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segunda-feira, 30 de setembro de 2019

António Lobo Antunes “já entrou no Olimpo”


Quem o diz é o Presidente da República, que atribuiu a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade a António Lobo Antunes no encerramento do colóquio que homenageou o escritor na Fundação Gulbenkian, em Lisboa, agradecendo-lhe por ter “contribuído para a nossa liberdade, por aquilo que pensou, por aquilo que fez e por aquilo que escreveu”.
O colóquio dedicado aos 40 anos da vida literária do autor de A Outra Margem do Mar (ed. Dom Quixote) que no sábado, dia 28 de setembro, na Fundação Gulbenkian, em Lisboa, numa sala onde estavam os antigos Presidentes da República Jorge Sampaio e Ramalho Eanes.
Bernard-Henry Lévy, o escritor e filósofo francês, que fez a conferência de abertura, mostrou-se feliz por o seu país ter permitido à obra do escritor português a entrada na Biblioteca La Pléiade, a coleção de referências da literatura mundial (o anúncio foi feito o ano passado e o processo está em andamento segundo a editora). E disse:
Mas há um gesto que se impunha, há uma recompensa que se impunha, há uma recompensa que ele merece há tantos anos e que nos faz perguntar: Como é possível que tarde tanto? A recompensa que eu peço esta manhã para António Lobo Antunes é naturalmente o Prémio Nobel da Literatura.”.
Horas depois, na mesma sala, o Presidente da República lembrava que há um quarto de século havia um debate na sociedade portuguesa sobre o Prémio Nobel da Literatura para António Lobo Antunes, debate que rejeitava, porque sempre achou que estava acima disso o autor de Fado Alexandrino. E acrescentou:
Não precisava do Prémio Nobel da Literatura para ser quem era. (…) Isso ficou mais claro quando a Pléiade o reconheceu e o chamou ao Olimpo. [António Lobo Antunes] entrou no Olimpo. Não há que esperar notícias dessa capital da Europa nórdica. Não importa, é perda de tempo.”.
E o Presidente considerou que o intelectual francês fez bem em ter dito o que disse, pois só mostra como é consistente, persistente e tem aquele traço francês que é de não se esquecer daquilo que pensava já há 40 anos. Porém, segundo Marcelo, para os portugueses o que é fundamental é que Lobo Antunes ganhou já tudo o que havia a ganhar de prémios. E disse o PR:
É um daqueles casos de acesso à eternidade por mérito próprio. A genialidade abre ‘uma via verde’, ou melhor, eu não digo a cor para não ser mal interpretado. Nestes tempos de campanha eleitoral, o melhor é não dizer nada porque irão dizer tudo sobre mim.” – disse e retificou para “uma via direta”.
Referindo que Lobo Antunes  diz que “os sucessivos Presidentes da República sempre tiveram um carinho especial por ele”, frisou que “os portugueses, ao longo destes anos, sempre tiveram carinho pelo António”, pelo que “os Presidentes cumpriram a sua função: interpretar a vontade do povo”, tendo para isso sido eleitos. Depois, surpreendeu o escritor com palavras e um gesto:
Que posso eu dizer senão agradecer-lhe a sua juventude, agradecer-lhe aquilo que por nós fez, agradecer-lhe a sua irreverência e a sua liberdade. Foi, é e será sempre um homem essencialmente livre. E que contribuiu para a nossa liberdade, por aquilo que pensou, por aquilo que fez e por aquilo que escreveu. Como reconhecer isso? É muito simples. É o pouco que está ao alcance de um Presidente da República que é atribuir-lhe a Ordem da Liberdade nestes 40 anos de obra literária. E é isso que eu passo a fazer.”.
E fê-lo perante uma enorme plateia a aplaudir de pé.  

***

Foi a Fundação Calouste Gulbenkian que promoveu o predito colóquio dedicado aos 40 anos de vida literária do escritor António Lobo Antunes para celebrar o homem e a obra.
A famosa frase “apenas me preocupa atingir o coração do coração e iluminar tudo”, retirada da “Crónica com um sorriso no fim”, foi o mote que assinalou o arranque do programa dedicado a António Lobo Antunes e aos seus “40 anos de vida literária”, numa conferência que contou com vários convidados ao longo do dia, para falar das suas duas obras inaugurais e duas das mais memoráveis, com o Presidente da República a encerrar a cerimónia.
Essas obras são “Os Cus de Judas” e “Memória de Elefante”, ambos publicados em 1979 e ambos protagonizados por um médico – a formação de base do autor (não o único).
Sobre o autor e estas suas duas obras intervieram na conferência, ao longo do dia, professores, ensaístas e investigadores como Bernard-Henri Lévy, Dinu Flamand, Mircea Martin, Dominique Nédellec, Vincenzo Russo, Knut Cordsen, Daniel Sampaio, Nuno Lobo Antunes, Ana Paula Arnaut, Norberto do Vale Cardoso, Sérgio Guimarães de Sousa e Maria Alzira Seixo, além de Guilherme d’Oliveira Martins.
Iniciado às 10 horas, o colóquio terminou às 18, mas antes houve leituras de excertos de “Os Cús de Judas” e “Memória de Elefante”, pela voz do próprio António Lobo Antunes. E, na zona de receção do secretariado dos congressos pôde contemplar-se uma instalação alusiva a estas duas obras.
***
O que iria dizer durante uma hora o filósofo e polemista Bernard-Henri Lévy sobre Lobo Antunes era a grande curiosidade. Assunto não faltava, afinal 40 anos de vida literária dão milhares de páginas e ângulos e havia muitos especialistas num auditório repleto de espectadores. Porém, Lévy não se considera mais do que um leitor de António Lobo Antunes, mas confirmou a fama de que está habituado a galvanizar plateias e, durante dezenas de minutos, divagou sobre a obra e o escritor e saiu do palco perante uma salva de palmas.
Começou por confessar que há poucos escritores vivos que o impressionem tanto como Lobo Antunes e revelou que o antigo editor francês de António Lobo Antunes, Christian Bourgois, lhe dissera há muitos anos que “precisava de ler a tradução de Os Cus de Judas de um dos escritores maiores que publicava”. E, depois de ler o romance, concluiu: “Era uma das aventuras singulares do nosso tempo”.
Garantindo que era fã, que lera várias traduções, que comprovou, pelo menos, dizendo os títulos de vários livros e que ainda na véspera viera a reler o “Manual dos Inquisidores”, recordou uma antiga entrevista de Lobo Antunes em que este fazia três recomendações aos que o quisessem ler: “Ele explicava aos leitores como é que poderiam entrar na sua obra assim” – disse.
E a primeira recomendação do escritor português era: 
Leiam-me com se eu fosse um músico porque a minha academia não é de escritores. O ofício de escrita aprendi-o num programa de televisão com um ornitólogo que decompunha o canto dos pássaros ao passar mais devagar as gravações que fazia e assim poder ouvir as variações desses cantos.”.
Assim, como explicitou o orador, o escritor “compreendeu que os seus verdadeiros mestres eram Beethoven, Brahms, Mahler e Charlie Parker, e que me obrigou a ler de outra forma os seus romances”.
A segunda recomendação de Lobo Antunes era:   
Prestem atenção ao que leem como se a regra do ofício do escritor entrasse pela porta da pontuação”.
E Lévy comentou:
Céline inventou o ponto de exclamação, Proust dizia que Flaubert mudara o destino da humanidade por alterar o início das frases e ALA (António Lobo Antunes) fez revoluções, como introduzir maiúsculas no meio das frases, acrescentar conteúdo entre parêntesis e trabalhando sobre o branco entre e no interior das palavras. Isso era novo e fazia o texto respirar como nenhum outro.”.
A terceira recomendação de ALA era, segundo Lévy:
Dispersar o leitor em vez de o encaminhar, pois ALA faz um esforço para o desarmar. Quer que ele deixe à entrada do livro tudo o que sabe porque os seus livros precisam de ser apanhados como o corpo é contagiado por um micróbio. Só baixando as defesas imunitárias se pode acolher o furacão dos seus livros.”.
 E, recordando o pedido de João Paulo II para que os fiéis confiassem nele, Lévy disse: 
António, tu és o único escritor que conheço a ter um toque papal quando pede aos leitores ‘tenham confiança em mim’.
A seguir, relevou o que torna a obra de ALA diferente da de outros escritores, como James Joyce ou Virginia Woolf:
A novidade é como trata a questão do tempo, tema que todos os grandes trabalharam: Balzac ou Proust, por exemplo. Mas ALA distingue-se do trabalho de ambos porque, ao colocar o tempo, fá-lo através de uma orquestra de personagens que oferecem a memória. O tempo de ALA é um em que o passado, o presente e o futuro não aceitam ser estanques e misturam-se – como era a realidade portuguesa nos tempos a seguir à Revolução de 1974 onde tudo estava em simultâneo. ALA faz na sua obra a paródia e o pastiche de figuras da história portuguesa como se fosse um descendente de Homero a fazer um relato à Monty Phyton.”.
Depois, decidindo contribuir para a interpretação da escrita do autor português, voltou a socorrer-se de Joyce e de Woolf dizendo:
Em ALA há o monólogo interior e a polifonia, que vem de Joyce ou de Virgínia Woolf: no primeiro, com a existência de um falar em permanência; e, na segunda, o fluxo da consciência. Mas há uma diferença, quando se leem os teus romances percebe-se que existem vozes nos teus monólogos que flutuam e não pertencem a ninguém – e isso parecia-me impensável. Há até várias vozes na mesma palavra e se quisermos definir a tua voz só pode ser da seguinte maneira: há um Tejo de palavras onde elas se misturam os dias, as vozes e também as pessoas e as coisas.”.
Por fim, questionou o tema principal da obra do escritor – a guerra – que resume em três letras: mal. E exige que ALA se pronuncie de forma doutrinária e teológica sobre o horror e a estupidez da guerra: A guerra é o momento limite da humanidade e onde tudo se desfaz”. Lobo Antunes viu isso em Angola e mostra-o nos seus livros. E Lévy insiste no questionamento: “Onde está o mal na obra e como é que ALA o interpreta?”.
Quase a chegar ao fim da palestra, Lévy elogiou à francesa António Lobo Antunes:
Depois de ser incluído na Plêiade – onde poucos autores vivos estão –, o que peço para este escritor é o Nobel da Literatura! À francesa, porque a Plêiade e o seu reconhecimento em França não é para qualquer um...”.
***
O Presidente da República, que encerrou o colóquio, entrou de braço dado com o escritor e logo se ouviu uma ovação pouco habitual neste género de colóquios intelectuais. Começou por dizer que o seu discurso tinha sido destruído pela intervenção do escritor e que tudo o que dissesse seria banal. Por isso, decidiu comentar o que Lobo Antunes dissera, como a importância da linhagem de que descende e a importância dos irmãos, a sociedade e a crítica conservadora dos tempos em que iniciara a carreira e a forma como Portugal interiorizou a guerra colonial:
O António veio dizer o que se passou e chocou muitos. Não era um ajuste de contas mas um reajuste.”.
Para Marcelo, a sociedade foi mudando e a obra passou a ser consensual. Comentou as crónicas do escritor e o que elas permitem descobrir sobre a sua infância e ofereceu ao escritor um assunto para um texto. E não evitou falar do Prémio Nobel da Literatura por considerar que não é preciso esperar notícias dessas de uma capital nórdica pois o António já recebeu todos os prémios possíveis e até está na Plêiade”.
Antes de o Presidente encerrar a sessão, Lobo Antunes mostrara-se emocionado e irreverente:
40 anos desde a publicação. 40 anos! Parece impossível. Quando olho ao espelho o que vejo intriga-me sempre. O cabelo cinzento, a cara marcada não é minha. Não sou um senhor com um coração jovem mas um miúdo em que o envelope se gastou. Um miúdo que passava o tempo a escrever, a minha vida foi sempre isso. Tinha 5, 6 anos e já tinha uma obra impressionante. As minhas primeiras histórias eram sobre a morte porque o meu avô recebia o Diário de Notícias e começava pela necrologia. E ria-se dos que morriam tão jovens. Então, continuei a escrever na faculdade mas era o meu irmão João que me dava os apontamentos e fazia com que eu passasse de ano...”.
Referiu casos de cobardia em África, elogiou os militares combatentes e divertiu a plateia com umas quadras picarescas. Recordou a ida a Pádua com o avô que ia pagar uma promessa por o neto ter sobrevivido à meningite. Voltou às memórias com histórias à José Vilhena e a plateia riu-se muito enquanto o Presidente olhava e sorria timidamente. E recordou a sua amizade com anteriores presidentes da República, Ramalho Eanes e Mário Soares, antes de agradecer aos presentes, que se levantaram para o aplaudir.
***
Além de Bernard-Henri Lévy, houve, ainda na parte da manhã, três testemunhos sobre o escritor que não ficaram atrás no respeitante à emoção dos presentes.
O psiquiatra Daniel Sampaio, o amigo desde há muito, contextualizou o Portugal em que António Lobo Antunes se iniciou na escrita:
Em 1979, Portugal estava em transição política e Ramalho Eanes – presente na primeira fila – era o Presidente da República, Maria de Lourdes Pintasilgo a Primeira-Ministra, inaugurava-se o canal 2 da RTP, o filme Apocalypse Now chegava aos cinemas e a canção que vencera o Festival era Sobe Sobe, Balão Sobe. Foi nesse tempo que um escritor que escrevia desde criança publicou dois livros, sobre os quais quase nenhum dos autores reconhecidos de então disse uma palavra – à exceção de Agustina e Cardoso Pires.”.
E continuou a sua explicitação:
Era um tempo em que todos esperávamos os grandes romances que estariam na gaveta e a democracia ainda não tinha acabado com os romances neorrealistas e existencialistas. Ele apareceu-me com um manuscrito e eu levei o livro a três editoras – só a Vega publicou. O que se passou a seguir é difícil descrever: o meio literário ficou em silêncio e, posteriormente, eram comentados como se fossem uma ofensa, mas todos o queriam ler. Em Memória de Elefante já estavam algumas das linhas de força do que hoje ele veio a escrever mas, em 1979, esses foram os dois livros que agitaram as consciências da burguesia de então.”.
Por seu turno, Dinu Flamand, recordando os tempos em que António Lobo Antunes o ajudou a viver fora da Roménia, recebendo-o na sua casa, disse que fora a primeira vez que viu um escritor profissional a trabalhar a facilitar-lhe a vida fora do país de origem. Disse lembrar-se de ter lido Fado Alexandrino e imaginar o que seria um livro destes na Roménia. E, após vários relatosagradeceu ao escritor “ter-lhe salvado a vida”.
E Nuno Lobo Antunes, o quinto irmão do autor, fechou a manhã com um rol de “críticas” ao António, divertiu a plateia, após confessar que só estava ali porque os seus irmãos mais velhos morreram. Recordando vários episódios da relação com o irmão, vincou:
Lembro-me de o ver escrever, mas o que mais estranhava era que usasse uma caveira como cinzeiro”.
No fim, listou os momentos mais gratos da sua infância e acusou o irmão de “ser um ladrão”:
Roubou para os seus livros as frases da família, tudo o que eram as minhas experiências e todo o meu passado. Deixei de ter histórias para contar e cada frase que leio nos seus livros esvazia-me do que eu fui.”.
Na parte da tarde, vários especialistas analisaram a obra de António Lobo Antunes e o escritor leu trechos do romance Os Cus de Judas, após o que Isabel Mota, Presidente do Conselho de Administração da Fundação Calouste Gulbenkian, deu início ao encerramento da conferência evocativa dos 40 anos de vida literária do escritor.
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Que Lobo Antunes tem obra literária significativa e que merece a homenagem do meio literário e cultural é verdade. Porém, merecer o Prémio Nobel da Literatura ou dispensá-lo porque está acima de tudo isso e já entrou no Olimpo é petulância da parte do próprio e bajulação da parte de fãs. Nem a Grã Cruz da Ordem da Liberdade sobrepuja o Nobel, como quer o Presidente, que é ultraliberal na atribuição de condecorações, quase parecendo que as traz no bolso. Aliás, que luta pela liberdade se conhece em Lobo Antunes, a não a da linguagem extra ficção?
Quanto ao Nobel para Lobo Antunes, nada contra, mas que dizer de outros, se calhar, mais merecedores como, por exemplo, Mário Cláudio, que a Feira do Livro no Porto homenageou no passado dia 18 por ocasião dos seus 50 anos de vida literária. Quer-me parecer que ainda se apreciam as pessoas pelas condições de família, o que em democracia não é plausível.
Todavia, é de relevar a tonalidade musical da tessitura textual sobretudo no quadro da narrativa.
2019.09.30 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

No 40.º aniversário de criação da diocese no Alto Minho

A Diocese de Viana do Castelo vai promover este domingo, dia 8 de janeiro, a transladação para a Sé dos restos mortais do seu primeiro Bispo, pelas 15,30 horas, numa iniciativa inserida no 40.º aniversário de criação da diocese no Alto Minho. A este respeito, Dom Anacleto Oliveira, Bispo de Viana do Castelo, na sua mensagem de Natal, referiu:
Em união com outras Igrejas diocesanas do nosso país e da Galiza, representadas pelos seus bispos, agradeceremos ao Senhor o primeiro pastor que nos deu”.
O primeiro Pastor escolhido pelo Papa Paulo VI para ser o primeiro Bispo de Viana do Castelo, diocese criada a 3 de novembro de 1977, foi Dom Júlio Tavares Rebimbas, que ali permaneceu até 12 de fevereiro de 1982, quando foi nomeado Bispo do Porto, tendo falecido na Casa de Saúde da Boavista (Porto), a 6 de dezembro de 2010.
Em comunicado enviado à agência Ecclesia, o Secretariado Diocesano de Comunicação Social de Viana do Castelo informou que os restos mortais de Dom Júlio Tavares Rebimbas vão ficar num sarcófago em mármore branco com nome, datas e as suas armas episcopais “a cores, esculpidas no mármore”, numa base de ferro lacado a preto – exposto ao público na Sé. A este propósito, o vigário-geral da diocese, em nota enviada aos diocesanos onde agradece a quantos tornaram possível a transladação, realça:
Integrando e desafiando, com o seu lema episcopal ‘In Verbo Tuo’, por graça de Deus, dos senhores bispos do Porto e de Aveiro, da benignidade dos seus familiares e da adesão total do atual bispo diocesano, Dom Anacleto Oliveira”.
Monsenhor Sebastião Ferreira assinala que foi com o seu primeiro Bispo que Viana do Castelo e a sua gente que “revivesceu a memória e o carinho que, cinco séculos atrás, havia saboreado, na pessoa do agora Beato Frei Bartolomeu dos Mártires, o deslumbramento do que é ter um bispo perto de si, atento às suas necessidades e a conviver com o seu povo”.
A cerimónia do próximo domingo, Solenidade da Epifania do Senhor, é um dos eventos com que a diocese está a celebrar o 40.º aniversário da sua criação, desde 3 novembro 2017, até 2020. O dia 8 de janeiro é precisamente o do 40.º aniversário da entrada solene de Dom Júlio na diocese, a marcar o início da execução pública da Carta Apostólica pela qual foi ereta a diocese do Alto Minho. Com efeito, a entrada solene do 1.º Bispo de Viana do Castelo ocorreu a 8 de janeiro de 1978, dia de grande festa para a cidade e para a novel diocese.
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O Bispo Dom Júlio nasceu em Bunheiro, no Concelho da Murtosa, a 21 de janeiro de 1922; foi ordenado presbítero a 29 de junho de 1945, em Pardilhó; e iniciou a atividade sacerdotal como coadjutor do pároco de Ílhavo. No ano seguinte, foi nomeado pároco de Avelãs de Cima e Avelãs de Caminho, em Anadia, regressando a Ílhavo em 1949, onde se manteve como pároco até 1962; e, em 1959, foi nomeado vigário-geral da Diocese de Aveiro.
Foi nomeado Bispo do Algarve a 27 de setembro de 1965, pelo Papa Paulo VI, pelo que participou na IV e última sessão do Concílio Ecuménico Vaticano II. Governou aquela diocese entre 1966 e 1972. Em seguida, foi Arcebispo auxiliar de Lisboa (1972-1977), com o título de Mitilene, 1.º Bispo de Viana do Castelo (1977-1982) e, por último Bispo do Porto, entre 1982 e 1997, chegando a integrar a Congregação para os Bispos.
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A propósito da transladação dos restos mortais do seu primeiro Bispo para a Sé de Viana do Castelo, o jornal diocesano publicou testemunhos de Dom João Miranda e Dom Gilberto Reis, seus antigos auxiliares no Porto.
Dom Gilberto Reis, num artigo publicado no jornal ‘Notícias de Viana’, recorda:
Fiquei marcado sobretudo pelo gesto de ter ido a Chaves, quando poderia ter pedido para eu vir ao Porto. Aí o comecei a ver como pastor que, como Jesus, vai ao encontro das pessoas.”.
O agora Bispo emérito de Setúbal foi colaborador de Dom Júlio Tavares Rebimbas durante cerca de nove anos, entre 1989-1998, enquanto bispo auxiliar na Diocese do Porto.
No seu artigo ‘Dom Júlio, Bispo à maneira de Jesus, Bom e Belo Pastor’, o Bispo emérito de Setúbal explica que foi assim que viu, “desde o primeiro encontro”, uma imagem que “perdura na memória grata” por o ter conhecido e por ter sido seu colaborador. E sublinha:
Senti-o como pastor que entende que o bispo deve estar perto do povo no facto de ter escolhido quatro Bispos Auxiliares que, dia a dia, estavam com os fiéis nos mais diversos contextos”.
Por sua vez, Dom João Miranda, Bispo auxiliar emérito do Porto, testemunha:
 “Ainda guardo variadas e gratas recordações desses tempos de intensa atividade pastoral”.
Ordenado bispo a 31 de julho de 1983, o prelado recorda que foi Dom Júlio Tavares Rebimbas que o chamou ao Paço Episcopal para uma conversa e que “não era habitual, uma chamada telefónica direta do bispo para os seus padres”. E recorda:
Sempre me tratou bem, mas nunca deixou de chamar a atenção para o que lhe parecia que devia ser feito”.
O Bispo auxiliar emérito do Porto realça que Dom Júlio Tavares Rebimbas era “um homem grande, falava e falava, com voz forte, tinha as suas ideias, ouvia, fazia as suas observações”, afinal, tendo sido pároco e passado por outras dioceses, “sabia por experiência o que é ser pastor e não se entusiasmava com grandes pruridos intelectuais”.
Para Dom João Miranda ser bispo foi “um acontecimento inesperado e nunca desejado”, mas sente que “Deus escreve direito por linhas tortas” e chama por intermédio de outros homens que servem a Igreja, que no seu caso deve ter sido Dom Júlio Tavares Rebimbas.
No seu artigo de opinião relembra que o Bispo do Porto, entre 1982 e 1997, queria ir ao encontro dos padres nas localidades e “resolver in loco pequenas questões em suspenso”, conhecer e tomar decisões locais.
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No dia 3 de Novembro de 1977, Paulo VI, pela Constituição Apostólica Ad aptiorem populi Dei, separando da Arquidiocese de Braga o território que constitui o distrito de Viana, erigiu canonicamente a Diocese de Viana do Castelo. E escolheu, para lançar mãos à obra de dar identidade e corpo à nova Igreja local, Dom Júlio Tavares Rebimbas, um Pastor bem testado como Pároco e Vigário Geral, em Aveiro, e como Bispo residencial, no Algarve, e, até então, Bispo Auxiliar do Patriarcado de Lisboa, com o título de Arcebispo de Mitilene.
Separado o território na novel diocese em relação à diocese matriz, era efetivamente necessário executar na prática o documento papal. A Santa Sé encarregou Monsenhor Ângelo Felici, Núncio Apostólico em Portugal, de levar a cabo a tarefa, tendo sido o Bispo eleito de Viana apresentado o Monsenhor Daniel José Machado Júnior, então, Vigário Episcopal, Arcipreste de Viana do Castelo e Pároco de Monserrate.
Na predita Constituição Apostólica, o Sumo Pontífice, depois de justificar a criação da nova Diocese – “ajudar com melhores auxílios o povo de Deus na sua caminhada eclesial e promover com mais eficácia a ação pastoral a desenvolver no seu meio” – e fundamentar a sua decisão nos pareceres obtidos junto da Conferência Episcopal Portuguesa e da Nunciatura Apostólica, determinou: a criação a Diocese de Viana, separando da de Braga o território correspondente ao distrito de Viana do Castelo; a localização da sede episcopal na cidade de Viana e a instituição da igreja de Santa Maria Maior como a Sé Catedral; a situação da Diocese e do seu Bispo como, respetivamente, sufragâneos da Sé Metropolitana de Braga e do Metropolita Bracarense; a pertença à nova Diocese, como fonte de receitas, dos emolumentos da Cúria, das ofertas livres dos fiéis e, de acordo com o cânone 1 500 do Código Direito Canónico vigente à época, da parte dos bens que, até então, estavam ligados a Braga, mas que efetivamente lhe diziam respeito; o ato de constituição do Cabido, podendo, “entretanto, em lugar dos membros daquele”, escolher-se “Consultores Diocesanos que auxiliassem o Bispo com o seu conselho e ação”; e a observância das leis canónicas no atinente ao regime e administração da nova Diocese, bem como para a eleição do Vigário Capitular, direitos e deveres dos fiéis. Além disso, foi determinado que a construção do Seminário e a educação dos alunos se processassem de acordo com os documentos da Santa Sé; que os Sacerdotes, com nomeação anterior, ficassem incardinados na Diocese “em cujo adictos” àquele território detivessem benefício ou ofício eclesiástico”; e que os outros Sacerdotes, Clérigos e alunos do Seminário fossem considerados adictos “àquela onde legitimamente vivem”.
E ainda acrescentava:
Ordenamos, finalmente, que todos os documentos e atas de qualquer modo respeitantes à Diocese de Viana do Castelo sejam transferidos pela Cúria Bracarense para aquela, que os guardará religiosamente no Arquivo”.
Por último, prescrevia que o executor desta Constituição seria o Núncio Apostólico “ou um sacerdote delegado por ele” e recordava os seus deveres, manifestando o desejo de “que esta Constituição Apostólica seja e venha a ser eficaz, quer agora quer no futuro, não obstante quaisquer disposições em contrário”.
Naturalmente, a criação da Diocese de Viana do Castelo foi acolhida pelos cristãos do Alto Minho, à volta do seu novo Pastor, com estrondosa explosão de alegria e com manifesta e sentida gratidão, em expressões de veneração e comunhão com a Sé de Pedro.
Uma das preocupações do primeiro Bispo de Viana – conhecedor das dificuldades sentidas por ocasião da criação de outras dioceses irmãs –, era que, antes da sua tomada de posse, tudo o que se relacionava com a divisão dos bens, móveis e imóveis, entre as duas dioceses, estivesse ultimado, incluindo a própria casa episcopal. 
E, porque em Igreja se vive e trabalha em comunhão, todas as instituições envolventes (Congregação para os Bispos, Nunciatura Apostólica, Arquidiocese de Braga e Diocese de Viana do Castelo) e seus configurantes jurídicos e eclesiais trabalharam de boa-fé em verdadeira expressão de comunhão de Igreja, cedendo de parte a parte, até chegarem ao que fora a proposta despretensiosa, mas razoável, do Bispo de Viana:
Ficam a pertencer, em posse plena, à nova Diocese de Viana do Castelo todos os bens que, à data da sua ereção canónica, estejam na posse ou no uso da Arquidiocese de Braga, da Mitra de Braga, ou dos Seminários de Braga, ou de outras Instituições Arquidiocesanas e fiquem situados dentro dos limites da nova Diocese de Viana do Castelo”. 
Assim sucedeu. Após fecunda correspondência epistolar, algumas propostas alternativas, muita reflexão e alguns recursos, a Nunciatura Apostólica, a 24 de julho de 1978, e a Arquidiocese de Braga, a 2 de agosto de 1978, informavam Dom Júlio Tavares Rebimbas da aceitação definitiva da sua proposta e da autorização da Santa Sé, para outorgarem as respetivas escrituras.
(cf Nascimento e Constituição Apostólica Ad aptiorem populi Dei, em História, no site da diocese)
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A região entre Minho e Lima disfrutou sempre de certa autonomia religiosa até 1514, quando foi incorporada na diocese de Braga no tempo de Dom Diogo de Sousa. A sede religiosa da região ter-se-á situado em Viana do Castelo, embora com ligação a Tuy, de 569 a 1382, Valença, de 1382 a 1444 e Ceuta, de 1444 a 1514.
A aspiração dos católicos do Alto Minho pela criação da diocese de Viana do Castelo teve o seu primeiro processo, em 1545, no reinado de D. João III, juntamente com os pedidos de Freixo de Espada à Cinta, Covilhã e Abrantes.
Adormecida ao longo dos séculos, a aspiração voltou a manifestar-se no princípio do século XX. Em 1926, após a criação da diocese de Vila Real, sacerdotes e leigos de Viana do Castelo formularam novo pedido à Santa Sé, que viria a ser retomado em 1942, organizando-se, para o efeito, comissões nos vários concelhos. Renovado em 1943, o pedido multiplicou-se em iniciativas cada vez com mais largo apoio da população nos anos de 1964, 1970 e 1977, vindo a encontrar resposta neste mesmo ano, pela Constituição Apostólica Ad Aptiorem Populi Dei, de 3 de Novembro, do Papa Paulo VI.
A área da diocese, com 2 108Km2, coincide com território civil do distrito de Viana do Castelo, contando 291 paróquias e uma população de 250 000 habitantes. Ficaram integrados na diocese os sacerdotes que, na ocasião, tinham ofício ou benefício eclesiástico no seu território e os que nele legitimamente viviam. A Igreja Matriz de Santa Maria Maior foi constituída como Sé Catedral e o Convento de São Domingos, restaurado, a sede dos serviços centrais diocesanos.

2018.01.04 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 27 de março de 2017

O desenvolvimento integral (total e universal): benefício e dever

O semanário Ecclesia, de 24 de março, insere um dossiê sobre a Encíclica Populorum Progressio (PP), de Paulo VI, cujo cinquentenário de publicação ocorreu a 26.

Desse dossiê, além dum texto da responsabilidade do editor, subordinado ao título “Papa Francisco, herdeiro da Populorum Progressio”, constam testemunhos de António Bagão Félix, antigo Presidente da Comissão Nacional Justiça e Paz (CNJP) e ex-Ministro da Segurança Social (de Durão Barroso) e das Finanças (de Santana Lopes), de Pedro Vaz Patto, Presidente da CNJP, Manuela Silva, antiga Secretária de Estado do Plano e Professora Jubilada do ISEG, da UL, Acácio F. Catarino, antigo Presidente da Cáritas Portuguesa, João José Fernandes, Diretor Executivo da Oikos – Cooperação e Desenvolvimento, e g.m.v, no  L’Osservatore Romano’.

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Francisco, primeiro Papa das Américas, tem assumido a grande influência de Paulo VI na sua vida. Por isso, o editor cita passagens da PP referidas no atual pontificado, que mostram a importância que o Papa reconhece ao referido texto de 1967.
Assim, na mensagem para o Dia Mundial das Migrações 2013, Montini enunciava assim as aspirações dos homens de hoje:
“Ser libertado da pobreza, ter garantido de modo seguro o próprio sustento, a saúde, o emprego estável, ter uma maior participação nas responsabilidades, fora de qualquer opressão e ser protegido de condições que ofendem a dignidade humana; poder desfrutar de uma educação melhor; numa palavra, fazer conhecer e ter mais, para ser mais” (PP, n.º 6).
Por isso, o desenvolvimento não se reduz ao mero crescimento económico, obtido, muitas vezes, sem tem em conta os mais fracos e indefesos.
Na Evangelii Gaudium, frisa-se que o Reino, que se antecipa e cresce em nós, abrange tudo, à luz do princípio de discernimento de Paulo VI sobre o verdadeiro desenvolvimento: “Todos os homens e o homem todo”. E, para falarmos dos direitos, devemos alongar mais o olhar, abrir os ouvidos ao clamor dos outros povos e de outras regiões do país e crescer numa solidariedade que leve todos os povos a “tornarem-se artífices do seu destino”. Ademais, a paz não se limita à ausência de guerra, fruto do equilíbrio precário das forças, mas constrói-se diariamente na busca da ordem querida por Deus, portadora duma justiça mais perfeita entre os homens. Paz que não surja como fruto do desenvolvimento integral de todos não tem futuro e será sempre semente de conflitos e formas variadas de violência.
Na mensagem para o Dia Mundial da Paz 2014, o Papa sustenta quea fraternidade é fundamento e caminho para a paz” e refere que as encíclicas sociais dos Predecessores, neste sentido, oferecem ajuda valiosa, exemplificando com as definições de paz da PP, de Paulo VI (segundo a qual o desenvolvimento integral dos povos é o novo nome da paz), e da Sollicitudo Rei Socialis, de João Paulo II (a paz como opus solidaritatis, fruto da solidariedade). Porém, o Papa Montini afirma que “tanto as pessoas como as nações se devem encontrar num espírito de fraternidade”.
Em seu discurso aos membros do corpo diplomático a 13 de janeiro de 2014, o Papa argentino recorda o conceito de paz acima exposto e diz que enforma o espírito que anima a ação da Igreja em todo o mundo, através dos sacerdotes, missionários, fiéis leigos que, com grande espírito de dedicação, se prodigalizam, além do mais, em múltiplas obras de índole educativa, sanitária e assistencial, ao serviço dos pobres, doentes, órfãos e quem quer que precise de ajuda e conforto.
Também em mensagem por ocasião da conferência sobre o impacto humanitário das armas nucleares, 2014, o Papa declara:
A paz deve ser construída sobre a justiça, o desenvolvimento socioeconómico, a liberdade, o respeito pelos direitos humanos fundamentais, a participação de todos nos assuntos públicos e a construção da confiança entre os povos. 
E, insistindo no axioma de Paulo VI do desenvolvimento como “o novo nome da paz”, conclui:
“É nossa responsabilidade tomar medidas concretas que promovam a paz e a segurança, permanecendo, porém, sempre atentos ao limite constituído por abordagens a curto prazo de problemas de segurança nacional e internacional”.
O discurso ao Conselho da Europa, em Estrasburgo, a 25 de novembro de 2014, fez-lhe dizer:
“O Beato Paulo VI definiu a Igreja ‘perita em humanidade’. No mundo, à imitação de Cristo, ela – apesar dos pecados dos seus filhos – nada mais procura que servir e dar testemunho da verdade. Nada mais, à exceção deste espírito, nos guia no apoio dado ao caminho da humanidade.”.
Na mensagem para o Dia Mundial da Paz 2015, citou Paulo VI para bradar ao mundo que “não há verdadeiro humanismo senão o aberto ao Absoluto, reconhecendo uma vocação que exprime a ideia exata do que é a vida humana”. E censura o lodaçal da indiferença:
“A indiferença para com o próximo assume diferentes fisionomias. Há quem esteja bem informado, ouça o rádio, leia os jornais ou veja programas de televisão, mas fá-lo de maneira entorpecida, quase numa condição de rendição: estas pessoas conhecem vagamente os dramas que afligem a humanidade, mas não se sentem envolvidas, não vivem a compaixão. Este é o comportamento de quem sabe, mas mantém o olhar, o pensamento e a ação voltados para si mesmo.”.
E, na Laudato Si’, manifesta a confiança nas capacidades do homem:
“Convém recordar sempre que o ser humano é ‘capaz de, por si próprio, ser o agente responsável do seu bem-estar material, progresso moral e desenvolvimento espiritual’. O trabalho deveria ser o âmbito deste multiforme desenvolvimento pessoal, onde estão em jogo muitas dimensões da vida: a criatividade, a projetação do futuro, o desenvolvimento das capacidades, a exercitação dos valores, a comunicação com os outros, uma atitude de adoração.”.
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Bagão Félix afirma que a ‘Populorum Progressio’ teve para si um impacto “muito grande” e muito o interessou como “estudante de economia e católico”, porque, como tema da política internacional, o tema do desenvolvimento dos povos era atual no seio das Nações Unidas. E explica, manuseando a sua primeira edição da PP em português e toda sublinhada:
“Eu tinha 18 anos quando saiu, estava no 2.º ano da Faculdade em Lisboa. Não havia praticamente máquinas de fotocópias ou muito pouco, não havia internet, mas havia estas edições.”.
Depois, atesta que o Papa “teve a coragem de o colocar [o tema do desenvolvimento] de maneira absolutamente clara, aliás na esteira da Doutrina Social da Igreja, que não é terceira via entre capitalismo e coletivismo, mas faz parte da Teologia Moral”. E considera que a proposta papal, por exemplo, para o regime português de António Salazar “era bastante fraturante”. Por outro lado, refere o contexto em que surgiu a Encíclica: com mais ou menos dificuldades, “com injustiças também muito notórias”, os países europeus, como França, Itália, Alemanha, descolonizaram “a bom gosto ou a mau gosto, ou contrafeitos”; e Portugal, para lá do Estado Português da Índia que tinha sido incluído na União Indiana, estava em guerra em África com os movimentos autonomistas nas colónias ultramarinas.
Neste contexto, Paulo VI logo no início da Encíclica faz a “clara distinção” entre colonização, “necessária no devir histórico”, e colonialismo, “doença da colonização”. Segundo Bagão Félix, documento de 1967 assinalava um tempo de “grande transformação no mundo”, particularmente em África com a independência de antigas colónias de vários países europeus, e vai ao encontro duma palavra-chave, a globalização, “curiosamente”, desenvolvida cerca de 50 anos depois por uma segunda ‘Populorum Pogressio’, a ‘Caritas In Veritate’, de Bento XVI. Realçando que “através dos títulos, percebemos a profunda atualidade que está enraizada nesta encíclica”, explica:
“Etimologicamente, ‘desenvolvimento’ é o contrário de envolvimento, “é desenvolvimento”, é libertação porque se está envolvido “numa malha, agrilhoados; e desenvolver é retirar essas marcas”.
Para Bagão Félix, aquando a publicação deste documento “não havia sequer” a noção do que hoje “anda nas bocas do mundo”, a globalização que, “ao contrário do que muita gente pensa não é o aumento das trocas comerciais”, mas a “erosão” da noção de tempo e de espaço nas relações económicas, culturais, mediáticas. Em 1967 não havia esta noção, mas existia um ponto “muito caro” à Doutrina Social da Igreja: “a destinação universal dos bens e da opção preferencial pelos últimos, os pobres, os mais desfavorecidos, no sentido não só económico mas a tal ideia de desenvolvimento”. Neste sentido, “Paulo VI foi visionário até do ponto de vista mais económico, da ciência económica”.
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Pedro Vaz Patto sustenta que celebrar o 50.º aniversário da PP tem significado particular para as comissões Justiça e Paz, pois a Encíclica anuncia a criação da estrutura que deu origem ao Pontifício Conselho da Justiça e da Paz (ora componente do Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral) e, subsequentemente, às comissões Justiça e Paz nacionais e diocesanas.
Sobre a relevância e atualidade da PP, destaca a noção de desenvolvimento humano integral (o nome do referido dicastério), que explicita como o desenvolvimento de todos os homens e do homem todo. É ir ao encontro da aspiração a realizarconhecer e possuir mais, para ser mais. O crescimento económico só é positivo quando é instrumento para ser mais. O desenvolvimento, pessoal e comunitário é um dever que corresponde aos desígnios de Deus e pressupõe abertura ao Absoluto, porque “o homem pode organizar a terra sem Deus, mas sem Deus só a pode organizar contra o homem” (n.º 42). Esta noção de desenvolvimento foi retomada e aprofundada posteriormente na Caritas in Veritate e na Laudato Sì.
Continua evidente que o crescimento económico não gera, por si, o desenvolvimento humano integral. E é mais clara a noção de que dele faz parte o equilíbrio ecológico, sendo de relevar o valor do desenvolvimento humano, contra o ecologismo radical, que parece pô-lo em causa.
A confiança acrítica nas regras do mercado (que tem virtualidades) não leva ao desenvolvimento de todos os homens e gera desigualdades e injustiças. Isto, que era evidente há 50 anos, continua a sê-lo hoje (com as desigualdades a acentuarem-se como nunca, apesar da diminuição da pobreza absoluta).
E a PP reafirmou o princípio do destino universal  dos bens, ao qual devem subordinar-se os direitos de propriedade e de comércio livre. Por isso, segundo a Encíclica,
O supérfluo dos países ricos deve pôr-se ao serviço dos países pobres e a regra que existia outrora em favor dos mais próximos deve aplicar-se hoje à totalidade dos necessitados do mundo inteiro” (n.º 49).
Paulo VI resistiu à influência das teses neomalthusianas da redução  demográfica sem limites éticos, o que se revela plenamente justificado nesta época de “inverno demográfico” e quando o próprio governo chinês se apercebe dos malefícios da política do filho único. E é inteiramente atual a referência ao diálogo de civilizações:  “entre as civilizações como entre as pessoas, o diálogo sincero torna-se criador de fraternidade” (n.º 73). E, num tempo de “guerra mundial aos pedaços”, é pertinente a ideia da PP: “o desenvolvimento é o novo nome da paz” (n.º 76).
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Manuela Silva sublinha as profundas mudanças, registadas desde a publicação da PP, na sociedade, na economia, na tecnologia, na cultura; os progressos na corrida espacial; as ameaças e riscos inesperados; os novos desafios no domínio da geoestratégia política; etc… Todavia, reconhece que, ao revisitar a PP, se descobre a sua manifesta relevância e atualidade. Assim, aconselha a que, individualmente e em pequenos círculos de reflexão, “se aproveite a celebração do 50.º aniversário da sua publicação para uma leitura atenta e responsabilizante”; e deixa umas três notas com “o propósito de suscitar um maior desejo de aprofundar esta encíclica de Paulo VI”, que surge “em grande sintonia com a doutrina consagrada no Concílio Vaticano II”.
- Antes de mais, realça o conceito de desenvolvimento integral
O desenvolvimento não se reduz a um simples crescimento económico. Para ser autêntico, deve ser integral, quer dizer, promover todos os homens e o homem todo. (…) O que conta para nós é o homem, cada homem, cada grupo de homens, até se chegar à humanidade inteira.”.
Subjacentes a este conceito estão, a seu ver, duas traves mestras: a centralidade da pessoa humana (o homem todo) e a humanidade inteira (todos os homens) como o sujeito destinatário do desenvolvimento. (…). Assim, o desenvolvimento integral do ser humano não pode realizar-se sem o desenvolvimento solidário da Humanidade.
- Depois, faz ressaltar o contributo dos cristãos e das comunidades eclesiais. Na verdade, a vocação cristã de presença no mundo tem de concretizar-se em iniciativas coletivas inovadoras inspiradas no Evangelho e na busca de um desenvolvimento integral, “que hoje adjetivamos também de humano e sustentável”. Aqui, as comunidades eclesiais (religiosas, paroquiais e outras) devem cuidar deste desafio, “a começar pela séria revisão dos modos de gestão das obras sociais em que estão envolvidas”. Com efeito, “os espaços eclesiais devem ser um lugar em que se faz ouvir a voz dos pobres e se presta atenção ao seu clamor”.
- Também a tarefa de transpor a doutrina da PP para a atualidade conduz à identificação de novos desafios, entre os quais, se destacam:
O “modelo económico e financeiro que, privilegiando o lucro a qualquer preço, gera exclusão e potencia danos ecológicos irreparáveis” (esta economia mata, denuncia Francisco); o “rumo da ciência e da técnica cujos progressos não se dirigem prioritariamente, como seria devido, para a satisfação de necessidades reais, sobretudo dos mais carenciados e vulneráveis”, mas “subverte valores fundamentais”; as “desigualdades de riqueza e de rendimento que se acumulam a ritmo vertiginoso e atingem níveis tais que estão a pôr em risco a coesão social e a democracia”; os “múltiplos contornos da crise de sustentabilidade ecológica”; a “problemática do acolhimento de migrantes e refugiados”; as “intoleráveis situações de guerra aos pedaços, de terrorismos vários e de escalada de armamento”, etc..
E termina com palavras de Paulo VI, oportunas e responsabilizantes:
(…) Cada homem é membro da sociedade: pertence à humanidade inteira. Não é apenas tal ou tal homem; são todos os homens que são chamados a este pleno desenvolvimento. (…) Herdeiros das gerações passadas e beneficiários do trabalho dos nossos contemporâneos, temos obrigações para com todos, e não podemos desinteressar-nos dos que virão depois de nós aumentar o círculo da família humana. A solidariedade universal é para nós não só um facto e um benefício, mas também um dever.
Na verdade, o desenvolvimento integral é um benefício e um dever.
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Segundo Acácio Catarino, a PP “acha-se bem marcada pela inovação conciliar”, em especial pela Gaudium et Spes. “Amplamente difundida, profundamente estudada”, teve continuidade e atualizações pontifícias em mais duas encíclicas, publicadas no 20.º aniversário e no 42.º: a Sollicitudo Rei Socialis (SRS), de João Paulo II; e a Caritas in Veritate (CV), de Bento XVI. Também Francisco deu sequência à PP, sobretudo na exortação apostólica Evangelii Gaudium (EG), em 2013, e na encíclica Laudato Si` (LS), em 2015.
Apesar da repercussão da PP, a sua mensagem fundamental não foi assumida pela generalidade dos cristãos: na verdade, “ela convidava à assunção e à prática do desenvolvimento integral” e “considerava indispensável o papel dos leigos  na renovação da ordem temporal” – o que exige que a ação socioeclesial não se limite à assistência e à prestação de serviços sociais,  mas integre “a vertente económica e todas as outras dimensões do desenvolvimento”. E o papel dos cristãos leigos, na renovação da ordem temporal, postula que a assumam como “tarefa própria”,  através de “livres iniciativas e sem esperar passivamente ordens e diretrizes” (...) da “hierarquia” (n.º 81). Ora, se os leigos se comprometeram (individualmente e em grupo) com o desenvolvimento na atividade pessoal, familiar, profissional, cultural, social, política e outras, esqueceram-se de:
- Assumir e animar, no interior da Igreja, as responsabilidades pelo desenvolvimento integral, em pluralismo, diálogo e comunhão; participar ativamente no desenvolvimento local, atribuindo prioridade às situações de carência mais grave; articular o desenvolvimento local, o regional, o nacional e o mundial; contribuir para a transformação do sistema capitalista; e preservar a dimensão transcendente, eterna, do desenvolvimento integral.
A PP cita, no n.º 14, o dominicano L.-J. Lebret, que percebeu o papel da laicalidade inserida na ordem temporal e que, liderando (e participando em)  programas de desenvolvimento em vários países, legou a herança de teorização e de práticas, largamente participadas, e abriu caminhos que interpelam e estimulam a procurar atualizá-los e complementá-los em cada dia e situação.
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Para José João Fernandes, a PP propõe o Desenvolvimento Integral como Condição da Paz.

Surgindo duas décadas após a conclusão da II Guerra Mundial, da fundação das Nações Unidas (1945) e da aprovação da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948), encontra o mundo dividido – uma estrutura bipolar que separava “dois blocos ideológicos” e um “processo de descolonização” que revelava já “a desigualdade económica promovida por um comércio internacional que privilegiava os países industrializados em detrimento dos países produtores de matérias-primas”.
Face a tal cenário, Paulo VI assume que a Igreja pretende oferecer o que “possui como próprio: uma visão global do homem e da humanidade” (n.º 13). E, nesta linha, aborda a questão social na sua dimensão internacional, propondo o “desenvolvimento integral e solidário como concretização do princípio do Bem Comum”. Na tradição aristotélico-tomista, o “Bem Comum” é o fim da comunidade e é, antes de mais, “autêntico bem”, correlativo à natureza humana e a todos os membros da comunidade. “Bem”, porque enriquece todos os seres humanos ao facilitar o desenvolvimento integral; e “comum”, porque “pode e deve ser procurado por todos, constituindo-se numa espécie de “produto social” destinado a ser participado por todos. 50 anos depois, somos interpelados a orientar a nossa ação, não em função do crescimento do produto interno bruto (PIB), mas deste “produto social”, devido a todos os seres humanos.
A grande novidade de Paulo VI é “o alargamento da responsabilidade dos poderes públicos da esfera nacional para a esfera internacional”. A PP acentua a importância dos acordos e convenções internacionais (n.os 61, 77) e vai mais longe, insistindo na construção de “uma nova ordem política mundial”. Com efeito, a cooperação internacional
“Exige instituições que a preparem, a coordenem, a orientem até que constitua uma ordem jurídica universalmente reconhecida (…) Quem não vê a necessidade de alcançar progressivamente a instauração de uma autoridade mundial, que possa atuar eficazmente no terreno jurídico e no da política?” (n.º 78).
Agora, aos problemas da paz e do risco de conflitos nucleares (ex: a península coreana), da pobreza e desigualdade, somam-se os riscos ambientais e das alterações climáticas, os migrantes e refugiados, o terrorismo, as violações dos mais elementares direitos humanos. E nenhum tem solução satisfatória na ação individual dos cidadãos ou dos Estados. Daí, a necessidade de instituições internacionais capazes de facilitar a governabilidade e o bem comum à escala global; daí, a urgência de reforma das Nações Unidas e a sua democratização.
O conceito de desenvolvimento de Paulo VI foi retomado pelos sucessivos Papas, em especial Bento XVI, na encíclica Caritas in Veritate (CV), no n.º 8, refere a intenção de “homenagear, retomar e atualizar os ensinamentos da Populorum Progressio” sobre o desenvolvimento humano integral. E, falando da caridade, Bento XVI avisa que esta “não é só o princípio das microrrelações, como as amizades, a família, o pequeno grupo, mas também as macrorrelações, como as relações sociais, económicas e políticas” (n.º 2). A esta luz, poderemos dizer “que não trabalha na promoção da paz quem se remete a uma caridade particular, de microrrelações, ignorando a necessidade de atuar, com justiça, sobre as condições sociais, económicas e políticas”.
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Já o artigo do L’Osservatore Romano’, acima referido, nos refere a PP como a Encíclica esquecida, como o seu autor. Porém, a Encíclica, da Páscoa de 1967, “suscitou no mundo um enorme clamor”, igualável aos contrastes que fez surgir, um ano e meio depois, “a Humanae vitae para o controlo natural dos nascimentos”. E foi sobre estes dois documentos que incidiu o solene balanço do Pontificado feito pelo próprio Montini a 29 de junho de 1978, segundo ele, quando “o decurso natural da nossa vida chega ao ocaso” (faleceu 40 dias mais tarde).
Nesse balanço, o Pontífice – tão distante no tempo como a PP – declarou que estas duas encíclicas pretendiam defender a vida humana “ameaçada, perturbada ou até suprimida”: uma escolha definida pelo Papa como “imprescindível no quadro do seu ensinamento para servir a verdade”. Logo a seguir ao Concílio, nova tomada de consciência das exigências da mensagem evangélica impôs que a Igreja se colocasse de outro modo ao serviço dos homens.  
Como sucede recorrentemente na tradição cristã, “antigo e novo misturam-se na Populorum progressio”, texto evangélico na sua raiz, mas que “sabe unir com eficácia, num olhar clarividente, a experiência pessoal de Montini, contributos do pensamento contemporâneo, o ensinamento social dos Papas e a visão de antigos autores cristãos”. Com efeito, segundo Ambrósio, o santo bispo de Milão citado na Encíclica, “a terra é dada a todos, e não apenas aos ricos”. O mesmo prelado esclarece que o direito de propriedade nunca deve danificar a utilidade comum. Esta é a doutrina tradicional dos Padres da Igreja e dos grandes teólogos!
O texto, concebido e amadurecido no início dos anos 60, vê com lucidez, que a questão social não é mera questão moral, mas tem uma dimensão mundial. O Papa menciona explicitamente as viagens feitas à América Latina e à África como cardeal e à Terra Santa, à Índia e a Nova Iorque, à sede da ONU, como sucessor de Pedro, que escolheu o nome de Paulo para explicar uma das afirmações mais incisivas da Encíclica – “Os povos da fome interpelam hoje de maneira dramática os povos da opulência” – e se declarar “advogado dos povos pobres”.
Meio século depois, a visão de Montini, em suas linhas gerais e na sua diagnose dramática e radical, permanece válida:
“O mundo está doente. O seu mal reside menos na delapidação dos recursos ou no seu açambarcamento por parte de alguns do que na falta de fraternidade entre os homens e entre os povos.”.
Francisco repete-o incansavelmente – mesmo incompreendido por muitos – reavivando a memória de Paulo VI, o que poucos notam.
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Que estes diversificados testemunhos, mas convergentes na temática do desenvolvimento integral, induzam uma profícua releitura da Encíclica com vista à reflexão/ação/reflexão.

2017.03.27 – Louro de Carvalho