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sábado, 14 de setembro de 2019

Manifesto “Por um aeroporto sustentável para Lisboa”



As 60 personalidades – da vida política e cultural, bem como de associações ambientalistas – subscritoras do manifesto referenciado em epígrafe e divulgado hoje, dia 14, exigem avaliação ambiental estratégica antes de decidir localização do aeroporto complementar da Portela.
O texto interroga-se se, no século XXI, será muito difícil “pedir que se encontre uma localização adequada para o aeroporto de Lisboa que não tenha efeitos desproporcionados nos ecossistemas e na saúde das pessoas”. E apela: “Poupem o Montijo”.
Entre os subscritores, estão Ana Zanatti, António Garcia Pereira, António Pedro Vasconcelos, Camané, Carlos Antunes, Carlos do Carmo, Carlos Marques, Carlos Pimenta, Eunice Muñoz, Francisco Ferreira, José Macário Correia, Mário Tomé, e Viriato Soromenho Marques.
Estando em consulta pública até 19 de setembro a AIA (Avaliação de Impacto Ambiental) sobre a construção dum novo aeroporto no Montijo, os signatários apelam ao contributo da população e das entidades competentes “para ajudar o poder executivo a corrigir a sua visão sobre este projeto insensato” – que pode condicionar a vida dos portugueses durante os próximos 40 anos. E afirmam os signatários:
É essencial avaliar as diferentes alternativas de modo a selecionar aquela que responde, não às exigências das companhias ‘low-cost’ e da multinacional Vinci, mas às necessidades de segurança aérea, de promoção da saúde pública e da biodiversidade, de integração na rede ferroviária e de mitigação e adaptação às alterações climáticas”.
Na ótica dos subscritores, a decisão sobre o futuro aeroporto na região de Lisboa tem de ser tomada “de forma sistemática, recorrendo a uma avaliação ambiental estratégica, como prevê a legislação nacional e comunitária”, sendo que a expansão do aeroporto da Portela, em Lisboa, não foi sujeita a uma AIA. E aduzem que também o governo britânico abandonou a ideia de construir em Londres, em 2014, um novo aeroporto numa zona de estuário, “por representar um risco desproporcionado para os passageiros aéreos e ser difícil de compaginar com as normas europeias de conservação da natureza”.
Sobre a escolha do Montijo, realçam os “três milhões de voos de aves no corredor de aproximação à pista norte”, registados durante um ano, bem como a poluição sonora e os efeitos das alterações climáticas, nomeadamente a subida do nível do mar, com impacto no estuário do Tejo, que “colocará em risco a viabilidade da infraestrutura aeroportuária”. E vincam:
O estudo de impacto ambiental torna evidente que os impactos negativos são mais significativos que os impactos positivos, pelo que é expectável o chumbo do projeto pela APA – mas, mesmo que a decisão fosse favorável, os promotores teriam de realizar um estudo mais completo sobre o risco de colisão com aves”.
Além da localização do Montijo, criticam a expansão do aeroporto de Lisboa, interrogando-se sobre o futuro do turismo, da mobilidade e do direito à habitação e à cidade. E alegam:
As estatísticas mostram que, na última década, os aeroportos de Paris, Madrid, Munique e Roma transportaram mais passageiros com menos aviões. Se a melhoria da qualidade de vida para todos permitir receber mais turistas, é possível fazê-lo mantendo ou reduzindo o tráfego aéreo.”.
Assim, nada mais resta que o apelo a que “Poupem o Montijo” e a proposta de outras formas de mobilidade, inclusive o transporte ferroviário.
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Estado e ANA, a gestora dos aeroportos nacionais, assinaram a 8 de janeiro, o acordo para concretizar o projeto do aeroporto do Montijo e expandir a capacidade do atual aeroporto de Lisboa. As obras deverão arrancar ainda este ano. E o acordo permitirá rever o atual contrato de concessão, fixando as metas de investimento nos próximos três anos e as taxas aeroportuárias. Trata-se de transformar a Base Aérea n.º 6 (BA6), no Montijo, num aeroporto civil.
O início das obras esteve dependente das negociações da solução financeira com a ANA, controlada pelo grupo francês Vinci, e da entrega do estudo de impacto ambiental por parte da APA (Agência Portuguesa do Ambiente).
Remodela-se o aeroporto de Lisboa e aproveita-se a base militar do Montijo como complemento à Portela, que mantém o seu papel de hub, estando previstos vários investimentos para melhoria das estruturas dos passageiros, aumento da capacidade de estacionamento e da circulação das aeronaves. É o caso do encerramento da pista secundária 17/35, da deslocação da base militar de Figo Maduro e de um novo sistema de gestão do espaço aéreo que permitirá aumentar dos atuais 40 movimentos por hora, em Lisboa, para 44.
Segundo a calendarização, a obra (que inclui a instalação duma infraestrutura aeroportuária complementar – a chamada “Portela+1” – e a ampliação do atual aeroporto de Lisboa) deverá estar concluída em 2022.
A discussão sobre um novo aeroporto para Lisboa remonta ao ano de 1969, quando começaram a ser estudadas localizações (Rio Frio e Ota foram as mais faladas), para a relocalização do aeroporto da Portela, inaugurado em 1942. Gastaram-se milhões em estudos e o processo foi várias vezes anunciado e interrompido. O tema voltou a animar o debate pela mão no Governo de Sócrates, que encomendou um estudo comparativo entre a Ota e a zona do Campo de Tiro de Alcochete. Entretanto, o ano de 2007 traz uma viragem, com o Ministro das Obras Públicas e Transportes, Mário Lino, a considerar faraónico construir um aeroporto na Margem Sul, onde não há gente, escolas, hospitais, indústria, comércio, hotéis. A solução Montijo começou a ser discutida em 2014, com a troika fora de Portugal, mas só com o regresso do PS ao poder é que foi vista como a melhor opção. E os ambientalistas têm exigido mais estudos.
A escolhida do Montijo deve-se a três razões: é a opção mais barata, a menos afastada da capital e a obra tem um tempo de execução mais rápido. Além disso, é a única que permite atingir 72 movimentos por hora – o dobro da capacidade atual da Portela – e chegar aos 50 milhões de passageiros por ano.
A obra de transformação da Base Aérea do Montijo tem um custo estimado de mil milhões de euros. O valor será pago pela ANA – Aeroportos de Portugal, através das taxas cobradas, não implicando custos para os contribuintes. Quanto à expansão do Humberto Delgado, desconhece-se ainda o valor de investimento.
A base militar mantém-se, mas com menos aeronaves. A concessionária estabeleceu um acordo que determina que os aviões C-295 e os C-130 da Força Aérea Portuguesa serão deslocalizados para outras bases (Sintra e Beja) por 700 milhões. O processo demorará pelo menos dois a três anos, não havendo data prevista para o início, e será inteiramente suportado pela ANA.
O aeroporto do Montijo está vocacionado para transportadoras aéreas que tenham as chamadas rotas “ponto a ponto”, ou seja, sem correspondências. Há companhias aéreas interessadas. Por exemplo, a Ryanair já se mostrou disponível para voar para lá, tendo até criticado o Governo pela morosidade no desenrolar do processo. Mas a TAP ainda está com dúvidas
Quem aterrar no Montijo tem ligação com a capital de duas formas: pela Ponte Vasco da Gama, onde haverá uma via rápida, e através de uma ligação fluvial mais curta pelo Tejo. Isto, até que haja uma terceira travessia sobre o Tejo.
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Em meados de julho, os autores de um estudo enviado há um ano ao Governo publicaram no Boletim da Associação da Força Aérea Portuguesa os argumentos a explicar porque é que a opção Portela + Montijo será “uma solução sem futuro”. Segundo eles, ficará esgotada a capacidade aeroportuária de Lisboa em 8 a 15 anos com a transformação da BA6 no aeroporto complementar de Lisboa, começando a operar em 2022 como previsto – previsão que reduz drasticamente os prazos de 3 a 4 décadas avançados pelo Governo para justificar esta opção.
Os autores – Carlos Matias Ramos, ex-presidente do LNEC e antigo bastonário da Ordem dos Engenheiros; Carlos Brás, general engenheiro de aeródromos; Jaime Valadares, controlador de tráfego aéreo e ex-diretor de navegação aérea da ANA; João Ivo da Silva, piloto aviador e gestor operacional de aeroportos – alegam que os pressupostos da fundamentação do Governo são um exemplo de como “a decisão política é tomada e depois se desenvolvem as diferentes ações para a justificar e implementar”.
A longevidade da solução esgotar-se-ia entre 2030 e 2035 com os previstos 72 movimentos/hora nas duas pistas (48 na Portela e 24 no Montijo). E o Governo diz ser “até 2050” (“recentemente foi referido 2062”) com base nas projeções de tráfego feitas pela consultora Roland Berger (RB). Para os autores, a saturação já ocorreria cerca de 2030, com 70 movimentos/hora e é “pouco provável que estes sejam atingidos” face às obras anunciadas. Sem “mais investimento, o esgotamento da solução ocorrerá provavelmente ainda antes de 2030”.
As reservas dos autores quanto ao número de movimentos/hora avançados pelo Governo assentam, entre outros aspetos, no facto de a RB optar pela “sistemática subestimação do número de movimentos” na última das 30 horas com maior volume de tráfego num determinado ano – sendo esta hora específica o valor-padrão e “uma prática bastante difundida” para se “dimensionar as infraestruturas à procura esperada”. Ora, a convicção dos autores é de que a RB prevê menos movimentos para essa 30.ª hora que os dados atuais antecipam. E, se as previsões de tráfego da RB “foram ultrapassadas pela realidade”, os autores do artigo duvidam de que as obras anunciadas pela ANA cheguem para alcançar os anunciados 70 movimentos/hora por causa do aeródromo de Tires.
No Montijo e por causa das faixas de acesso (taxiways), “estima-se que o tempo de ocupação de pista de cada partida possa atingir os 5 minutos” (12 descolagens/hora). Nas aterragens, com duas alternativas de saída de pista (e “nenhuma delas eficiente para reduzir o tempo de ocupação”), o projeto parece ser “mais penalizante na pista que se acredita vir a ser mais utilizada” devido aos ventos.
Na Portela, a falta de novos taxiways de saída rápida e do prolongamento dos taxiways paralelos para acesso à pista de menor utilização permite esperar um crescimento modesto da capacidade – menos três a quatro movimentos/hora do que o previsto.
Qualificando as justificações do executivo a favor da Portela + Montijo como correspondendo a “uma narrativa e condicionamentos não confirmados”, os autores garantem que “não é fácil, barato nem de rápida execução” adaptar a BA6 como aeroporto complementar da Portela. De facto, prolongar a pista principal (com 2187 m) em 300 metros é insuficiente para ser usada por aviões como os Airbus A320-200, exigindo a construção dum aterro numa zona aluvionar com 15 metros de espessura (os primeiros 4 de lodo) estimado em 80 milhões de euros – mais os custos adicionais de remover, depositar e confinar “material contaminado” na casa dos 110 mil metros cúbicos. Além disso, “a pista terá de ser alteada”, porque com o seu prolongamento em 300 metros, mantendo a atual inclinação, ficaria “sem condições de folga” ante o galgar das águas do rio na preia-mar e a ondulação provocada pelo vento e embarcações. E é preciso construir pavimentos novos ou reforçar os existentes para acolher “as aeronaves previsíveis como utilizadoras”, e “apenas 17%” da área de movimento do aeroporto “poderá ser aproveitada”.
E, questionando os argumentos em acessibilidades, criação de empregos e desenvolvimento regional, condicionamentos ambientais – a APA reiniciou a análise ao EIA (Estudo de Impacto Ambiental) da ANA – e riscos de colisão com aves, o artigo defende um novo aeroporto na zona de Canha (a cerca de 20 quilómetros da BA6), por permitir uma construção faseada e com espaço para aumentar em função do crescimento objetivo dos indicadores de tráfego aéreo.
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O EIA do futuro aeroporto do Montijo aponta diversas ameaças para a avifauna e efeitos negativos sobre a saúde da população por causa do ruído, como já se demonstrou em tempo, quer na fase de construção, quer na de exploração.
Contudo, do ponto de vista do impacto global previsto para a avifauna, os responsáveis pelo documento consideram que “é, em geral, pouco significativo a moderado para a comunidade estudada, e não ‘muito significativo’, como mencionado no Parecer ao EIA”.
O EIA diz que os impactos mais importantes na fase de exploração (a mais duradoura e significativa) são para as aves e decorrem da circulação de aeronaves sobre o Estuário do Tejo, em especial para norte, o que irá causar elevada perturbação ao nível do ruído nos habitats de alimentação e refúgio para este grupo. Mas “é proposto um conjunto de medidas de compensação/mitigação que visa a beneficiação de habitats” e que permite “reduzir a significância do impacto identificado”. Já quanto aos impactos sobre a mortalidade de aves por colisão com aeronaves, concluem que nenhuma das espécies terá as suas populações afetadas de forma importante.
No atinente ao ruído, o EIA prevê que o concelho mais afetado seja o da Moita. Contudo, “com a aplicação de medidas ambientais adequadas e indicadas para o Ambiente Sonoro, o impacto poderá ser, de certa forma, minimizado”. Ademais, também a zona está exposta ao ruído do tráfego rodoviário e, em menor escala, do tráfego da linha ferroviária do Sado, de movimentação de pessoas em zona de lazer e outras, do tráfego fluvial, de atividades agrícolas e industriais, e das operações aéreas militares da BA6. E não se para a movimentação!
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Enfim, sempre que há intervenção humana, há efeitos negativos no ambiente natural e urbano. Resta saber se as vantagens esperadas compensam os prejuízos e se o benefício merece os custos económicos e ambientais e se o desenvolvimento sustentável fica garantido.
Não me parece iniciativa séria o aparecimento dum manifesto de última hora e sem indicação de soluções alternativas, a não ser a da redução do número de aviões, o que implicaria a aquisição de aviões de maiores dimensões, com provável aumento da área de pista e de parque de estacionamento de aeronaves. Que outra localização os subscritores do manifesto de hoje sugerem? Nem o texto condiz com o título…
Já o estudo do painel de técnicos, acima referido, deveria ter merecido a atenção do executivo e da ANA. Os argumentos são pertinentes e colam à argumentação uma localização alternativa não muito distante da BA6 e que permite a construção faseada.
Vá lá, será esta construção a que a ANA está a pôr mãos a 1.ª de muitas fases do novo aeroporto? Mas não deixem de fazer o aeroporto.
2019.09.14 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Manifesto Pela Verdade dos Factos ou A verdade e nada mais que a verdade


Com o “Manifesto Pela Verdade dos Factos”, de 6 de maio, professores e autores de blogues dedicados à Educação desmontam a narrativa construída em torno da recuperação do tempo congelado aos professores no contexto da crise sistémica e consideram o chumbo do respetivo esboço de lei como a negação da valorização da classe docente. E tomaram esta posição como forma de luta logo após o conhecimento do vergonhoso recuo perspetivado pelo CDS e pelo PSD, que veio a concretizar-se a 10 de maio, juntando-se ao PS na votação.
Os subscritores – que invocam a sua condição de “professores, membros da comunidade educativa e autores de diversos espaços de discussão sobre educação”, com “opiniões livres e diversificadas” – não retiram uma vírgula ao texto, explicam os seus motivos e analisam os acontecimentos das últimas semanas, depois de o Primeiro-Ministro ter ameaçado com a demissão do Governo, entretanto afastada com a reprovação da lei.
E, não podendo ficar indiferentes face à orquestração de “tão vil e manipuladora campanha de intoxicação da opinião pública, atacando os professores com base em falsidades”, por parte de membros do Governo e de inúmeros comentadores, sem a possibilidade do devido contraditório, encarregaram-se do trabalho de desmontar as várias falsidades, que vêm contrariando os factos e que têm sido cobertas pela generalidade da comunicação social, o que tem levado a que a opinião pública, em vez de informada, tenha ficado sujeita a manobras de propaganda.
Assim, o manifesto repõe a verdade dos factos, esclarecendo:
- Não é verdade que o Governo não tenha recuado, porquanto, o Ministério da Educação, a 18 de novembro de 2017, por acordo com os sindicatos de professores, comprometeu-se a recuperar todo o tempo de serviço, o que depressa olvidou. Por isso, essa intenção não é conspiração da oposição nem resulta duma ilusão criada pelos sindicatos de professores.
- Não é verdade que o PS, o partido do Governo, não tenha voltado atrás, já que, a 15 de dezembro de 2017, também propôs e foi aprovada no Parlamento a recomendação da total recuperação do tempo de serviço, conforme se pode verificar no Diário da República (Resolução da Assembleia da República n.º 1/2018, de 2 de janeiro).
- São falsos os valores apresentados pelo Governo sobre o custo da recuperação do tempo de serviço docente. Foi prometida há perto de um ano uma comissão para calcular os custos reais e ainda hoje não se conhece o resultado desse trabalho. Os números reais, líquidos, estimados pelos subscritores, rondam os 50 milhões de euros anuais, caso se optasse pela solução da Região Autónoma da Madeira, de recuperar os 9 anos, 4 meses e 2 dias, no prazo de 7 anos. O Governo já apresentou, por diversas vezes, contas inflacionadas, com totais baseados em médias erróneas, como a própria UTAO esclareceu há dias. Um grupo de professores verificou-as e constatou, segmentando os dados, a sua falsidade (https://guinote.files.wordpress.com/2019/05/contas-942-num-ano-2019-e-em-7-anos.xlsx). Ora, mentira reiteradamente proferida nunca se transforma em verdade.
- É falso que que o Governo não tenha verba no orçamento de 2019 para recuperar parte do tempo de serviço congelado, porquanto a recuperação dos 2 anos, 9 meses e 18 dias em 2019 foi proposta do Ministério da Educação e está consignada no Decreto-Lei n.º 36/2019, de 15 de março, diploma que o Presidente promulgou, mas que antes tinha vetado. Por outro lado, um recente Decreto-Lei do governo, que ainda aguarda promulgação, apresentou a possibilidade a todos os professores de recuperar parte desse tempo já em 2019. Ademais, o texto aprovado pela comissão de educação e ciência (a 2 de maio) não altera um cêntimo ao Orçamento de Estado de 2019. O orçamento de 2020 ficará a cargo do próximo Governo, o que sair das próximas eleições legislativas.
- É falso que a reivindicação dos professores seja a exigência da devolução do muito dinheiro perdido pelos professores naqueles anos, meses e dias de tempo de serviço congelado, como alguns fazem crer. Aqueles 9 anos, 4 meses e 2 dias (ou os 2 anos, 9 meses e 18 dias de que fala o Governo) são para considerar na carreira docente para efeitos de progressão no futuro. Não se está a oferecer ou a pedir dinheiro perdido no passado. O que se discute agora é se o tempo de trabalho efetivamente prestado desaparece ou não da carreira dos professores.
- Não se coloca o problema da equidade como o refere o Primeiro-Ministro e seus acólitos. O Primeiro-Ministro, na declaração de eventual e coativa demissão, falou em falta de equidade e disse que aquela votação parlamentar “injusta e insustentável” punha em causa a credibilidade internacional. Ora, mesmo as contas inflacionadas do Governo apontam só para um acréscimo no défice de 0,2 a 0,3 pontos percentuais. E, quanto à credibilidade internacional, não foram os salários dos professores e restantes funcionários públicos que levaram à intervenção por parte da Troika. Essa deve-se a outros fatores bem pesados. E, por exemplo, aos bancos (e grupos a que se expõem), que agora se descobre que foram a grande causa do descalabro financeiro, por via de empréstimos e investimentos ruinosos, nunca se regateia capital para novas injeções financeiras, nem se alega falta de credibilidade internacional ao não se apurarem responsabilidades.
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O Manifesto Pela Verdade dos Factosrefere que “o passado mostra que não se ganham eleições a vilipendiar um dos grupos profissionais mais estimados pelos portugueses, nem repetindo falsidades para amesquinhar um grupo profissional que tem mostrado dignidade na luta, na adversidade e na solidariedade com o todo nacional”. E os subscritores asseguram:
Mas isso não anula a verdade simples: os portugueses em geral, mesmo os que não conseguem passar a barragem da comunicação social para se expressar, respeitam e compreendem os professores e não vão ser enganados por políticos que acham que, com barulheira e falsidades, se faz mais uma habilidade para evitar desgraças eleitorais. Há coisas mais importantes que contar os votos da próxima eleição. Uma delas é o respeito pela verdade e pela dignidade de uma classe profissional que todos os dias dá o seu melhor pela formação dos futuros cidadãos.”.
Não tenho certezas sobre o não ganho de eleições devido ao vilipêndio dum grupo profissional e à repetição de falsidades, como não creio que o ataque aos professores não tenha influenciado a opinião pública contra os professores – tanto assim que mais de 50% dos inquiridos numa recente sondagem dava razão ao Governo no diferendo com os professores. Porém, governantes, deputados e comentadores devem pautar-se, não pelo voto, mas pela ética e pela lei.
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José Eduardo Lemos, presidente do Conselho das Escolas (CE), que não assinou o manifesto, conhece o conteúdo e aplaude a atitude, considerando “excelente” a iniciativa de professores-bloggers que, de forma certeira, “desmontaram uma série de falsidades ou, mais benignamente, de imposturas intelectuais, justificadas por interesses político-partidários e profusamente difundidas pelos órgãos de comunicação social e pelas redes sociais”. E, a seu ver, como referiu ao “educare.pt”, os blogues prestaram “um serviço cívico que se impunha em favor da transparência e da verdade”, um “serviço que competia a outros, desde logo ao Governo e à comunicação social, mas que, nesta matéria, generalizadamente, intoxicaram a opinião pública com falsidades (mais até do que com meias-verdades), perseguindo fins políticos e não olhando a meios para os atingir”. E, parabenizando os autores do manifesto, sublinhou: 
Este manifesto tem o condão de colocar a nu a farsa montada em torno da recuperação do tempo de serviços dos professores, trazendo à memória coletiva factos que ocorreram entre 2017 e a atualidade e que, indesmentivelmente, mostram quem é que tem andando às arrecuas, quem descaradamente tem mentido aos professores e à população, quem tem sentido de Estado e quem não o tem”.
O que está verdadeiramente em causa, em sua opinião, não é só a recuperação do tempo de serviço congelado, é também “a velha arte de mentir no espaço público e o mau exemplo”. E o presidente do CE lança uma pergunta e dá uma resposta:
Como se podem sentir os professores que ouviram responsáveis políticos declarar que recuperariam todo o tempo de serviço, que viram a Assembleia da República aprovar a Resolução 1/2018 e que leram os orçamentos de Estado de 2018 e de 2019? Diabolizados e enganados, obviamente!”.
O líder do CE olha o caso como um episódio de “fake news”, com o efeito perverso de ter colocado os professores como vilões da história para, como refere, “envenenar a opinião pública”. E observa com ironia:
Tal vem apenas confirmar a necessidade de formação em ‘Literacia para os Media’, que está a ser promovida pelo Ministério da Educação, e também oferecer uma interessante temática para debate nas aulas de Cidadania e Desenvolvimento”.
Por seu turno, Paulo Guinote, autor do blogue “O Meu Quintal” e subscritor do manifesto, considerando a ameaça de demissão “um enorme cinismo político”, entende que se devem clarificar, de uma vez por todas, os conceitos de “equidade” e de “justiça”, usados frequentemente nos últimos dias, só que, a seu ver, esvaziados dos seus conteúdos. Em primeiro lugar, como sustenta, é preciso esclarecer, e de forma transparente, os cálculos sobre a contabilização do tempo de serviço docente que o Ministério das Finanças “tem apresentado de forma truncada e manipulada há vários meses”. E aponta em declarações ao “educare.pt”:
O Governo contabilizou todo o tempo de serviço prestado às carreiras gerais e nega-o às carreiras especiais, atropelando estatutos de carreira que estão em vigor e, no caso da carreira docente, um estatuto legislado pelo partido no Governo, com a presença no Conselho de Ministros do atual Primeiro-Ministro (…) O que está em causa é a negação de um ‘direito’, legalmente previsto, tornando permanente algo que foi apresentado como solução transitória.”.
Diga-se, em abono da verdade, que o ECD (estatuto da carreira docente) foi gerado num tempo de governação em que o PSD detinha no Parlamento a maioria absoluta (consulado de Cavaco Silva) e teve uma alteração significativa em tempo de governação socialista (consulado de Oliveira Guterres). A grande e subversiva alteração no tempo de Sócrates, Costa e Milu Rodrigues devia ser para esquecer ou anatematizar. Salva-se a alteração ao ECD feita por Sócrates e Isabel Alçada. 
Ora, o autor de “O Meu Quintal” – que explica o “muito significativo” desaparecimento do Presidente da República neste assunto, “algo inédito no seu mandato”, pela complexidade do problema e os riscos da tomada de uma posição clara” – entende que não tem sentido usar a contabilização do tempo de serviço docente como motivo para uma potencial demissão. Com efeito, segundo julga, “a reação é despropositada e desproporcional só se explicando por causas externas à situação específica vivida nos últimos dias” e, em seu entendimento, “tudo resulta da combinação entre uma aversão visceral que algum PS, fortemente representado neste Governo com vários ex-ministros de José Sócrates e colegas de Maria de Lurdes Rodrigues, tem em relação aos docentes e um calculismo político relacionado com o interesse em antecipar eleições para colher dividendos de uma conjuntura de crise política que se pretende apresentar como causada pela oposição e pelos parceiros parlamentares da chamada geringonça”. E, sobre contas feitas e valores apresentados, em que a soma das partes não foi igual para todos, considera:
Tem sido apresentado um valor de ‘despesa’ que contabiliza progressões a professores no topo da carreira, oculta-se a receita fiscal direta que acarretaria a subida salarial dos professores e indireta pelo aumento do consumo, assim como o facto das ‘prestações sociais’ contabilizadas na despesa do Ministério da Educação serem receitas contabilizadas no Orçamento de Estado em outras rubricas”.
Além disso, realça:
Não se explicitou com clareza, até à intervenção da UTAO [Unidade Técnica de Apoio Orçamental], qual o impacto real no défice que, mesmo contando todas as carreiras especiais, se fica por 0,2%, enquanto Mário Centeno acenava com valores muito superiores nas suas comparações”. 
Aliás, é preciso frisar, do meu ponto de vista, que muito do tempo perdido nunca será recuperado, visto que os que atingiram o último escalão já nada têm a recuperar, tantos professores, entretanto, se aposentaram (por terem alcançado a idade legal ou por terem entrado na aposentação antecipada com as forte penalizações) e muitos aderiram ao programa de rescisão por mútuo acordo (eufemismo). Mas o professor Paulo Guinote tece mais um considerando: os professores, que diariamente estão nas escolas, foram ignorados neste debate. E discorre:
Tudo isso foi agravado, em especial nas televisões, com um monopólio quase total da ‘análise’ entregue a opinion-makers e alegados ‘especialistas’ (financeiros ou constitucionalistas) alinhados com a ‘narrativa’ produzida pelo Governo. (…) Os professores sentiram-se ignorados em todo este contexto e foi necessário reanimar redes de mobilização, em especial no espaço virtual, para produzir alguma resistência independente à investida mediática governamental. Foi assim que surgiram os cálculos alternativos aos custos da recuperação do tempo de serviço docente, feitos pelo professor Maurício Brito e o ‘Manifesto pela Verdade dos Factos’, já depois do grupo que promoveu há um ano a apresentação de uma Iniciativa Legislativa que permitisse abrir um processo legislativo sobre esta matéria.”.
Também o professor Alexandre Henriques, do blogue ComRegras, um dos autores do manifesto, refere que esse documento pretende “a verdade e nada mais que a verdade”. Efetivamente, quem está por dentro dos assuntos não engole tudo o que é dito e percebe mentiras e manipulações. Nestes termos, aduz:
O manifesto foi um alerta para o desconhecimento e manipulação que está a ocorrer um pouco por todos os órgãos de comunicação social, principalmente nas televisões. Quem informa tem a obrigação de estar mais preparado, pois este Ministério da Educação e respetivo Governo já provaram que não são sérios para com os professores e restante população. A prova é que a própria UTAO veio afirmar que os números de Mário Centeno são falsos, algo que os professores têm dito e repetido há já bastante tempo.”.
O tempo de serviço é um direito consagrado na legislação, é um pilar social. E, como o professor sublinha, “não se pode simplesmente apagá-lo, ainda por cima com uma arrogância imprópria de um Governo que se intitula democrático”. Alexandre Henriques defende que é necessário lembrar que a carreira docente precisa de ser valorizada. E deixa o alerta:
Estamos na iminência da tempestade perfeita, onde uma saída massiva de professores e residual renovação irá levar a um esvaziamento da sala de professores e consequentes salas de aula. Daqui a 10 anos, não haverá professores suficientes para os alunos que temos. Isto é factual e está a ser ignorado.”.
E, tendo em conta que “a recuperação do tempo de serviço, não é só uma questão de justiça, é uma questão central para valorizar os atuais profissionais e passar a mensagem de que ser professor ainda é algo que vale a pena investir”, interrogava-se, um dia antes da votação no plenário parlamentar, e respondia:
E se a lei que aprova a recuperação dos nove anos, quatro meses e dois dias for chumbada? Será a negação dessa valorização docente e consequente confirmação de que os partidos, ao longo de quase dois anos, não passaram da retórica oca e demagógica, afirmando algo que agora estão a negar.”. 
***
Enfim, poderá o manifesto não influenciar o devir político, mas as verdades não ficaram por dizer. Quem tem olhos leia e quem tem ouvidos oiça! Lembro, a propósito, o caso dum maluco com um burro à rédea que, ao passar um avião no ar, içou ao alto a cabeça do seu burro e disse:
Admira, burro, a ciência humana!

(cf https://www.comregras.com/manifesto-pela-verdade-dos-factos/; Resolução da Assembleia da República n.º 1/2018, https://dre.pt/web/guest/home/-/dre/114426057/details/maximized; Sara R. Oliveira, A verdade e nada mais que a verdade”, educare.pt”, 13-05-2019, https://www.educare.pt/noticias/noticia/ver/?id=150826&langid=1).

2019.05.15 – Louro de Carvalho