terça-feira, 5 de junho de 2018

A industrialização da educação e do ensino



Há muito tempo que a educação e o ensino deixaram de ser ocupação maioritária de amadores e os seus agentes se tornaram profissionais munidos de um estatuto que lhes confere uma carreira, enuncia os direitos e os deveres e define o seu conteúdo funcional no quadro da observância de normativos básicos em que há lugar para a autonomia profissional e isenção científica e cultural, concretizando-se tal autonomia pela escolha ou produção de materiais pedagógicos e seleção de métodos e técnicas pedagógico-didáticos, sem esquecer a liberdade da atualização científica e em ciências da educação. Além disso, torna os educadores e professores em cooperantes de projetos pedagógicos comuns em prol da cidadania e do futuro das crianças e jovens.
Todavia, a pari, a educação e o ensino foram sendo objeto de negócio muito semelhante ao relativo ao processo de industrialização, o que se torna evidente nos estabelecimentos do ensino privado e no ensino à distância. Os elementos preponderantes desta industrialização residem basicamente na procura de resultados prévia e comummente definidos (em geral de forma tácita) e aceites, através de vias uniformes e da maior economia de meios, indo desembocar numa avaliação padronizada e em quase tudo uniforme. E esta ótica invadiu a escola pública quer através da produção editorial, quer através das diretivas do governo central, quer através da depauperação que os sucessivos Ministérios das Finanças vêm inoculando no sistema educativo.
É óbvio que o Estado deve promover a economia de meios (não a miserabilização), mas sem prejudicar os desígnios da educação e do ensino enquanto fautores do desenvolvimento da personalidade e da articulação com a sociedade que desejamos edificar e desenvolver.   
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O ensino à distância constituiu a forma de colmatação do acesso lacunar de todos à educação e hoje representa uma poderosa mais-valia no aperfeiçoamento formativo dos cidadãos e na complementação da qualificação profissional e académica. Com efeito, desenvolvendo-se a par dos meios de comunicação, indústria e comércio, vem enformado pelos princípios do processo de industrialização, tais como a racionalização e divisão do trabalho, a atribuição de tarefas parcelares a especialistas, a mecanização e a automatização. Assim, as analogias mais evidentes são: importância o trabalho prévio ao processo; dependência da eficácia do processo de ensino-aprendizagem de planeamento e organização adequados; divisão das funções do formador em subfunções a realizar por especialistas, de forma análoga ao processo de produção na linha de montagem; resultado da rendibilidade económica a partir da consecução de número elevado de formandos (à educação de massas corresponde a produção de massas); a necessidade de investimentos de capital, concentração de recursos e administração qualificada e centralizada.
São caraterísticas que justificam a afirmação de que esta é a mais industrializada forma de ensino, em comparação o ensino tradicional em sala de aula (já não o atual), que se aproximava estruturalmente do trabalho oficinal pré-industrial. Porém, a recente evolução na indústria mostra a tendência de abandono da típica produção em linha, optando pela organização em pequenos grupos em que o indivíduo, em vez de estar dedicado uma única atividade, se envolve em várias, num modelo em que se recriam algumas das condições das antigas oficinas. E as sociedades mais industrializadas fazem emergir e generalizar subculturas partilhando em comum posições de rejeição e critica à ordem estabelecida prenunciando nova era, a era pós-industrial caraterizada essencialmente por três alterações de natureza económica: enorme crescimento do número de empregados no setor terciário e no dos serviços; emergência de novas tecnologias e progressiva massificação do acesso; e alteração da estrutura da tomada de decisões na economia e na sociedade em geral.
O crescimento (qualitativo e quantitativo) no setor dos serviços tornou-se o maior empregador nos países industrializados, com a exigência de cada vez mais altas qualificações para o desempenho das tarefas – o que, a par do rápido desenvolvimento do conhecimento, tornou imperiosa a formação contínua e especializada, bem como a aprendizagem ao longo da vida. A utilização de computadores e sistemas de comunicação trouxe para primeiro plano a informação, fazendo alterar muito as estruturas da produção e levando a pensar que num futuro não muito longínquo a localização geográfica da empresa ou do trabalhador deixarão de ser condição determinante para a produção. Aliás, há já profissionais que não precisam de sair de casa para executar o trabalho. E a estrutura da tomada de decisão também se alterou: não é já o empresário o único a decidir, mas grupos em que os membros tomam decisões grupais, planeiam e controlam o próprio trabalho, com o controlo global a ser assegurado por complexos sistemas de informação.
De facto, a relação homem-máquina, caraterística da sociedade industrial, será substituída pela relação interpessoal, sendo as pessoas o centro da atenção e interesse, não a instituição. Mas as pessoas também terão de mudar, desenvolvendo novas competências e desempenhando novos papéis. O trabalho ser-lhes-á experiência mais criativa e satisfatória. E a organização e gestão do trabalho trarão significativas mudanças extensivas ao campo das atitudes e valores.
Voltando ao ensino à distância, verifica-se que muitos dos aspetos que o caraterizam o definem como forma industrializada de ensino. Ora, desde as origens, utiliza os meios de comunicação para a realização do processo de ensino-aprendizagem em que formadores e formandos estão separados fisicamente e realizam a sua quota do trabalho em tempos não simultâneos. O isolamento do formando obrigou a que se fomentasse a sua autonomia e independência sendo ele a determinar e gerir a própria aprendizagem. E, embora um dos deveres dos profissionais deste ensino seja disponibilizar aos formandos autossuficientes materiais de ensino, sempre se impôs a necessidade da existência de formas de interação social entre os parceiros, obrigando ao desenvolvimento de vasta gama de recursos destinados a tal interação. Assim, não há curso deste ensino que não proponha ou disponibilize aos formandos centros de apoio e de recursos, reuniões regulares com formadores ou tutores para aconselhamento ou superação de dificuldades na aprendizagem, criação de grupos de apoio mútuo por locais de trabalho ou áreas de residência, etc.. Também a apetência e utilização dos novos meios electrónicos de comunicação são uma constante no ensino à distância, verificando-se ultimamente um muito rápido desenvolvimento na utilização das novas tecnologias para comunicações bidirecionais que permitem a interação entre formandos e formadores e induzindo a criação de salas de aula virtuais a recriar a situação da sala de aula tradicional, que tem s suas vantagens.
Estas afinidades entre a industrialização e o ensino à distância e, sobretudo, o que se “sonha” para a sociedade pós-industrial e pós-moderna devem refletir-se no pensamento sobre este ensino. Desta forma, o lançamento de programas, tendo em mira o tempo presente e em especial a sua população alvo, deverá ainda perspetivar os seguintes aspetos: alterações nas caraterísticas da procura, que deixará de ser pontual e assumirá forma continuada e diversificada decorrente das necessidades de uma aprendizagem ao longo da vida; objetivos dos formandos, que deixarão de ser predominantemente materialistas e dirigidos à busca de melhorias profissionais, passando também a ser determinados por razões de natureza pessoal, social e cultural; estrutura e currículos, que deem respostas a estas necessidades pessoais e sociais emergentes; métodos, que, de centrados nos materiais e no autoestudo, encontrem as vias para o desenvolvimento de relações de tipo social, nomeadamente a criação de condições para o trabalho de grupo e o desenvolvimento do diálogo entre formadores e formandos; e uso das novas tecnologias da informação, que, para lá proporcionarem aos formandos uma informação mais acessível e rica, proporcionem a interação entre os vários intervenientes no processo de ensino-aprendizagem.
O ensino à distância, que é um produto típico da sociedade industrial por aplicar na sua ação muitos dos princípios da indústria e por responder a muitas das necessidades e problemas dessa sociedade, especialmente duma sociedade em que se conjugam a necessidade de melhores competências e qualificações profissionais e o desejo individual de melhorar o estatuto socioprofissional para desenvolver a motivação dos indivíduos, a possibilidade de atingir os objetivos sociais e individuais sem a necessidade do afastamento temporário do posto de trabalho, será um fator determinante na evolução próxima e futura do ensino.
Se a sociedade industrial se definia pela qualidade dos bens postos no mercado e pelo nível de vida, a sociedade pós-industrial definir-se-á pela qualidade de vida advinda de serviços e comodidades (saúde, educação, lazer, artes, etc.) agora desejados por todos e possíveis para muitos.
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Porém, será de rejeitar a industrialização da educação e ensino que:
- Se contente com o desenvolvimento de competências mínimas de modo que o formando, uma vez diplomado, desempenhe mecanicamente os misteres de que é incumbido, sem o bastante conhecimento técnico-científico, que fundamente a prática, e sem sentido crítico e abertura à inovação, posicionando-se na prestação dum trabalho autómato, desqualificado e mal pago; 
- Albergue profissionais que se limitem à prática de atos rotineiros, recurso aos métodos e técnicas de sempre, distanciação fria perante os alunos/formandos e colegas e relação acomodada com os conteúdos a transmitir de modo invariável, no pressuposto de que está garantido em definitivo o seu trabalho/emprego – ou que se apliquem de forma errática e falsamente inovadora, por receio de uma avaliação de desempenho que os possa desligar do posto de trabalho ou de emprego;  
- Procure, em termos privados, o lucro excessivo ou que, em termos públicos, persista na vertente economicista, minorando o investimento no capital humano como o mais precioso.
- Permita a delapidação do erário, o esbanjamento de recursos, a degradação do património ou as atitudes contra o ambiente, vindo posteriormente lançar apelos desesperados aos agentes económicos, sociais e culturais com vista à saúde do planeta;
- Recorra desnecessariamente ao recrutamento e seleção de agentes sem a habilitação adequada e sem o conhecimento do setor profissional ou científico em que ministram o ensino;
- Promova a falsa competitividade entre estabelecimentos de educação e ensino, favorecendo o despique, os rankings, o mal-estar social e a falta de estatuição de parcerias numa ótica de desenvolvimento sustentável, global, integrado e integrador;
- Manipule a população escolar, de forma indiferenciada e massificadora, ao serviço do capital.
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Em contraponto, será de acolher e promover a industrialização da educação e ensino que:
- Disponha de espaços físicos adequados ao desenvolvimento de competências gerais e específicas, à luz das grandes competências-chave, que edifiquem um perfil de educando e de diplomando ajustado ao seu nível etário e às justas expectativas colocadas no nível escolar consentâneo com a idade ou com o grau de formação e qualificação que se pretende para o exercício duma atividade profissional e/ou de intervenção cívica e política;  
- Mobilize profissionais e agentes adequadamente habilitados, conhecedores do meio e do setor de atividade em que profissionalmente estão empenhados;
- Dinamize práticas de direção, gestão e administração pautadas pela definição de objetivos estratégicos, setoriais e específicos na ótica de procura da excelência e na postura permanente de avaliação (auto e hetero), utilizando métodos e técnicas inovadores, com vista à eficácia educativa e à preparação para o mundo do trabalho e/ou prossecução de estudos superiores e especializados – ou seja, pretendendo a empresarialização em nome da eficácia e alocação dos recursos, mas visando o fundamental da ação pedagógica, científica e cultural;   
- Exercite a comunicação interna que propicie a gestão de afetos e conflitos, imprima coerência, eficácia e qualidade às atividades, favorecendo o mesmo sentir no essencial e a liberdade de opinião e ação nas matérias em que ela deve ser incentivada;
- Dialogue, coopere e estatua parcerias com instituições, organismos, serviços e unidades de produção/transformação com vista ao desenvolvimento pessoal e social dos educandos e formandos e à sua inserção no mundo da realidade comunitária e laboral;
- Prepare os clientes da educação, formação e ensino para o exercício da atividade profissional gradualmente mais sustentada, qualificada, inovadora e bem remunerada;
- Crie desconforto a quem se encastele nas atividades rotineiras ou no surto intriguista, mas estimule quem se entregue, de alma e coração, à criação e desenvolvimento do sentido autonómico, do espírito crítico e da cultura do respeito, responsabilidade e exigência;
- Potencie a industrialização das matérias, atividades, setores e lugares com apetência para tal, na senda da rendibilização, da resposta diferenciada às aspirações das massas, da mobilização de todos os recursos e da valorização da pessoa, da comunidade, do trabalho e do capital, mas sendo a escola a assumir-se como o motor do desenvolvimento e não a deixar-se manipula pela onda mercantilista;     
- Edifique a intervenção cívica e o contributo pessoal e grupal para o desenvolvimento, progresso e bem-estar de todos;
- Tire partido da utilização da inteligência teórico-prática, da componente emocional e do conveniente sentido de humor, em parâmetros do são humanismo e da efetiva modernização.
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Em suma, postula-se uma industrialização que retenha o significado latino de “indústria” (industria, ae – zelo, atividade, cuidado, aplicação, diligência, trabalho, dedicação) e que avance em razão da eficácia e qualidade, mas considere o valor da pessoa humana, da família e da sociedade. Além disso, deve exigir-se que, seja qual for a modalidade e o objeto da educação, do ensino e da formação, se reserve um tempo suficiente para a arte, o lazer, o tempo livre e mesmo o divertimento. Com efeito, o ser humano nunca pode deixar de ter sido em conta no planeamento, organização, desenvolvimento e avaliação de qualquer atividade.
2018.06.04 – Louro de Carvalho  

domingo, 3 de junho de 2018

A festa de Cristo, a festa da Igreja e a festa de todos nós


Celebrou-se na passada quinta-feira, dia 31 de maio, a Solenidade do Corpus Christi ou Corpo de Deus (ou do Corpo e Sangue de Cristo – efetivamente é em Jesus que Deus assume o corpo). Porém, nos países em que a predita quinta-feira não é feriado, a Solenidade passa para o domingo seguinte.
Também referi, na reflexão da passada quinta-feira, que, se não ocorresse a Solenidade, se faria a memória litúrgica da Visitação de Nossa Senhora. Não obstante, é de referir que o culto de Maria não fica prejudicado pela circunstância, quer porque a memória litúrgica é transferível, quer porque a espiritualidade mariana se encaminha para o Mistério de Cristo e se integra nele; e esplende no Mistério da Igreja, como adiante se explicitará.
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A celebração do Corpus Christi marca a importância da Eucaristia na vida cristã. Mas é pertinente explicitar o porquê da sua celebração com fundamento bíblico ao encontro das necessidades do crente. É a vontade do Senhor que postula a celebração (Desejei ardentemente comer esta Páscoa convosco – Lc 22,15). É também um mandamento (ou ordem) de Jesus, que é preciso cumprir (Fazei isto para celebrar a minha memória – Lc 22,19). Deste modo, a Eucaristia é Memória da sua Vida, Paixão, Morte, Ressurreição e Ascensão. E Jesus, Pão repartido para a vida do mundo, recordou aos donos da memória esquecimentos, por vezes, crónicos: os pobres, os cegos, os surdos, os coxos, a justiça, a mulher e outros. Com efeito, memória é missão: O Espírito do Senhor está sobre mim... (Lc 4, 18-19). A pari,  ressalta que a Eucaristia é alimento espiritual do homem crente que peregrina no mundo (o alimento do peregrino é Palavra e Pão): 
Não só de pão vive o homem, mas de toda palavra que sai da boca de Deus” (Mt 4,4). “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue vive em mim e eu vivo nele. E como o Pai, que vive, me enviou e eu vivo pelo Pai, assim aquele que me recebe como alimento viverá por mim”. (Jo 6,56-57).
Em seu testamento, Jesus deixou -nos a sua herança: a Eucaristia, sacramento, sua presença real, valor incalculável e o bem maior que a Igreja nos oferece pelo mistério da consagração.
Fica pela Eucaristia atualizada a presença real de Jesus no mundo, em conformidade com a promessa: “Eu estarei convosco todos os dias até ao fim dos tempos” (Mt 28,20).
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Asseguram os teólogos e os liturgistas, bem como o sentem os cristãos, que o Corpus Christi é uma demonstração pública da fé.  Os textos da Liturgia da Palavra da Solenidade – a 1.ª Leitura, do Livro do Êxodo (Ex 24,3-8), a 2.ª Leitura, da Carta aos Hebreus (Heb 9,11-15) e o Evangelho de Marcos (Mc 14,12-16.22-26) – mostram que fazer memória da doação do Senhor nos leva à partilha da vida em plenitude, vida que fica toda em cada um e que a alegria desta convicção de fé, esperança e vida não pode ficar encerrada no coração de cada um ou no interior do templo. E, se é de guardar o Sacramento no local da reserva (sacrário), não se pode fazê-lo como quem utiliza a prateleira do não utilizável agora. Assim, a História foi ensinando a Igreja a tomar as atitudes mais consentâneas com a sublimidade e a disponibilidade do Mistério.
Na Igreja primitiva, celebrava-se o sacrifício da eucaristia no contexto de refeição entre famílias, vindo o sacrário a surgir pela necessidade de levar o Pão da Vida aos reclusos e enfermos, nomeadamente moribundos, bem como os condenados ao martírio. Para os enfermos moribundos e para os mártires a comunhão no Corpo do Senhor era considerada o adiutorium viaticum ou simplesmente ‘viaticum’, auxílio para (última) viagem. Ainda hoje se fala do sagrado viático quando o sacramento é ministrado aos enfermos, sobretudo se agonizantes. Depois, viu-se na reserva eucarística em sacrário uma oportunidade para distribuir a comunhão aos que não puderam participar na celebração, para a exposição do Santíssimo Sacramento e adoração, para a procissão eucarística, a mostrar que Ele caminha connosco nesta peregrinação terrestre e vem ao nosso encontro, tal como está disponível para a nossa visita e ação de companheirismo. 
Na Idade Média, frente às heresias que negavam a presença real de Jesus, desenvolveu-se o culto eucarístico e o Papa Urbano IV, em 1264, instituiu esta festa/solenidade para toda a Igreja, a celebrar na quinta-feira após a Solenidade da Santíssima Trindade, 60 dias depois da Páscoa. Faz-se memória da Instituição da Eucaristia em Quinta-feira Santa, mas, agora, com solene festa pública constando, além da celebração da Missa, de procissões do Santíssimo Sacramento ou ‘passeatas da fé eucarística”, a dar público testemunho da presença real e eminente de Jesus na Hóstia santa, fruto da celebração eucarística, que foi comungada no banquete da fraternidade, expressão da comum filiação divina. É a verdadeira exclaustração da Eucaristia a dar o estatuto da cidadania na cidade dos homens a Jesus Cristo para que Ele opere a transformação do século.
Na segunda metade do século XIX, em França, nasceram os congressos eucarísticos, por iniciativa da devota Emilie Tamisier (1834-1910), sob inspiração de São Pedro Julião Eymard (1811-1868), chamado o “Apóstolo da Eucaristia”, que tomou a iniciativa de organizar, com a ajuda de outros leigos, sacerdotes e bispos e com a bênção do Papa Leão XIII, o primeiro Congresso Eucarístico Internacional em Lille, com o tema: “A Eucaristia salva o mundo”. Apostava-se na renovada fé em Cristo presente na Eucaristia como remédio contra a ignorância e a indiferença religiosa. Os primeiros Congressos inspiraram-se, pois, na viva fé na presença real da pessoa de Jesus no sacramento da Eucaristia. Assim, o culto eucarístico manifestava-se de modo particular pela adoração solene e pelas grandiosas procissões que evidenciavam o triunfo da Eucaristia. Com Pio XI os Congressos Eucarísticos tornaram-se internacionais e passaram a ser celebrados rotativamente em todos os Continentes, adquirindo a dimensão missionária e de “reevangelização” (expressão usada na preparação do Congresso de Manila em 1937).
Tal como o povo da época de Jesus O acompanhava, nós assim o fazemos, manifestando as nossas dores e alegrias. Os evangelhos registam que, na caminhada de Jesus estava para Jerusalém, acompanhado de muitas pessoas, um cego à ‘beira do caminho’, ouvindo certos murmúrios, perguntou o que era aquilo e informaram-no: 
É Jesus de Nazaré que vem passando! Então, o cego pôs-se a exclamar: ‘Jesus! Filho de David, tem misericórdia de mim!’. Os que caminhavam à frente repreenderam-no para que se calasse; entretanto, o homem gritava cada vez mais alto: Filho de David, tem misericórdia de mim!” (Lc 18,37-39).
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O Corpus Christi, solenidade do Corpo e Sangue de Cristo é a festa do Pão Eucarístico. Pão é alimento universal. Alimentou Elias na sua viagem e o povo no deserto (ázimos, maná) durante muitos anos, rumo à Terra Prometida. Agora, Jesus, feito o Pão da Vida, alimenta-nos a nós, povo peregrino, rumo ao céu, nossa Terra Prometida: O Pão da Vida, a comunhão, une-nos a Cristo e aos irmãos e ensina-nos a abrir as mãos para partir e repartir o pão. Pão e vinho são produtos da terra e, muitas vezes, dividem as pessoas. Porém, quando transformados, unem não só ao nível afetivo, mas também ao nível material, tornam-se meio de comunhão. Pão é fruto do trabalho humano, mas quando repartido, torna-se divino, Jesus eucarístico, Deus Connosco, Comunhão, banquete que antecipa o céu, “Cristo tudo em todos”. E o cristão, como ser humano, tem necessidade de alimento para conservar a vida e, como crente e discípulo de Jesus, tem mais necessidade dum alimento que lhe dê força, coragem, perseverança e segurança; tem necessidade dum pão que o capacite para a superação das dificuldades vitais. A Eucaristia é este pão, a segurança de que Deus nos ama, a certeza da ressurreição. Sem alimento, não se vive, não se ama, não se trabalha, não se relaciona, não se faz comunidade, não se constrói a felicidade. E Jesus não é só alimento, é presença, tal como, por exemplo, o aleitamento materno não é só alimento, mas é também afeto, amor, acolhimento, etc., que traz consequências psicológicas benéfica; e a refeição humana, se tomada em conjunto, faz presença dialogante em sadia convivência, afeto e familiaridade ou em planificação de vida e mesmo de negócios.
O Sangue Eucarístico da Nova Aliança dá a vida pelas vítimas – enquanto os ídolos querem o sangue (a vida dos seguidores) – e suscita de cada um a capacidade e a obrigação de presença na comunidade e junto de cada um dos irmãos, mormente dos que mais precisam. E bem podemos inferir que Deus não está isolado no céu. Cuida de nos alimentar e saciar. Para tanto, desceu do Céu para o seio de Maria (o Verbo Se fez carne); do seio de Maria para a manjedoura; da manjedoura para a vida de ensino e sinais, da vida de ensino e sinais para a Ceia e para a Cruz; da Ceia e da Cruz, por palavras e sinais, para um pedacito de pão e um pouquito de vinho; e do pão e do vinho para a Comunidade, para cada um de nós e para o mundo, que urge transfigurar segundo o coração de Deus.
A Eucaristia é inequivocamente Sacrifício, atualização incruenta do único sacrifício de Jesus: Para a glória de seu nome, para o nosso bem e de toda a Santa Igreja”; libertação do pecado e mistério da fé; Evangelho encarnado: Boa Nova, Nova Criação: Eis que faço novas todas as coisas (Ap 21,5); consagração total das nossas forças e de toda a nossa vida às atividades na Igreja e na missão; doação da vida para ganhar a eternidade: dedicar uma hora, das 168 horas que Deus nos dá, por semana, para encontrar-se consigo mesmo, com Deus e com os irmãos; Quem quiser ganhar a sua vida perdê-la-á e quem perder a sua vida por causa de mim e do Evangelho ganhá-la-á (Mt 10,39); e antecipação da vida dos últimos tempos.
O pão humano, quando repartido e distribuído, é divino. Cristo Eucarístico (Deus-connosco), tudo em todos, é comunhão, banquete que antecipa o céu. O Mistério Eucarístico sintetiza-se assim:
Ó sagrado banquete em que se recebe Cristo e se comemora a sua Paixão, em a que a alma se enche de graça e nos é dado o penhor da futura glória”.
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A Eucaristia experiencia-se. No Antigo Testamento, Israel experienciou a presença de Javé (Deus Libertador) e guardou para sempre na memória e coração (conheceu Deus pela inteligência e pelos sentidos). A esta experiência chamou Páscoa, início de nova era, de vida nova: Este mês será para vós o começo dos meses, será o primeiro do ano (Ex 12,2). E nós devemos experimentar a Eucaristia como AÇÃO DE GRAÇAS (ação: atos, movimento; graça: disposição interior para projetar e acolher o que é belo, puro, bom, alegre, etc.). No Batismo, somos revestidos da graça de Deus, mas, quando pecamos, pomo-nos fora da graça (des-graça = pecado, tragédia, acidente) e fora da comunhão (excomunhão). Mas Deus chama-nos à comunhão, pelo sacramento da reconciliação, dando-nos a misericórdia e o perdão (perdão = comunicação = comunhão).
E é necessário ter em conta que celebrar a Eucaristia tem consequências.
Como festa de Deus, Pai comum de todos, postula a partilha ou comunhão eucarística, mas também de vida, o que se traduz no compromisso com o Pão: Ninguém tenha demais e a ninguém falte o que comer (vd Ex 12,1-14). Como festa da unidade – Que todos sejam um (Jo 17,21) – deve suprimir as divisões. Como festa da preservação da vida, passar do Antigo Testamento, em que o sangue do cordeiro nas portas das casas do povo de Israel era sinal de preservação da vida, para o novo tempo, em que é o Sangue de Cristo, o cordeiro de Deus, que preserva a nossa vida hoje e para a eternidade. Para isso é preciso atravessar o mar vermelho do sangue de Jesus em cujas ondas se afoga o pecado. Como oferta da reconciliação com o passado desastroso (ervas amargas), ensina que foi na dificuldade que os antigos experienciaram Deus e iniciaram uma longa viagem para fora do ambiente de pecado. Porém, hoje esta reconciliação faz-se energia do presente com vista ao futuro: Jesus atua e onde Jesus atua todos os males são debelados e ultrapassados. Como garante da esperança do futuro, é antecipação da vinda do Senhor, que não é desespero – fim do mundo, fogo, cataclismo, aniquilação, catástrofes, etc. –, mas a realização dos anseios dos homens. Pode o mundo acabar numa Eucaristia. Quando a Eucaristia for celebrada em toda a terra, então, esse mundo passará e o Senhor manifestar-Se-á em Sua glória. Deus novamente habitará no meio dos homens:
Aí não haverá mais morte, nem pranto, nem dor. Ele será o nosso Deus e nós seremos o seu Povo (cf Ap 21,3-5). Quando isso poderá ocorrer? Quando formos humildes e lavarmos os pés uns dos outros (Jo 13,13-15).”.
Obviamente, se as consequências forem assumidas, evidenciar-se-ão os frutos da Eucaristia.
Na vertente de lição de vida, releva-se o exemplo do lava-pés, humildade (Jo 13,1-20). Enquanto apelo ao constante recomeço, torna-se esperança incansável de chegar à plenitude da viagem: Muitos são os chamados e poucos os escolhidos (Mt 22,14). Como resposta de Deus aos profundos anseios do ser humano (mistérios e problemas), é o encontro de dois seres eternamente apaixonados, Deus que desce e o ser humano que se eleva – encontro em que ocorre a explosão do amor (motivará todas as dimensões d existência, vg: trabalho, estudo, família...). Enquanto caminho de paz e felicidade, faz reunir em torno do Senhor os que são seus, os que querem se conhecer, amar, servir r perdoar.
Assim, a Eucaristia é a morada de Deus no meio dos homens, é salvação dos homens, garantia de ressurreição e fator da Comunhão dos Santos. Abre os olhos para a compreensão das Escrituras e do âmago dos mistérios da Fé: vg: o episódio dos Discípulos de Emaús (Lc 24,13-35).
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Finalmente, o Corpus Christi é festa de Maria. Ela O concebeu e deu à luz, como acima foi referido (Lc 1,26,38; 2,1-20). O hinário da Solenidade o atesta: Nobis datus, nobis natus ex intacta Virgine (Pange, Língua). E, por Maria, veio a primeira santificação, pois, com a sua visita a Isabel, o menino Deus que se desenvolvia em seu ventre fez exultar João no ventre de Isabel e, Maria agradada pelo sinal do nosso Deus, entoou o cântico do louvor e misericórdia (vd Lc 1,39-55).
O Corpus Christi é festa da Igreja, já porque esta a dinamiza, já porque é o seu Corpo, sendo Jesus a cabeça deste corpo. É a festa de cada um de nós visto que somos membros deste corpo na unidade do mesmo Espírito e na diversidade de dons e serviços. É ainda a festa de Maria, dado que Ela é o protótipo, a figura, a imagem da Igreja, o membro proeminente a mãe, a intercessora e a despenseira das graças. E, como a Ela cabe mostrar Jesus ao mundo, também à Igreja e a cada um de nós cabe essa missão. Porém, na certeza de que é Cristo a referência do culto e obviamente desta festa solene, como fica espelhado na doxologia recitada ou cantada em todas as celebrações eucarísticas, no remate da Anáfora:
Por Cristo, Com Cristo e em Cristo, a Vós, Deus Pai todo-poderoso, na unidade do Espírito Santo, toda a honra e toda a glória, agora e para sempre”.
Bendita esta solene festa do Cristo total, bendito o compromisso inequívoco dos crentes!
2018.06.03 – Louro de Carvalho

sábado, 2 de junho de 2018

Dar o melhor de si


É o título do documento do Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida sobre “a prospetiva cristã do desporto e da pessoa humana, publicado a 1 de junho.
Tendo em conta, num capítulo primeiro, sobre finalidade, motivação e objetivos, que “dar o melhor de si” é fundamental no desporto para os atletas, considerados individualmente ou em equipa, obterem o resultado almejado e experimentarem a alegria da satisfação, pretende o Dicastério presidido pelo Cardeal Farrell ajudar a compreender a relação entre o dinamismo do desporto e a vivência da fé cristã no quotidiano, à semelhança do que dizia Paulo (vd 2Tm 4,7). 
Com efeito, a Igreja como Povo de Deus tem rica experiência no campo do humano, que envolve o desporto tornado fenómeno universal. E, na sua visão da pessoa em unidade de corpo e espírito, vê nesta atividade valores que fomentam a dignidade da pessoa humana, contribuindo para a sua formação relacional e espiritual e valorizando a sua corporeidade. Assim, dirigindo-se a todas as pessoas de boa vontade (obviamente a bispos e sacerdotes, mas sobretudo a leigos), pretende o diálogo entre todas as pessoas e organizações que se empenham em promover os valores presentes na experiência desportiva e tirar partido dela para promover os valores cristãos.
Embora seja este o primeiro documento da Santa Sé redigido expressa e exclusivamente sobre a matéria, sabe-se que, desde os primórdios, a Igreja se interessou pela beleza nas artes, na música e em muitos outros âmbitos da atividade humana, entre os quais se inscreve o desporto, pois a beleza, cultivada ao nível estético, é obra, imagem e desejo de Deus. E a via da pulcritude, incluindo e valorizando a corporeidade, com menção expressa do desporto, tem sido um tema recorrente em discursos vários dos Pontífices, nomeadamente de Pio X, XII e Paulo VI, que entabularam fortemente o diálogo entre a Igreja e o mundo do desporto, e de João Paulo II e Francisco. Ficou na retina a interrogação de Pio XII “Como poderia a Igreja desinteressar-se?”.
Assim, dada a importância pastoral desta atividade humana, o Magistério eclesial vem reclamando continuamente a necessidade de promover “um desporto para a pessoa” para dar sentido e plenitude à vida, valorizar integralmente a pessoa, no seu crescimento pessoal, moral, social, ético e espiritual, e concretizar uma presença pastoral multiforme e difusa, tendo como ponto de partida e fim o interesse pelo ser humano.
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A Igreja vem dialogando com o desporto desde os primeiros anos da sua existência. Desde logo Paulo utilizou a metáfora do estádio e do dinamismo desportivo para explicar aos gentios a vida cristã. Na Idade Média, os leigos católicos participavam ativamente nos jogos e outras atividades desportivas nos dias de festa, que eram muitos, além dos domingos. Tomás de Aquino tomou a peito esta atividade assinalando a existência de virtude nos jogos, pelo que a pessoa virtuosa, embora não devesse praticá-los em regime de permanência, necessitava de algum tempo para o jogo e para o recreio. Depois, os humanistas do Renascimento, bem com os primeiros jesuítas, assimilaram a pertinência da reflexão tomista. Desta forma se justifica a inclusão do jogo e do desporto no interior da instituição escolar no mundo ocidental. Além disso, desde o início da modernidade, a Igreja manifestou grande interesse por esta atividade, apreendendo os seus valores, pelo que se tem empenhado no desenvolvimento do desporto de forma organizada e estruturada. O desporto moderno é fruto da revolução industrial, que encontrou, nas mudanças sociais, políticas e económicas deste tempo, terreno fértil para a difusão e afirmação a nível global. Ora, atualmente o desporto está em mudança profunda e sujeito a pressões fortes de mudança radical. O importante é que saiba gerir a mudança, mais do que sofrê-la, e ser experiência de educação e promoção do ser humano. E, apesar de terem nascido com matriz declaradamente católica muitas federações e associações desportivas de âmbito internacional ou nacional, não se trata de querer um desporto cristão, mas uma visão cristã do desporto. Todavia, esta visão não se limita a conferir-lhe os valores éticos compartilhados universalmente, mas fornece uma prospetiva própria, inovadora e coerente como serviço ao desporto, à pessoa humana e à sociedade. Sem prejudicar a especificidade do desporto, o património da fé cristã liberta esta atividade da ambiguidade e deviação, favorecendo una plena realização.
Para a Igreja, o desporto é em si mesmo uma lição de vida em que as virtudes da temperança, humildade, coragem e paciência podem ser interiorizadas e tornar-se ali uma via de encontro do belo, bom e verdadeiro, possibilitando o testemunho da alegria de viver. Por isso, o desporto tem de ser festa, estimular e espelhar a convivência e a cooperação e estar longe da corrupção, da desonestidade, da manipulação e do negócio pelo negócio.
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Nestes termos, o ensinamento do Dicastério dedica o capítulo segundo ao “fenómeno do desporto” (universal na abrangência humana, tempos e lugares; uma constante antropológica da humanidade), relevando “a génese do desporto moderno” (encontro de culturas e economias a gerar ou a reforçar da globalização do desporto; escopo filantrópico; agudização da competitividade: daí se falar em institucionalização, profissionalização e comercialização), “o conceito de desporto” (corpo humano em movimento, jogo, trabalho de aperfeiçoamento e espetáculo, trabalho profissional, cumprimento de regras, competição, participação) e “o contexto do desporto” (do grupo informal passou a organização social e, dada a sua industrialização, tem de precaver-se contra a corrupção, a alienação das massas, a violência e a distribuição de anabolizantes).
O capítulo terceiro trata de “um desporto para o ser humano”, considerando a tríade paulina “corpo, alma e espírito” (ao invés do monismo e do dualismo maniqueísta), a tetralogia “liberdade, regras, criatividade e colaboração” (contra as dependências, a indisciplina e o instinto, a superficialidade e o individualismo), a dualidade “individualismo e equipa” (atividade individual e de equipa, mas postulando sempre a abertura à cooperação, solidariedade e delicadeza), o “sacrifício”, a “alegria”, a “harmonia”, a “coragem”, a “igualdade e o respeito”, a “solidariedade” (fundada na destinação universal dos bens e almejando a educação para a paz), e a asserção de que “o desporto abre pistas para o significado último da vida” (a partir da nossa insuficiência e da necessidade de ultrapassar as forças individuais, perceberemos o sentido do significado profundo da vida humana, que, segundo a visão cristã é ser imagem e semelhança de Deus na sua unidade e comunidade).
O capítulo quarto apresenta “os desafios à luz do Evangelho”: “um desporto humano e justo”, pela “promoção dos valores humanos no desporto” e “críticas às deviações” (mudanças de padrão); “responsabilidade compartilhada por um desporto humano”; e os “quatro desafios específicos pelo desporto”: o “desenvolvimento do corpo” (templo de Deus, serviço à pessoa); o “doping” (prejudica a saúde e a lealdade competitiva); a “corrupção” (verdadeira chaga lesiva e enganadora que invade todos os campos da atividade humana); e os “apoiantes e espectadores” (importantes como estímulo aos jogadores, mas perigosos e lesivos ao insultarem ou assumirem atos violentos, como sucede com algumas claques).
O capítulo quinto equaciona “o papel-chave da Igreja”, cabendo-lhe tudo fazer, no quadro da visão cristã do homem e da sociedade, para que o desporto seja promovido com humanidade e racionalidade, longe de fraudes, violências, manipulações, ameaças e alienações. Assim, ressaltam no documento as seguintes afirmações-chave:
- “A Igreja está de casa no desporto”. Tem nele “uma presença responsável”, organizada e institucional; é “uma Igreja em saída”; é “um moderno Pátio dos Gentios” (enquanto espaço de diálogo entre todos sobre os temas vitais do ser humano e da sociedade).
- “O desporto está de casa na Igreja”, pois se assume “como experiência educativa” ao serviço da pessoa pelo seu desenvolvimento integral, em linha com os fins da educação católica. Ademais, o desporto assume-se como “gerador duma cultura do encontro e da paz” e pode constituir-se em “obra de misericórdia”, ao incluir os mais frágeis no seu escopo e atividades e ao desenvolver-se com fins filantrópicos externos, criando assim “uma cultura da inclusão”.
A seguir, aponta “os ambientes da pastoral do desporto” e vincula “os pais como os primeiros educadores, as “paróquias” (a paróquia como grupo desportivo mais que o grupo desportivo na paróquia) e os “centros juvenis”, as “escolas e universidades”, as “sociedade e associações desportivas amadoras”, o “desporto profissional”, “os meios de comunicação como ponte”, as “ciências especializadas” e os “novos lugares do desporto” (vg: parques, centros fitness e desportos eletrónicos), com os riscos inerentes à prática desportiva em solidão, fautora do individualismo.
Depois, vem “o cuidado dos agentes pastorais do desporto”, já que não pode existir uma pastoral do desporto sem uma estratégia educativa. E esta passa pelos “educadores desportivos”, “famílias e pais”, “voluntários” e “sacerdotes e pessoas consagradas”.
Por fim, enunciam-se “alguns elementos fundamentais para um projeto pastoral pelo desporto”: a beleza do desporto ao serviço da educação; o desporto para estabelecer o pacto educativo; o desporto ao serviço da humanidade; o jogo na base do desporto; o trabalho de equipa contra o individualismo; o desporto para todos; e a visão ecológica do desporto.
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Em conclusão, o desporto constitui ambiente em que crianças, jovens e adultos, provindos de culturas e religiões diversas e um tecido de experiências que podem ser sinal de transcendência. Com efeito, no seu discurso ao Centro Desportivo Italiano, a 7 de junho de 2014, o Papa exortou os ouvintes a dar o melhor de si mesmos, não só no desporto, mas em toda a vida:
É importante que o desporto permaneça um jogo! Só se permanecer um jogo faz bem ao corpo e ao espírito. E precisamente porque sois desportivos, convido-vos não só a jogar, como já fazeis, mas a algo mais: a pôr-vos em jogo na vida como no desporto. Pôr-vos em jogo na busca do bem, na Igreja e na sociedade, sem medo, com coragem e entusiasmo. Pôr-vos em jogo com os outros e com Deus; não se contentar de um ‘empate’ medíocre, dar o melhor de si mesmos, usando a vida para o que vale a sério e dura para sempre.”.
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Também ontem, dia 1 de junho, Francisco enviou uma carta ao Cardeal Farrell a felicitá-lo pela publicação do documento e tecendo algumas considerações em jeito de reforço.
Começando por eleger o desporto como instrumento de encontro, formação, missão e santificação, o Papa frisou que se trata de “um lugar de encontro, onde as pessoas, de todos os níveis e condições sociais, se unem para obter um resultado comum”. Com efeito, numa cultura, dominada pelo individualismo e pelo descarte das jovens gerações e dos idosos, “o desporto é um âmbito privilegiado em que as pessoas se encontram, sem distinção de raça, sexo, religião ou ideologia; e “onde podem experimentar a alegria de competir e atingir uma meta em equipa”.
Por outro lado, a disciplina desportiva envolve, não só os companheiros duma equipa ou time, mas também dirigentes, treinadores, apoiantes, famílias e todos os que se esforçam e se dedicam “dando o melhor de si”.
Considerando que tudo isto torna o desporto um catalisador de experiências comunitárias e familiares e um lugar de união e encontro entre as pessoas, Francisco afirmou que a atividade desportiva constitui um veículo de formação. Por isso, hoje, mais do que nunca, devemos apostar nos jovens, na sua formação e no seu desenvolvimento integral.
Verificando que as novas gerações se inspiram nos atletas e desportistas, diz o Pontífice que destes se espera que deem “exemplo de virtudes, como a generosidade, humildade, sacrifício, constância e alegria”, devendo “ainda contribuir para o espírito de equipa, o respeito, a saudável competição e solidariedade com os outros”.
Depois, em sua missiva, o Santo Padre evidenciou a função do desporto como instrumento de missão e santificação, pois a Igreja, como assegurou, “é chamada a ser sinal de Jesus Cristo no mundo, também mediante o desporto nos oratórios, nas paróquias, escolas e associações”. E salientou a importância de “transmitir a alegria que brota do desporto, que pode abrir caminhos para Cristo, em todo e qualquer lugar, sendo que as pessoas, ao darem testemunho desta alegria, em ambiente comunitário, se tornam mensageiras da Boa Nova de Jesus”.
Por outro lado, como diz o título do documento do Dicastério, temos aqui um convite a aspirar à santidade, convite muito oportuno, sobretudo, em vista do próximo Sínodo para os Jovens.
Por isso, como afirmou Francisco, é preciso aprofundar a íntima relação existente entre desporto e vida, pois tal busca nos conduz, com a graça de Deus, a atingir a plenitude da vida, que se chama “santidade”. E não deixa de aplicar ao desporto a doutrina da exortação apostólica “Gaudete et exsultate”.
O Papa concluiu a sua Carta ao Cardeal Farrell recordando que “o desporto é uma riquíssima fonte de valores e virtudes, que nos ajuda a melhorar”, sendo que “todo o cristão, na medida em que se santifica, se torna mais fecundo para o mundo”. Logo, para o desportista cristão, “a santidade consiste em viver o desporto como meio de encontro, formação da personalidade, testemunho e anúncio da alegria evangélica”.
2018.06.02 – Louro de Carvalho

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Em memória do Cónego Rui Osório


Com a morte do Cónego Rui Osório de Castro Alves, ocorrida aos 77 anos de idade na casa paroquial da Boa Vista, pelas 10 horas do 31 maio, da solenidade do Corpo de Deus, lavrou-se uma brecha significativa no jornalismo português e na Igreja portucalense.
Natural de Vila Nova de Gaia (Diocese do Porto), onde nasceu a 27 de outubro de 1940, deixou a sua marca na área da comunicação social; era ainda pároco da Foz do Douro, assistente Diocesano da Ação Católica Rural (ACR) e membro do Cabido da Catedral do Porto.
Estive com ele uma única vez e numa jornada de trabalho. Foi no ano de 1975 em Fátima, na então designada Casa do Beato Nuno, num encontro de representantes de jornais de inspiração cristã, em que participei em representação da “Voz de Lamego” por incumbência do seu diretor, o cónego Simão Morais Botelho e com a anuência de Monsenhor Ilídio Augusto Fernandes.
Naturalmente que eu, então muito pouco rodado nas lides da comunicação social, ouvi e aprendi muito mais do que aquilo que exprimi. No entanto, recordo a pertinência e acutilância do então padre doutor Rui Osório, ido do Porto, tal como a sábia condução dos trabalhos por parte de Dom Manuel Franco da Costa de Oliveira Falcão, então Bispo Coadjutor com direito de sucessão de Dom Manuel dos Santos Rocha, que nos levou à reflexão sobre as vertentes da lei de imprensa recentemente publicada.    
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O Cónego Rui Osório de Castro Rui Osório foi discípulo de Dom António Ferreira Gomes, o Bispo do Porto que Salazar exilou, participou na criação do jornal “Voz Portucalense” (herdeiro das tradições de “Voz do Pastor), lutou contra a ditadura, designadamente contra a Censura (a detentora e utilizadora do “lápis azul”) e teve elementos da polícia política (PIDE) a vigiar-lhe missas e a gravar-lhe homilias. Depois do 25 de Abril, com a conivência dos seus prelados, foi, durante 28 anos, membro da redação no Jornal de Notícias (JN), onde chegou a chefe de redação. Aos 65 anos, que completou em 2005, reformou-se e estreou-se como pároco na paróquia da Foz Velha. Continuou, no entanto, a colaborar com o JN, onde assinava, com a chancela da qualidade, uma coluna semanal habitualmente ao domingo sobre assuntos de religião. E colaborou com a Rádio Renascença, no programa “Terra Prometida”, do Padre Jorge Duarte.
Por opção própria e cumprindo uma promessa feita ao seu Bispo, nunca aceitou ser diretor do jornal, embora tenha sido várias vezes convidado para exercer a função. Com efeito, Dom António Ferreira Gomes entendia que o padre não devia dirigir um jornal laico, configurando uma situação de clericalismo, e quis mudar a designação, a estrutura e a índole do jornal “Voz do Pastor” por via da alteração da perspetiva eclesial com o Concílio Vaticano II.
Dantes tendia-se a atribuir ao Bispo todas as diretrizes diocesanas. O Vaticano II mudou perspetiva eclesial e não só na linguagem. De estrutura piramidal, com o Papa no topo (e nas dioceses o bispo), passou a estrutura circular – povo de iguais pelo Batismo e diverso nos serviços que se prestam à comunidade. E, mais do que o pensamento do chefe, passou a ter relevo a opinião do povo de Deus na sua diversidade: bispos, presbíteros e diáconos; religiosos e leigos. Ao povo de Deus é reconhecido o direito e inculcado o dever de se exprimir no seu esforço de discernir, no meio das vozes do mundo, a voz de Deus. Dizia o prelado portuense:
Do Pastor, será cada vez mais, assim o esperamos, a sua própria e pessoal voz, quando a dever e puder fazer ouvir. O resto, as muitas e legítimas vozes, serão, na sua plural tensão versus a harmonia e consonância diocesana, serão... aquilo que queremos ser e chamar-nos.”.
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Ordenado em 1964, Rui Osório começou a ganhar o gosto pela área da comunicação social nos últimos anos de estudante e teve mesmo, durante dois anos, um programa semanal na Rádio Renascença. Este programa radiofónico era gravado previamente e transmitido, às quartas-feiras, na hora de almoço. Segundo referiu numa entrevista à agência Ecclesia, estava nos últimos dois anos letivos de Teologia e, enquanto se almoçava, os professores e colegas ouviam o programa: “um teste todas as semanas”.
Ainda estudante começou a escrever prosas para alguns jornais e os documentos do II Concílio do Vaticano foram objeto de muitas crónicas suas, ainda estudante de Teologia.
Depois de ordenado sacerdote em 1964, devido ao impacto do decreto conciliar “Inter Mirifica”, Dom Florentino Andrade e Silva, na altura administrador apostólico do Porto devido ao exílio de Dom António Ferreira Gomes, pediu-lhe para estudar jornalismo, pelo que partiu para Espanha.
Depois da formação em Espanha e cerca de um ano após a vinda do padre Rui Osório, regressou do exílio o Bispo do Porto, Dom António Ferreira Gomes. E, após várias conversas com o prelado portuense, o Padre Rui Osório solicitou-lhe um trabalho pastoral – ficou como assistente diocesano da Ação Católica – e disse-lhe que a partir daquele momento, o seu ministério sacerdotal “é inteiramente gratuito”. E uma das primeiras iniciativas de vulto em que participou, na área do jornalismo, foi, como se disse, a da criação do semanário da Diocese do Porto, “Voz Portucalense”.
Com o consentimento de Dom António Ferreira Gomes, o padre resolveu profissionalizar-se como jornalista e conseguiu trabalho no JN em 1977. Ali exerceu vários cargos tendo chegado a chefe de redação. Com o seu exemplo e até com seu ensinamento, muitos sacerdotes se capacitaram para intervir com mais proficiência nos órgãos de comunicação social das diversas entidades eclesiásticas e nos órgãos de comunicação social do Estado e de organizações particulares.
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A Diocese do Porto refere, em comunicado:
Faleceu no dia 31 de maio o Cónego Rui Osório de Castro Alves. Natural de Olival, Vila Nova de Gaia, nascido a 27 de outubro de 1940, foi ordenado presbítero a 2 de agosto de 1964.
Foi Diretor Espiritual da Legião de Maria, Diretor do Secretariado Diocesano das Comunicações Sociais até 2003 e Pároco de São João da Foz. Dedicou grande parte da sua vida ao jornalismo, sendo fundador do Jornal Voz Portucalense, colaborador do Jornal de Notícias e da Rádio Renascença.
O Presidente da República publicou, na página web da Presidência da República, uma mensagem de condolências, lamentando a morte dum “amigo”:
Homem da Igreja e do Jornalismo, com uma carreira de décadas no Jornal de Notícias e na Rádio Renascença, fundador da Voz Portucalense, o Padre Rui Osório, desde há muito um amigo pessoal, foi também um combatente pela Liberdade, discípulo de Dom António Ferreira Gomes, perseguido pela Polícia Política antes do 25 de Abril. No livro ‘O Senhor escreva connosco’, por ocasião do 50.º aniversário da sua ordenação, agradeceu ao Espírito Santo o dom da Comunicação; um dom que pôs ao serviço do bem comum e que fica na memória dos seus leitores e ouvintes, dos paroquianos da Foz Velha, dos amigos.
Neste dia de Corpo de Deus, o Presidente da República envia a todos, bem como à Família, os seus mais sentidos pêsames.”.
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O corpo do Cónego Rui Osório foi trasladado no próprio dia 31 à tarde para a igreja da Foz, onde permaneceu em câmara ardente. Pelas 19 horas, foi celebrada missa de corpo presente.
Hoje, dia 1 de junho, pelas 10 foi, foi trasladado para a Sé Catedral do Porto, onde permaneceu até às 15 horas, início das celebrações fúnebres presididas pelo Bispo do Porto, Dom Manuel Linda. O funeral seguiu para a freguesia do Olival, em Vila Nova de Gaia, de onde o sacerdote era natural.
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Aquando da celebração, a 2 de agosto de 2014, de 50 anos de ordenação presbiteral, o sacerdote revelou alguns detalhes da sua vida.
Desempenhou várias funções no Jornal de Notícias “menos um, mas de propósito”, como disse.
Reconhece que foi convidado para ser diretor de vários jornais, mas nunca esqueceu uma frase de D. António Ferreira Gomes: “O senhor nunca se ponha em bicos de pés para ser diretor de um jornal laico porque isso é clericalismo”.
Este sacerdote desempenhou várias funções no Jornal de Notícias, onde trabalhou até 2005, e relatou que a opção em ser padre foi “íntima e pessoal” e mesmo aqueles que o rodeavam “não esperavam por isso”. “Ninguém acreditava muito que aquele menino traquina” e “brincalhão” escolhesse a vida sacerdotal.
O então menino Rui Osório ouvia relatos “cheios de entusiasmo” dum amigo (tinha feito a escola primária com ele) que estudava no Seminário do Porto e do parque desportivo do Colégio da Formiga, em Ermesinde.
Compreende-se que o lado desportivo tenha pesado na decisão de ir para o seminário e até ao quinto ano, o depois cónego Rui Osório só “tinha uma preocupação: não reprovar nenhum ano porque em casa não havia tradição de reprovações”. De facto, “sem grande aplicação no estudo”, o jovem Rui Osório nunca reprovou nenhum ano, segundo confessou.
Considerando-se “envergonhado” e “um bocado tímido”, o jovem Rui tentava sempre “evitar as orais” porque “tinha vergonha de falar” em público. Porém, ao longo dos 12 anos de internato, o menino que se tornou adulto foi refletindo sobre a sua vocação e foi dando sinais positivos ao chamamento para o sacerdócio.
E, sim, com a sua obediência crítica ou crítica sem perder o alinhamento com a autoridade que serve, foi uma voz e uma pena a intervir pela liberdade e pela Igreja, mesmo que nem sempre tenha sido compreendido ou mesmo que nem sempre tenha acertado.
As suas crónicas, as suas reflexões – no Jornal de Notícias e na Voz Portucalense – sempre me fizeram bem e vale a pena relê-las.  
Dos tímido e envergonhados Deus pode e sabe fazer grandes homens, grandes referências.
2018.06.01 – Louro de Carvalho