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quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

A pluritemática Mensagem de Natal do Presidente da República – 2019


Marcelo Rebelo de Sousa não reduz a sua intervenção às funções tradicionais atribuíveis ao Presidente da República. Se essa condição, que leva até ao limite (e até o ultrapassará), não é suficiente, fala como cidadão ou como comunicador em jornal, rádio ou televisão.
Também nunca percebi por que motivo o Presidente de todos os portugueses, mesmo dos que não votam nele, não há de falar ao país no Natal. Fala o Chefe de Governo, mas este não consegue despedir a veste partidária ou da circunstância conjuntural que o levou ao poder. À partida, o Chefe de Estado reúne mais consensos, mesmo que venha duma área partidária. É certo que o Presidente fala no dealbar do Ano Novo, mas Natal é Natal e, como tempo de reflexão e de festa familiar e comunitária, distingue-se do início de ano, que é pontapé de saída para um no ciclo de atividade civil, que pode não coincidir com anos litúrgicos, pastorais, sociais ou letivos, mas abrange as importantes áreas económica e contabilística.  
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Posto isto, é de reparar que o título do artigo presidencial no JN, “Um Natal de preocupação e sobretudo esperança”, espelha a dupla vertente da abordagem natalina de Marcelo. É pena que seja um exclusivo dum jornal.
No âmbito da preocupação, Marcelo aponta os continuados e multiplicados sinais negativos para a paz, para o diálogo, para a convivência entre pessoas, povos, culturas e civilizações. E aqui menciona: “a permanência de desigualdades”, miséria, guerra, instabilidade política, social e económica, a gerar “mais migrações e mais refugiados”, sobretudo “em África, na Ásia, na América Latina”, onde se registam novos e velhos focos; “a insensibilidade de alguns, com muito peso internacional, perante os desafios das alterações climáticas”; “a tensão ainda não superada entre potências relativamente ao comércio universal”; “a tendência para o unilateralismo”, a dificultar o papel das organizações internacionais e a afirmação do próprio Direito Internacional”; “a situação mais ou menos crítica de certos sistemas políticos nacionais”; o início de um novo ciclo político na Europa, “com alguns outros sinais que continuam a provocar apreensão”; “o apagamento de lideranças convictas, claras e determinadas e a emergência de compassos de espera” ou as mais variadas “fragmentações internas”; “o adiamento de decisões importantes para os anos mais próximos em áreas essenciais, até pela influência em termos de crescimento e emprego sustentados e significativos”; e, no tocante a Portugal, a “concentração do debate público em pontos específicos, mais formais do que substanciais, mais conjunturais do que estruturais”, a “sensação difusa de que o dia a dia deve prevalecer sobre os horizontes de médio e longo prazo na perceção social de muitos” e a “situação crítica da comunicação social, acicate de instabilidade, de preferência pelo imediatismo, de potenciação do efémero em detrimento do fundamental”.
Depois destes múltiplos e variados cenários de preocupação, seria de questionar o Presidente da República como consegue vislumbrar sinais de esperança neste mundo dividido e confuso. Mas ele não deixou criar ferrugem no cálamo e assegurou: 
Acrescentei que de um Natal sobretudo de esperança se tratava. Isto é, a esperança existe e permite mobilizar, mesmo quando a preocupação se manifesta.”.
E, em termos da esperança no Mundo, desfiou: “continua a luta de um sem-número de organizações e de cidadãos pelos valores primeiros do personalismo e do humanismo, a começar pela dignidade da pessoa humana”; “prossegue a saga dos que batalham pela paz, pela justiça, pelos direitos humanos, pelo Direito Internacional, pelo diálogo, convergência e entendimento”; “não para a faina dos que pensam nas gerações futuras e não desistem perante a negação da evidência ou a frouxidão perante as alterações climáticas”; e as “potências em guerra comercial ou de divisas admitem, ao menos por um momento”, que se impõem tréguas.
No âmbito da esperança na Europa, regista; “a saída do Reino Unido [far-se-á] com acordo e não como tantos defendiam sem ele”; “nas eleições europeias e em muitos sistemas políticos europeus [viu-se] que ainda há espaço para reformar, mudar de vida, acelerar o passo, retirar argumentos aos antieuropeus ou assistémicos”; “movimentos de ideias e sociais surgem ou se reforçam, pressionando outra iniciativa, outro ritmo”, e (…) mais prioridade às pessoas, à participação, ao envolvimento numa Europa “que se deixe de meras abstrações ou de torres de marfim”.
E, em termos da esperança em Portugal, anota:
O bom senso, a experiência de muito passado e do que nele se viveu e o apelo de mais e melhor apontam para olhar mais alto e mais longe e cuidar de evitar injustiças, desigualdades, omissões, atrasos e displicências que criem o caldo para o enfraquecimento de pilares basilares de uma Democracia viva e de futuro”.
E sentencia que tem razões para estar muito atento e disponível para agir, mas também razões para a esperança “na consciência da estabilidade institucional e financeira, da necessidade do crescimento e do emprego, da urgência da coesão social, da abertura para a renovação do que está cansado, esgotado, ultrapassado em estruturas, orgânicas, procedimentos, desempenhos pessoais”. Por conseguinte, o Presidente deseja a todos e a cada um “um Natal Feliz”, se possível vivido com os entes mais queridos, e “tendo sempre presentes os que o espaço físico, a doença ou a exigência pessoal ou profissional impedem de partilharem esse Natal familiar”.
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Ora, se como dizem alguns, a mensagem primoministerial é quase monotemática e sem a resposta suficiente para o país, a mensagem presidencial é excessivamente pluritemática para um texto tão curto. É muito verdadeira e como que toca todos os temas na agenda mundial, europeia e nacional, mas fica tudo pela rama sem que haja um pensamento de fundo sobre os porquês das preocupações e fundamentos da esperança. E este Presidente sabe fazê-lo e os assessores estariam disponíveis para lhe enditar o discurso.
De resto, o Presidente pouco mais pode fazer do que exercer, com acutilância se quiser, a magistratura de influência e cuidar do moral dos portugueses.
Veremos como se vai sair na mensagem de Ano Novo!
2019.12.26 – Louro de Carvalho   

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Aumento de inquéritos instaurados por corrupção


Segundo o ECO e a agência Lusa, Joana Marques Vidal, a anterior Procuradora-Geral da República, diz que o combate à corrupção “não é uma prioridade” para os políticos na hora de desenhar um orçamento do Estado, criticando a falta de apetrechamento das instituições que fazem investigação contra a corrupção.
Com efeito, num encontro organizado na Universidade de Évora, a 10 de dezembro, Dia Internacional Contra a Corrupção, a ex-Procuradora-Geral da República criticou a falta de “capacitação das instituições que fazem investigação criminal”, sobretudo no atinente ao “apetrechamento para a luta contra a corrupção e a criminalidade conexa”.
Dizer que o combate contra a corrupção não é uma prioridade para os decisores políticos parece contradizer o mandato de seis anos em que Joana Marques Vidal registou na sua folha de serviço, ainda que de forma excessiva, um extenso rol de processos mediáticos contra altas figuras políticas, sendo o caso mais flagrante o do ex-Primeiro-Ministro José Sócrates, sendo que muitos já vinham de anteriores mandatos. Mesmo assim, a magistrada atirou:
Francamente e com toda a clareza, eu considero que, apesar das medidas que têm feito, isso não está no centro da preocupação dos decisores políticos quando pensam e quando concebem um Orçamento Geral do Estado.
É caso para nos questionarmos como, sem esse pensamento e essa preocupação orçamental por parte dos decisores políticos (governantes e deputados, quiçá também o Presidente da República), Marques Vida conseguiu que o MP (Ministério Público) e a PJ (Polícia Judiciária), no consulado da insigne magistrada, registassem tão grande marca anticorrupção. Terá sido fruto do milagre ou do génio? Será flop dos que a queriam reconduzir em andor a um segundo longo mandato?
As instituições que fazem investigação contra a corrupção têm falta de apetrechamento. Admite-se como verdadeira a crítica. Mas qual é o departamento estatal, e até empresarial, que não sente a falta de meios? Provavelmente só um consultório de dentista!
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Ao mesmo tempo, a nova Procuradora-Geral da República Lucília Gago destaca o aumento de inquéritos instaurados por corrupção. Com efeito, Lucília Gago, revelou no passado dia 10, que houve um “aumento percentual de cerca de 57,7%” no número de inquéritos instaurados por crime de corrupção, entre 1 de novembro de 2017 e 31 de outubro deste ano” de 2018, face ao período entre 2016/2017. E disse-o na sessão de encerramento do aludido encontro na Universidade de Évora em que Marques Vidal tinha intervindo.
Na sua intervenção, Lucília Gago revelou alguns dos dados que constam do Relatório Síntese “Crimes de Corrupção e Criminalidade Complexa”, de 1 de novembro de 2017 a 31 de outubro deste ano , tornado público precisamente no referido dia 10. Entre esses crimes, o relatório revela que houve um aumento do crime económico em Portugal nesse período.
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Segundo o predito relatório, aumenta a corrupção e o crime económico, tendo o MP aberto um total de 3.423 inquéritos no período em referência e tendo sido deduzidas 24 acusações por corrupção. Foi nas comarcas de Braga, Porto e Aveiro que se registou um maior volume de entradas relacionadas com o crime de corrupção.
Os crimes de corrupção (1.358) correspondem a 38,7% do total, no que é o aumento de 57,7% face aos inquéritos instaurados no período de 2016/2017, como referiu Lucília Gago e se pode ler no Público (acesso condicionado) e no Correio da Manhã. Os crimes analisados incluem abuso de poder, peculato, branqueamento, tráfico de influência e gestão danosa. Na maioria destes a tendência também é de crescimento, exceto no crime de tráfico de influência, de acordo com a Procuradoria-Geral da República. Os crimes de peculato cresceram 61,5% para 685, relativamente ao ano anterior.
As operações de prevenção de branqueamento de capital na banca também foram mais avolumadas. De 1 de janeiro a 31 de outubro deste ano foram suspensas operações bancárias no valor de 126 milhões de euros, contrastando com os 9 milhões de 2017.
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Nos últimos dias, além das buscas no Ministério da Defesa Nacional, na Inspeção-Geral de Finanças e na Cruz Vermelha Portuguesa – a que noutra peça escrita fiz referência – sobressai a investigação da PJ junto de 8 funcionários do IAPMEI por corrupção com fundos europeus, referida pelo Expresso, do dia 8, e pelo ECO, do dia 9.
Esta investigação surgiu depois de o gestor de uma consultora ter denunciado que funcionários do IAPMEI exigiram dinheiro para aprovar candidaturas a fundos comunitários. Por isso, o DCIAP (Departamento Central de Investigação e Ação Penal) e a PJ desencadearam uma ação investigativa oito funcionários do IAPMEI – Agência para a Competitividade e Inovação, por suspeitas de que estes funcionários terão exigido dinheiro em troca da atribuição de fundos comunitários a empresas.
A notícia foi avançada publicamente, este domingo, pelo Correio da Manhã na sequência da informação adiantada antes pelo Expresso (acesso pago), que deu conta de que as denúncias foram feitas pelo gestor da consultora. De facto, as investigações começaram, precisamente, após a denúncia apresentada por António Cabrita, gestor da Gorin, uma consultora que presa apoio a empresas nas candidaturas dos seus projetos de investimento aos incentivos europeus de vários quadros comunitários, como o QREN (Quadro de Referência Estratégico Nacional) e o Portugal 2020.
António Cabrita refere, na denúncia, que, em 2016, um funcionário do IAPMEI lhe pedira 40 mil euros para resolver um problema. Depois de ter recusado, soube que o IAPMEI recomendou a vários clientes que não trabalhassem com a Gorin.
Perante estas acusações, para além da investigação do DCIAP e a da PJ, também o Governo já exigiu esclarecimentos. Segundo o Correio da Manhã, o Secretário de Estado da Economia, João Correia Neves, determinou que o IAPMEI instaurasse um inquérito interno para averiguar se existem, ou não, indícios de corrupção, tendo sido referido ao dito jornal:
Apesar de, até ao momento, o IAPMEI não ter sido chamado a colaborar com as autoridades judiciais, existe total disponibilidade para o efeito. Os procedimentos internos de segregação de funções e de auditoria interna e externa constituem garante da transparência de procedimentos, mas o relato incluído na notícia deve conduzir a agir de forma implacável contra quaisquer comportamentos que possam ser identificados contrários à Lei.”.
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Igualmente a sobressair se apresenta o caso de 5 empresários detidos na “Operação Dennis” da PJ que desarticulou uma “associação criminosa” por crimes de fraude fiscal, branqueamento, recebimento indevido de vantagem e participação económica em negócio, entre outros, no Norte do país. A este respeito, revela a PJ/Norte em comunicado:
No decurso de 35 buscas, realizadas nos concelhos de Vila Nova de Famalicão, Santo Tirso, Guimarães, Maia, Braga e Vila do Conde, foram detidos cinco indivíduos, todos empresários, quatro do sexo masculino e um do sexo feminino, e com idades compreendidas entre os 38 e os 73 anos, fortemente indiciados pelos referidos crimes”.
Também uma nota divulgada pela PGR (Procuradoria-Geral da República) adiantava, no dia 12, que, durante a operação (a acima designada), dirigida pelo DCIAP, coadjuvada pela PJ e em articulação com a AT (Autoridade Tributária) – Direção de Finanças do Porto, foram realizadas 35 buscas nos concelhos de Vila Nova de Famalicão, Santo Tirso, Guimarães, Maia, Braga e Vila do Conde, estando em causa crimes de associação criminosa, fraude na obtenção de subsídio, fraude fiscal qualificada, branqueamento, recebimento indevido de vantagem e participação económica em negócio.
Segundo os investigadores, a associação criminosa criou e geriu um conjunto de sociedades comerciais, com o recurso a “testas de ferro”, visando ocultar os verdadeiros administradores e despistar eventuais fiscalizações por parte das competentes entidades. Tal conduta teve como finalidade a emissão de faturação fictícia entre essas sociedades comerciais, no intuito de aumentar de forma substancial o valor do IVA a receber do Estado.
De acordo com a investigação, o esquema montado permitia “evidenciar um volume de negócios que não correspondia ao real, mas principalmente permitiu que outras sociedades, dominadas pela associação criminosa, apresentassem candidaturas a fundos comunitários, no âmbito do programa de apoio comunitário ‘Portugal 2020’, candidaturas essas num valor total de cerca de 35 milhões de euros e valor aprovado superior a 20 milhões de euros, tendo a associação criminosa recebido já das entidades competentes subsídios no valor de cerca de 2,7 milhões de euros. Em relação ao IVA e IRC, com o circuito fechado de faturação fictícia, este grupo de sociedades terá obtido um crédito fiscal de cerca de 1,9 milhões de euros.
Os empresários detidos – cinco homens e uma mulher – têm entre os 38 e os 73 anos e foram conduzidos ao TCIC (Tribunal Central de Instrução Criminal), em Lisboa, para primeiro interrogatório judicial e aplicação das medidas de coação.
Durante a operação policial, foram apreendidas vários automóveis, equipamentos informáticos e telemóveis, além de variada documentação de natureza contabilística e fiscal.
A “Operação Dennis” envolveu cerca de 100 elementos, incluindo magistrados judiciais e do MP, investigadores da Diretoria do Norte e do Departamento de Investigação Criminal de Braga da PJ e Inspetores Tributários da Direção de Finanças do Porto da AT.
A PJ esteve na Câmara Municipal de Santo Tirso a fazer buscas numa operação que fez já 5 detidos e tornou arguidos o vice-presidente da autarquia e uma chefe de divisão, com disse à agência Lusa fonte da polícia, pois, na origem das buscas naquela autarquia do distrito do Porto “está a aquisição de uma viatura elétrica pela câmara, em que foi interveniente”, segundo a aludida fonte, “o vice-presidente Alberto Costa e ainda a chefe de divisão Maria Cacilda de Sousa, tendo ambos sido constituídos arguidos”.
Em comunicado, a Câmara Municipal de Santo Tirso confirmou ter sido alvo de “diligências inspetivas por parte da Polícia Judiciária”, num processo relacionado com a aquisição de uma viatura elétrica para os serviços urbanos do município.
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Enfim, não se percebe como é que PGR, MP, PJ e AT conseguem tantos inquéritos, embora com dedução de poucas acusações, sem que os decisores políticos tenham a preocupação, mesmo em sede orçamental, do combate à corrupção e ao crime organizado, mesmo o crime económico. Não acreditando que haja milagre nesta matéria nem que os agentes investigativos ajam prevaricando em termos de desorçamentação, só vejo duas hipóteses de falha: a falta de uma estratégia política de prevenção do crime ou o laxismo judicial. Não esqueço que os tribunais também são decisores políticos!
2018.12.13 – Louro de Carvalho    

sábado, 6 de maio de 2017

A rotina como o principal inimigo do sistema educativo

Sara Oliveira postou, a 4 de maio, no educare.pt, um texto de reflexão sobre o sistema educativo com base em declarações ao JL (Jornal de Letras) do ex-Ministro da Educação Roberto Carneiro, que se mostra simultaneamente otimista e preocupado com o estado atual da educação.
O ex-Ministro da Educação (com 9 filhos e 14 netos) é professor associado da UCP (Universidade Católica Portuguesa), consultor de várias organizações internacionais como o Banco Mundial, a OCDE, a UNESCO, a União Europeia. É Presidente da Escola Portuguesa de Macau, apoia o Governo de Timor-Leste no quadro de implementação das Cartas Educativas nos seus 13 distritos. Faz parte do conselho editorial do European Journal of Education e espera terminar uma dezena de livros que estão formatados na sua cabeça há muitas décadas.
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Recordo que a Roberto Carneiro coube a execução da Lei de Bases do Sistema Educativo (LBSE) aprovada pela Lei n.º 46/86, de 14 de outubro, na vigência do X Governo Constitucional, governo minoritário liderado por Cavaco Silva. E o Ministro da Educação do XI Governo Constitucional, um governo maioritário empossado em 17 de agosto de 1987 e também liderado por Cavaco Silva, provinha da área do CDS/PP, o único partido que não deu o seu aval à dita LBSE (votou contra). Todavia, uma das suas primeiras declarações públicas em resposta aos jornalistas foi que a Lei iria ser cumprida. Obviamente que o Ministro afastou-se cada vez mais do quadrante político donde provinha e passou a ser o obreiro da reforma do sistema.
Assim, criou a chamada Comissão de Reforma do Sistema Educativo (CRSE) cujo Grupo de Trabalho (GT), ao mesmo tempo que lançou um amplo debate nacional, preparou os conteúdos atinentes a cada um dos diplomas de desenvolvimento da LBSE que haviam de ser aprovados e publicados. E não foram poucos. Desses, podem referir-se: o Decreto-Lei n.º 26/89, de 21 de janeiro, que definiu os princípios e os procedimentos da criação das escolas profissionais no âmbito do ensino não superior; o Decreto-lei n.º 43/89, de 3 de fevereiro, que estabeleceu o regime jurídico da autonomia da escola (não aplicável à educação pré-escolar e ao 1.º CEB); o Decreto-lei n.º 286/89, de 29 de agosto, que estabeleceu os princípios gerais da reestruturação curricular; o Decreto-lei n.º 139-A/90, de 28 de abril, que aprovou o estatuto da carreira dos educadores de infância e dos professores dos ensinos básico e secundário (ECD); o Decreto-lei n.º 74/91, de 9 de fevereiro, que estabeleceu o quadro geral de organização e desenvolvimento da educação de adultos nas suas vertentes de ensino recorrente e de educação extraescolar; e o Decreto-lei n.º 172/91, de 10 de maio, que definiu o regime de autonomia, direção, administração e gestão dos estabelecimentos de educação pré-escolar e dos ensinos básico e secundário (cuja aplicação se circunscreveu a um reduzido número de estabelecimentos); e a respetiva legislação complementar.
Obviamente que a experiência, as ambições pedagógicas e sociais e, sobretudo, as constrições financeiras, motivaram profundas alterações legislativas, nem sempre no melhor sentido. Por exemplo, da área-escola e formação complementar, de Roberto Carneiro, passou-se às áreas curriculares não disciplinares (estudo acompanhado, área de projeto e formação cívica), do Ministério inspirado por Ana Benavente, de que resta um pequeno espécime para as escolas que o inscrevam no seu projeto curricular; a disciplina de desenvolvimento pessoal e social, como alternativa à de Educação Moral e Religiosa Católica (ou de outras Confissões) – e para a qual se formaram professores – deu passos ténues e nunca abrangeu as pluralidade das escolas, não sendo hoje sequer mencionada. O ensino profissional entrou de chusma nas escolas secundárias perdendo a identidade na mediocridade da massificação e conteúdos e na assimilação ao ensino dito regular, com exceção da conversão das horas (de 60 minutos) em tempos letivos, resultando daqui um aumento significativo do somatório de tempos letivos. O ECD metamorfoseou-se com a Ministra Rodrigues num documento insuportável, embora mitigado pela Ministra Alçada. E os diplomas da definição dos regimes jurídicos da autonomia e da direção, administração e gestão dos estabelecimentos de educação pré-escolar e dos ensinos básico e secundário tardaram a generalizar-se: só o Decreto-lei n.º 115-A/98, de 4 de maio é que generalizou o novo modelo, mas o conselho de escola deu lugar à assembleia de escola e o diretor passou a constituir uma alternativa, pouco selecionada, ao diretor executivo – e um e outro passaram a ser eleitos por um colégio alargado de eleitores (professores, pessoal não doente, pais e alunos do secundário). Foi Rodrigues quem impôs o figurino único de diretor escolhido, através de procedimento concursal, pelo conselho geral (sucedâneo da assembleia).
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Voltando a Roberto Carneiro, o político e académico, que só foi ministro durante um mandato (Já lá vão 26 anos!) assegura que “um sistema educativo sem chama está condenado à rotina”, que é, do meu ponto de vista, o grande inimigo da escola, da educação, da pessoa e da sociedade. Em entrevista ao JL, sustenta que a educação não pode viver fechada num compartimento político e defende que a sociedade deve ser ouvida. Diz ele ao JL:
“Um sistema educativo sem anima, sem chama interior, está condenado ao funcionamento rotineiro, sob ‘dictats’ ministeriais, e ao progressivo esmorecimento da sua força primeira – o potencial da mola humana que arregimenta – que compete a todo e qualquer responsável político acarinhar e fazer brotar no máximo para a tarefa inacabada de propiciar o surgimento de um mundo novo a partir da instância social mais decisiva a seguir à família: a escola”.
O seu professado otimismo estriba-se no facto de os indicadores internacionais demonstrarem que as competências dos alunos portugueses não são inferiores às dos seus pares internacionais, no percurso educativo das últimas décadas, na reputação dos portugueses lá fora, nos empregos que ocupam, nos lugares que conquistam, nos elogios que recebem e por sentir que as políticas de longo prazo começam a ser olhadas como prioridades.
Não obstante, mostra-se preocupado com o atual estado da educação no país, em razão do desânimo vivido nas escolas, sobretudo no que afeta a classe docente, advertindo que “esse estado de alma é o fator mais corrosivo de qualquer esforço de modernização ou de melhoria educacional”. Mas também o preocupa o descontinuar do programa Novas Oportunidades, sem qualquer substituição válida no sistema, bem como o discurso recorrente de que o investimento em educação já é suficiente, pelos cálculos que tentam demonstrar que a rentabilidade nesta área não será positiva com mais reforços financeiros. 
E aquele que foi Secretário de Estado da Educação em 1980 e 1981 e Ministro da Educação de 1987 a 1991 está preocupado com a sucessão de ministros que pensam apenas em levar por diante “projetos” ou “vagas ideias”, sem escutar o que a sociedade quer e ambiciona. Neste aspeto, afirma:
“Assisto, constrangido, ao irresponsável aniquilamento de décadas de trabalho através de medidas impensadas, esquecendo-se de que mais difícil e demorada é a reconstrução por inteiro do que a fácil e instantânea demolição de um edifício”.
E lamenta:
“Instalou-se uma certa ideia de que é inútil continuarmos a pugnar por um alargamento a 100% da escolaridade secundária, com a consequente massificação do 1.º ciclo de estudos superiores ou por um reforço de investimento na qualificação da população ativa e adulta”. 
Por isso, Carneiro advoga para o país um pacto educativo. Mas, porque o pacto não surge de um dia para o outro, é preciso, na sua perspetiva, atender a vários fatores, a diferentes realidades, sendo fundamental perceber que a educação não pode estar confinada a forças políticas e partidárias e que a sociedade tem uma palavra a dizer nesta área. Além disso, é preciso avaliar seriamente, através de entidades idóneas, nacionais e estrangeiras, as políticas públicas antes de acabar com elas ou propor a sua modificação nas escolas. E, para um pacto educativo, têm que debater-se exaustivamente os temas para que a comunidade se consciencialize do bem público educacional e da necessidade de definir estratégias de fundo. Contudo, o ex-Ministro vê neste caminho muitas etapas e desafios. Antes de mais, importa não parar a modernização do sistema educativo, estar na dianteira da Europa, não abrandar o investimento em educação; depois, há que alterar, nas próximas duas décadas, o atual paradigma educativo que, a seu ver, é ainda semelhante ao importado da produção industrial do século XIX. A este respeito, explicita:
“Isto significa libertar a escola da síndroma unificadora preferida pelos sistemas centralizados de perfil napoleónico e de gestão burocrática, evoluindo para escolas autónomas, restituídas às respetivas comunidades de pertença e dominadas pelo modelo da abertura à vida e ao meio envolvente, marcadas pela inovação constante como fator diferenciador e de mais-valia institucional”. 
Por outro lado, assegura que é fundamental abrir as portas às novas tecnologias, exemplificando com Singapura, Finlândia, Coreia do Sul – países bem posicionados nos resultados do PISA, que aceitam naturalmente a geração tecnológica em contexto educativo. E afirma:
“Tal leva à modificação radical dos comportamentos docentes que passam a estar comprometidos com o ‘ajudar a aprender’ muito mais do que com o ‘ensinar’ aulas repetitivas em que o aluno é votado à passividade”. 
Da Finlândia, destaca o facto de permitir às escolas deixar o currículo de disciplinas e enveredar por aprendizagens multi e transdisciplinares em torno de grandes temáticas da vida real. 
E referindo que, na sua perspetiva, é uma tolice querer deixar o nome associado a uma grande reforma, adverte:
“Na realidade, nem a megarreforma é necessária hoje, nem o sistema educativo tolera mais mudanças ditadas do topo por decreto governamental, nem as comunidades educativas – pais, professores, autarcas, empresários, sindicatos, etc. – devem continuar a ser paternalisticamente tratadas pelo poder central como se de destituídos ou incapazes se tratassem”. 
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Também é notícia que apenas 6 agrupamentos de escolas – por três anos – têm “luz verde” para testar medidas pedagógicas a partir do próximo ano letivo, no âmbito da tão propalada flexibilização curricular e tendo em conta as 10 competências-chave e os demais pressupostos do “Perfil do Aluno para o Século XXI”. Podem dividir turmas, fazer menos testes, redistribuir conteúdos das disciplinas, acabar com os três períodos escolares.
O Projeto-Piloto de Inovação Pedagógica (PPIP), criado pela tutela, permite várias alterações redistribuir os conteúdos das disciplinas por ciclos, dividir turmas, criar áreas curriculares, ter dois e não três períodos no calendário escolar, diminuir o número de testes, apostar numa avaliação contínua e qualitativa e investir na inovação pedagógica. O objetivo maior é eliminar, de forma gradual, as retenções e reprovações, dado que Portugal continua a ser um dos países da OCDE com mais alunos que já chumbaram pelo menos uma vez antes dos 15 anos. 
Pedro Cunha, Subdiretor da Direção-Geral da Educação (DGE), entidade que coordena este projeto-piloto, em declarações ao Expresso, explica o que se pretende:
“As escolas podem optar por fazer a sua gestão na distribuição dos tempos, dos programas e das metas, desde que garantam que os alunos adquirem as competências previstas em cada final de ciclo. Ou podem criar áreas curriculares próprias”. 
Os agrupamentos escolares do Freixo, em Ponte de Lima, do Cristelo, em Paredes, da Marinha Grande Poente, em Leiria, Fernando Casimiro Pereira da Silva, em Rio Maior, de Vila Nova da Barquinha, em Santarém, e de Boa Água, em Sesimbra – todos com mais de 7500 alunos – são as unidades orgânicas selecionadas para testar as medidas pedagógicas e modelos de organização escolar diferentes do que estão a ser aplicados neste momento. Terão liberdade e autonomia, mas todos os passos terão de ser devidamente fundamentados e caminhar no sentido da eliminação progressiva das retenções. E Pedro Cunha avisa:
“Não se trata de decretar a transição obrigatória dos alunos, nem de decretar a erradicação da retenção. Trata-se de dar a estas escolas todas as opções de que precisem para agir preventivamente e assim eliminar, de forma progressiva, a retenção e o abandono escolar, garantindo que todos os alunos aprendem.”. 
Este programa de autonomia reforçada leva os agrupamentos selecionados a definir e propor os projetos que julguem mais adequados para eliminar as retenções e estancar o abandono escolar. São escolas com problemas distintos, localizadas em meios urbanos e rurais, com taxas de insucesso diferentes. E os projetos que se revelarem eficazes poderão ser replicados noutros estabelecimentos de ensino. E, porque as realidades não são iguais e os agrupamentos podem propor vários caminhos e alternativas, Pedro Cunha dá um exemplo de reorganização de conteúdos, uma das matérias que as escolas escolhidas podem trabalhar:
“Atualmente, a Revolução Industrial é tratada em várias disciplinas, em anos diferentes, em ciclos diferentes. Estas escolas podem condensar o tema num determinado momento e colocar várias disciplinas e trabalhá-lo de forma integrada, evitando repetições.”. 
Mais: as alterações são extensíveis à constituição das turmas, dado que a atual configuração tem debilidades. Por isso, o predito Subdiretor-Geral diz:
“A unidade turma é algo completamente burocrático. Nada nos diz que aquele grupo de alunos é o melhor possível e que deve trabalhar junto ao longo de todo um ano letivo ou de um ciclo. Se os alunos têm interesses e necessidades diferentes, pode ser útil desconstruir essa organização e partir as turmas em vários grupos.”. 
De modo similar pode suceder ao calendário escolar. Cunha diz que é possível repensar a avaliação com base em 3 períodos escolares – com 2 testes cada um e a classificação final. Podem os agrupamentos criar mais momentos de avaliação formativa ao longo do ano e não tanto quantitativa.
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Posto isto, pergunto-me se é nisto que consiste o propalado regime de transição, alegadamente imposto pela Presidência e a que o ME se terá acocorado – só seis agrupamentos. Depois, interrogo-me sobre quanto tempo demorará a generalização do regime de flexibilização curricular. Recordo que a generalização do Decreto-lei n.º 192/91, de 10 de maio, nunca foi levada a cabo. E mantém-se a preocupação do ME em manter o ‘dictat’ diário a acompanhar a dita autonomia, censurado por Carneiro (É o medo da autonomia que tira poder à tutela e que dá muito trabalho à escola!). Além disso, é legítimo questionar se e quem impôs às escolas dois testes por período. Não terá sido, antes, a pressão dos encarregados de educação e da sociedade? Recordo que, em tempos, se lia nas informações sobre avaliação, no site do ME, que não era obrigatória a avaliação através de testes, cabendo à escola determinar como proceder na avaliação. Mas todos gostam da quantificação escrita… Naturalmente que a avaliação deve aferir e melhorar as aprendizagens, não devendo as aprendizagens ser desenvolvidas em função da avaliação. Deve pôr-se a tónica na ajuda a aprender e não adestrar para o teste!
Quanto ao exemplo apresentado pelo referido Subdiretor-Geral, dá-me a impressão de que esquece o caráter cíclico e ampliante da aprendizagem – o que leva a alguma repetição em conformidade com os contextos. Nada na educação é só a preto e branco!

2017.05.06 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 26 de dezembro de 2016

As crianças no centro das preocupações e sua educação a prioridade

O enunciado em epígrafe é um bom propósito político alinhado com a Declaração Universal dos Direitos do Homem, com a Convenção sobre os Direitos da Criança e com a Constituição da República Portuguesa (nomeadamente o art.º 69.º). Mas deve ser o propósito de toda a sociedade e, em especial, de todas as famílias, a quem incumbe o dever e assiste o direito de educar. E é o móbil dos votos de Natal de Costa a todos os portugueses, residentes aqui ou na diáspora, a todos os que escolheram Portugal para viver.
Num contexto de Natal demasiado comercializado e enublado pelas prendas em torno da figura mítica do Pai Natal – tendo António Costa acusado de Mãe Natal uma sua opositora que no recente debate parlamentar lhe quis oferecer três prendas – pareceu-me bem o facto de o Primeiro-Ministro ter optado por emitir a sua primeira mensagem de Natal “a partir de um local também muito especial, a sala de um jardim de infância”. É óbvio que se trata duma atitude meramente simbólica: nem lá estavam as crianças. Mas a mensagem é para os portugueses, que se fartam de falar (a cada passo e por tudo e por nada) do superior interesse da criança, sem definirem o que isso é, quando a verdade é que, na maior parte dos casos, pensam na satisfação dos seus interesses e em usar as crianças como escudo das suas birras com familiares, amigos e escolas.
Mesmo o Natal, que devia ser, para crentes em Jesus Cristo ou para pessoas de boa vontade, a festa das crianças, acaba por se tornar a ocasião para satisfazer a necessidade ou mesmo a ambição de lucro das indústrias e dos comércios das prendas e iguarias – onde cabe toda a espécie de produtos – ficando a família e as crianças como meros figurantes no palco da comercialização e da azáfama natalícias. Depois, mecanicamente lá vem o votinho de “Feliz Natal”, o sapatinho, a chaminé, a rena e o trenó! Vá lá que já não ensinam às criancinhas que os bebés vêm de Paris, de Estrasburgo, da Senhora da Lapa ou de Figueira de Castelo Rodrigo no bico da cegonha.
Fez bem o Primeiro-Ministro em “sublinhar que – tal como no Natal – as crianças têm de estar todos os dias no centro das nossas preocupações e que a sua educação tem de ser a primeira das nossas prioridades, enquanto famílias e enquanto sociedade”. Só desejo que o Governo seja consequente com esta diretiva batutista do seu regente Costa e que Tiago Brandão Rodrigues nunca se esqueça disto, fazendo a síntese entre o dever do Estado e o dever/direito das famílias, vigiando para que os conteúdos transversais sejam ministrados de forma progressiva – e não fora de tempo e importunamente – às crianças (nesta designação de crianças englobam-se, segundo dos documentos internacionais, os seres humanos que ainda não tenham completado os 18 anos).
Podem dizer-nos que o Estado não pode ser o “educador”. Na verdade, o n.º 2 art.º 43.º da CRP estabelece que “o Estado não pode programar a educação e a cultura segundo quaisquer diretrizes filosóficas, estéticas, políticas, ideológicas ou religiosas”. Porém, é o Estado que designa os grupos de trabalho que elaboram os programas das diversas áreas e disciplinas no ensino básico, no secundário e na educação pré-escolar; e agora o contestado referencial de educação para a saúde é das penas da Direção-Geral de Saúde e da Direção-Geral da Educação.
O preceito constitucional poderia ser cumprido ou com a entrega da definição programática a entidades independentes como as associações de professores, sociedades temáticas, ordens profissionais, etc, ou com a constituição de grupos de trabalho a partir de representantes das diversas tendências científicas, estéticas, sociais, culturais, económicas e educacionais. Porém, uma coisa é certa: não podem os conteúdos básicos – ou competências ou objetivos estratégicos – da educação ser identificados e selecionados a bel-prazer de cada família. Ler, escrever e contar – de forma mais elementar ou mais desenvolta não pode sair duma plataforma comum estabelecida a nível da grande comunidade.
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Mas o Primeiro-Ministro entende que a preocupação central do Estado é a própria democratização. E esta passa pela realização de plúrimo desígnio vertido em projetos, a saber:
- Antes de mais, vem o esforço para “reduzir as desigualdades e garantir a todos iguais oportunidades de realização pessoal”. E Costa verifica que as crianças que frequentam a educação pré-escolar (Fala em ensino, mas nesta fase, trata-se propriamente de educação, que pressupõem um acompanhamento fortemente individualizado) “têm maior sucesso escolar”; “os Jovens que estão no ensino profissional têm mais oportunidades de obter um trabalho mais qualificado”; “os que acedem ao ensino superior têm mais oportunidades de ter um emprego melhor”; e “os adultos que frequentam ações de formação melhoram as perspetivas de progredir na sua carreira ou de reencontrarem trabalho se estiverem desempregados”.
- Face a tais pressupostos, o Chefe do Governo, denuncia o défice de conhecimento e, acreditando “que o conhecimento é a chave para o nosso futuro”, o Governo fixou como objetivo fundamental a generalização da educação pré- escolar a todas as crianças a partir dos 3 anos de idade e lançou o programa Qualifica, “dirigido especialmente à educação e formação dos adultos”. Com efeito, o Governo pretende “construir uma sociedade decente em que todos possam aceder ao conhecimento”. E, em prol duma “cidadania exigente e informada”, de “melhores empregos”, de “empresas mais produtivas” e de “uma economia mais competitiva”, há que “investir na cultura e na ciência, na educação e na formação ao longo da vida”.
- Todavia, a preocupação de promoção da cidadania condigna passa pela “erradicação da pobreza”, com “prioridade ao combate à pobreza infantil”. Para tanto, o Governa quis e quer alargar “a majoração do abono família às crianças até aos 3 anos”.
- Por outro lado, não querendo que “ninguém fique para trás”, cada agrupamento escolar tem o seu instrumento de promoção do sucesso escolar, que António Costa quer que se torne “sucesso educativo” e está em vigor “um novo modelo de avaliação que se preocupa em detetar, o mais cedo possível, as necessidades educativas de cada criança” e está em marcha “um grande programa de formação digital dirigido, em especial, a licenciados em áreas com baixa empregabilidade”.
Por opção do Governo, “a escola pública é a garantia universal de uma educação de qualidade”, assim como “o Serviço Nacional de Saúde garante a todos o acesso aos melhores cuidados de saúde”. Mas não sei se o Governo conseguirá, sobretudo na área da saúde, britar a contenda ideológica e a dos interesses, como não sei se o Ministério da Educação não verá frustradas as suas intenções em equilibrar o mérito da escola pública e da escola privada, dado que a escola pública é, muitas vezes, palco de desinteresse, indisciplina, comportamentos desviantes, sem que se consigam tomar atitudes corretivas e dissuasoras, que passam pela recuperação e reforço da autoridade dos docentes, a quem todos querem dar ordens. E que dizer da instalação de largos e fundos negócios em torno da saúde?  
Alguns não gostaram de ouvir Costa dizer que “o nosso maior e verdadeiro défice, quando comparamos Portugal com os outros países Europeus, é o do conhecimento”. E parece que o próprio se contradisse ao aduzir:
“Os excelentes resultados recentemente alcançados, em estudos internacionais, revelam o sucesso do esforço, da dedicação e da qualidade dos nossos alunos, educadores e professores e o investimento continuado que as famílias e o País têm feito desde o 25 de Abril, na cultura e na educação, na ciência e na formação, para vencermos este atraso histórico”.
E essa contradição aparece reforçada quando diz:
“Foi este investimento no conhecimento que permitiu recuperar setores como o calçado ou o têxtil, que melhorou a qualidade dos nossos produtos agrícolas e dos serviços turísticos e que nos abriu as portas para novos setores como o automóvel, as energias renováveis e para as enormes oportunidades da nova economia digital”.
Com efeito, alguns dizem que os estudos valem o que valem; outros querem apropriar-se do mérito dos resultados. Recordo que Nuno Crato quis reivindicar recentemente a paternidade do sucesso internacional dos alunos de 15 anos (em 2015), em que se ultrapassou a média europeia nos testes de Leitura e Ciência e se atingiu tal média em Matemática. E recordo que Maria de Lurdes Rodrigues também em 2009 quis, com base num alegado relatório da OCDE (todo ele fabricado em Portugal), apresentar o mérito imediato das suas políticas educativas, nomeadamente aulas de substituição, divisão da carreira dos professores, consignação de objetivos de nível nos projetos educativos. Ora, toda a gente sabe que uma reforma educativa produz frutos a longo prazo, coisa que Lurdes não teve em conta. E Crato esqueceu que aqueles alunos de 2015 não passaram pelas provas finais no 4.º ano e no 6.º ano, como esquece que os testes PISA não incidem sobre programas de ensino em nenhuma daquelas áreas (até porque eles diferem grandemente de país para país), mas sobre competências que os organizadores entendem como essenciais para aquele nível etário e escolar – conclusão do ensino básico ou equivalente. Mais: nem todos os alunos são sujeitos aos preditos testes.
Entretanto, Costa faz justiça mais equitativa: o progresso deve-se a todo o esforço crescente de décadas e dos diversos agentes. E entende que “é este o caminho que temos de prosseguir”.  
Para tanto, há que formar as diversas gerações e melhorar “os mecanismos de transferência do conhecimento para as empresas”, o que postula o aumento dos “empregos de qualidade que ofereçam confiança no futuro à geração mais qualificada que Portugal já formou” e que não queremos que “seja forçada a emigrar”, pois “precisamos destes jovens”.
Sabendo que “a pobreza e a precariedade laboral são as maiores inimigas de uma melhor economia”, teremos de obter “melhores empresas” e “com melhores empregos”.
E o Primeiro-Ministro entende que, “neste Natal, quando as famílias se reúnem”, nos devemos lembrar de que “a melhor prenda que podemos dar aos nossos filhos, sobrinhos ou netos é o futuro de uma sociedade digna em que todos possam aceder ao melhor conhecimento”, sendo para isso que “trabalhamos e trabalham no dia a dia os auxiliares, professores e educadores”, “com o sentido de serviço à comunidade”, próprio de todos “os que asseguram os diversos serviços públicos”. E deixa uma palavra especial de apreço às Forças Armadas, às Forças de Segurança, aos serviços de emergência e a todos os Portugueses que se encontravam a trabalhar, na noite de Natal, muitos no estrangeiro, longe das suas famílias.

2016.12.26 – Louro de Carvalho