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domingo, 29 de setembro de 2019

Contundente censura à sociedade de consumo, opção pelos pobres


A liturgia do 26.º domingo do Tempo Comum no Ano C propõe-nos a reflexão sobre a nossa relação com os bens deste mundo, incitando a vê-los, não como nossa pertença em exclusivo, mas como dons que Deus colocou nas nossas mãos para os administrarmos e partilharmos, com gratuitidade e amor. Com efeito, os dons não são nossos, mas de Deus e de todos os irmãos.
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Na 1.ª leitura (Am 6,1a.4-7), Amós denuncia violentamente a classe dirigente ociosa, que vive no luxo à custa da exploração dos pobres, não se preocupando minimamente com o sofrimento e a miséria dos humildes. O profeta oriundo de Técua, que era pastor e plantador de sicómoros, anuncia que Deus não pactua com a situação, pois este sistema de egoísmo e injustiça não tem nada a ver com o projeto que Deus sonhou para os homens e para o mundo.
Estamos em meados do séc. VIII a.C. (cerca de 762 a.C.), no reino do Norte (Israel). As conquistas de Jeroboão II criaram bem-estar, riqueza, prosperidade; porém, esta situação de desafogo não beneficia toda a nação, mas apenas um grupo privilegiado (o dos nobres, cortesãos, militares, grandes latifundiários e comerciantes sem escrúpulos). Nasceu e cresceu uma classe dirigente poderosa, cada vez mais rica, a viver instalada no luxo, a explorar os pobres e que, apoiada por juízes corruptos, comete ilegalidades e prepotências. À margem, está o numeroso grupo dos pobres, vítimas inocentes e silenciosas dum sistema que gera injustiça, miséria, sofrimento, opressão. Neste contexto, o “profeta da justiça social” faz ouvir a sua denúncia profética do luxo e da luxúria das classes dominantes face a um povo abalado pela catástrofe da injustiça social e da invasão assíria. Por isso, esses ricaços sairão para o exílio na frente dos deportados. E o Profeta evoca ironicamente a gloriosa história antiga: os ricos, porque têm uma cítara para tocar, acham que são cantores como David. E lembram-se de que a Samaria é a casa de José, mas esquecem-se de que José distribuía alimento aos de sua casa.
O texto assumido para a 1.ª leitura pertence ao género literário dos “ais” (v. 1). Começa com a interjeição “hwy”, habitualmente usada em lamentações fúnebres. Corresponde ao grito das carpideiras a acompanhar o cortejo fúnebre. É o terceiro “ai” de Amós; os outros dois aparecem em Am 5,7 (a propósito da justiça e dos tribunais) e em Am 5,18 (a propósito do culto). Os profetas utilizam normalmente esta palavra como introdução a um oráculo que anuncia o castigo: indica que certas pessoas ou grupos se encontram às portas da morte por causa dos seus pecados.
Temos, neste caso, a classe dirigente, rica e indolente, que vive comodamente nos palácios da capital, que esbanja em luxos, que vive numa perpétua festa. São parasitas que se deitam “em leitos de marfim”, que comem alimentos selecionados, que bebem vinhos raros em excesso, que usam perfumes importados, que se divertem a ouvir música e a compor canções. O mais grave (embora Amós não o expresse claramente aqui) é que todo este luxo e esbanjamento resultam da exploração dos mais pobres e das rapinas e prepotências cometidas contra os fracos. De resto, esta classe rica e indolente vive egoisticamente mergulhada no seu mundo cómodo e não se preocupa minimamente com a miséria e o sofrimento que aflige os seus irmãos. Os pobres trabalham duramente, numa existência cheia de dores, trabalhos e misérias, para sustentarem a indolência e o luxo da classe dirigente.
É evidente que Deus não está disposto a pactuar com isto. A classe dominante da Samaria está a infringir gravemente os mandamentos da “Aliança” e Deus não aceita ser cúmplice dos que mantêm um elevado nível de vida à custa do sangue e das lágrimas dos pobres. Por isso, o castigo chegará em forma de exílio numa terra estrangeira. As elites têm que ir ao cativeiro para aprenderem a justiça e o direito. O profeta refere-se à queda da Samaria nas mãos dos assírios de Salamanasar V, em 721 a.C., e à partida da classe dirigente para o cativeiro na Assíria.
O trecho de Amós, uma contundente censura de Amós à “sociedade de consumo” de Jerusalém e da Samaria aplica-se como uma luva ao nosso tempo. Até parece que o filme da história se repete na sociedade atual tão consumista, tão voltada para o luxo desnecessário e para o prazer desenfreado, insensível aos muitos problemas provocados pela pobreza e exclusão. Campeiam os mesmos vícios que Amós denuncia nas classes ricas e ociosas e em quantos se deixam arrastar pelo desejo de ter, comprando coisas supérfluas e impondo sacrifícios à família para pagar as suas manias de grandeza, gastando de forma descontrolada para pagar os vícios (pequenos ou grandes), sem pensarem nas necessidades dos que dependem de si. Até os religiosos e religiosas com voto de pobreza gastam, às vezes, de forma supérflua, esquecendo que vivem das ofertas generosas de pessoas que têm menos do que eles. Pede-se, então, parcimónia no viver, no comer, no vestir e no beber e o não esquecimento dos pobres através de ação em concreto.
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A insensibilidade ao sofrimento das pessoas mais humildes, excluídas e pobres, que estão na margem da sociedade, é também o tema da parábola do rico avarento e epulão e de Lázaro que lemos no Evangelho desta dominga (Lc 16,19-31). Continua o Evangelho a reflexão sobre o uso das riquezas que são dons de Deus e que, assim, devem ser postas ao serviço de todos. Jesus pede que tenhamos presente a dialética entre o eterno e o temporal. Aos que põem a finalidade da sua vida nos bens temporais não é fácil convencerem-se da sublimidade dos bens eternos. Assim já nos ensinou a Bem-Aventurada Virgem Maria no Magnificat (cântico da exultação da alma no Senhor, da gratidão laudante e da misericórdia): “Depôs do trono os poderosos e elevou os humildes; encheu de bens os famintos e mandou embora os ricos de mãos vazias” (cf Lc 1,52-53).
Na parábola do rico e de Lázaro, Lucas faz catequese sobre a posse dos bens. Na perspetiva lucana, a riqueza é um pecado, pois supõe a apropriação, em benefício próprio, de dons que Deus destina a todos os homens. Por isso, o rico é condenado e o pobre Lázaro recompensado.
Ora, todos somos convidados a refletir sobre a misericórdia, especialmente, na dialética do rico e do pobre, do eterno e do transitório e, sobretudo, da misericórdia e da justiça, que devem andar de mãos dadas e unidas.
Em termos de texto evangélico, a parábola é exclusiva do Evangelho de Lucas, mas é uma narrativa comum a outras literaturas e com o mesmo escopo: a moderação no uso das riquezas e a atenção aos pobres. Só que Jesus dá-lhe uma modelação escatológica própria. Assim, resulta que o trecho mais original da perícopa é a parte que fala dos irmãos do rico, isto é, aquelas pessoas que vivem neste mundo à semelhança do rico da parábola. Original é também o nome dado ao pobre. É a única parábola do Evangelho em que o protagonista tem um nome próprio: Lázaro – o que é simbólico, pois “Lázaro” significa “Deus ajuda”. 
Por via de regra o pobre é anónimo ou pouco nos interessa como se chama. Mas Jesus dá-lhe um nome, valoriza-o. O rico é quem fica sem nome. Como os ricos são conhecidos pelo nome, os leitores da parábola deram-lhe um nome: chamaram-no Epulão, que significa “comilão”. Os irmãos do Epulão, o rico deste mundo transitório, que também não têm nomes, não ouviram Moisés e os profetas. Por isso, em nada ouviriam quem viesse da visão beatífica, porque já não ouviram aos profetas. Moisés ensinou como seguir uma vida santa: tinha uma série de obrigações para com os pobres, sobretudo os órfãos e viúvas e alguns profetas haviam sido muito explícitos na defesa dos pobres e dos excluídos.
Moisés e os profetas da antiga Lei ensinaram com clareza. Muitos não os escutaram. Mas um morto ressuscitado não seria um professor melhor. Jesus ressuscitou dos mortos e não sabemos se é mais escutado que Moisés e os antigos profetas. De facto, continuam as riquezas do mundo, que pertencem a todos, acumuladas nas mãos de pouquíssimos. Continuam os nossos olhos a contemplar versões gigantescas da parábola do Epulão e de Lázaro.
Assim, a parábola projeta-nos para a vida na presença de Deus, nas alegrias eternas. Na vida presente somos livres de viver como queremos: no altruísmo ou no egoísmo, na virtude ou no pecado. A morte não apaga tudo, como gostariam alguns que assim acontecesse. A morte revela-nos o sentido da vida. É a morte, que o Evangelho chama de “fim dos tempos”, que fixa o destino futuro da criatura humana, destino eterno que depende de como vivemos o pequeno espaço de tempo na terra. E Deus julga-nos, após a morte, pelas escolhas que fizemos na vida presente. Quem é egoísta ou deixa de lado os pobres terá um julgamento à altura dos seus atos. A liberdade é dos maiores dons que Deus nos concede. Mas ela tem margens que a limitam: os preceitos divinos, que nos foram ensinados pelos profetas, pelo Evangelho. A vida presente, portanto, é decisiva. É nela que jogamos o nosso destino, é nela que escolhemos a eternidade.
Na perspetiva teológica de Lucas, a riqueza – legítima ou ilegítima – é sempre culpada. Os bens não pertencem a ninguém em particular, nem sequer àqueles que trabalharam duramente para se apossarem de uma grossa fatia dos bens que Deus pôs no mundo. São dons de Deus, postos à disposição de todos os seus filhos, para serem partilhados e para assegurarem uma vida digna a todos. Quem se apodera – ainda que legitimamente – desses bens em benefício próprio, sem os partilhar, defrauda o projeto de Deus. Quem usa os bens para ter uma vida luxuosa e sem cuidados, esquecendo-se das necessidades dos outros homens, defrauda os seus irmãos que vivem na miséria. Nesta história, Jesus ensina que não somos donos dos bens que Deus pôs nas nossas mãos, ainda que os tenhamos adquirido de forma legítima: somos administradores, encarregados de partilhar com os irmãos o que pertence a todos. Esquecer isto é viver de forma egoísta e, por isso, merece o destino os “tormentos”.
Por via de regra, os ricos são infelizes, porque se rodeiam de bens como se de uma fortaleza se tratasse. São incomunicáveis. Vivem a defender-se a si e às “suas” riquezas. Os pobres não têm nada a perder. Por isso, as mãos mais pobres são as que mais se abrem para tudo dar.
Neste mundo de competição, a riqueza transforma as pessoas em concorrentes. A riqueza não é vista como gestão do que deve servir para todos, mas como conquista e expressão de status. Tal atitude marca a riqueza financeira, a riqueza cultural e a riqueza afetiva.
A aventura do amor, inaugurada por Cristo e prosseguida depois dele, convidando o homem a consentir ativamente na lei da liberdade, causou, de facto, mudança progressiva nas relações dos homens.  O Evangelho não nos ensina nada sobre revolução. Tentar construir uma teologia da revolução a partir do Evangelho é iludir-se e não captar o essencial.
Os cristãos, conquistados pela aventura do amor e só na medida que aceitam vivê-la como Cristo e em seu seguimento, estarão atentos em fazer com que ela não degenere em novas opressões e em novo legalismo. Deus faz opção pelos pobres. Não elege a pobreza pela pobreza, mas a pobreza pela grandeza de generosidade, perdão e amor. Deus, enfim, não exige que os ricos se desfaçam dos bens, mas que sejam generosos e que os seus bens aproveitem aos mais necessitados através da partilha voluntária, ditada pela boa consciência.
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A 2.ª leitura (1 Tim 6,11-16), apesar de não apresentar uma relação direta com o tema, concorre para ele, alicerçando no lado espiritual. Traça o perfil do “homem de Deus”, que é alguém que ama os irmãos, que é paciente, que é brando, que é justo e que transmite fielmente a proposta de Jesus. Poderíamos, também, acrescentar que é alguém que não vive para si, mas que vive para partilhar tudo o que é e que tem com os irmãos.
Paulo fala do testemunho de Cristo neste mundo, que não é pacífico. É luta: o bom combate que devemos travar até ao fim para vivermos para sempre com Aquele que possui o fim da História.
Este trecho paulino apresenta as virtudes dos líderes da comunidade. Os ministros da Igreja devem cuidar do tema da avareza, que chega a abalar a fé. Por isso, todos os que servem o Evangelho devem cultivar as virtudes, procurando de um modo autêntico serem fiéis à profissão de fé que manifestaram e que lhes foi confiada por Jesus Cristo até à consumação dos tempos. Tudo isso, porque a Igreja está no tempo do seu crescimento e deve, ontem, hoje e sempre, conservar o que lhe é confiado. Paulo opõe ao ideal de vida dos falsos cristãos (cf 1Tm 6,3-10) a elevação moral dos verdadeiros discípulos de Cristo (cf 1Tm 6,11-16), que Timóteo, como bispo, deve tornar exemplar em sua própria vida.
No contexto da 1.ª carta de Paulo a Timóteo a comunidade sofre a influência de “falsos mestres”, que difundem doutrinas estranhas. Os “falsos mestres” são orgulhosos, ignorantes, discutem questões sem importância, fomentam a inveja, a discórdia, os insultos, as suspeitas injustas, as invejas e ciúmes e estão preocupados com as questões do lucro (cf 1Tm 6,4-6). Neste “ambiente” é importante sublinhar as caraterísticas do verdadeiro discípulo, através de quem a verdadeira fé é transmitida.
O “homo Dei” (homem de Deus) deve cultivar a justiça, a piedade, a fé, o amor, a perseverança, a doçura. Tem de ser paciente e manso, diante das dificuldades que o serviço apostólico levanta. Deve guardar o mandamento do Senhor – isto é, a verdade da fé transmitida pela tradição apostólica. No respeitante ao seu perfil, tudo se resume no amor para com os irmãos (é este amor que nos eleva para o amor de Deus), no entusiasmo pelo ministério e na capacidade de transmitir a verdadeira doutrina, herdada dos apóstolos. E o texto termina com um hino litúrgico que apresenta Deus como o Senhor dos senhores, o único soberano, O que possui a imortalidade, a glória e o poder universal. É uma solene doxologia que provém do repertório das orações usadas nas sinagogas judaicas do mundo grego e que apresenta Deus em contraste com os falsos deuses e com os títulos humanos atribuídos a reis e imperadores.
O “homo Dei”  vive com entusiasmo a fé, ama os irmãos, trata a todos com doçura, paciência, e mansidão e dá testemunho da verdadeira doutrina de Jesus, sem se deixar seduzir e desviar pelas modas ou pelos interesses próprios. A proposta feita a Timóteo deve, sobretudo, caraterizar a vida dos que têm responsabilidades na animação das comunidades cristãs. Os animadores das nossas comunidades devem pautar a sua vida e o seu ministério pelo amor, mansidão, paciência e capacidade de doar a vida e de servir os irmãos.
Quem ama não suporta a sorte de quem é vítima da fome, da miséria, da doença e da guerra. E, enquanto clama junto dos poderosos sobre a condição de quem sofre, compromete-se na missão.
2019.09.29 – Louro de Carvalho

domingo, 30 de setembro de 2018

Entre a desconfiança e a prosápia do protagonismo


A propósito do caso de Tancos, instalou-se a guerra entre dois corpos policiais e quem sai a perder é a parte menos apoiada pelo poder político, que vem navegando na onda que a opinião pública, formada (discreta ou despudoradamente) pelos interesses instalados e a instalar, tem criado nos últimos decénios. O Chefe do Governo recusa falar da extinção da PJM a quente!
Naturalmente muitas instituições se criaram ou, pelo menos, se desenvolveram sob o signo da desconfiança. Assim, porque se desconfia de que o território de um país possa vir a ser objeto de invasão externa, palco de calamidade pública e, mais recentemente, alvo de terrorismo organizado, organiza-se um corpo multifacetado de forças armadas (FA) para assegurar a defesa da República na linha do aforismo romano “Si vis pacem para bellum” (Se queres a paz, prepara a guerra), pois, segundo a lógica do Império, “Lex suprema salus Reipublicae” (A lei suprema é a salvação da Pátria). Porque muitos atentam ilícita e/ou criminosamente contra a segurança de pessoas e bens e contra a segurança pública, não sabem conviver em sociedade ou infringem as diversas regras sociais, económicas, financeiras e políticas, temos leis, códigos (penal, civil, de estrada, comercial, das sociedades comerciais, do procedimento administrativo, do trabalho, etc.) e regulamentos, bem como escolas, polícias, inspeções, tribunais, hospitais, autarquias e, no topo, o órgão legislativo e o órgão executivo. Porque falham os promotores da legalidade, da boa administração, da polícia, do profissionalismo e da sã convivência, questionamo-nos sobre quem fiscaliza os fiscais e, pela atitude desconfiança e de delação (por vezes anónima ou para salvar a pele), policiamo-nos uns aos outros, até porque não queremos ser acusados de encobrimento ou ver o nosso emprego em perigo. E, porque muitos atentam capciosa e encobertamente contra a defesa e segurança, somos servidos por diversos serviços de informação, discutindo-se as competências de cada um e quem os deve coordenar, o mesmo sucedendo com polícias e com detentores do poder político. Além disso e para isto, a desconfiança gerou saudavelmente a divisão do poder político – legislativo, executivo e judicial – por órgãos diferentes no regime de separação e interdependência segundo o mecanismo de contrapesos e de escrutínio. E almejámos a especialização e, porque esta não responde, vem a multidisciplinaridade.       
Todos querem mostrar a prosápia de que são competentes e mesmo os mais competentes em relação aos demais, pelo que, a cada passo, se discute o protagonismo sobre este ou aquele feito e se autoafirma a cortesia e o sentido de estado, que outros não têm.           
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No caso do assalto aos paióis de Tancos, já disse o que entendi. Penso que, ante as posições oscilantes do Ministro (incidente muito grave e, na esteira da afirmação do então CEMGFA de material já obsoleto, não perigo para a segurança nacional…), Primeiro-Ministro de férias e Presidente da República a puxar extraordinariamente pelas estrelas de comandante supremo das forças armadas, os chefes militares ajoelharam demasiado e, sobretudo, o Exército, cujo Chefe do Estado-Maior (CEME) demitiu e readmitiu os chefes das unidades militares responsáveis pela vigilância dos paióis, viu a demissão de dois generais (o responsável pelo pessoal e o comandante das forças terrestres) e transferiu sem explicação os materiais de Tancos para Santa Margarida, dispensando o Governo de investir nas instalações de Tancos. Em suma, o poder político tutelar não soube estar politicamente face ao caso exigindo apuramento de responsabilidades e o poder castrense, sem explicações concludentes, apressou-se a tranquilizar a nação com um agachamento indevido, sem assumir a responsabilidade operacional, mas desvalorizando o facto que significara um murro no estômago do Exército. Ora, este agachamento indevido sem o conveniente apuramento dos factos e das responsabilidades num país normal seria motivo para a exoneração do CEME.
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Por sua vez, o Ministério Público (MP) coadjuvado pela Polícia Judiciária (PJ) não esteve bem. Como a falta de material de guerra, por roubo ou furto, é crime essencialmente militar, devia ter havido o bom senso de, sem a PJ perder estatutariamente a direção da investigação criminal, se entregar a investigação deste facto, nem que fosse por delegação de competências, à PJM (Polícia Judiciária Militar) por supostamente esta conhecer melhor a especificidade do meio castrense. Ao invés, a PJ fez finca-pé nas suas prerrogativas e, talvez distraída a fiscalizar elementos da PJM ou ocupada noutras investigações complexas (os escassos meios humanos e logísticos não dão para tudo), não levou por si a investigação a bom termo, não conseguindo descobrir a autoria do assalto, a ponto de, um ano depois do assalto, o Presidente da República vir a terreiro, numa crítica velada ao MP, a “reurgir” o apuramento de tudo, custe o que custar, doa a quem doer.    
Foi preciso o material furtado aparecer na Chamusca para a PJ vir a descobrir o autor do assalto e desferir, com a PGR ao leme, o ataque aos alegados encobridores do crime (GNR de Loulé e PJM) essencialmente militar em causa. Deteve 7 militares – 4 da PJM, incluindo o seu diretor e 3 da GNR, incluindo um sargento) – e o alegado suspeito do roubo (ou furto), ao todo 8 arguidos.
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Segundo o texto de Ana Henriques, no Público on line, de 28 de setembro, e o de Graça Henriques e Valentina Marcelino, no DN, de 29, o coronel que dirige a PJM, Luís Vieira, confessou ao juiz de instrução criminal do Campus da Justiça de Lisboa, João Bártolo, que o aparecimento na Chamusca das armas e explosivos roubados em Tancos em junho de 2017 fora uma encenação motivada pelo interesse nacional, estando em perigo a segurança do país. Assim, os militares terão feito um acordo de cavalheiros com um ex-fuzileiro de 36 anos (ou 32, segundo alguns), o ladrão das armas, para que devolvesse o material sem sofrer consequências. Com efeito, urgia ter as armas (e respetivos adereços) de volta antes que fossem vendidas. Mas o magistrado aplicou a Vieira, cujo advogado, Rui Baleizão, garantiu recorrer da medida de coação aplicada, bem como ao ex-fuzileiro, a medida de coação mais dura: a prisão preventiva. Já os restantes arguidos implicados no caso aguardarão julgamento em liberdade, mas suspensos de funções, proibidos de contactar entre si e impedidos de entrar em instalações militares.
Os militares queriam ser os primeiros a descobrir o paradeiro das armas e evitar que a PJ hasteasse a bandeira, como refere um memorando assinado pelo, até há poucos meses, porta-voz da Judiciária Militar, ainda não foi detido por se encontrar fora do país e encontrado nas buscas à residência de Vieira por inspetores da PJ, que também eram vigiados pela PJM – guerrilha entre uma instituição civil e uma congénere militar. E os investigadores equacionam até que ponto da cadeia hierárquica das FA e da GNR se estenderão as responsabilidades, apesar de o Comando Geral da Guarda já ter negado o seu envolvimento. Porém, os depoimentos de alguns dos suspeitos no primeiro interrogatório indiciam que vários deles receberam ordens de responsáveis hierárquicos que não foram, pelo menos por enquanto, constituídos arguidos.
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O furto está a ser investigado num inquérito autónomo, embora seja possível que as duas investigações venham a ser fundidas, pois versam sobre o mesmo assunto. Mais um megaprocesso, de todo não aconselhável. Mas eles lá sabem! Para as autoridades, o caso começou com a revelação dum informador a uma procuradora de ter sido sondado para ajudar a forçar a entrada em instalações militares, de forma discreta, na região onde de facto tudo viria a suceder. A informação, que identificava o ex-fuzileiro, foi passada às duas polícias, mas os militares não terão tomado providências e os civis tentaram, sem sucesso, que um juiz lhes autorizasse as escutas.
O material terá acabado por ser furtado por um traficante de droga e armas, do que se viria a arrepender por causa da repercussão do caso. Para negociar a devolução das armas e explosivos, terá contactado um soldado da GNR de Loulé, velho companheiro de armas, que tinha a chefiá-lo um sargento com conhecimentos na PJM do Porto. O plano passava por fazer uma chamada anónima para o piquete da PJM a revelar onde se encontravam as armas. Assim, a 18 de outubro de 2017: em colaboração com os guardas de Loulé, os inspetores militares alegadamente recuperaram tudo, à exceção de algumas munições que o traficante vendera. Os militares cumpriram a palavra e não o incomodaram.
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Foram fundamentais para a investigação da PJ os dados fornecidos pelas operadoras telefónicas e os registos de portagens, o que já levou à prisão preventiva do diretor da PJM.
As armas furtadas estavam escondidas na propriedade da avó do principal suspeito do crime, em Portela de Carregueiros, Tomar, a 35 km dos paióis de Tancos. E foi ali que, pelo caráter estranho da entrega do material, a investigação, realizada no âmbito da “Operação Hýbris” da PJ, localizou o suspeito em conjunto com os militares da PJM e os do NIC (Núcleo de Investigação Criminal) da GNR de Loulé, um dia antes de a descoberta das armas ser anunciada. A descoberta da legada encenação pela PJ resultou da triangulação das antenas de telemóveis, apesar de alguns terem o cuidado de os desligar em alguns momentos-chave.
O material furtado em 28 de junho de 2017 foi encontrado a 18 de outubro na Chamusca, ou melhor, foi ali entregue através duma operação “delineada de forma rocambolesca” pela PJM em coordenação com o suspeito autor do crime, que tinha uma viagem marcada para fora do país, tendo o coronel Vieira alinhado no plano alegadamente para que os militares ficassem com os louros da recuperação. A própria encenação da descoberta/entrega teve a participação das polícias, que não se limitaram a ir buscar o material onde o suspeito o deixaria.
Como refere a comunicação social, na noite anterior, dois elementos do NIC da GNR Loulé, terão ido numa carrinha Mercedes da PJM até à propriedade da avó de João Paulino (o suspeito). Com efeito, uma viatura da polícia de investigação militar, não levantando suspeitas, traria tranquilamente o material para o descampado onde viriam a ser encontrado.
A carrinha terá chegado à propriedade à hora jantar. E a PJ suspeita que um dos elementos era o sargento da GNR, pois a localização do seu telemóvel apontava para Carregueiros. Estaria acompanhado dum guarda, o amigo de infância do suspeito e que teria dado o mote inicial para o projeto. Este manteve o telefone desligado durante o tempo considerado necessário, mas ao acioná-lo, a localização apontou para a propriedade onde estariam guardadas as armas. Dali, a viatura terá levado as armas para o terreno na Carregueira e ter-se-á depois encenado a descoberta e mesmo a chamada telefónica que espoletou a ação. Esta terá sido feita por um dos militares que estaria em piquete na margem sul para um oficial na sede da PJM na noite da descoberta. Depois, foi dado o alarme e a equipa no terreno anunciou a descoberta antes de avisar a PJ, a responsável pela investigação.
O plano para a devolução do material terá começado a ser delineado em fins de agosto. O suspeito ter-se-á encontrado com o amigo no NIC da GNR de Loulé. O cruzamento dos dados dos telemóveis permite concluir que se encontraram em Albufeira. O suspeito propôs devolver o produto do roubo se nada lhe acontecesse, até porque não estava a conseguir vendê-lo. Mais tarde, quando se iniciou o processo, a PJ começou a investigar as localizações dos telemóveis (dado que ainda não havia escutas) e percebeu que havia muitas similitudes e localizações estranhas dos vários militares da PJM, nomeadamente no Algarve, com os da GNR. Foi em parte por isto que perceberam que a descoberta poderia não ter sido tão simples, sendo possível ter havido encenação para encontrar as armas com o encobrimento do próprio Diretor da PJM, que agora, terá confessado a encenação a pretexto do interesse nacional. Ora, segundo o MP, em causa estão “factos suscetíveis de integrarem crimes de associação criminosa, denegação de justiça, prevaricação, falsificação de documentos, tráfico de influência, favorecimento pessoal praticado por funcionário, abuso de poder, recetação, detenção de arma proibida e tráfico de armas”.
E a atual PGR sairá de cena a 12 de outubro com um poderoso trunfo na sua folha de serviço!
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É verdade que tem razão o Diretor da PJM quando afirma a primazia e a urgência da devolução do material de guerra em nome da segurança nacional. Porém, sendo discutível o encobrimento do suspeito – porque o encobrimento implica cumplicidade – o juízo sobre a malícia da encenação tem de ser muito cauteloso em nome da eficácia. Não vá acontecer que uma aplicação cega da lei venha a constituir um precedente para denegação de restituições e denúncia de crimes, verificando-se o princípio aforístico do “summum ius summa iniuria”. Até a PJ tem, pelos vistos, dispensado de outros informadores suspeitos de crime apresentação à justiça. Ou pode-se colaborar só com a PJ?
Considerando que não se fala das armas roubadas de instalações da PSP, é lícito pôr a hipótese de estarmos num contexto de guerra entre polícias e mesmo entre uma instituição civil e a instituição militar num dos seus departamentos mais diminutos (a PJM tem menos de meia centena de efetivos). Fala-se na extinção da PJM. E a instituição castrense perderia mais uma peça como perdeu o serviço militar obrigatório, os tribunais militares em tempo de paz, o regimento de comandos, que readquiriu, mas que viu em perigo, perdeu muito investimento e perde cada vez mais efetivos.
Ficando vazio o conceito de crime essencialmente militar e sem efetivos militares, lá vai despedida a defesa da República cuja componente militar é essencial para garantir a integralidade do território, a defesa das populações contra o terrorismo ou a calamidade pública e as operações de paz.
Aliás, se uma PJ fosse a investigar, sob a direção do MP como o temos hoje, o que se passa em contexto de guerra, muito dificilmente não teríamos um incontável número de oficiais e sargentos nas prisões. Por isso, se pede atenção aos contextos, não?
2018.09.29 – Louro de Carvalho          

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

Refugiado curdo ganha Medalha Fields, que desapareceu em plena sessão


A Medalha Fields, o mais prestigiado prémio do mundo da matemática, premeia quatro jovens matemáticos em 2018.
Oficialmente conhecido como “Medalha Internacional de Descobrimentos Proeminentes em Matemática e também pela designação de “O Nobel da Matemática”, em razão do seu prestígio, este galardão é atribuído, a cada quatro anos, a dois, três ou quatro jovens matemáticos com idade até aso 40 anos – a idade -imite que é regra do próprio prémio –, pela União Matemática Internacional no Congresso Internacional de Matemática (ICM).
Assim, o ICM-2018, realizado no Rio de Janeiro, Brasil, foi o palco da atribuição e entrega do prémio mais importante e de maior impacto na área da matemática a quatro jovens matemáticos até aos 40 anos, entre os quais se conta um refugiado curdo, bem como o mais jovem matemático de sempre a conquistar este galardão.
Os galardoados são, pois, Caucher Birkar, de 40 anos, refugiado curdo e hoje professor e investigador na universidade de Cambridge, no Reino Unido; o italiano Alessi Fegalli, de 34 anos, da Universidade tecnológica ETH de Zurique, na Suíça; o alemão Peter Sholze, de 30 anos, da Universidade de Bona, na Alemanha, e o mais jovem matemático a ganhar o galardão; e ainda o australiano Akshay, de 36 anos, professor e investigador na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos.
Além da medalha propriamente dita e do prestígio que ela automaticamente concede, os premiados ganham também 15 mil dólares canadianos (9.829 euros).
A Fields é uma medalha de ouro 14 quilates e tem 63,5 milímetros de diâmetro, avaliada em 5.500 dólares canadenses.
Caucher Birkar, que ganhou a medalha pelo seu trabalho na área das equações polinominais, nasceu em Marivan, no Irão, uma cidade muito martirizada durante os anos de 1980, na guerra Irão-Iraque. Birkar estudou matemática na Universidade de Teerão até ao ano 2000, quando rumou ao Reino Unido, onde solicitou o estatuto de refugiado, que lhe foi concedido um ano depois, em 2001. Durante o ano em que esteve à espera, foi colocado em Nottingham, mas não perdeu tempo e contactou, logo que possível, o matemático Ivan Fesenko, na universidade local, que rapidamente se apercebeu de que estava perante um talento invulgar. Fesenko, citado pelo The Guardian, contou:
Ele veio ter comigo, porque estava interessado nas áreas em que eu próprio trabalho”.
Birkar ganhou, entretanto, a cidadania britânica e acabou por fazer o doutoramento na Universidade de Nottingham, com Ivan Fesenko, estando atualmente na Universidade de Cambridge.
Após o anúncio, Birkar expressou seu desejo de que o prémio coloque “um sorriso no rosto de 40 milhões de pessoas”, em referência ao povo curdo. E afirmou:
O Curdistão era um lugar pouco provável para que uma criança desenvolvesse seu interesse pela matemática”.
E à revista Quanta declarou:
Passar de sequer imaginar conhecer estas pessoas [que ganharam a medalha] a eu mesmo ganhar uma (...), simplesmente não podia imaginar que isso fosse se tornar realidade”.
Outro dos medalhados do ano é o italiano Alessi Fegalli embora nada parecesse predestiná-lo às abstrações numéricas, pois, segundo o ICM, até ao secundário o seu interesse era o futebol.
Porém, agora a sua área de trabalho são as equações diferenciais parciais, conexas com o problema do transporte ótimo e suas aplicações nas equações diferenciais e na geometria métrica, ou seja, a procura das rotas mais eficientes para o transporte de um objeto entre dois locais diferentes. As equações podem dar “trabalho para os próximos 30 ou 40 anos. Mas há um problema que espero resolver em breve: viver na mesma cidade que minha mulher” – brincou o pesquisador.
Fegalli, de 34 anos, recebera, em 2016, uma bolsa milionária do European Research Center (ERC) para desenvolver o seu trabalho.
O português Carlos Manuel Félix Moedas, comissário europeu da Investigação, Ciência, e Inovação,  congratulou-se com este importante prémio e declarou, a este respeito:
Estou encantado por entre os premiados estar o matemático italiano Alessi Fegalli, que é apoiado pelo ERC (European Research Council).  Isto confirma que o ERC, que apoia ciência excelente de forma competitiva, atrai o talento científico e é um exemplo de sucesso do trabalho da UE para encorajar a investigação e a inovação de alta qualidade.”.
Peter Sholze, 30 anos, da Universidade de Bona é o mais novo de sempre a ganhar a prestigiada medalha Fields, pelo seu trabalho na área da aritmética e geometria algébrica. O jovem alemão, que entende haver sempre problemas para resolver, tem dado contributos decisivos para que estas duas áreas da matemática – a das formas e a dos números –, que geralmente são encaradas como dois mundos à parte, possam caminhar para uma unificação, tal como sucedeu politicamente com a Alemanha no tempo Helmut Josef Michael Kohl. Essa é, pelo menos, a esperança do jovem Sholze, que se tem dedicado a isso.
“Há um número infinito de problemas”, disse Scholze. “Quando conseguimos resolver um, dez novos surgem”.
Por fim, o australiano Akshay Venkatesh, que está a trabalhar nos Estados Unidos, na Universidade de Princeton, onde realiza suas pesquisas é o quarto galardoado deste ano. Venkatesh é especialista em teoria dos números, entre outras áreas, e do seu trabalho esperam-se possíveis novidades na distribuição dos números primos.
Nascido em Nova Déli, é um prodígio que começou a faculdade de matemática e física na Universidade da Austrália Ocidental quando tinha apenas 13 anos. Foi recompensado por suas contribuições à teoria dos números. A este respeito, declarou:
Muitas vezes, quando você faz matemática, fica preso. Mas você sente-se privilegiado por trabalhar com isso: você tem um sentimento de transcendência e sente que é parte de algo realmente significativo.”.
A medalha Fields, atribuída desde 1936 e que desde 1950, premeia, como se disse, entre dois a quatro matemáticos até aos 40 anos a cada quatro anos. Porém, até hoje só premiou uma mulher: a iraniana Maryam Mirzakhani, falecida o ano passado, que recebeu o prémio na edição anterior a esta, em 2014, no Congresso Internacional de Matemática, em Seul.
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Entretanto, a medalha entregue ao mencionado matemático iraniano foi roubada no Brasil. Na verdade, o galardão desapareceu pouco depois de ter sido entregue a Caucher Birkar, no Rio de Janeiro, na cerimónia que abriu o ICM-2018. O matemático, tendo acabado de receber a medalha no palco, colocou-a junto com o seu telemóvel e carteira dentro duma pasta, que foi roubada enquanto ele atendia pessoas que se aproximaram para conversar e tirar fotos.
A organização do ICM-2018 divulgou um comunicado a dizer que “lamenta o desaparecimento da pasta do matemático Caucher Birkar que continha a Medalha Fields recebida na cerimónia desta manhã”.
E o texto acrescenta:
As imagens registadas durante o evento estão sendo analisadas. Os organizadores colaboram com as autoridades policiais na investigação do caso.”.
O ICM acontece pela primeira vez no Brasil – e mesmo na América Latina – e reúne até ao dia 9 de agosto cerca de três mil pesquisadores e matemáticos de todo o mundo.
Não sei se é caso para dizer que os brasileiros são muito religiosos ou muitos desportistas, já que o roubo de medalhas pode significar apego a uma ou à outra área – religião e desporto!
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Em 2014, a Medalha Fields foi atribuída pela primeira vez a uma mulher. Com efeito, a iraniana Maryam Mirzhakani, da Universidade de Stanford, nos EUA, ficará na história da matemática por ter sido a primeira mulher distinguida com este prémio, criado em 1936, e desde então até 2014 atribuído a 56 pessoas.
Na verdade, a matemática iraniana, então com a idade de 37 anos, ficou entre os quatro galardoados com a Medalha Fields e foi premiada pelo seu importante contributo para o estudo da dinâmica e da geometria das superfícies de Riemann e dos espaços modulares.
Nascida em Teerão, em 1977, emigrou, depois de se licenciar, para os Estados Unidos, onde completou o mestrado e o doutoramento em Harvard. Aquando da atribuição do galardão, era professora em Stanford, na Califórnia.
A União Matemática Internacional distinguiu, naquele ano, também o brasileiro Artur Ávila, o austríaco Martin Hairer e o americano Manjul Bhargava.
Entretanto, morreu aos 40 anos, a 15 de julho de 2017, nos Estados Unidos, vítima de cancro.
O Congresso Internacional de Matemáticos, quando anunciou a sua distinção, escreveu:
Com um conhecimento profundo de uma gama diversificada de técnicas matemáticas e culturas díspares matemáticas, ela domina uma rara combinação de ambição técnica audaciosa e uma curiosidade profunda”.
Na ocasião, a cientista iraniana afirmou que era “uma grande honra” e que ficava “feliz”, pois a distinção recebida incentivaria “as jovens cientistas e matemáticas”.
Especialista em geometria de formas incomuns, descobriu novas fórmulas de calcular o volume de objetos com superfícies hiperbólicas, como uma sela de cavalo.
Dela escreveu Firouz Michael Naderi, cientista americano-iraniano, que fez parte dos quadros da agência espacial norte-americana NASA, na sua conta nas redes sociais Twitter e Instagram:
Uma luz apagou-se hoje. Partiu-se-me o coração... partiu muito cedo. […] Um génio? Sim, mas também uma filha, uma mãe e uma esposa.”.
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Enfim, por duas vezes consecutivas o ICM é palco de destaque para matemáticos iranianos, mas, pelos vistos não lá residentes!
2018.08.01 – Louro de Carvalho

domingo, 24 de junho de 2018

Retornou ao Vaticano a carta de Cristóvão Colombo


O termo do enigma internacional sobre a carta de Cristóvão Colombo
Segundo noticiou o Vatican News a 20 de junho, a Embaixadora dos Estados Unidos junto à Santa Sé, Callista Gingrich, restituiu à Biblioteca Apostólica Vaticana a carta do navegador e descobridor das Américas, substituída num momento não especificado por uma falsa.
Fica, assim, resolvido o enigma internacional sobre a carta de Cristóvão Colombo de 1493, roubada no Vaticano, já que se trata do terceiro exemplar roubado de prestigiadas bibliotecas e nelas substituído por documento similar falso, mas já restituídos aos seus legítimos donos.
No último dia 14, a predita diplomata, junto com representantes do Departamento de Segurança Nacional dos Estados Unidos e Investigações de Segurança Nacional, entregou a carta ao arquivista e bibliotecário Dom Jean-Louis Brugues e ao prefeito, Mons. Cesare Pasini.
A carta de Colombo é um relato sobre a descoberta da América, erroneamente considerada por ele como “as Índias”, escrita em 1493 ao rei Fernando e à rainha Isabel da Espanha, os reis católicos, como ficaram historicamente denominados.
O texto original espanhol perdeu-se, mas foi traduzido para latim e várias cópias dessa versão foram distribuídas em toda a Europa. A Biblioteca Apostólica Vaticana recebeu uma dessas edições, em 1921, como parte da “Coleção De Rossi” de livros e manuscritos raros.
O documento, de poucas páginas, apresenta uma notável descrição dos seres humanos, da fauna e da flora do Novo Mundo e como o navegador conseguiu alcançá-lo após 33 dias de navegação, em 12 de outubro de 1492.
Colombo escreveu a carta no caminho de volta, em 1493, a bordo de “Nina”. Desembarcou em Lisboa, a 4 de março, e fez com que o material duplicado chegasse à corte espanhola.
Como foi dito, daquele manuscrito em espanhol, nenhum traço foi preservado, daí o valor histórico e patrimonial das impressões em latim.
Primeiro, estes escritos foram mantidos em segredo, mas, depois, foram impressos levando a assinatura de Colombo, ainda em 1493, por Stephan Plannck e difundidos por vontade do próprio navegador a fim de proteger os seus interesses e permitir que todos se conscientizassem da existência de um novo continente.
Em síntese, o que se passou sobre a génese e divulgação do documento foi o seguinte. Após sua primeira viagem através do Atlântico, Colombo verteu em forma epistolar um breve relato sobre as “ilhas da Índia além do Ganges” com a intenção de anunciar as suas recentes descobertas e garantir apoio financeiro e político a uma outra viagem. A primeira edição da carta foi impressa em espanhol, em Barcelona, em abril de 1493. Um mês depois, em Roma, Stephan Plannck publicou uma tradução em latim. O preâmbulo de Plannck, dando crédito a Fernando de Aragão por apoiar a expedição, omitia qualquer referência à Rainha Isabel. Plannck, entretanto, adiantou-se a publicar uma edição corrigida que mencionava o papel de Isabel. Foi esta edição em latim que circulou amplamente e espalhou, por toda a Europa, a notícia das descobertas de Colombo.
Depois, a missiva começou a circular entre os colecionistas numa época em que a imprensa começou a fazer parte dos hábitos quotidianos dos europeus.
Em 2011, o Departamento de Investigações de Segurança Nacional estadunidense foi contactado por um especialista de livros e manuscritos que considerava falso o documento pertencente à coleção vaticana. E, depois de informarem o Vaticano sobre o possível roubo, os funcionários do departamento de segurança coordenaram a análise da carta feita por especialistas nesse setor, entre os quais se contam alguns da Universidade de Princeton.
Mesmo não conhecendo o período exato em que a carta foi roubada, os agentes americanos conseguiram encontrar o original, comprado por Robert Parsons de um comerciante de livros de Nova York, em 2004, sem saber que tinha sido tirado do Vaticano sem autorização. Por sua vez, Mary, a viúva de Parsons, aceitou depois renunciar e abandonar todos os direitos, o título e interesse pela carta.
Não foi este caso único, porquanto o Departamento de Segurança Nacional recuperou e restituiu três cartas de Colombo como parte das investigações sobre a venda ilícita de livros e manuscritos roubados. E, além da carta de Colombo pertencente ao Vaticano, confiscou e devolveu cartas pertencentes à Biblioteca Riccardiana de Florença e à Biblioteca Nacional da Catalunha, em Barcelona.
A “viagem” incomum da valiosa carta entre os dois continentes serve não só para denunciar o tráfico milionário de obras de arte e livros históricos, mas também constitui um exemplo de colaboração entre o Vaticano e os Estados Unidos, a Itália e os Estados Unidos, a Espanha e os Estados Unidos.
Desde 2005, o Governo dos EUA devolveu, por meio do Departamento de Segurança Doméstica, mais de 11 mil relíquias históricas a mais de 30 países, incluindo manuscritos, objetos de famílias reais e fósseis.
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O exemplar da Biblioteca Riccardiana de Florença
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Segundo referia o sapo 24, a 18 de maio de 2016, as autoridades italianas apresentaram naquele dia uma carta escrita por Cristóvão Colombo em 1493, roubada de uma biblioteca de Florença e vendida nos Estados Unidos, na qual o navegador anunciava a descoberta de um “Novo Mundo”, um documento excecional e de imenso valor histórico.
O documento fora recuperado após complexa operação coordenada pelos Carabinieri (polícia italiana) para a Tutela do Património Cultural, um órgão especializado que defende um imenso património histórico. A operação envolveu especialistas, historiadores, diplomatas e autoridades de vários países.
O documento fora vendido em 1992 num leilão nos EUA e adquirido por um fundo privado que o doou à Biblioteca do Congresso americano, que, por sua vez, o devolveu a Itália. A este respeito, Mariano Mossa, comandante dos carabinieri explicou em conferência de imprensa:
Em 1992, a carta original pertencente à Biblioteca Riccardiana de Florença, de valor estimado em cerca de um milhão de euros, foi vendida por uma casa de leilões a um particular que a doou ao Congresso dos Estados Unidos. Esta importante carta de Colombo relata a descoberta de um Novo Mundo e é dirigida aos reis de Espanha e impressa em 1493, em Roma. Foi roubada em época indeterminada da biblioteca Riccardiana de Florença, e agora regressa para fazer parte do nosso património.”.
O anúncio contou com a presença do Ministro da Cultura italiano, Dario Franceschini, e do embaixador dos Estados Unidos de então, John R. Phillips.
Franceschini disse que era a história dum roubo muito sofisticado. Foram feitos muitos estudos e verificações. E, durante anos, não se sabia que havia duas cópias do documento original. O documento regressou à Biblioteca Riccardiana de Florença após quatro anos de investigações na sequência duma denúncia apresentada pelo diretor da Biblioteca Nacional de Roma, de onde foram roubados diversos volumes de livros antigos que estavam a ser classificados.
Sobre a restituição o embaixador Phillips declarou tratar-se dum ato simbólico a selar “a amizade entre Itália e os Estados Unidos”.
A descoberta da América, tornada pública em 1493 por cartas, muitas das quais foram falsamente fabricadas, foi uma descoberta que mudou a história da humanidade e continua a suscitar enorme interesse. Segundo o diretor da biblioteca de Florença, Silvano Stacchetti, “nessa carta, Colombo anunciava aos reis da Espanha a descoberta do que ele acreditava serem as Índias Ocidentais, ilhas sobre o Ganges, e que na realidade eram a América”. Além disso, informava sobre a descoberta, resumia a viagem, os problemas com a bagagem e os povos encontrados”. O seu objetivo era “persuadir os reis a financiar novas expedições”.
A carta preservada em Florença com um grupo de 42 cartas originais foi substituída por uma falsificação, muito similar da original, que foi, desta vez, exibida ao público com a original. 
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O exemplar da Biblioteca Nacional da Catalunha em Barcelona
A 7 de junho de 201, a Folha informava, pela pena de Estelita Hass Carazzai, a partir de Washington, que retornara a Espanha “uma cópia manuscrita da Carta de Colombo sobre as descobertas na América” – mais de 500 anos depois, que incluíram “um roubo, duas vendas e sete anos de investigação”. Com efeito, a carta que data dos fins do século XV foi roubada, no início do ano 2000, da Biblioteca Nacional da Catalunha em Barcelona.
Foi a partir duma pista que lhe chegou sobre o roubo em 2011 que o Departamento de Segurança Doméstica dos Estados Unidos iniciou a investigação. Para o Governo norte-americano, a carta foi roubada da Biblioteca juntamente com várias dezenas de outros manuscritos que foram substituídos por falsificações.
Na verdade, agentes do Governo dos EUA contactaram a Biblioteca Nacional da Catalunha e examinaram o exemplar da carta na posse desta instituição e concluíram que não era o artefacto original, mas uma “cópia da cópia”. E descobriu-se que a carta fora vendida por duas vezes: em 2005, por dois livreiros italianos, e em 2011, por 900 mil euros.
O então proprietário daquele exemplar da carta aceitou cedê-lo para análise e, em março de 2014, os especialistas que procederam à sua análise verificaram que aquela era sem qualquer dúvida a original. Exames ulteriores permitiram concluir que foram utilizados agentes químicos para remover do manuscrito o carimbo da Biblioteca Nacional da Catalunha; e testes adicionais levaram à conclusão do uso posterior de um agente químico para clarear a tinta do carimbo e alterar as condições da fibra do papel.
A propósito do ato de restituição, Alysa D. Erics, vice-diretora interina da Divisão de Investigações do predito Departamento, declarou:
Tenho o prazer de ser capaz de retornar esta peça de valor inestimável aos seus donos de direito”.
Era o segundo exemplar da carta de Colombo devolvida pelo Governo dos EUA: em maio de 2016, uma outra cópia fora descoberta e entregue à Biblioteca Riccardiana de Florença.
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O texto da carta – escrita no porto de Lisboa (?)
Eis o texto da carta em tradução de Henry Alfred Bugalho (cf Lionel Cecil Jane, Selected Documents Illustrating the four Voyages of Columbus. 2 vols. London: The Hakluyt Society, 1930. Vol. I, 2-19]).

Senhor, porque sei que terá prazer na grande vitória que Nosso Senhor me concedeu em minha viagem, escrevo-lhe esta, pela qual saberá como em 33 dias passei das ilhas de Canária para as Índias, com a armada que os ilustríssimos rei e rainha nossos senhores me concederam, onde encontrei muitas ilhas povoadas com gente sem número; e de todas elas tomei posse por Sua Alteza com pregão e bandeira real estendida e não me contradisseram.
À primeira que encontrei, nomeei San Salvador (ilha Watling) em comemoração a Vossa Alta Majestade, ao qual maravilhosamente tudo isto se deve; os índios chamam-na de Guanahaní; à segunda pus o nome de ilha de Santa Maria de Conceição (Cayo Rum); à terceira de Fernandina (Isla Long); à quarta de Isabela (Isla Crooked); à quinta de ilha Juana (Cuba), e assim a cada uma um novo nome.
Quando cheguei à Juana, segui pela costa dela em direção ao poente, e a achei tão grande que pensei ser terra firme: a província de Catayo. E como não encontrei vilas e povoados na costa do mar, excetuando pequenas povoações, com gente com a qual não se podia falar, porque logo fugiam todos, andava eu adiante pelo dito caminho, pensando em não errar grandes cidades ou vilas; e, a cabo de muitas léguas, visto não haver novidades, e que a costa me levava a setentrião, contrário à minha vontade, porque o inverno já estava encarnado, e eu tinha o propósito de ir ao austro, e também o vento me deu adiante, decidi não aguardar mais e retornei até um porto assinalado, donde enviei dois homens por terra, para saber se havia rei ou grandes cidades. Caminharam por três jornadas e encontraram infindas povoações pequenas e gente sem número, mas não coisa de regimento; por isto voltaram.
Eu havia aprendido muito com outros índios, que já havia dominado, que esta terra era uma ilha, e assim segui a costa ao oriente cento e sete léguas até onde acabava. De onde vi outra ilha ao oriente, distante desta 18 léguas, à qual logo pus o nome de a Espanhola e fui para lá, e segui a parte setentrional, assim como de Juana ao oriente, 188 grandes léguas por linha reta. Juana e todas as outras são fertilíssimas em grande grau, e esta ao extremo. Nela, há muitos portos na costa para o mar, sem comparação, que eu saiba, a outros entre os cristãos, e rios fartos, bons e grandes, que são maravilhosos. Suas terras são altas, e nela há muitas serras e montanhas altíssimas, incomparáveis às da ilha de Tenerife; todas belíssimas, de feições, e todas acessíveis, e cheias de altas árvores de mil espécies que parecem chegar ao céu; e ouvi dizer que jamais lhes caem as folhas, segundo pude entender, pois as vi tão verdes e belas como são em maio na Espanha, e estavam floridas, com frutos maduros, ou em outros estágios; e, no mês de novembro, cantava o rouxinol e outros passarinhos de mil espécies por ali onde eu andava. Há palmeiras de seis ou oito tipos, que são admiráveis de ver, pela bela deformidade delas, assim como há outras árvores, frutos e ervas. Nela, há maravilhosos pinhais e vastíssimas campinas, e há mel, muitos tipos de aves e frutas as mais diversas. Nas terras, há muitas minas de metais e há gente em número estimável. A Espanhola é maravilhosa; há serras, montanhas, várzeas, campinas e terras belas e férteis para plantar e semear, para criar gados de todas as sortes, para edificação de vilas e povoados. Só se crê nos portos de mar daqui ao vê-los, e nos rios vários e grandes, e nas águas salubres, a maioria dos quais traz ouro. Há grandes diferenças nas árvores, frutos e ervas desta e as de Juana. Nesta, há muitas especiarias, e grandes minas de ouro e de outros metais.
As gentes desta ilha e de todas as outras que encontrei e das quais tive notícia, andam todas desnudas, homens e mulheres, assim como as mães os parem, ainda que algumas mulheres se cubram num único lugar com uma folha de erva, ou uma coberta de algodão feita para isto. Eles não têm ferro, nem aço, nem armas, nem palavra para isto, não porque não sejam gente de boa constituição e de bela estatura, mas porque são medrosos ao extremo. Não têm outras armas, excetuando armas de canas, quando estão com a semente, nas quais põem no fim um palito agudo; e não ousam usar delas; pois muitas vezes ocorreu de eu enviar à terra dois ou três homens a alguma vila, para travar diálogo e dar com um sem número deles; e, ao vê-los chegarem, estes fugiam de tal maneira que o pai não esperava o filho; e isto não porque alguém lhes tenha feito mal antes, pois, por onde estive e pude travar contacto, havia dado a eles tudo o que tinha, assim como tecidos e outras muitas coisas, sem receber deles coisa alguma; mas são medrosos assim sem remédio. Verdade é que, depois que se certificavam e perdiam o medo, eles eram tão sem malícia e eram tão liberais com o que têm, que não creríeis sem o ver. Das coisas que eles têm, pedindo-se-lhas, jamais dizem não; pelo contrário, convidam a pessoa consigo e demonstram tanto amor que dariam os próprios corações, e quer seja algo de valor, ou seja coisa de pouco preço, trocam logo por qualquer outra coisinha, de qualquer maneira, que eles se vão contentes. Eu defendi que não lhes dessem coisas tão reles, como pedaços de caldeirões furados ou pedaços de vidro quebrado ou alfinetes, pois, quando eles recebiam isto, para eles parecia ser a melhor joia do mundo. Ocorreu haver um marinheiro que recebeu, por uma ponta de cadarço, o equivalente ao peso de ouro de dois castelhanos e meio; e outros, de outras coisas que valiam muito menos, muito mais; já por moedas de prata davam tudo o que tinham, mesmo que fossem dois ou três castelhanos de ouro ou uma arroba ou duas de algodão. Até os pedaços de arcos quebrados dos barris eles aceitavam, e davam o que tinham como animais; assim isto me pareceu mal, e eu o defendi, e eu dava com alegria mil coisas boas, que eu levava, para que se afeiçoem, e que, além disto, se tornem cristãos e se inclinem ao amor e serviço de Suas Altezas e de toda a nação castelhana e procurem juntar e nos dar as coisas que têm em abundância e que nos são necessárias. E eles não conheciam nenhuma seita nem idolatria, excetuando que todos acreditam que o poder e o bem estão no céu, e tinham a firme crença que eu, com estes navios e pessoas, vinha do céu, e nesta suposição me recebiam em todos os cantos, depois de terem perdido o medo. E isto não ocorre porque sejam ignorantes, pelo contrário, são homens de muito subtil engenho e navegam todos aqueles mares, e é de se maravilhar a boa conta que eles têm de tudo; excetuando que nunca viram gente vestida, nem navios semelhantes.
E logo que cheguei às Índias, na primeira ilha que encontrei, tomei por força alguns deles, para que aprendessem e me dessem notícia do que havia naquelas partes, assim foi que logo nos entenderam, e nós a eles, fosse por língua ou sinais; e isto foi de muito proveito. Hoje em dia, trago-os comigo, mesmo que eles ainda acreditem que venho do céu, apesar de muita conversa que travaram comigo; e estes eram os primeiros a anunciar, onde quer que eu chegava, e os outros andavam correndo de casa em casa, e até as vilas próximas, com vozes altas: Venham, venham ver a gente do céu; assim, todos, tanto homens quanto mulheres, depois de perderem o medo da gente, vinham, adultos e crianças, e todos traziam algo de comer e beber, que davam com um amor maravilhoso. Eles têm em todas as ilhas muitas canoas, como as fustas de remos, algumas maiores, outras menores; e algumas são maiores do que uma fusta de 18 bancos. Não tão largas, porque são de uma tora única; mas uma fusta não compete com elas ao remo, porque são velozes que não dá para acreditar. E com estas navegam todas aquelas ilhas, que são inumeráveis, e comerciam suas mercadorias. Vi em algumas destas canoas 70 e 80 homens, e cada um com seu remo.
Em todas estas ilhas não vi muita diversidade na feição das gentes, nem nos costumes ou na língua; salvo que todos se entendem, que é coisa muito propícia para a determinação de Suas Altezas para a conversão deles à nossa santa fé, para a qual são muito dispostos.
Já disse como eu havia andado 107 léguas pela costa do mar pela linha direita do ocidente para o oriente pela ilha de Juana, segundo tal caminho posso dizer que esta ilha (Juana) é maior que a Inglaterra e a Escócia juntas; porque, além destas 107 léguas, há, na parte poente, duas províncias que eu não percorri, uma das quais chamam Avan, onde nasce gente com rabo; tais províncias não podem ter menos de 50 ou 60 léguas de comprimento, segundo pude entender dos índios que me acompanham, os quais conhecem todas as ilhas.
Esta outra Espanhola tem de circunferência mais que a Espanha toda, desde Colibre (Catalunha), pela costa do mar, até Fuenterrabía em Biscaya, pois, em um quadrante, percorri 188 grandes léguas por linha reta de ocidente a oriente. Ela é de se desejar e, ao ser vista, para nunca se deixar; na qual, posto que de todas tenha tomado posse por Suas Altezas, e todas sejam mais abastadas do que sei ou posso dizer, e todas tenho por Suas Altezas, que delas podem dispor como e tão absolutamente como dos reinos de Castela, nesta Espanhola, o lugar mais conveniente e melhor região para as minas de ouro e de todo comércio, assim em terra firme daqui como aquela de lá do Grande Khan, onde haverá comércio e lucro, tomei posse de uma vila grande, à qual pus o nome de vila da Natividade; e nela pus força e fortaleza, e que já nestas horas deve estar de todo concluída, e deixei nela gente suficiente para protegê-la, com armas, artilharias e vitualhas para mais de um ano, e fusta e mestre de mar em todas as artes para construir outras, e grande amizade com o rei daquela terra, em tamanho grau, que lhe apetecia chamar-me e ter-me como um irmão; e, ainda que lhe mudasse a vontade em ofender esta gente, nem ele nem os seus sabem o que sejam armas, e andam desnudos, como já disse, e são os mais medrosos que existem no mundo; assim que apenas aquelas pessoas que lá deixei são suficientes para destruir toda aquela terra; e é ilha sem perigo para eles, se se souber regê-la.
Em todas estas ilhas me parece que todos os homens se contentam com uma mulher, e a seu governante ou rei dão até vinte. Parece-me que as mulheres trabalham mais que os homens. Não consegui entender se eles têm bens próprios; pareceu-me que aquilo que um tinha, todos tinham parte, em especial os víveres.
Até aqui, nestas ilhas, não encontrei homens monstruosos, como muitos pensavam, mas antes toda a gente é de mui linda compleição, não são negros como na Guiné, excetuando seus cabelos escorridos, e não se criam onde há ímpeto demasiado dos raios solares; é verdade que o sol tem ali grande força, posto que é distante da linha equinocial 26 graus. Nestas ilhas, onde há montanhas grandes, ali o frio tinha força neste inverno; mas eles o sofrem por costume, e com a ajuda das comidas que comem com muitas especiarias e muito quentes. Assim não encontrei monstros, nem notícia, tirando em uma ilha Quaris, a segunda à entrada das Índias, que é povoada por uma gente considerada em todas as ilhas como muito feroz, que come carne humana. Eles têm muitas canoas, com as quais percorrem todas as ilhas da Índia, e roubam e tomam o quanto podem; eles não são mais disformes que os outros, salvo que têm o costume de trazer os cabelos longos como mulheres, e usam arcos e flechas das mesmas armas de canas, com um palito no fim, por causa do ferro que não têm. Entre os outros povos, covardes em grau demasiado, estes são ferozes, mas eu não acho que sejam piores que os outros. Estes tratam com as mulheres de Matinino, que é a primeira ilha, partindo da Espanha para as Índias, na qual não se encontra homem algum. Elas não praticam o exercício feminino, mas arcos e flechas, como os supracitados, de canas, e se armam e se protegem com folhas de cobre, que têm em abundância.
Há outra ilha, asseguram-me que maior do que a Espanhola, em que as pessoas não têm cabelo algum. Nesta há ouro sem conta, e desta e das outras trago comigo índios para testemunho.
Concluindo, ao falar disto que apenas ocorreu nesta viagem, que foi assim rapidamente, podem ver Suas Altezas que eu lhes darei quanto ouro necessitarem, com muito pouca ajuda que Suas Altezas me derem; agora, especiaria e algodão quanto Suas Altezas mandarem, e almástiga quanto mandarem carregar, e de qual até hoje não se encontra a não ser na Grécia, na ilha de Chios, e o Senhorio vende como quer, e aloé quanto mandarem carregar, e escravos quanto mandarem carregar, e serão dos idólatras; e creio haver encontrado rui barbo e canela, e outras mil coisas de substância encontrarei, as quais encontraram a gente que eu lá deixei; porque eu não me detive em lugar algum, enquanto o vento me tenha ajudado a navegar; apenas na vila de Natividade, que deixei assegurada e bem assentada. E, na verdade, muito mais faria, se me servissem os navios como demandava a razão.
Isto se deve ao grande e eterno Deus Nosso Senhor, que dá a todos aqueles que andam no seu caminho vitória em coisas que parecem impossíveis; e esta obviamente foi uma destas; porque, ainda que tenham falado ou escrito sobre estas terras, tudo é conjetura sem vê-las, mas compreendendo, os ouvintes escutavam e julgavam mais pela fala e faziam pouco caso. Assim, pois, Nosso Redentor deu esta Vitória a nossos ilustríssimos rei e rainha e a vossos reinos famosos, da qual toda a cristandade deve se alegrar e celebrar grandes festas, e dar graças solenes à Santíssima Trindade com muitas orações solenes, ao converter tantos povos à nossa santa fé, e depois pelos bens temporais; que não apenas a Espanha, mas todos os cristãos terão aqui refrigério e lucro.
Isto, segundo o feito, assim em breve.
Data na caravela, nas ilhas de Canária, em 15 de fevereiro, ano 1493.
Farei o que mandarem
O almirante.”.
***
Depois de esta escrita e estando no mar de Castela, saiu tanto vento sul e sueste comigo, que tive de descarregar os navios. Mas percorri aqui este porto de Lisboa hoje, que foi a maior maravilha do mundo, onde resolvi escrever a Suas Altezas. Em todas as Índias, sempre encontrei temporais como em maio; para onde fui em 33 dias, e voltei em 28, excetuando estas tormentas que me detiveram 13 dias vagando por este mar. Dizem aqui todos os homens do mar que jamais houve inverno tão ruim, nem tantas perdas de naus.
Data a 4 dias de março.
***
Do conteúdo da carta
O navegador, na sua ação querida e acompanhada pela Providencia divina, refere as suas constantes andanças e ter encontrado terras muito povoadas, sobretudo ilhas (muitas delas muito extensas) que ocupou, denominou e em que pôs as insígnias reais de Espanha. Nalgumas pequenas ilhas, com muita gente, era difícil contactar com as pessoas porque fugiam com medo. No entanto, depois era fácil entenderem-se e trocar informações sobre o ambiente, designadamente sobre a configuração do terreno, a abundância e variedade de plantas, animais e especiarias, governança dos núcleos habitacionais, os rios (alguns grandes), muita água, muita riqueza na terra. Com raras exceções, aquela gente era pacífica (alguns até eram cobardes, embora também houvesse um núcleo de pessoas ferozes) e sem armas, a não ser o arqueiro em que inseriam um ponteiro para projetar.
As pessoas andavam desnudas, quando muito tapando com elementos vegetais algum local corporal. Eram as mulheres que mais se aplicavam ao trabalho agrícola, indo os homens em fustas e canoas à procura de peixe, de metais como o ouro e o cobre e as especiarias.
Os nativos eram muito fáceis em proceder a trocas com os visitantes. O almirante, que intervinha no sentido de os visitantes não apoucarem os nativos dando-lhes objetos inúteis ou degradados, garantia as suas Altezas que poderia dar-lhes o ouro, os materiais e especiarias de que precisassem, bem como os escravos que os reis de Espanha mandassem carregar.
E, dado que era fácil estabelecer franco entendimento por palavras ou por sinais, aquele era terreno humano favorável à implantação da santa fé para glória de Deus e satisfação do desígnio missionário da Espanha. Tanto assim era que, embora concedessem umas dezenas de mulheres aos seus soberanos e houvesse um ou outro núcleo de canibalismo, entre as populações era quase total o regime da monogamia, o cuidado amoroso para com os filhos e o respeito pela vida humana.  
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Pequeno apontamento sobre a ação de Colombo
Antes das suas viagens em busca das Índias pelo Ocidente, Colombo passou um período de dez anos em Portugal, sobretudo no arquipélago da Madeira, dedicado ao estudo das rotas de navegação, convencido da existência duma passagem marítima pelo Ocidente até as Índias. Casou em 1480 com Felipa Muniz, filha do navegador Bartolomeu Perestelo, em cuja biblioteca estudou as obras que viriam a certificá-lo da existência de novas terras. Com Felipa, que morreria quatro anos depois, teve um filho, chamado Diego.
Por esta época, Colombo tentou, em vão, convencer o rei de Portugal Dom João II a conceder permissão para uma viagem ao Oriente. Em 1485, Colombo fixou-se na Espanha, movido pelo interesse manifestado pelos reis Fernando e Isabel, em patrocinar a viagem, com o intuito de expandir a fé católica para as terras orientais.
Composta por três caravelas – Pinta, Nina e Santa Maria – a frota de Colombo deixou as costas da Espanha no dia 3 de agosto de 1492. A viagem foi atribulada e a tripulação quase pereceu em terríveis tempestades e tentativas de motins. No dia 12 de outubro, Colombo chegou à ilha que chamaria de San Salvador, no arquipélago das Bahamas. Navegou pela ilha de Cuba e pelo Haiti, retornando à Espanha em março de 1493. Tinha para si a certeza (era um erro) de ter chegado ao Oriente rumando a Ocidente.
Neste mesmo, ano fez a sua segunda viagem, com uma frota de 17 naus. Chegou ao Caribe e descobriu várias ilhas, como Dominica, Guadalupe, Porto Rico e Jamaica. Em 1499, numa terceira viagem, alcançou terra firme, nas costas da atual Venezuela. Reconheceu também as ilhas de Trinidad e Tobago e Granada.
Desta viagem, no entanto, já regressou com ordem de prisão. Mesmo perseguido por intrigas palacianas e não mais desfrutando dos privilégios reais, Colombo conseguiu se libertar. Assim, empreendeu ainda uma quarta viagem, entre 1502 e 1504, completando o reconhecimento da costa da América Central.
Tendo regressado à Espanha em 1504, caiu no ostracismo, abandonado e esquecido. Morreria dois anos depois – e, pelos vistos, sem saber que havia descoberto um novo continente. Acreditava ter chegado a um anexo remoto da Ásia.
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Não enveredei pelas questões de nacionalidade e circunstâncias de nascimento de Cristóvão Colombo, que me parecem difíceis de deslindar, embora ganhe cada vez mais relevo a hipótese da sua origem nobre e portuguesa, sobretudo a partir da hermenêutica ligada à sua assinatura, e alguns testemunhos, bem como pela ideia da alegada inviabilidade de uma donzela nobre ser ao tempo dada em casamento a um homem das artes e ofícios.
E continua por saber-se o motivo pelo qual Dom João II rejeitou os seus préstimos como a razão pela qual antes de portou em Lisboa de chegar à corte espanhola e foi recebido pelo rei português. As hipóteses mantêm-se em cima da mesa dos estudos e os estudiosos continuam a discuti-las, separando-se os campos das sentenças.
2018.06.24 – Louro de Carvalho