povos desenvolvidos” como se alguns povos estivessem condenados à pobreza.
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Aquando da publicação da Caritas in Veritate, Dom Manuel Clemente era Bispo do Porto e, a 5 de novembro, fez uma abordagem da Encíclica no encontro sobre “Filosofia do Direito” na Universidade Lusófona do Porto. Daí se respigam alguns dados pertinentes.
Começou por afirmar que, “para nos entendermos mutuamente como humanidade comum, em realização solidária e progressiva”, é de admitir que “nenhuma ambição particular nos basta”, mas que “somos motivados por uma transcendência provinda duma realidade tão outra como atrativa de todos, ou seja absolutamente pessoal”, a que se dá o nome de Deus e que os cristãos reconhecem presente em Jesus de Nazaré. Assim o Papa assegurava:
A maior força ao serviço do desenvolvimento é um humanismo cristão que reavive a caridade e que se deixe guiar pela verdade, acolhendo uma e outra como dom permanente de Deus”.
Partindo do Papa Montini, carateriza Bento XVI o desenvolvimento como realidade humana (pessoal e interpessoal) excluindo a mera acumulação. E dizia Manuel Clemente:
Nos anos sessenta vivíamos alguma euforia em relação a este tópico, quase acreditando na facilidade de atingirmos rápidas metas, mesmo em termos mundiais. Na primeira década do novo milénio e na atual crise financeira e económica, não nos manifestamos tão seguros e otimistas.”.
Ora, Bento XVI presta o serviço de resumir e retomar a proposta de São Paulo VI no que as suas reflexões de há quatro décadas têm de essencial e útil para perspetivarmos o futuro.
Com efeito, na Populorum progessio, São Paulo VI diz, antes de mais, que o progresso é, na origem e essência, uma vocação. E é este facto que legitima a intervenção da Igreja no quadro do desenvolvimento. Com efeito, se este tocasse só aspetos técnicos da vida humana e não o sentido da caminhada do homem na história juntamente com os irmãos, nem a individuação da meta de tal caminhada, a Igreja não teria motivo para falar sobre ele. Mas São Paulo VI, como antes Leão XIII, sentia-se na obrigação de cumprir um dever próprio da sua missão iluminando com a luz do Evangelho as questões sociais coevas, em atenção aos sinais dos tempos. Definir o desenvolvimento como vocação é reconhecer que ele nasce dum apelo transcendente e que é incapaz por si mesmo de atribuir-se o próprio significado último. Esta visão constitui o coração da Populorum progressio, motiva as reflexões de São Paulo VI sobre a liberdade, a verdade e a caridade no desenvolvimento, e constitui a razão principal da plena atualidade de tal encíclica.
O então Bispo do Porto, entre a “vastíssima temática” da Caritas in Veritate, elegeu para comentar, no susodito encontro, o atinente à comunidade internacional e ao “progresso” necessário da sua institucionalização, tendo em vista o desenvolvimento dos povos.
Na verdade, o Papa Bento equaciona, no âmbito da crescente interdependência mundial, a necessidade da urgente reforma da Organização das Nações Unidas e da arquitetura económica e financeira internacional, para possibilitar a real concretização do conceito de família de nações, bem como a urgência de “encontrar formas inovadoras para implementar o princípio da responsabilidade de proteger e para atribuir também às nações mais pobres uma voz eficaz nas decisões comuns”. Para tanto, tem de conseguir-se “um ordenamento político, jurídico e económico que incremente e guie a colaboração internacional para o desenvolvimento solidário de todos os povos”. E, para obviar aos efeitos das crises económicas à escala mundial, bem como ao necessário desarmamento com vista à consecução de maiores equilíbrios, de segurança alimentar e de paz, e à garantia da salvaguarda do ambiente e para regulamentar os fluxos migratórios, “urge a presença duma verdadeira Autoridade política mundial”, já delineada por São João XXIII.
Tal Autoridade, regulada pelo direito, deve ater-se ao princípio da subsidiariedade e ao da solidariedade, orientar-se para o bem comum e comprometer-se na realização do autêntico desenvolvimento humano integral inspirado nos valores da caridade na verdade. E, devendo ser reconhecida por todos, terá de gozar de poder efetivo para “garantir a cada um a segurança, a observância da justiça, o respeito dos direitos”, bem como da faculdade de fazer com que as partes respeitem as próprias decisões e as medidas coordenadas e adotadas nos diversos fóruns internacionais. É que, se isso faltar, o direito internacional, não obstante os grandes progressos realizados nos vários campos, correrá o risco de ser condicionado pelos equilíbrios de poder entre os mais fortes. Na verdade, “o desenvolvimento integral dos povos e a colaboração internacional exigem que seja instituído um grau superior de ordenamento internacional de tipo subsidiário para o governo da globalização e que se dê finalmente atuação a uma ordem social conforme à ordem moral e à ligação entre esfera moral e social, entre política e esfera económica e civil, que aparece já perspetivada no Estatuto das Nações Unidas” (cf CV, 67).
Assim, Manuel Clemente releva, no texto de Bento XVI, quatro pontos axiais: a implementação dum ordenamento geral e subsidiário para desenvolvimento dos povos e a colaboração internacional; a consolidação duma autêntica “autoridade política mundial”; a promoção efetiva da dignidade da pessoa humana, do bem comum, da subsidiariedade e da solidariedade na humanidade; e a atribuição dum poder efetivo e à altura dos fins enunciados à referida autoridade mundial.
Assim, o Papa alemão aplicou à vida internacional os quatro princípios da DSI – dignidade da pessoa humana, bem comum, subsidiariedade e solidariedade –, que o Compêndio da Doutrina Social da Igreja (CDSI), publicado pelo Conselho Pontifício Justiça e Paz em 2004, apresenta como “verdadeiros e próprios gonzos do ensinamento social católico” (CDSI, n.º 160), definindo-os em referências várias. Sobre a dignidade humana, quer que “todos os programas sociais, científicos e culturais sejam orientados pela consciência do primado de cada ser humano”. Do bem comum, retoma a definição de ser “o conjunto das condições de vida social que permitem, tanto aos grupos como a cada membro, alcançar mais plena e facilmente a própria perfeição”. Da subsidiariedade, diz que “todas as sociedades de ordem superior devem pôr-se em atitude de ajuda (subsidium), apoio, promoção e incremento em relação às menores”. E da solidariedade, releva a intrínseca sociabilidade da pessoa humana, a igualdade de todos em dignidade e direitos, o caminho comum dos homens e dos povos para uma unidade cada vez mais convicta.
A partir destes princípios (inspirados no que a humanidade tem concluído sobre si a partir da experiência acumulada e das atitudes e palavras de Jesus, em quem os cristãos e muitos outros têm encontrado motivação para o próprio comportamento pessoal e social), Bento XVI avalia positiva e prudencialmente a globalização.
E, citando o Catecismo da Igreja Católica (CIC), que define a prudência (virtude cardeal ou principal, com a justiça, a fortaleza e a temperança), como “virtude que dispõe a razão prática para discernir, em qualquer circunstância, o nosso verdadeiro bem e para escolher os justos meios para o atingir” (CIC, n.º 1806), Manuel Clemente assenta em que a pessoa humana é “o bem maior a respeitar e a promover em qualquer patamar da sociabilidade, nacional ou internacional” pelo que a prudência exige a observância do princípio da subsidiariedade, neste caminho inevitável e positivo de globalização institucional.
Dizendo o então Bispo do Porto que a encíclica requer tempo e cuidado na leitura, resta saber se essa leitura já foi suficientemente feita, refletida e aplicada, sobretudo se atendermos ao panorama deste mundo hodierno em que desenvolvimento e paz, equilíbrios socioeconómicos e sã convivência são pouco mais que uma miragem no deserto.
Ora, tendo sido a velocidade e o imediatismo de objetivos e lucros os verdadeiros responsáveis pelos problemas de hoje, com enorme prejuízo para os mais pobres (pessoas e países), não se deve querer resolver com igual vertigem a situação atual. É o tempo do reforço da solidariedade e de respeito ativo pelas pessoas “em todos os níveis da comunidade mundial”, da família à autarquia, desta ao Estado e deste ao Mundo, com a indispensável contribuição de todas as instituições culturais – incluindo das que veiculam o património religioso da humanidade – e de “todas as empresas e iniciativas sociais”.
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Por isso, é de saudar a Assembleia Plenária da Pontifícia Academia das Ciências Sociais pelo que trará de reflexão e atualização da Caritas in Veritate dando a perceber o real valor desta joia teológica e económico-social do pontificado de Bento XVI na linha do imortal Leão XIII e do muito perspicaz São Paulo VI.
2019.05.01 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Um discurso de Francisco em nome da paz entre os povos


No passado dia 7 de janeiro, o Papa discursou perante Corpo Diplomático acreditado junto da Santa Sé em que analisou alguns acontecimentos atuais da vida política internacional e teceu considerações sobre eles, refletindo sobre “os desafios que nos esperam no futuro próximo” e deixando claro “o propósito de se colocar ao serviço do bem de todo o ser humano”.
Depois de fazer votos por que o ano, há pouco iniciado, traga paz e bem-estar a cada um dos membros da família humana, manifestou apreço a cada um dos diplomatas “pela colaboração que prestam diariamente para consolidar as relações” entre o seu respetivo país ou organização e a Santa Sé, “fortalecidas ainda mais pela assinatura ou ratificação de novos acordos”.
E, entre estes, mencionou, em termos bilaterais, a ratificação do Acordo-Quadro entre a Santa Sé e a República do Benim sobre o Estatuto Jurídico da Igreja Católica no Benim, a assinatura do Acordo entre a Santa Sé e a República de São Marino para o Ensino da Religião Católica nas escolas públicas, a assinatura dAcordo Provisório entre a Santa Sé e a República Popular da China sobre a nomeação dos Bispos na China e a perspetivação do estabelecimento da relações entre a Santa Sé e o Vietname; e, no âmbito multilateral, a ratificação, pela Santa Sé, da Convenção Regional da UNESCO sobre o Reconhecimento das Qualificações do Ensino Superior na Ásia e no Pacífico, a adesão ao Acordo Parcial alargado sobre as Rotas Culturais do Conselho da Europa e a admissão do Estado da Cidade do Vaticano na SEPA (Área Única de Pagamentos em Euros).
Tudo isto se inscreve no quadro da obediência à missão espiritual ao ditame dado por Jesus a Pedro de apascentar os seus cordeiros, que impele o Papa a preocupar-se com toda a família humana e as suas necessidades (mesmo de ordem material e social), apesar de a Santa Sé não pretender imiscuir-se na vida dos Estados. No entanto, quer ser “ouvinte solícita e sensível das problemáticas que dizem respeito à humanidade”, com o propósito de se colocar ao serviço do bem de todo o ser humano. E é no âmbito desta solicitude que o Papa tem estes encontros com diplomatas, chefes de Estado e de Governo, com os inúmeros peregrinos que vêm ao Vaticano de todas as partes do mundo e com os povos e as comunidades que tem a alegria de visitar através das viagens apostólicas. E mencionou as efetuadas, no ano passado, ao Chile, Peru, Suíça, Irlanda, Lituânia, Letónia e Estónia.
Depois, referiu que 2019 possibilitará a celebração de diversos aniversários, como o 70.º aniversário da criação do Conselho da Europa e o centenário da criação da Sociedade das Nações. Sobre este centenário, apontou a razão de lembrar uma organização que já não existe:
Ela constitui o início da diplomacia multilateral moderna, através da qual os Estados procuram preservar as relações mútuas da lógica da vexação que leva à guerra. Aquele prelúdio que foi a Sociedade das Nações depressa embateu nas dificuldades conhecidas de todos que, vinte anos exatos depois do seu nascimento, levaram a um novo conflito ainda mais dilacerante: a II Guerra Mundial. Apesar disso, ela abriu uma estrada, que será percorrida mais decididamente com a instituição, em 1945, da Organização das Nações Unidas: uma estrada certamente cheia de dificuldades e contrastes; nem sempre eficaz, porque conflitos, infelizmente, há-os ainda hoje; mas sempre uma oportunidade inegável para as nações se encontrarem e buscarem soluções comuns.”. 
Considerando “premissa indispensável” para a diplomacia multilateral “a boa vontade e a boa-fé dos interlocutores, a disponibilidade para um confronto leal e sincero e a vontade de aceitar os compromissos inevitáveis que nascem do confronto entre as Partes”, vincou:
“Sempre que falta um só destes elementos, prevalece a busca de soluções unilaterais e, em última análise, a vexação do mais fraco pelo mais forte. A Sociedade das Nações entrou em crise precisamente por estes motivos e ainda hoje se nota, infelizmente, que as mesmas atitudes estão a insidiar a estabilidade das principais organizações internacionais.”.
Por isso, apelou a que “não esmoreça a vontade dum confronto sereno e construtivo entre os Estados, pois é evidente que as relações dentro da comunidade internacional e o próprio sistema multilateral no seu conjunto estão atravessando momentos difíceis com o ressurgimento de tendências nacionalistas, que minam a vocação de as organizações internacionais serem espaço de diálogo e encontro para todos os países”. E explicou:
Isto fica-se a dever, por um lado, a uma certa incapacidade do sistema multilateral em oferecer soluções eficazes para várias situações já há muito não resolvidas, como alguns conflitos ‘congelados’, e enfrentar os desafios atuais de forma satisfatória para todos. Por outro lado, é o resultado da evolução das políticas nacionais, determinadas com frequência cada vez maior pela busca dum consenso imediato e partidário, em vez da paciente prossecução do bem comum com respostas a longo prazo. Por outro lado ainda, deve-se à maior preponderância nas organizações internacionais de poderes e grupos de interesses que impõem as suas perspetivas e ideias, desencadeando novas formas de colonização ideológica, não raro desrespeitadoras da identidade, dignidade e sensibilidade dos povos.”.
Depois, apontou como uma das fortes causas da falência da cooperação multilateral a reação, em determinadas áreas do mundo, à globalização desenvolvida rápida e desordenadamente, de modo que entre globalização e situação local se gera tensão, quando era preciso “prestar atenção à dimensão global sem perder de vista o que é local”. E aos nacionalismos contrapôs:
À vista duma ‘globalização esférica’, em que se nivelam as diferenças e as particularidades parecem desaparecer, é fácil ressurgirem os nacionalismos; mas a globalização pode ser também uma oportunidade, se for ‘poliédrica’, ou seja, se favorecer uma tensão positiva entre a identidade de cada povo e país e a própria globalização, de acordo com o princípio de que o todo é superior à parte”.
E referiu que algumas atitudes em voga (nacionalistas, populistas e xenófobas) lembram o período entre as duas Grandes Guerras, quando as tendências populistas e nacionalistas prevaleceram sobre a Sociedade das Nações, estando o reaparecimento de tais impulsos a enfraquecer o sistema multilateral, resultando daí a geral falta de confiança, a crise de credibilidade da política internacional e a marginalização dos membros mais vulneráveis da família das nações.
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Passou, a seguir, estribado no memorável discurso de Paulo VI à Assembleia Geral das Nações Unidas, a recordar e reassumir os objetivos da diplomacia multilateral, delineados por aquele seu predecessor, com as suas caraterísticas e responsabilidades no contexto atual, destacando também os seus elementos de contacto com a missão espiritual do Papa e da Santa Sé.
E sintetizou tudo nos seguintes itens: a primazia da justiça e do direito; a defesa dos mais fracos; ser ponte entre os povos e construtores da paz; e repensar o nosso destino comum.
A primazia da justiça e do direito. Tendo sido à luz deste postulado que enunciou a Mensagem para o LII Dia Mundial da Paz sob o tema “A boa política está ao serviço da paz”, precisou:
Convém que as personalidades políticas escutem as vozes dos seus povos e busquem soluções concretas para promover o maior bem possível deles. Isso, porém, requer o respeito do direito e da justiça, tanto dentro das comunidades nacionais como na comunidade internacional, porque reações emocionais e precipitadas poderão aumentar consensos a curto prazo, mas de certeza não contribuirão para a solução dos problemas mais radicais, antes agravá-los-ão.”.
Fundado na dimensão transcendente da pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus, salientou que “o respeito pela dignidade de cada ser humano é a premissa indispensável para toda a convivência realmente pacífica e o direito constitui o instrumento essencial para a consecução da justiça social e para alimentar os vínculos fraternos entre os povos”. E, neste contexto, colocou o papel fundamental desempenhado pelos direitos humanos, enunciados na Declaração Universal dos Direitos Humanos, “cujo caráter universal, objetivo e racional seria oportuno redescobrir, para não prevalecerem visões parciais e subjetivas do homem, que correm o risco de abrir caminho a novas desigualdades, injustiças, discriminação e, em última instância, a novas violências e abusos”.
A defesa dos mais fracos. É outro elemento que recordou e para o que citou o Papa Montini:
Fazemos também Nossa a voz dos pobres, dos deserdados, dos infelizes, dos que aspiram à justiça, à dignidade de viver, à liberdade, ao bem-estar e ao progresso”.
E reforçou que “desde sempre a Igreja se empenhou em acudir a quem está necessitado e, no decurso destes anos, a própria Santa Sé se fez promotora de vários projetos de sustentáculo aos mais vulneráveis, tendo recebido apoio também de distintos sujeitos a nível internacional”. E vem o fazendo por si e em articulação com as demais confissões religiosas e outras instituições com preocupação social, considerando ser este um dos misteres a que é chamada hoje toda a comunidade internacional.
Foi nesta perspetiva que a Santa Sé adotou os Pactos Globais sobre Refugiados e sobre a Migração segura, ordenada e regular.
Salientou ainda a necessidade de atender de modo particular a determinados grupos fragilizáveis da sociedade, como os jovens, que tiveram lugar relevante na XV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos e que serão os protagonistas da viagem apostólica ao Panamá por ocasião da XXXIV Jornada Mundial da Juventude; as crianças, sobretudo neste ano em que tem lugar o 30.º aniversário da adoção da Convenção sobre os Direitos da Criança, com enunciados pertinentes a ter em conta todos os dias; as mulheres, frequentemente cercadas por contextos familiares e sociais de exploração e violência, mas cuja dignidade está no centro da Carta apostólica  Mulieris dignitatem, publicada há 30 anos por São João Paulo II; e os trabalhadores, sendo de pedir à OIT (Organização Internacional do Trabalho) que prossiga, livre de interesses parciais, a ser exemplo de diálogo e concertação para alcançar os seus altos objetivos, entre os quais se conta o combate ao flagelo do trabalho infantil e às novas formas de escravidão, bem como à diminuição progressiva do valor dos salários, à falta e a precariedade do emprego e à persistente discriminação das mulheres nos ambientes laborais.
Ser ponte entre os povos e construtores da paz. É a grande tarefa das Nações Unidas, na ótica de São Paulo VI, como é a tarefa de todos os decisores, apoiada pela educação para um estilo de vida pacífico. E, aqui, o Papa mencionou alguns sinais de paz significativos, plasmados em importantes acordos internacionais em busca da paz e retomou, em certa medida as preocupações elencadas na Mensagem Urbi et Orbi no fim da manhã do dia de Natal de 2018.
Repensar o nosso destino comum. Lembrou que São Paulo VI afirmou:
Devemos habituar-nos a pensar (...) de uma maneira nova também a vida comunitária dos homens, de uma maneira nova enfim os caminhos da história e os destinos do mundo (…). Eis chegada a hora em que se impõe (…) pensar de novo na nossa comum origem, na nossa história, no nosso destino comum. Nunca como hoje, numa época marcada por tal progresso humano, foi tão necessário o apelo à consciência moral do homem. Porque o perigo não vem nem do progresso nem da ciência (…). O verdadeiro perigo está no homem, que dispõe de instrumentos sempre mais poderosos, aptos tanto para a ruína como para as mais elevadas conquistas.”.
Repensar o nosso destino comum, no contexto atual, diz o Papa Francisco, significa parar com a corrida ao armamento (nuclear e convencional) e repensar a relação com o nosso Planeta.
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Também o Papa evocou outras efemérides a celebrar no ano já iniciado. Entre elas, destacam-se: a queda do Muro de Berlim, a 9 de novembro de 1989, e, passados uns meses, o termo da última herança da II Guerra Mundial: a lacerante divisão da Europa decidida em Ialta e a guerra fria, levando os países a leste da cortina de ferro a reencontrar a liberdade depois de decénios de opressão; e o nascimento do Estado da Cidade do Vaticano, na sequência da assinatura dos Pactos Lateranenses entre a Santa Sé e a Itália, a 11 de fevereiro de 1929.
Sobre o primeiro, de que celebraremos os 30 anos, observou:
No contexto atual, em que prevalecem novos ímpetos centrífugos e a tentação de erguer novas cortinas, não se perca na Europa a consciência dos benefícios – sendo o primeiro deles a paz – trazidos pelo caminho de amizade e aproximação entre os povos empreendido depois da II Guerra Mundial”.
Em relação ao segundo, cujo 90.º aniversário se celebrará, considerou:
Encerrava-se, assim, o longo período da ‘Questão Romana’ na sequência da tomada de Roma e do fim do Estado Pontifício. Com o Tratado de Latrão, a Santa Sé podia – como fez questão de afirmar Pio XI – dispor daquele ‘mínimo de território material que é indispensável para o exercício dum poder espiritual confiado  homens em benefício de homens' e, com a Concordata, a Igreja pôde de novo contribuir plenamente para o crescimento espiritual e material de Roma e de toda a Itália, uma terra rica de história, arte e cultura, que o cristianismo contribuiu para forjar”.
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Deste poderoso discurso fez ressonância, em entrevista ao Vatican News, o Padre Antonio Spadaro, diretor da revista italiana ‘La Civiltà Cattolica’, a acentuar que o Papa, mencionando a tensão entre globalismo e localismo, indicou, de forma pujante, “a via da diplomacia multilateral, para que as nações voltem a colaborar na solução dos desafios globais”.
Segundo Spadaro, a diplomacia multilateral é “um ponto central” no discurso de Francisco, já que “o problema nos nossos dias é justamente o facto de que as nações tendem a resolver as questões individualmente”, sobretudo com o reaparecimento dos nacionalismos. E o Papa diz que devem ser resolvidas questões relevantes, como a tensão entre globalismo e localismo, alertando para o pouco respeito pelas situações locais e para a não audição dos povos.
Depois, Spadaro sublinha a insistente referência às mulheres (três vezes, em três lugares diferentes), com o Pontífice a apontar o dedo em três direções específicas: o abuso físico e psicológico das mulheres; a necessidade de descobrir formas de relações justas e equilibradas, baseadas no respeito mútuo e reconhecimento entre homens e mulheres; e a relevância da cessação das violações dos direitos humanos, que são causa de sofrimento especialmente para as mulheres “frequentemente em situação de fraqueza”. Nesse sentido, o Papa recordou e relevou o papel das mulheres na sociedade.
E, comentando a evocação do drama das guerras, o diretor de ‘La Civiltà Cattolica’ confessou-se “impressionado quando o Papa frisou que a política constrói a história, uma frase que de alguma forma mostra a vocação da política e articula os pontos de contacto entre o trabalho das Nações Unidas e o da Santa Sé”. Em três pontos de que falou (defesa dos fracos, construção de pontes entre os povos e repensar o destino comum), Francisco “quase reconstruiu o Atlas ao fazer uma lista de países onde há sérios problemas que devem ser enfrentados e abriu as janelas de algumas situações, como o acordo histórico entre a Etiópia e a Eritreia”. E Spadaro prosseguiu:
Ele quis, de alguma forma, indicar as situações que precisam de ser enfrentadas com maior coragem e, ao mesmo tempo, mostrar como, quando há coragem, podem ser encontradas soluções”.  
Mais: o Pontífice referiu-se “à situação dos migrantes e refugiados, mas olhando para essa situação de um ponto de vista verdadeiramente global”; ao problema sempre na pauta, o dos abusos, lembrando o 30.º aniversário da Convenção sobre os Direitos da Criança; e ao relacionamento com o planeta. E no âmbito deste último ponto, vincou:
Ele [o Papa] está ciente dos riscos do aquecimento global, que não são apenas riscos ecológicos, mas sociais. Isso porque a deterioração das condições climáticas leva muitas pessoas a emigrar. Para Francisco, a dimensão ecológica está profundamente ligada à dimensão social.”.
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São questões a que é urgente darem todos – governos, religiões, associações e sociedades, escolas e grupos de cidadãos – a devida atenção e fazerem tudo para a mudança eficaz!
2019.01.09 – Louro de Carvalho

terça-feira, 16 de outubro de 2018

Fátima fez memória de São Paulo VI no dia da sua canonização


A evocação litúrgica e decorativa da canonização
Na missa dominical do passado dia 14, no Recinto de Oração, presidida pelo Padre Carlos Cabecinhas, Reitor do Santuário de Fátima, e em que participaram 27 grupos de peregrinos, fez-se memória de Paulo VI, o primeiro Papa a visitar a Cova da Iria, e foram usadas as alfaias litúrgicas por ele oferecidas a este Santuário mariano.  
Na homilia, o presidente da celebração instou os participantes a profunda reflexão sobre as “prioridades e sobre as opções que daí decorrem”, isto porque a liturgia do dia exortava “a eleger Jesus Cristo como prioridade da nossa vida”, sendo que a sabedoria reside mesmo nisto: “deixarmo-nos guiar por Ele nas nossas opções e decisões”. Por outro lado, disse o Reitor, “a fé, que leva ao seguimento de Jesus, implica sempre quer a coragem de renunciar às nossas seguranças, quer a confiança n’Aquele em quem se acredita”, ao mesmo tempo que nos indica “as prioridades, que devem guiar as nossas opções e escolhas”, pois “qualquer escolha significa sempre e necessariamente eleger um caminho ou uma atitude, em detrimento de outros caminhos ou atitudes”. Assim, o Evangelho desafia o crente a escolher como prioridade “o seguimento de Jesus Cristo, da sua vontade, do seu exemplo, como critério fundamental que guia as nossas opções, as nossas escolhas”. E o Padre Cabecinhas vincou:
É uma questão de prioridades, ser cristão, ser seguidor, discípulo de Jesus Cristo, é ter como prioridade, como objetivo mais importante, como valor fundamental, a vontade de Deus, a comunhão com Deus”.
Entretanto, deve ter-se em conta que “Jesus não é concorrente com os nossos afetos e a vontade de Deus não se opõe ao que constitui já a nossa vida”, nem significa “ignorar a família ou desvalorizá-la”. Mas o presidente da celebração especificou:
Significa viver a vida familiar a partir de Deus; não significa não procurar os bens necessários para uma vida digna, significa ter a vontade de Deus, transmitida por Jesus, como guia seguro também no trabalho; não significa renunciar a procurar realização profissional. Significa não deixar que isso se sobreponha aos valores mais importantes que devem nortear a nossa vida e o nosso agir.”.
Sobre a Mensagem de Fátima, o Padre Cabecinhas sublinha que se centra “na primazia de Deus nas nossas vidas, na prioridade que Lhe demos dar e que só Ele deve ter”, tendo os Pastorinhos sido um bom exemplo do que significa dar a prioridade a Deus.
No final da missa, os peregrinos foram ainda convidados a rezar a oração que São Paulo VI fez em Fátima, escrita numa pagela distribuída no início da celebração. 
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São Paulo VI (1897-1978) foi o primeiro Papa a visitar Fátima a 13 de maio de 1967, por ocasião do cinquentenário das Aparições. Na celebração litúrgica associada à canonização e evocativa da visita papal foram utilizadas as alfaias litúrgicas oferecidas ao Santuário pelo Papa na sua peregrinação: o Cálice (juntamente com a Patena) e o Cibório (ou píxide) – obras da casa Giovanni Tosi, executadas em ouro e esmalte vermelho escuro, que apresentam (Cálice e Cibório) pé́ cónico, sobre base circular, sob a qual foi gravado o brasão pontifício paulino. Estas alfaias integram o acervo do Museu do Santuário, encontrando-se na exposição permanente “Fátima Luz e Paz”.
Também a estátua do Pontífice, que encerrou o Concilio Vaticano II, da autoria de Joaquim Correia e que se encontra no alto do Recinto de Oração, tem a partir do passado dia 14, uma ornamentação especial. O conjunto – tocheiro e floreira – parte do princípio de desenho utilizado junto da imagem de São João Paulo II e é igualmente conceção da arquiteta Joana Delgado. O tocheiro destaca-se do lado direito da imagem. A floreira é uma peça única, em pedra calcária, toda ela baixa. Enquadrando a  inscrição existente na base, a parte da floreira, cuja ornamentação será garantida pelo Santuário, sobressai cerca de 5cm relativamente à pedra.
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O primeiro papa a peregrinar para o Santuário de Fátima de que se mostrou amigo
São Paulo VI foi o primeiro Papa a fazer viagens internacionais, entre as quais uma visita a Fátima, em Portugal, onde deixou um acutilante e suplicante apelo à construção da Paz:
A nossa oração, depois de se ter dirigido ao céu, dirige-se aos homens de todo o mundo: Homens, dizemos neste momento singular, procurai ser dignos do dom divino da paz. Homens, sede homens. Homens, sede bons, sede cordatos, abri-vos à consideração do bem total do mundo. Homens, sede magnânimos. Homens, procurai ver o vosso prestígio e o vosso interesse, não como contrários ao prestígio e ao interesse dos outros, mas como solidários com eles. Homens, não penseis em projetos de destruição e de morte, de revolução e de violência; pensai em projetos de conforto comum e de colaboração solidária. Homens, pensai na gravidade e na grandeza desta hora, que pode ser decisiva para a história da geração presente e futura; e recomeçai a aproximar-vos uns dos outros com intenções de construir um mundo novo; sim, um mundo de homens verdadeiros, o qual é impossível de conseguir se não tem o sol de Deus no seu horizonte. Homens, escutai, através da Nossa humilde e trémula voz, o eco vigoroso da Palavra de Cristo: Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra, bem-aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus.” (Da homilia de Paulo VI, na Missa, 13 de maio de 1967).
Uma primeira mostra do carinho paulino pelo Santuário fatimita foi revelada no encerramento da 3.ª sessão do Concílio Vaticano II, com a proclamação, por parte de Paulo VI, de Nossa Senhora como “Mãe da Igreja” e o anúncio da oferta da Rosa de Ouro ao Santuário de Fátima, com as seguintes palavras:
Resolvemos enviar proximamente, por meio de uma missão especial, a Rosa de Ouro ao Santuário de Nossa Senhora de Fátima, tão caro não só ao povo da nobre nação portuguesa... como também conhecido e venerado pelos fiéis de todo o mundo católico. Destarte, também nós pretendemos confiar aos cuidados da celeste Mãe a inteira família humana...”.
Também no dia da sua partida para Fátima, publicou a Exortação Apostólica Signum Magnum sobre o culto da Virgem Maria, Mãe da Igreja e modelo de virtudes, com o exortação explícita a todos os cristãos “a renovar pessoalmente a sua própria consagração ao Coração Imaculado da Mãe da Igreja”, aspeto central da mensagem de Fátima.
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Dados biográficos de São Paulo VI
Como o nome de Giovanni Battista Montini nasceu em Concesio, Bréscia, na Lombardia, e foi ordenado sacerdote ainda antes de completar 23 anos, em 1920, tendo feito doutoramentos em filosofia, direito civil e direito canónico.
Esteve ao serviço diplomático da Santa Sé e da pastoral universitária italiana, tendo vivido a II Guerra Mundial no Vaticano, onde se ocupou da ajuda a refugiados e a judeus. E, após o conflito, colaborou na fundação da Associação Católica de Trabalhadores Italianos, antes de ser nomeado Arcebispo de Milão, em 1954. São João XXIII criou-o cardeal em 1958, o que o levou a participar nos trabalhos preparatórios do Concílio.
Eleito Papa a 21 de junho de 1963, escolheu o nome de Paulo VI, e assumiu o timão do Concílio guiando, entre várias dificuldades, a Igreja para o diálogo com o mundo da contemporaneidade e para a refontalização evangélica no respeito pela genuína tradição. Entretanto, escreveu sete encíclicas, entre as quais a ‘Ecclesiam suam’, sobre os caminhos da Igreja, a ‘Populorum progressio’ (1967), sobre o desenvolvimento dos povos, e a ‘Humanae vitae’ (1968), sobre a regulação da natalidade, produziu várias exortações apostólicas, com relevo para a ‘Marialis cultus’, para a reta ordenação e desenvolvimento do culto à bem-aventurada Virgem Maria, e a ‘Evangelii nuntiandi’ (1978), sobre a evangelização no mundo contemporâneo, e instituiu o Sínodo dos Bispos e o Dia Mundial da Paz.
Falecido em Castel Gandolfo a 6 de agosto de 1978, festa da Transfiguração do Senhor, foi beatificado a 19 de outubro de 2014 e canonizado no passado dia 14 de outubro, tornando-se no quarto Pontífice do século XX a ser canonizado, depois de Pio X, João XXIII e João Paulo II.
A biografia divulgada pelo Vaticano aquando da sua beatificação referia que Paulo VI “sofreu muito por causa das crises que afetaram repetidamente o corpo da Igreja”, durante a sua vida, tendo respondido com “uma corajosa transmissão da fé, garantindo a solidez doutrinal num período de mudanças ideológicas”. E “manifestou uma grande capacidade de mediação em todos os campos, foi prudente nas decisões, tenaz na afirmação dos princípios, compreensivo com as fraquezas humanas”.
Por seu turno, a biografia divulgada a propósito da canonização salienta a sua ação junto dos perseguidos durante a II Guerra Mundial, a sua proximidade para com os afastados da Igreja e os marginalizados e a sua entrega ao “anúncio do Evangelho, testemunhando com paixão o seu amor ao Senhor e a Igreja”.
A 7 de março de 2018 o Papa Francisco aprovou um milagre atribuído à intercessão do Beato Paulo VI abrindo assim caminho à sua canonização.
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A vinda de Paulo VI veio a Fátima levou Fátima ao mundo
O anúncio da concessão da Rosa de Ouro ao Santuário de Fátima, na conclusão da 3.ª sessão do Concílio Vaticano II, a 21 de novembro de 1965, foi o primeiro ato público de Paulo VI para com Fátima. Foi o Cardeal Ferdinando Cento, legado pontifício, que fez a entrega desta “expressão de particular reconhecimento por serviços prestados à Igreja”, a 13 de maio do ano seguinte. Contudo, a presença do Papa na Cova da Iria viria a concretizar-se daí a dois anos: a 13 de maio de 1967, tornando-o, assim, no primeiro Papa peregrino de Fátima aonde veio rezar pela Igreja e pela paz, pondo Fátima no centro do mundo católico.
A sua vinda a Fátima para o Cinquentenário das Aparições foi tornada pública pela Santa Sé apenas 10 dias antes, não se prevendo que ele viesse, até porque nomeara como seu legado a latere o Cardeal Dom José da Costa Nunes para presidir às solenidades da Peregrinação Aniversária. Porém, a 3 de maio de 1967, um ano após o convite do episcopado português para que o Pontífice estivesse na Cova da Iria por ocasião da efeméride, o próprio confirmava a sua vinda a Fátima, “para honrar Maria Santíssima e para invocar a sua intercessão a favor da paz da Igreja e do Mundo”.
A ocasião não podia ser mais oportuna. Além do cinquentenário da 1.ª Aparição da Virgem, o Papa preparava-se para publicar a Exortação Pastoral ‘Signum magnum’, já referida. Por outro lado, as relações entre o Governo português de então e a Santa Sé passavam por um momento delicado, em parte, devido à guerra colonial e à presença do Papa, 4 anos antes, no congresso eucarístico na Índia, onde se situava Goa, que era o patriarcado do oriente e uma das possessões ultramarinas então ainda reclamadas pelo executivo português.
Em todo o caso, compareceram em Monte Real, onde o avião da TAP aterrou, como em Fátima, (após ter sobrevoado a Cova da Iria, cuja multidão aclamou entusiasticamente o Papa com o acenar de lenços brancos) o Presidente da República, o Presidente do Conselho de Ministros, outras altas individualidades civis e militares, juntamente com o Bispo de Leiria, o Núncio Apostólico e muito povo. O Presidente da República, depois dos cumprimentos, proferiu uma saudação de boas-vindas, que o Santo Padre agradeceu comovidamente, evocando a vinda de peregrinos de todo o mundo a Fátima, a Portugal, em contraponto à partida de muitos portugueses para longínquas terras a anunciar o Evangelho, e enunciou o seu propósito de peregrino da paz:
É Nosso ardente desejo render homenagem filial à excelsa Mãe de Deus, na Cova de Iria. Para lá encaminharemos agora os Nossos passos, com espírito de oração e de penitência, para suplicar a Nossa Senhora de Fátima que faça reinar na Igreja e no mundo o inestimável bem da paz.”.
E, em tempo de raridade das viagens pontifícias, a vinda de Paulo VI a Fátima – a 4.ª do seu pontificado – encontrou, desde logo, resistência no Vaticano. O cardeal Dom António Marto deu conta dessa oposição, no passado dia 12, na conferência de imprensa da última Peregrinação Aniversária de 2018, ao revelar uma informação do Cardeal Giovanni Battista Re, que na altura estava no serviço diplomático da Santa Sé e que lhe referiu pessoalmente que Paulo VI “veio a Fátima por uma decisão total e estritamente pessoal, contra a opinião de toda cúria romana”.
O Bispo de Leiria-Fátima, que então era um jovem, ainda hoje recorda as palavras lapidares que o Santo Padre deixou em Fátima na sua homilia:
Homens, (…) procurai ser dignos do dom divino da paz. Homens, sede homens. Homens, sede bons, sede cordatos, abri-vos à consideração do bem total do mundo”.
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A paz e a unidade da Igreja
A paz e a unidade da Igreja foram os dois pontos fulcrais que trouxe Paulo VI à Cova da Iria. Isso mesmo o espelha a edição de junho de 1967 do mensário “A Voz da Fátima”, que abria a 1.ª página com o título “O Papa veio a Fátima”, enunciando logo depois as “duas preocupações dominantes do Papa na sua histórica peregrinação”: “a Igreja e a paz”. Por outro lado, frisava:
 Fátima tornou-se, agora, mais que nunca verdadeiro altar do mundo, para onde se voltam todos os corações que buscam a paz e o bem”.
Após a visita de Paulo VI, começou a fazer-se notar a visibilidade de Fátima logo no mês seguinte, segundo o predito mensário, pelas inúmeras cartas, telegramas, mensagens e petições que chegavam, de todo o mundo, ao Santuário, com pedidos de estampas, livros, orações, e a felicitar pela forma brilhante como decorreu a peregrinação de Sua Santidade.
Entrevistado pelo jornal diocesano “A Voz do Domingo”, meses após a visita, Dom João Pereira Venâncio, Bispo de Leiria, revelava o entusiasmo com que o Papa viveu na vinda a Fátima, num testemunho de quem o acompanhou muito de perto:
O povo português foi uma revelação para o Santo Padre. Nunca Sua Santidade, decerto, imaginaria vir encontrar aqui tanta devoção à Virgem e ao Vigário de Cristo, tanto entusiasmo, tanta alegria.”.
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Eu vi a humanidade – disse o Papa a Jean Guitton
Monsenhor Luciano Paulo Guerra, Reitor do Santuário de Fátima de 1973 a 2008, presente em Fátima naquele dia 13 de maio de 1967, como locutor da Peregrinação, descreve:
Recordo-me de que foi um dia de muita chuva. Tenho uma vaga ideia de ter visto o Papa por entre a multidão, que era imensa e cerrada. A memória mais pessoal que tenho foi de me terem pedido para anunciar, ao microfone, que o Santo Padre estava a mostrar a Irmã Lúcia às pessoas. Naquele período conciliar, fiquei surpreendido com esta atitude do Papa de colocar a Irmã em relevo.”.
Sobre o contacto que viu o Santo Padre ter com os peregrinos, sublinha que o Papa “ficou muitíssimo impressionado com a multidão”, tal como o refere, no seu diário, o filósofo cristão Jean Guitton, que, dias depois da visita, se encontrou pessoalmente com o Papa, e ouviu as impressões do Pontífice sobre a peregrinação a Fátima:
Foi muito diferente das outras três visitas que eu fiz, totalmente diferente. Não poderei resumir a minha impressão senão por uma única palavra: eu vi a humanidade. Sim, a humanidade, a verdadeira, a humanidade no seu estado de simplicidade, de oração e de penitência. Era a visão da reunião final, talvez a maior reunião de verdadeiros crentes. Nunca tinha visto tal coisa neste mundo. Em Fátima a multidão ocupava uma só cova, tendo a impressão que a humanidade, verdadeiramente, era uma.”.
A propósito da Mensagem de Fátima, o Papa nada disse, provavelmente, como interpreta Monsenhor Luciano Guerra, “numa vontade de querer respeitar a sensibilidade cautelosa de uma parte importante da Igreja”.
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Um marco e um novo fôlego para a vida de Igreja em Portugal
Num momento em que ainda eram vivamente discutidas na Igreja as Aparições, a vinda do Papa “despertou um certo interesse e uma nova perspetiva sobre Fátima”, como refere o Padre Manuel Antunes, também presente na Cova da Iria a 13 de maio de 1967. Para este capelão do Santuário e coordenador do serviço de confissões nesse dia, a presença de Paulo VI em Fátima foi um marco na vida da igreja  católica portuguesa, como recorda:
A vinda de Paulo VI marcou muito a vida religiosa da nossa gente e foi um novo fôlego para a fé em Portugal. Também foi a partir daí que o mundo começou a olhar mais para Fátima, porque esta visita foi vista, por muitos, como uma confirmação das Aparições. Esse crescendo de interesse notou-se no aumento do número de peregrinos, inclusivamente sacerdotes.
E, refere enaltecendo a qualidade papal de peregrino em detrimento de uma postura política:
Como veio como peregrino, não tomou uma atitude diplomática, mas de pastor da Igreja, desligando-se completamente da política. Quando entrou no Santuário, foi uma explosão de alegria da multidão, ali presente para ver o primeiro Papa em Fátima.”.
Por sua vez, o Padre José Galamba de Oliveira, da diocese de Leiria, fez um breve relato na edição de julho de 1967 do mensário “A Voz da Fátima”, de que se destacam alguns dados.
O Papa e a sua comitiva saíram de Roma cedinho em avião da TAP, que sobrevoou a Espanha, abordou a Cova da Iria e aterrou no aeródromo de Monte Real às 9,53 horas. Calorosamente saudado em todo o percurso e em especial junto das povoações dos arredores, o cortejo deteve-se na cidade de Leiria, onde o Presidente da Câmara entregou ao Santo Padre as chaves da cidade, com uma bela mensagem de saudação e pedido de bênção para todo o povo do concelho.
A entrada solene na Cova da Iria foi certamente a mais extraordinária ovação que Paulo VI jamais recebeu. Proclamado o Evangelho na Santa Missa, o Santo Padre proferiu em português uma pertinente homilia e, na altura própria, deu a comunhão a uns 50 fiéis.
Terminada a Missa, benzeu a primeira pedra do novo Colégio Português em Roma, recebeu os cumprimentos da Irmã Lúcia que apresentou à multidão e ofereceu um belo rosário de prata à Imagem de Nossa Senhora de Fátima. Feita uma oração especial pelos doentes e dada a bênção em conjunto, saudou uma vez mais a multidão e retirou-se para a Casa de Retiros Nossa Senhora do Carmo, onde tinha os seus aposentos e tomou a refeição. Antes, veio uma vez mais à presença da multidão à antiga varanda do albergue, onde recebeu nova aclamação.
A seguir, tiveram lugar audiências ao Presidente da República, Presidente do Conselho, com alguns membros do Governo, episcopado português, corpo diplomático, famílias reais presentes, leigos dirigentes de várias obras católicas e um grupo de cristãos não católicos.
A despedida foi breve e afetuosa. Às 22 horas da noite, chegou a Roma e disse:
Encontrei em Portugal um povo bom e piedoso. Foi uma experiência maravilhosa que mostrou o caminho para a reconstrução do Mundo tal como o desejamos – de oração, humildade, concórdia e boa vontade.”
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O 13 de maio de 1967 foi, pois um marco para a Igreja em Portugal, para Fátima e para a maior divulgação da Mensagem.  “Peregrino humilde e confiante”, rezou pela “paz interior” da Igreja e pela paz mundial” e levou ao mundo a Mensagem de paz que Nossa Senhora nos deixou.
2018.10.16 – Louro de Carvalho