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sábado, 18 de janeiro de 2020

Está a crescer um “novo Islão” na Europa


Quem o diz é Catarina Belo, católica, filha do poeta Ruy Belo e de Maria Teresa Belo e, há 14 anos, professora de Filosofia Islâmica Medieval no Egito.
Em entrevista à Ecclesia e à Renascença, publicada a 17 de janeiro, assegura que “o terrorismo é sobretudo político e tem nos muçulmanos as primeiras vítimas”, advoga que “o conhecimento é a via para criar aproximações com o mundo islâmico, sublinha a importância das lideranças religiosas na promoção da paz e analisa o crescimento do islamismo na Europa, em contexto minoritário”, mas mais “pluralista” e com novas experiências “até teológicas”.
Descobriu o gosto pela Filosofia na biblioteca da família. O que a levou à especialização em filosofia islâmica medieval foi o interesse pela história de Portugal, onde sobressai a presença da filosofia islâmica,  e o facto de o Médio Oriente estar nas notícias há várias décadas, reconhecendo que se trata duma “área que ainda precisa de mais investigação e de estudo”, pois “ainda há muita coisa para fazer”, de modo que “quem se quiser dedicar tem ali muito trabalho e temas muito interessantes”. Por outro lado, diz que tem havido um interesse crescente a nível académico em saber mais sobre o mundo islâmico, referindo: 
Por exemplo, quando aconteceu o 11 de Setembro eu estava a fazer o doutoramento em Oxford e os pedidos de inscrição em cursos de estudos árabes e islâmicos dispararam nessa altura”.
Frisa que houve mais interesse a partir de 2001. “Foi uma situação crítica, mas “o interesse continua, justamente por causa das notícias”.
Tem acompanhado o conflito EUA-Irão, pois vive no Médio Oriente e trabalha numa universidade americana, “lugar de interação entre esses dois mundos” (ocidental e islâmico) e entre os colegas egípcios e os colegas americanos. E, sobre os pontos de vista diferentes, discorre:
No Médio Oriente há a ideia de que nada acontece por acaso, não sei se tem a ver com uma perspetiva mais religiosa, mas eles acham sempre que há uma intenção, que nada acontece por acaso. Depois há outras questões, já de várias décadas, como a questão de Israel, que é uma questão muito sensível.”.
Diz que as diferenças culturais e de pensamento se manifestam no dia a dia, não apenas a nível político, mas a todos os níveis, explicitando:
Na universidade americana não há só alunos muçulmanos, também há cristãos e de outras religiões, porque temos várias nacionalidades. Por exemplo, temos alunos libaneses que pertencem a vários grupos cristãos e islâmicos.”.
É verdade que há uma maneira diferente de pensar e encarar as coisas, mas “também há muitos pontos em comum”. E as diferenças não impedem a convivência, como explica:
Sobretudo na sala de aula e falando sobre certos temas. A minha investigação é mais sobre a filosofia medieval, mas há muitos alunos interessados em ciências políticas e sociologia e aí são as questões da atualidade que vêm ao de cima.”.
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Questionada sobre se o terrorismo mina definitivamente a confiança do Ocidente em relação ao mundo árabe, não hesitou na resposta: 
O terrorismo pode ser analisado a vários níveis. Pode ser um terrorismo estatal, mas a maior parte dos grupos que são estudados agora, a Al Qaeda ou o Estado Islâmico, não são grupos estatais – se bem que o ISIS estava a tentar ser um Estado, o Estado Islâmico, e replicar o califado. Mas depende, pode ou não haver ligações com o Estado, e há vários tipos de terrorismo. Alguns grupos acham que estão a resistir, eles próprios não se autodenominam ‘terroristas’, acham que é uma resistência a certas agressões.”.
Quanto ao juízo de valor sobre tal resistência e se tem fundamento no Islão, opina dizendo:
Acho que é mais uma questão política. Por exemplo, o Hezbollah surgiu especificamente como movimento de resistência à ocupação do Líbano por Israel, ocupação da parte de Beirute e do sul do Líbano. Eles têm o seu próprio discurso, a sua narrativa e maneira de ver as coisas. Mas o terrorismo é um fenómeno muito complexo, com muitos atores.”.
Admite que haja preconceito por parte do Ocidente em relação ao Islão em alguns aspetos, mas não deixa de esclarecer que “também há vários tipos de Islão”. E explica:
Por exemplo, os Estados Unidos há muito tempo que são aliados da Arábia Saudita, que é um país maioritariamente sunita. Portanto pode haver uma união política havendo uma visão religiosa diferente, é perfeitamente possível. Por isso é que eu acho que a questão política talvez seja mais importante, ou mais saliente quando há confrontos. Claro que a religião está relacionada, mas é uma religião misturada com política, não é só religião.”.
Interpelada quanto à ignorância em relação ao mundo islâmico, mais que preconceito, expõe:
É importante conhecer a religião e a diversidade religiosa desses países. Por exemplo, o Líbano reconhece oficialmente 18 grupos religiosos diferentes, 12 cristãos e seis islâmicos. É um país que em termos de território é um décimo de Portugal, e é impressionante a diversidade religiosa. Portanto, é importante conhecer a diversidade – os países são diferentes, os grupos religiosos são diferentes, até os grupos cristãos são diferentes – e conhecer a história.”.
Depois, fala da importante questão do colonialismo, em relação às fronteiras dos países no Médio Oriente, que ainda permanece, lembrando:
Há um século terminava o Império Otomano, e havia uma conceção completamente diferente da comunidade islâmica. Por isso, é muito importante conhecer a história, conhecer os diversos tipos de religião ou grupos religiosos.”.
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Os entrevistadores quiseram saber se, na opinião de Catarina Belo, matar Soleimani  dirigente do Irão, país de maioria xiita, revela inabilidade e falta de conhecimento por parte do presidente dos EUA, ao que a entrevistada responde com conhecimento de causa e segurança: 
Foi um ataque a um nível muito alto…. Atacar assim era como se os iranianos de repente enviassem um drone e matassem o vice-presidente dos EUA, acho que os Estados Unidos nunca esperariam que lhes acontecesse isso a eles. Isto só vai exacerbar os problemas, os próprios iranianos disseram que pode enfraquecer momentaneamente o Irão, mas vai fortalecer alguns grupos radicais sunitas, como a Al Qaeda, ou o Estado Islâmico. É uma situação muito complexa.”.
A seguir, ataca a incoerência de Trump, observando:
Ele há de ter os seus conselheiros, mas não há muita coerência, porque por um lado o presidente Trump queria diminuir a presença militar dos Estados Unidos no Médio Oriente, retirar tropas do Afeganistão, depois volta a colocar. A mesma coisa no Iraque, dizem que vão retirar, depois voltam. Julgo que há uma falta de consistência e de visão em relação àquilo que é a realidade.”.
Admite que será a proximidade das eleições nos Estados Unidos que está a motivar esta manifestação de força, pois, “quando há eleições, a situação altera-se e ajusta-se sempre aos objetivos eleitorais, não só nos Estados Unidos, também noutros países”.
Reconhece que “não é possível olhar para estes conflitos sem ter em conta a religião e até a filosofia” e especifica denunciando um certo atraso cultural e as diferenças entre os islamitas:
A religião, a filosofia e até a teologia também é muito importante. E há uma ligação entre a teologia e a filosofia, como na Idade Média e na Europa. São questões muito importantes. E, se o sunismo é um pouco mais homogéneo, dentro do xiismo há vários grupos, se bem que neste momento estão unidos. Por exemplo, o presidente sírio Bashar Al Assad não pertence ao mesmo grupo xiita dos iranianos, mas estão mais próximos uns dos outros do que dos sunitas. Portanto, há toda esta complexidade.”.
Tais diferenças e divisões dificultam que o Islão seja visto como uma religião de paz, diz, “na medida em que há conflitos entre muçulmanos no Médio Oriente”. Porém, em sua opinião, apesar dos ataques na Europa e na América do Norte e noutros países, “as primeiras vítimas do terrorismo de caráter islâmico são os próprios muçulmanos”, bem como as minorias cristãs – isto devido aos conflitos entre diferentes grupos muçulmanos.
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Também comenta o papel dos líderes religiosos na promoção da paz:
São muito importantes! Os apelos do Papa e também do líder da Al-Azhar, a Universidade e a mesquita, Ahmed el-Tayeb, que assinou o documento nos Emirados Árabes Unidos. É uma mensagem de paz! As coisas podem começar pelos crentes, mas é muito importante haver esta mensagem dos líderes religiosos em relação à paz.”.
Reconhece como desejável que os líderes islâmicos tenham um papel mais ativo, mas aponta uma dificuldade: os muçulmanos não têm a mesma unidade que os católicos: para os católicos o Papa fala por todos, ao passo que, no mundo islâmico não há uma figura equivalente. E diz:   
No Islão, cada muçulmano pode representar todo o Islão e a questão da autoridade é diferente, como é diferente no sunismo e no xiismo. Há o grande Íman da mesquita de al-Azhar (…), mas não é equivalente ao Papa. Tem as suas posições, condena sempre estes atentados, mas cada muçulmano pode seguir a opinião que desejar.”.
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Sobre o seu modo de ser católica no Egito, conta:
Há questões práticas: no centro há muitas igrejas católicas. E também poderia ir às igrejas coptas. Mas, eu moro no novo Cairo e a igreja mais próxima está a uns 15 quilómetros. De resto não há problema.”.
De no atinente ao nível de convivência, regista:
É muito interessante ver a diversidade que existe, com a presença dos cristãos do Médio Oriente, os melquitas, os caldeus… É impressionante essa diversidade. Há uma unidade teológica, mas o culto é ligeiramente diferente. É uma experiência muito interessante. Em relação aos coptas, há os coptas ortodoxos, que seguem o Papa [Patriarca] de Alexandria, e há os coptas católicos, porque algumas dessas igrejas orientais decidiram unir-se à Igreja Católica. É uma grande riqueza.”.
Julga que, de momento, está melhor, no Egito, a relação entre a maioria muçulmana e as minorias cristãs, havendo “uma tentativa do atual Governo de defender a minoria cristã, de haver um equilíbrio entre as várias comunidades”. E diz sentir-se segura a viver no Cairo, apesar de o Egito ter sido palco de atentados, alguns contra cristãos.
Também diz que “até agora não houve problemas” em trabalhar na universidade americana, apesar de esta ser mais um alvo. E aponta:
Quando vamos para a Universidade, temos de passar as bolsas (malas) pelo raio X. Dizem que é mais uma questão de defender os alunos de ataques como os que há nos EUA, nas escolas secundárias…”.
Por outro lado, fala de algumas cautelas e do facto de ser mulher a viver no Egito:
É quase o melhor de dois mundos: por um lado trabalho numa universidade americana e, sendo estrangeira, não há a expectativa de seguir os preceitos islâmicos. Claro que é preciso respeitar, não vestir de certas maneiras, isso é importante! Mas, ao mesmo tempo, achar que a mulher não deve ser exposta e explorada de uma certa maneira, isso é muito saudável. Eu sinto-me lindamente!”.
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No respeitante à ‘Primavera Árabe’ que acompanhou, pois, vive no Egito desde 2006, observa que a região, de um modo geral, se tornou “um pouco mais instável por causa da guerra na Síria, na Líbia, que fica logo ao lado do Egito”, mas que “há experiências importantes na Tunísia”. E faz a seguinte valoração:
Foi uma experiência importante. Mas agora as pessoas são cautelosas, justamente em relação aos problemas que surgiram nalguns países. A situação mudou, de novo.”.
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Sendo-lhe recordado que, a partir de hoje, dia 18, as igrejas cristãs assinalam a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, evocando a realidade dos migrantes e refugiados que tentam chegar à Europa e acabam vítimas de naufrágios no Mediterrâneo,  explana:
Nós vemos as coisas na perspetiva europeia e os migrantes a tentarem chegar à Europa. Mas o Egito também acolhe muitos refugiados, do Sudão, por exemplo, da Eritreia, da Síria. (…) O Egito tem uma população que ultrapassa os 100 milhões e conseguiu absorver esses refugiados.”.
Não se pronuncia sobre a posição oficial da Europa por não ter certezas, mas concede:
Naqueles países é mais difícil controlar as fronteiras. Talvez haja mais recetividade em relação aos migrantes. Por exemplo, o Líbano tem uma população de quatro milhões e agora mais um milhão de sírios, o que veio desestabilizar muito o país e economia. Apesar disso, não expulsam esses migrantes sírios. Ainda por cima sendo da Síria, que ocupou o Líbano durante anos. Há uma posição menos formal e mais acolhedora nesses países.”.
Confrontada com uma criminalização da assistência humanitária por parte de alguns países, julga que se trata de choques culturais a que estamos a assistir e acusa:
Ainda não há uma posição unida da Europa, dos vários países. Isso cria problemas, porque alguns estão mais expostos ao fenómeno da migração no Mediterrâneo, teria de haver mais acordos em relação à Europa do Norte. Cada país tem governos e posições diferentes em relação às migrações.”.
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Por fim, comenta o aumento considerável da população e o impacto que isso terá na Europa a nível cultural e religioso, aflorando a emergência de um novo Islão. E começa por referir:
Parece-me que a maioria dessa população está a integrar-se (depende do sítio onde vivem, dos países, das circunstâncias) e acabam por seguir o secularismo: praticam a religião, mas não a impõem. Por exemplo, em Londres há um Mayor (presidente da câmara) muçulmano. E não temos de ter receio disso.”.
Será, como sugerem os entrevistadores, um Islão com características muito específicas o que se vive na Europa, um Islão diferente, até com “certos desenvolvimentos teológicos que são muito diferentes, por haver um contexto político diferente”, um Islão que tem de se adaptar. Com efeito, se “no Médio Oriente os muçulmanos são maioritários, na Europa são minoritários e as circunstâncias políticas são diferentes”. Assim, a entrevistada considera que “há outras experiências, até em termos teológicos, de pensar a integração e como viver o Islão em contexto minoritário e em certos aspetos mais pluralistas”. E, a este nível do pluralismo, entende como bom exemplo o de Portugal no âmbito da liberdade religiosa e no acolhimento aos refugiados. “Os vários grupos religiosos, diz, estão representados cá e Portugal tem acolhido”: “não estamos tão expostos como a Espanha”.
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Adicionalmente, porque interpelada sobre o assunto, disse que o projeto de criar a ‘Casa Ruy Belo’, em Óbidos, uma residência para escritores, está a avançar. E detalhou:
Estive em contacto há pouco com um represente da câmara que me diz que as obras estão a avançar e possivelmente no verão vai ser possível inaugurar a ‘Casa Rui Belo’. (…) O espólio ainda está onde estou a morar (casa de família em Queluz) e ainda não está todo catalogado e organizado. Houve uma parte da biblioteca que já seguiu para Óbidos. Eu própria fiz a catalogação desses exemplares, mas há espólio que ainda está à espera de ser catalogado e espero que surja uma oportunidade.”.
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Assim, espera-se que a ‘Casa Ruy Belo”, o poeta que o Cardeal José Tolentino Mendonça já considerou “um dos escritores mais espirituais do século XX português”, constitua uma mais-valia cultural e literária para o país e para os escritores mais desamparados. E, quanto ao Islão, espera-se que o futuro dê inteira razão a Catarina Belo e que sejam desmentidas na realidade as informações que chegam de países de extrema intolerância, como a Arábia Saudita, e as notícias de ódio que se dizem vir de alguns setores, incluindo escolas.
A paz merece tudo de bom. A família humana tem de cavar o diálogo e o entendimento!
2020.01.18 – Louro de Carvalho 

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Neste dia de 2019, dia de São Bento de Núrsia, padroeiro da Europa


São Bento, eremita, monge e fundador de mosteiros
Neste dia 11 de julho de 2019, recorda-se, festeja-se e celebra-se São Bento Abade, padroeiro principal da Europa e patriarca dos monges do Ocidente, cujo lema é o “Ora et labora” (ora e trabalha) e que, por seu legado e influência, é um dos santos mais venerados de toda a cristandade, venerado não apenas por católicos, como também por ortodoxos e anglicanos.
A fonte da sua biografia é os Diálogos de São Gregório Magno, de cerca de 593, com base em factos narrados por monges que conheceram São Bento. Segundo tal documento, Bento era filho dum nobre romano e nasceu na região de Núrsia (perto de Espoleto, Itália), em 480, com sua irmã gémea Santa Escolástica. Depois de estudar retórica e filosofia em Roma, retirou-se para Enfide (presentemente, Affile) para aprofundar o estudo e se dedicar à disciplina ascética. Aos 20 anos, seduzido e impelido pelo Espírito, foi para o Monte Subiaco e, ajudado por um abade da região chamado Romano, instalou-se numa caverna de difícil acesso, onde viveu sob a orientação dum eremita. Depois de ter vivido três anos nesse lugar, dedicando-se à oração e ao sacrifício, foi descoberto por alguns pastores, que divulgaram a fama da sua santidade. A partir daí, passou a ser visitado constantemente por pessoas que buscavam conselhos e direção espiritual.
Anos mais tarde, foi para o centro da península itálica com os monges de Vicovaro, que depois o elegeram prior. Não durou muito tempo a convivência sadia entre os monges, que tentaram envenená-lo devido à disciplina que exigia. Mas, como era seu costume, Bento fez o sinal da cruz sobre o vidro que lhe tinham dado e o objeto quebrou-se em pedaços. Depois de os fazer cair em si sobre o que fizeram, afastou-se deles, retornando à vida solitária para viver consigo mesmo: habitare secum. E um grupo de jovens, atraídos pela sua fama e impressionados pelo seu exemplo de cristão, decidiu seguir-lhe o exemplo, pelo que Bento organizou para eles a vida cenobítica, inicialmente em 12 pequenos mosteiros à volta de Subiaco e, depois, no cenóbio de Monte Cassino. Escreveu uma Regra que resume sabiamente a tradição monástica oriental e a adapta ao mundo latino. Esta escola de “serviço ao Senhor” (opus Dei) é construída à volta da Palavra de Deus (Lectio divina), da Liturgia de louvor realizada em coro e do trabalho em ambiente de fraternidade e serviço humilde e obediente. E criou centros de formação e cultura.
A Regra inspirou a redação de inúmeros regulamentos de comunidades religiosas monásticas.  
São Bento era muito conhecido pelo trato amável e pelos seus sacrifícios. Levantava-se de madrugada para rezar os salmos. Rezava e meditava durante várias horas, jejuava diariamente e ajudava os povoados com a pregação. Por outro lado, via o trabalho como algo honroso que levava à santidade. Ao mesmo tempo, consolava os doentes, dava esmolas e alimento aos necessitados e em algumas ocasiões “ressuscitou” mortos com a ajuda de Deus.
Encontrou o seu amor e a sua força no Cristo crucificado e, como exorcista, submetia os espíritos malignos com a famosa “cruz de São Bento”. O santo previu a data da sua morte, que ocorreu em 21 de março 547, em Monte Cassino, aos 67 anos de idade, poucos dias depois do falecimento de sua irmã Santa Escolástica. Morreu de pé na capela com as mãos levantadas para o céu. “Deve-se ter um imenso desejo de ir para o céu”, foram suas últimas palavras.
No fim do século VIII, começou a celebrar-se-lhe a festa no dia 11 de julho, data que prevaleceu no calendário litúrgico. As suas relíquias conservam-se na cripta da Abadia de Saint-Benoît-sur-Loire (Fleury), próximo de Orleães e Germigny-des-Prés, no centro da França.
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A Ordem de São Bento (OSB) e a Regra
A Regula Benedicti, composta em 629 para a abadia de Monte de Cassino, na Itália, por São Bento, preceituava a pobreza, a virgindade, a obediência, a oração e o trabalho, bem como a obrigação de hospedar peregrinos e viajantes nos seus mosteiros, dar assistência aos pobres e promover o ensino. Por este último motivo, ao lado dos mosteiros, havia a escola, razão pela qual a Ordem se tornou num dos centros culturais da Idade Média, com as suas bibliotecas reunindo o que restara das obras e ensinamentos da Antiguidade.
A Ordem, que se baseia na observância dos preceitos destinados a regular a convivência social, é considerada como a iniciadora do movimento monacal e terá verdadeiramente tomado impulso a partir da reunião de vários mosteiros que professavam a regra escrita por São Bento. Mais tarde, os monges desta Ordem passaram a ser conhecidos como beneditinos, monges OSB (Ordo Sancti Benedicti). Hoje, a Ordem está espalhada por todo o mundo, com mosteiros masculinos e femininos (de monges e monjas de clausura).
Durante o transcurso da sua história, a ordem Beneditina sofreu numerosas reformas, devido à eventual decadência da disciplina no interior dos mosteiros. A 1.ª reforma importante foi levada a cabo por São Juan De Perez Lloma no século X. É a Reforma Cluniacense (de Cluny, lugar da França onde se fundou o primeiro mosteiro desta reforma), que chegou a tomar um tão grande impulso que, durante grande parte da idade Média, praticamente todos os mosteiros beneditinos estavam sob o domínio de Cluny. Os cluniacenses adquiriram grande poder económico e político e os abades mais importantes chegaram a fazer parte das cortes imperiais e papais. Vários pontífices romanos foram beneditinos provenientes dos mosteiros cluniacenses. Ora, tanto poder levou à decadência desta reforma, que encontrou uma importante contraparte na Reforma Cisterciense, de Cister, na França, onde se fundou, em 1098, o seu 1.º mosteiro por obra de São Roberto de Molesmes, Santo Estêvão Harding e São Roberto de Chiese-Dieu. Queriam afastar-se do estilo cluniacense, que caíra na indisciplina e no relaxamento. O principal objetivo dos fundadores de Cister era impor a prática estrita da regra de São Bento e o regresso à vida contemplativa. O principal impulsionador dessa reforma foi São Bernardo de Claraval (1090-1153), discípulo dos fundadores de Cister, tendo ingressado ali por volta de 1108. Foi encarregado da fundação da Abadia de Claraval, de que foi abade uns 38 anos, até à sua morte. Bernardo, que pregou a II Cruzada, converteu-se no principal conselheiro dos papas e vários dos seus monges chegaram a ocupar a sede pontifícia. Ao falecer, levava fundados 68 mosteiros da sua ordem.
A reforma cisterciense subsiste como Ordem Beneditina independente, dividida igualmente em dois ramos: a Ordem Cisterciense da Comum Observância (O. Cist.) e a Ordem Cisterciense da Estrita Observância (O.C.S.O.), também conhecida como a dos trapistas, chamados “beneditinos brancos”, devido à cor do seu hábito religioso, em contraste com os demais monges da Ordem de São Bento, chamados de “beneditinos negros”.
Durante a idade Média, surgiram outras reformas importantes da Ordem Beneditina. A de São Romualdo (†1027), que iniciou a Reforma Camaldulense, que subsiste até hoje em dois ramos: o 1.º faz parte da Confederação Beneditina (beneditinos negros); o 2.º é independente, mas rege-se igualmente pela regra de São Bento. Outra reforma importante foi a empreendida por São João Gualberto (†1073), que fundou os Beneditinos de Valle Umbrosa (valambrosianos), pelo lugar na Itália em que se construiu o 1.º mosteiro desta reforma, que é hoje uma congregação da Confederação Beneditina. A Reforma de São Silvestre Gozzolini (1177-1267), que fundou os beneditinos de Montefano (silvestrinos), subsiste como congregação associada à Confederação Beneditina. E a Reforma do Beato Bernardo Tolomei (1272-1348) deu origem aos Beneditinos de Monte Oliveto (olivetanos), hoje parte integrante da Confederação Beneditina.
Após agitados períodos da história, como a Reforma na Alemanha e nos Países Baixos, a expulsão ou execução de religiosos católicos pelo rei Henrique VIII na Inglaterra, o período revolucionário na França e a decadência da disciplina nos mosteiros, ocorreu uma redução drástica da população monacal. Após a Revolução Francesa, Dom Prosper Guéranger fez renascer a ordem beneditina em Solesmes, na França, a partir de 1833.
Durante vários séculos, a Ordem fundada por São Bento em 529 no Monte Cassino foi uma das mais famosas no Ocidente. Comprometidos com o voto de pobreza, o amor a Deus e ao trabalho, os monges eram exemplo de prestígio e prosperidade. Nos mosteiros, o tempo não se gastava só em contemplação, porque a ociosidade (como defendia o fundador) era a maior inimiga da alma. Os monges, entregues a Deus e ao trabalho manual, em regime de pobreza voluntária e castidade absoluta, eram engenhosos cultivadores das terras que lhes eram doadas por reis e devotos, leitores atentos de livros santos e hábeis copistas de obras antigas, sagradas e profanas.
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A Ordem Beneditina em Portugal
Terá sido por volta do século XI que os beneditinos entraram na Península Ibérica, ainda Portugal não era reino independente, desempenhando um importante papel no povoamento do território aquando da Reconquista. Localizados sobretudo na província de Entre Douro e Minho, os mosteiros eram centros dinamizadores da sociedade, pois a comunidade monacal tinha o dever de ensinar técnicas agrícolas e outros ofícios e, claro, garantir a prática espiritual dos preceitos cristãos. O contributo destes frades para a expansão cultural e para o aumento da riqueza pública foi reconhecido em toda a Europa.
Em Portugal, a casa-mãe da Ordem de São Bento era o Mosteiro de Tibães, em Braga. 
A introdução da Regra de São Bento no território português, como documento normativo de disciplina monástica, fez-se a partir do Concílio de Coyanza (1050/55?), Leão, Espanha, embora fosse conhecida como documento de espiritualidade. Aderiram, então, à beneditização diversos mosteiros de observância autóctone (Regra de São Frutuoso) na região do Entre Douro e Minho. Alguns monges, vindos de França (São Geraldo de Braga e Dom Bernardo de Coimbra), foram ordenados bispos, mas, ao longo da Idade Média, a Ordem Beneditina experimentou certo relaxamento, atingida pela praga dos abades comendatários (que levaram os conventos à ruína).
Após o Concílio de Trento (1563) e algumas tentativas de reforma, seria o rei Dom Sebastião a favorecer a reformação monástica. Com o auxílio dos monges reformados de Castela, graças à ação de Frei Pedro de Chaves e Frei Plácido Vilalobos, o Papa Pio V, por bulas de 1566 e 1567, executadas pelo Cardeal Dom Henrique, instituiu a Congregação dos Monges Negros de São Bento dos Reinos de Portugal. A partir do Mosteiro de Tibães, regido pelo Abade Geral com Capítulo Geral e abades trienais, a Ordem fundou mosteiros em Lisboa, Santarém e Porto, além de reformar alguns dos já existentes, contando 22 abadias na Metrópole e estendendo-se para o Brasil desde 1580/81, onde contou 11 mosteiros (entre eles, os de Baía, Rio de Janeiro, Olinda, Paraíba, São Paulo, Brotas). A partir da instituição da Congregação, os monges portugueses restauraram os mosteiros, reformaram a disciplina e observância monásticas, entregaram-se ao estudo, mesmo na Universidade, e à pregação, até que, em 1834 (por decreto de 28 de maio, publicado em 30, assinado por Dom Pedro IV), se deu a extinção das Ordens Religiosas pelo Liberalismo.
A restauração monástica na época moderna começou por obra e graça dum monge do Rio de Janeiro, de nacionalidade portuguesa, Dom Frei João de Santa Gertrudes Leite de Amorim (1818-1894), primeiro e transitoriamente em Paço de Sousa (1865), depois, em definitivo, no antigo mosteiro de Cucujães (1875), feito Priorado Conventual (29/7/1876) e elevado a abadia (8/6/1888). Foi daqui que, ajudados por monges de Beuron, fundaram Singeverga e, depois de anos sob a tutela do Mosteiro de São Paulo Extra-Muros, Roma, se integraram na Congregação de Beuron, em 1904, donde passariam, em 1931, para a Congregação da Anunciação. Por seu turno, os monges de Singeverga patrocinaram a fundação dos mosteiros de beneditinas: Mosteiro de Santa Escolástica (Roriz, Santo Tirso); e Mosteiro das Beneditinas Missionárias de Tutzing (Baltar Paredes).
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O interesse da europa por um santo do século VI
Em 1957, 6 países europeus ratificaram o Tratado de Roma, que abrange dois tratados: Tratado Constitutivo da Comunidade Económica Europeia (CEE); e Tratado Constitutivo da Comunidade Europeia da Energia Atómica (Euratom). Em 1964, na sagração da Basílica do Mosteiro de Monte Cassino, destruído em 1948, aquando da II Guerra Mundial, Paulo VI declarou São Bento padroeiro principal da Europa. Que terá a ver com a Europa de hoje um santo do século VI (480-547)? Para o Padre Geraldo Coelho Dias, beneditino, o santo que escreveu a regra monástica com o seu nome deu origem à Ordem dos Monges Beneditinos, a única na Europa Ocidental anterior ao ano mil e que “chegou ativa e viçosa aos tempos modernos”. Os beneditinos têm uma trajetória histórica que atravessa os tempos e acompanha, “de forma decisiva, a formação da Europa Ocidental e Cristã”. É pela ação dos seus monges que São Bento merece o título de Padroeiro da Europa. Os seus seguidores foram os obreiros das linhas de rumo desta Europa. Os seus instrumentos de ação foram a Cruz do Evangelho, que pregaram e sob a qual viveram; o Livro da Cultura, que conservaram e transmitiram a partir dos seus scriptoria e bibliotecas; e o arado com que arrotearam e lavraram as terras e ensinaram a cultivar. Apesar da vida comunitária no mosteiro, os beneditinos não deixaram de ser apóstolos do Cristianismo e foram, por missão da igreja, os primeiros evangelizadores e missionários da Europa: São Vilfrido e São Bento Biscop (na Inglaterra); São Bonifácio (na Alemanha); São Vilibrordo (nos Países Baixos); São Pirmino (nos Alamanos); e São Anscário (nos Países Escandinavos). São Bento prescrevia aos monges uma vida de pobreza, castidade e obediência, sob a orientação monástica de um abade, cuja palavra era lei. Luís, o Piedoso, imperador carolíngio entre 814 e 840, encorajou os monges a adotarem a Regra. A Regra foi formulada quando Bento era abade de Monte Cassino (no Sul de Itália), abadia fundada em 529 e que continua a ser um dos grandes mosteiros do Mundo. Bento foi o seu 1.º abade e foi ele quem estabeleceu o modelo de autossuficiência advogado pelas primitivas regras monásticas – dependência total dos próprios campos e oficinas – que orientou durante séculos os mosteiros da cristandade ocidental. Nos antigos mosteiros beneditinos, a vida era totalmente comunitária. A rotina diária centrava-se naquilo a que Bento chamava trabalho de Deus (“opus Dei”) – demorados ofícios de crescente complexidade (O resto era secundário). O trabalho manual que a regra estipulava existia para fornecer aos frades alimentação e vestuário e satisfazer-lhes outras necessidades, bem como para evitar a ociosidade e lhes alimentar a alma mediante a disciplina do corpo. Posteriormente, quando as abadias enriqueceram, sobretudo através de doações de fiéis devotos, os dormitórios comunitários foram substituídos por celas individuais e foram contratados trabalhadores para o cultivo dos campos, o que permitiu a muitos monges dedicarem-se a outras atividades, nomeadamente o estudo, graças ao qual a Ordem viria a ser tão justamente célebre. Nos jardins murados, os monges cultivavam ervas medicinais; e ocorreu-lhes a ideia de adicionar algumas ervas à aguardente, inventando assim o licor beneditino. Pode parecer estranha esta associação do monaquismo com o luxo das bebidas alcoólicas, mas o vinho sempre foi permitido aos beneditinos. Ligava bem com as suas refeições simples, constituídas essencialmente por pão, ovos, queijo e peixe. Embora a carne fosse proibida nos primeiros séculos, posteriormente algumas abadias adicionaram aos alimentos consumidos aves de capoeira e de caça.
Hoje, 11 de Julho, é dia de São Bento, que Paulo VI chamou “de Missionário da Paz, formador da unidade, mestre da cultura, grande promotor da vida cristã e organizador da vida monástica ocidental”. Não fora sem razão que Pio XII lhe chamou “Pai da Europa”. E, consultada “a Congregação dos Ritos, Paulo VI declarou e constituiu in perpetuum, ante o Deus do Céu, São Bento como Padroeiro Principal da Europa, com todas as honras e privilégios litúrgicos que pelo Direito competem aos padroeiros principais dos lugares.
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A perda dum amigo singular
Este dia fica marcado também pelo falecimento do Engenheiro Técnico Agrário António Humberto de Paiva Matos, com que travei conhecimento, em 1984, na Escola Secundária de Moimenta da Beira, onde ele era professor provisório do então 12.º grupo F e eu entrei como professor profissionalizado do então 8.º grupo A. A partir daí, tornaram-nos muito próximos a amizade e o trabalho em Moimenta da Beira e em Sernancelhe, bem como a atividade pela cidadania, política, formação e cultura. Não esqueço o seu papel no apoio técnico-científico e organizativo aos agricultores, jovens empresários agrícolas, fruticultores, bem como a criação e acompanhamento de associações, de que são exemplo a Associação Portuguesa de Produtores de Avelã e a florescente Associação de Fruticultores da Beira Távora (a que presidia) ou a organização de jornadas agrárias (sobretudo no âmbito da Festa-feira da Castanha em Sernancelhe). E não esqueço a dedicação à política local e a afeição ao Sporting Clube de Portugal.
Nascido em João Belo (hoje cidade de Xai-Xai), Moçambique, a 25 de janeiro de 1953, tinha as raízes (paternas e maternas) em Sever (Moimenta da Beira). Cedo ingressou na vida autárquica, primeiro como Vereador Municipal (1976) e, depois, como Deputado Municipal (1979). Interrompeu a atividade política em 1984 por assumir funções como quadro superior nas Direções Regionais de Agricultura da Beira Litoral (1984-1991) e de Trás-os-Montes (1991-1994).
Voltaria à vida autárquica em 1994 como Adjunto do Presidente da Câmara Municipal de Moimenta da Beira, e depois como Vereador eleito em 1998 até 2009, tendo sido em dois dos Vice-Presidente da Câmara. Mesmo investido nestas funções, foi sempre um apaixonado pela agricultura e a sua modernização no concelho e na região. Era fruticultor e um defensor acérrimo duma agricultura inovadora, preocupado com o estado da lavoura. Segundo a Gazeta Rural, José Eduardo Ferreira, Presidente da Câmara Municipal de Moimenta da Beira, considerou-o sempre “um Grande Homem, de uma dedicação exemplar às causas públicas, ao longo de décadas, nunca deixando esmorecer o seu interesse por tudo o que nos diz respeito, independentemente das circunstâncias ou das funções que exerceu, e foram tantas, umas e as outras”.
Aqui lhe deixo esta menção em homenagem a duas das componentes da mística beneditina que, além de alguma religiosidade e fé, assumiu: a do arado e a da cultura e formação – sempre na ótica do bem-fazer e do apoio ao semelhante.
2019.07.11 – Louro de Carvalho