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sexta-feira, 12 de junho de 2020

Da pertinência do Dia de Portugal celebrado em modo minimalista


A pandemia de Covid-19 exigiu que fosse assinalado em modo minimalista o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas. Porém, a postura quer do Cardeal Tolentino de Mendonça, presidente da Comissão da Celebração, quer do Professor Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República, fizeram do evento um marco de reflexão.
Sublinho a excecional discrição do Chefe de Estado, que, podendo tê-lo feito, não usou dum discurso de fundo intelectual como que em réplica à genial reflexão (ou a lançar sombra sobre ela) produzida pelo 7.º convidado daquela hora. Ao invés, sublinhou a profundidade plasmada na intervenção do humanista, intelectual e poeta, que já referi noutro apontamento, e partiu para algumas interpelações que o momento impõe e deixou no ar, para que assentem, algumas iniciativas. Não, não vejo que a comunicação marcelista se tenha vestido de trajes eleitoralistas (a menos que tudo o que Marcelo diz ou faz seja eleitoralista) ou, como dizem alguns, que o que disse agora o devia ter dito em abril ou maio, vindo agora a tarde e a destempo. Ora, em abril e maio, o Presidente, salvaguardando algum excesso de palavras e intervenções assaz repetitivas e menos do seu mister, do meu ponto de vista, disse o que era possível dizer e o que devia ser dito em consonância, aliás, com o Primeiro-Ministro, responsável executivo pela condução do país.
Quanto às mensagens oficiais do Dia de Portugal, devo dizer que o secretário-geral adjunto do partido do Governo, frisando que as mensagens dos dois oradores “interpelam à solidariedade, à cooperação”, para olharmos o futuro com “confiança”, apontou o programa de estabilização económica e social apresentado pelo Governo e os demais planos de recuperação, que prevê que sejam aplicados em 2021, como instrumentos de aproveitamento desta fase de recuperação para nos transformarmos como cidadãos e como instituições e dotarmos o país de estrutura económica sustentável em articulação com a UE, que dita as regras, de acordo com o que pensa serem as necessidades dos Estados-membros, e supostamente dá os apoios.
Marcelo Rebelo de Sousa começou por corroborar as palavras de Tolentino de Mendonça, dizendo que “bem precisávamos de um homem de um humanismo e com tanta cultura para nos falar da importância dos outros e da sua redescoberta, com atenção nos mais pobres, nos mais frágeis e mais vulneráveis” e acentuando que “todas as vidas contam, todas as vidas importam”.
Depois, assumindo um tom mais duro, interpelou aqueles que, depois de terem dado o exemplo na cooperação política, estão agora tentados por “cálculos pessoais ou de grupo” a “fazer de conta que o essencial já está adquirido”. E, no que alguns veem uma crítica ao Executivo, questionou se “percebemos mesmo o que falhou na saúde, na segurança social, no privado” e se “percebemos mesmo o que temos de mudar”. E perguntou, nesta ordem de ideias, se nos contentamos com apenas escolhermos “remendar, retocar, regressar ao habitual, como se os portugueses se esquecessem do que vão ter de suportar”.
E prosseguiu sustentando que “Portugal não pode fingir que não existiu, que existe pandemia”, como “não podemos fingir que não existiu, que não existe brutal crise”, no que inegavelmente tem toda a razão. Ora, sendo 10 de Junho o momento para acordarmos para esta realidade, o Presidente vincou que não se pode omitir que “algo de muito grave ocorreu e esperar que as soluções de ontem sejam as soluções de amanhã”.
Dito isto, gizou o balanço da pandemia em “1500 mortos, mais de 300 mil desempregados, milhares e milhares de empresas paradas meses, setores totalmente paralisados”. E argumentou que “ou minimizamos o que vivemos”, comparado com outras pandemias, ou a pandemia nos obriga a “ter de sofrer de um lado e recriar de outro”. Com efeito, ora “desanimamos com os números da pandemia por sacrificar vidas e saúde”, ora “desesperamos com os números por alegadamente salvarem vidas, comprometendo o seu futuro”, o da economia.
E, invocando a história, frisou que “desperdiçámos a lição da pneumónica, a última grande pandemia, e da crise económica e social que se lhe seguiu”. Na verdade, a seguir à pandemia de 1918, houve, para lá da imensa crise económica, a instabilidade política na I República (“uma democracia em construção”) e golpes de Estado que, em 1926, levaram à ditadura e ao Estado Novo. E garantiu que, “cem anos depois, não cometeremos o mesmo erro”.
Não sei se o historiador concorda com o paralelo que o político fez com a pneumónica, dado que as circunstâncias do mundo, em termos políticos e científicos, são muitos diferentes, só as unindo a incerteza científica em torno da natureza do vírus. 
Por fim, o Presidente da República propôs uma celebração ecuménica, após a pandemia, para homenagear os mortos que sucumbiram mercê da pandemia e anunciou que, impossibilitado de condecorar todos os profissionais de saúde que combateram e combatem na linha da frente, homenageará a todos nas pessoas dos profissionais (médico, enfermeiro, técnico hospitalar e assistente operacional) que trataram o primeiro doente de Covid-19, os quais vai condecorar, dentro de dias, com a Ordem do Mérito Profissional, sentindo que “é justo que nos unamos para homenagear os heróis da saúde em Portugal”.
E não será excessivo frisar que o Cardeal Tolentino Mendonça, partindo da reflexão sobre as nossas raízes, tão inabaláveis como julgamos e tão vulneráveis como verificamos, centra a sua atenção no pacto comunitário com o acolhimento, a integração e a inclusão dos imigrantes e reforçando a componente da solidariedade intergeracional, com relevo para a necessidade de proteger os mais velhos (ostracizados na institucionalização) e os jovens adultos (que perdem sonhos), sendo a fraternidade e a compaixão o binómio que enforma a comunidade na tarefa comum que ela é chamada a desempenhar com o contributo de todos e de cada um. Por outro, lado quer a implantação da ecologia integral tanto nos areópagos nacionais e internacionais como nas atitudes de cada cidadão no quotidiano. Tudo isto comporta e convoca o amor ao país e aos concidadãos que o habitam, sobretudo na vertente do desconfinamento, fazendo a história do presente, firmada na crónica do passado e gizando o programa do futuro, como escrevia Garrett.  
Não quero ver Marcelo no 10 de Junho como exemplo de crítica a outras celebrações, como o 25 de Abril, na AR, e o 1.º de Maio, com a CGTP. Porém, quer-me parecer que a representação nos Jerónimos consubstanciada nos representantes dos órgãos de soberania mostrou à saciedade a preponderância do poder judiciário. E, se não era de deixar algum dos supremos tribunais para trás, podiam ter acompanhado Ferro Rodrigues os líderes dos grupos parlamentares e até os deputados únicos. Também foi pena não ter sido considerado o poder local e regional com o convite aos presidentes da ANMP da ANAFRE e das regiões autónomas. E, sendo as forças armadas incumbidas da defesa militar da República, não seria descabida a presença do CEMGFA, pois, apesar de o Presidente ser o comandante supremo, não tem comando efetivo.
Seja como for, o 10 de junho de 2020 fica a convocar à séria os portugueses para a mudança.
2020.06.12 – Louro de Carvalho     

quarta-feira, 10 de junho de 2020

Cardeal Dom José Tolentino de Mendonça – o discurso das raízes


O Cardeal Dom José Tolentino de Mendonça, na qualidade de presidente da Comissão das Celebrações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, foi o primeiro a discursar na cerimónia simbólica que ocorreu no Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa, neste 10 de junho de 2020. Da sua intervenção, pela sua relevância, se respigam aqui as linhas essenciais.
Na memorável peça em torno do título “O que é amar um país”, começou por citar “Flash de Herberto Helder, recordando “como pesa na água (...) a raiz de uma ilha” e, rebatizando o texto como “reflexão sobre as raízes”, saudou a raiz da ilha-arquipélago, que “se tornou uma das admiráveis entradas atlânticas de Portugal” e dirigiu a palavra àquelas e àqueles “que dia a dia encarnam Portugal onde quer que Portugal seja”.
Para assegurar que, ao cuidarmos cada um da sua parte de entre as múltiplas, “estamos juntos a edificar o todo” ou que cada português é uma expressão de Portugal e é chamado a sentir-se responsável por ele”, socorreu-se de três imagens: a casa que arquitetamos mostra-nos “a construir a cidade”; a embarcação que pilotamos mostra que somos responsáveis por ela e “pelo inteiro oceano”; e a árvore que intentamos interpretar “não viveria sem as raízes”.
De Camões diz que “não nos deu só o poema”, mas “deixou-nos em herança a poesia”. Mais: ofereceu-nos “o mais extraordinário mapa mental do Portugal do seu tempo” e iniciou um inteiro povo na “inultrapassável ciência de navegação interior que é a poesia”, que “é um guia náutico perpétuo” ou “um tratado de marinhagem para a experiência oceânica que fazemos da vida” e “uma cosmografia da alma”. Assim, Os Lusíadas são “um livro que nos leva por mar até à Índia” e “nos conduz por terra ainda mais longe: conduz-nos a nós próprios” como “indivíduos e nação”; leva-nos “àquela consciência última de nós mesmos, ao quinhão daquelas perguntas fundamentais de cujo confronto um ser humano sobre a terra não se pode isentar”.
E, estribado nas palavras de Wittgensteinm de que “os limites da minha linguagem são os limites do meu mundo”, proclamou que o vate português, hoje comemorado “desconfinou Portugal” no século XVI e continua a ser “um preclaro mestre da arte do desconfinamento”, pois desconfinar não é só “voltar a ocupar o espaço comunitário”, mas é “habitá-lo plenamente”, “modelá-lo de forma criativa, com forças e intensidades novas, como um exercício deliberado e comprometido de cidadania”; “é sentir-se protagonista e participante dum projeto mais amplo e em construção, que a todos diz respeito”, não se conformando com “os limites da linguagem, das ideias, dos modelos e do próprio tempo”, na ousadia dos “sonhos grandes” num tempo que “nos coloca no interior turbulento de uma mudança de época”.
Evocando a passagem do Canto VI d’Os Lusíadas, que celebra a chegada da expedição à Índia, assenta em que “o objetivo da missão está assim cumprido”, mas o Canto “tem uma exigente composição em antítese”: à concretização do sonho “não se chega sem atravessar uma dura experiência de crise, provocada por uma tempestade marítima”. De facto, “não há viagem sem tempestades”, nem “demandas que não enfrentem a sua própria complexificação” ou “itinerário histórico sem crises. Isto, assegura o cardeal humanista, intelectual e poeta (dele assim disse o Presidente da República), vem dito n’Os Lusíadas, nas Metamorfoses (de Ovídio), na Eneida, na Odisseia e nos Evangelhos. E, sendo “cada geração chamada a viver tempos bons e maus” e a história “feita de maturações, deslocações, ruturas e recomeços”, temos de nos encontrar como comunidade, unidos, “na atualização dos valores humanos essenciais” e capazes da luta por eles.
Depois, o orador ajustou à sua reflexão sobre as raízes os seguintes versos da estância 79 do Canto VI d’Os Lusíadas:  
Quantas árvores velhas arrancaram/ Do vento bravo as fúrias indignadas/As forçosas raízes não cuidaram/Que nunca para o Céu fossem viradas”.
A imagem mostra como, em vez de inabaláveis como pensávamos, somos portadores da vulnerabilidade causada pela “turbulência da máquina do mundo”, de tal modo que “ não há superpaíses” nem “super-homens”, pelo que “todos somos chamados a perseverar com realismo e diligência nas nossas forças e a tratar com sabedoria das nossas feridas”.
A retomar o título do discurso, Dom José Tolentino cita o ensaio de Simone Weil com vista ao “renascimento da Europa sob os escombros da II Grande Guerra”, para dizer que “um país pode ser amado por duas razões” ou por “dois amores distintos”: idealmente, emoldurando-o de modo a que permaneça fixo numa imagem imutável de glória; ou, pragmaticamente, vendo-o colocado na história, sujeito aos vários solavancos e riscos. Dito de outro modo, podemos amar pela força ou pela fragilidade, sendo que, se o reconhecimento da fragilidade inflamar o nosso amor, torna-o muito mais puro. Por outro lado, esse amor postula a “prática da compaixão”, mas “vivida como exercício efetivo da fraternidade. Com efeito, no dizer do cardeal, “compaixão e fraternidade são permanentes e necessárias raízes de que nos orgulhamos”, quer “em relação à história passada”, quer àquela “que o nosso presente escreve – chão onde “precisamos, como comunidade nacional, de fincar ainda novas raízes”.
Considerando que “a imprevista tempestade global que condicionou radicalmente as nossas vidas” se iniciou como “uma crise sanitária”, mas se tornou “uma crise poliédrica”, não podendo nós regressar ao ponto em que estávamos, importa que saibamos, como sociedade, “para onde queremos ir”. E a tempestade n’Os Lusíadas – anotou o purpurado – em vez de ter suspendido a viagem, ofereceu o ensejo de redescobrir o facto de “estarmos no mesmo barco”.
A explicar o que significa estar no mesmo barco, mencionou a parábola atribuída a Margaret Mead, segundo a qual, ao perguntar-lhe um estudante “qual seria para ela o primeiro sinal de civilização”, a antropóloga, em vez de nomear os primeiros “instrumentos de caça”, as “pedras de amolar” ou “os ancestrais recipientes de barro”, identificou como primeiro vestígio de civilização “um fémur quebrado e cicatrizado”. E o orador comentou:
No reino animal, um ser ferido está automaticamente condenado à morte, pois fica fatalmente desprotegido face aos perigos e deixa de se poder alimentar a si próprio. Que um fémur humano se tenha quebrado e restabelecido documenta a emergência de um momento completamente novo: quer dizer que uma pessoa não foi deixada para trás, sozinha; que alguém a acompanhou na sua fragilidade, dedicou-se a ela, oferecendo-lhe o cuidado necessário e garantindo a sua segurança, até que recuperasse.”.
Por isso, concluiu que “a raiz da civilização” é “a comunidade”, pois é nela que “a nossa história começa”, é ela que nos faz passar do “eu” e “tu” ao “nós”, dando-lhe “uma determinada configuração histórica, espiritual e ética”. E, evocando a etimologia da palavra “comunidade” (no latim, communitas: cum + munus), anota que ela explica que os membros de uma comunidade “não estão unidos por uma raiz ocasional qualquer”, mas por “um múnus” ou “por um comum dever, por uma tarefa partilhada”. E a primeira tarefa da comunidade é “cuidar da vida”.
Assim, a primeira consequência da celebração do Dia de Portugal será “reabilitar o pacto comunitário que é a nossa raiz” e que implica “empenharmo-nos na qualificação fraterna da vida comum, ultrapassando a cultura da indiferença e do descarte”, colocando a pessoa humana no centro, tornando concreta a justiça social, não desistindo de “corrigir as drásticas assimetrias que nos desirmanam, quando, ao pormos “os olhos postos naqueles que se podem posicionar como primeiros”, nos esquecemos dos “que são os últimos”. Face à multidão dos “concidadãos para quem a Covid-19 ficará como sinónimo de desemprego, de diminuição de condições de vida, de empobrecimento radical e mesmo de fome”, tem esta de ser “hora de solidariedade”. Vincando que, no surto pandémico, foi “um sinal humanitário importante a regularização dos imigrantes com pedidos de autorização de residência, pendentes no SEF”, frisou que o desafio da integração é imenso, “porque se trata de ajudar a construir raízes”, que “não se improvisam: são lentas, requerem tempo, políticas apropriadas e uma participação do conjunto da sociedade”. Na verdade, como bem sublinhou, “sem compaixão e fraternidade fortalecem-se apenas os muros e aliena-se a possibilidade de lançar raízes”.
A segunda tarefa, decorrente da primeira, é o robustecimento do pacto intergeracional, ficando contraindicada a arrumação da sociedade “em faixas etárias”, numa “visão desagregada e desigual”, como se não fossemos “um todo inseparável”. Precisamos, pois, de “uma visão mais inclusiva do contributo das diversas gerações”, sendo “um erro pensar ou representar uma geração como um peso, pois não poderíamos viver uns sem os outros”. Assim, a Covid-19 obriga-nos como comunidade “a refletir sobre a situação dos idosos” em Portugal e na Europa. Por um lado, tendo eles sido as principais vítimas da pandemia, precisamos chorar essas perdas com a dignidade e o tempo que ainda não disponibilizámos; por outro, temos de rejeitar “a tese de que uma esperança de vida mais breve determine a diminuição do seu valor”, porque “a vida é um valor sem variações” e “uma raiz de futuro em Portugal será”, ao invés, “aprofundar a contribuição dos seus idosos, ajudá-los a viver e a assumir-se como mediadores de vida para as novas gerações”. Depois, “robustecer o pacto intergeracional” é também olhar seriamente para a geração dos jovens adultos, abaixo dos 35 anos, que vê, praticamente numa década, “abater-se sobre as suas aspirações, uma segunda crise económica grave”. Muitos com alta qualificação escolar ficam remetidos para uma experiência interminável de trabalho precário ou de atividades informais que os obrigam “a adiar os legítimos sonhos de autonomia pessoal, de lançar raízes familiares, de ter filhos e de se realizarem”.
A terceira tarefa é um novo pacto ambiental, pois “não podemos continuar a chamar progresso àquilo que para as frágeis condições do planeta ou para a existência dos outros seres vivos, tem sido uma evidente regressão”. Assim, a Encíclica Laudato Sii’, exorta à ecologia integral, “onde o presente e o futuro da nossa humanidade se pense a par do presente e do futuro da grande casa comum”. Precisamos, pois, diz o cardeal, de “construir uma ecologia do mundo, onde em vez de senhores despóticos apareçamos como cuidadores sensatos, praticando uma ética da criação”, com “expressão jurídica efetiva nos tratados transnacionais” e “nos estilos de vida, nas escolhas e nas expressões mais domésticas do nosso quotidiano.
Por fim, o orador disse que Os Lusíadas, além de documentarem o país em viagem, representam “o próprio país como viagem”. E o seu maior tesouro é a possibilidade de ser-em-comum, a tarefa “sempre inacabada de plasmar uma comunidade aberta e justa, de mulheres e homens livres”, onde todos são necessários corresponsáveis “pelo trânsito que liga a multiplicidade das raízes à composição esperançosa do futuro” – viagem que, tal como o amor, não se esgota “na temporalidade da história”, mas é “um rasto do fulgor” que exprime a nossa ardente natureza.
2020.06.10 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

A boa política está ao serviço da paz


É o tema da Mensagem para o LII Dia Mundial da Paz, que se celebrará a 1 de janeiro de 2019, sustentando o Papa Francisco que a política se pode “tornar uma forma eminente de caridade e servir a paz se respeitar e promover os direitos humanos, construir cidadania e encorajar os jovens.
A paz esteja nesta casa!” Com estes votos o Papa inicia o novo ano e abre a sua Mensagem para o Dia Mundial da Paz, divulgada no dia 18. São as palavras com as quais Jesus envia os apóstolos em missão, mas a casa de que fala é hoje “toda a família, comunidade, todo o país, todo o continente” e “a nossa casa comum”, de que Deus nos confia os cuidados.
O coração da mensagem, datada de 8 de dezembro pp, dia da Solenidade da Imaculada Conceição de Maria, a Rainha da Paz, é a estreita relação entre a paz e a política, em que Francisco divisa potencialidades e vícios na perspetiva presente e futura, colocando ambas num  “desafio” diário, num “grande projeto” estribado “na responsabilidade recíproca e na interdependência dos seres humanos”.
Na verdade, a paz, como “flor frágil que tenta florescer no meio das pedras de violência” (escreve o Papa, citando o poeta Charles Peguy), choca-se com “abusos” e “injustiças”, “marginalização e destruição” que a política provoca, quando não é vivida e exercida “como um serviço à comunidade”. Por outro lado, a boa política é um “veículo fundamental para construir cidadania e obras” e, se “implementada no respeito fundamental da vida, liberdade e dignidade”, pode se tornar uma “forma eminente de caridade”.
Então, deve cultivar-se a caridade como virtude por uma política ao serviço da paz e dos direitos. Com efeito, se a ação do homem for sustentada e inspirada pela caridade – recorda o Pontífice citando a Encíclica Caritas in Veritate de Bento XVI – “contribui para a edificação daquela cidade universal de Deus para a qual avança a história da família humana”.
Trata-se de um programa em que os políticos de todas as filiações ideológicas podem encontrar-se, contanto que operem para o bem da família humana, praticando virtudes que se subordinam ao “bom agir político”: justiça, equidade, respeito, sinceridade, honestidade e lealdade.
O bom político é (como descrito nas bem-aventuranças do cardeal vietnamita François Xavier Nguyễn Vãn Thuận, falecido em 2002, que o Papa retoma) quem, tendo a consciência do seu papel, é coerente, credível, capaz de ouvir, corajoso e comprometido com a unidade e a mudança radical:
“Bem-aventurado o político que tem uma alta noção e uma profunda consciência do seu papel.
Bem-aventurado o político de cuja pessoa irradia a credibilidade.
Bem-aventurado o político que trabalha para o bem comum e não para os próprios interesses.
Bem-aventurado o político que permanece fielmente coerente.
Bem-aventurado o político que realiza a unidade.
Bem-aventurado o político que está comprometido na realização duma mudança radical.
Bem-aventurado o político que sabe escutar.
Bem-aventurado o político que não tem medo.” (Cf Discurso na Exposição-Encontro ‘Civitas’ de Pádua»: Revista 30giorni, 2002-n.º 5)
Assim, a Mensagem pontifícia é clarividente ao frisar que “a boa política está a serviço da paz”.
Todavia, a política não é feita só de virtudes e de respeito pelos direitos humanos fundamentais. Por isso, Francisco dedica um parágrafo da Mensagem aos “vícios” que “enfraquecem o ideal de uma autêntica democracia”. São eles a “inépcia pessoal”, as “distorções no meio ambiente e nas instituições”, sobretudo a corrupção, o não respeito das regras, a justificação do poder com a força, a xenofobia, o racismo – que “tiram credibilidade aos sistemas”, são “a vergonha da vida pública e colocam em perigo a paz social”. Textualmente, o Papa refere 12 vícios:
A corrupção – nas múltiplas formas de apropriação indevida dos bens públicos ou de instrumentalização das pessoas –, a negação do direito, a falta de respeito pelas regras comunitárias, o enriquecimento ilegal, a justificação do poder pela força ou com o pretexto arbitrário da ‘razão de Estado’, a tendência a perpetuar-se no poder, a xenofobia e o racismo, a recusa a cuidar da Terra, a exploração ilimitada dos recursos naturais em razão do lucro imediato, o desprezo daqueles que foram forçados ao exílio”.
E o Cardeal Peter Turkson, Presidente do Dicastério para o Desenvolvimento Humano e Integral, no seu comentário a este ponto da Mensagem, acrescenta outras ameaças, como “o exercício da violência através de guerras ativas ou guerras frias”, e o “desrespeito ou abuso dos direitos das pessoas, incluindo o direito ao usufruto da Criação”.
Mas há outro aspecto vicioso da política que o Papa destaca e que tem a ver com o futuro e os jovens. Quando o exercício do poder político visa apenas “salvaguardar os interesses de certos indivíduos”, o futuro “fica comprometido e os jovens podem ser tentados pela desconfiança, por ser verem condenados a permanecer à margem”. Ao invés, quando a política é concretamente traduzida em encorajar jovens talentos e vocações que requerem a sua realização, a paz propaga-se nas consciências e “torna-se uma confiança dinâmica”. Portanto, uma política está ao serviço da paz – como afirma Francisco – se reconhece os carismas de cada pessoa entendida como “uma promessa que pode liberar novas energias”.
E, verificando que o clima de confiança não é “sempre fácil”, em particular “nestes tempos”, Francisco recorda, a este respeito, o “medo do outro” generalizado, os “fechamentos”, “os nacionalismos” que marcam a política de hodierna,  colocando em discussão a fraternidade de que nosso mundo globalizado tanto necessita. A isto vem a referência premente a “artesãos da paz” e autênticos “mensageiros” de Deus que animam as nossas sociedades.
A este desejo junta o Papa um apelo – no centenário do fim da Primeira Guerra Mundial – de fazer cessar a “proliferação descontrolada de armas” e a “escalada em termos de intimidação”.
Recordam-nos a paz – diz o Pontífice – especialmente as muitas crianças vítimas da guerra. De facto, “a paz não pode jamais reduzir-se ao mero equilíbrio das forças e do medo”, pois, “manter o outro sob ameaça significa reduzi-lo ao estado de objeto e negar a sua dignidade”. 
Depois o Papa entende que a boa política da paz se inspira no Magnificat da Virgem Maria.
Na verdade, como refere o Vatican News, o afresco que emerge da Mensagem do Papa conclui-se no último parágrafo com a ênfase na conexão entre direitos e deveres, para reafirmar que – tal como nos recorda o 70.º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos – o “grande projeto político da paz” se baseia na “responsabilidade recíproca e na interdependência dos seres humanos”. Ora, isto desafia-nos ao compromisso diário e pede-nos uma “conversão de coração e da alma”, de modo que àqueles que se querem comprometer na “política da paz”, o Pontífice sugere o espírito do Magnificat que Maria canta em nome de todos os homens:  
A misericórdia [do Todo-Poderoso] estende-se de geração em geração sobre aqueles que O temem. Manifestou o poder do seu braço e dispersou os soberbos. Derrubou os poderosos de seus tronos e exaltou os humildes (...), lembrado da sua misericórdia, como tinha prometido a nossos pais, a Abraão e à sua descendência, para sempre.” (Lc 1,50-55).
***
O Vaticano apresentou, no dia 18, através de conferência de imprensa, a Mensagem papal para o 52.º Dia Mundial da Paz, que realça que uma política distante do “serviço à coletividade humana” se torna “instrumento de opressão, marginalização e até destruição”, ao passo que uma boa política a serviço da paz e do bem comum pode constituir uma forma eminente de caridade.
Na predita conferência de imprensa, o Cardeal Peter Turkson, Presidente do Dicastério para o Desenvolvimento Humano e Integral, comentou as propostas de Francisco. E, além do que já foi referido sobre os vícios na política, elegeu a Mensagem como um desafio aos governantes para se tornarem “mediadores” de um verdadeiro futuro para todos.
Turkson frisou que a principal missão da política deve ser “assegurar o bem-estar de todas as pessoas” e a boa “gestão dos recursos”, de modo que ninguém fique de fora. E apontou:
Esta é a grande mensagem de Francisco para este novo ano. Que se torne num ano de paz para todos, pois a política está ao serviço das relações cívicas, da mediação, da construção da amizade entre todos.”.
Na apresentação do documento, na sala de imprensa da Santa Sé, o Presidente do Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral destacou os “vícios” apontados por Francisco e já referidos, que impedem a política de dar seguimento a todo o seu potencial humano e social.
O cardeal ganês sublinhou também a parte do documento que o Santo Padre dedica às novas gerações para reforçar que “a política não deve privar os jovens do seu futuro, ou privá-los da experiência da paz”, como acontece “mesmo agora” em muitos lugares.
Por seu turno, o Secretário do Dicastério para o Desenvolvimento Humano Integral, que também participou na apresentação da Mensagem do Papa, disse que responsabilizar o setor político pela promoção da paz é também dar-lhe “outra dignidade”, numa época em que “a política a nível mundial e local” aparece por vezes “menos qualificada e mesmo desprezada”.
Para o Padre Bruno Marie Duffé, a política deve ser “um caminho quotidiano de encontro, de diálogo, de conciliação e reconciliação mútua”, o que deve ser evidenciado quando vivem em clima de tumulto permanente várias nações que hoje, como “a Síria, o Afeganistão, o Iémen”.
O sacerdote francês, recordando o recente encontro da COP24 em Katowice (Polónia), sustentou:
A paz não se reduz a uma relação de forças, não é um mercado, eleitoral, de interesses, é sobretudo um esforço em prol das gerações presentes e futuras. Mas todos sabemos que o futuro começa hoje.”.
Exatamente porque, muitas vezes, as relações de forças na cena internacional configuram o mercado de interesses e o acesso ao poder ou a perpetuação nele, o aludido encontro de líderes mundiais dedicado aos problemas das alterações climáticas e da defesa do meio ambiente, nomeadamente através da redução da emissão de gases poluente, foi marcado por “uma grande dificuldade em chegar a um acordo”, como realçou o Padre Bruno Marie Duffé.
***
Em Portugal, a agência Ecclesia dá conta de que já foi comentada a Mensagem pontifícia relevando o último “vício” político enumerado por Francisco, que remete para a crise migratória que eclodiu nos últimos anos, devido a fenómenos como a guerra e o terrorismo, a perseguição étnica e religiosa, a pobreza e a desigualdade social – situação que, segundo o Papa, mostrou em vários casos, por parte dos Estados e dos seus políticos, “o desprezo” que reina para com aqueles “que foram forçados ao exílio”. A este respeito, o Pontífice observou:
O terror exercido sobre as pessoas mais vulneráveis contribui para o exílio de populações inteiras à procura duma terra de paz. Não são sustentáveis os discursos políticos que tendem a acusar os migrantes de todos os males e a privar os pobres da esperança.”.
Talvez numa alusão ao período eleitoral a realizar em 2019, concretamente em termos de eleições legislativas, em vários países, e europeias, nos Estados-membros da UE (União Europeia), Francisco indica a que acredita ser a ideia-chave para tornar o momento de campanha e de ida às urnas um verdadeiro motor de renovação e de mudança:
Cada renovação nos cargos eletivos, cada período eleitoral, cada etapa da vida pública constitui uma oportunidade para voltar à fonte e às referências que inspiram a justiça e o direito”. 
E, seguro de a política, “implementada no respeito fundamental pela vida, liberdade e dignidade das pessoas”, se poder tornar verdadeiramente “uma forma eminente de caridade”, frisa:
Duma coisa temos a certeza: a boa política está ao serviço da paz; respeita e promove os direitos humanos fundamentais, que são igualmente deveres recíprocos, para que se teça um vínculo de confiança e gratidão entre as gerações do presente e as futuras”.
Ao longo da sua mensagem, o Papa Bergoglio reforça que “a política é um meio fundamental para construir a cidadania e as obras do homem”, mas, quando a prioridade é “a busca do poder a todo o custo” ela “leva a abusos e injustiças”. A este propósito pode ler-se:
Com efeito, a função e a responsabilidade política constituem um desafio permanente para todos aqueles que recebem o mandato de servir o seu país, proteger as pessoas que habitam nele e trabalhar para criar as condições dum futuro digno e justo”.
Numa alusão ao centenário do fim da Primeira Guerra Mundial, que tem estado a ser assinalado este ano, Francisco avisa os políticos de que “a paz não pode jamais reduzir-se ao mero equilíbrio das forças e do medo”. Na verdade, para o Pontífice, a escalada em termos de intimidação e a proliferação descontrolada das armas são contrárias à moral e à busca duma verdadeira concórdia”. Por isso, fica patente a advertência:
Quando o exercício do poder político visa apenas salvaguardar os interesses de certos indivíduos privilegiados, o futuro fica comprometido e os jovens podem ser tentados pela desconfiança, por se verem condenados a permanecer à margem da sociedade, sem possibilidades de participar num projeto para o futuro”.
Por isso, o Pontífice argentino completa o seu olhar sobre a política com um ponto significativo da Mensagem a incidir sobre a problemática relacionada com as novas gerações, evidenciando a necessidade de dar oportunidade aos mais novos para encontrarem o seu lugar na sociedade. É a alusão à necessidade do pacto intergeracional ao serviço da educação para a paz como estilo de vida na busca da justiça, na promoção do bem comum e na realização da fraternidade.
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Em suma, considerando a paz como fruto dum grande projeto político, baseado na responsabilidade mútua e na interdependência dos seres humanos, com um desafio a abraçar dia após dia e como uma conversão do coração e da alma, o Papa reconhece três dimensões indissociáveis desta paz interior e comunitária:
- “A paz consigo mesmo, rejeitando a intransigência, a ira e a impaciência e – como aconselhava São Francisco de Sales – cultivando ‘um pouco de doçura para consigo mesmo’, a fim de oferecer ‘um pouco de doçura aos outros’;
- A paz com o outro: o familiar, o amigo, o estrangeiro, o pobre, o atribulado..., tendo a ousadia do encontro, para ouvir a mensagem que traz consigo;
- A paz com a criação, descobrindo a grandeza do dom de Deus e a parte de responsabilidade que compete a cada um de nós, como habitante deste mundo, cidadão e ator do futuro.”.
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Porque estamos à espera inativos e não pomos mãos à obra?
2018.12.19 – Louro de Carvalho

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

É necessária a refontalização e a fundamentação nas origens


O Papa Francisco recebeu em audiência, no passado dia 3 de dezembro, na Sala do Consistório, no Vaticano, a comunidade jesuíta do Colégio Internacional de Jesus, fundado pelo Padre Pedro Arrupe SJ, em 1968, na comemoração dos 50 anos da sua fundação, a quem declarou:
Deus fundou-vos como jesuítas. Este jubileu é um momento de graça a fim de recordar e sentir-se com a Igreja numa Companhia e numa pertença que tem um nome: Jesus. Lembrar significa fundamentar-se novamente em Jesus, na sua vida. Significa reiterar um não claro à tentação de viver para si mesmos. Reafirmar que, como Jesus, existimos para o Pai.
Em certos momentos da vida da Igreja, é mister fazer a refontalização, ou seja, procurar beber nas fontes do Evangelho a frescura da cristalinidade das águas do Espírito e reencontrar o apoio ao ser e à missão da Igreja nas origens, a par da leitura dos sinais dos tempos que, em cada época, constituem desafios à Igreja para a releitura atualizada e atuante do Evangelho. Isto porque o tempo desgasta, corrói e tende a descaraterizar a ação e a imagem. Para isso têm-se celebrado ao longo da História concílios e sínodos, embora alguns se tenham emaranhado em demasia nos anátemas e em aspetos jurídico-morais. No entanto, parece que o Vaticano II quis mesmo a refontalização e a inspiração nas origens articuladas com leitura dos sinais dos tempos.
O mesmo vem acontecendo nos institutos religiosos e seculares e nas sociedades de vida apostólica. Quem não se lembra, por exemplo, da reforma da Ordem Beneditina por Bernardo de Claraval ou a do Carmelo por Teresa de Jesus e João da Cruz? E porque não atentar na reforma da vida religiosa desejada pelo Vaticano II, conforme ficou expresso na Lumen Gentium (Constituição Dogmática sobre a Igreja), em especial no seu capítulo VI (os conselhos evangélicos e o estado religioso, 43; consagração ao serviço divino – o testemunho de vida, 44; regras e constituições – a relação com a Hierarquia, 45; pureza de vida ao serviço do mundo, 46; perseverança e santidade, 47) e no Decreto Perfectae Caritatis, sobre a conveniente renovação da vida religiosa – a que se seguiu a exortação apostólica Evangelica Testificatio, de São Paulo VI, sobre a renovação da vida religiosa segundo os ensinamentos do Concílio e sobre a qual se vêm pronunciando recorrentemente os seus sucessores.   
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Agora à comunidade jesuíta em referência Francisco, também jesuíta, disse:
Que em Jesus devemos viver para servir e não para ser servidos. Lembrar é repetir com a inteligência e a vontade que a Páscoa do Senhor é suficiente para a vida do jesuítaNão se precisa de nada mais. É bom retomar a segunda semana dos Exercícios Espirituais para se fundamentar novamente na vida de Jesus, no caminho da Páscoa, pois formar-se é primeiramente fundamentar-se.”.
Citando São Francisco Xavier, pediu que, em todas as suas coisas, se fundamentassem totalmente em Deus. E discorreu:
Vós morais na casa em que Santo Inácio viveu, escreveu as Constituições e enviou os primeiros companheiros em missão para o mundo. Fundamentai-vos nas origens. É a graça desses anos vividos em Roma: a graça do fundamento, a graça das origens. Vós sois um manancial que leva o mundo a Roma e Roma ao mundo, a Companhia no coração da Igreja e a Igreja no coração da Companhia.”.
Depois, o Papa Bergoglio destacou a importância do crescer, ensinando:
Vós sois chamados nesses anos a crescer, aprofundando as raízes. A planta cresce das raízes que não se veem, mas, juntas, sustentam-se. Para de dar frutos não quando tem poucos ramos, mas quando as raízes se secam. Ter raízes é ter um coração bem enxertado, que em Deus é capaz de se dilatar. Ao Deus semper maior, responde-se com o magis da vida, com o entusiasmo límpido e impetuoso, com o fogo que arde dentro, com a tensão positiva, sempre crescente, que diz não a toda acomodação. É o ‘Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho’ do Apóstolo Paulo. É o “não parei um instante” de São Francisco Xavier. É o que impelia Santo Alberto Hurtado a ser uma flecha pontuda nos membros adormecidos da Igreja. O coração, se não se dilata, atrofia-se.”.
 A planta, se não cresce, murcha” – sustentou o Santo Padre, que sentenciou:
Não há crescimento sem crises, não há fruto sem poda ou vitória sem luta. Crescer, criar raízes significa lutar incansavelmente contra toda mundanidade espiritual, mal pior que pode nos acontecer, como dizia o Padre de Lubac. Se a mundanidade afeta as raízes, adeus frutos e adeus planta. Para mim, este é o maior perigo neste tempo: a mundanidade espiritual que leva ao clericalismo e vai adiante. Ao invés, se o crescimento é um agir constante contra o próprio ego, haverá muito fruto. Enquanto o espírito inimigo não cessará de vos tentar a buscar os vossos consolos, insinuando que se vive melhor quando se obtém o que se quer, o Espírito amigo vos encorajará suavemente no bem a crescer na docilidade humilde, indo adiante, sem rutura e insatisfação, com a serenidade que vem somente de Deus.”.
Citou dois sinais positivos de crescimento: liberdade e obediência “duas virtudes que crescem se caminham juntas”, já que “a liberdade é essencial, pois ‘onde se acha o Espírito do Senhor aí existe a liberdade’ (cf 2Cor 3,17). Com efeito, “o Espírito de Deus fala livremente a cada um através de sentimentos e pensamentos, pelo que “não pode ser fechado em tabelas, mas acolhido com o coração, em caminho, por filhos livres, não por servos.”. E exortou, na linha jesuítica:
Desejo que vós sejais filhos livres que, unidos nas diversidades, lutem todos os dias para conquistar a liberdade maior: a de si mesmos. Sereis ajudados pela “oração que nunca deve ser transcurada: é a herança que o Padre Arrupe nos deixou. […] E a obediência. Como para Jesus, também para nós o alimento da vida é fazer a vontade do Pai, e dos padres que a Igreja doa. […] Livres e obedientes, seguindo o exemplo de Santo Inácio, que em plena liberdade apresentou ao Papa a total obediência da Companhia numa Igreja que certamente não resplandecia por costumes evangélicos. Ali há o jesuíta adulto, crescido.”.
A seguir, Francisco dissertou sobre o amadurecer, sentenciando:
Não se amadurece nas raízes e no tronco, mas colocando para fora os frutos que fecundam a terra de sementes novas. Aqui, entra em jogo a missão, o colocar-se face a face perante as situações de hoje, cuidando do mundo que Deus ama.”.
Para o Papa argentino, “a paixão e a disciplina nos estudos contribuem para essa missão, sobretudo se estiverem dispostos a aproximar-se do ministério da Palavra e do ministério da consolação, onde tocam a carne que a Palavra tomou, pois, ao acariciar os membros sofredores de Cristo, aumenta a familiaridade com a Palavra encarnada. Por isso, recomendou:
Não vos espanteis com os sofrimentos que virdes. Levai o crucifixo adiante. Levai os sofrimentos ‘na Eucaristia que sabe abraçar os crucificados de todos os tempos’ […] Assim, amadurece também a paciência e junto com ela a esperança, pois são gémeas: crescem juntas. Não tenhais medo de chorar no contacto com as situações difíceis: são gotas que irrigam a vida, a tornam dócil. As lágrimas de compaixão purificam o coração e os afetos.”.
E, frisando que no Colégio de Jesus se aprende “a arte do viver incluindo o outro”, o Papa disse:
Não se trata apenas de se entender e querer bem, mas de carregar os fardos uns dos outros. Não somente os fardos das fragilidades recíprocas, mas das diferentes histórias, culturas, memórias dos povos. Far-vos-á bem partilhar e descobrir as alegrias e os problemas verdadeiros do mundo através da presença do irmão que está próximo de vós. Abraçar nele não apenas o que interessa ou fascina, mas as angústias e as esperanças de uma Igreja e de um povo.”.
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Continuando a falar de jesuítas, é de evocar o novo livro sobre o diálogo intergeracional, que foi lançado pelo padre Antonio Spadaro, diretor da revista dos jesuítas “La Civiltà Cattolica”, no passado dia 1 de dezembro, na sede da revista.
Nasce nova fonte de sabedoria graças ao encontro, ao diálogo entre as pessoas e, especialmente, entre gerações diferentes. É a mensagem de esperança que ressalta do livro “Francisco. A sabedoria do tempo. Em diálogo com o Papa Francisco sobre grandes questões da vida”, da lavra editorial de Spadaro para a Editora Marsilio. Na mesa redonda do lançamento, sob a moderação do jornalista da RAI Riccardo Iacona, participaram, além do editor: Paolo Ruffini, Prefeito do Dicastério para a Comunicação; Shahrzad Houshmand Zadeh, professora de estudos islâmicos; e Antonio Polito, editorialista do jornal italiano Corriere della Sera.
Sobressai no livro a necessidade de compartilhar a sabedoria do tempo. De facto, o livro foi realizado através de 250 entrevistas feitas com pessoas idosas em mais de 30 países, graças ao projeto “Compartilhando a Sabedoria do Tempo”, iniciativa de várias editoras coordenada pela norte-americana Loyola Press, com a ajuda da organização sem fins lucrativos Unbound e do Serviço dos Jesuítas para os Refugiados. A aliança entre jovens e idosos – “uma aliança entre gerações” – é o que se destaca no prefácio escrito pelo Santo Padre: uma reflexão profunda sobre o tema, que introduz um concerto de palavras e imagens entre os idosos de todo o mundo: “Somente se os nossos avós tiverem a coragem de sonhar e os nossos jovens de profetizar grandes coisas, a nossa sociedade vai avançar” – assim escreveu o Papa.
Houshmand Zadeh explicitou que “a sabedoria do tempo nos fala sobre a vida de mulheres e homens diferentes e, desta forma, o diálogo não é apenas entre gerações, mas também entre religiões, espiritualidade e culturas” – um encontro que, no entanto, “nos faz ver uma única humanidade e que os sofrimentos da humanidade são uma só coisa”. Enfim, tantas diferenças, mas uma só humanidade!
Por seu turno, Antonio Polito salientou como o Papa se dirige, “não apenas neste livro, a cada pessoa, portanto a cada individuo e não às ideias abstratas”. E enfatizou que o tema da sabedoria dos idosos é pouco tratado e, por isso, corre o risco concreto de ser esquecido. Na verdade, uma caraterística das últimas décadas, como frisou o jornalista, “é precisamente a interrupção da comunicação do saber entre idosos e jovens”.
A consciência do valor da vida foi perdida”, segundo Ruffini, que observou:
O oposto da ternura é o distanciar-se do outro, aqui se pode relançar o problema da profunda divisão entre as gerações”.
O Prefeito salientou como se perdeu a consciência do valor da vida, da sua duração e, portanto, do facto de que, mais cedo ou mais tarde, ela cessa – “uma consciência muito mais presente na mente e nas palavras dos nossos avós”. Para Ruffini, o livro realizado por Spadaro tem uma eloquência particular mercê da “força das muitas fotografias presentes”. É “um diálogo através das imagens”.
Para Spadaro, “são os idosos que sonham com o futuro”, pelo que a ideia do livro e do diálogo com os anciãos surgiu para redescobrir a sua sabedoria em conformidade com um versículo do livro do profeta Joel: “Vossos velhos sonharão, vossos jovens terão visões”. Isto porque, de acordo com os ensinamentos do Papa Francisco, “para sonhar é preciso ter experiência” e poder, assim, imaginar um mundo melhor.
O Padre António Spadaro também contou como Francisco, no prefácio do livro, se inspira em memórias pessoais, especialmente quando fala dos avós. Diz o Papa que os colocamos de lado e perdemos o valor da sabedoria deles”. Mas, ao fazê-lo, há um aumento nos corações dos idosos “da angústia de serem pouco tolerados e abandonados”. Assim, o convite de Francisco é para “despertar o senso cívico de gratidão, apreço, hospitalidade, capaz de fazer o idoso se sentir parte viva de sua comunidade”.
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Embora pareça não haver grande conexão entre os temas expostos e o seguinte, não é despicienda a mensagem de Francisco aos jovens da Associação “Rondine Cittadella della Pace. São efetivamente os jovens e os idosos que têm o ónus de gerar lideranças e promover a paz, apesar de tantas vezes estarem embarcados na guerra e na promoção das desigualdades. Por isso, o Pontífice bradou perante aqueles jovens: “Precisamos de líderes com humildade, não arrogância”. E recomendou-lhes: “nunca percais a maravilha e a humildade”. 
Na manhã do dia 3 de dezembro, o Papa recebeu os membros da predita organização “Rondine Cittadella della Pace”, que tem como compromisso a redução dos conflitos armados no mundo e a difusão da própria metodologia para a transformação criativa do conflito em cada contexto, pelo que acolhe jovens provenientes de países em conflito armado ou pós-conflitos e os ajuda a descobrir a pessoa no próprio inimigo, através da convivência do dia a dia.
Depois das saudações iniciais, o Papa recordou o nobre objetivo da Associação:
Verificar pessoalmente se o outro, aquele ou aquela que está do outro lado da fronteira, das redes e dos muros intransponíveis, será realmente o que todos afirmam: um inimigo”.
E recordou que, nestes 20 anos, foi aplicado um método capaz de “transformar os conflitos: tirar os jovens deste engano e devolvê-los aos seus povos para um pleno desenvolvimento espiritual, moral, cultural e civil”.
Depois, o Pontífice falou sobre o próximo Apelo que a Associação fará na ONU por ocasião do 70.º aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos, em 10 de dezembro, confirmando o seu apoio, simpatia e bênção
Ouvir uma jovem palestina e um jovem israelense que juntos pedem aos governos do mundo que façam algo que possa reabrir o futuro, transferindo o custo de uma arma do balanço da defesa para o balanço da educação para formar um líder de paz, é uma coisa rara e luminosa!.
Dirigindo-se diretamente aos jovens que tiveram dois anos de formação da Associação, disse:
Vós revirastes os vossos sentimentos e pensamentos, fizestes nascer a confiança recíproca e agora estais prontos para assumirdes responsabilidades profissionais, civis e políticas para o bem dos vossos povos. Vós já sois jovens líderes que no Apelo pedis aos Estados e aos povos que se comprometam juntos!”.
Depois de confirmar o seu total apoio e se comprometer a falar com os chefes de Estado e de Governo, o Papa complementou dizendo:
Precisamos de líderes com uma nova mentalidade. Os líderes de paz não são os políticos que não sabem dialogar ou confrontar-se: um líder que não se esforça por ir ao encontro do ‘inimigo’, por se sentar à mesa para discutir como vós fazeis não pode levar o próprio povo para a paz. Para isso é preciso humildade, não arrogância: que São Francisco vos ajude a seguir este caminho, com coragem.”.
Por fim, elogiou o uso da Encíclica Laudato si como texto fundamental para a escola da associação: “a ecologia integral oferece a perspetiva para que a humanidade seja concebida como uma única família e considere a Terra como a casa comum”.
E, na saudação final, recomendou aos jovens que nunca percam “a maravilha e a humildade”, que protejam “a confiança que amadureceu” entre eles transformando-a em “generoso serviço ao bem comum”.
Em suma, jesuítas e os outros religiosos, os jovens, adultos e idosos devem “trabalhar juntos para eliminar a guerra da história da humanidade e criar um mundo de paz”.
Prosit!
2018.12.04 – Louro de Carvalho