Mostrar mensagens com a etiqueta Braga. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Braga. Mostrar todas as mensagens

domingo, 10 de novembro de 2019

Ação de Graças pela canonização de “O Bracarense”


O Bracarense” é a designação por que era conhecido Dom Frei Bartolomeu dos Mártires pelos restantes padres conciliares de Trento mercê do ímpeto com que propôs as grandes reformas da Igreja Católica do alto (a começar pelos cardeais) à base, passando pela formação e morigeração da vida do clero e obviamente chegando a todos os fiéis.
O anúncio da sua canonização aconteceu a 6 de julho deste ano. No texto publicado pela Sala de Imprensa da Santa Sé refere-se que Francisco, no dia 5, “aprovou os votos favoráveis” dos membros da Congregação para as Causas dos Santos e estendeu o culto litúrgico em honra do português arcebispo bracarense a toda a Igreja, “inscrevendo-o no livro dos santos” por “canonização equipolente” (dispensando o milagre requerido após a beatificação).
Então a CEP (Conferência Episcopal Portuguesa), que saudou o anúncio desta canonização do “grande modelo para a renovação da Igreja”, recordava a nota pastoral de 1 de maio de 2014, por ocasião dos 500 anos do nascimento (1514-1590) do arcebispo da região que compreendia as atuais dioceses de Bragança-Miranda, Braga, Viana do Castelo e Vila Real, onde se realçava que Bartolomeu dos Mártires, “tendo vivido em tempos de uma enorme crise epocal, dentro e fora da Igreja, pode e deve ser visto como testemunha” para se acreditar que “a evangelização e as reformas na Igreja não só são necessárias como possíveis”.
E o Presidente da República também se congratulou com a canonização de Frei Bartolomeu dos e afirmou que é um “exemplo” para os crentes e um “orgulho” para “todos os portugueses”.
***
Hoje, dia 10 de novembro, celebrou-se na Sé Primacial de Braga uma Solene Concelebração da Missa em ação de graças pela canonização de São Bartolomeu (não foi o ato de canonização, que é reservado ao Papa e, no caso da equipolência, não há lugar à cerimonia solene da canonização, mas à inscrição pelo Papa no catalogo dos Santos), sob a presidência do Cardeal Angelo Becciu, prefeito da Congregação para as causas dos Santos e onde esteve o Presidente da República, como tinha prometido.
Entretanto, a diocese de Viana do Castelo realizou, no sábado à noite, uma vigília de oração de ação de graças na Igreja de São Domingos, sob a presidência do Bispo diocesano Dom Anacleto Oliveira, em cuja homilia disse que o novo santo português “entranhou as enfermidades do seu povo”, sendo “um exemplo para todos os tempos”. Com efeito, é recordado como um modelo de dedicação à Igreja Católica e aos mais necessitados; e, a nível internacional, afirmou-se como uma das vozes de referência no Concílio de Trento, num momento em que a Igreja Católica estava confrontada com o movimento da Reforma.
Nesta vigília, esteve presente Dom Antonino Dias, Bispo de Portalegre-Castelo Branco, natural do Alto Minho, que recebeu a sua ordenação episcopal na Igreja de São Domingos e que declarou à Ecclesia que São Bartolomeu dos Mártires é “um exemplo para todos”, acrescentando que a sua obra “causa fascínio”. E também esteve presente o presidente da Câmara Municipal de Viana do Castelo, José Maria Costa, salientando que não são apenas as dioceses do norte “que estão em festa, mas toda a Igreja em Portugal”.
Ao longo da vigília foram lidos trechos da obra “Estímulo de Pastores”, da autoria de São Bartolomeu dos Mártires; e, no final, foram veneradas as relíquias do novo santo português.
***
O Papa assinalou hoje, à recitação do Angelus com os fiéis e peregrinos reunidos na Praça de São Pedro, a canonização de frei Bartolomeu dos Mártires, arcebispo português do século XVI, que apresentou como “grande evangelizador e pastor”.
Hoje, em Braga, Portugal, celebra-se a Missa de ação de graças pela canonização equipolente de São Bartolomeu Fernandes dos Mártires”.
E acrescentou, pedindo uma salva de palmas de todos os presentes:
 O novo santo foi um grande evangelizador e pastor do seu povo”.
Resta que Francisco aceda a outro dos pedidos que, segundo Dom Anacleto Oliveira, lhe fizeram, que Bartolomeu, além de santo pastor, seja declarado doutor da Igreja.
Também o programa 70X7 deste domingo (17,45 horas, RTP2) foi dedicado ao novo santo.
***
Na Missa de ação de graças, foi lido o decreto de canonização, que mereceu uma forte salva de palmas do clero e povo, quer no fim da súmula em latim, quer no fim da sua tradução em português. E é de registar a presença de vários bispos de Portugal e da Galiza, parecendo confirmar as palavras do Presidente da Câmara de Viana do Castelo acima referidas, tal como as de Frei Bento Domingues, que aponta, na sua crónica dominical de hoje no Público
Não é só a arquidiocese de Braga que tem motivos para viver a interpelação desta canonização responsabilizante. É toda a Igreja portuguesa de norte a sul.”.
Talvez se possa estender este quesito de Frei Bento também à Espanha, pois, Bartolomeu nasceu em Lisboa (13 de maio de 1514), em cuja Igreja dos Mártires recebeu o Batismo e onde entrou para o antigo Convento de São Domingos, onde ensinou Teologia, chegou a ser prior e onde conviveu (no novo Convento) com o famoso Frei Luís Granada; esteve no Convento de Santa Maria da Vitória na Batalha, onde ensinou Filosofia e Teologia; esteve em Salamanca, onde foi coroado o seu magistério teológico; e, em Évora, foi precetor de Dom António Prior do Crato.      
Na homilia da Missa, o Cardeal Becciu aplicou a São Bartolomeu o propósito do pastoreio de proximidade que Deus promete fazer em relação às suas ovelhas, como diz o livro de Ezequiel:
Eu apascentarei as minhas ovelhas, sou Eu quem as fará descansar (…) Procurarei aquela que se tinha perdido, reconduzirei a que se tinha tresmalhado; cuidarei a que está ferida e tratarei da que está doente. Vigiarei sobre a que está gorda e forte. A todas apascentarei com justiça.” (Ez 34,15-16).
Por outro lado, disse que no Santo fulgiu como preceito o que Jesus diz dos apóstolos:
Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder uma cidade situada sobre um monte; nem se acende a candeia para a colocar debaixo do alqueire, mas sim em cima do candelabro, e assim alumia a todos os que estão em casa. Assim brilhe a vossa luz diante dos homens, de modo que, vendo as vossas boas obras, glorifiquem o vosso Pai, que está no Céu.” (Mt 5,14-16).  
Salientou que se lhe reconhece “a importância da cultura teológica e do seu ensinamento” a par do “empenho pela reforma da Igreja”. Assim, foi “um bispo totalmente dedicado às pessoas a ele confiadas”, no ciclo do pastor que conduz as suas ovelhas e do doutor que as ensina. Destacou também a sua força da assídua oração e contemplação, a vida e o estilo de pobreza pessoal, a visita pastoral, apesar das intempéries e agruras dos caminhos a todo o território que lhe foi confiado na tríplice postura: “compreender, admoestar e corrigir”. Enfim, seguiu o ditame da Teologia tomista: “contemplar e comunicar aos outros as maravilhas contempladas”.    
***
De seu nome Bartolomeu Fernandes, tendo assumido o apelido dos Mártires com a profissão religiosa em homenagem ao orago da igreja onde foi batizado, que se afirmou como uma das vozes de referência no Concílio de Trento (1543 – 1563), foi declarado venerável a 23 de março de 1845, por Gregório XVI, e beatificado a 4 de novembro de 2001, por São João Paulo II. Foi Arcebispo de Braga numa ocasião em que a arquidiocese incluía os territórios das dioceses de Braga, Bragança, Vila Real e Viana do Castelo. Destacou-se pela sua missão pastoral à frente das comunidades católicas do Minho e de Trás-os-Montes, com especial relevo para o seu gosto pelas visitas pastorais às populações, a que dedicava grande parte do seu tempo. Ao longo do seu percurso, ficou conhecido pela sua preocupação com a estruturação da Igreja Católica local, do clero às comunidades católicas (tudo na Igreja devia ser posto ao serviço dos pobres), e pelo seu empenho nas causas sociais, de modo particular junto dos mais pobres e doentes, Depois de resignar em 1582, por motivos de idade, Frei Bartolomeu dos Mártires viria a falecer em 1590, no Convento de Santa Cruz, em Viana do Castelo.
***
Luís Filipe Santos diz (vd Ecclesia, de hoje) que se trata de “vulto cimeiro do pensamento e da fé no século de ouro do humanismo” e a quem valores dos mais significativos das letras portuguesas consideravam ‘astralmente luminosa’, num tempo em que reinava em Portugal o rei Dom Manuel e presidia à Igreja de Deus o Papa Leão X.
Segundo as descrições da pessoa e obra pelo escritor seiscentista Frei Luís de Sousa, este ilustre português era um homem de estatura acima da média, com grande zelo apostólico, hábitos excessivamente frugais, rigorosos e disciplinados; e, dotado duma inteligência perspicaz e duma vontade generosa e forte, nunca deixou de ser uma pessoa humilde e simples. Por isso, nunca lhe passou pela mente a ideia de ocupar cargos a que estivessem ligadas quaisquer honrarias. O seu desejo era servir a Igreja como simples frade conventual. Nunca imaginou ter de trocar o hábito de discípulo de São Domingos por vestes episcopais.
Porém, como estava vaga a arquidiocese de Braga, por falecimento de Dom Baltasar Limpo, a rainha Dona Catarina convidou-o a aceitar o arcebispado de Braga, o que porfiadamente recusou. Foi necessário que o seu provincial, frei Luís de Granada, lhe impusesse a obediência para este cargo hierárquico. Então, vendo na vontade do superior a vontade de Deus, obedeceu fiel e generosamente. Assim, Paulo IV nomeou-o Arcebispo de Braga, no consistório de 27 de janeiro de 1559, e concedeu-lhe o pálio de arcebispo a 3 de junho do mesmo ano.
Diz Luís Filipe Santos que a vida de São Bartolomeu do Mártires, com todos os pormenores das funções que exerceu ao longo da sua vida, é uma verdadeira epopeia de fé e de amor a Deus, manifestado no amor ao próximo, sobretudo aos mais carenciados. A sua ação no Concílio de Trento foi tão empolgante que causou a admiração de todos os padres conciliares e do Papa. Foram célebres as suas intervenções, a que se devem muitos dos decretos da reforma conciliar.
Um homem que não se ficava apenas pela teoria… Pastor desprendido de todas as vaidades, honras e prazeres mundanos, tendo apenas em conta o bem do rebanho que lhe estava confiado, começou a viver em ambiente de extraordinária austeridade. À testa duma arquidiocese cujo território se estendia desde o Alto Minho até ao nordeste transmontano não se sentia em paz nas só paredes do Paço. Em todas as terras que visitava, sempre se deparava com a ignorância religiosa do povo e dos pastores. Perante esta paisagem tão sombria de conhecimentos resolveu escrever alguns livros, que passados 500 anos ainda estão e são atuais – obras literárias em linguagem simples e acessível que se revestem de permanente frescura e novidade.
São Carlos Borromeu, que a seu lado participou no Concílio de Trento, considerou-o “modelo de bispo e espelho de virtudes cristãs”. Fundou o seminário, o primeiro de toda a cristandade, para a formação dos presbíteros, uma novidade que São João Paulo II fez questão de mencionar na celebração da sua beatificação.
Um homem audacioso e com fervor apostólico que nunca deixou de ser dominicano. Na etapa final da sua vida, retirou-se para o Convento de Santa Cruz, em Viana do Castelo. Naquele local, hoje Igreja de São Domingos, deu expansão à sua ardente caridade para com os pobres, que já o consideravam santo. Aquela Igreja guarda memórias e relíquias daquele homem que nunca se cansou de evangelizar.
Foi referido que para merecer a pensão que lhe vinha de Roma continuava a colaborar pastoralmente como simples dominicano na pregação e na catequese.
Por fim Luís Filipe Santos, considerando que São Bartolomeu dos Mártires já está inscrito no álbum dos santos e “foi um homem sapientíssimo a quem a aspereza das regiões minhotas e transmontanas, nem rigores alguns, frio ou calor ou outra qualquer intempérie, puderam deter-lhe o passo, para cumprir, todos os deveres de pastor”, interroga-se: Será que algum dia será declarado doutor da Igreja?
É justo que o seja, digo eu.
2019.11.10 – Louro de Carvalho

sábado, 6 de julho de 2019

Mais um santo português: São Bartolomeu dos Mártires


O Boletim da Sala de Imprensa da Santa Sé, de hoje, 6 de julho, sob o título “Promulgação de Decretos da Congregação para as Causas dos Santos”, noticia:

A 5 de julho de 2019, o Santo Padre Francisco recebeu em audiência Sua Eminência Reverendíssima o Senhor Cardeal Angelo Becciu, Prefeito da Congregação para as Causas dos Santos. Durante a audiência, o Sumo Pontífice aprovou os votos favoráveis dos Eminentíssimos e Excelentíssimos Membros da Congregação e estendeu à Igreja Universal o culto litúrgico em honra do Beato Bartolomeu dos Mártires (no século: Bartolomeu Fernandes), da Ordem dos Frades Pregadores, que nasceu em Lisboa (Portugal) a 3 de maio de 1514 e faleceu em Viana do Castelo (Portugal) a 16 de julho de 1590, inscrevendo-o no catálogo dos Santos (canonização equipolente).”.
Segundo o mesmo Boletim, cujo texto o Vatican News traduz, na mesma Audiência, o Papa autorizou a Congregação das Causas dos Santos a promulgar o Decreto concernente ao milagre, atribuído à intercessão do Venerável Servo de Deus, Fulton Sheen, norte-americano, Arcebispo de Newport, Bispo emérito de Rochester, nascido a 8 de maio de 1895, em El Paso, Illinois, e falecido a 9 de dezembro de 1979, em Nova Iorque – bem como a promulgação dos seguintes Decretos concernentes às virtudes heroicas de sete Servos de Deus:
- Elias Hoyek, libanês, Patriarca de Antioquia dos Maronitas, fundador da Congregação das Irmãs Maronitas da Sagrada Família, nascido em Helta (Líbano), a 4 de dezembro de 1843, e falecido em Bkerké (Líbano), a 24 de dezembro de 1931;
- João Vitório Ferro, italiano, da Ordem dos Clérigos Regulares Somascos, Arcebispo de Régio Calábria-Bova, nascido em Costigliole de Asti (Itália), a 13 de novembro de 1901, e falecido em Régio Calábria (Itália), a 18 de abril de 1992;
- Ângelo Riesco Carbajo, espanhol, Bispo de Limisa e Auxiliar do Administrador Apostólico de Tudela, fundador do Instituto das Missionárias da Caridade, nascido em Bercianos de Vidriales (Espanha), a 9 de julho de 1902, e falecido em La Bañeza (Espanha), a 2 de julho de 1972;
- Ladislau Korniłowicz, sacerdote diocesano polaco, nascido em Varsóvia (Polónia), a 5 de agosto de 1884, e falecido em Laski (Polónia), a 26 de setembro de 1946;
- Angélico Lipani (no século: Vicenzo), sacerdote professo italiano da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, fundador da Congregação das Irmãs Franciscanas do Senhor, nascido em Caltanissetta (Itália), a 28 de dezembro de 1842, e ali falecido a 9 de julho de 1920;
- Francisca do Espírito Santo (no século: Francisca de Fontes), filipina, fundadora da Congregação das Irmãs Dominicanas de Santa Catarina de Sena, nascida em Intramuros (Filipinas), em 1647, e falecida na capital, Manila (Filipinas), a 24 de agosto de 1711; e
- Estêvão Pedro Morlanne, leigo francês, fundador da Congregação das Irmãs da Caridade Materna, nascido em Metz (França), a 22 de maio de 1772, e ali falecido a 7 de janeiro de 1862.”.
***
O Vatican News releva o Decreto concernente ao Servo de Deus Fulton Sheen. É assim que é a portada do seu texto, logo a seguir ao título “Papa aprova Decretos das Causas dos Santos”:
O Papa Francisco aprovou Decretos de virtudes heroicas de 7 Servos de Deus e culto litúrgico do Beato Bartolomeu dos Mártires, de Portugal. Além disso, o Pontífice autorizou a promulgar o Decreto concernente ao milagre atribuído à intercessão do Venerável Servo de Deus, o estadunidense Fulton Sheen.”.
Na verdade, poucos homens da história recente da Igreja exerceram tamanha influência espiritual nas almas como Fulton Sheen, autor de inúmeros livros e pioneiro na evangelização pela TV, cujas aulas e pregações mudaram a vida de milhões de pessoas em todo o mundo.
Foi a oração que fez esse homem de Deus tão especial, além da sua inteligência penetrante e da sua profunda humildade. Dizia que o segredo para o seu sucesso em ganhar almas para Cristo era que todos os dias reservava uma hora para adoração diante do Santíssimo Sacramento – a “Hora Santa” – inspirado pelo amor duma menina chinesa de 9 anos à Eucaristia.
***
Porém, as reações portuguesas em torno do nosso novo santo não se fizeram esperar. Por exemplo, o Expresso e o Observador referem que “o Papa Francisco decidiu canonizar o frade e beato português Bartolomeu dos Mártires, anunciou o Vaticano, na sua página oficial na Internet”. O JN diz que “O Papa Francisco anunciou, este sábado, que o Beato Bartolomeu dos Mártires já faz parte do catálogo de Santos da Igreja católica”. O DN escreve que “o Vaticano anunciou que Portugal rem um novo santo” e que “a canonização do beato nascido em 1514 está marcada apara 10 de novembro”.
É de esclarecer que Bartolomeu já é oficialmente santo, não estando marcada qualquer cerimónia de canonização presidida, como é do direito, pelo Papa (que tem a reserva das celebrações canonizatórias, ao invés das beatificações, que Bento XVI passou a delegar) dado tratar-se de canonização equipolente. O que está previsto é a cerimónia para a leitura solene do decreto de canonização provavelmente na Sé primacial de Braga (o que não impede, antes estimulará, outras manifestações litúrgicas).
Na canonização equipolente, instituída alternativamente à usual por Bento XIV, deve ter-se em conta três requisitos: 1) a prova do culto antigo ao candidato; 2) o atestado histórico incontestável da fé católica e das virtudes do candidato; e 3) a fama ininterrupta de milagres intermediados pelo candidato. L’Osservatore Romano, de 12 de maio de 2012, esclarece:
Na sua obra De Servorum Dei beatificatione et de Beatorum canonizatione, Bento XIV formulou a doutrina sobre a canonização equipolente; realiza-se quando o Papa alarga a toda a Igreja o preceito do culto de um servo de Deus que ainda não foi canonizado, mediante a inserção da sua festa, com missa e ofício, no Calendário da Igreja universal.
Neste ato pontifício – escreve Fabijan Veraja no livro Le cause di canonizzazione dei santi (Libreria Editrice Vaticana, 1992) – Bento XIV identifica os elementos duma canonização verdadeira, isto é de uma sentença definitiva do Papa sobre a santidade do servo de Deus. Esta sentença, contudo, não é expressa com a fórmula de canonização habitual, mas através dum decreto obrigante a Igreja inteira à veneração daquele servo de Deus com o culto reservado aos santos canonizados. Muitos exemplos desta forma de canonização remontam ao pontificado de Bento XIV, como os santos Romualdo (canonizado 439 anos depois da sua morte), Norberto, Bruno, Pedro Nolasco, Raimundo Nonato, João da Mata, Félix de Valois, a rainha Margarida da Escócia, o rei Estêvão da Hungria, o duque Venceslau da Boémia e o Papa Gregório VII.”.
Francisco já usou deste instrumento para a canonização de Angela Foligno, Pedro Fabro, José de Anchieta e José Vaz, bem como os 30 mártires de Cunhaú e Uruaçu, no Rio Grande do Norte (os padres André de Soveral e Ambrósio Francisco Ferro, com Mateus Moreira e outros 27 leigos).
***
Como refere a Ecclesia, foi em janeiro de 2016 que Francisco autorizara a canonização de Frei Bartolomeu dos Mártires sem a necessidade de novo milagre atribuído à intercessão do santo.
Frei Bartolomeu dos Mártires, de seu nome Bartolomeu Fernandes, que nasceu em Lisboa a 3 de  maio de 1514, é recordado como um modelo de benevolência e figura ímpar na dedicação à Igreja Católica. O bispo, que se afirmou como uma das vozes de referência no Concílio de Trento (1543 – 1563), momento decisivo na história da Igreja Católica na altura confrontada com a Reforma Protestante, destacou-se pela sua missão pastoral à frente das comunidades católicas do Minho e de Trás-os-Montes, com especial relevo para o gosto pelas visitas pastorais às populações, a que dedicava grande parte do seu tempo.
Ao longo do seu percurso, Dom Frei Bartolomeu dos Mártires ficou também célebre pela sua preocupação com a estruturação da Igreja Católica local, do clero às comunidades católicas, e pelo seu empenho nas causas sociais, de modo particular junto dos mais pobres e doentes,
Depois de resignar em 1582, por motivos de idade, Frei Bartolomeu dos Mártires viria a falecer em 1590, no Convento de Santa Cruz, em Viana do Castelo. Foi declarado venerável a 23 de março de 1845, por Gregório XVI, e beatificado a 4 de novembro de 2001, por João Paulo II.
Na sequência da decisão papal não haverá cerimónia de canonização, mas apenas a da leitura solene do Decreto que inscreve Frei Bartolomeu dos Mártires no Livro dos Santos. A cerimónia deverá ter lugar na Arquidiocese de Braga, a 10 de novembro (início da Semana dos Seminários).
A Diocese de Viana do Castelo reagiu hoje com “profunda emoção e gratidão” ao anúncio da promulgação do decreto, por parte de Francisco, da canonização de Dom Frei Bartolomeu dos Mártires, antigo bispo daquele território. Em comunicado, Dom Anacleto Oliveira, Bispo diocesano, fala duma ocasião de “graça” que deve motivar uma maior “responsabilidade” da parte das comunidades católicas da região e de todo o país, no sentido de “se sentirem motivadas a seguir o seu exemplo a a se deixarem inspirar pela sua intercessão”.
O prelado quinhentista, que foi responsável pelo território que hoje compreende as dioceses de Braga, Bragança-Miranda e Vila Real, está sepultado na Diocese de Viana do Castelo.
Ao ser tornada pública a notícia da canonização de Bartolomeu dos Mártires, Dom Anacleto sublinhou a sua alegria  e o contentamento de toda a diocese vianense, por ver “concretizado algo que os cristãos do Alto Minho há muito esperavam e desejavam”. E fez votos por que este facto seja potenciado no âmbito das comemorações dos 40 anos da Diocese, “uma oportunidade que deve ser aproveitada”, referindo que mais à frente “serão dadas informações mais precisas sobre as celebrações que serão organizadas para assinalar a canonização.
Para já, Dom Anacleto Oliveira convida todas as comunidades e paróquias da Diocese de Viana do Castelo a marcarem presença na Eucaristia a que irá presidir, no dia 18 de julho, Memória de Bartolomeu dos Mártires, na igreja do Convento de São Domingos (Paróquia de Monserrate), onde o santo está sepultado, uma celebração com início marcado para as 18,30 horas.
Por sua vez, o Padre Vasco Gonçalves, pároco de Monserrate e Vigário Episcopal para a Evangelização, Catequese e Doutrina da Fé, na Diocese, adiantou que São Bartolomeu dos Mártires vai ser declarado como “padroeiro de todos quantos se dedicam à Catequese” no território. Com efeito, o Santo mostrou o seu empenho pelo melhoramento do setor da educação cristã, designadamente através do “Catecismo que escreveu”. E o sacerdote declarou:
Os santos inspiram-nos sempre a seguir os caminhos de Deus. Num Ano Pastoral em que, na nossa Diocese, nos detemos sobre a evangelização, penso que Bartolomeu dos Mártires nos pode estimular a vivermos em estado permanente de missão.”.
O presidente da Câmara Municipal de Viana do Castelo já reagiu ao anúncio da canonização de Frei Bartolomeu dos Mártires, considerando este sábado “um grande dia para a Igreja, para a Igreja Católica Portuguesa e em particular para a Diocese de Viana do Castelo”. Na verdade, como sustenta José Maria Costa, em declaração divulgada esta manhã, “Dom Frei Bartolomeu dos Mártires amou profundamente Viana e quis ficar sepultado aqui”, pelo que “hoje o povo de Viana e da nossa ribeira estão em festa pois tem uma enorme devoção e carinho por este novo Santo que, para eles, já o era há muitos anos”.
O Arcebispo de Braga realçou a sua alegria e o júbilo de toda a Arquidiocese pelo anúncio da canonização de Bartolomeu dos Mártires, figura que regeu os destinos da comunidade católica deste território no século XVI. Em carta pastoral dedicada ao momento, publicada na página online da Arquidiocese, Dom Jorge Ortiga saúda a decisão de Francisco, depois dum longo processo, e destaca Bartolomeu dos Mártires como alguém que irá, como santo, continuar a apelar “a uma vida de coerência evangélica” – aspeto que o Arcebispo considera fundamental quando a Igreja enfrenta vários desafios e carece de nova “reforma”. Assim, declarou:
A crise entrou na Igreja. Bartolomeu dos Mártires viveu um período idêntico e soube, como poucos, ler e ouvir os sinais dos tempos, empenhando-se na procura de respostas adequadas”.
E, recordando o caráter firme e íntegro do bispo que orientou os destinos da região que integra a Arquidiocese de Braga e as dioceses de Viana do Castelo, Bragança-Miranda e Vila Real, vinca:
O seu compromisso com a mudança na Igreja não foi teórico nem retórico. Deu exemplo e exigiu, no seu ministério apostólico, um novo estilo de ser Igreja e um novo modo de encarar o quotidiano cristão. Foi um autêntico reformador. Creio que, nele, encontraremos a confirmação de que a renovação da Igreja não só apenas necessária mas possível e urgente.”.
De acordo com a Arquidiocese, a leitura solene do decreto através do qual Francisco promulgou a canonização de Frei Bartolomeu dos Mártires deverá acontecer no dia 10 de novembro, no início da Semana dos Seminários. O evento será presidido por um Delegado Pontifício (representante do Papa) e terá lugar na Arquidiocese minhota. E o Arcebispo exorta:
Coloquemos a vida e a obra do nosso novo santo no coração das nossas vidas, das comunidades paroquiais, das dioceses que serviu e de todo o país”.
E a CEP (Conferência Episcopal Portuguesa) saudou com “enorme alegria” o anúncio do Vaticano relacionado com a aprovação da canonização de Dom Frei Bartolomeu dos Mártires.
Em nota assinada pelo Padre Manuel Barbosa, porta-voz da CEP, os bispos portugueses destacam Dom Frei Bartolomeu dos Mártires como um “grande modelo para a renovação da Igreja”. Os líderes católicos recordam, a propósito, a nota pastoral que a CEP publicou a 1 de maio de 2014, por ocasião dos 500 anos do nascimento (1514-1590) do antigo bispo da região que compreendia as atuais dioceses de Bragança-Miranda, Braga, Viana do Castelo e Vila Real.
No documento, os bispos realçavam que Dom Frei Bartolomeu dos Mártires, “tendo vivido em tempos de uma enorme crise epocal, dentro e fora da Igreja, pode e deve ser visto como testemunha” para se acreditar que “a evangelização e as reformas na Igreja não só são necessárias como possíveis”. E, referindo que “a sua vida e obra transpiram aquele dinamismo missionário sem fronteiras”, sublinhavam que o novo santo português integra o grupo de pessoas “que, pelos princípios e valores que pautaram as suas vidas, são permanentes modelos de referência de todos os tempos”.
Agora, a CEP retoma a referida nota pastoral como algo que “vale a pena reler”, a par de uma outra nota pastoral dedicada à beatificação do antigo bispo, em 2001 – dois textos que “remetem para a vida e o vasto trabalho pastoral de Bartolomeu dos Mártires e para os seus preciosos escritos que, pela sua permanente atualidade, contribuem para a renovação da pastoral evangelizadora da Igreja hoje, em particular neste Ano Missionário que está a ser celebrado em Portugal”. E, refere que, no próximo dia 18 de julho, se celebra a memória litúrgica do agora São Frei Bartolomeu dos Mártires – ocasião que se espera que seja “propícia para uma grande ação de graças em todas as comunidades cristãs pelo anúncio da sua canonização”.
***
Enfim, mais um luzeiro e exemplo totalmente reconhecido pela autoridade da Igreja. Oxalá que inspire a permanente e necessária reforma da Igreja, mormente em Portugal. Ele que, segundo o Bispo de Bragança e Miranda, “encarnou o perfil de bispo ideal” que defendeu “no Concílio de Trento” e quando “escreveu entre tantas obras um livro intitulado Estímulo dos Pastores” – obra tornada peça de “referência” para a ação pastoral da Igreja Católica, a corporizar o ideal de pastor que Bartolomeu cumpriu à risca.
É um programa que abre à coragem da esperança e sublinha no coração do bispo: a caridade, a sabedora, a retidão e a justiça”, frisa Dom José Cordeiro, que destaca as visitas pastorais que o santo empreendeu em espírito de autêntica peregrinação. Será, pois, como “luz que arde do Evangelho para os pastores e todo o povo de Deus, especialmente para o primado da Palavra de Deus, a oração, e a misericórdia com os mais pobres”, diz o prelado do Nordeste transmontano.
2019.07.06 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

No 40.º aniversário de criação da diocese no Alto Minho

A Diocese de Viana do Castelo vai promover este domingo, dia 8 de janeiro, a transladação para a Sé dos restos mortais do seu primeiro Bispo, pelas 15,30 horas, numa iniciativa inserida no 40.º aniversário de criação da diocese no Alto Minho. A este respeito, Dom Anacleto Oliveira, Bispo de Viana do Castelo, na sua mensagem de Natal, referiu:
Em união com outras Igrejas diocesanas do nosso país e da Galiza, representadas pelos seus bispos, agradeceremos ao Senhor o primeiro pastor que nos deu”.
O primeiro Pastor escolhido pelo Papa Paulo VI para ser o primeiro Bispo de Viana do Castelo, diocese criada a 3 de novembro de 1977, foi Dom Júlio Tavares Rebimbas, que ali permaneceu até 12 de fevereiro de 1982, quando foi nomeado Bispo do Porto, tendo falecido na Casa de Saúde da Boavista (Porto), a 6 de dezembro de 2010.
Em comunicado enviado à agência Ecclesia, o Secretariado Diocesano de Comunicação Social de Viana do Castelo informou que os restos mortais de Dom Júlio Tavares Rebimbas vão ficar num sarcófago em mármore branco com nome, datas e as suas armas episcopais “a cores, esculpidas no mármore”, numa base de ferro lacado a preto – exposto ao público na Sé. A este propósito, o vigário-geral da diocese, em nota enviada aos diocesanos onde agradece a quantos tornaram possível a transladação, realça:
Integrando e desafiando, com o seu lema episcopal ‘In Verbo Tuo’, por graça de Deus, dos senhores bispos do Porto e de Aveiro, da benignidade dos seus familiares e da adesão total do atual bispo diocesano, Dom Anacleto Oliveira”.
Monsenhor Sebastião Ferreira assinala que foi com o seu primeiro Bispo que Viana do Castelo e a sua gente que “revivesceu a memória e o carinho que, cinco séculos atrás, havia saboreado, na pessoa do agora Beato Frei Bartolomeu dos Mártires, o deslumbramento do que é ter um bispo perto de si, atento às suas necessidades e a conviver com o seu povo”.
A cerimónia do próximo domingo, Solenidade da Epifania do Senhor, é um dos eventos com que a diocese está a celebrar o 40.º aniversário da sua criação, desde 3 novembro 2017, até 2020. O dia 8 de janeiro é precisamente o do 40.º aniversário da entrada solene de Dom Júlio na diocese, a marcar o início da execução pública da Carta Apostólica pela qual foi ereta a diocese do Alto Minho. Com efeito, a entrada solene do 1.º Bispo de Viana do Castelo ocorreu a 8 de janeiro de 1978, dia de grande festa para a cidade e para a novel diocese.
***
O Bispo Dom Júlio nasceu em Bunheiro, no Concelho da Murtosa, a 21 de janeiro de 1922; foi ordenado presbítero a 29 de junho de 1945, em Pardilhó; e iniciou a atividade sacerdotal como coadjutor do pároco de Ílhavo. No ano seguinte, foi nomeado pároco de Avelãs de Cima e Avelãs de Caminho, em Anadia, regressando a Ílhavo em 1949, onde se manteve como pároco até 1962; e, em 1959, foi nomeado vigário-geral da Diocese de Aveiro.
Foi nomeado Bispo do Algarve a 27 de setembro de 1965, pelo Papa Paulo VI, pelo que participou na IV e última sessão do Concílio Ecuménico Vaticano II. Governou aquela diocese entre 1966 e 1972. Em seguida, foi Arcebispo auxiliar de Lisboa (1972-1977), com o título de Mitilene, 1.º Bispo de Viana do Castelo (1977-1982) e, por último Bispo do Porto, entre 1982 e 1997, chegando a integrar a Congregação para os Bispos.
***
A propósito da transladação dos restos mortais do seu primeiro Bispo para a Sé de Viana do Castelo, o jornal diocesano publicou testemunhos de Dom João Miranda e Dom Gilberto Reis, seus antigos auxiliares no Porto.
Dom Gilberto Reis, num artigo publicado no jornal ‘Notícias de Viana’, recorda:
Fiquei marcado sobretudo pelo gesto de ter ido a Chaves, quando poderia ter pedido para eu vir ao Porto. Aí o comecei a ver como pastor que, como Jesus, vai ao encontro das pessoas.”.
O agora Bispo emérito de Setúbal foi colaborador de Dom Júlio Tavares Rebimbas durante cerca de nove anos, entre 1989-1998, enquanto bispo auxiliar na Diocese do Porto.
No seu artigo ‘Dom Júlio, Bispo à maneira de Jesus, Bom e Belo Pastor’, o Bispo emérito de Setúbal explica que foi assim que viu, “desde o primeiro encontro”, uma imagem que “perdura na memória grata” por o ter conhecido e por ter sido seu colaborador. E sublinha:
Senti-o como pastor que entende que o bispo deve estar perto do povo no facto de ter escolhido quatro Bispos Auxiliares que, dia a dia, estavam com os fiéis nos mais diversos contextos”.
Por sua vez, Dom João Miranda, Bispo auxiliar emérito do Porto, testemunha:
 “Ainda guardo variadas e gratas recordações desses tempos de intensa atividade pastoral”.
Ordenado bispo a 31 de julho de 1983, o prelado recorda que foi Dom Júlio Tavares Rebimbas que o chamou ao Paço Episcopal para uma conversa e que “não era habitual, uma chamada telefónica direta do bispo para os seus padres”. E recorda:
Sempre me tratou bem, mas nunca deixou de chamar a atenção para o que lhe parecia que devia ser feito”.
O Bispo auxiliar emérito do Porto realça que Dom Júlio Tavares Rebimbas era “um homem grande, falava e falava, com voz forte, tinha as suas ideias, ouvia, fazia as suas observações”, afinal, tendo sido pároco e passado por outras dioceses, “sabia por experiência o que é ser pastor e não se entusiasmava com grandes pruridos intelectuais”.
Para Dom João Miranda ser bispo foi “um acontecimento inesperado e nunca desejado”, mas sente que “Deus escreve direito por linhas tortas” e chama por intermédio de outros homens que servem a Igreja, que no seu caso deve ter sido Dom Júlio Tavares Rebimbas.
No seu artigo de opinião relembra que o Bispo do Porto, entre 1982 e 1997, queria ir ao encontro dos padres nas localidades e “resolver in loco pequenas questões em suspenso”, conhecer e tomar decisões locais.
***
No dia 3 de Novembro de 1977, Paulo VI, pela Constituição Apostólica Ad aptiorem populi Dei, separando da Arquidiocese de Braga o território que constitui o distrito de Viana, erigiu canonicamente a Diocese de Viana do Castelo. E escolheu, para lançar mãos à obra de dar identidade e corpo à nova Igreja local, Dom Júlio Tavares Rebimbas, um Pastor bem testado como Pároco e Vigário Geral, em Aveiro, e como Bispo residencial, no Algarve, e, até então, Bispo Auxiliar do Patriarcado de Lisboa, com o título de Arcebispo de Mitilene.
Separado o território na novel diocese em relação à diocese matriz, era efetivamente necessário executar na prática o documento papal. A Santa Sé encarregou Monsenhor Ângelo Felici, Núncio Apostólico em Portugal, de levar a cabo a tarefa, tendo sido o Bispo eleito de Viana apresentado o Monsenhor Daniel José Machado Júnior, então, Vigário Episcopal, Arcipreste de Viana do Castelo e Pároco de Monserrate.
Na predita Constituição Apostólica, o Sumo Pontífice, depois de justificar a criação da nova Diocese – “ajudar com melhores auxílios o povo de Deus na sua caminhada eclesial e promover com mais eficácia a ação pastoral a desenvolver no seu meio” – e fundamentar a sua decisão nos pareceres obtidos junto da Conferência Episcopal Portuguesa e da Nunciatura Apostólica, determinou: a criação a Diocese de Viana, separando da de Braga o território correspondente ao distrito de Viana do Castelo; a localização da sede episcopal na cidade de Viana e a instituição da igreja de Santa Maria Maior como a Sé Catedral; a situação da Diocese e do seu Bispo como, respetivamente, sufragâneos da Sé Metropolitana de Braga e do Metropolita Bracarense; a pertença à nova Diocese, como fonte de receitas, dos emolumentos da Cúria, das ofertas livres dos fiéis e, de acordo com o cânone 1 500 do Código Direito Canónico vigente à época, da parte dos bens que, até então, estavam ligados a Braga, mas que efetivamente lhe diziam respeito; o ato de constituição do Cabido, podendo, “entretanto, em lugar dos membros daquele”, escolher-se “Consultores Diocesanos que auxiliassem o Bispo com o seu conselho e ação”; e a observância das leis canónicas no atinente ao regime e administração da nova Diocese, bem como para a eleição do Vigário Capitular, direitos e deveres dos fiéis. Além disso, foi determinado que a construção do Seminário e a educação dos alunos se processassem de acordo com os documentos da Santa Sé; que os Sacerdotes, com nomeação anterior, ficassem incardinados na Diocese “em cujo adictos” àquele território detivessem benefício ou ofício eclesiástico”; e que os outros Sacerdotes, Clérigos e alunos do Seminário fossem considerados adictos “àquela onde legitimamente vivem”.
E ainda acrescentava:
Ordenamos, finalmente, que todos os documentos e atas de qualquer modo respeitantes à Diocese de Viana do Castelo sejam transferidos pela Cúria Bracarense para aquela, que os guardará religiosamente no Arquivo”.
Por último, prescrevia que o executor desta Constituição seria o Núncio Apostólico “ou um sacerdote delegado por ele” e recordava os seus deveres, manifestando o desejo de “que esta Constituição Apostólica seja e venha a ser eficaz, quer agora quer no futuro, não obstante quaisquer disposições em contrário”.
Naturalmente, a criação da Diocese de Viana do Castelo foi acolhida pelos cristãos do Alto Minho, à volta do seu novo Pastor, com estrondosa explosão de alegria e com manifesta e sentida gratidão, em expressões de veneração e comunhão com a Sé de Pedro.
Uma das preocupações do primeiro Bispo de Viana – conhecedor das dificuldades sentidas por ocasião da criação de outras dioceses irmãs –, era que, antes da sua tomada de posse, tudo o que se relacionava com a divisão dos bens, móveis e imóveis, entre as duas dioceses, estivesse ultimado, incluindo a própria casa episcopal. 
E, porque em Igreja se vive e trabalha em comunhão, todas as instituições envolventes (Congregação para os Bispos, Nunciatura Apostólica, Arquidiocese de Braga e Diocese de Viana do Castelo) e seus configurantes jurídicos e eclesiais trabalharam de boa-fé em verdadeira expressão de comunhão de Igreja, cedendo de parte a parte, até chegarem ao que fora a proposta despretensiosa, mas razoável, do Bispo de Viana:
Ficam a pertencer, em posse plena, à nova Diocese de Viana do Castelo todos os bens que, à data da sua ereção canónica, estejam na posse ou no uso da Arquidiocese de Braga, da Mitra de Braga, ou dos Seminários de Braga, ou de outras Instituições Arquidiocesanas e fiquem situados dentro dos limites da nova Diocese de Viana do Castelo”. 
Assim sucedeu. Após fecunda correspondência epistolar, algumas propostas alternativas, muita reflexão e alguns recursos, a Nunciatura Apostólica, a 24 de julho de 1978, e a Arquidiocese de Braga, a 2 de agosto de 1978, informavam Dom Júlio Tavares Rebimbas da aceitação definitiva da sua proposta e da autorização da Santa Sé, para outorgarem as respetivas escrituras.
(cf Nascimento e Constituição Apostólica Ad aptiorem populi Dei, em História, no site da diocese)
***
A região entre Minho e Lima disfrutou sempre de certa autonomia religiosa até 1514, quando foi incorporada na diocese de Braga no tempo de Dom Diogo de Sousa. A sede religiosa da região ter-se-á situado em Viana do Castelo, embora com ligação a Tuy, de 569 a 1382, Valença, de 1382 a 1444 e Ceuta, de 1444 a 1514.
A aspiração dos católicos do Alto Minho pela criação da diocese de Viana do Castelo teve o seu primeiro processo, em 1545, no reinado de D. João III, juntamente com os pedidos de Freixo de Espada à Cinta, Covilhã e Abrantes.
Adormecida ao longo dos séculos, a aspiração voltou a manifestar-se no princípio do século XX. Em 1926, após a criação da diocese de Vila Real, sacerdotes e leigos de Viana do Castelo formularam novo pedido à Santa Sé, que viria a ser retomado em 1942, organizando-se, para o efeito, comissões nos vários concelhos. Renovado em 1943, o pedido multiplicou-se em iniciativas cada vez com mais largo apoio da população nos anos de 1964, 1970 e 1977, vindo a encontrar resposta neste mesmo ano, pela Constituição Apostólica Ad Aptiorem Populi Dei, de 3 de Novembro, do Papa Paulo VI.
A área da diocese, com 2 108Km2, coincide com território civil do distrito de Viana do Castelo, contando 291 paróquias e uma população de 250 000 habitantes. Ficaram integrados na diocese os sacerdotes que, na ocasião, tinham ofício ou benefício eclesiástico no seu território e os que nele legitimamente viviam. A Igreja Matriz de Santa Maria Maior foi constituída como Sé Catedral e o Convento de São Domingos, restaurado, a sede dos serviços centrais diocesanos.

2018.01.04 – Louro de Carvalho