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sábado, 25 de novembro de 2017

A tragédia que a miséria acolheu e Salazar quis ocultar

Foi há 50 anos. Na noite de 25 para 26 de novembro de 1967, a água caída em catadupas do céu revolto arrasou arredores da cidade de Lisboa e concelhos circunvizinhos. Foi a quantidade de água, acompanhada do transporte forçado de barracas, adobes e outros materiais e lixos, a causadora da tragédia que vitimou (diz-se) 700 pessoas, mas não se sabe ao certo quantas, pois Salazar parou de contá-las ao número 462. Houve 1100 desalojados e 20 mil casas destruídas pela enxurrada e pela chuva que, naquela noite, representou 1/5 da precipitação do ano.  
Era sábado como este ano. A 25 de novembro de 1967, o dia tinha sido beneficiado por alguns chuviscos. Se em 1965 e 1966 tinha chovido mais do que nos últimos 80 anos, 1967 estava a ser um ano particularmente seco. Não tinha chovido o outono inteiro e aquela chuvinha de molha-tolos era refrigério de culturas e cabeças. Tudo, porém, mudou entre as sete da tarde e a meia-noite. Às duas da manhã, a tromba de água fez com que a água entrasse pelas casas, casebres, casinhotos, barracas e adobes das zonas baixas da península de Lisboa e levantasse as camas até ao teto em Vila Franca de Xira, Alhandra, Cascais, Alenquer, Loures, Odivelas e Oeiras.
Também o centro de Lisboa e de Cascais sofreram fortes inundações, mas nada que a prontidão das forças de socorro não tenham resolvido com alguma rapidez. Não era assim nos outros lugares acima indicados, para onde se tinham deslocado, a fugir da penúria miserável das aldeias e seus campos – palcos de vida cada vez mais madrasta cruel –, milhares e milhares de cidadãos e cidadãs que de cidadania apenas tinham a cédula pessoal. Os chefes de família para ali deslocados, primeiro sozinhos, depois chamando mulher e filhos, comungavam da pobreza do trabalho dos pequenos, que se alimentava do capricho pouco escrupuloso dos ricos e grandes. As obras, as fábricas, os transportes e a florestação de Monsanto absorveram muita da mão de obra baratinha e sofrida. As casas, feitas de lata (sobretudo de zinco, nome dado à folha de Flandres), tábuas, pregos, barro, nas colinas expostas ao sol ou nas encostas abrigadas dos ventos fortes, ou adobes à beira das linhas de água (ribeiras, regatos, corgos, arroios…) – era o abrigo e a proximidade de água que interessavam –, serviam de pernoita incómoda e de refúgio precário a desafiar as pequenas e granes tormentas. Não havia dinheiro para mais e a resignação fora o remédio para a vida que deixava entrar algum dinheiro nas carteiras da família, de modo que se pudesse viver com um pouco mais de desafogo e sustento que na aldeia de origem, pagando dívidas de família acumuladas, mas mantendo as mulheres a costura rudimentar, as crianças o jogo do pino, da macaca, das pedrinhas e da bola, e os homens o copinho de três e o jogo das cartas na tasca mais próxima nos tempos livres.
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Enquanto toda a gente dormia, com exceção dos que cumpriam turnos de trabalho, o nível da água do Tejo subia quatro metros em cinco horas. De noite chovera um quinto do que choveu em todo o ano. E a água enlameada e emaranhada de detritos deixara depois um rasto de destruição e morte e destruição: terão morrido mais de 700 pessoas, só no primeiro dos três dias de chuva constante. Mas o regime ditatorial, travestido de Estado Novo e Estado Corporativo e Social, exigiu que os jornais parassem de contar os mortos: para Salazar, os números ficaram em 462 (O contador avariou-lhe!). E não se podia falar de cheiro a cadáver, sendo que os títulos não podiam exceder metade da página de jornal. Tragédia medida a régua e esquadro!
Porém, os números eram tudo menos coerentes: passados 50 dias das grandes cheias de Lisboa, ainda apareciam corpos por debaixo das ruas enlameadas e dos edifícios destruídos pela força das correntes, mas as cheias de 1967 já não eram notícia dos jornais por essa altura. No domingo seguinte, o Diário de Lisboa fazia manchete com os “mais de 200 mortos” que tinham sido anunciados até então. A avenida de Ceuta, em Lisboa, ficou debaixo de água, a avenida da Índia encheu-se de lama, as linhas de comboio estiveram submersas e a avenida da Liberdade e a praça de Espanha mais pareciam piscinas que praças ou largas e longas artérias. A 29 de novembro, o Diário de Notícias confirmava 427 mortos e as autoridades atualizaram o número de vítimas mortais para 462. A península da capital não sofria cataclismo tão mortífero e destruidor desde o terramoto de 1755. Só que, ao contrário de então, em que não se impediu a exportação das notícias, a ponto de a Europa se comover perante o caso português, e se empenhou o Reino em enterrar os mortos e cuidar dos vivos, agora o Estado resolveu meter a cabeça na areia. A partir de determinada hora, não haveria mais notícias sobre o caso, porque as que havia eram travadas pela censura. O Governo passou a mandar documentos para as redações na tentativa de suavizar as notícias sobre o desastre cuja dimensão estava à vista de todos. Era conveniente ir atenuando a história: não adiantavam urnas e coisas semelhantes; e era chocante… Era altura de pôr os títulos mais pequenos as notícias irem à censura, apesar de terem ficado destruídas mais de 20 mil casas, pois em alguns locais do distrito de Lisboa, a água chegou a concentrar-se num volume de 170 litros por metro quadrado.
Não obstante o esforço do Estado em abafar o acontecimento, houve um grupo de pessoas que não se calou e não se vergou ao lápis azul dos censores: os estudantes. Dizem as crónicas que Jorge Simões e José Brazão estavam com Zeca Afonso numa viagem de Coimbra para Lisboa quando, pela rádio, souberam do que estava a acontecer. Juntaram-se a António Alves Redol, que já não estudava, mas continuava ligado à associação de estudantes, no Instituto Superior Técnico para engendrarem um plano para ajudar a população: à Rádio Renascença, Danilo Matos, um dos estudantes que participou na iniciativa, disse que a causa de tanta desgraça não foi a chuva, mas a miséria. Os estudantes puseram a nu as condições sociais em que muitas pessoas viviam na cidade e arredores, bem como a inoperância e hipocrisia do Governo, que mal se interessava por enterrar os motos e cuidar dos vivos. O governo atrasou-se, paralisou, só mandou para o terreno o Movimento Nacional Feminino, que atrapalhava, e a GNR, a polícia preparada para reprimir e não para salvar. Tal inoperância, que deixou sapadores e bombeiros marcados pela insuficiência de deslocação e meios, gerou enorme revolta na população.
O “Solidariedade Estudantil”, jornal que surgiu depois das inundações, era o único que fugia à censura e vendia 10 mil exemplares por número. Inundações e enxurrada foram tão catastróficas que mereceram a atenção internacional: Terence Spencer, o fotógrafo inglês vencedor de um World Press Photo em 1968, veio a Portugal fotografar sem filtros ditatoriais os cadáveres, a lama e os escombros pelas ruas lisboetas. Vendeu as fotografias à revista LIFE e a notícia sobre as cheias foram publicadas a 8 de dezembro. O artigo não tinha mais que um parágrafo e, embora sublinhasse a falta de ordenamento urbanístico em Lisboa, ficou-se pelo número oficial de mortos, muito inferior ao real, que só foi desvendado depois do 25 de Abril.
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Marcelo Rebelo de Sousa na altura esteve no socorro às vítimas.
Agora o Presidente diz que, em ditadura, há 50 anos, “era possível haver tragédias e nunca ninguém percebia bem quais eram os contornos, sendo tal desconhecimento público possível por não haver “um ministério público autónomo, juízes independentes e comunicação social livre”, o que em democracia existe.
Era preciso tirar os mortos da lama, carregá-los de braços ao alto em tábuas, pois não havia macas – nem, na maior parte dos sítios, carro que passasse – e levá-los até ao quartel dos bombeiros. Os corpos eram contados e levados para o Instituto de Medicina Legal, onde eram arrumados por área de origem. E o instituto estava cheiinho até acima. A enxurrada matou famílias inteiras, arrastou carros, árvores e animais e destruiu pontes, estradas e casas. E ficaram cerca de 1100 desalojados em Lisboa, Loures, Odivelas, Vila Franca de Xira e Alenquer. A chuva atingiu de noite as zonas baixas dos quatro concelhos da Grande Lisboa, mas só na manhã seguinte é que os portugueses se depararam com a verdadeira dimensão da tragédia. Urmeira, Póvoa de Santo Adrião, Frielas – povoações da bacia do rio Trancão –, e a Quinta dos Silvados, em Odivelas, foram os aglomerados urbanos mais atingidos. As casas eram de madeira e centenas de moradores foram engolidos pelas águas. Lisboa, por seu turno, ficou irreconhecível. A Avenida de Ceuta, em Alcântara, esteve submersa e o mar de lama desceu até à Avenida da Índia. A água entrou em todas as bifurcações, subiu e desceu escadarias, derrubou as portas de tabernas, lojas e rés-do-chão, arrastando mesas, cadeiras, bilhas de gás, contentores e bidões da estação ferroviária.
Perto das 23 horas a chuva irrompeu com mais força e as enxurradas atingiram um carro que circulava na Rua de Alcântara, encurralando os três ocupantes. Um soldado mergulhou nas águas e conseguiu retirar os três passageiros, minutos antes de o carro ser arrastado. Sucederam-se interrupções no trânsito desde a Avenida 24 de Julho ao Campo Pequeno, da zona do aeroporto da Portela à Avenida Almirante Reis, da Baixa a Santa Apolónia. Na Praça de Espanha e na Avenida da Liberdade, só se passava de barco e, na estação de caminhos-de-ferro, centenas de pessoas ficaram retidas nas carruagens porque a água submergiu as linhas.
Mesmo tendo o regime minimizado os impactos das chuvas, as suas repercussões atravessaram fronteiras e desencadearam um movimento de solidariedade internacional. Chegaram donativos dos Governo britânico e do Governo italiano, do Principado do Mónaco e mesmo o Chefe do Estado francês, o general De Gaulle, contribuiu com uma “dádiva pessoal” de 30 mil francos. O apoio em meios sanitários veio de França, Suíça e sobretudo de Espanha, que ofereceu mil doses de vacina contra a febre tifoide, que os estudantes da JUC (Juventude Universitária Católica) e da JEC (Juventude Escolar Católica), à revelia do Estado aplicavam aos sobreviventes, a quem entregavam víveres, medicamentos e roupas.
A maioria das vítimas vivia em habitações construídas em vales de cheia. 4 concelhos da Grande Lisboa foram afetados – Lisboa, Loures (e Odivelas, que ainda não era concelho), Vila Franca de Xira e Alenquer. 1100 desalojados perderam casa, gado e outros bens. Os prejuízos atingiram 3 milhões de dólares (preços da época). 111mm por m2 foi a precipitação registada em 5 horas (25% da precipitação média anual).
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Contra o que Salazar previa e muito menos desejaria, o evento foi ocasião de tomada de consciência crítica em relação ao regime. A politização aconteceu.
A máscara humanitária do regime caiu e ficou a nu a crueza e a podridão.
Foi de 5 mil o número de alunos que ajudaram as vítimas, um movimento que marcou uma geração e que se antecipou ao Maio de 68 parisiense.
No domingo, dia 26, os corifeus da ajuda humanitária foram todos para o Instituto Superior Técnico, onde estudavam, para tentarem perceber o que se estava a passar. António Alves Redol, filho do escritor com o mesmo nome (1911-1969), já tinha acabado o curso, mas continuava muito ligado à associação de estudantes. Sem sair do Técnico, foi um dos principais organizadores da ajuda estudantil às vítimas das cheias, uma ajuda proposta pela Juventude Universitária Católica, que conhecia o terreno, mas não tinha meios. Recorda:
Era no Técnico que recebíamos as inscrições dos estudantes, formávamos as equipas e distribuíamo-las pelo terreno depois de devidamente equipadas. Houve dias em que chegaram a estar mil estudantes a trabalhar ao mesmo tempo. Na altura, fizeram-se as contas e concluiu-se que os estudantes executaram, no total, 44 mil horas de trabalho.”.
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Os especialistas dizem que só chove assim de cem em cem anos. O ano de 1967 foi seco e o outono começou sem chuva. Só no início de novembro é que se começou a verificar uma sequência de dias chuvosos. O geógrafo Francisco Costa, que vem estudando o fenómeno das cheias, não tem dúvidas em afirmar que se tratou de “um fenómeno anormal, excecional mesmo à escala centenária, de grande concentração de chuva”. Segundo o IPMA, a probabilidade de um evento destes acontecer é de uma vez em cada cem anos.
Centenas de pessoas morreram. Oficialmente, foram 462, mas na realidade podem ter chegado ou ultrapassado as 700. Bairros e aldeias foram levados pelas cheias e pela lama, 20 mil casas ficaram danificadas, os prejuízos foram calculados em 3 milhões de dólares a preços da época – cerca de 20 milhões de dólares (mais de 17 milhões de euros) a preços atuais. Trata-se de prejuízos incomparáveis mesmo com outras cheias na Grande Lisboa.
Francisco Costa exemplifica com as cheias de 1983, que provocaram a morte de sete pessoas e danificaram 650 habitações. Acrescenta ainda a contabilidade das cheias de 2008, que provocaram um morto, um desaparecido e problemas na circulação.
Precipitação acumulada em 24 horas, a 26 de Novembro de 1967, na região de Lisboa. Estes dados do IPMA revelam que não foi onde a chuva foi mais forte que se registaram mais vítimas mortais. O número de mortos foi mais elevado nas zonas mais pobres e degradadas.
Porém, é possível que se esteja a incorrer em ilusão. São inquestionavelmente menos que em 1967 as vítimas mortais, porque as barracas praticamente são inexistentes, os meios de socorro são mais e de maior prontidão, as vias de comunicação são transitáveis, as notícias alastram e sem eufemismos. É escandalosa a diferença de causas de morte topadas nas Conservatória do Registo Civil nos concelhos atingidos pela catástrofe em 1967: uns morreram por afogamento; outros, por submersão acidental. Ora bolas! A alternativa ao afogamento foi a morte na lama ou nos escombros. E dizer que só chove assim de cem em cem anos pode ser tapar o sol com a peneira. Não estão em marcha as alterações climáticas e suas consequências nefastas? Ou Trump já decretou para Portugal a ineficácia das alterações climáticas com o excesso de calor e de liquefação? Depois, tromba de água não conhece limites nem fronteiras! Além disso, Lisboa tem de estar preparada para mais cataclismos, como cheias e sismos (edificação e limpeza de canais).
E não esqueçamos: foi há 50 anos…

2017.11.25 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

O Evangelho da Cananeia ou da Universalidade da Salvação

A perícopa do Evangelho de Mateus (Mt 15,21-28) tomada para a Liturgia da Palavra do XX domingo do Tempo Comum do Ano A é conhecida como o Evangelho da Cananeia. Porém, melhor seria que nos fixássemos na proclamação da universalidade da Salvação.
O episódio vem inserido na secção da “instrução sobre o Reino” (cf Mt 13,1-17,27), logo após a apresentação do Reino em parábolas (cf Mt 13,1-52). Segundo Mateus, a resposta dos interlocutores de Jesus à sua proposta (cf Mt 14,1-17,27) foi, em geral, uma resposta negativa. Tanto os habitantes de Nazaré como Herodes, os escribas, os fariseus e os saduceus recusaram aderir à pregação do Reino, que estava próximo.  
A perícopa proposta para proclamação e meditação na Missa desta dominga vem na sequência dum confronto entre Jesus, dum lado, e os fariseus e doutores da Lei, do outro, por mercê das tradições (cf Mt 15,1-9) relacionadas com a pureza legal e ritual em preterição da interioridade do coração para que a Lei aponta. Em rutura com os irredutíveis interlocutores, Jesus retirou-Se para os lados de Tiro e de Sídon. A recusa de Israel, povo escolhido, do acolhimento ao Reino messiânico pregado e vivido por Jesus induz que a pregação do Senhor se dirija para fora das fronteiras de Israel. Mas a comunidade dos discípulos – o grupo que escutou e acolheu a proposta do Reino – segue Jesus, que pretende repousar um pouco e seguir com a pregação.
Por isso, o episódio ocorre na região de Tiro e Sídon, cujos habitantes já conheciam a fama de Jesus, sendo que muitos já o terão escutado quer na Galileia quer a partir das suas terras, próximas da Galileia. Apresenta-se-Lhe uma “mulher cananeia” – uma expressão bíblica arcaizante que Marcos (Mc 7,24-30) preteriu em prol da mulher helénica “siro-fenícia”, pois os cananeus constituíam a população que ocupava a Palestina antes da chegada dos israelitas com Josué (século XIII aC) e sobreviveram, sobretudo no Norte, à conquista israelita, constituindo uma contínua ameaça ao monoteísmo hebraico. A mulher era da fenícia da Síria, província romana incorporada na Síria, diferente dos fenícios da Líbia ou líbio-fenícios a que se refere Estrabão.
É o caso único em que se narra uma atividade apostólica do Mestre em território pagão. Com efeito, a Fenícia gozava, na história evangélica, de particular estima das populações não israelitas, como acontecera já no Antigo Testamento, sobretudo nos tempos de David e de Salomão (cf 2Sm 5,11-25; 1Rs 17,9-16), não tanto por motivos de política de boa vizinhança, mas de abertura, embora embrionária, à revelação divina para lá dos limites de Israel. Contudo, não era, aos olhos dos judeus, uma região recomendável. De lá tinham vindo, com frequência, exércitos inimigos e muitas influências religiosas nefastas que afastavam os israelitas da fé em Javé e os levavam a correr atrás dos deuses cananeus. Jezabel, mulher do rei Acab, que potenciou o culto a Baal e Asserá (meados do séc. IX a.C., nos tempos de Elias) e que deixou memória tão má entre os fiéis a Javé, era filha dum rei de Sídon. Não admira, pois, que fariseus e doutores da Lei, defensores intransigentes da Lei, considerassem os seus habitantes e os seus deuses como “cães” (designação que tinha sentido altamente pejorativo para os judeus).
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A mulher, prostrando-se aos pés de Jesus, gritando insistentemente à boa maneira oriental, tratando Jesus pelo título messiânico de Filho de David (já encontrado em Mt 9,27, clamado pelos dois cegos) e rogando a cura da filha doente (possessa do demónio ou com sintomas equivalentes), entende que tem acesso aos benefícios do messianismo esperado por Israel. Crê que também pode aceder à salvação que Jesus veio propor. A questão que se coloca é se Jesus, passando por cima dos preconceitos religiosos dos judeus, oferecerá a salvação a esta pagã, ou seja, se uma mulher fenícia (estrangeira, inimiga, oriunda de uma região com má fama e mulher) merecerá a salvação.
A sugestão dos discípulos de a mandar embora, talvez insinuada pela própria mulher ou para se verem livres dela não surte efeito. Durante muito tempo, Jesus não responde palavra. Mas a mulher insiste. E as suas três intervenções mostram a sua ânsia de salvação e a fé firme e convicta que a anima. A designação de “filho de David” – equivalente a “Messias” e “Senhor”, “Kyrios” – com que se dirige a Jesus, lida em contexto cristão, significa uma confissão de fé. A mulher é então uma figura humana que impressiona pela fé, pela humildade e também pelo sofrimento que transparece no seu apelo.
Não obstante, surpreende, numa primeira leitura, a forma como Jesus trata a mulher que pede ajuda. Começa por passar em silêncio, aparentemente insensível aos apelos da mulher (v. 23). E, face à insistência dos discípulos, responde: “Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel” (v. 24), aliás em coerência com o que indicou aos discípulos em missão, de que não fossem “pelos caminhos dos gentios”, mas que apenas se dirigissem às ovelhas perdidas de Israel” (cf Mt 10,6). Era uma questão pedagógica: começar pelos mais próximos. Aliás, a cultura britânica acolhe o aforismo “Charity begins at home”. Por fim, ante o dramático último apelo da mulher “Socorre-me, Senhor”, responde: “Não é justo que se tome o pão dos filhos para o lançar aos cães” (v. 26). Jesus assume aqui e agora a mentalidade israelita de quem se julga privilegiado por Deus e com o direito de reclamar para si o exclusivo da Graça. Todavia, a atitude rude e insensível do galileu, sempre preocupado em traduzir em gestos concretos o amor e a misericórdia de Deus pelos homens, parece estranha e mesmo absurda.
Como se deixou entrever, faz sentido esta atitude de Jesus (em cuja boca tais palavras não têm a conotação pejorativa dos judeus, mas a do contraste entre o pensar israelita e o fenício), se a encararmos como uma estratégia pedagógica, destinada a mostrar o sem sentido dos preconceitos judaicos contra os pagãos e a espevitar a fé da humilde suplicante. Claro, Jesus não partilha da discriminação racial e xenófoba do judaísmo, mas deseja pôr à prova a humildade e a fé da mulher. E liderou o acontecimento de forma a demonstrar o ridículo das atitudes discriminatórias em relação aos pagãos propostas pela catequese oficial judaica. Endurecendo progressivamente a sua atitude face ao apelo da cananeia, dá-lhe a possibilidade de demonstrar a firmeza e a convicção da sua fé e prova aos judeus que os pagãos são dignos – talvez mais dignos do que esses santinhos do Povo de Deus – de se sentar à mesa do Reino. E a mulher, humilde, nem sequer reivindica equiparar-se a esse Povo eleito, bastando-lhe ficar apenas com as migalhas que eventualmente caiam da mesa (v. 27). Mas pede insistentemente a permissão do acesso à salvação que Jesus traz, em contraste com a postura dos fariseus e doutores que, encalacrados na autossuficiência e nos preconceitos, rejeitam ostensivamente a salvação que Jesus não cessa de lhes oferecer.
E, ante os discípulos, declarou-se vencido pela fé da cananeia, declarando, “Grande é a tua fé! Faça-se como desejas.”, tal como o fizera em relação à fé do centurião (cf Mt 8,10).
Jesus elogiou a fé desta mulher em contraste com a falta de fé de tantos em Israel, incluindo os nazarenos e mesmo os seus familiares, que não criam nele, pelo que não que pôde ali fazer milagres (vd Mt 13,58). E naquele instante fez-se o milagre. Foi um milagre à distância. A mulher voltou a casa cheia de fé na Palavra de Jesus; e, ao chegar, encontrou-a plenamente curada. Este milagre, apesar da aparente dureza inicial, é repleto de ternura: fala do coração de Cristo, dos planos do Pai, das suas exceções, da confiança duma mulher pagã. Em termos apologéticos, é um milagre à distância sem autossugestões e de cura instantânea; na ordem do plano de Deus, evidencia o privilégio que os judeus tiveram, mas acaba por, de igual modo, ostentar a vocação dos pagãos à salvação única de todos pela fé.
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No cume desta caminhada de afirmação da bondade de Deus e do merecimento dos pagãos que a catequese oficial de Israel desprezava, Jesus conclui: “Grande é a tua fé. Faça-se como desejas”. A exclamação de Jesus é a anuência ao facto de, na verdade, a mulher estar disposta a acolhê-Lo como o enviado do Pai e a aceitar o pão do Reino, o pão com que Deus mata a fome de vida de todos os filhos, a aceder à salvação destinada a todos os que têm o coração aberto ao dom de Deus.
Provavelmente, Mateus responde, com esta catequese, a uma situação concreta da comunidade. De facto, no fim do século I (o Evangelho de Mateus aparece na década de 80), alguns judeo-cristãos ainda tinham dificuldade em aceitar a entrada dos pagãos na Igreja. Mateus recorda que para o decisivo não é a raça, a história, a eleição, mas a adesão firme e convicta à proposta de salvação que, em Jesus, Deus faz aos homens. O texto mostra que esta proposta é para todos, sendo a comunidade de Jesus uma verdadeira comunidade universal. E o decisivo no acesso à salvação é a fé – pessoal e comunitária – com a capacidade de aderir a Jesus e à sua proposta de vida.
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Este belo texto bíblico proporciona-nos uma grande e dupla lição de vida: a da confiança nos benefícios da salvação através da fé viva e da postura humilde e persistente; e a da partilha da mesa do Reino por todos, desde que aceitem a proposta de Jesus e queiram contar com Ele e com a comunidade dos discípulos para a ultrapassagem das dificuldades.
Quando um problema nos bate à porta, seja qual for a sua origem, ficamos ansiosos para que o mesmo seja resolvido. E, às vezes, por estarmos com um problema, não conseguimos escutar a voz de Deus e parece que Ele nos abandonou, ficando muito distante de nós. Mas Deus permite os problemas para que venhamos a crescer, nos aprimoremos como pessoas e aprendamos as lições que nos podem dar os desafios da vida. Através das situações adversas, aprendemos a confiar em Deus, a buscar a Deus e a entregarmo-nos a Ele por completo e, por ele, ao próximo.
Assim, nunca podemos ter vergonha de expor os nossos problemas e, principalmente, de insistentemente clamar por socorro e ajuda, quando as coisas fogem ao nosso controlo. Muitas vezes temos vergonha de expor aquilo que nos aflige e guardamos dentro do coração, por meses e anos, uma luta que deveríamos entregar para Deus, expondo-nos perante Ele, clamando por socorro. Ficamos preocupados com o que os outros possam dizer ou pensar. A resolução do problema tem de pesar mais que a vergonha
Seremos provados. Mas é a hora de nos voltarmos para Deus, pois os momentos de prova são passageiros. Não podemos maximizar os problemas, que aos nossos olhas parecem muito maiores do que realmente são. Na verdade, “Perto está o SENHOR dos que têm o coração quebrantado e salva os contritos de espírito” (Sl 34/33,18).
O problema, a luta e a tribulação ou aflição, quando encarados como provação, como prova a ser transpassada, vencida, resulta em vitória e em produção e aumento da fé. Ora, “nós vivemos pela fé, e não pela visão” (2Cor 5,7), “porque no evangelho é revelada a justiça de Deus, uma justiça que do princípio ao fim vem pela fé, como está escrito: O justo viverá pela fé” (Rm 1,17). E “a fé é a certeza do que esperamos e a prova das coisas que não vemos” (Heb11,1).
Em suma, quando nos encontramos com um problema, em vez de desesperar e achar que não há saída ou solução, devemos voltar intensamente para Deus e olhar para o problema como uma provação a ser passada para gerar uma lição, uma vitória e uma grande aprendizagem. Com isso, poderemos tornar-nos um canal de bênção para as outras pessoas, a quem podemos, através das nossas experiências, transmitir consolo e auxílio, sobretudo se elas se encontram nas mesmas condições ou em condições até muito mais adversas que aquelas em que um dia nos teremos encontrado. Precisamos de saber suportar as aflições na certeza de que as mesmas produzirão fé, e assim agradaremos a Deus e receberemos a vitória. Com efeito Pedro interpela e conforta:

“Pois que vantagem há em suportar açoites recebidos por terdes cometido o mal? Mas se vós suportais o sofrimento por terdes feito o bem, isso é louvável diante de Deus.” (1Pe 2,20).
2017.08.20 – Louro de Carvalho