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quarta-feira, 3 de junho de 2020

Não queria que a máscara viesse a ser assumida liturgicamente


Não, o título não vem a despropósito, já que a maior parte dos paramentos, insígnias e alguns gestos litúrgicos, que tiveram origem no uso comum ou no de determinados grupos de pessoas e/ou em necessidades permanentes ou pontuais, passaram a ser assumidos na Liturgia – muitos deles pelo comum dos clérigos e outros, com o decurso do tempo, apenas por alguns. E o uso litúrgico deu-lhes significado espiritual como consta do teor das orações que acompanham a sua assunção antes da ação litúrgica (orações que a reforma litúrgica de São Paulo VI deixou de impor, mas que também não aboliu) ou das palavras que acompanham a sua imposição, nomeadamente no rito da ordenação de diácono, presbítero e bispo (Vd Cerimonial dos Bispos e Pontifical Romano, de Paulo VI).
Porque o antigo ritual da paramentação do Bispo para solene Pontifical as impunha ao Bispo, há que revisitar a origem dessas peças e as orações concomitantes à sua vestição, orações que as conotam com um grande significado espiritual e arredam toda a ideia de luxo, pompa ou poder.
As cáligas, calçado de meio cano em forma de sandálias feitas de couro e com pregos, usado pelos militares romanos, nomeadamente os legionários e até os centuriões (algumas vezes também os escravos), eram símbolo da expansão do Império. A Igreja preservou o modelo, embora decorado, na forma de bota que chega até meio das pernas e que é fechada por fios atados.
Antes da paramentação, o Bispo desfaz-se dos sapatos usuais, calça as cáligas e diz: 
Calçai, Senhor, os meus pés na preparação do Evangelho da paz e protegei-me à sombra de vossas asas”.
A mozeta, murça ou mantelete é uma capa curta que cobre os ombros, parte das costas e dos braços. Não sendo veste litúrgica é usada sobre a sobrepeliz como parte da roupa coral de alguns clérigos.  É fechada na frente, sendo que a capa similar, mas aberta na frente, é denominada pregrineta. Depondo a mozeta, o Bispo reza:
Livrai-me, Senhor, do homem velho com as suas obras e costumes e revesti-me do homem novo, criado segundo Deus na justiça e santidade da verdade.
Lavar as mãos é um gesto normalíssimo higienicamente recomendado. Mas Pilatos lavou-as em sinal de desresponsabilização pela morte de Jesus. O Bispo lavava-as antes da Missa dizendo:
Dai, Senhor, força às minhas mãos para lavar toda a iniquidade e poder para servir-Vos sem culpa no corpo e na alma.
Na Missa, o celebrante lava as mãos dizendo:
Lavai-me, Senhor, da minha iniquidade e purificai-me do meu pecado”.
O amito surge no século VIII para cobrir a cabeça e o pescoço do celebrante e ministros (dantes usava-se sobre a alva e sobre a casula para cobrir a cabeça na ida para o altar), e, passando debaixo dos braços, para apertar a alva ao peito. Quando no século X apareceu o barrete, o amito passou a cobrir só o pescoço. Contudo, em ritos de certas ordens religiosas, conserva-se o uso primitivo do capuz. Usa-se por baixo todas as vezes que se vestir o amito. Também se põe imediatamente sobre o roquete ou sobrepeliz todas as vezes que se deva vestir, sem a alva, a dalmática, pluvial ou casula, como para assistir ao Bispo na Missa e Vésperas Pontificais. Com o amito, reza-se:
Ponde, Senhor, sobre a minha cabeça o capacete da salvação para rejeitar todas as tentações do diabo e armadilhas do inimigo.
A alva era a túnica interior que os romanos usavam no século VI. Agora usa-se na missa e outras ações litúrgicas, sobretudo nas procissões e exposições solenes do SS.mo Sacramento.
Enquanto se veste a alva, reza-se: 
Purificai-me, Senhor, e limpai meu coração, para que como aqueles que lavaram as suas vestes no sangue do Cordeiro, possa eu desfrutar das alegrias eternas”.
O cíngulo (branco ou da cor dos paramentos) passou a apertar aos rins a alva depois do século VIII.
Enquanto se cinge com o cíngulo, o sacerdote ou o Bispo diz: 
Cingi-me, Senhor, com o cíngulo da fé e da virtude da castidade e apagai de meus membros o ardor da concupiscência, para permanecer sempre em mim a força da castidade.
A cruz peitoral (insígnia episcopal desde o século XIII) costuma conter relíquias de mártires e o seu uso foi herdado dos primeiros cristãos. Depois de a beijar e receber do crucífero, o Bispo reza:
“Senhor Jesus Cristo, dignai-Vos proteger-me de todas as ciladas do inimigo com o sinal santíssimo da Vossa Cruz, e dignai-Vos conceder a mim, Vosso indigno servo, que, assim como levo em meu peito esta Santa Cruz com todos os Vossos Santos, sempre tenha em minha mente a memória da Paixão e as vitórias dos Mártires”.
A estola, peça de tecido de linha, terminada com franjas, que os homens usavam para resguardo do pescoço do frio, era aberta por diante e ornada duma orla de bordado precioso, que dava a volta ao pescoço e descia até aos pés. O uso religioso antecede o cristianismo (vd Ex 25,7 – o ephod usando-se vestido ou como símbolo ou bandeira). Entre os povos pré-romanos itálicos há menções do seu uso por sacerdotes umbros nas Tábuas Inguvinas. No cristianismo, data do século IV no Oriente e por volta do século VI no Ocidente. Era conhecida como orarium (perto da boca). Mais tarde, passou a designar-se no Ocidente de stola, (em grego, στολή – stolé, “vestido”). Originalmente, era um lenço ou xale estreito usado para enxugar o rosto das pessoas. Depois de adotada no vestuário litúrgico como insígnia de dignidade e poder (nas liturgias oriental, visigótica e galicana no século VI; e na romana no século IX), para poder ser revestida por baixo da dalmática e da casula, a estola perdeu a sua parte mais importante – a túnica, e conservou apenas o bordado (orarium). Deve ter uma cruz grega no meio e nas duas extremidades. Os sacerdotes usavam-na cruzada ao peito debaixo da casula já que a cruz peitoral era (e continua reservada aos Bispos), mas usavam-na pendendo paralelamente no peito, quando sobre a sobrepeliz. Ao tomar a estola, diz-se: 
Dai-me, Senhor, a estola da imortalidade que perdi com a desobediência de meus pais, e ainda quando dos Vossos sagrados Mistérios me aproximo sem ser digno, com este ornamento eu mereça a alegria eterna”.
A tunicela era um vestido comprido em forma de T, estreito, com ou sem mangas, que as personalidades oficiais de Roma, no século V, traziam sob a poenula (de que derivou a casula litúrgica) ou da toga. Liturgicamente, usavam-na os subdiáconos e podiam usá-la os Bispos sob a dalmática. Ao vestir a tunicela, diz o Bispo: 
Que o Senhor me revista com a túnica do gozo e as vestes da alegria”.
A dalmática, a princípio, vestido de escravos ou vestido interior, passou a ser vestido exterior luxuoso na Dalmácia. E os romanos adotaram-no, entre o século II e fins do século III sobretudo para as mulheres da classe alta sobretudo na última parte do século III. Muitas são assim retratadas em alguns retratos funerários em mortalhas de Antinoópolis, no Egito romano. Fontes literárias registam a dalmática como presente imperial para os indivíduos. Vestia-se por cima da túnica inferior e por baixo da poenula ou da toga. Embora, já usada no serviço do altar no tempo de São Cipriano, Bispo de Cartago (249-258), o Papa Silvestre I (314-335) adotou-a como veste litúrgica para quem lesse a Epístola ou o Evangelho. E, desde o fim do século V, foi adotada pelo Papa como insígnia própria e, depois, concedida por ele como distinção honorífica aos bispos e presbíteros da Igreja de Roma e, mais tarde, aos de outras Igrejas. Todavia, este privilégio foi-se estendendo aos diáconos das diversas Igrejas. Hoje só o Bispo nas Missas pontificais se conserva fiel ao costume (antigamente comum também aos sacerdotes) de vestir a tunicela e a dalmática por baixo da casula. De resto, por um desejo de simetria – pouco respeitador da tradição e das regras litúrgicas –, a tunicela e a dalmática tornaram-se iguais, indistinguíveis. Contudo, alguns dão à dalmática duas faixas horizontais (segmentae) a unir as duas verticais (claves) e à tunicela duas verticais e uma horizontal.
Como peça de vestimenta bizantina foi adotada pelo czar Paulo I do Império Russo como vestimenta de coroação e vestimenta litúrgica. Nos ícones ortodoxos de Jesus Cristo como Rei e Grande Sumo Sacerdote, Cristo enverga uma dalmática. Por ordem do Papa Eutiquiano (275 a 283), os mártires eram enterrados vestidos com dalmática. Ao vestir a dalmática, o Bispo diz: 
Revesti-me, Senhor, com a veste da salvação e da alegria, e rodeai-me com a dalmática da justiça”.
As chirotecas (luvas para proteção das mãos) são de seda, da cor litúrgica e com bordados nas costas – insígnia de distinção em uso desde a época carolíngia. O Bispo usava-as até ao ofertório, exceto na Sexta-feira Santa e na Missa dos Defuntos. Ao calçar as chirotecas, rezava: 
“Envolvei, Senhor, minhas mãos com a pureza do Homem novo que desceu do céu, para que, como o seu amado Jacob, que com as mãos cobertas com pele de cabra, pediu a bênção paterna, uma vez oferecidas a seu pai comida e bebida muito agradáveis, também a oferenda da salvação doada por nossas mãos mereça a bênção da Vossa graça. Por nosso Senhor Jesus Cristo, Vosso Filho, que em semelhança pela carne pecadora, Se ofereceu a Si mesmo por nós.”.
A casula era um manto de lã ou de couro, em forma de saco ou de sino, destinada nas viagens a resguardar do mau tempo. Era a poenula adotada pelos romanos no século II. Tinha só uma abertura por onde se passava a cabeça e, caindo dos ombros até aos pés, envolvia todo o corpo, simulando uma pequena casa (casula). Ampla e majestosa, flutuava ao mais ligeiro movimento do corpo, pelo que se designou por planeta (no grego, significa “errante”).  Se o povo a abandonou no século VI, o clero continuou a usá-la. Pouco a pouco, os membros da Hierarquia inferior renunciaram a ornamento tão caro, que ficou reservado aos presbíteros e aos bispos. A sua forma variou bastante a partir do século XIII, devido a sucessivas reduções que, para facilitar os movimentos do Celebrante, transformaram a ampla, ágil e majestosa planeta na inestética, desgraciosa e pesada casula romana tridentina até que o movimento litúrgico do século XX a recuperou como gótica. Havia o costume de tirá-la quando o sacerdote pregava do púlpito, porque o sermão, no rito antigo, não era considerado parte integrante da Missa. O costume de suspender a parte da casula que cai das costas do Celebrante durante as Elevações, antes do significado teológico, tinha o sentido prático de ajuda no trato do paramento originado quando este era mais amplo. Ao vestir a casula, o Bispo reza: 
Senhor, que dissestes ‘O meu jugo é suave e o meu fardo é leve’, concedei-me que eu o leve de tal modo que possa obter a sua graça”.
A mitra era uma touca branca, de forma alongada, cónica e sem ornato. No século XII, em Roma, toma a forma de coroa (regnum), e sofre, no decorrer dos séculos, várias modificações. O mais antigo documento da concessão aos Bispos data do século XI. Segundo Tomás de Aquino, as duas pontas que formam a mitra significam o Antigo e o Novo Testamentos; as ínfulas, que descem sobre as espáduas, expressam o resplendor que saía da cabeça de Moisés após a visão de Deus, o brilho da sabedoria dada aos bons pastores, como prometido ao profeta Jeremias (3,15). Até São Paulo VI os Papas usavam a tiara (triregnum), mas com este Sumo Pontífice estabeleceu-se o uso da mitra papal. Ao assumir a mitra quando o mitrífero lha entrega, o Bispo reza:  
Imponde, Senhor, em minha cabeça a mitra e o capacete da salvação, para que não caia nas ciladas do antigo inimigo e de todos os demais adversários”.
Aquando da ordenação episcopal, o Bispo ordenante principal utiliza a seguinte fórmula na entrega da mitra:
Recebe a mitra, e brilhe em ti o esplendor da santidade, para que, ao aparecer o príncipe dos pastores, mereças receber a coroa imperecível da glória”.
O anel deve ter uma pedra preciosa respetiva à dignidade do prelado. No Bispo, é o símbolo da união com a sua Igreja. É diferente do anel com que os antigos Bispos selavam as suas cartas, como faz o Papa com o Anel do Pescador. O anel episcopal do Vaticano II é simples. Ao receber o anel, o Bispo reza:
Adornai, Senhor, os dedos do meu coração e de meu corpo, e envolvei-me sete vezes com o Espírito santificador”.
Por seu turno, o Bispo ordenante, aquando da ordenação episcopal utiliza a seguinte fórmula na entrega do anel ao novo Bispo:
Recebe este anel, sinal de fidelidade; sê fiel à Igreja e guarda-a como esposa santa de Deus”.
O manípulo (mappula, sudarium), lenço de cerimónia integrava o vestido do aparato dos romanosservia para cobrir o rosto, limpar o suor, transmitir ordens, dar o sinal do princípio dos jogos, aclamar os vencedores. O presidente da assembleia litúrgica adotou-o, a princípio como toalha (posta junto à mão) para desanuviar as lágrimas com que ouvia, compungido, a confissão pública dos pecados. E os ministros imitaram-no. Ao envergar o manípulo, o celebrante diz:
Fazei, Senhor, que eu mereça levar o manípulo com espírito humilde, para que com alegria tenha eu parte entre os Santos”.
O báculo era um tipo de cajado usado pelos pastores para se apoiarem ao andar e conduzirem o rebanho. Muitas vezes tinha a extremidade curva para segurar a rês pela perna e aguçada a ponta inferior para ferir o lobo. No sentido eclesiástico, é um bordão usado pelos dignitários da Igreja Católica, simbolizando o seu papel de pastores do rebanho divino. Configura, ao lado da mitra, uma das principais insígnias dos Bispos e dos antigos abades, sendo um símbolo da jurisdição: a parte curva do báculo episcopal era voltada para fora, mercê da jurisdição do Bispo, que abrange todo o território da diocese; a do báculo abacial era voltada para dentro, pelo facto de a jurisdição do abade respeitar apenas ao mosteiro. Assomou historicamente como símbolo do poder político superior ao poder temporal dos imperadores e reis.
Embora não haja oração que o Bispo reze enquanto o caulífero lhe oferece o báculo para a procissão de ingresso, o seu significado pastoral está plasmado na fórmula que o Bispo ordenante principal utiliza aquando da ordenação episcopal: 
Recebe o báculo, símbolo do múnus de pastor, e cuida de todo o rebanho no qual o Espírito Santo te constituiu como Bispo, para regeres a Igreja de Deus”.
***
Trata-se de aproveitamento de peças do uso comum, habitualmente profano para elevar, na descoberta histórica e enditante dos valores simbólicos, fazer perceber o sentido da beleza do culto público e instilar piedade e noção do mistério. Mas não devem ter lugar os excessos.
Reportando-me ao título, percebo que a Covid-19 tenha generalizado o uso da máscara como forma de proteção pessoal e comunitária e entendo que os liturgistas poderiam formular uma declaração ou um discurso orante que refira a sua assunção celebrante (presidencial, concelebrante ou participante) do género: “Recebe a máscara da virtude para que te protejas das insídias do mal que te venha do exterior e não contagies os teus irmãos com o mal que a mente e o coração possam querer difundir através da tua boca”. Não é verdade que o Senhor purificou os lábios do profeta com uma brasa viva (Is 6,6-7) e que isso deu origem a bênção ou a oração antes do anúncio do Evangelho (Vd “Ordo Missae”, Missale Romanum, de Paulo VI)?
Porém, um hipotético uso litúrgico da máscara evocaria um surto pandémico de má memória. Para isso, temos a invocação ao Mártir São Sebastião para nos livre da peste da fome e da guerra ou a rogação da Ladainha de Todos os Santos: A peste, fame et bello libera nos, Domine. 
Não, não quero a máscara por muito tempo: quero as pessoas como são e mostrar-me como sou.
2020.06.03 – Louro de Carvalho

domingo, 15 de julho de 2018

A missão é um imperativo profético para os cristãos


Falar em nome de Deus, testemunhar o seu nome e desígnio junto das pessoas é imperativo inerente à condição dos profetas, que são chamados por Deus e enviados para falarem em nome d’Ele denunciando erros e injustiças, trazerem a consolação de Deus e anunciar na esperança a era da paz e da justiça e comprometerem-se com o que anunciam. Esse chamamento de Deus é pessoal e incide sobre pessoas das mais diversas condições; e a missão é para cumprir, ainda que tenha de enfrentar a oposição dos instalados na religião, na política e na sociedade.  
A Liturgia da Palavra do 15.º domingo do Tempo Comum no Ano B seleciona para proclamação e reflexão um pequeno texto de Amós (Am 7,12-15), que nos dá conta do diálogo do profeta com Amasias, sacerdote de Betel, que sentiu o incómodo da profecia, que o desinstalava, e como solução exigia a fuga de Amós para a terra de Judá. Com efeito, Betel dispunha de santuário e sacerdotes, pelo que, na sua autossuficiência, não precisava de profecia. Os outros, os de longe, os que são maus, é que precisam de ouvir a Palavra e converter-se. Além disso, podem pagar o serviço da profecia e sustentar o profeta, como se a obrigação de professar estivesse dependente do pagamento do serviço.
Ora, o profeta reage esclarecendo Amasias de que não se alcandorara ao estado de profeta por si próprio, pois até nem era profeta nem filho de profeta (como eram os sacerdotes em Israel), mas um simples pastor de gado e cultor de sicómoros. Porém, foi surpreendido pelo chamamento do Senhor que o tirou da guarda do rebanho e o enviou a profetizar ao povo de Israel.
Assim, cumpre ao profeta ser fiel à vocação e cumprir com alegria e entusiasmo a missão que Deus lhe confiou, mesmo que incomode ou tenha a oposição dos destinatários ou os líderes instalados o tentem impedir.
***
Também o Evangelho (Mc 6,7-13) nos apresenta Jesus a chamar os doze apóstolos e a enviá-los dois a dois. Tinha-os escolhido para discípulos e, como tais, deveriam aprender os ensinamentos do Mestre. Mas não basta aprender a doutrina; é preciso seguir o Mestre nas suas indicações e nos seus passos. 
O Evangelho de Marcos começa por vincar a ideia de Jesus, o Messias que proclama o Reino de Deus. Depois, Jesus apresenta a sua proposta ao grupo de discípulos, que escutam o apelo e aceitam embarcar nesta aventura. E Marcos narra como Jesus, com palavras e gestos concretos, vai explicitando a nova realidade do Reino e intercala as propostas de Jesus com as respostas (positivas ou negativas) dos fariseus, do povo e dos próprios discípulos. E, à medida que se avança no “caminho do Reino”, os discípulos surgem cada vez mais ligados a Jesus e implicados no seu projeto. Chamados Ele, responderam positivamente e seguiram-no; e, na caminhada que fizeram com Ele, escutaram os seus ensinamentos e testemunharam os seus gestos e sinais. Formados na escola do Reino, podem agora ser guindados à missão de apóstolos e ser enviados ao mundo, a fim de anunciarem a todos os homens a chegada desse mundo novo, o “Reino de Deus”.
Ora, a perícopa em causa constitui um exercício que antecipa a missão futura dos doze. De discípulos hão de passar a apóstolos em pleno, a missionários, a enviados a toda a Terra a fazer discípulos, que, por seu turno, hão tornar-se apóstolos/missionários. Neste envio, embora ocasional, como se disse, o Senhor deu-lhes poder sobre os espíritos impuros e ordenou-lhes o despojamento: que nada levassem para o caminho, a não ser o bastão – nem pão, nem alforge, nem dinheiro. Mais: deviam assumir a condição de peregrinos, calçados com sandálias e levando apenas uma túnica. Também deu uma indicação metódica: entrando numa casa, deviam ali permanecer até ao momento da partida; e, se não fossem recebidos em alguma localidade, se os seus habitantes não os ouvissem, ao saírem de lá, sacudiriam o pó dos pés como testemunho contra eles. E os Apóstolos partiram e efetivamente pregaram o arrependimento, expulsaram muitos demónios, ungiram com óleo a muitos doentes e curaram-nos.
O texto evangélico é uma a catequese sobre a missão no meio do mundo. As instruções postas na boca de Jesus conservam o seu sentido e valor para os discípulos de todos os tempos e lugares. Marcos deixa claro que a iniciativa do chamamento é de Jesus: Ele “chamou-os”. E não há explicação sobre os critérios que levaram a essa escolha. Assim, falar de vocação e eleição é falar dum mistério insondável, que depende de Deus e que o homem nem sempre atinge.
E porque são doze os enviados? A resposta passa pela consideração do simbolismo do número 12, que remete para as 12 tribos do antigo Povo de Deus. E os “doze” representam a totalidade do novo Povo de Deus. É a totalidade do Povo de Deus que é enviada em missão.
O envio de dois a dois provavelmente terá a ver com o costume judaico de viajar acompanhado, para ter ajuda e apoio em caso de necessidade, e com as exigências da lei judaica, segundo a qual eram precisas duas testemunhas a credibilidade dum anúncio. Por outro lado, a exigência de partirem “dois a dois” sugere que a evangelização tem dimensão comunitária. O discípulo não deve trabalhar a sós, à margem da comunidade; não deve anunciar as suas ideias, mas a fé da Igreja. O anúncio do Evangelho é feito em nome da comunidade e deve estar em sintonia com a fé da comunidade.
A seguir, o evangelista define a missão (“deu-lhes poder sobre os espíritos impuros). Os espíritos impuros tudo o que escraviza o homem e o impede de chegar à plenitude da vida. A missão consiste, pois, em lutar contra tudo o que destrói a vida e a felicidade do homem. É da ação libertadora dos discípulos que nasce um mundo novo, o mundo de homens livres.
Depois, vêm as indicações para a missão. Na ótica de Jesus, os discípulos devem partir num despojamento de bens e seguranças. Têm de ser totalmente livres como Amós o foi e não estar reféns de bens materiais; ao invés, a preocupação com esses bens pode tirar-lhes a liberdade e a disponibilidade. Por outro lado, a atitude de pobreza e despojamento ajudá-los-á a perceber que a eficácia do anúncio não depende da abundância de bens materiais, mas da ação divina. A sobriedade e o desapego são sinais de que o discípulo confia em Deus e contribuem para a credibilidade do testemunho.
Também é referido o comportamento dos discípulos ante a hospitalidade oferecida: devem permanecer na casa onde forem acolhidos, pois é necessário construir comunidade. O saltar ao sabor de disposições, amizades, interesses ou conveniências pessoais é contraindicado. E, se não forem recebidos num lugar, ao abandoná-lo, devem “sacudir o pó dos pés” – gesto que os judeus praticavam ao regressarem de território pagão a simbolizar a renúncia à impureza e, no Evangelho, a significar o repúdio pela recusa das propostas de Deus.
Por fim, Marcos descreve a realização da missão: pregavam a metanoia ou conversão de mentalidade, valores, de atitudes, voltando-se para Jesus a acolher o seu projeto; expulsavam demónios; e curavam os doentes – tudo na sequência da missão do Messias.
O anúncio confiado aos discípulos é o anúncio que Jesus fazia e os gestos que eles são solicitados a fazer no anúncio do “Reino” os gestos de Jesus, o que significa que Jesus convida a Igreja a continuar na história a sua obra libertadora em prol do homem.
Veja-se o paralelismo que há entre esta cena e a referida no fim do Evangelho de Marcos. Os elementos de composição da missão são muito semelhantes:
Apareceu, finalmente, aos próprios Onze [Judas tinha desertado e entregado o Mestre] quando estavam à mesa, e censurou-lhes a incredulidade e a dureza de coração em não acreditarem naqueles que o tinham visto ressuscitado. E disse-lhes: ‘Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura. Quem acreditar e for batizado será salvo; mas, quem não acreditar será condenado. Estes sinais acompanharão aqueles que acreditarem: em meu nome expulsarão demónios, falarão línguas novas, apanharão serpentes com as mãos e, se beberem algum veneno mortal, não sofrerão nenhum mal; hão de impor as mãos aos doentes e eles ficarão curados.’ Então, o Senhor Jesus, depois de lhes ter falado, foi arrebatado ao Céu e sentou-se à direita de Deus. Eles, partindo, foram pregar por toda a parte; o Senhor cooperava com eles, confirmando a Palavra com os sinais que a acompanhavam.” (Mc 16,12-20).
No Evangelho deste domingo, parece que a ação missionária (envio, conteúdos e sinais) ficaria reservada aos apóstolos, que se sujeitavam quer ao bom acolhimento quer à oposição. Em contraponto, a perícopa final de Marcos comporta uma ampliação dos destinatários e dos conteúdos, bem como a extensão da obrigação e poder inerentes ao envio apostólico. Assim, os enviados não se ficam por Israel, mas irão a todo o mundo a pregar o Evangelho a todos; o arrependimento a que exortam fica enquadrado por toda a dinâmica do Evangelho, cujo ponto fulcral é a Ressurreição de Jesus como base da nossa fé e como garantia esperançosa da nossa ressurreição. Depois, a pregação é selada pelo batismo. E será o batismo, aliado à fé, que dará o estatuto de discípulos e de apóstolos a quem o recebe. Por isso, os sinais acompanharão aqueles que acreditarem; e estes expulsarão demónio sem nome de Cristo, imporão as mãos aos doentes e eles ficarão curados.
Obviamente, o Senhor previu a oposição dos destinatários, mas isso não impediu que os apóstolos fossem por toda a parte e que o Senhor cooperasse com eles, confirmando a Palavra com os sinais que a acompanhavam.
Há, porém, uma notável diferença: no texto do 15.º domingo, Jesus está visivelmente à espera dos discípulos para Lhe darem contas do desempenho; e, no texto final de Marcos, o Senhor já ressuscitado foi arrebatado ao Céu e sentou-se à direita de Deus. Não os espera visivelmente aqui, mas enviou-lhes o Espírito Santo para garantir a presença de Cristo junto deles até ao fim dos tempos e para os revestir da força do Alto (cf Mt 28,20; Lc 26,49).
***
Como se pode ver a partir do Evangelho, o dever de falar em nome de Deus, de o testemunhar, de pôr o dedo nas feridas causadas pelo mal às pessoas e à sociedade e de anunciar na esperança a nova era da liberdade, da paz e da justiça – chamemos-lhe profecia ou apostolado – não fica refém dum grupo específico de pessoas. Ao invés, todos os batizados são chamados por Deus quer à prática da santidade – pelo culto da Palavra, pela oração e participação nos sacramentos e pela prática da caridade – quer à profecia. E esta faz-se pela utilização da palavra, sim, mas sobretudo pelo testemunho que quem está no mundo, mas não é do mundo.
Naturalmente, nem todos terão as mesmas possibilidades e os mesmos papéis a desempenhar, mas todos temos de estar implicados no processo de anúncio do Evangelho: não nos podemos calar e temos de obedecer antes a Deus que aos homens (cf At 5,29). O ideal é que os interesses dos homens coincidam com os interesses de Deus.
E, embora precisemos de líderes e de saber apreciar a diversidade de carismas num único Espírito (cf 1Cor 12,4-31) para aspiramos aos melhores dons, cada um segundo a sua condição deve fazer-se discípulo ativo e, por consequência, tornar-se apóstolo de Cristo e tentar imbuir do espírito evangélico as estruturas sociais onde desenvolve a sua atividade ou onde a sua presença é assídua e também estar disponível para o desempenho de missões extraordinárias e eventualmente em lugares aonde lhe for dado ir. É a profecia tornada apostolado e missão!
2018.07.15 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Um gesto e duas interpretações


Generalizou-se o hábito de os participantes na celebração eucarística que não se abeiram da mesa da comunhão se sentarem durante a distribuição do Corpo e Sangue de Cristo na hóstia consagrada, a partir do momento em que o celebrante e/ou os demais ministros da comunhão (ordinários ou extraordinários) iniciam o desenvolvimento desta atividade. Também se generalizou esse hábito para os comungantes depois de terem observado uns momentos de recolhimento de pé ou ajoelhados.
Porém, quando o sacerdote ou um ministro da comunhão passam com a píxide ou píxides (vasos sagrados em que se guardam as hóstias consagradas sobejantes da celebração, devidamente acondicionados no sacrário) a caminho do altar do sacrário (ou estrutura equivalente onde se localiza o sacrário) a proceder à guarda da sagrada reserva, todos costumam levantar-se e permanecer em pé até perderem de vista tal passagem e os demais até o ministro fechar o sacrário.  
***
Entretanto, num dos domingos em que estive na missa, tendo os fiéis tomado a postura atrás descrita, o sacerdote celebrante interveio para dizer que, embora estivessem a fazer o que prescreve a liturgia, deviam reparar que o Cristo que passa na píxide é o mesmo que haviam comungado a partir do altar da missa. E, insistindo que não negava que estivessem a fazer segundo o que está prescrito, disse que, sempre que isto acontece, fica sobressaltado.
Obviamente que o sacerdote em referência dispõe habitualmente dum discurso muito profundo em que habitualmente a razão está do seu lado, até pela incidência a prática que pretende que a fé e a doutrina tenham na vida de cada um e do pulsar da comunidade. Todavia, dá a impressão de que se move um pouco por estados de alma e a forma direta como diz as coisas ora é extremamente acolhedora ora sabe a alguma agressividade. Depois, quando tenta mudar a estrutura morfossintática de algumas fórmulas que exigem uma resposta dos participantes, deixa-os um pouco hesitantes, por exemplo, quando diz “o Senhor está (em vez de “esteja”) convosco” ou “A paz do Senhor já está (em vez de simplesmente “esteja”) convosco”.   
Tal advertência como a acima apontada induziu-me a consultar a tradução da 3.ª edição típica da IGMR (Instrução Geral do Missal Romano), em especial os seus números 42, 43 e 44, que versam sobre “os gestos e atitudes corporais” durante a celebração da Missa.
Nos termos do n.º 42, “os gestos e as atitudes corporais” do sacerdote do diácono dos ministros e do povo visam a beleza e a nobre simplicidade de toda a celebração, a compreensão do significado verdadeiro e pleno das suas diversas partes e a participação de todos. Para tanto, “deve atender-se ao que está definido por esta Instrução geral e pela tradição do Rito romano, e ao que concorre para o bem comum espiritual do povo de Deus, mais do que à inclinação ou arbítrio particular”. A atitude comum do corpo, que os participantes devem observar, “é sinal de unidade dos membros da comunidade cristã reunidos para a sagrada Liturgia: exprime e favorece os sentimentos e a atitude interior dos participantes”.
Por sua vez, o n.º 43 especifica os momentos para as diversas atitudes corporais. A atitude corporal normal na celebração eucarística é estar de pé.
“Assim, os fiéis estão de pé: desde o início do cântico de entrada ou enquanto o sacerdote se encaminha para o altar, até à oração coleta, inclusive; durante o cântico do Aleluia, que precede o Evangelho; durante a proclamação do Evangelho; durante a profissão de fé e a oração universal; e desde o convite ‘Orai, irmãos’, antes da oração sobre as oblatas, até ao fim da Missa, exceto nos momentos adiante indicados.
“Estão sentados: durante as leituras que precedem o Evangelho e durante o salmo responsorial; durante a homilia e durante a preparação dos dons ao ofertório; e, se for oportuno, durante o silêncio sagrado depois da Comunhão.
“Estão de joelhos durante a consagração, exceto se razões de saúde, a estreiteza do lugar, o grande número dos presentes ou outros motivos razoáveis a isso obstarem. Aqueles, porém, que não estão de joelhos durante a Consagração, fazem uma inclinação profunda enquanto o sacerdote genuflete após a Consagração.
“Compete, todavia, às Conferências Episcopais, segundo as normas do direito, adaptar à mentalidade e tradições razoáveis dos povos os gestos e atitudes indicados no Ordinário da Missa. Atenda-se, porém, a que estejam de acordo com o sentido e o caráter de cada uma das partes da celebração. Mantenha-se louvavelmente, onde o haja, o costume de o povo permanecer de joelhos desde o fim da aclamação do Sanctus até ao fim da Oração eucarística, e antes da Comunhão, quando o sacerdote diz ‘Eis o Cordeiro de Deus’.
“Para se conseguir a uniformidade nos gestos e atitudes do corpo na mesma celebração, os fiéis devem obedecer às indicações que, no decurso da mesma, lhes forem dadas pelo diácono, por um ministro leigo ou pelo sacerdote, de acordo com o que está estabelecido no Missal.”.
E o n.º 44 adverte que, entre os gestos, se contam também “as ações e as procissões do sacerdote ao dirigir-se para o altar com o diácono e os ministros; do diácono, antes da proclamação do Evangelho, ao levar o Evangeliário ou Livro dos evangelhos para o ambão; dos fiéis ao levarem os dons e ao aproximarem-se para a Comunhão”, convindo que “estas ações e procissões se realizem com decoro, enquanto se executam os cânticos respetivos, segundo as normas estabelecidas para cada caso”.
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Ora, pela leitura da IGMR, durante a Comunhão, nem os comungantes nem os que não se abeiram da Comunhão deveriam estar sentados, mas em pé até ao términus da distribuição da Comunhão, a não ser nos casos em que a saúde e o cansaço recomendem a cada um outro modo de proceder. Obviamente, no tempo da distribuição da Comunhão inclui-se o retorno da píxide ao sacrário, em que os fiéis deviam permanecer de pé. Por outro lado, os fiéis que não estão impedidos de o fazer devem aproximar-se da Comunhão em sistema de cortejo ou em fila, fazer uma reverência prévia à receção da partícula, comungar diante do ministro e voltar ao seu lugar – devendo providenciar-se à distribuição da Comunhão a quem não se possa deslocar.  
Porém, dado que se generalizou pacificamente o hábito de tanto os comungantes (após o aludido momento de recolhimento) como os não comungantes se sentarem, será de louvar que se levantem à predita passagem da píxide.
Pelo menos, esta é uma ação tão processional como as enumeradas no n.º 44 da IGMR. Mas há outra razão de maior peso, do meu ponto de vista: a passagem da píxide do altar da celebração para o altar (ou estrutura equivalente onde se localiza o sacrário) configura o ato de saída da grande celebração comunitária do Corpo e Sangue de Cristo no pão consagrado para a reserva eucarística cuja finalidade principal é servir como viático de quem está na iminência de proceder à última e grande viagem e, por conseguinte, disponibilizar-se para a comunhão fora da missa, nomeadamente a doentes, encarcerados e a outros que não podem comungar na missa, mas que o fazem, por exemplo nas celebrações da Palavra sem a presença de sacerdote, bem como para ficar patente à visita ou à adoração privada ou solene dos fiéis. E é sempre recomendada a conveniente reverenciação ao Santíssimo Sacramento exposto ou quando se expõe. Tanto assim é que o ministro ao aproximar-se do sacrário fechado, primeiro deve descerrar o sacrário, depois, genufletir (e não ao contrário) e tomar consigo a píxide; quando regressa com a píxide ao sacrário, primeiro, deve abrir o sacrário (se estiver fechado; caso contrário, deve observar o passo seguinte), colocar a píxide, genufletir, fechar o sacrário e retirar-se (e não de outro modo).   
Também por isso é que a ação de transporte da píxide merece a deferência dos fiéis. É certo que é o mesmo Cristo que esteve no altar, como é o mesmo Cristo que o fiel acabou de comungar – é o Cristo todo em cada partícula ou fragmento de partícula –, mas a deferência gestual que se presta à passagem da píxide significa a adesão do coração ao mistério que não se cinge a um lugar, mas está em trânsito ou fica na discrição do escondimento, como a vida do homem neste mundo, a não ser que a comunidade resolva dar-lhe visibilidade para o bem espiritual de todos.
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Por isso, nada de sobressalto, mas ato de fé e de devoção eucarística mesmo que redundante! E, sobretudo, que a fé eucarística leve as pessoas a sair de si mesmas e do egoísmo da vida, criando nelas a obrigação da solidariedade e da partilha em obediência às leis da caridade e da justiça, da justiça do Reino de Deus.
2018.05.02 – Louro de Carvalho