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sexta-feira, 8 de maio de 2020

Polifónicos, relacionamo-nos e vinculamo-nos de formas diferentes


É uma das conclusões que o antropólogo e investigador Alfredo Teixeira tira da análise que faz às transformações que o isolamento social motivado pela pandemia trouxe à vivência da fé, admitindo que há dinâmicas de comunicação que vão deixar “marcas importantes” e apontando como “uma das zonas mais sombrias” da atual experiência a impossibilidade de cumprir os ritos fúnebres no modo usual segundo a tradição dos povos.

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Em entrevista à “Renascença” e à “Ecclesia”, publicada neste dia 8 de maio, começa por considerar que, por consequência da pandemia da Covid-19, “nem o mundo se vai alterar de uma forma absolutamente radical”, nem se nega que a crise deixará “marcas em particular nestas gerações que a estão a viver”, sendo que algumas coisas “irão permanecer como rastos e uma transformação de comportamentos” e outras, que resultaram de ajustes circunstanciais “num clima de normalidade, voltarão a ser reajustadas”.
Questionado sobre o que permanecerá, observou que “as pessoas estão a descobrir que se podem relacionar e vincular de formas diferentes” e que, por outro lado, o que a geração dos nativos digitais conhecia como “formas de presencialidade através do contínuo tecnológico” está muito mais partilhado. Não obstante, chama a atenção para a diferença de comportamentos das diferentes gerações para com os meios digitais, exemplificando:   
Os avós beijam o ecrã do telemóvel, enviam beijos aos seus netos, ou acariciam o ecrã do tablet para ficcionar um contacto que presencialmente não existe”.
E traz à tona os contextos de trabalho “em que as pessoas fizeram a experiência clara de que é possível trabalhar doutra maneira e, por vezes, melhor”. É o caso do teletrabalho, ora promovido de forma quase generalizada, bem como as experiências feitas no campo religioso, com as celebrações e catequeses à distância. Na verdade, como diz, “a situação de crise provoca experiências que, na medida em que as pessoas as descobrirem como uma possibilidade, como uma vantagem para vários aspetos da sua vida, incluindo a sua vida religiosa, podem potenciar essas experiências no futuro e promover ajustes naquilo que é a sua experiência social”.
Tendo em conta que o Inquérito sobre as Identidades Religiosas em Portugal’, que o antropólogo dirigiu em 2011, apontava para uma transformação nas formas de pertença dos fiéis e para a progressiva valorização da lógica de afirmação individual e familiar, os entrevistadores quiseram saber se a crise acentuará essa tendência.
E o antropólogo diz considerar que as pessoas mais estruturadas pela valorização preferencial da iniciativa pessoal “estavam mais preparadas para enfrentar uma situação como esta”, pelo que podem acentuar essa postura. Porém, parece-lhe difícil que “as pessoas com uma religiosidade mais tradicional venham a alterar profundamente o seu comportamento” no fim desta crise.
Descarta a ideia de estarmos a viver “uma mutação civilizacional”, que não acontece “com esta rapidez”. Além disso, as sociedades, desde que existem, “têm vivido crises deste tipo”. Por falta de memória, esquecemos que “estas situações críticas de epidemias, de pandemias, acontecem à humanidade desde que nos conhecemos”. É certo que “deixam marcas”, mas “somos a mesma humanidade que procurou encontrar respostas para estes acontecimentos”.
E o entrevistado frisa que as pessoas que vivem uma religiosidade comunitariamente mais vinculada sentem agora “uma espécie de diáspora, de um certo sentimento de exílio espiritual”, mas “na expectativa de voltarem a reatar esses laços assim que puderem”. No entanto, releva “o problema da casa e da família”, havendo “uma diferença substancial entre as comunidades em que a identidade religiosa está muito vinculada a uma identidade familiar”, o que sucede no contexto islâmico, onde parte das observâncias é “doméstica e familiar”, ou em alguns contextos evangélicos, onde a identidade religiosa se estrutura a partir da identidade familiar (pai, mãe e filhos). Nestes casos, como refere Alfredo Teixeira, esta situação crítica deu possibilidade às pessoas de se reverem numa religião mais vinculada à casa e à família.
Sobre a teoria da redescoberta, o antropólogo admite-a no contexto católico e como “o aspeto mais interessante de observar”. E, advertindo que não temos dados para uma avaliação global disto, assinala que a experiência mostra que “algumas famílias fizeram coisas que nunca tinham feito em casa, uma espécie de liturgia das casas, que passou por este trazer da experiência cristã, mesmo na sua dimensão de oração comum, para dentro de casa” – marca da génese do próprio cristianismo, o que se vê nas comunidades paulinas. Todavia, “por razões históricas”, que levaram a amplas transformações na sociedade, as últimas décadas acentuaram “a dinâmica da religião do indivíduo” e algumas dinâmicas pastorais atenderam muito a essa dimensão, “desvalorizando a religião da família ou a possibilidade de a religião se viver em família”. Assim, alguns contextos católicos permitem falar duma verdadeira redescoberta.
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No atinente à frequência da missa dominical, cada vez mais diminuta, sendo que muitos padres garantem que “nunca tiveram tanta gente a participar na missa na igreja” como agora a acompanhar as celebrações pelos meios digitais, o investigador afasta a exclusividade desta postura direcional e fala em regularidade com medidas diferentes:
Uma das coisas que estudei em 2011/2012 foi, precisamente, verificar que há católicos que recompõem a sua regularidade (em ir à missa) num quadro que não é o que a instituição esperaria. Ou seja, houve pessoas que responderam de uma forma consistente que iam uma a duas vezes à missa por mês, mas percebemos, quando analisámos o seu perfil, que se tratava de um comportamento estável, havia uma regularidade.”.
Por isso, a pertença implica “uma realidade que pode ter muitos matizes”. E quem continua a ter a experiência católica como uma referência, ainda que a alguma distância, viu agora outras oportunidades de manter “essa memória de relação com o catolicismo” e de a manter “de uma forma viva”. Porém, o antropólogo pensa que “não vamos ter necessariamente mais pessoas a ir à missa” nem menos. E admite que, se as experiências se estruturarem como novas formas de presença na comunidade, “podemos ter claramente o início de qualquer coisa diferente”.
A este respeito, diz que, regra geral, a Igreja acompanha as mutações tecnológicas no quadro da comunicação e que as comunidades religiosas fazem desde há muito tempo o uso instrumental dos meios de comunicação social e dos meios digitais. Recorda que, há uns anos, os noticiários abriram com a notícia de que Bento XVI tinha feito o seu primeiro tweet. Todavia, adverte que “estes meios não são apenas instrumentos”, antes se constituem como “contextos de novas formas de relação, novas formas de estabelecer vínculos”, pelo que é necessário “habitar estes contextos de vida digital”. E isso postula “conhecer e falar a sua gramática”. Ora, “a experiência que algumas comunidades fizeram vai ajudar nesta mutação”; e isso, pelo menos em alguns contextos comunitários e instituições religiosas, “poderá deixar marcas importantes”.
Evocando a experiência de vivência de momentos inéditos no catolicismo nesta fase (v.g: cerimónias presididas pelo Papa, no Vaticano, sozinho face à Praça de São Pedro vazia; cerimónias da Páscoa muito diferentes; e agora o 12 e 13 de maio em Fátima assinalado sem peregrinos), Alfredo Teixeira encara estas excecionalidades, vividas a partir de uma linguagem simbólica e inédita, como “uma espécie de metamorfose da experiência de solidão como experiência de comunhão”. Assim, o impacto das celebrações de Francisco vinca, no mundo, o facto de “todos se sentirem numa forte comunhão”. Com efeito, na ótica do entrevistado, aquela celebração, que mostra o confinamento a que todos estávamos sujeitos, traz “uma densidade de comunicação, de comunhão”, que terá superado o que teria sucedido “numa celebração absolutamente normal”, pelo facto de aquele dispositivo ter tido em concreto “uma relação de grande intimidade com todas as pessoas que estavam a viver uma experiência semelhante” – “uma experiência universal”. Foi mesmo um momento determinante e ecuménico, porque teve como mediador não “a explicitação de uma doutrina ou um código ritual muito estrito”, mas antes “um significado humano extremamente aberto, que acabou por ter uma importância muito grande”. Assim, “muitos cristãos, muitos católicos, ao acompanharem aquela celebração, encontraram, se calhar, aquilo que por vezes está tapado por muitas outras camadas de acontecimentos e, neste caso, o que encontraram foi a vivência de uma experiência ritual como comunhão, que é o fulcro da experiência ritual”.
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Refere o entrevistado que o sistema de funeral selecionado para o tempo duro de confinamento “é uma das situações mais preocupantes”, a que se equipara a situação dos mais idosos, em particular os que estão em contextos institucionais de acolhimento” – setores em que “a religião, as comunidades religiosas têm um papel importante”.
De facto, mesmo nas sociedades secularizadas, “os ritos funerários são, em muitos casos, os mais persistentes”, porque “de alguma maneira fazem aquilo mesmo que é suposto um rito fazer, que é preencher simbolicamente, através de uma linguagem recebida”. São momentos críticos para os quais “não temos palavras, não temos gestos, e as formas comunitárias de vivência desse momento, que, em muitos casos, são formas muito enraizadas nas tradições religiosas, acabaram por ver grande parte dos seus recursos desfeitos”. Por isso, o antropólogo pensa que as famílias no contexto de perda viveram o problema com uma particular dificuldade “que deve ser acompanhada” e supõe que as comunidades de pertença religiosa não puderam ter feito, ou não fizeram “tudo aquilo que, se calhar, mesmo assim, seria possível fazer”.
Entende que a obrigatoriedade do uso da máscara nas celebrações religiosas “será, com certeza, uma experiência de grande estranhamento”. Não faz parte da cultura ocidental e, por outro lado, “os contextos de reunião comunitária, os contextos celebrativos são, atualmente, contextos de reconhecimento”. E explica o antropólogo:
As pessoas vão a uma determinada comunidade, frequentam uma determinada celebração, porque se querem encontrar com os outros, querem encontrar determinadas pessoas. O reconhecimento a partir do rosto, essa expressividade, é de facto muito interessante.”.
E conta como, no âmbito duma investigação, viu como numa assembleia litúrgica dominical – “um contexto que aparece em muitos casos muito formal, muito hierático” –, havia “uma comunicação expressiva, informal, entre as pessoas a partir de pequenos gestos, em muitos casos, uma comunicação através do rosto” tinha “um impacto muito grande nas pessoas”.
Portanto, julga que a obrigatoriedade do uso da máscara em contexto celebrativo “será uma aprendizagem que todos irão fazer, mas certamente uma aprendizagem difícil”.
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Questionado quanto à investigação das consequências do confinamento noutras religiões, como a muçulmana, no momento do Ramadão, diz que “há algumas iniciativas”, sendo que “um dos centros de estudos da Faculdade de Teologia, o CITER, propôs precisamente – no recente concurso da Fundação para a Ciência e a Tecnologia – um projeto que visa perceber algumas transformações que esta experiência pode ter desencadeado na vivência do religioso”. Contudo, avisa que “ninguém tem ainda muita capacidade de fazer um retrato”. E discorre:
Há muitos imaginários religiosos, muitas narrativas que, no passado, foram construídas em contextos críticos, como este (…), de uma forte experiência de vulnerabilidade humana (…) de forte elaboração simbólica, sob o ponto de vista religioso. A sociedade em que vivemos, no entanto, é desse ponto de vista uma sociedade diferente, em que a religião não tem a capacidade de ser o centro da cultura ou de ser o único centro da cultura, como foi no passado. Portanto, é preciso não perdermos de vista que a sociedade em que vivemos é uma sociedade que vive numa cultura onde as propostas de sentido, as dinâmicas sociais são plurais.”.
Salienta que as pessoas têm “uma forte confiança nos resultados do trabalho dos cientistas”, mormente acerca das expectativas do encontro de tratamentos ou possivelmente duma vacina e que há “um forte investimento, porque vivemos numa sociedade de mercado, onde também a ciência fica envolvida”. Não se centram só na resposta religiosa. Porém, embora essencial, a resposta de caráter científico-tecnológico seria superficial. E o investigador vinca:
É muito importante observar, neste período, a importância que a cultura, as artes, os discursos, as narrativas tiveram. Penso, por exemplo, desde jornalistas que tiveram enorme protagonismo, nalguns formatos informativos em que criaram narrativas, discursos, que no fundo visavam interpretar e propor sentidos para a realidade que vivemos; penso na quantidade de iniciativas musicais e outras, que preencheram os nossos quotidianos; na própria televisão tivemos espaços noticiosos a abrir com canções feitas em confinamento.”.
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Por fim, Alfredo Teixeira, afirma que este é um tempo que mostra “a complexidade das nossas referências culturais”, de forma que “não encontramos resposta para a nossa vida apenas num único lugar, num único contexto”, vindo a inscrever-se nessa complexidade “os indivíduos, os grupos, as comunidades, pelo que, falar-se hoje, por exemplo, numa dialética entre religião e ciência, será descabido, pois o que as pessoas procuram é “uma resposta plural para aquilo que vivem, na sua complexidade, e que não pode ser resolvido apenas numa dimensão”.
E conclui que, embora venha aí “uma vacina ou um tratamento eficaz”, resta a interrogação sobre o que vivemos e como o vivemos e sobre o significado da “morte de todos aqueles que, para muita gente, são próximos”, “uma morte vivida em circunstâncias inéditas” – “situações que nos mostram que a resposta para estes problemas é uma resposta sempre polifónica, porque nós próprios somos, de facto, seres polifónicos”.
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Valerá a pena refletir sobre tudo isto para nos repensarmos.
2020.05.08 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

A Cúria Romana muda para melhor anunciar o Evangelho e servir a humanidade


O Papa Francisco recebeu, no dia 21, na Sala Clementina para as tradicionais felicitações de Natal, os seus colaboradores mais próximos da Cúria Romana. Falou do Natal e das mudanças na Cúria Romana.
Do Natal disse, entre outras coisas, citando um místico do nosso tempo (o monge egípcio do século XX, Matta el Meskin – Mateus, o pobre), que “o nascimento de Cristo é o testemunho mais forte e eloquente de quanto Deus amou o homem”. Amou-o com um amor pessoal. É por isso que tomou um corpo humano, ao qual Se uniu e assumiu para sempre. “O nascimento de Cristo é, em si mesmo, uma “aliança de amor” estipulada para sempre entre Deus e o homem”. E, pegando em palavras de São Clemente de Alexandria, afirmou:
Para isto Ele [Cristo] desceu; para isto Se revestiu de humanidade; para isto sofreu voluntariamente o que padecem os homens, para que, depois de Se ter confrontado com a nossa fraqueza que amou, pudesse em troca confrontar-nos com a sua força.”.
Antes de levar o discurso ao ponto que lhe está no coração, o Pontífice convidou os presentes a sintonizarem-se numa convicção que lhe subjaz e o acompanha desde o início do magistério pontifical, ou seja: a época atual “não é simplesmente uma época de mudanças, mas é uma mudança de época”. E, acrescentando, que o comportamento saudável é o de “se deixar interrogar pelos desafios do tempo presente”, com discernimento e coragem, e não se deixar seduzir pela moda de tudo mudar nem pela cómoda inércia de deixar tudo como é, observou:
Muitas vezes vive-se uma mudança limitando-se a vestir uma roupa nova, mas na realidade permanece-se como era antes. Recordo a expressão enigmática que se lê num famoso romance italiano: “Para que as coisas permaneçam iguais, é preciso que tudo mude.” (O Leopardo, de Giuseppe Tomasi di Lampedusa).
Assim, deve assumir-se a resposta ao desafio e vencer a inércia sem se deixar levar pela onda apelante da moda, que pouco leva a mudar (só mudam as aparências).
Neste encontro com a Cúria Romana para as felicitações natalinas de 2019, menos crítico do que em anos anteriores, o Papa fala sobre as transformações em curso nas instituições vaticanas, reiterando necessidades e objetivos dos novos dicastérios, frisando que a mudança é para vencer rigidez e medos e anunciar melhor o Evangelho para um mundo descristianizado.
Ora num mundo em contínua mudança, a Cúria Romana não muda simplesmente para “seguir modas”. Na verdade, a Igreja vive o desenvolvimento e o crescimento a partir da perspetiva de Deus e a história da Bíblia é toda “um caminho marcado por começos e recomeços”. Era por isso que um dos novos Santos, o Cardeal Newman, quando falava de “mudança” na realidade queria dizer “conversão” e dizia do Natal:
Este é o tempo da inocência, da pureza, da mansidão, da alegria, da paz”.
A articulada premissa do tema da reforma da Cúria Romana, no dizer do Bispo de Roma, “nunca teve a presunção de fazer como se antes nada tivesse existido”, mas apostou no contrário “em valorizar tudo o que foi feito de bom na complexa história da Cúria”. É a evolução pertinente na continuidade da fidelidade (pois a sadia tradição é garantia do futuro) que exige a mudança de mentalidade e olhar, coração e escuta, atitude, métodos e técnicas com vista a uma atividade mais centrada no essencial e acolhedora da liberdade no acessório. É a conversão de fundo para a ação na visibilidade. E ensina o Papa:
É obrigatório valorizar a sua história [a da Cúria] para construir um futuro que tenha bases sólidas, que tenha raízes e nos possa levar a um futuro fecundo. Apelar-se à memória não quer dizer ancorar-se na autoconservação, mas ‘reconvocar’ a vida e a vitalidade de um percurso em contínuo desenvolvimento. A memória não é estática, é dinâmica. Por sua natureza implica o movimento.”.
E Francisco passa em revista “algumas novidades da organização curial, como a criação, no final de 2017, da Terceira Seção da Secretaria de Estado (Secção para os funcionários diplomatas da Santa Sé), juntamente com outras mudanças nas “relações entre Cúria Romana e Igrejas particulares” e na “estrutura de alguns Dicastérios, em particular o das Igrejas Orientais e outros para o diálogo ecuménico e inter-religioso, nomeadamente com o Judaísmo”. Mas foi principalmente a constatação – já evidente no tempo de São João Paulo II e de Bento XVI – de um mundo que não é consciente do Evangelho como no passado, a requerer profundas reestruturações de dicastérios históricos ou a sugerir o nascimento de novos. Daí, como sabemos resultou a criação do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização.
Ao referir-se à Congregação para a Doutrina da Fé (CDF) e à Congregação para a Evangelização dos Povos (CEP), o Papa fala da evidência de que, quando estas congregações “foram instituídas, era uma época na qual era mais simples distinguir entre dois divisores definidos: de um lado, o mundo cristão; e, do outro, um mundo ainda a evangelizar”. Hoje a situação não é essa. As populações que ainda não receberam o anúncio do Evangelho não vivem apenas nos continentes não ocidentais, mas estão em todos os lugares, especialmente nas grandes concentrações urbanas, as quais requerem uma pastoral específica. Nas grandes cidades precisamos de outros “mapas”, de outros paradigmas, que nos ajudem a reposicionar o nosso modo de pensar e as nossas atitudes: não estamos mais na cristandade.
Por isso, a remodelação operada e a operar nas instituições vaticanas resulta de um ímpeto renovador que impulsione um renovado anúncio do Evangelho, em conformidade com o que o Papa já tinha esclarecido na Evangelii gaudium: costumes, estilos, horários e linguagem, tudo deve ser “um canal adequado à evangelização do mundo atual, mais que à autopreservação”. E a esta necessidade corresponde o nascimento do Dicastério para a Comunicação, entidade que une 9 setores dos meios de comunicação do Vaticano que antes eram separados entre si. Não são agora um simples “agrupamento coordenativo”, mas um modo de “harmonizar” para “produzir uma melhor oferta de serviços” numa cultura amplamente digitalizada”.
Considerando que a nova cultura, marcada por fatores de convergência e multimedialidade, exige resposta adequada por parte da Sé Apostólica a nível comunicacional (hoje, nos serviços diversificados, prevalece a forma multimedial, o que marca o modo de os criar, pensar e atuar), disse o Papa que tudo isso implica, juntamente com a mudança cultural, uma conversão institucional e pessoal para passar dum trabalho completamente isolado – que nos casos melhores tinha alguma coordenação – a um trabalho conectado, em sinergia.
Também o Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, criado para tornar mais coerente e unitário o trabalho que estava dividido entre os Pontifícios Conselho Justiça e Paz, Cor Unum, Pastoral dos Migrantes e Pastoral no Campo da Saúde, precisou de reformulação. Diz o Santo Padre a este respeito:
A Igreja é chamada a recordar a todos que não se trata apenas de questões sociais ou migratórias, mas de pessoas humanas, de irmãos e irmãs que hoje são o símbolo de todos os descartados da sociedade globalizada. É chamada a testemunhar que para Deus ninguém é ‘estrangeiro’ ou “excluído’. É chamada a despertar as consciências adormecidas na indiferença diante da realidade do Mar Mediterrâneo que se tornou para muitos, demasiados, um cemitério.”. 
E aqui o Sumo Pontífice introduz um tema natalino ao dizer que o Natal se torna presente nos mais pobres, evocando os migrantes que perderam a vida a atravessar o Mediterrâneo, e apelar:
Não nos esqueçamos que o Menino deitado no presépio tem o rosto dos nossos irmãos e irmãs mais necessitados, dos pobres que são os privilegiados deste mistério”.
Assim, entre os “grandes desafios” e “necessários equilíbrios”, o que conta é que a Igreja, a Cúria Romana por primeiro, olhe à humanidade na qual todos são “filhos de um único Pai”. E Francisco não esconde a dificuldade de mudanças tão grandes, a necessidade de gradualismo, “o erro humano”, com os quais “não é possível, nem justo não considerar”, pois “a este difícil processo histórico está sempre ligada a tentação de se fechar no passado” (mesmo usando novas formulações), porque é visto como mais garantido, conhecido e menos conflitual. E vincou:
Neste ponto é preciso colocar em alerta a tentação de assumir um comportamento rígido. A rigidez nasce do medo da mudança e termina por disseminar limites e obstáculos no terreno do bem comum, fazendo com que se torne um campo minado de incomunicabilidade e de ódio. Recordemos sempre que por trás de toda a rigidez jaz algum desequilíbrio. A rigidez e o desequilíbrio alimentam-se mutuamente em círculo vicioso.”.
A concluir, citou o Cardeal Carlo Maria Martini que afirmou pouco antes da sua morte:
A Igreja ficou para trás 200 anos. Porque não se mexe? Temos medo? Medo ao invés de coragem? De qualquer modo a fé é o fundamento da Igreja. A fé, a confiança, a coragem. […] Só o amor vence o cansaço.”.
E frisou que o Natal é a festa do amor de Deus por nós. O amor divino que inspira, dirige e corrige a mudança e vence o medo humano de deixar o “seguro” para se lançar no “mistério”.
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Não podemos esquecer que Francisco desejou que a troca de votos natalícios seja uma oportunidade para acolher o mandamento do amor, a Deus e ao próximo, precisando:
Jesus não nos pede para O amarmos a Ele em resposta ao seu amor por nós; mas, sim, para nos amarmos uns aos outros com o seu próprio amor. Por outras palavras, pede-nos para sermos semelhantes a Ele, porque Ele Se fez semelhante a nós.”.
Por outro lado, reiterou a importância do caráter integral do desenvolvimento referindo que São Paulo VI afirmou que “o desenvolvimento não se reduz a um simples crescimento económico”, mas, “para ser autêntico, deve ser integral, quer dizer, promover todos os homens e o homem todo” (vd Populorum Progressio, 14). Ou seja, a Igreja, enraizada na sua tradição de fé e apelando-se nas últimas décadas ao magistério do Concílio Vaticano II, “sempre afirmou a grandeza da vocação de todos os seres humanos, que Deus criou à sua imagem e semelhança a fim de formarem uma única família; e, ao mesmo tempo, procurou abraçar o humano em todas as suas dimensões”. E é esta exigência de integralidade que hoje nos repropõe a humanidade que nos une como filhos de um único Pai. “Em todo o seu ser e obrar, a Igreja está chamada a promover o desenvolvimento integral do homem à luz do Evangelho” (vd Humanam Progressionem,17/12/2016, exórdio). O Evangelho não cessa de trazer a Igreja à lógica da encarnação, segundo a qual Cristo que assumiu a nossa história, a história de cada um de nós. Isto lembra-nos o Natal. Em suma, a humanidade é a chave com que ler a reforma.
E, recordando que, na preparação para o Natal, as pregações escutadas foram sobre a Santa Mãe de Deus, pediu que rezassem todos a Ave Maria, que recitaram, e pronunciou a bênção. Depois, deu como prenda dois livros. O primeiro é o “documento” que exarou para o mês missionário extraordinário [outubro de 2019], aparecendo sob a forma de entrevista e com o título Sem Ele nada podemos fazer. Inspirou-o uma frase que dizia: “quando o missionário chega a um lugar, já está lá o Espírito Santo à espera dele”. E o segundo é um retiro dado aos sacerdotes, há pouco tempo, pelo Padre Luís Maria Epicoco: um retiro para os sacerdotes, Alguém por modelo. E ofereceu-os para servirem a toda a comunidade.
Enfim, um Papa que recebe críticas, que critica, que muda e que dá prendas, sempre movido pelo Espírito e com vista ao serviço da comunidade.
2019.12.22 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 24 de julho de 2019

Novas tecnologias ao serviço do conhecimento


Segundo conta o “educare.pt”, a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) pôs a sua atenção no Colégio Monte Flor, em Carnaxide, escola privada do 1.º Ciclo do Ensino Básico, fundada em 1973, que se tornou estudo de caso e exemplo internacional. Com efeito, os alunos estão no centro de tudo e dispõem dos recursos digitais como uma ferramenta importante para conhecer e entender o mundo, para aumentar o conhecimento.
Neste sentido, aquele colégio português, constituído em referência internacional na utilização dos recursos tecnológicos na aprendizagem das crianças, defende e propõe uma aprendizagem individualizada, pois sabe que cada aluno tem talentos que devem ser valorizados, e integra as novas tecnologias nas aprendizagens diárias.  
A este respeito, o seu diretor pedagógico, Rui Lima, refere que o grande desafio não é ter alunos excecionais na utilização das tecnologias, mas alunos criativos e colaborativos, com espírito crítico, capazes de resolverem problemas reais. E faz um balanço altamente positivo ao dizer:
O processo de incorporação das novas tecnologias na aprendizagem já está amplamente disseminado em toda a comunidade educativa e apresenta uma maturidade que permite a inclusão das mesmas na generalidade das atividades desenvolvidas. Alunos, professores e encarregados veem a sua utilização como algo extremamente positivo e estas são encaradas por todos como uma ferramenta essencial à implementação de projetos e na aquisição de conhecimento e competências para o futuro”. 
O Colégio tem um historial de implementação de dinâmicas que envolvem o recurso às novas tecnologias educativas e a abordagens ativas no processo de aprendizagem, no quadro duma cultura escolar concretizada na forma de pensar, de estar e de agir dos diversos intervenientes no processo educativo, com a mira na adequada resposta da abordagem pedagógica à diversidade de talentos, capacidades e ritmos de aprendizagem. E o mundo digital não fica à porta, ao invés, faz parte integrante do processo educativo enformando a aprendizagem e, por conseguinte, alguns dos instrumentos de avaliação. Não obstante, o domínio das tecnologias não é um fim educativo, mas um meio para tornar os alunos “mais capazes e preparados para um mundo que pula e avança muito rapidamente”. 
Rui Lima sustenta a inconcebibilidade a ideia de ‘One Size Fits All’, “na medida em que cada ser humano evidencia caraterísticas muito peculiares, tanto no atinente às “suas habilidades” como “na forma de se relacionar com os outros e com o mundo e evidenciando até diferentes estilos de aprendizagem”. Na verdade, uma abordagem única para todos os casos não permitirá alcançar os objetivos pretendidos; não existe apenas um método correto nem uma solução adaptável a todas as situações, uma resposta cabal para todas as questões, necessidades e anseios; as respostas iguais para todos não servem de nada. Ao invés, a ‘Orga Systems’ fornece soluções que transcendem a abordagem do tamanho único e traz agilidade e dinamismo aos processos humanos. Assim, no horário semanal, há uma hora de tarefa para cada aluno por dia, com proposta de atividades individuais geridas pelas crianças que definem em que dia da semana as realizará cada uma delas, na lógica do “aprender a qualquer hora, aprender em qualquer lugar”. E o diretor pedagógico sublinha:
O caminho da Escola tem de ser este, em que o professor não pode querer que todos realizem as mesmas tarefas ao mesmo tempo e que aprendam todos ao mesmo ritmo. A escola tem de disponibilizar ferramentas de aprendizagem que permitam aos alunos a aquisição de conhecimentos ao seu próprio ritmo, mas desafiando-os a desenvolverem projetos onde esses conhecimentos possam ser aplicados.”. 
Considerando que as crianças de hoje – os chamados nativos digitais – estiveram, estão e estarão constantemente rodeadas de tecnologia, sabemos que afastá-las desse mundo é retirá-las do mundo em que vivem e isso não resulta. Não obstante, Rui Lima adverte para uma ideia feita não correspondente à realidade, discorrendo:
Também há uma ideia, quanto a mim errada, de que os alunos dominam todas estas ferramentas digitais. Isso não é verdade, apesar de haver, de facto, uma enorme facilidade por parte das crianças em assimilarem a forma de utilizar os dispositivos. Mas dominar os dispositivos não significa dominar as ferramentas. É necessário os alunos saberem como utilizar os tais dispositivos para a realização de tarefas do dia-a-dia, ou para promoveram a sua aprendizagem e aumentarem a sua produtividade.”. 
De facto, como algumas vezes me foi dado observar, as crianças e adolescentes sabem mexer na ferramentas digitais devido à curiosidade, que leva a mexer, ao proveito que podem tirar do seu usufruto e do entretenimento que possa resultar da sua utilização. Assim, na maior parte dos casos, os apetrechos servem para conversação, jogos, envio de mensagens de conteúdo e forma bem criticáveis, ouvir música. Mas só em casos raros é que os preditos utilizadores, mesmo alunos de informática, resolvem situações complexas a pedido de adultos. E estão à vontade, porque, se estragarem material, o encarregado de educação manda arranjar e paga. É óbvio que há exceções e alguns dominam as ferramentas e até fazem programação.     
Por isso, é pertinente que os alunos saibam que ferramentas usar para resolver determinado problema ou para a criação dum determinado produto. Têm de estar preparados para transitarem rapidamente duma tecnologia para outra mais avançada. E devem ser “capazes de refletir acerca do impacto destas tecnologias e da permanente mudança nas nossas vidas e na sociedade, contribuindo individual ou colaborativamente para um mundo melhor” diz Rui Lima vinca:
No fundo, o desafio não é ter alunos excecionais na utilização da tecnologia, mas sim ter alunos criativos e colaborativos, capazes de revelarem espírito crítico, adaptabilidade, capacidade de resolução de problemas reais e conscientes de que a tecnologia desempenha um papel muito importante nas nossas vidas”.
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Há efetivamente o risco de considerar as novas tecnologias como um fim em si mesmas e não meios adequados e úteis para atingir os nossos objetivos, designadamente os respeitantes ao conhecimento e, neste âmbito, ao saber ser, ao saber estar, ao saber fazer, à acumulação dos saberes teóricos, práticos e teórico-práticos, à atitude crítica e cooperante, ao desenvolvimento de capacidades, competências e habilidades. Sempre assim sucedeu. Por exemplo, sempre se considerava, na ótica de alguns, mais importante passar a escrever no caderno de uma linha ou no caderno diário do que o teor do que se escrevia; sempre se pensou mais importante saber ler e escrever (fazer ditado, cópia…) do que ter em conta os conteúdos. E sempre se considerou como o melhor e quase único, para uns, o método global da leitura e, para outros, o método analítico.         
Assim, também hoje mal se sabe escrever a lápis e caneta ou desenhar à mão – com mesa, papel, lápis, régua, carro e candeeiro. O computador, com programas de escrita, cor, posições, desenho e audiovisual, serve para tudo e tudo substitui. Até usamos a assinatura digital!  
Ora, as tecnologias são uma poderosa ferramenta na Educação do século XXI. Automação, inteligência artificial, nanotecnologia, são conceitos que fazem parte da linguagem corrente, já não são inacessíveis ou fechados num mundo de ficção científica. Muito se mudou no mundo.
O referido diretor pedagógico defende que é preciso acordar para esta realidade, sustentando:
A Escola não pode permanecer fechada em si mesma, agarrada a um modelo que se baseia única e exclusivamente na transmissão e memorização de conhecimentos. O conhecimento continua a ser extremamente importante, mas devemos desafiar os alunos a utilizarem a tecnologia para investigarem, para resolverem problemas, para criarem produtos finais de um determinado projeto.”.
O Colégio escolheu várias ferramentas de trabalho que incorpora no dia-a-dia da aprendizagem. A utilização do OneNote e da Escola Virtual permitem, por um lado, partilhar com os alunos recursos que se ajustem às suas caraterísticas e capacidades, garantindo também uma maior autonomia no processo de aprendizagem. A utilização, por exemplo, dum bloco de notas digital possibilita a exploração de diferentes recursos, uns mais interativos, outros menos, cabendo ao aluno a decisão de explorar os que se ajustem melhor ao seu estilo de aprendizagem. E a utilização duma plataforma como a Escola Virtual faculta ao aluno um maior nível de autonomia, podendo aprender os vários conteúdos de forma independente, com recursos apelativos, bem como permite ao professor a avaliação e a monitorização das aprendizagens que o aluno está a fazer. 
Parece não se aplicar ao Colégio em referência o aforismo “primeiro estranha-se e depois entranha-se”, como não se aplica em relação à utilização das tecnologias, muito menos na utilização de abordagens pedagógicas mais centradas no aluno.
A este respeito, deve dizer-se que Maria Albertina Vidal, fundadora do Colégio, há 46 anos, tinha já uma visão voltada para a inovação, para a mudança e para a permanente articulação da escola com o mundo. Na verdade, como confessa, o processo de inovação acontece com naturalidade. E Susana Vidal, diretora do Colégio, diz, com regularidade, que são sempre as pessoas que podem diferenciar a escola, não a utilização da tecnologia ou as metodologias inovadoras. Com efeito, o que faz a diferença é a existência generalizada de alunos empenhados, pais participativos, professores e auxiliares dispostos a fazer sempre melhor.
O mundo está em permanente mudança, está cada vez mais tecnológico, está cada vez mais digital. As competências nesse campo são hoje fundamentais e a escola não pode ignorar essa realidade. E Rui Lima conclui:
Tendo a Escola como uma das suas principais funções a preparação para a vida ativa na sociedade, manter a criança afastada da tecnologia durante o tempo em que está na escola é, usando um termo também ele muito tecnológico, desconectar a criança do mundo real. No entanto, trabalhar com as novas tecnologias não significa colocar as tecnologias no centro de todo o processo, mas sim usá-las como poderosa ferramenta de auxílio aprendizagem. E é precisamente esta distinção que é preciso fazer.”.
De facto, o mundo mudou e está em permanente mudança, mas as pessoas mantêm as mãos e os dedos, os pés, os olhos e os ouvidos; o mercado mantém as canetas, os lápis e as borrachas, os compassos, os esquadros e os transferidores, os papéis, os livros, os jornais e as revistas, os diversos instrumentos musicais – um conjunto de recursos que podem constituir uma alternativa possível à ditadura das novas tecnologias, com outro sabor e a travar quer a obstipação tecnológica, quer a diarreia tecnológica.
Também a escola tem o papel relevante de impedir que as tecnologias escravizem as crianças, os adolescentes, os jovens e os adultos. Tão má é a infoexclusão como a elefantíase tecnológica.
Aliás, a escola tem de pôr os alunos a pensar e a ser livres de tudo e de todos. Pouco importa se os alunos estão no centro de tudo (Hoje essa bandeira já diz pouco!), se é o currículo ou os professores. Não podemos passar da iliteracia tecnológica para a hipertrofia tecnológica, até porque daqui por uns anos pode muito bem acontecer que mais e melhores novas tecnologias sejam inventadas ou que se retorne, pelo menos em parte, às antigas tecnologias: também eram tecnologias! Não me digam que os antigos engenheiros e arquitetos não eram tecnólogos ou que as técnicas de arar com charrua e arado de pau não implicavam um saber técnico da parte dos utilizadores e tecnológico da parte dos inventores, construtores e consertadores. Não convocavam conhecimentos de grande complexidade o trabalhar e assentamento da pedra nos castelos e nas catedrais e a tomada de juntas com a areia fina e a cal hidráulica?
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O “educare.pt” postou, a 19 de julho, artigo com teor a que se assemelha o presente texto. Logo no dia 20, o Prof. Raul Guerreiro, fez ao texto um comentário sob a epígrafe “Mundo em permanente mudança”.
Diz o eminente pedagogo quealguns passos no texto demonstram a falácia subjacente, que pretende ostentar um óbvio ululante, a fim de defender algo como um brilho filosófico-científico” ironizando a mudança apregoada como se fora novidade:
Também podíamos lembrar, com a mesma ênfase e seriedade, que a terra está em permanente rotação, que os dias e as noites se sucedem permanentemente, que o mundo translada ao redor do sol permanentemente, e as quatro estações se sucedem também permanentemente, etc.”.
E, sobre a asserção de que “o mundo está cada vez mais tecnológico, cada vez mais digital”, como se isso fosse “um destino universal inevitável”, aduz:
Vai-se aqui buscar um recanto da realidade materialista tecno-industrial para definir uma suposta necessidade imperativa da educação, vinda puramente da instrumentação tecnológica. Ora, em termos de ‘cada vez mais’ podíamos também salientar coisas mais avassaladoras e científicas: o mundo está cada vez mais deteriorado na sua constituição física e fundamental para a vida – o meio ambiente; o mundo está cada vez mais inundado por violência, imoralidade e degradação da empatia inter-humana chamada civilização; a qualquer momento, em algum laboratório no mundo, será criado o primeiro ser humano originado de uma retorta; o mundo está cada vez mais mergulhado em estados psíquicos patológicos que afetam milhões de seres humanos; os habitantes do mundo estão todos (não interessa a cultura, religião, língua e situação geográfica ou económica) cada vez mais confrontados com um aflitivo estado de alma coletivo marcado por um ateísmo doentio, insegurança quanto à razão de se ter nascido e viver, e desorientação perante todas as perspetivas para o futuro.”.
Não me parece que o diretor pedagógico do Colégio em referência queira inferir que a educação só se consiga a partir do uso das novas tecnologias ou que o seu uso tenha de ser um imperativo universal em educação. Por outro lado, não creio que Rui Lima ignore as outras mudanças e situações que perpassam o mundo e que não lamente algumas delas, mas a adução da inundação tecnológica apenas quer dizer que seria um erro não aproveitar as vantagens que as novas tecnologias podem trazer à educação e ao conhecimento e que, afastando-se a educação e o conhecimento de tais poderosos recursos, ficaria a escola a falar sozinha e as crianças e jovens viveriam entretidos até às últimas, sem orientação e de costas voltadas para a escola.  
É certo que o diretor pedagógico, ao dar a cara pelas novas tecnologias, parece fazer pouco caso dos outros recursos e esquecer que as outras escolas também apostam no conhecimento e nos valores. Porém, não tem que se dizer tudo para se estar aberto a tudo.        
Porém, é verdade, com diz o comentador, que as que elenca “são as realidades maiores que deveriam ditar os passos para o mundo educacional”, o que não quer dizer, do meu ponto de vista, que, “em vez disso” se vá cantando o fado ao mundo digital (“uma irrealidade de natureza eletrónica” – diz o comentador) “num delírio de busca de soluções oportunistas”. Mas não é verdade que haja uma dicotomia funda e fraturante entre o produto humano do mundo digital e o do mundo analógico. Todavia, concordo – e dei-o a entender em comentários que fiz acima – “dentro de algumas décadas, após se constatar que espécie de cidadãos robóticos e autistas resultaram desta escravatura a uma verdadeira tecno-ideologia combinada com interesses multinacionais da ordem de biliões de euros”, se venha a lamentar a “maravilhosa digitalização dos jardins de infância e escolas básicas” como um pesadelo semelhante às ditaduras que já assolaram (e continuam a assolar) o mundo”.
Ora, mais do que tudo, importa eliminar o analfabetismo, não a mascará-lo, e levar as pessoas a pensar por si mesmas com autonomia e sentido crítico e de responsabilidade.  
2019.07.23 – Louro de Carvalho