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sábado, 18 de janeiro de 2020

Está a crescer um “novo Islão” na Europa


Quem o diz é Catarina Belo, católica, filha do poeta Ruy Belo e de Maria Teresa Belo e, há 14 anos, professora de Filosofia Islâmica Medieval no Egito.
Em entrevista à Ecclesia e à Renascença, publicada a 17 de janeiro, assegura que “o terrorismo é sobretudo político e tem nos muçulmanos as primeiras vítimas”, advoga que “o conhecimento é a via para criar aproximações com o mundo islâmico, sublinha a importância das lideranças religiosas na promoção da paz e analisa o crescimento do islamismo na Europa, em contexto minoritário”, mas mais “pluralista” e com novas experiências “até teológicas”.
Descobriu o gosto pela Filosofia na biblioteca da família. O que a levou à especialização em filosofia islâmica medieval foi o interesse pela história de Portugal, onde sobressai a presença da filosofia islâmica,  e o facto de o Médio Oriente estar nas notícias há várias décadas, reconhecendo que se trata duma “área que ainda precisa de mais investigação e de estudo”, pois “ainda há muita coisa para fazer”, de modo que “quem se quiser dedicar tem ali muito trabalho e temas muito interessantes”. Por outro lado, diz que tem havido um interesse crescente a nível académico em saber mais sobre o mundo islâmico, referindo: 
Por exemplo, quando aconteceu o 11 de Setembro eu estava a fazer o doutoramento em Oxford e os pedidos de inscrição em cursos de estudos árabes e islâmicos dispararam nessa altura”.
Frisa que houve mais interesse a partir de 2001. “Foi uma situação crítica, mas “o interesse continua, justamente por causa das notícias”.
Tem acompanhado o conflito EUA-Irão, pois vive no Médio Oriente e trabalha numa universidade americana, “lugar de interação entre esses dois mundos” (ocidental e islâmico) e entre os colegas egípcios e os colegas americanos. E, sobre os pontos de vista diferentes, discorre:
No Médio Oriente há a ideia de que nada acontece por acaso, não sei se tem a ver com uma perspetiva mais religiosa, mas eles acham sempre que há uma intenção, que nada acontece por acaso. Depois há outras questões, já de várias décadas, como a questão de Israel, que é uma questão muito sensível.”.
Diz que as diferenças culturais e de pensamento se manifestam no dia a dia, não apenas a nível político, mas a todos os níveis, explicitando:
Na universidade americana não há só alunos muçulmanos, também há cristãos e de outras religiões, porque temos várias nacionalidades. Por exemplo, temos alunos libaneses que pertencem a vários grupos cristãos e islâmicos.”.
É verdade que há uma maneira diferente de pensar e encarar as coisas, mas “também há muitos pontos em comum”. E as diferenças não impedem a convivência, como explica:
Sobretudo na sala de aula e falando sobre certos temas. A minha investigação é mais sobre a filosofia medieval, mas há muitos alunos interessados em ciências políticas e sociologia e aí são as questões da atualidade que vêm ao de cima.”.
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Questionada sobre se o terrorismo mina definitivamente a confiança do Ocidente em relação ao mundo árabe, não hesitou na resposta: 
O terrorismo pode ser analisado a vários níveis. Pode ser um terrorismo estatal, mas a maior parte dos grupos que são estudados agora, a Al Qaeda ou o Estado Islâmico, não são grupos estatais – se bem que o ISIS estava a tentar ser um Estado, o Estado Islâmico, e replicar o califado. Mas depende, pode ou não haver ligações com o Estado, e há vários tipos de terrorismo. Alguns grupos acham que estão a resistir, eles próprios não se autodenominam ‘terroristas’, acham que é uma resistência a certas agressões.”.
Quanto ao juízo de valor sobre tal resistência e se tem fundamento no Islão, opina dizendo:
Acho que é mais uma questão política. Por exemplo, o Hezbollah surgiu especificamente como movimento de resistência à ocupação do Líbano por Israel, ocupação da parte de Beirute e do sul do Líbano. Eles têm o seu próprio discurso, a sua narrativa e maneira de ver as coisas. Mas o terrorismo é um fenómeno muito complexo, com muitos atores.”.
Admite que haja preconceito por parte do Ocidente em relação ao Islão em alguns aspetos, mas não deixa de esclarecer que “também há vários tipos de Islão”. E explica:
Por exemplo, os Estados Unidos há muito tempo que são aliados da Arábia Saudita, que é um país maioritariamente sunita. Portanto pode haver uma união política havendo uma visão religiosa diferente, é perfeitamente possível. Por isso é que eu acho que a questão política talvez seja mais importante, ou mais saliente quando há confrontos. Claro que a religião está relacionada, mas é uma religião misturada com política, não é só religião.”.
Interpelada quanto à ignorância em relação ao mundo islâmico, mais que preconceito, expõe:
É importante conhecer a religião e a diversidade religiosa desses países. Por exemplo, o Líbano reconhece oficialmente 18 grupos religiosos diferentes, 12 cristãos e seis islâmicos. É um país que em termos de território é um décimo de Portugal, e é impressionante a diversidade religiosa. Portanto, é importante conhecer a diversidade – os países são diferentes, os grupos religiosos são diferentes, até os grupos cristãos são diferentes – e conhecer a história.”.
Depois, fala da importante questão do colonialismo, em relação às fronteiras dos países no Médio Oriente, que ainda permanece, lembrando:
Há um século terminava o Império Otomano, e havia uma conceção completamente diferente da comunidade islâmica. Por isso, é muito importante conhecer a história, conhecer os diversos tipos de religião ou grupos religiosos.”.
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Os entrevistadores quiseram saber se, na opinião de Catarina Belo, matar Soleimani  dirigente do Irão, país de maioria xiita, revela inabilidade e falta de conhecimento por parte do presidente dos EUA, ao que a entrevistada responde com conhecimento de causa e segurança: 
Foi um ataque a um nível muito alto…. Atacar assim era como se os iranianos de repente enviassem um drone e matassem o vice-presidente dos EUA, acho que os Estados Unidos nunca esperariam que lhes acontecesse isso a eles. Isto só vai exacerbar os problemas, os próprios iranianos disseram que pode enfraquecer momentaneamente o Irão, mas vai fortalecer alguns grupos radicais sunitas, como a Al Qaeda, ou o Estado Islâmico. É uma situação muito complexa.”.
A seguir, ataca a incoerência de Trump, observando:
Ele há de ter os seus conselheiros, mas não há muita coerência, porque por um lado o presidente Trump queria diminuir a presença militar dos Estados Unidos no Médio Oriente, retirar tropas do Afeganistão, depois volta a colocar. A mesma coisa no Iraque, dizem que vão retirar, depois voltam. Julgo que há uma falta de consistência e de visão em relação àquilo que é a realidade.”.
Admite que será a proximidade das eleições nos Estados Unidos que está a motivar esta manifestação de força, pois, “quando há eleições, a situação altera-se e ajusta-se sempre aos objetivos eleitorais, não só nos Estados Unidos, também noutros países”.
Reconhece que “não é possível olhar para estes conflitos sem ter em conta a religião e até a filosofia” e especifica denunciando um certo atraso cultural e as diferenças entre os islamitas:
A religião, a filosofia e até a teologia também é muito importante. E há uma ligação entre a teologia e a filosofia, como na Idade Média e na Europa. São questões muito importantes. E, se o sunismo é um pouco mais homogéneo, dentro do xiismo há vários grupos, se bem que neste momento estão unidos. Por exemplo, o presidente sírio Bashar Al Assad não pertence ao mesmo grupo xiita dos iranianos, mas estão mais próximos uns dos outros do que dos sunitas. Portanto, há toda esta complexidade.”.
Tais diferenças e divisões dificultam que o Islão seja visto como uma religião de paz, diz, “na medida em que há conflitos entre muçulmanos no Médio Oriente”. Porém, em sua opinião, apesar dos ataques na Europa e na América do Norte e noutros países, “as primeiras vítimas do terrorismo de caráter islâmico são os próprios muçulmanos”, bem como as minorias cristãs – isto devido aos conflitos entre diferentes grupos muçulmanos.
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Também comenta o papel dos líderes religiosos na promoção da paz:
São muito importantes! Os apelos do Papa e também do líder da Al-Azhar, a Universidade e a mesquita, Ahmed el-Tayeb, que assinou o documento nos Emirados Árabes Unidos. É uma mensagem de paz! As coisas podem começar pelos crentes, mas é muito importante haver esta mensagem dos líderes religiosos em relação à paz.”.
Reconhece como desejável que os líderes islâmicos tenham um papel mais ativo, mas aponta uma dificuldade: os muçulmanos não têm a mesma unidade que os católicos: para os católicos o Papa fala por todos, ao passo que, no mundo islâmico não há uma figura equivalente. E diz:   
No Islão, cada muçulmano pode representar todo o Islão e a questão da autoridade é diferente, como é diferente no sunismo e no xiismo. Há o grande Íman da mesquita de al-Azhar (…), mas não é equivalente ao Papa. Tem as suas posições, condena sempre estes atentados, mas cada muçulmano pode seguir a opinião que desejar.”.
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Sobre o seu modo de ser católica no Egito, conta:
Há questões práticas: no centro há muitas igrejas católicas. E também poderia ir às igrejas coptas. Mas, eu moro no novo Cairo e a igreja mais próxima está a uns 15 quilómetros. De resto não há problema.”.
De no atinente ao nível de convivência, regista:
É muito interessante ver a diversidade que existe, com a presença dos cristãos do Médio Oriente, os melquitas, os caldeus… É impressionante essa diversidade. Há uma unidade teológica, mas o culto é ligeiramente diferente. É uma experiência muito interessante. Em relação aos coptas, há os coptas ortodoxos, que seguem o Papa [Patriarca] de Alexandria, e há os coptas católicos, porque algumas dessas igrejas orientais decidiram unir-se à Igreja Católica. É uma grande riqueza.”.
Julga que, de momento, está melhor, no Egito, a relação entre a maioria muçulmana e as minorias cristãs, havendo “uma tentativa do atual Governo de defender a minoria cristã, de haver um equilíbrio entre as várias comunidades”. E diz sentir-se segura a viver no Cairo, apesar de o Egito ter sido palco de atentados, alguns contra cristãos.
Também diz que “até agora não houve problemas” em trabalhar na universidade americana, apesar de esta ser mais um alvo. E aponta:
Quando vamos para a Universidade, temos de passar as bolsas (malas) pelo raio X. Dizem que é mais uma questão de defender os alunos de ataques como os que há nos EUA, nas escolas secundárias…”.
Por outro lado, fala de algumas cautelas e do facto de ser mulher a viver no Egito:
É quase o melhor de dois mundos: por um lado trabalho numa universidade americana e, sendo estrangeira, não há a expectativa de seguir os preceitos islâmicos. Claro que é preciso respeitar, não vestir de certas maneiras, isso é importante! Mas, ao mesmo tempo, achar que a mulher não deve ser exposta e explorada de uma certa maneira, isso é muito saudável. Eu sinto-me lindamente!”.
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No respeitante à ‘Primavera Árabe’ que acompanhou, pois, vive no Egito desde 2006, observa que a região, de um modo geral, se tornou “um pouco mais instável por causa da guerra na Síria, na Líbia, que fica logo ao lado do Egito”, mas que “há experiências importantes na Tunísia”. E faz a seguinte valoração:
Foi uma experiência importante. Mas agora as pessoas são cautelosas, justamente em relação aos problemas que surgiram nalguns países. A situação mudou, de novo.”.
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Sendo-lhe recordado que, a partir de hoje, dia 18, as igrejas cristãs assinalam a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos, evocando a realidade dos migrantes e refugiados que tentam chegar à Europa e acabam vítimas de naufrágios no Mediterrâneo,  explana:
Nós vemos as coisas na perspetiva europeia e os migrantes a tentarem chegar à Europa. Mas o Egito também acolhe muitos refugiados, do Sudão, por exemplo, da Eritreia, da Síria. (…) O Egito tem uma população que ultrapassa os 100 milhões e conseguiu absorver esses refugiados.”.
Não se pronuncia sobre a posição oficial da Europa por não ter certezas, mas concede:
Naqueles países é mais difícil controlar as fronteiras. Talvez haja mais recetividade em relação aos migrantes. Por exemplo, o Líbano tem uma população de quatro milhões e agora mais um milhão de sírios, o que veio desestabilizar muito o país e economia. Apesar disso, não expulsam esses migrantes sírios. Ainda por cima sendo da Síria, que ocupou o Líbano durante anos. Há uma posição menos formal e mais acolhedora nesses países.”.
Confrontada com uma criminalização da assistência humanitária por parte de alguns países, julga que se trata de choques culturais a que estamos a assistir e acusa:
Ainda não há uma posição unida da Europa, dos vários países. Isso cria problemas, porque alguns estão mais expostos ao fenómeno da migração no Mediterrâneo, teria de haver mais acordos em relação à Europa do Norte. Cada país tem governos e posições diferentes em relação às migrações.”.
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Por fim, comenta o aumento considerável da população e o impacto que isso terá na Europa a nível cultural e religioso, aflorando a emergência de um novo Islão. E começa por referir:
Parece-me que a maioria dessa população está a integrar-se (depende do sítio onde vivem, dos países, das circunstâncias) e acabam por seguir o secularismo: praticam a religião, mas não a impõem. Por exemplo, em Londres há um Mayor (presidente da câmara) muçulmano. E não temos de ter receio disso.”.
Será, como sugerem os entrevistadores, um Islão com características muito específicas o que se vive na Europa, um Islão diferente, até com “certos desenvolvimentos teológicos que são muito diferentes, por haver um contexto político diferente”, um Islão que tem de se adaptar. Com efeito, se “no Médio Oriente os muçulmanos são maioritários, na Europa são minoritários e as circunstâncias políticas são diferentes”. Assim, a entrevistada considera que “há outras experiências, até em termos teológicos, de pensar a integração e como viver o Islão em contexto minoritário e em certos aspetos mais pluralistas”. E, a este nível do pluralismo, entende como bom exemplo o de Portugal no âmbito da liberdade religiosa e no acolhimento aos refugiados. “Os vários grupos religiosos, diz, estão representados cá e Portugal tem acolhido”: “não estamos tão expostos como a Espanha”.
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Adicionalmente, porque interpelada sobre o assunto, disse que o projeto de criar a ‘Casa Ruy Belo’, em Óbidos, uma residência para escritores, está a avançar. E detalhou:
Estive em contacto há pouco com um represente da câmara que me diz que as obras estão a avançar e possivelmente no verão vai ser possível inaugurar a ‘Casa Rui Belo’. (…) O espólio ainda está onde estou a morar (casa de família em Queluz) e ainda não está todo catalogado e organizado. Houve uma parte da biblioteca que já seguiu para Óbidos. Eu própria fiz a catalogação desses exemplares, mas há espólio que ainda está à espera de ser catalogado e espero que surja uma oportunidade.”.
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Assim, espera-se que a ‘Casa Ruy Belo”, o poeta que o Cardeal José Tolentino Mendonça já considerou “um dos escritores mais espirituais do século XX português”, constitua uma mais-valia cultural e literária para o país e para os escritores mais desamparados. E, quanto ao Islão, espera-se que o futuro dê inteira razão a Catarina Belo e que sejam desmentidas na realidade as informações que chegam de países de extrema intolerância, como a Arábia Saudita, e as notícias de ódio que se dizem vir de alguns setores, incluindo escolas.
A paz merece tudo de bom. A família humana tem de cavar o diálogo e o entendimento!
2020.01.18 – Louro de Carvalho 

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

“Perseguidos e Esquecidos?”


Perseguidos e Esquecidos?” é o título do novo relatório da AIS (Fundação Ajuda à Igreja que Sofre) sobre os cristãos oprimidos por causa da sua fé, que mostra claramente que o cristianismo é a religião mais perseguida em todo o mundo, sendo que em alguns locais podemos falar mesmo de um “genocídio”. 
A este respeito, Catarina Martins Bettencourt, responsável pelo secretariado nacional da AIS em Portugal lamenta que o Ocidente feche os olhos à violação dos direitos humanos na China, pondo à frente os negócios e as relações comerciais e diz que o acordo da Santa Sé com Pequim não garantiu mais liberdade religiosa aos católicos chineses, antes pelo contrário.
Em entrevista à Renascença e à Ecclesia conduzida por Ângela Roque (Renascença), Octávio Carmo (Ecclesia) –, de cujos conteúdos mais relevantes se dá conta, explica tudo.
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Tendo começado por ser questionada sobre o alheamento dos média e dos responsáveis políticos em relação à perseguição religiosa e à falta de liberdade de culto, refere haver uma cada vez maior “maior perceção e preocupação das entidades oficiais, das instâncias internacionais para esta questão da liberdade religiosa, e em particular para o que está acontecer com os cristãos”. Todavia, sente-se “que é muito pouco e que muitas vezes a comunidade cristã acaba por ficar relegada para um segundo plano, não tem a expressão nem a dimensão”. E aponta:
Por tudo o que se passa no mundo, pela forma como os nossos governantes também lidam com estas questões, vemos que não conseguem ainda falar abertamente da perseguição aos cristãos. Muitas vezes há pruridos em defender a comunidade cristã por poder parecer que estamos a favorecer uma comunidade em detrimento de outra.”.
Quanto a essa perceção entre nós, observa:
Em Portugal também, muitas vezes é difícil falar desta questão dos cristãos. Enquanto instituição sentimos que precisamos de continuar a falar mais, de trazer cada vez mais estes assuntos para os meios de comunicação social, para que as pessoas estejam alertadas de que esta não é uma coisa do passado, é uma coisa de hoje, que há perseguição, que há muitos países onde não há liberdade religiosa e não se pode exprimir livremente o nosso credo. E ao mesmo tempo dizer com clareza – e os números e todos os factos que temos apontam para isso – que a comunidade cristã é mais perseguida hoje em dia.”.
No atinente ao facto de ter sido Paulo Portas a apresentar este relatório, que relevou a importância do trabalho da AIS para garantir que os cristãos não são esquecidos, disse esperar que a sua presença tenha impacto, pois trata-se de “um homem que tem estado ativo no meio político, que continua ativo nos meios de comunicação social”. E acentua:
É preciso trazer esta questão para os media, para o público em geral, dizer a todos claramente que o cristianismo  é o mais perseguido e que precisamos de fazer alguma coisa. Porque estamos a assistir ao fim da presença da comunidade cristã em muitos países do mundo, e isto deveria preocupar a todos porque, a partir do momento em que não temos liberdade de expressão da nossa fé, as outras liberdades ou já se perderam, ou estão em risco de se perder.”.
Depois, assegura que “é preciso olhar para estas questões da fé e da religião como um assunto que é um assunto público que deve ser debatido”.
Interpelada sobre o impacto dos relatórios periódicos da AIS, encarece a importância destes relatórios (que são o testemunho do dia-a-dia de sofrimento de muitos cristãos no mundo), a ponto de ter havido declarações das Nações Unidas, de alguns governos do mundo. Menciona a declaração da própria ONU do Dia Internacional das Vítimas da Violência em Relação à sua Religião ou Crença (22 agosto). E acrescenta:
Tudo isto resulta do lobby que tem sido feito pela AIS e por outras instituições no sentido de levar estes relatórios e estes testemunhos, trazer pessoas dos vários países que estão a sofrer e levá-los a estas instâncias. E isto tem sido  muito importante para alertar e para despertar as consciências dos governantes de que é preciso olhar para isto, que a realidade não é o que se passa no nosso gabinete ou no nosso continente, que há muito mais para além disso. (…) E só com esses relatórios, com factos, é que conseguimos alertar as pessoas.”.
Refere que este relatório vai ser apresentado às autoridades portuguesas e espera o convite do Parlamento para a AIS discutir o tema com os deputados. E explica:
Temos feito esse esforço de levar estes documentos ao Parlamento, às instâncias de Governo, ao Presidente da República, para que eles tenham consciência do que se está a passar e também possam, na medida do possível, exercer a sua pressão junto das entidades internacionais, de forma que este tema seja debatido e sejam tomadas medidas. Porque é disso que se fala neste relatório, que temos de tomar medidas concretas para poder ajudar estas comunidades que sofrem e que estão a ser perseguidas nos seus países.”.
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Falando de conteúdos do relatório em concreto, diz que o mais surpreendente “foi comprovar que poderíamos estar a assistir ao fim da presença da comunidade cristã no Iraque e talvez na Síria”. Com efeito, os números são dramáticos: aponta-se “para apenas 150 mil, com possibilidade de serem menos, fala-se de 120 mil, ou seja, estamos praticamente sem presença da comunidade cristã no Iraque”, quando em 2003 eram 1 milhão e meio.
Ora, a presença cristã “é uma presença histórica, vem do início do cristianismo e a comunidade caldeia, por exemplo, ainda hoje reza o Pai Nosso em aramaico”, afirmam os entrevistadores. E Catarina Martins, começando por anuir, diz:
“Em aramaico, sim. No fundo é o fim das nossas raízes enquanto comunidade cristã no ocidente, e infelizmente o que nós escrevemos há quatro anos parece agora concretizar-se pelos factos. E é bom frisar que este relatório – que quem quiser pode consultar no nosso site – acaba em julho de 2019, portanto, de julho até hoje, outubro de 2019, a situação ainda se deteriorou mais, tanto no Iraque como na Síria.”.
Confessa que não se sabe do impacto adicional que a intervenção militar na Síria possa ter sobre esta comunidade cristã, que é cada vez mais pequena. E, anotando que o relatório aponta para um decréscimo de 90% da comunidade cristã no Iraque (“nos últimos anos, no período de uma geração caiu 90%”), verifica:
Estamos a assistir a dias históricos, tristes mas históricos, no sentido de que estamos a assistir ao desaparecimento desta comunidade. É um facto marcante neste relatório.”.
Explicando a não perceção do predito impacto (houve morte de civis, fuga de cristãos), aduz:
Isso não está incluído no último relatório, porque aconteceu agora, mas os relatos que temos é que nalgumas zonas onde a comunidade cristã estava presente, mais uma vez, foram obrigados a fugir e a ir para outras zonas. Continuam a ser uma comunidade pequena e continuam a ser uma comunidade desprotegida. Os últimos relatos que recebemos mostram que a Igreja está preocupada com a situação, com qual será o impacto destes ataques numa comunidade tão pequena e que, provavelmente, vai tentar fugir e escapar de novo. É mais um fator que fará aumentar o êxodo e deixar de vez o Médio Oriente.”.
É certo que há territórios em que já se iniciara um processo de reconstrução e de regresso dos cristãos. Questionada se isso pode estar em causa, expõe:
Nas zonas em que nós estamos a ajudar, neste momento, à reconstrução e ao regresso, ainda não está em causa. Não sabemos, efetivamente, o que vai acontecer, pelo que temos de esperar. O que sabemos, porque recebemos essa informação da Igreja local, é que já há pequenas comunidades – em zonas historicamente cristãs, mas para as quais os cristãos ainda não tinham voltado –, pequenos grupos que ainda resistiam e que tiveram de sair desta vez.”.
E não deixa de assinalar como outro facto marcante “a mudança de continente, ou de zona do mundo, onde há maior perseguição”. Na verdade, se nos últimos anos “o Médio Oriente era a grande preocupação da Fundação AIS, era onde havia maior perseguição aos cristãos”, neste relatório, no período analisado, “vemos que há um desvio para a Ásia”, com os ataques do Sri Lanka e das Filipinas e com a situação a deteriorar-se na China.
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Porém, sendo a Ásia o continente menos seguro neste momento para os cristãos, não deixa de ser preocupante o que se mantém relativamente à África.
Refere a entrevistada, como conclusão muito importante, “que neste período houve uma grande preocupação da comunidade internacional para esta questão da perseguição”, mas que poderá, infelizmente, “ter sido tarde para estas comunidades, se olharmos para o que está a acontecer no Iraque e na Síria”. E faz votos para que não seja demasiado tarde para as outras comunidades cristãs “que estão a passar neste momento o mesmo que o Iraque e a Síria já passaram”.
De facto, a derrota aparente do autoproclamado Estado Islâmico no Iraque e na Síria não foi a tempo de evitar males maiores em termos de destruição do cristianismo. Diz Catarina Martins:
Há muitas famílias que regressaram às suas casas, às suas terras de origem, mas temos problemas gravíssimos de segurança, a comunidade cristã continua a não se sentir segura. Temos problemas gravíssimos de emprego para os cristãos, e continuamos a sentir pressão, porque está neste momento a ser discutida uma nova Constituição no Iraque em que as minorias ficam ainda mais desprotegidas do que foram até agora.”.
Neste contexto, a Igreja preocupa-se seriamente em perceber qual será o futuro destes poucos que restam, até que ponto é que a pressão exercida durante anos pelo autoproclamado Estado Islâmico marcou o ponto final da presença desta comunidade, apesar de todos os esforços.
Sendo estas comunidades alvo de quem quer atacar o Ocidente (isto é, a pertença cristã é vista como ocidentalismo), a entrevistada, ao ser questionada como o Ocidente olha para estas minorias, disse:
Muitas vezes esquecemo-nos. Dou um exemplo: no domingo de Páscoa, quando houve os ataques no Sri Lanka, na missa aonde fui o padre nem sequer falou nisso. E este é apenas um exemplo, provavelmente isto repetiu-se em várias paróquias, em vários países da Europa.”.
Releva que o Estado Islâmico perdeu o território, mas não perdeu a força, a ideologia que se mantêm nestes territórios, o que “é o mais perigoso” por ser “o mais difícil de controlar”. Com efeito, um ataque a estas comunidades é como se fosse um ataque ao Ocidente, mas “estamos muitas vezes distraídos com as nossas coisas” e “não olhamos para isto como sendo uma coisa nossa, não sentimos que nos estão a atacar a nós também, como cristãos, como comunidade”.
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Sobre a postura do Vaticano e do Papa Francisco (A AIS é uma fundação pontifícia, dependente da Santa Sé), frisa que receberam o relatório e os dados são do seu conhecimento. E de Francisco vinca:
Tem sido, de facto, uma pessoa extraordinária, neste sentido de nos alertar para o que se está a passar no mundo, de nos chamar a atenção enquanto cristãos: há comunidades que estão a sofrer e nós, como cristãos, temos este dever de nos lembrar deles, de rezar por eles, apoiá-los na nossa solidariedade e nas nossas orações. Isso tem sido extraordinário para chamar a atenção, porque muitas vezes estes ataques que acontecem pela África, pela Ásia, passam como que despercebidos no Ocidente.”.
Quanto à China, indica que os dados “apontam para o aumento da perseguição aos cristãos”, apesar do acordo entre Pequim e o Vaticano para a nomeação de bispos. E explana:
Os dados de que nós dispomos (…) apontam para uma deterioração da situação. Hoje é mais difícil, apesar de haver um acordo provisório, a presença da comunidade cristã. Tem havido como que uma ‘limpeza’ dos símbolos, uma pressão sobre a comunidade cristã muito grande, nos últimos tempos, maior até do que antes do acordo. Isto são factos que podemos mostrar: a situação piorou para a comunidade cristã na China nos últimos dois anos.”.
E a razão de os ocidentais se calarem quanto ao não respeito pelos direitos humanos e, em particular, o da liberdade religiosa prende-se com a força do dinheiro, que “acaba por falar mais alto”. E a responsável pelo secretariado nacional da AIS em Portugal observa:
As relações económicas acabam por ter uma força muito grande, não vemos os governos nem as instâncias internacionais a falar desta questão abertamente ou a dizer ‘não há negócios, não há relações comerciais e económicas se não houver respeito pelos Direitos Humanos’ na China”.
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Falando da África, onde o cristianismo está a crescer e há muitas vocações, mas a situação é crítica em termos de perseguição religiosa, desenvolve:
Neste relatório mostramos que a situação piorou na República Centro-Africana, mas temos a Nigéria, o Sudão, o Egito, onde tudo se mantém igual. Não houve alterações significativas, a situação manteve-se dramática: não piorou, mas também não melhorou. Continuamos a assistir à presença de grupos radicais, que atuam de uma forma impune, com algum esquecimento do Ocidente…”.
Refere que, no caso da Nigéria, o Boko Haram, que já surgiu há 10 anos, “continua a atuar, a provocar o deslocamento de milhares e milhares de pessoas, continua a provocar a morte, a destruir aldeias”. Porém, no Ocidente continuamos “a não olhar para a África, um continente riquíssimo, com muitas potencialidades” e que, “em termos de Igreja, é um continente muito vivo, com muitas vocações, mas que continua a sofrer, diariamente, estas perseguições”.
Sobre a complicação das coisas por via da ameaça radical islâmica e dos conflitos tribais, frisa:
Há muitas dificuldades para as comunidades, além das questões económicas: são países riquíssimos, mas com uma corrupção enorme, em que muitas vezes as pessoas acabam por ser expulsas porque vivem em zonas onde poderá haver exploração. É um conjunto de fatores (…) que faz com que seja o continente com o maior número de deslocados e o maior número de pessoas pobres.”.
É, pois, “um continente com muito potencial, mas que está sozinho, muitas vezes, a tentar combater estes grupos radicais, que querem construir um califado e ser um continente islâmico”.
No atinente à presença da Igreja Católica e da AIS, refere:
Na apresentação do relatório esteve connosco o padre Gideon, da Nigéria, que veio exatamente da diocese mais mártir do país, Maiduguri, onde o Boko Haram nasceu e está muito ativo, ainda. Ele falou-nos da importância da AIS, e disse uma coisa muito bonita: ‘o título deste relatório é «Perseguidos e Esquecidos?». Nós somos perseguidos, mas não somos esquecidos pela AIS’.”.
E a ajuda da AIS não é apenas ajuda pastoral, “porque neste momento, para se poder ajudar pastoralmente uma comunidade, primeiro tem que se alimentar, que ter segurança”. É, de facto, “necessário ajudar, ter espaços para que as pessoas se encontrem, apoiar a parte da formação e da mobilidade para os padres”. E diz Catarina Bettencourt:
Nós somos um bocadinho da Nigéria, que é um país enorme, onde as necessidades são muitas. A AIS tem estado presente, naquilo que a Igreja necessita, porque essa é uma forma de as comunidades cristãs conseguirem continuar a estar presentes, nos seus países.”.
Em relação aos projetos que a AIS está a apoiar, neste momento, contabiliza:
Em 2018, apoiámos cerca de 5 mil projetos, em 145 países. Há sempre esta generosidade, foram cerca de 80 milhões de euros que nós enviámos para estes países, em projetos concretos de ajuda pastoral: construção de igrejas, de locais de apoio às paróquias, de ajuda à mobilidade, à formação, à comunicação social. Porque em muitos destes países as distâncias são tão grandes que é preciso o apoio da comunicação social. E, depois, a parte de emergência, da sobrevivência das próprias pessoas, que é fundamental.”.
E diz que “tudo isto se vai materializando com a generosidade dos benfeitores, em Portugal e um pouco por todo o mundo.
Referindo que a contribuição de Portugal tem sido significativa e que tem aumentado, sempre, verifica esta cada vez maior preocupação por estas necessidades da parte dos portugueses, pois se “não estamos bem” – diz – “há muitos que estão pior do que eu e eu tenho de ajudar”.
Releva o testemunho do Padre Gideon, que enaltece o apoio extraordinário da AIS a nível psicológico, de tratamento das pessoas, e que contou como é difícil, especialmente para as mulheres, e as mulheres cristãs são uma vítima ainda maior: “muitas foram raptadas, estiveram dois, três anos com o Boko Haram, foram violadas e, quando regressam, as suas famílias, muitas vezes, não as aceitam, porque vêm com filhos que são filhos de terroristas”. E a mensagem que o Bispo de Maiduguri enviou foi:
Sem a ajuda da Igreja, de instituições como a AIS, não seria possível que eles estivessem vivos e se mantivessem presentes no sítio onde querem estar, porque nasceram ali, viveram ali e têm o direito de ali estar”.
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Há efetivamente muitos que se preocupam e que ajudam, mas as necessidades são grandes e cada vez mais e maiores. Por isso, todas as ajudas são bem-vindas. E, sobretudo, importa travar a perseguição e o subdesenvolvimento e anular as estruturas sociais, políticas e económicas de pecado. A instauração da paz passa por aí. E a esperança de que a ordem mundial mudará para melhor tem que se manter viva.
2019.10.25 – Louro de Carvalho