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sábado, 10 de março de 2018

Surpreendente a notícia da urgência de intervenção na Ponte 25 de Abril


A Ponte 25 de abril vai ser alvo, durante 2 anos (ou mais) de trabalhos manutenção, orçados em 18 milhões de euros (podendo vir a ultrapassar aos 20 milhões), conforme anunciou a IP (Infraestruturas de Portugal), que lança este mês o concurso público internacional para adjudicação da obra.
Questionada pela Lusa, fonte da empresa explicou que o prazo de dois anos para a realização das obras só se inicia após a adjudicação da empreitada, na sequência do concurso que será lançado no decorrer deste mês. Em comunicado, a IP explicita:
Esta empreitada tem por objetivo a realização de um conjunto de trabalhos identificados no âmbito das atividades de inspeção e de monitorização do comportamento estrutural da Ponte 25 de Abril, promovidas em contínuo pela IP e executadas pelo ISQ – Instituto de Soldadura e Qualidade e Laboratório Nacional de Engenharia Civil, respetivamente”.
E, à semelhança das intervenções de manutenção anteriores e de modo a minimizar eventuais impactos na normal circulação rodoviária e ferroviária, os trabalhos são executados em períodos de menor fluxo de tráfego, nomeadamente em período noturno e em dias não úteis.
As intervenções previstas incidem sobre elementos metálicos da ponte suspensa e em elementos de betão armado pré-esforçado do viaduto de acesso norte. Genericamente, são trabalhos de construção metálica, soldadura, reposição localizada da proteção anticorrosiva, substituição de elementos não estruturais, limpeza, tratamento e pintura pontual de superfícies de betão
O projeto de execução de suporte a esta empreitada contempla as soluções técnicas de reparação definidas pela empresa projetista americana Parsons e pela empresa projetista portuguesa TalProjecto, cujo desenvolvimento foi acompanhado e validado ao longo das suas diversas fases pelo LNEC (Laboratório Nacional de Engenharia Civil).
A IP refere que “a Parsons é a empresa projetista que detém os direitos de autor do projeto de construção da Ponte que data da década de 60 e que é simultaneamente a autora do projeto de instalação do caminho de ferro, alargamento do tabuleiro rodoviário e de beneficiação geral da Ponte 25 de Abril, concretizada na década de 90”; e que a “Talprojecto” é “uma empresa projetista portuguesa na área das estruturas metálicas”.
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A surpresa da notícia, dada a existência de monitorização e fiscalização permanente da parte das entidades, nomeadamente do LNEC, suscitou dúvidas sobre a segurança da obra de arte. Mas a tais dúvidas o LNEC veio responder que a Ponte “está e estará segura”, embora o relatório pedido pelo Governo tenha identificado anomalias na estrutura
O presidente do conselho diretivo do LNEC, Carlos Pina, garantiu que a Ponte não oferece perigo para os utentes. E referiu que está previsto que as obras decorram durante 2 anos, explicando que está afastada a ideia de interdição da circulação de veículos pesados na Ponte, o que só poderia acontecer caso a situação se agravasse. Diz o responsável do LNEC:
As anomalias que, recentemente, têm vindo a público são na realidade detetadas precisamente com o programa de monitorização que fizemos. Os primeiros trabalhos em que o LNEC esteve envolvido foram feitos em 2012. Depois disso, temos acompanhado os trabalhos das Infraestruturas de Portugal no sentido de interpretar as causas dessas anomalias e definir qual é a melhor estratégia de intervenção para voltar a assegurar as necessárias condições de segurança”.
No entanto, Carlos Pina admitiu que, na sequência de despacho do Secretário de Estado das Infraestruturas, o LNEC elaborou um parecer onde defendia que as obras “deviam ser realizadas o mais depressa possível”. E concluiu:
O LNEC irá continuar a realizar a monitorização e irão continuar a ser realizadas as inspeções pelo Instituto de Segurança e Qualidade ao longo deste período e também durante as obras, no sentido de garantirmos a segurança. Desde a ocorrência destas anomalias, o acompanhamento é mais atento, necessariamente, para que não haja ocorrências inesperadas.”.
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A surpresa com que a opinião pública recebeu a notícia fez dela um caso político. A notícia foi lançada pela revista “Visão”, do dia 8, apontando que o risco de colapso, designadamente por fissuras numa zona estrutural da travessia, leva Governo a anunciar obras na Ponte 25 de Abril.
Efetivamente, o Executivo admitiu a necessidade de intervenção urgente, após ter sido revelado um relatório do LNEC, entregue ao Governo há um mês, que aponta para os riscos de colapso da estrutura que permite a ligação entre as duas margens do rio Tejo (entre Almada e Lisboa).
Por seu turno, Maria Manuel Leitão Marques, Ministra da Presidência, esclareceu que os mecanismos de decisão, aprovação e criação de concursos não são instantâneos, dizendo que “está em bom ritmo” o processo do início das obras na Ponte. E, questionada, na conferência de imprensa após o Conselho de Ministros do dia 8, quanto à notícia avançada pela “Visão” sobre a existência de relatório do LNEC a alertar para riscos graves de segurança na Ponte e o porquê de o Governo só avançar agora com o lançamento do concurso, a governante explicou:
Quero dizer-lhe, como deve saber, que os mecanismos de decisão e de aprovação e criação de concursos não são instantâneos. Creio que a decisão do Governo está adequada àquilo que são as informações técnicas que tem porque evidentemente quando é preciso reagir instantemente também temos mecanismos de urgência.”.
Interrogada sobre o facto de o LNEC ter entregado o relatório há um mês e o lançamento do concurso ter sido anunciado apenas no dia 7, já depois do fecho da edição da referida revista, a Ministra foi perentória: “é uma coincidência”. E, sobre as informações ao dispor do Governo dispõe sobre o estado das condições de segurança da Ponte, remeteu para os esclarecimentos que disse já terem sido prestados pelo Ministro do Planeamento e seu gabinete já que o tema não foi discutido em Conselho de Ministros.
Por sua vez, o presidente da IP, António Laranjo, disse que a obra de reparação, apesar de prioritária, “não é urgente” e que, se houvesse perigo, a infraestrutura “estaria fechada”.
Em conferência de imprensa na sede da empresa, em Almada, Laranjo admitiu que a IP já sabia da existência de fissuras na Ponte há 2 anos, mas rejeitou perigo. De acordo com o responsável, o concurso público internacional de reabilitação da estrutura deve ser lançado no dia 22 de março, devendo as obras arrancar no final deste ano, início do próximo.
O Ministério das Finanças demorou cerca de 6 meses a autorizar a obra de reparação, mas já o fez, segundo a IP, que garante avançar com o concurso este mês. E Laranjo esclareceu:
Não estamos [à espera]. Temos autorização para lançar os concursos já que, de outra forma, não poderíamos lançá-los”.
E, anotando que toda a programação da obra é feita com o Ministério das Finanças e com a Secretaria de Estado [das Finanças], sendo esta a forma de avançar com os concursos, disse:
Nós não pedimos dinheiro para avançar com este concurso público, nós temos um planeamento de obras e colocamos na nossa Secretaria de Estado das Finanças os pedidos de autorização de acordo com as prioridades que temos”.
Interpelado sobre quando foi feito à tutela pedido para avançar com a empreitada, respondeu ter sido há alguns meses porque “não é uma obra que custa assim tão pouco quanto isso” e assinalou que “quando se fala em seis meses, não é exagerado para uma obra desta natureza”.
Entretanto, Ministério das Finanças emitiu um comunicado onde garante que aprovou as obras “prontamente” e nega ter demorado 6 meses. Acrescenta que “a Lei do Orçamento do Estado para 2018 previa já os montantes necessários à intervenção na Ponte 25 de Abril, no quadro do calendário de manutenção regular e plurianual previamente estabelecido”. Por outro lado, esclarece que “todos os pedidos de intervenção na Ponte 25 de Abril, nomeadamente os projetos de portarias de extensão de encargos, foram atempadamente aprovados pelos ministérios competentes”. Mais sublinhou a tutela que “os processos referiam-se a intervenções regulares e programadas no âmbito de um calendário de manutenção plurianual da referida infraestrutura” e adiantou que “não existe qualquer processo a aguardar autorização do Ministério das Finanças relativo a intervenções de cariz urgente na Ponte 25 de Abril”.
Na nota que enviou aos jornalistas, o Ministério de Centeno refere mais dois relatórios – um do Instituto de Soldadura e Qualidade (ISQ) e outro do LNEC – que “indicavam a necessidade de realização de obras a curto prazo, confirmando a programação previamente definida pela Infraestruturas de Portugal”, que motivou a aprovação das obras de imediato pelas Finanças.
Segundo o IP, o concurso terá um montante superior a 20 milhões de euros e será lançado até 22 de março, devendo a obra arrancar no final deste ano, início do próximo. A duração prevista para a intervenção é de 2 anos, mas vai depender de como decorra o concurso.
Laranjo notou que todo o investimento na obra será suportado pela IP, já que a Lusoponte apenas “tem uma concessão” daquela infraestrutura. E, “nessa concessão, a obrigação que a Lusoponte tem é de tratar o seu pavimento; e a camada de desgaste, a camada infraestrutural é tudo pela IP”. Ademais, o presidente da IP assegurou “que a ponte vai continuar aberta” e a funcionar normalmente até às obras e durante as mesmas.
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Entretanto, o CDS anunciou que irá chamar ao Parlamento com caráter de urgência Pedro Marques, Ministro do Planeamento, e o LNEC, depois de ter sido confrontado com um relatório secreto do LNEC que apontava para a urgência de obras para evitar o colapso da Ponte.
O PSD – não descurando a necessidade de ouvir os responsáveis políticos e, por isso, acompanha o CDS no requerimento para ouvir o Ministro das Finanças na Comissão de Economia – quer ouvir primeiro os técnicos do LNEC sobre esta polémica. “É necessário tranquilizar as pessoas”, justifica o coordenador do PSD na Comissão de Economia, Paulo Rios. Por isso, o PSD entregou um requerimento para ouvir o LNEC, pois a prioridade dos socialdemocratas é “tranquilizar as pessoas” e esclarecer se a circulação na ponte é segura.
O Bloco de Esquerda também já pediu a presença no Parlamento do Ministro do Planeamento para explicar as notícias preocupantes quanto à situação da Ponte e criticou que seja o Estado a pagar obras urgentes necessárias. E o deputado Heitor Sousa justifica:
É surpreendente, sabendo que existe uma Parceria Público-Privada, com a Lusoponte para a gestão das pontes Vasco da Gama e 25 de Abril, e é motivo de grande perplexidade que seja o Estado a pagar 20 milhões de euros. […] Essas obras deveriam estar integradas nesse contrato.”.
Para o deputado bloquista, é “surpreendente que a notícia de uma intervenção urgente surja agora, sabendo-se que existe uma monitorização e fiscalização permanente da parte das entidades, nomeadamente do LNEC”. Por isso, o Bloco enviou duas perguntas, ao Ministério do Planeamento e Infraestruturas e das Finanças. Quer conhecer o relatório do LNEC e ouvir as explicações do ministro Pedro Marques. E Heitor Sousa receia os efeitos de obras prolongadas e estranha um eventual atraso na resposta do Governo à necessidade de obras urgentes, dado que o alerta do LNEC surgiu há seis meses e o concurso público internacional necessita também de seis meses.

O PCP defende responsabilização da Lusoponte nas obras. Diz o secretário-geral:

É uma situação que não se admite. […] Quem explora, quem tem lucro, não pode sacudir para o Estado a responsabilidade de corrigir as infraestruturas.”.

Jerónimo de Sousa defendeu mais investimento em infraestruturas, com uma nova ponte sobre o rio Tejo (Barreiro-Beato), e a responsabilização da empresa concessionária, Lusoponte, pelas obras de manutenção.
O PS afirmou que os Ministros das Infraestruturas e das Finanças estarão em breve no Parlamento para esclarecer o estado da Ponte e insurgiu-se contra “o alarme social”, recusando qualquer “risco iminente”. Disse o deputado André Pinotes Batista, eleito por Setúbal:
Os utentes da ponte 25 de Abril, sobretudo aqueles que diariamente recorrem a esta infraestrutura, podem estar tranquilos. Este não é o momento de alimentar demagogias estéreis ou alarme social, entrando-se em ligeirezas políticas. […] O Governo tem vindo a fazer a sua parte e 30 dias depois de ter recebido o relatório do LNEC há uma solução formalizada. […] Os Ministros das Finanças, Mário Centeno, e do Planeamento e Infraestruturas, Pedro Marques, estarão no Parlamento para prestar todos os esclarecimentos.”.
O gabinete do Ministro do Planeamento e das Infraestruturas disse à Lusa que Pedro Marques ainda aguarda conhecimento oficial dos pedidos de esclarecimento, mas que “está sempre disponível” para esclarecer os deputados.
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Entretanto, o Presidente da República já declarou que o executivo socialista “fez o que devia ter feito” e desaconselhou alarmismos. O Chefe de Estado declarou aos jornalistas, no final de uma visita a uma fábrica do setor têxtil, em Alfragide, na Amadora:
Não sejamos alarmistas. O que há é duas coisas: há um relatório que aponta para urgência em obras – não quer dizer que a ponte esteja a cair – e há o Governo que percebe a urgência e que determina essas obras”.
Segundo Marcelo, “mais vale tarde do que nunca” e o facto de as obras se estenderem por dois anos indica “que não há um grau de urgência igual para todas as reparações”.
Interpelado sobre se a ação do Governo não poderá ser tardia, o Presidente da República respondeu que “não”, acrescentando: “Logo que chegou o relatório – é assim que normalmente se faz, há um relatório técnico, o relatório técnico mostra que há pontos onde é necessário haver intervenções – o Governo decidiu intervir”. E concluiu:
Acho que fez o que devia ter feito. E acho que o Parlamento também discutir essa matéria tem toda a lógica.”.
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Perante a polémica desencadeada, é justo questionar: Se a obra é urgente, porque é necessário um concurso público internacional? Porque se lança mão dum relatório secreto, em vez de ir gerindo a informação técnica e política, quando uma fuga de informação para uma revista lança o alarme para a opinião pública? O que leva outros partidos do arco do poder a hipocritamente vociferar, se a deficiência, embora larvar vem já de 2012? E porque não tem a concessionária obrigação de pagar os custos das obras, se cobra as receitas de utilização e recebe compensações quando o Estado determina não pagamento de portagem (mais um contrato em desfavor do Estado)?
Não tenho medo da segurança da Ponte, mas gostava de resposta às questões formuladas.
2018.03.09 – Louro de Carvalho

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Nobel da Literatura em 2016 é para Bob Dylan

Bob Dylan, músico e compositor de 75 anos, é o vencedor do Prémio Nobel da Literatura de 2016, segundo o anúncio de ontem, dia 13, da Real Academia Sueca das Ciências, que distinguiu o cantor e compositor norte-americano por “ter criado uma nova expressão poética dentro da grande tradição americana da canção”.
Entre os favoritos à atribuição do galardão estavam o queniano Ngugi Wai Thiong'o, Haruki Murakami, Philip Roth, o poeta sírio Ali Ahmad Said Esber (conhecido por Adónis) e nomes menos óbvios como Don DeLillo, cuja obra mais recente – “Zero K” (edição da Sextante) – acaba de ser publicada em Portugal, e o escritor espanhol Javier Marías.
A escolha de Dylan acaba por ser surpreendente para muitos. Porém, segundo a Academia Sueca, o laureado foi escolhido por “ter criado uma nova expressão poética dentro da grande tradição americana da canção”. A Academia compara canções de Dylan às obras de Homero e Safo – o que é manifestamente excessivo.
Reconhecendo a putativa surpresa da opinião pública, Sara Danius, a secretária permanente da Academia Sueca e porta-voz do júri, em Estocolmo, disse esperar que a escolha não venha a ser criticada, aduzindo que “talvez os tempos estejam mesmo a mudar” e comparando as canções de Dylan às obras de Homero e Safo, que, tal como o músico, “escreveram textos poéticos destinados a ser representados”.
Ele encarna a tradição americana e anglo-saxónica, nas palavras daquela responsável, que lembrou que há 54 anos que o cantor, poeta e compositor se reinventa, criando novas identidades.
Instada a escolher uma canção emblemática do agora Nobel da Literatura, Sara Darius disse que o álbum “Blonde on Blonde”, de 1966, “é um exemplo extraordinário da sua forma brilhante de rimar e do seu pensamento pictórico” (vd também JN on line de hoje).
E explicitou:
“É óbvio que ele merece o prémio. É um grande poeta - um grande poeta na tradição da grande literatura de língua inglesa. Durante 54 anos de carreira, ele foi capaz de se reinventar constantemente, criando novas identidades.”.
Exatamente por ser acusada de conservadorismo durante décadas a fio, mantendo-se indiferente às transformações sociais e literárias, a Academia quis provar que está a acompanhar o ritmo do mundo e confessa que “os tempos estão a mudar”, como reza uma conhecida música do contemplado.   
Para muitos observadores a escolha foi ousada a ponto de romper com o esquema tradicional supostamente inquestionável e intocável, segundo o qual o Prémio Nobel da Literatura seria o corolário de uma carreira exclusivamente literária, “com destaque para o romance”.
Já o ano passado a escolha recaiu sobre o trabalho duma jornalista. Com efeito, em 2015, a vencedora do Prémio Nobel da Literatura foi a bielorrusa Svetlana Alexievich, autora de obras como “O Fim do Homem Soviético” (Porto Editora), “Vozes de Chernobyl” (Elsinore) e “A Guerra não Tem Rosto de Mulher” (Elsinore), tendo a Academia Sueca justificado a decisão “pela sua escrita polifónica, um monumento ao sofrimento e à coragem no nosso tempo”.
A atribuição do Nobel da Literatura, em 2016, fica marcada pela morte, ontem, como ficou susodito, do escritor e dramaturgo italiano Dario Fo, aos 90 anos de idade, que foi distinguido pela Academia Sueca em 1997.
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O JN de hoje, a pgs. 40, refere que “há quase 20 anos – desde o anúncio de Dario Fo, dramaturgo italiano ontem falecido – que uma escolha da Real Academia Sueca não causava tanto brado”.
O próprio atraso no anúncio do vencedor do prémio – que usualmente é revelado na primeira quinta-feira de outubro – gerou muita polémica ao longo das últimas semanas, havendo quem tenha interpretado – diz o Expresso on line – este adiamento como sintoma de que a escolha do vencedor estava a ser mais difícil este ano ou que não haveria consenso entre os académicos, rumores que um representante da Academia Sueca veio desmentir publicamente.
“Da aclamação ao choque” – acentua o JN –, “do consentimento à repulsa, a surpresa foi o denominador comum” logo que foi conhecido o nome do 113.º vencedor do Prémio Nobel da Literatura. Formaram-se nas redes sociais, em poucas horas, dois blocos com posições extremadas: um concordante cujo rosto mais visível é Salman Rushdie; e outro de detratores, em maioria, em que se incluem Irvine Welsh e Joanne Harris.
Porém, a porta-voz do júri mencionada sustenta que “o maior poeta vivo” integrava, há muitos anos, a lista de putativos candidatos, embora nunca tenha estado perto de ser apontado como um dos favoritos. Chegou a ser consensual, no meio literário, que a opção mais óbvia, caso vingasse a ideia de premiar um criador do círculo musical, recairia no canadiano Leonard Cohen, cuja produção literária é mais extensa e academicamente mais respeitável.   
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Nascido em Duluth, em 1941, no Minnesota, numa família de proveniência russa e judaica, Robert Allen Zimmerman (Bob Dylan é o seu pseudónimo) começou a escrever poemas aos 10 anos. Aprendeu sozinho piano e guitarra. Em 1959, foi estudar para a Universidade do Minnesota (EUA). No ano seguinte, deixou a Faculdade e partiu para Nova Iorque, cada vez mais interessado nas origens do rock and roll e em intérpretes e criadores como Woody Guthrie, sua grande referência musical. Escreveu no 1.º volume das suas crónicas:
“Já tinha passado por muitas coisas e visto muitas outras. Mas agora o destino ia revelar-se. Senti que [Guthrie] estava a olhar diretamente para mim e para mais ninguém”.
Recorde-se que, em 1966, Dylan publicou “Tarântula” (Quasi Edições), a sua única obra de ficção e quase autobiográfica, que mistura poesia e prosa e espelha as mesmas preocupações artísticas refletidas em algumas das suas canções. Em 1962, lançara o seu primeiro álbum, “Bob Dylan”, seguindo-se outros discos, como “Blonde On Blonde” (1966) e “Blood On The Tracks” (1975), reconhecidos como obras maiores e eternas, dada a sua importância e legado. Este ano, Dylan lançou “Fallen Angels”, o seu 37.º álbum gravado em estúdio, homenagem a Frank Sinatra. Esteve em Tóquio, em tournée, a apresentá-lo, seguindo-se sete concertos no Japão e uma digressão pelos Estados Unidos, que representou mais uma etapa da sua “Never Ending Tour”. No ano passado, o cantor e compositor lançou “Shadows in the Night” e, em 2012, “Tempest”, disco que levou alguns fãs a crer que seria a sua última produção, dado ter o título da última peça de Shakespeare. Em março deste ano, anunciou a venda dos seus arquivos pessoais (cerca de 6 mil itens relacionados com a sua carreira) à Biblioteca de Tulsa, no Oklahoma, onde se encontra o Museu de Woody Guthrie, o folk singer que tanto admirava.
Apesar de não reconhecida consensualmente pelos seus pares, a produção dyliana não se resume às letras das canções que o celebrizaram e constituem ícones da cultura pop contemporânea, como “Blow in the wind” ou “The times they are achangin”.
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Dylan ainda não reagiu ao anúncio e escolha da Academia. Contudo, não se esperam reações eufóricas dele, que é conhecido por ser um homem reservado, de poucas e às vezes más falas e sempre muito metido consigo mesmo. Disse um dia:
“Ninguém me conhece. O que é que as pessoas realmente sabem? Que o nome do meu pai é Zimmerman e que a família da minha mãe é de classe média? Não vou andar por aí a dizer às pessoas que isso é falso... Não vou estar a encobrir o que quer que tenha feito. Não vou voltar atrás com coisa nenhuma, nenhuma declaração nem nada do que tenha feito... Já desisti de tentar dizer às pessoas que estão enganadas no que pensam sobre seja o que for, sobre o mundo, sobre mim, sobre qualquer coisa.”.
Quando fez 75 anos, Dylan que não compreendia por que razões lhe faziam, desde os anos 60, “as mesmas perguntas que fariam a um médico, um psiquiatra, um professor ou um político” respondeu: “Sou apenas um músico”.
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O editor Francisco Vale, da “Relógio d’Água”, que publicou em dois volumes a poesia de Bob Dylan, de 1962 a 2001, afirmou que a atribuição do Nobel ao poeta e compositor foi “uma surpresa relativa”. Disse o editor à Lusa:
“Foi uma surpresa relativa, porque havia outros escritores, mas o Bob Dylan é um grande poeta que soube inserir a poesia nas tradições musicais norte-americanas. Nomeadamente na pop e na folk”.
Para o declarante, esta distinção “só revela uma capacidade de atualização da Academia Sueca ao escolher um autor de canções, mas que é um grande poeta”. E rematou Francisco Vale:
“Bob Dylan está, de facto, inserido, e muito bem, na tradição poética anglo-saxónica, havendo claro, influências diretas de poetas/cantores como Leonard Cohen, de modo mais imediato, e de outros também, mas toda a grande poesia norte-americana, desde o Walt Whitman ao John Ashbery, está muito presente na poesia de Dylan”.
A Relógio d'Água publicou, em 2004, o 1.º volume da poesia de Bob Dylan, “Canções I”, respeitante ao período de 1962 a 1973 e, em 2008, o 2.º, “Canções II”, que reúne poesia de 1974 a 2001, numa tradução para português de Angelina Barbosa e Pedro Serranos.
Em Portugal, além da obra discográfica, está também publicado, pela Ulisseia, em 2005, o primeiro volume da autobiografia de Bob Dylan, “Crónicas”.
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Não sei se me convencem os argumentos da Real Academia Sueca das Ciências. Não creio que um prémio desta envergadura recaia sobre produção literária predominantemente expressa em letras de canções. Por um lado, se a música vem valorizar a expressão literária veiculada pelas canções, o âmbito do prémio extrapola o campo literário. E então deveria ser redefinido o seu âmbito, por exemplo, Nobel das Artes ou Nobel das Artes Dramáticas. Por outro lado, se as letras de canções (e muitas têm imenso valor expressivo, que não se nega nem desvaloriza), então pesa a injustiça de não se terem galardoado nomes – e para falar apenas de nomes portugueses – Miguel Torga, Fernando Pessoa, Aquilino Ribeiro, Sérgio Godinho ou Zeca Afonso, Manuel Alegre, entre outros, que nem sequer eram propostos porque à partida não seriam favoritos. Dizia-se que não tinham obra de fôlego ou que não era romance a sua obra (pouco extensa a narrativa, de universo limitado, etc.). Mas era poesia, novela, poesia e espelhava os dramas humanos e sociais ou servia de suporte a canções tradicionais, populares ou de intervenção. Porquê só agora estão os tempos a mudar? Ou será que é o Nobel que cri ao mérito da produção literária. Agora Dylan é o maior. Será mesmo?

2016.10.14 – Louro de Carvalho