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terça-feira, 8 de janeiro de 2019

José Gil diz das candentes questões acerca do mundo, do país e da gente


João Céu e Silva publicou, a 4 de janeiro, uma entrevista com o filósofo José Gil, que nos diz quetudo o que estamos a viver ou aquilo a que estamos a assistir por todo o planeta é novo e não tem paraleloe, porqueo passado está a ser engavetado, digitalizado e virtualizado”, evita, segundo o jornalista, “prever o futuro próximo da humanidade”, o que justifica “por não existir um paradigma com que se possa comparar o novo estágio das sociedades com o que foi até agora a história”.
Abordando candentes problemas como o populismo, a ameaça de fascismo, o perigo de extinção ou as catástrofes ecológicas, o filósofo s afiança que “o imobilismo é apodrecimento” e interroga-se sobre o que “os professores vão ensinar?”. Nas linhas seguintes, dá-se voz a importantes asserções por si desfiadas, obviamente através das minhas lentes de entendimento e apreciação.
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Começou por explicitar o sentido da sua recente afirmação “tudo o que resulta das velhas verdades falhou” apontando como um falhanço o “discurso de valores e uma certa moral de um humanismo cristão e laico” que propõe um arsenal de categorias de direitos, de cidadania, de tolerância e de justiça”, porque “não se efetivaram”, pois “o facto de se tornarem universais” para alterarem “a realidade e a história conflitual”, e porque “não fomos capazes de nos transformar" de modo a que a nossa sociedade se modificasse”. Por outro lado, veio o falhanço teórico desses valores, já criticado por muitos pensadores “ainda antes de Nietzsche”.
Sobre a suposta estranheza de estarmos “perante o momento mais ‘inteligente’ da humanidade e não sermos capazes de pensar a nossa realidade de outro modo, assegurou que o homem “é o ser mais inteligente”, mas advertiu que se devia examinar melhor a “hierarquia de graus de inteligência”, pois “um peixe é mais inteligente do que nós no contexto natural”. Por isso interrogou: “Que é um ser mais inteligente?”. E, com base na suposta asserção de será “o que tem mais tecnologia" e "memória cultural do passado”, discorreu firmado na História recente:
A nossa inteligência manifesta-se na técnica e na ciência e na articulação tecnológica entre as duas. No entanto, é também uma das razões que se podem apontar entre as maiores calamidades que aconteceram ao homem. Há teorias de filósofos que dizem que a técnica foi uma das causas maiores do mal humano e podemos ver, mesmo de forma superficial, que é muito real. Não esquecer que a técnica está também por detrás do Holocausto e dos campos de concentração alemães. Até o que fez Hiroxima e Nagasaki. Vivemos uma utilização sem limites da técnica e é esse uso, mesmo que a causa não esteja nela, que levou ao expoente máximo da exploração capitalista da nossa Terra e que poderá levar à nossa extinção.”.
E, sem entrar no mito genésico de que o mal vem por querermos conhecer tudo (cf Gn, 2,17; 3,22), disse estarmos no “questionamento permanente sobre qualquer enigma” e evocou duas visões da técnica: a que a toma por neutra, por tanto poder ser utilizada “para o bem como para o mal”; e a que a toma por não neutra por levar a “análise cada vez mais profunda do que deveria ficar escondido”, admitindo que a técnica “não tenha limites”, mas “vocação intrínseca de não parar”. 
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Posto ante a hipótese da extinção, palavra tão presente na agenda da discussão nos últimos meses, disse que seria ingenuamente otimista” dizer que é possível evitá-la, pois “tudo nos leva a crer que estamos cada vez mais perto de um perigo iminente”. E explicou:
Tudo o diz, como é o caso dos relatórios científicos. Ou quando se leem os jornais e se observa a destruição do permafrost, os degelos da Antártida num avanço extraordinário, os desequilíbrios ecológicos que levam a desequilíbrios funcionais da espécie humana – e não se vê um plano possível de sobrevivência. Porque implicaria a solução de muitos problemas que são políticos e que estão por resolver há muito. Basta ver como os tratados das cimeiras para o clima estão a ser violados cada vez mais.”.
E arriscou uma asserção e uma hipótese:
Quanto à presença frequente da palavra extinção em 2018, a minha vontade é de dizer que em 2019 será ainda mais. O que não quer dizer que também não pense: e se acontecesse qualquer coisa que travasse isto? Se houvesse uma catástrofe ecológica que, sem provocar a extinção, exigisse mais consciência ecológica mundial sobre o que não está feito.”.
À insinuação de estar a falar numa espécie de minidilúvio esclarecedor, contrapôs:
Estou a fazer especulação ao dizer isto, mas, segundo a probabilidade científica – que pode ser contrariada por um outro comportamento –, hoje caminhamos para um desastre final”.
Quanto à proposta de Thomas Piketty para uma “nova Europa capaz de lidar com crises de forma imediata”, embora admita que se trata de utopia, não o afirmou “dogmática ou definitivamente, tal como múltiplas outras que vão surgindo”. E advertiu:
Do que precisamos agora é de medidas que sejam eficazes e concretizadas imediatamente. Temos muitas propostas para acabar com o aumento de mais de um grau e meio no clima global, porque não são cumpridas? É contra isso que temos de ir. Estamos um pouco fartos de propostas de gabinete, sempre belas, pois os tempos são outros e vivemos numa urgência de evitar uma morte iminente. E não estou a dramatizar, porque é mesmo a nossa realidade.”.
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Sobre a alegada decisão política de que não se repetiriam, em 2018, os fogos trágicos de 2017 “e quase não aconteceram”, referiu que “as causas dessa negligência portuguesa são múltiplas e têm de ser bem analisadas”. E clarificou: 
Vêm de muito longe – isto não é para dizer que este Governo não poderia ter feito alguma coisa – e resultam da longa inércia fruto de muitas governações anteriores, além de não dizer só respeito às elites, mas também à ausência de responsabilidades cívicas dos proprietários”.
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E, sobre os movimentos sociais como o dos coletes amarelos, o caso da Catalunha ou o do partido Vox, disse que não se pode responder em definitivo se estamos perante um aviso aos políticos de que as estruturas políticas atuais podem deixar de ter utilidade. Porém, considerou:
Há muita probabilidade de que esta onda de um pré-populismo, até mesmo de um protofascismo de extrema-direita, irá continuar e que alastrará não só por toda a Europa, mas para outros continentes – onde já existem viveiros para isso”.
Sendo situações a requerer análises específicas porque não se pode misturar tudo, avisou:
O Vox não é da mesma natureza que os coletes amarelos, por exemplo. Estamos perante uma ameaça, a da eclosão e do alastramento do populismo, que numa segunda fase permitirá formações de poder violentamente autocráticas, a que poderemos chamar fascistas – mesmo que haja quem diga que o fascismo só foi no tempo do Mussolini, o que é completamente restritivo e errado.”.
Considerou como um aviso o sucedido França, pois, apesar de muitos manifestantes não saberem o que os leva a protestar, estão a abrir caminho a populismos devastadores. E vincou:
Ouvimos o discurso de corresponsáveis aqui e ali, porque não existe uma única cabeça, e vemos que se desenvolve em vários planos de reivindicações corporativas, laborais, salariais, de direitos civis, etc. No entanto, é um movimento que não encontrou ainda a dimensão política nem, a um terceiro nível, aquilo a que poderíamos chamar um nível existencial. Este nível, não laboral e não político, é importante porque é o que os liga todos e lhes dá um sentido mesmo que obscuro, e é importante também porque é por aí que a extrema-direita e o seu populismo vão enxertar dimensões como a identitária, que estará em perigo. Esse terceiro nível existencial é extremamente importante porque nos vai fazer compreender como é que em Portugal pode nascer qualquer coisa como um populismo mesmo quando o país parece imune a esses movimentos.”.
À hipótese de a nossa identidade ainda não estar firmada, respondeu não estar certo disso, até porque alguns apontam que “Portugal sofre de uma superidentidade, que tem identidade a mais”, pelo que não crê que haja problemas de identidade, mas de “autoestima”. E especificou:
Saber se temos valor, se mais ou menos do que os outros, ou do fechamento sobre nós próprios. Sabermos quem somos e do que gostamos. No entanto, existe uma força portuguesa que nos dá uma coesão que, possivelmente, é particular, e a maioria dos outros países modernos europeus não tem.”.
Não descartando o aparecimento do populismo em Portugal, voltou aos coletes amarelos:
Não sabem exprimir essa crise existencial que se vive em França, têm umas intuições do segundo nível político e do primeiro laboral, daí dizerem que o discurso do Presidente Macron é voltado para o passado e eles querem o futuro. […] O que se vê cada vez mais numa sociedade desenvolvida como a França – não em Portugal – é que as pessoas sabem cada vez menos o que é viver em família, como educar os filhos, o que é um padrão de beleza sem botox ou o que é fazer amor sem ler revistas de bons conselhos.”.
E produziu a sua apreciação, obviamente negativa:
É uma estupidez generalizada, pois estamos cada vez menos a reconhecer-nos em nós próprios e isso tem que ver com o nível existencial que está por detrás. Daí dizer que é obscuro quando se ouvem os coletes amarelos nas suas declarações na televisão. É o desconhecimento desse futuro que vai ser aproveitado pelos populismos.”.
Considerando generalizada a asserção de que estamos imunes, disse que “não se sabe exatamente apesar de os extremos do xadrez político estarem ocupados pelo Bloco de Esquerda, pelo PCP, pelo CDS, pelos sindicatos” (as reivindicações estão cobertas por estruturas institucionalizadas). E discorreu:
Ora, o populismo nasce e floresce fora das instituições e contra elas, portanto terão de ser reivindicações que saem fora do discurso habitual dos sindicatos, dos partidos e do Governo, para que qualquer coisa nasça, até porque se caraterizam por serem fenómenos que aparecem sem que saibamos como. O populismo atual vem rapidamente de uma cada vez maior sensibilização das classes médias baixas e não instruídas, devido ao aumento do escrutínio dos media sobre as desigualdades ou a corrupção.”.
Porém, alertou para o possível aumento da abstenção e o surgimento de exigências apolíticas:
Há um sentimento de injustiça que atravessa a sociedade e que faz que os políticos sejam cada vez menos reconhecidos e representativos, podendo observar-se uma onda latente de populismo possível na abstenção, que é cada vez maior. Também pode acontecer, por exemplo, a propósito de uma exigência que não tem expressão política.”.
E, exemplificando com o empolamento que a redes sociais possam dar a mortes por falta de cirurgias ou às mortes psíquicas no corpo docente, explicou e interrogou:
Basta pensar numa [reivindicação sobre algo] que seja intolerável no novo espaço público, o das redes sociais, como é o caso das mortes que estão a acontecer no país porque não houve cirurgias. Ou mortes psíquicas, que cada vez mais acontecem no corpo docente do ensino primário e secundário, em que os professores têm uma vida cada vez mais difícil. É intolerável que um português em cinco tenha perturbações psíquicas. Que povo é este? Suponhamos que tudo o que está nesse fundo da abstenção política emerge e ultrapassa os partidos políticos que não tiveram capacidade de fazer de certas situações, uma reivindicação política que poderá provocar um movimento social do tipo coletes amarelos.”.
Depois assegurou que a política de afetos do Presidente Marcelo não esvazia qualquer aproveitamento desses, embora considere que “vem entravar movimentos que podiam ser populistas, mas não os esgota”. E justificou:
Até porque o afeto do Presidente Marcelo não tem expressão política. Ele vem insuflar numa série de iniciativas políticas aquilo que falta na política em geral. Por exemplo, o que o Primeiro-Ministro e o Governo foram incapazes de transmitir nos fogos, a empatia com as populações. Colmatou um desequilíbrio que poderia manifestar-se politicamente. Contudo, como o Presidente não tem expressão política clara e definida, pode haver uma série de movimentos que explorem situações desumanas que, de repente, se tornam intoleráveis devido a uma extrema injustiça.”.
E, tendo o filósofo referido que “pode ser um caso único, como o de um doente que morre”
(mas não é um, mas milhares, porque não se verificam respostas adequadas nos serviços públicos”), foi-lhe recordado que esse “caso único aconteceu na Tunísia quando Bouazizi se imolou e foi o rastilho da Primavera Árabe”. E o filósofo verificou: 
Nós estamos, devido à globalização das tecnologias de informação e de comunicação, cada vez mais sujeitos a rastilhos que podem vir das Filipinas ou do Chile, coisa que seria impensável há 30 anos”.
Poderia tê-lo dito dos EUA, do Brasil da Itália...
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Sobre a alegada “falência económica da comunicação social” face à “emergência das redes sociais” como combinação fatal”, contestou dizendo não se tratar duma combinação, mas do resultado de “causas comuns” cujos efeitos “são divergentes” – fenómeno novo para as elites. E perorou com conhecimento de causa: 
Há um facto muito simples: é que até agora em países muitos pequenos e específicos, como o nosso, o espaço público era dominado pelos media e pela televisão, mas as novas tecnologias tornaram possível a criação de um outro espaço público muito particular, diferente e que se torna o terreno propício para dar expressão a uma injustiça: ‘Eu, cidadão anónimo, desprezado pelo sistema e pela injustiça das políticas, posso manifestar-me aqui’. Mesmo que isto signifique que o ignaro mais incongruente possa manifestar a ignorância com agressividade nesse espaço público.”.
E, relativamente às fake news, disse que “existiram sempre porque a mentira e a máscara sempre aconteceram”. Porém, considerou que há coisas novas e outros tipos de mentira, o que sucedeu com toda a gente: notícias ditas verdadeiras revelaram-se falsas. Porém, não se furtou a discorrer:
O que é uma fake new? É uma notícia que é produzida sem que haja critérios de verificabilidade da sua realidade porque eles foram abolidos. Mesmo que os haja, esses critérios deixaram de ter validade devido ao meio de fabricação das fake news, que provém de um meio populista onde não se pode analisar a falsidade sem se contextualizar numa relação de poder.”.
E deu um exemplo que lhe permitiu uma ilação sobre a força carismática do líder:
“Podem ter-se todas as provas que se quiser para demonstrar que é falso, mas o que Trump faz todos os dias, e sabe-se que não é verdade o que diz, vai ser absorvido pelo seu público sem os critérios de verificabilidade. É a potência carismática e a adesão ao líder que conta nas fake news.”.
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Sobre o eclipse parcial da religião, dos questionamentos constantes sobre o papel do Papa e do escrutínio severo sobre a Igreja, opinou que “a religião católica até pode ser uma vítima”, mas que “os escândalos de pedofilia e de finança do Vaticano se ligam muito facilmente ao descrédito que se tem pelos políticos e à muita indiferença pela política”. Depois admitiu que “o descrédito pela instituição Igreja poderá levar a que o crente abandone a prática mesmo que não deixe de crer, mas não o faz passar da religião para o ateísmo”. E perorou sobre a 'erodição' civilizacional:
Ouvimos falar muito do choque de civilizações e de religiões. São conceitos que têm desaparecido do debate atual. […] Essas teorias são formas de querer encarar ou dar inteligibilidade a fenómenos como o islamismo ou o fundamentalismo, depois verificou-se que não era bem assim. Hoje, pouca gente admite que haja um choque de civilizações, nem é isso que conta ou interessa, o que importa é que as civilizações estão a erodir-se cada vez mais.”.
E admitiu que o mesmo se passa com o diálogo inter-religioso, porque “não é isso que está por detrás do fenómeno, não é um deus contra outro deus, antes situações com mais importância”.
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Constatando que o passado mostrado pela arte e pela cultura tem vindo a ser suplantado pela preocupação com a situação financeira e económica, reagiu dizendo que “não é só a questão económica”, mas “uma erosão de tudo o que é a tradição”, e atirando:
O passado está a ser engavetado, digitalizado e virtualizado, e cada vez menos lhe atribuímos uma realidade com peso. […] É cada vez mais uma imagem que se transforma numa coleção de imagens enquanto objetos de consumo, apesar de não informarem nem sedimentarem a nossa pessoa e cada vez menos os comportamentos sociais.”.
E acusou:  
Um aluno sabe cada vez menos sobre o passado, nem lhe interessa saber. E isso é terrível, pois há uma erosão que vem da transformação do valor da realidade do passado e da transmissão pela tecnologia que traduz tudo em imagem. Tudo isso é metabolizado e instrumentalizado pelo capitalismo, que só conta cada vez mais com o que gera uma mais-valia.”.
Assentindo que “é um tempo em que Botticelli vale tanto como Madonna”, lamentou:
Acaba-se a nossa relação com o passado e a maneira de ‘fruir’ e ‘consumir’ a própria arte. A introdução maciça no mercado da arte do valor de troca como parte do juízo estético é recente e transformou completamente a valoração do objeto de arte.”.
Disse não haver mudança de paradigma, “porque tal não existe para o nosso presente”, ou melhor, estarmos a mudar de paradigma sem que tenhamos aquele para o qual queremos mudar. E verifica as dificuldades sobre o conteúdo da cidadania e da sua pedagogia e interroga-se:
Isto em tudo, como é o caso da educação para a cidadania. Havia antes uma educação para a transmissão e acumulação na área das humanidades, agora é o da cidadania. O que é que os professores vão ensinar? E como vão formar turmas tumultuosas. Isto é uma coisa ridícula, porque quando não se dão meios nem se preparam os professores para a cidadania não há formação possível: ou seja, não há paradigma, tanto mais que a questão da cidadania leva a ponderar questões totais na sociedade.”.
Sobre o dito de Kafka “desgraçado daquele que perdeu o poder de se transformar”, disse:
Há transformações e transformações. Não estou a criticar todo o tipo de mudança nem a elogiar o imobilismo, pelo contrário, a capacidade de transformação de uma pessoa é a condição necessária e imprescindível para que possamos interrogar sempre e ir mais à frente na inovação e na descoberta, que é a nossa única possibilidade na vida. O imobilismo é apodrecimento.”.
E terminou falando da palavra “caos”, utilizada recorrentemente, dizendo que “seria muito importante aproximarmo-nos do caos com umas lentes que permitissem ver melhor o que é isso”.
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Enfim, uma peça que vale a pena ler e reler, dada a variedade e profunda leveza de abordagem!
2019.01.08 – Louro de Carvalho

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

De Pedro Julião ou Pedro Hispano a Papa João XXI


No passado dia 26 de setembro, com início às 21,30 horas, decorreu, na “Comuna Teatro de Pesquisa” (Café Teatro), na Praça de Espanha mais uma das SESSÕES CODEX em torno da figura de João XXI, Papa português, sob a moderação de Mário Soares, com a participação de Armando Norte, José Eduardo Franco e Padre Carlos Azevedo.
As SESSÕES CODEX são tertúlias culturais e artísticas dedicadas à vida e ao legado de figuras marcantes da História de Portugal. Em cada sessão, em ambiente tertuliano, os convidados CODEX manifestam novos olhares em formato aberto sobre a figura escolhida, permitindo a cada pessoa uma interpretação livre da personagem.
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Pela resenha biográfica apresentada nas SESSÕES CODEX
João XXI, nascido Pedro Julião Rebolo (mais conhecido como Pedro Hispano), em 1215, em Lisboa, segundo a maior parte dos historiadores, ou em Coimbra, segundo alguns e falecido como João XXI em Viterbo, a 20 de maio de 1277, foi papa de 20 de setembro de 1276 até à data da sua morte. E ficou conhecido como um famoso médico, filósofo, professor e matemático português do século XIII.
Começou os seus estudos na escola episcopal da catedral de Lisboa, tendo mais tarde estudado na Universidade de Paris (alguns historiadores afirmam que terá sido na Universidade de Montpellier) com mestres notáveis, como Alberto Magno, e tendo por condiscípulos Boaventura e Tomás de Aquino, grandes nomes do cristianismo. Lá estudou medicina e teologia, dedicando especial atenção a palestras de dialética, lógica e sobretudo a física e metafísica de Aristóteles.
Entre 1246 e 1252 ensinou medicina na Universidade de Siena, onde escreveu algumas obras, com destaque para o tratado ‘Summulæ Logicales’, o manual de referência sobre lógica aristotélica durante mais de 300 anos, nas universidades europeias, com 260 edições em toda a Europa, traduzido para grego e hebraico.Prova da sua vasta cultura científica é o ‘De oculo’, tratado de oftalmologia, com ampla difusão nas universidades europeias. Miguel Ângelo, ao adoecer gravemente dos olhos, mercê do árduo labor investido na decoração da Capela Sistina, encontrou remédio numa receita de Pedro Hispano. É também o autor do ‘Thesaurus Pauperum’, que trata de várias doenças e suas curas, com cerca de uma centena de edições e traduzido para 12 línguas.No âmbito da Teologia, subscreve ‘Comentários ao pseudoDionísio’ e ‘Scientia libri de anima’. E encontra-se por publicar o ‘De tuenda valetudine’, manuscrito em Paris, dedicada a Branca de Castela, esposa do rei Luís VIII de França, filha de Afonso IX de Castela.Antes de 1261, ano da sua eleição para decano da Sé de Lisboa, ingressou no sacerdócio. O rei Afonso III de Portugal confiou-lhe o priorado da Igreja de Santo André (Mafra) em 1263, posto que o elevou a cónego e deão da Sé de Lisboa, Tesoureiro-mor na Sé do Porto e Dom Prior na Colegiada Real de Santa Maria de Guimarães.
Pontífice dotado de rara simplicidade, João XXI irá marcar o seu breve pontificado (de pouco mais de 8 meses) pela fidelidade ao XIV Concílio Ecuménico de Lião. Apressou-se a mandar castigar, em tribunal criado para o efeito, os que haviam molestado os cardeais presentes no conclave que o elegera. E, embora sem grande sucesso, prosseguiu a missão encetada por Gregório X de reunir a Igreja Grega à Igreja do Ocidente, além de se ter esforçado por libertar a Terra Santa do poder dos turcos. Tentou ainda reconciliar grandes nações europeias, como França, Germânia e Castela, no espírito da unidade cristã, enviando (sem sucesso) legados a Rodolfo de Habsburgo e a Carlos de Anjou. Recebeu em audiência tanto os ricos como os pobres.
O poeta italiano Dante Alighieri (1265-1321), na Divina Comédia, coloca a alma de João XXI no Paraíso, entre as almas que rodeiam a de São Boaventura, apelidando-o de “aquele que brilha em doze livros”, menção clara aos 12 tratados escritos pelo erudito pontífice. E o rei Afonso X de Leão e Castela, o Sábio, avô de Dom Dinis de Portugal, elogiou-o em forma de canção no canto XII de ‘Paraíso’. Mecenas de artistas e estudantes é tido na sua época por ‘egrégio varão de letras’, ‘grande filósofo’, ‘clérigo universal’ e ‘completo cientista físico e naturalista’.
Mais entregue ao estudo que às tarefas pontifícias, delegou no Cardeal Orsini, o futuro Papa Nicolau III, os assuntos correntes da Sé Apostólica. E, sentindo-se doente, retirou-se para Viterbo, onde faleceu a 20 de maio de 1277, vitimado pelo desmoronamento das paredes do seu aposento, estando o palácio apostólico em obras. Foi sepultado junto do altar-mor da Catedral de São Lourenço, naquela cidade. No século XVI, durante os trabalhos de reconstrução do templo, os seus restos mortais são trasladados para modesto e ignorado túmulo. Porém, através do contributo da Câmara Municipal de Lisboa e do presidente João Soares, o mausoléu foi colocado em definitivo do lado do Evangelho na Catedral de Viterbo, a 28 de março de 2000. (cf Codex Pedro Hispano, o papa Feiticeiro, https://www.viralagenda.com/pt/events/639490/codex-pedro-hispano-o-papa-feiticeiro).
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Aspetos significativos da biografia elaborada pelo historiador Armando Norte
Em outubro de 2016, o historiador Armando Norte publicou a biografia João XXI – O Papa Português (da Esfera dos Livros), onde conta a misteriosa história da vida e morte de Pedro Hispano: padre, médico, filósofo, alquimista, com fama de mago, e Papa que, tendo entrado em divergência com o rei português Dom Afonso III e lhe manteve a excomunhão, se tornou o português com mais poder no mundo antes de António Guterres chegar à ONU.
O conclave que elegeu Pedro Julião/Pedro Hispano
Segundo o predito biógrafo, em 13 de setembro de 1276, o conclave, reunido em Viterbo (Itália), elegeu Papa o cardeal-bispo Pedro Julião, de Lisboa, conhecido nos meios intelectuais e académicos como Pedro Hispano, que assumiu o nome de João XXI, tornando-se no “mais importante indivíduo do seu tempo e num homem ungido para a eternidade”.
O número de conclavistas era diminuto: dada a recente morte de dois cardeais-diáconos, o sacro colégio era composto por 11 elementos. Entretanto, um dos cardeais morreu durante o conclave e outro faltou por motivos desconhecidos. Portanto, só 9 ficaram com a decisão eleitoral. Dois desses homens eram cardeais-bispos, um dos quais o próprio Pedro Julião; três eram cardeais-presbíteros; e os outros quatro eram cardeais-diáconos. Todos eles eram repetentes em eleições papais e alguns acabaram por ser eleitos papas em conclaves posteriores.
Como Papa, Pedro Julião era a máxima autoridade política e religiosa do mundo cristão, juiz de última instância em todas as disputas, único legislador em matéria eclesiástica, legitimador e derrubador de reis, chefe da hierarquia católica e supremo representante de Deus na Terra, com a possibilidade de excomungar e lançar interditos, declarar guerras, fazer a paz. Era dono de um poder sem rival na Idade Média.
Porém, a escolha surpreendeu pelo facto de o eleito não pertencer as famílias da nobreza romana, itálica, ou gaulesa, cujos membros eram tradicionalmente eleitos para ocupar a mais alta posição da Igreja Católica Romana. Mas, na aparente fragilidade de apoios, residirá uma das razões para a decisão, emergindo o português como via capaz de assegurar a manutenção dos equilíbrios existentes no interior do cardinalato. E importa sublinhar que a escolha não era inócua, “antes plena de efeitos, significados e consequências”. Naquele século, o Papa era a principal personalidade política no concerto internacional de poderes, fruto da preponderância duma Igreja pujante e de forte programa centralizador incrementado pelo papado durante a alta Idade Média, cujo apogeu coincidiu com o pontificado de Inocêncio III (1198-1216). Na verdade, com o crescimento da Igreja em complexidade e dimensão, complexificou-se e alargou-se a estrutura hierárquica e a máquina burocrático-administrativa, bem como se logrou a melhoria substancial do aparelho fiscal. A essa política de sedimentação do poder da Igreja, liderada pelo papado, dá-se comummente o nome de teocracia papal.
Desperta curiosidade na designação de João XXI o facto de não haver João XX na lista dos papas. A razão do lapso é a errada contabilização de Martinho Polónio (de origem eslava), dominicano contemporâneo de Pedro Hispano e muito apreciado como pregador e canonista.
A morte de Pedro Hispano por derrocada do seu apartamento foi tida como prova do seu caráter malévolo por magia (e alegados desregramentos de conduta, passando pelo laxismo no governo eclesiástico), ou castigo divino por suposto pretensiosismo, incluindo o de achar que viveria muitos anos.
A vida do professor e médico em Paris e Siena
Sabe-se muito pouco do percurso de Pedro Julião: sobram rastos difusos, abundam becos sem saída, acumulam-se, tantas vezes prodigiosamente, as brumas, sobretudo no atinente à infância e primeira juventude. Do reconstituível, infere-se que o futuro Papa terá nascido no início do século XIII, em data que a tradição situa no intervalo entre os anos 10 e 20, mas que a crítica histórica aproxima do início da primeira década. Provavelmente terá nascido em Lisboa, embora haja hipóteses alternativas (pouco fundamentadas) de ter nascido em Coimbra. Quanto às origens familiares, tudo se resume a algumas especulações sobre o nome e profissão do pai, talvez um médico, de nome próprio Julião, atendendo às regras da onomástica medieval e ao uso generalizado do sistema de patronímico em Portugal, ignorando-se em absoluto o estatuto social da sua família e o seu nível de riqueza e património.
Terá sido na Sé de Lisboa e na escola capitular anexa que Pedro Julião passou os seus primeiros anos. É de supor que o seu trajeto escolar tenha sido semelhante ao de muitos outros oblatos, jovens entregues à Igreja pelos pais para se dedicarem ao serviço de Deus, a entrada no sacerdócio, passando pelo cumprimento dos primeiros estudos com base nos salmos, introdução à liturgia e ao ritual e iniciação aos Evangelhos e à doutrina católica. Nestas primeiras etapas, Pedro Julião terá alcançado grande sucesso, já que, pouco tempo depois, foi enviado para a Universidade de Paris para estudos mais avançados, lá continuando a dar aulas após a conclusão dos estudos. E deu aulas de medicina em Siena, no final da década de 1240, não estando esclarecido onde terá contactado com as ciências médicas: Em Salerno, Montpellier, em Paris? Anos mais tarde, foi nomeado mestre-escola na catedral de Lisboa, mas o regime de absentismo afasta a hipótese de aí ter ensinado, a não ser durante estâncias muito breves.
O conselheiro e arcebispo que manteve a excomunhão de Dom Afonso III
No âmbito eclesiástico, Pedro Julião recebeu vários benefícios, apesar das disposições que então procuravam limitar os fenómenos da acumulação para evitar a apropriação abusiva de cargos e de rendimentos. Percorreu quase todo o cursus honorum da Igreja do seu tempo: cónego, mestre-escola, arcediago e deão. Também foi conselheiro régio e, já em contexto apostólico, terá ficado a seu cuidado a saúde de Gregório IX. Ademais, desempenhou legações a mando de Inocêncio V na condição de comissário papal até alcançar a posição de cardeal-bispo de Túsculo (Itália). Foi um trajeto variado e com marcos importantes, incluindo passagens por duas das mais importantes dioceses portuguesas, a arquidiocese de Braga e a sé de Lisboa, e a nomeação para o governo da igreja de Guimarães, posição sempre muito disputada ao nível do reino português e reservada a figuras de grande projeção da cena política e eclesiástica.
Decisiva para essa caminhada foi a desenvoltura com que sempre se moveu nos círculos de poder, designadamente junto da corte régia e da Santa Sé, conseguindo insinuar a sua presença, com sucesso, junto do rei Afonso III (de quem divergiria mais tarde) e de mais do que um pontífice. No geral, foi um percurso diferenciado e sólido que o capacitou para a carreira bem-sucedida que desenvolveu junto da Cúria romana, primeiro como cardeal, depois como Sumo Pontífice.
A relação entre Pedro Julião e Afonso III parece ter sido marcada, na sua origem e durante um período de tempo considerável, por grande proximidade e sentimentos mútuos de afeto e respeito. O futuro João XXI serviu o rei como procurador em várias ocasiões, integrou o conselho régio e, provavelmente, foi enviado a desempenhar missões diplomáticas junto da Cúria apostólica em defesa dos interesses portugueses. A contrario, as razões da rutura posterior entre os dois homens parecem prender-se, em grande medida, com o processo de escolha para bispo da Sé de Lisboa, vago pela morte do bispo Aires Vasques (1258-1282). Por conveniência dos interesses políticos, o monarca patrocinou a eleição de mestre Mateus para bispo de Lisboa. Em discordância aberta com o rei, Pedro Julião encabeçou um movimento alargado de protesto no interior do cabido, numa altura em que era o deão em funções e em que terá aspirado a ser ele próprio nomeado para prelado da diocese lisboeta. O desenlace acabaria em desfavor de Pedro Julião e do cabido que o secundava, pois foi eleito mestre Mateus para a posição em causa. Anos mais tarde, ao ser eleito Papa, João XXI não esqueceria o episódio e, como os seus antecessores, acusou o rei de prática sistemática de abusos e desmandos contra a Igreja em Portugal e de ser “um crónico afrontador das liberdades eclesiásticas”. Manteve os interditos sobre o reino e renovou as excomunhões feitas ao rei.
Um filósofo, médico e alquimista com reputação de mago
A popularidade de que gozou durante a medievalidade, prolongada no Renascimento e persistindo até hoje, tem uma origem bastante diferente: remete para a sua dimensão de intelectual e para os contributos que lhe são atribuídos no âmbito da história da ciência e história das ideias, em concreto os estudos que dedicou aos ramos da filosofia e da medicina.
Porém a vasta produção bibliográfica, a diferente natureza dos assuntos e a coerência interna dos textos de Pedro Hispano ou que lhe foram creditados, desde o século XIV, tendo como premissa a sua vasta ciência, assumida pelo próprio e asseverada em crónicas (contemporâneas e posteriores), suscitam reservas no atinente à atribuição a uma única personalidade.
Entre tantas dúvidas, a crítica textual mais recente parece pouco inclinada a atribuir ao pontífice todos os tratados que compõem o habitual cânone de manuscritos que lhe são consagrados. E há especialistas que sustentam que poucos desses trabalhos, ou (exageradamente) nenhuns, devem ser atribuídos a João XXI, propondo-os como a produção de um ou vários Pedros Hispanos seus contemporâneos. Esta polémica, não estéril, é inconclusiva, mas obriga a distinguir, no conjunto das obras imputadas a Pedro Hispano, entre a produção cuja autoria se encontra suficientemente estabilizada e os escritos cuja catalogação e atribuição suscitam maior discussão.
As dificuldades em estabelecer com rigor a autoria das obras de João XXI são inúmeras e estão longe de ser um exclusivo do Papa português. São muito numerosos os autores e escritos da medievalidade que subsistem enredados em polémicas, enfrentando problemas insolúveis, eivados de propostas contraditórias, baseadas em variado tipo de argumentos: filológicos, caligráficos, cronológicos, ontológicos, etc.
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Seja como for, considerando apenas o corpo de obras de Pedro Hispano fixado com maior rigor e descontando os muitos textos em relação aos quais existem reservas, verifica-se que a sua quantidade, qualidade e impacto foram muito desiguais. Neste aspeto, as obras sobreviventes de medicina e de lógica sobrepõem-se às restantes em número, importância e repercussão. Olhando às quantidades produzidas, fica-se com a perceção de que o Hispano se ocupou em especial de tratados médicos. Contam-se neste capítulo cerca de três dezenas de escritos, a que se seguem, a larga distância, as obras de filosofia e de alquimia. Só depois vêm as peças de teologia. Quanto aos escritos sobre zoologia, afiguram-se residuais no conjunto da sua produção intelectual. Mas há ainda a assinalar uma obra, em tudo excêntrica ao resto da sua produção, um tratado em verso sobre os elementos atmosféricos.
No campo dos saberes médicos, o Hispano comentou praticamente todas as principais autoridades em que assentava a aprendizagem nas escolas medievais na área de medicina, em conformidade com o elenco da escola médica de Salerno, fundada no século X e que teve um enorme impacto na evolução da história da medicina. Quanto à adesão à alquimia, o interesse pela química medieval era, ao tempo, inseparável do mundo do ocultismo e das ciências ocultas, o que lhe valeu, em alguns círculos, a pejorativa e controversa reputação de mago.
E foi num contexto de grande efervescência intelectual, marcado pela recuperação no Ocidente de obras de Aristóteles, que o Hispano redigiu os manuscritos filosóficos responsáveis por lhe assegurar um lugar na História da Filosofia. Entre os trabalhos que lhe são imputados com mais insistência e segurança, são indiscutivelmente os mais famosos e celebrados: o ‘Thesaurus pauperum’, no domínio das ciências médicas, e as ‘Summulae logicales’, no ramo da lógica.
O ‘Thesaurus pauperum’ é um rol de conselhos e preceitos médicos, com um copioso número de receitas – algumas das quais elaboradas pelo próprio Pedro Hispano – atinentes à quase totalidade do conjunto conhecido das doenças humanas na medievalidade. Os males e as receitas são apresentados segundo um critério anatómico num texto que se inicia com um rol de prescrições para as maleitas que atingem a cabeça e culmina com o catálogo das doenças e receitas relacionadas com os pés.
No respeitante às ‘Summulae Logicales, referidas também por ‘Tractatus’ e outras designações, alcançaram fama em função da doutrina lógica exposta, que apresentava e compatibilizava tendências filosóficas opostas, nomeadamente entre os nominalistas (que aprofundaram as questões semânticas e os significados dos nomes em filosofia) e os realistas (que entendiam os conceitos universais como sendo reais). Embora reconhecida unanimemente, a importância das Sumulae como texto didático, tem variado largamente conforme as interpretações sobre o seu valor intelectual e científico. Vêm, porém, espelhados nos compêndios de Filosofia Escolástica (na dialética) do século XX. 
Mas é devido à sua produção científica e, especialmente, a estas duas obras – o Thesaurum pauperum e as Summulae logicales – que Pedro Hispano, o Papa João XXI, deve muito da sua celebridade, sem o que, não obstante o seu notável percurso eclesiástico, não passaria de uma pequena nota de rodapé na História. Em especial, foram as Summulae Logicales, que cercaram de larga fama o seu nome. A esse livro, aludiu Dante na Divina Comédia (1321). E foi por causa desse livro que o autor florentino reservou a João XXI um lugar no Paraíso. Era essa a ambição dum cristão na Idade Média; teria de ser essa a máxima aspiração de um homem da Igreja como fora o português toda a vida; e, acima de tudo, seria essa a aspiração de um pontífice, o representante de Deus na Terra: entrar no Paraíso, alcançar o lugar final da Bem-Aventurança.
Os caminhos da justiça e o espírito de Cruzada
Tomado o nome apostólico, Pedro Julião procedeu à escolha da divisa e insígnias que daí em diante o identificariam. A divisa que escolheu foi “Dirige, domine Deus meus, in conspectu tuo viam meam” (Guia-me, Senhor meu Deus, pelos caminhos da tua justiça – Sl 5,9-10) – um lema que talvez remeta para a personalidade controversa que muitas crónicas apontam. Quanto às insígnias, o recém-eleito optou por apresentar no brasão de armas, como ornamentos exteriores, os símbolos típicos da heráldica dos romanos pontífices, de acordo com o ritual latino: no topo, a tríplice tiara, correspondente às três funções apostólicas de ensinar, santificar e governar; ao centro, as duas chaves cruzadas, uma de cor dourada e a outra prateada, simbolizando as chaves do Reino dos Céus, atributo iconográfico associado a Pedro, o príncipe dos Apóstolos, que segundo o Evangelho de Mateus as recebera do próprio Cristo (Mt 16,18-19); na base do brasão, duas borlas pendentes da extremidade duma corda que entrelaçava as chaves (a corda é de cor púrpura, associada aos pontífices de Roma, entendidos como herdeiros da púrpura imperial romana); e, no interior do brasão, o escudo de João XXI, reconhecível pela forma esquartelada ou quadripartida que apresentava.
Resolvidas as questões formais, simbólicas e protocolares, João XXI envolveu-se numa intensa atividade executiva e legislativa, como se pode conferir pela leitura do registo oficial dos seus diplomas, as ‘Regesta’. As ‘Regesta’, cópias de cartas papais e de outros documentos oficiais, com valor notarial, eram preservadas nos arquivos da chancelaria apostólica, arquivadas em volumes próprios para o efeito e destinadas à manutenção de um registo interno para conservar e validar os atos dos vários papas. Mais modernamente acabaram por tomar o idêntico nome de ‘Regesta’ as publicações com a lista de documentos promulgados por cada pontífice, dispostos por ordem cronológica e com sumários cuidadosos dos conteúdos desses atos.
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Nos breves oito meses em que foi incontestavelmente a figura mais importante da Cristandade, João XXI elaborou uma significativa produção diplomática, materializada naqueles registos, que ultrapassou a centena de bulas e cartas apostólicas. E esse corpo documental permite perceber as principais orientações políticas a desenvolver, que se podem resumir na defesa da supremacia religiosa e política do Papa na Cristandade, no desejo de unidade entre as igrejas de Roma e de Constantinopla, na luta contra o inimigo de Fé, o Islão (materializada num fervoroso espírito de Cruzada), e no combate às heterodoxias doutrinais e aos desvios de fé, como sucedeu na famosa disputa entre averroístas e agostinianos, que dividiu a Universidade de Paris.
No plano político, João XXI, ao chegar ao pontificado, teve de atuar em várias frentes pôr fim a vários dos problemas que herdara: conciliar os reis de França e de Castela-Leão, respetivamente Filipe III e Afonso X, em luta pelo controlo da área de Navarra; sanar a questão do título de imperador dos romanos, reivindicado por Carlos de Anjou, rei da Sicília, e por Rodolfo de Habsburgo, imperador do Sacro Império Germânico; sufocar a turbulência que pairava na área itálica e que agitava comunas rivais, como Perúgia e Assis, mas que também afetava as relações das comunas com o papado; e repor a autoridade da Igreja face à desobediência de reis em conflito aberto com alguns setores da Igreja, como sucedia no caso português, com Afonso III.
Porém, apesar do seu fulgurante trajeto eclesiástico e dos ambiciosos projetos políticos que protagonizou, amplamente testemunhados pelos registos da chancelaria papal, a sua morte de, oito meses depois de eleito, não lhe permitiu deixar uma marca impressiva na história da Igreja.
(cf Armando Norte, João XXI – O Papa Português, referido e Armando Norte, Papa João XXI. O português mais poderoso de sempre antes de Guterres in Observador jornal on line, 16 de outubro de 2016: https://observador.pt/especiais/papa-joao-xxi-o-portugues-mais-poderoso-de-sempre-antes-de-guterres/; Francesco X. Calcagno, Philosophia Scolastica, Vol. Primum, ed. 4.ª, M. D’Auria Pontificius Editor, Neapoli, Italia: 1963, pgs 90-94).
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Em Janeiro de 1277, João XXI interveio numa disputa entre teólogos na Universidade de Paris que marcou o seu pontificado. Alguns professores foram acusados pelo bispo de Paris, Étienne Tempier, de defender teses contra a fé cristã. Antes de tomar posição, o Papa pediu ao bispo que averiguasse o que se passava. Mas o prelado antecipou-se e condenou mais de cem teses, entre elas, algumas defendidas pelo dominicano Tomás de Aquino. Os dominicanos culparam João XXI e não lhe perdoaram
Quando morreu, João XXI foi enterrado na Catedral de São Lorenzo, em Viterbo, junto ao altar-mor. Mas, ao longo dos séculos a sua sepultura mudou várias vezes de lugar. Em 1560, o cardeal Gambara levantou a campa para fazer obras. As ossadas foram colocadas num sarcófago atrás da porta da nave central da igreja. Em 1726, o túmulo voltou a ser removido e, desta vez, depositado junto à entrada. No século XIX, o embaixador de Portugal junto à Santa Sé, o duque de Saldanha, mandou construir um monumento digno para acolher as ossadas do Papa. Mas este diplomata morreu e a obra não foi concluída. Então, em 1886, por iniciativa do bispo de Viterbo, o túmulo foi trasladado para uma das capelas da catedral, a de São Filipe. Durante a II Guerra Mundial, a catedral foi bombardeada e a capela de São Filipe ficou em ruínas. O representante da Santa Sé em Portugal, Monsenhor Fernando Cento, solicitou uma nova localização. Mas esta só foi concretizada no ano 2000, quando João XXI regressou à sepultura inicial, num túmulo onde estão inscritas as palavras de Dante: “Pedro Hispano, aquele que brilha nos seus 12 livros”. (cf revista Sábado, de 6 de maio de 2010)
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Um português notável, certamente. Pena é que muitos não teimem em lutar por uma produção pessoal e/ou coletiva que, sem o desejarem, os catapulte por si mesma à fama e ao contributo para o progresso da ciência, arte e técnica e prol do homem e da comunidade humana, assim como é de lamentar a falta de apoio político e económico aos investigadores que vão surgindo ou a obnubilação dos talentos existentes, que não são tão poucos como às vezes se crê.
2018.09.28 – Louro de Carvalho