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domingo, 30 de dezembro de 2018

Festa da Sagrada Família em 2018 (Ano C), um programa para a família


Os textos bíblicos tomados para esta festa complementam-se apresentando as duas coordenadas a partir das quais constrói a família cristã: o amor a Deus e o amor ao próximo, sobretudo a quem está mais perto de nós – os membros da família.
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O Evangelho (Lc 2,41-52) acentua a dimensão do amor a Deus: o projeto de Deus tem de ser a prioridade do cristão, a exigência fundamental, a que todas as outras se devem subordinar. Na verdade, a família cristã constrói-se no respeito pelo projeto que Deus tem para cada um.
A 2.ª leitura (Cl 12-21) evidencia a dimensão do amor que deve brotar dos gestos dos que vivem em Cristo e aceitam ser “Homem Novo” – amor que deve atingir, de forma particular, os que partilham connosco o espaço familiar e que deve traduzir-se em atitudes de compreensão, bondade, respeito, partilha, serviço. Este texto pertence à 2.ª parte da Carta aos Colossenses. Depois de constatar a supremacia de Cristo na criação e na redenção, Paulo avisa os Colossenses de que a união com Cristo traz consequências a nível da vivência prática: renunciar ao “homem velho” do egoísmo e do pecado e “revestir-se do homem novo”.
O apóstolo estava na prisão (possivelmente em Roma, anos 61/63). Algum tempo antes, recebera notícias pouco animadoras sobre a comunidade de Colossos: alguns doutores locais ensinavam doutrinas erróneas que afastavam da verdade do Evangelho e misturavam práticas legalistas e ascéticas, bem como especulações sobre os anjos, ensinando que esta mistura devia completar a fé em Cristo e comunicar aos crentes um conhecimento superior dos mistérios cristãos e uma vida religiosa mais autêntica. Ora, Paulo afirma a absoluta suficiência de Cristo e assinala o seu lugar proeminente na criação e na redenção dos homens.
Viver como “homem novo” implica o cultivo dum conjunto de virtudes resultantes da união do cristão com Cristo: misericórdia, bondade, humildade, paciência, mansidão e, em especial, o perdão das ofensas do próximo, como Cristo fez sempre – virtudes que são exigências e manifestações da caridade, o mandamento fundamental. O que é novo em relação aos catálogos de virtudes da ética grega é a fundamentação na íntima relação do cristão com Cristo, que implica viver no amor total, no serviço, na disponibilidade e no dom da vida.
Depois, o apóstolo aplica tudo isto à vida familiar. Às mulheres, recomenda o respeito para com os maridos; aos maridos, o amor às esposas, evitando o domínio tirânico sobre elas; aos filhos, a obediência aos pais; aos pais, com intuição pedagógica, não serem excessivamente severos para com os filhos, para não tolherem o normal desenvolvimento das suas capacidades. E, desta forma, no espaço familiar, manifesta-se o Homem Novo, o homem que vive em Cristo.
E, se facultativamente for tomada a 1.ª carta de João (1Jo 3,1-2.21-24), fica evidenciado que este amor fraterno deriva do facto de nós sermos efetivamente filhos de Deus, mercê do Seu grande amor para connosco, muito embora não se tenha manifestado “ainda o que havemos de ser”, pois “o que sabemos é que, quando Ele se manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque O veremos tal como Ele é” (cf v 2). E é pela plena confiança em Deus que recebemos Dele tudo o que pedirmos, porque guardamos os Seus mandamentos e fazemos o que Lhe é agradável. Com efeito, o Seu mandamento é que “acreditemos no nome de Seu Filho, Jesus Cristo e que nos amemos uns aos outros, conforme o mandamento que Ele nos deu”, pois “aquele que guarda os Seus mandamentos permanece em Deus e Deus Nele; e é por isto que reconhecemos que Ele permanece em nós, graças ao Espírito que nos deu” (cf vv 21-24).
O Pai celeste oferece-nos o dom da vida e torna-nos participantes da Sua própria vida. Enche-nos do Seu amor e da Sua graça, sendo que a fidelidade aos mandamentos nos garante a Sua presença. Depois, ficamos a saber que a família, como espaço em que se pode realizar a representação da vida comunitária divina, é lugar privilegiado, tal como a comunidade eclesial, onde se descobre a vontade de Deus e as maravilhosas perspetivas que oferece a cada um.  
A 1.ª leitura (Sir 3,3-7.14-17a) apresenta, de forma muito prática, algumas atitudes que os filhos devem ter para com os pais. É uma forma de concretizar esse amor de que fala a segunda leitura.
Na verdade, honrar pai e mãe deveria ser algo de espontâneo. No entanto, Deus dotou esta obrigação de uma marca religiosa ao inscrevê-la no decálogo, tornando-a um requisito da Aliança. Por outro lado, ficamos a saber que a honra que tributamos aos pais remonta a Deus, que lhes deu o poder, o gosto e a responsabilidade de transmitir a vida de que Deus é a fonte.
O texto apresenta indicações práticas que os filhos devem ter em conta nas relações com os pais, sobressaindo o verbo “honrar”, que nos leva ao decálogo do Sinai (cf Ex 20,12), onde aparece no sentido de “dar glória”. Ora, “dar glória” a uma pessoa é dar-lhe toda a sua importância. Assim, “dar glória aos pais” é reconhecer a sua importância como instrumentos de Deus. E reconhecer os pais como a fonte pela qual Deus nos dá a vida, conduz à gratidão e ao amor, que tem consequências a nível prático: ampará-los na velhice e não os desprezar nem abandonar; assisti-los materialmente (sem inventar desculpas) quando já não podem trabalhar (cf Mc 7,10-11); não fazer nada que os desgoste; escutá-los, tendo em conta as suas orientações; e ser indulgente para com as limitações que a idade traz. Dado o contexto epocal do Ben-Sira, pode haver, por trás destas indicações, a preocupação com o manter bem vivos os valores que os mais antigos preservam e que passam aos jovens. E, como recompensa desta atitude de “honrar” os pais, Jesus Ben-Sirah promete o perdão dos pecados, a alegria, a vida longa e a atenção de Deus.
E, se facultativamente for tomada a passagem do 1.º livro de Samuel (1Sm 1,20-22. 24-28), fica evidenciada a maternidade como dom de Deus naturalmente concedido à mulher matrimoniada com o marido, mas sobretudo a maternidade concedida a quem, tendo a cooperação e a compreensão do marido, não conseguia alcançar esse dom tido por natural. Foi então que o recurso à oração insistente conseguiu de Deus a maternidade como dom extraordinário. Ana teve um filho, que agradeceu ao Senhor, lho ofereceu, juntamente com o sacrifício em consonância com as suas abundantes posses, e o destinou ao serviço quotidiano do Templo. Ficou mais evidente que a maternidade/paternidade é mesmo dom de Deus. Em certa medida se vislumbram aqui as figuras de João Batista, por um lado (serviço no Templo e pregação no deserto até à prisão sob Herodes), e Jesus, pelo outro (estar na casa do Pai e pregar até à cruz).        
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Fixemo-nos agora na passagem do Evangelho acima referenciado. É o final do “Evangelho da infância” segundo Lucas. Não se trata duma reportagem sobre os primeiros anos da vida de Jesus, mas duma catequese sobre Jesus, em que se diz quem é Jesus e se apresentam algumas coordenadas teológicas que serão desenvolvidas no resto do Evangelho.
A Lei pedia aos homens de Israel que fossem três vezes por ano a Jerusalém, por alturas das três grandes festas de peregrinação (Páscoa, Pentecostes e Festa das Tendas – cf Ex 23,17-17). Embora os rabinos não considerassem obrigatório o cumprimento desta lei até aos 13 anos, muitos pais levavam os filhos antes. Jesus tem 12 anos e, de acordo com Lucas, foi com Maria e José a Jerusalém celebrar a Páscoa.
A chave do episódio está nas palavras de Jesus quando, finalmente, se encontra com Maria e José: “Porque me procuráveis? Não sabíeis que Eu devia estar na casa de meu Pai?”.
O significado catequético da resposta à pergunta de Maria é que Deus é o verdadeiro Pai de Jesus. Daqui se deduz que as exigências de Deus são, para Jesus, a prioridade fundamental, que ultrapassa qualquer outra. A missão que o Pai Lhe confia vai obrigá-Lo a romper os laços com a própria família (cf Mc 3,31-35).
O episódio pode ler-se em chave psicológica, vendo aí a ânsia dos pais chamados a aceitar as escolhas dos filhos, a ver os filhos a tomarem livremente os seus próprios rumos e a afastarem-se de casa e do olhar vigilante de quem constantemente os seguiu. Este aspeto é legível na narração, mas uma análise mais atenta revela-nos outros dados do pensamento do evangelista.
O evangelista narra a infância do Salvador à luz dos acontecimentos da Páscoa. E o quadro da perda e encontro de Jesus apresenta antecipadamente o mistério da morte e da ressurreição de Jesus. Maria e José representam a comunidade cristã que perdeu de repente o mestre, mas, após três dias de espera e procura, consegue encontrá-Lo ressuscitado na glória do Pai.
Posto como final dos dois primeiros capítulos, o episódio tem valor profético e projeta-se para o futuro. A primeira pergunta de Jesus (“Porque me procuráveis?”) lança nova luz sobre tudo o que foi dito até aqui sobre o filho-servo e fornece a chave de leitura de todo o Evangelho. As perguntas “Porque me procuráveis? Não sabíeis que devia estar nas (coisas) de meu Pai?”, dada como resposta a quem O procurou e encontrou ao 3.º dia, manifesta o modo filial como Jesus se empenhou na história dos homens. Numa submissão absoluta ao Pai, Jesus introduz-nos no coração do mistério da Sua pessoa, que escapa à nossa compreensão: Mas “Eles não compreenderam” (v 50). O evangelista, ao longo do seu Evangelho, retomará mais 18 vezes este sentido de necessidade imperiosa de realizar o projeto do Pai.
A narração começa com o ato de obediência de Jesus à Lei e termina com o gesto de submissão aos pais. O menino tornara-se um homem: livremente “desceu com eles, voltou a Nazaré e era-lhes submisso” (v 51). Ora, esta obediência é algo mais profundo que o respeito ou a reverência que um judeu devia ter para com os seus pais.
Chegada à maioridade religiosa, normalmente à idade de 13 anos, o menino hebreu tornava-se “bar mitzvah”, ou seja, “filho do preceito”. Doravante devia observar as prescrições da Lei, em especial no atinente às 3 festas principais (Páscoa, Pentecostes, Tendas) com uma peregrinação a Jerusalém. Lucas apresenta esta subida de Jesus a Jerusalém aos 12 anos, inspirando-se na figura de Samuel que foi apresentado no templo de Silo, na festa da Páscoa, aos 12 anos.
A escolha do Templo como lugar de manifestação do Filho é tipicamente lucana: nele tem início o evangelho (1,8-9); Simeão reconhece a salvação esperada por Israel (2,29-32); e é com uma referência ao Templo que termina o evangelho (24,53). Por outro lado, a insistência lucana na sabedoria de Jesus não pode passar despercebida. No v. 47, o menino que interroga os peritos no conhecimento da Torah (Lei) é apresentado como um mestre que responde às suas perguntas. Surge a maravilha, tão comum em Lucas, diante daquele que se apresenta como a Palavra de graça e à luz do qual o Antigo Testamento irá ter sentido. Por isso, Jesus ressuscitado interpreta as Escrituras aos discípulos de Emaús e abre aos discípulos reunidos a mente para que as entendessem (24,45). É a sabedoria do Filho que vive na intimidade do Pai e em quem confia. Por isso, a oração confiante ao Pai no monte das Oliveiras ou a sua última palavra antes de morrer: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito”. Também Jesus ressuscitado, antes de deixar os seus, lhes indicará o Espírito como “a promessa do Pai” (24,49).
Com a resposta a Maria e a José, Jesus começa a distanciar-se dos seus. A Páscoa em que se situa o texto é prefiguração da Páscoa de Jesus em que, três dias depois, as mulheres e os discípulos, não encontrando o corpo de Jesus, se rendem à evidência: Jesus está junto do Pai. E as duas testemunhas, no túmulo, recordarão às mulheres a palavra de Jesus: “é necessário que seja entregue…” (24,7).
O final do texto apresenta uma espécie de refrão muito caro a Lucas “Sua mãe guardava todas estas coisas no seu coração”, na esperança de que um dia perceba o que sucedeu. Esta rutura anuncia a última em que perderá o Filho para, três dias depois, O reencontrar para sempre na fé.
E desceu com eles, voltou para Nazaré e era-lhes submisso”. Parece-nos que, a partir daqui, Jesus nunca mais desobedeceu aos pais e passou a ser bem comportado. Mas Lucas quer algo de diferente e mais profundo: o mandamento “honra teu pai e tua mãe” tornou-se realidade visível na pessoa de Jesus. Este mandamento significa acolher todos os ensinamentos transmitidos pelos pais (Dt 6,20-25) e imitar a sua fidelidade a Deus na linha da tradição dos antepassados. Assim, os pais de Jesus sentiram-se “honrados” no filho que aprendeu a fé dos pais e o amor à palavra de Deus, referência fundamental da Sua vida, que iria cumprir e levar à plenitude.
Jesus viveu em família, o que significa que a salvação não é estranha à vida comum dos homens. De facto, em Nazaré não há milagres, pregações, ajuntamentos de multidões. A família de Jesus era uma família comum, mas exemplar: amavam-se, mesmo nas incompreensões e correções, como nos apresenta este episódio. Porém, nesta família há uma profundidade que é revelada pelo evangelho: a centralidade de Jesus. É este o segredo desta família. Não será por acaso que o nome Nazaré significa “aquela que guarda”, representando toda a vida do discípulo que acolhe, guarda, cuida e faz crescer o Senhor no seu coração e na sua vida.
A frase final estabelece mais uma vez a comparação com o profeta Samuel (cf 1Sm 2,26: “o menino Samuel desenvolvia-se em altura e beleza, diante do Senhor e dos homens”).
Em suma, este episódio como os factos da morte/ressurreição situam-se, como se disse, em contexto pascal; em ambas as situações Jesus é abandonado – aqui por Maria e José; mais tarde, pelos discípulos – pessoas que não compreendem que a prioridade é o projeto do Pai; em ambas as situações, Jesus é procurado (cf Lc 24,5) e frisa que a finalidade da sua vida é cumprir o que o Pai definiu (cf Lc 24,7.25-27.45-46). Lucas apresenta aqui a chave para entender toda a vida de Jesus: veio ao mundo por mandato do Pai com um projeto de salvação/libertação. Àqueles que se perguntam porque deve o Messias percorrer determinada via, Lucas responde: porque é a vontade do Pai, foi para a cumprir que veio ao nosso encontro e entrou na nossa história.
Atente-se, ainda, em duas questões que podem servir para nossa reflexão e edificação: o entusiasmo que Jesus tem pela Palavra de Deus e pelas questões que ela levanta; e a “declaração de independência” de Jesus, que pode ajudar-nos a compreender que a família não é o lugar fechado, onde cada pessoa cresce em horizontes limitados e fechados, mas o lugar onde nos abrimos ao mundo e aos outros, onde nos armamos para a conquista do mundo que nos rodeia.
(http://www.agencia.ecclesia.pt/portal/ano-c-festa-da-sagrada-familia-de-jesus-maria-e-jose/; http://www.dehonianos.org/portal/festa-da-sagrada-familia-ano-c/; http://www.diocese-aveiro.pt/v2/?p=17559); http://geral.paroquiademangualde.pt/index.php/component/content/article/2136-homilia-da-festa-da-sagrada-familia-ano-c.htmlMissal Quotidiano – dominical e ferial, 5.ª ed. Paulus: 2016).

Que a família de Nazaré nos inspire, nos sirva de exemplo e nos ajude!
2018.12.30 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

A boa política está ao serviço da paz


É o tema da Mensagem para o LII Dia Mundial da Paz, que se celebrará a 1 de janeiro de 2019, sustentando o Papa Francisco que a política se pode “tornar uma forma eminente de caridade e servir a paz se respeitar e promover os direitos humanos, construir cidadania e encorajar os jovens.
A paz esteja nesta casa!” Com estes votos o Papa inicia o novo ano e abre a sua Mensagem para o Dia Mundial da Paz, divulgada no dia 18. São as palavras com as quais Jesus envia os apóstolos em missão, mas a casa de que fala é hoje “toda a família, comunidade, todo o país, todo o continente” e “a nossa casa comum”, de que Deus nos confia os cuidados.
O coração da mensagem, datada de 8 de dezembro pp, dia da Solenidade da Imaculada Conceição de Maria, a Rainha da Paz, é a estreita relação entre a paz e a política, em que Francisco divisa potencialidades e vícios na perspetiva presente e futura, colocando ambas num  “desafio” diário, num “grande projeto” estribado “na responsabilidade recíproca e na interdependência dos seres humanos”.
Na verdade, a paz, como “flor frágil que tenta florescer no meio das pedras de violência” (escreve o Papa, citando o poeta Charles Peguy), choca-se com “abusos” e “injustiças”, “marginalização e destruição” que a política provoca, quando não é vivida e exercida “como um serviço à comunidade”. Por outro lado, a boa política é um “veículo fundamental para construir cidadania e obras” e, se “implementada no respeito fundamental da vida, liberdade e dignidade”, pode se tornar uma “forma eminente de caridade”.
Então, deve cultivar-se a caridade como virtude por uma política ao serviço da paz e dos direitos. Com efeito, se a ação do homem for sustentada e inspirada pela caridade – recorda o Pontífice citando a Encíclica Caritas in Veritate de Bento XVI – “contribui para a edificação daquela cidade universal de Deus para a qual avança a história da família humana”.
Trata-se de um programa em que os políticos de todas as filiações ideológicas podem encontrar-se, contanto que operem para o bem da família humana, praticando virtudes que se subordinam ao “bom agir político”: justiça, equidade, respeito, sinceridade, honestidade e lealdade.
O bom político é (como descrito nas bem-aventuranças do cardeal vietnamita François Xavier Nguyễn Vãn Thuận, falecido em 2002, que o Papa retoma) quem, tendo a consciência do seu papel, é coerente, credível, capaz de ouvir, corajoso e comprometido com a unidade e a mudança radical:
“Bem-aventurado o político que tem uma alta noção e uma profunda consciência do seu papel.
Bem-aventurado o político de cuja pessoa irradia a credibilidade.
Bem-aventurado o político que trabalha para o bem comum e não para os próprios interesses.
Bem-aventurado o político que permanece fielmente coerente.
Bem-aventurado o político que realiza a unidade.
Bem-aventurado o político que está comprometido na realização duma mudança radical.
Bem-aventurado o político que sabe escutar.
Bem-aventurado o político que não tem medo.” (Cf Discurso na Exposição-Encontro ‘Civitas’ de Pádua»: Revista 30giorni, 2002-n.º 5)
Assim, a Mensagem pontifícia é clarividente ao frisar que “a boa política está a serviço da paz”.
Todavia, a política não é feita só de virtudes e de respeito pelos direitos humanos fundamentais. Por isso, Francisco dedica um parágrafo da Mensagem aos “vícios” que “enfraquecem o ideal de uma autêntica democracia”. São eles a “inépcia pessoal”, as “distorções no meio ambiente e nas instituições”, sobretudo a corrupção, o não respeito das regras, a justificação do poder com a força, a xenofobia, o racismo – que “tiram credibilidade aos sistemas”, são “a vergonha da vida pública e colocam em perigo a paz social”. Textualmente, o Papa refere 12 vícios:
A corrupção – nas múltiplas formas de apropriação indevida dos bens públicos ou de instrumentalização das pessoas –, a negação do direito, a falta de respeito pelas regras comunitárias, o enriquecimento ilegal, a justificação do poder pela força ou com o pretexto arbitrário da ‘razão de Estado’, a tendência a perpetuar-se no poder, a xenofobia e o racismo, a recusa a cuidar da Terra, a exploração ilimitada dos recursos naturais em razão do lucro imediato, o desprezo daqueles que foram forçados ao exílio”.
E o Cardeal Peter Turkson, Presidente do Dicastério para o Desenvolvimento Humano e Integral, no seu comentário a este ponto da Mensagem, acrescenta outras ameaças, como “o exercício da violência através de guerras ativas ou guerras frias”, e o “desrespeito ou abuso dos direitos das pessoas, incluindo o direito ao usufruto da Criação”.
Mas há outro aspecto vicioso da política que o Papa destaca e que tem a ver com o futuro e os jovens. Quando o exercício do poder político visa apenas “salvaguardar os interesses de certos indivíduos”, o futuro “fica comprometido e os jovens podem ser tentados pela desconfiança, por ser verem condenados a permanecer à margem”. Ao invés, quando a política é concretamente traduzida em encorajar jovens talentos e vocações que requerem a sua realização, a paz propaga-se nas consciências e “torna-se uma confiança dinâmica”. Portanto, uma política está ao serviço da paz – como afirma Francisco – se reconhece os carismas de cada pessoa entendida como “uma promessa que pode liberar novas energias”.
E, verificando que o clima de confiança não é “sempre fácil”, em particular “nestes tempos”, Francisco recorda, a este respeito, o “medo do outro” generalizado, os “fechamentos”, “os nacionalismos” que marcam a política de hodierna,  colocando em discussão a fraternidade de que nosso mundo globalizado tanto necessita. A isto vem a referência premente a “artesãos da paz” e autênticos “mensageiros” de Deus que animam as nossas sociedades.
A este desejo junta o Papa um apelo – no centenário do fim da Primeira Guerra Mundial – de fazer cessar a “proliferação descontrolada de armas” e a “escalada em termos de intimidação”.
Recordam-nos a paz – diz o Pontífice – especialmente as muitas crianças vítimas da guerra. De facto, “a paz não pode jamais reduzir-se ao mero equilíbrio das forças e do medo”, pois, “manter o outro sob ameaça significa reduzi-lo ao estado de objeto e negar a sua dignidade”. 
Depois o Papa entende que a boa política da paz se inspira no Magnificat da Virgem Maria.
Na verdade, como refere o Vatican News, o afresco que emerge da Mensagem do Papa conclui-se no último parágrafo com a ênfase na conexão entre direitos e deveres, para reafirmar que – tal como nos recorda o 70.º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos – o “grande projeto político da paz” se baseia na “responsabilidade recíproca e na interdependência dos seres humanos”. Ora, isto desafia-nos ao compromisso diário e pede-nos uma “conversão de coração e da alma”, de modo que àqueles que se querem comprometer na “política da paz”, o Pontífice sugere o espírito do Magnificat que Maria canta em nome de todos os homens:  
A misericórdia [do Todo-Poderoso] estende-se de geração em geração sobre aqueles que O temem. Manifestou o poder do seu braço e dispersou os soberbos. Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes (...), lembrado da sua misericórdia, como tinha prometido a nossos pais, a Abraão e à sua descendência, para sempre.” (Lc 1,50-55).
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O Vaticano apresentou, no dia 18, através de conferência de imprensa, a Mensagem papal para o 52.º Dia Mundial da Paz, que realça que uma política distante do “serviço à coletividade humana” se torna “instrumento de opressão, marginalização e até destruição”, ao passo que uma boa política a serviço da paz e do bem comum pode constituir uma forma eminente de caridade.
Na predita conferência de imprensa, o Cardeal Peter Turkson, Presidente do Dicastério para o Desenvolvimento Humano e Integral, comentou as propostas de Francisco. E, além do que já foi referido sobre os vícios na política, elegeu a Mensagem como um desafio aos governantes para se tornarem “mediadores” de um verdadeiro futuro para todos.
Turkson frisou que a principal missão da política deve ser “assegurar o bem-estar de todas as pessoas” e a boa “gestão dos recursos”, de modo que ninguém fique de fora. E apontou:
Esta é a grande mensagem de Francisco para este novo ano. Que se torne num ano de paz para todos, pois a política está ao serviço das relações cívicas, da mediação, da construção da amizade entre todos.”.
Na apresentação do documento, na sala de imprensa da Santa Sé, o Presidente do Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral destacou os “vícios” apontados por Francisco e já referidos, que impedem a política de dar seguimento a todo o seu potencial humano e social.
O cardeal ganês sublinhou também a parte do documento que o Santo Padre dedica às novas gerações para reforçar que “a política não deve privar os jovens do seu futuro, ou privá-los da experiência da paz”, como acontece “mesmo agora” em muitos lugares.
Por seu turno, o Secretário do Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral, que também participou na apresentação da Mensagem do Papa, disse que responsabilizar o setor político pela promoção da paz é também dar-lhe “outra dignidade”, numa época em que “a política a nível mundial e local” aparece por vezes “menos qualificada e mesmo desprezada”.
Para o Padre Bruno Marie Duffé, a política deve ser “um caminho quotidiano de encontro, de diálogo, de conciliação e reconciliação mútua”, o que deve ser evidenciado quando vivem em clima de tumulto permanente várias nações que hoje, como “a Síria, o Afeganistão, o Iémen”.
O sacerdote francês, recordando o recente encontro da COP24 em Katowice (Polónia), sustentou:
A paz não se reduz a uma relação de forças, não é um mercado, eleitoral, de interesses, é sobretudo um esforço em prol das gerações presentes e futuras. Mas todos sabemos que o futuro começa hoje.”.
Exatamente porque, muitas vezes, as relações de forças na cena internacional configuram o mercado de interesses e o acesso ao poder ou a perpetuação nele, o aludido encontro de líderes mundiais dedicado aos problemas das alterações climáticas e da defesa do meio ambiente, nomeadamente através da redução da emissão de gases poluente, foi marcado por “uma grande dificuldade em chegar a um acordo”, como realçou o Padre Bruno Marie Duffé.
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Em Portugal, a agência Ecclesia dá conta de que já foi comentada a Mensagem pontifícia relevando o último “vício” político enumerado por Francisco, que remete para a crise migratória que eclodiu nos últimos anos, devido a fenómenos como a guerra e o terrorismo, a perseguição étnica e religiosa, a pobreza e a desigualdade social – situação que, segundo o Papa, mostrou em vários casos, por parte dos Estados e dos seus políticos, “o desprezo” que reina para com aqueles “que foram forçados ao exílio”. A este respeito, o Pontífice observou:
O terror exercido sobre as pessoas mais vulneráveis contribui para o exílio de populações inteiras à procura duma terra de paz. Não são sustentáveis os discursos políticos que tendem a acusar os migrantes de todos os males e a privar os pobres da esperança.”.
Talvez numa alusão ao período eleitoral a realizar em 2019, concretamente em termos de eleições legislativas, em vários países, e europeias, nos Estados-membros da UE (União Europeia), Francisco indica a que acredita ser a ideia-chave para tornar o momento de campanha e de ida às urnas um verdadeiro motor de renovação e de mudança:
Cada renovação nos cargos eletivos, cada período eleitoral, cada etapa da vida pública constitui uma oportunidade para voltar à fonte e às referências que inspiram a justiça e o direito”. 
E, seguro de a política, “implementada no respeito fundamental pela vida, liberdade e dignidade das pessoas”, se poder tornar verdadeiramente “uma forma eminente de caridade”, frisa:
Duma coisa temos a certeza: a boa política está ao serviço da paz; respeita e promove os direitos humanos fundamentais, que são igualmente deveres recíprocos, para que se teça um vínculo de confiança e gratidão entre as gerações do presente e as futuras”.
Ao longo da sua mensagem, o Papa Bergoglio reforça que “a política é um meio fundamental para construir a cidadania e as obras do homem”, mas, quando a prioridade é “a busca do poder a todo o custo” ela “leva a abusos e injustiças”. A este propósito pode ler-se:
Com efeito, a função e a responsabilidade política constituem um desafio permanente para todos aqueles que recebem o mandato de servir o seu país, proteger as pessoas que habitam nele e trabalhar para criar as condições dum futuro digno e justo”.
Numa alusão ao centenário do fim da Primeira Guerra Mundial, que tem estado a ser assinalado este ano, Francisco avisa os políticos de que “a paz não pode jamais reduzir-se ao mero equilíbrio das forças e do medo”. Na verdade, para o Pontífice, a escalada em termos de intimidação e a proliferação descontrolada das armas são contrárias à moral e à busca duma verdadeira concórdia”. Por isso, fica patente a advertência:
Quando o exercício do poder político visa apenas salvaguardar os interesses de certos indivíduos privilegiados, o futuro fica comprometido e os jovens podem ser tentados pela desconfiança, por se verem condenados a permanecer à margem da sociedade, sem possibilidades de participar num projeto para o futuro”.
Por isso, o Pontífice argentino completa o seu olhar sobre a política com um ponto significativo da Mensagem a incidir sobre a problemática relacionada com as novas gerações, evidenciando a necessidade de dar oportunidade aos mais novos para encontrarem o seu lugar na sociedade. É a alusão à necessidade do pacto intergeracional ao serviço da educação para a paz como estilo de vida na busca da justiça, na promoção do bem comum e na realização da fraternidade.
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Em suma, considerando a paz como fruto dum grande projeto político, baseado na responsabilidade mútua e na interdependência dos seres humanos, com um desafio a abraçar dia após dia e como uma conversão do coração e da alma, o Papa reconhece três dimensões indissociáveis desta paz interior e comunitária:
- “A paz consigo mesmo, rejeitando a intransigência, a ira e a impaciência e – como aconselhava São Francisco de Sales – cultivando ‘um pouco de doçura para consigo mesmo’, a fim de oferecer ‘um pouco de doçura aos outros’;
- A paz com o outro: o familiar, o amigo, o estrangeiro, o pobre, o atribulado..., tendo a ousadia do encontro, para ouvir a mensagem que traz consigo;
- A paz com a criação, descobrindo a grandeza do dom de Deus e a parte de responsabilidade que compete a cada um de nós, como habitante deste mundo, cidadão e ator do futuro.”.
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Porque estamos à espera inativos e não pomos mãos à obra?
2018.12.19 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 6 de junho de 2018

O desporto é tão bom para a saúde como para a espiritualidade


Foi uma vigorosa asserção de Ismael Teixeira, sacerdote do patriarcado de Lisboa conhecido como “iron priest” (“padre de ferro”) num dos painéis organizados no âmbito da 14.ª Nacional da Pastoral da Cultura, que debateu no passado dia 2, em Fátima, o tema “Desporto – Virtudes e riscos”. E sustentou que a “Igreja não pode passar ao lado do desporto”, “manancial de virtudes” fundamentais não só para a saúde, mas também para a ética e para a espiritualidade.
Assumindo o “desporto como lugar pastoral” e púlpito para anúncio dos valores vividos na Igreja, o “iron priest” encara esta atividade como espaço de ascese e sublimação, secundando o “equilíbrio como homem e sacerdote”, sobretudo na ‘constância’ e na relação ‘em equipa’.
O sacerdote que participará, a 24 de junho, na corrida “iron man” que decorrerá na Marginal de Nice, em França, onde a 14 de julho de 2017 um camião avançou sobre a multidão, vitimando letalmente mais de 80 pessoas, enunciou algumas virtudes desportivas, entre as quais se destaca, o “espírito de solidariedade”, o “fair play”, o “aprender a sacrificar os interesses pessoais em favor do grupo” e a “camaradagem”. Todavia, escalpelizou o “endeusamento do desporto”, que pode induzir a negligência de aspetos “essenciais”, como o inerente ao risco da vida ao levar longe demais o esforço, frisando que há muita “ambição” entre os “iron man”. Além disso, o Padre Ismael contou entre os riscos do desporto a “viciação de resultados”, o consumo de aditivos ilícitos, a violência, a negligência da família ou a dependência de patrocínios, esta particularmente sentida na modalidade a que o clérigo se dedica, o triatlo de longa distância.
Por seu turno, o jornalista Ribeiro Cristóvão, que participou no mesmo painel, referiu-se à “situação atual” portuguesa, tendo anotado que “está quase a atingir as raias do degradante”, já que que “a sociedade evoluiu nesse sentido”, sendo que “hoje vale tudo” no desporto, desde a “corrupção” à “combinação de resultados”. A contrario, evocou como exemplar desportivista o selecionador nacional de futebol, Fernando Santos, que, para lá de um grande homem, “passou a ser um grande cristão” após um Curso de Cristandade, empenhando-se em lutas desdenhadas pela sociedade, designadamente a luta contra a legalização do aborto.
Jorge Gabriel, apresentador de televisão também participante no painel, acentuou que o desporto é reflexo de tudo o mais, pelo que os seus valores “são os que se reclamam para a vida”.
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O treinador de râguebi Tomaz Morais, na conferência de abertura da predita 14.ª Jornada Nacional, referiu que a crise do desporto português tem a ver com quem lidera”, sobretudo ao estimular “comportamentos desviantes”, e sustentou que “o desporto precisa de outra visão cultural”, caso contrário “o lado mau da formação” tomará “conta do lado bom”.
A pari, garantiu que “a educação cristã é uma raiz de força” de que “não podemos desistir” e, a ilustrar esta asserção, lembrou que, na sua infância “complicada”, “quando ia à missa ao domingo, ia com a bola”.
A sua intervenção começou com uma viagem à infância e às dificuldades por que passou – “tinha 5 anos e já fazia croquetes e enrolava empadas” –, acentuando que os pais não desistiram da educação cristã e recordando a sua atividade nos escuteiros e na Igreja. Declarou que o jogo fora a razão da sua existência “enquanto miúdo” e continua a ser “uma grande paixão”. A este propósito, lembrando que, “aos 7 anos, era federado como guarda-redes” e, aos 8, estava também federado como jogador de râguebi”, frisou que “o adversário não é senão um amigo que joga do outro lado” e salientou que “a mesma bola que cria amigos” é a “mesma que cria o pior da vida, que são os inimigos”, acrescentando:
Aquilo de que mais me orgulho enquanto pessoa é ter amigos de várias proveniências (…) e isso foi feito com a bola”.
O desportista evocou o falecido Padre Ricardo Neves, que, numa peregrinação que fez com ele a Fátima, onde conversaram, entre outros assuntos, sobre o que significa “chegar primeiro”, para confidenciar:
Aprendi com o Padre Ricardo que ser primeiro é muito mais do que ser campeões; ser primeiro é termos um coração aberto, um coração que não foge às responsabilidades e um coração que sabe perder”.
O comentador defendeu que “o desporto não é o estado mercantil a que chegou, mas “a essência máxima da expressão dos valores humanos”. Assim, querendo torná-lo num “conjunto de valores essenciais”, é preciso torná-lo “realmente importante” e “não só mais uma coisa”.
Acentuando que o desporto oferece “o bem mais escasso”, o da “tolerância”, declarou que esta atividade, enquanto “conjugação de valores éticos”, “não permite a arrogância, não permite que haja comportamentos desviantes, porque quem os tem não tem lugar no desporto”, e assinalou que “quem não é humilde no desporto, não consegue desfrutar dele”. E acrescentou:
Se o desporto é uma escola de virtudes, de desenvolvimento integral das pessoas, se é um meio para e não um fim em si mesmo, temos de o tornar realmente importante na escola, com a educação física, em casa, dando espaço aos jovens para falarem do desporto”.
Assegurando que o caráter formativo do desporto se expressa no saber vencer e na aceitação da derrota, Tomaz Morais confessou:
Ninguém gosta de perder por mais de 100 pontos, como eu já perdi. Mas isto é que nos dá a força para poder ganhar.”.
E, verificando que “o desporto é pouco percebido em Portugal”, reconheceu que essa incompreensão começa na família, quando, por exemplo, se castigam os jovens com a proibição de treinar e jogar por causa de más notas na escola.
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Dom João Lavrador, Bispo de Angra e presidente da Comissão Episcopal da Cultura, Bens Culturais e Comunicações Sociais, lamentando “as evidências de imagens tremendamente negativas” do desporto “e que apagam, ou pelo menos escondem, os verdadeiros valores”, disse:
Certamente, agora que estamos prestes a iniciar o Mundial 2018 [de futebol], a oportunidade desta reflexão é de todos reconhecida e necessária para nos consciencializarmos mais e melhor para uma valorização do desporto em benefício da pessoa e da sociedade, atendendo aos valores necessários para a promoção da dignidade humana e a do bem comum”.
E, referindo-se ao sentido que a Pastoral da Cultura dá ao tema, frisou:
Quando nos referimos ao desporto no âmbito da pastoral da cultura, estamos certamente a reconhecer a sua importância na edificação da pessoa e da sociedade atendendo ao desenvolvimento global do homem e da sociedade orientada para o bem comum e alicerçada nos verdadeiros valores que integram o Reino de Deus”.
O prelado evocou a nota pastoral da CEP (Conferência Episcopal Portuguesa) intitulada “O Desporto ao serviço da construção da pessoa e do encontro dos povos”, de novembro de 2003, por ocasião do campeonato europeu de futebol que o país ia acolher em junho e julho de 2004. A CEP, querendo contribuir para uma cultura que faça do jogo (e do futebol em especial) um instrumento de realização do homem integral e de encontro de povos, pedia:
Que “os atletas continuem a dignificar o mundo do desporto, oferecendo-lhe, não só o melhor das suas forças físicas, mas também, e sobretudo, promovendo, com o seu comportamento dentro e fora do campo, os valores da lealdade, da solidariedade, do comportamento correto, do respeito pelos outros”.
Os Bispos apelavam aos dirigentes para que fossem “os guardiães do verdadeiro sentido do jogo, fazendo “uma gestão equilibrada das instituições e estruturas a que presidem”, promovendo “a verdade desportiva”, fomentando “o respeito pelas instituições”, atuando “com transparência”, procurando, como educadores, “inculcar uma cultura dos valores elevados, como a lealdade, a amizade, a tolerância, e o respeito pela verdade”, e rejeitando e denunciando “a mentira, os negócios nebulosos, a agressividade, o desrespeito pelo adversário”. E concluíam:
Que o desporto não seja um fator de conflito ou de divisão nas famílias ou um obstáculo para o encontro, a partilha e a solidariedade familiar; que o futebol não seja um fator de alienação, que faça esquecer as responsabilidades que cada um tem para com Deus e para com os outros”.
Também Dom João Lavrador fez referência ao documento inédito do Vaticano publicado a 1 de junho pp sobre a perspetiva cristã do desporto e a pessoa humana, sob o título “Dar o melhor de si”, de que ressalta o seguinte enunciado sobre a relação da Igreja com o desporto:
Da forma como se escreveu a história do desporto, chegou-se a pensar que a Igreja católica teve um ponto de vista negativo sobre o desporto e o seu impacto, especialmente durante a Idade Média e na primeira parte da Idade Moderna, devido às posturas negativas de alguns católicos em relação ao corpo. Esta tendência negativa, todavia, baseia-se numa má interpretação da postura católica em relação ao corpo durante esses períodos e esquece a influência positiva das tradições educativas, teológicas e espirituais católicas referentes ao desporto, valorizando-o a pleno título do ponto de vista cultural.”.
Porém, o prelado açoriano não deixou o crédito por mãos alheias ao citar doutrina do Mistério eclesial. Assim, do discurso de João Paulo II aos homens do Desporto por ocasião do Jubileu do ano 2000 (28 de outubro de 2000) retirou que o desporto é “um dos fenómenos relevantes que, com uma linguagem que todos compreendem, pode comunicar valores deveras profundos”, podendo ser “veículo de excelsos ideais humanos e espirituais, quando é praticado no pleno respeito das regras”, mas que, se for manipulado para outros fins, pode “defraudar a sua autêntica finalidade” ao dar “espaço a outros interesses, que ignoram a centralidade da pessoa humana”.
Ficam, deste modo, patentes, não só as virtualidades do desporto, mas também as possibilidades de ser utilizado para fins que não dizem respeito à dignidade humana.
Aliás no mesmo discurso o Bispo de Angra lê:
As potencialidades do fenómeno desportivo tornam-no um significativo instrumento para o desenvolvimento global da pessoa e um fator mais útil do que nunca para a construção de uma sociedade mais à medida do homem”.
E concretiza sublinhando:
O sentido de fraternidade, a magnanimidade, a honestidade e o respeito pelo corpo, virtudes sem dúvida indispensáveis a todo o bom atleta, contribuem para a edificação duma sociedade civil, onde o antagonismo é substituído pela competição, onde ao confronto se prefere o encontro e à contraposição rancorosa, o confronto leal. […] Aliás, assim, o desporto não é um fim, mas um meio; pode tornar-se veículo de civilização e de genuíno entretenimento, estimulando a pessoa a dar o melhor de si e a evitar o que pode ser perigoso ou de grave prejuízo para si ou para o próximo.”.
E João Paulo II denuncia:
Infelizmente, não são poucos, e talvez estejam a tornar-se mais evidentes, os sinais de um mal-estar que às vezes põem em discussão os próprios valores éticos que fundamentam a prática desportiva. […] Ao lado de um desporto que ajuda a pessoa, há de facto outro que a prejudica; ao lado de um desporto que exalta o corpo, há outro que o mortifica e o atraiçoa; ao lado de um desporto que persegue ideais nobres, há outro que só recorre ao lucro; ao lado de um desporto que une, há outro que divide.”.
E incita a incorporar no desporto os valores espirituais para este corresponder a uma edificação global do ser humano, pois, “enquanto favorece a robustez física e tempera o caráter, o desporto nunca deve distrair dos deveres espirituais quem o pratica e o aprecia”. Aliás, para o Pontífice polaco, “seria como correr”, segundo o que escreve São Paulo, apenas “por uma coroa corruptível”, esquecendo que os cristãos jamais podem perder de vista “a coroa imarcescível” (cf 1Cor 9,25), pelo que se reconhece que “a dimensão espiritual deve ser cultivada e harmonizada com as várias atividades de entretenimento, entre as quais se insere também o desporto”.
Depois, o Bispo responsável pela Pastoral da Cultura mencionou a homilia da Celebração do Jubileu dos Desportistas (29 de outubro de 2000), em que o Papa referia duas perspetivas relevantes do desporto: a que reputa de importância notável, ao considerá-lo como sinal dos tempos; e a que diz ser de grande responsabilidade dos desportistas do mundo para a construção de uma nova civilização do amor, a sua abrangência global e a sua difusão mundial.
Sobre a primeira, sublinha:
Hoje a prática desportiva adquire uma importância notável, porque pode favorecer nos jovens a confirmação de valores relevantes como a lealdade, a perseverança, a amizade, a partilha e a solidariedade. […] Precisamente por este motivo, nos últimos anos, ela desenvolveu-se cada vez mais como um dos fenómenos típicos da modernidade, como um ‘sinal dos tempos’ capaz de interpretar as novas exigências e as renovadas expectativas da humanidade. […] Aliás o desporto difundiu-se em todos os quadrantes do mundo, ultrapassando diversidades de culturas e de nações.”.
Quanto à segunda, refere que, “em virtude do perfil planetário adquirido por esta atividade, é grande a responsabilidade dos desportistas do mundo”, pelo que “são chamados a fazer do desporto uma ocasião de encontro e de diálogo, para lá de toda a barreira de língua, raça e cultura”, pois “o desporto pode oferecer uma contribuição válida para o entendimento pacífico entre os povos e colaborar para a confirmação da nova civilização do amor no mundo”.
E o prelado de Angra terminou com palavras do Concílio Vaticano II vincando que “a Igreja lembra a todos que a cultura deve orientar-se para a perfeição integral da pessoa humana, para o bem da comunidade e de toda a sociedade” (GS, 59), e acrescentando que “por isso, é necessário cultivar o espírito de modo a desenvolver-lhe a capacidade de admirar, de intuir, de contemplar, de formar um juízo pessoal e de cultivar o sentido religioso, moral e social” (ib, 59).
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É de recordar que a 14.ª Jornada Nacional da Pastoral da Cultura se centrou no significado antropológico e nas atuais conexões socioculturais do Desporto – poética e ética do corpo e do espírito, poderes e desvios da irradiação social (negócio, corrupção, alienação, etc.) –, tendo também os conferencistas refletido sobre a possibilidade de atualização da perspetiva cristã do ideal humanista de “mens sana in corpore sano” (mente sã em corpo são).
Foram efetivamente a conquista da taça do Euro 2016 e a participação da seleção nacional no Mundial 2018 que levaram o Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, ouvindo os Referentes diocesanos, a dedicar a Jornada deste ano à reflexão sobre o desporto e a sua importância na cultura e na transmissão de valores ao homem e à sociedade. Nestes termos o prelado da CEP na Pastoral da Cultura congratulou-se por esta opção, uma vez que “ninguém ignora a capacidade do desporto para mobilizar e para atrair a atenção das populações e como o desporto se torna veículo de transmissão de ideais e valores”.
Cumpre, pois, a cada pessoa e a cada grupo eclesial e cívico continuar a reflexão e tirar as ilações pertinentes.
2018.06.06 – Louro de Carvalho