Mostrar mensagens com a etiqueta Discernimento. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Discernimento. Mostrar todas as mensagens

sábado, 27 de outubro de 2018

Sínodo alerta para Igreja mais atenta a vozes de jovens e mulheres


A atenção da Igreja aos fenómenos que se passam no seu interior e às vozes que bradam dentro de si mesma e a partir do mundo é condição necessária para que se ponha em saída. Caso contrário, terá dificuldade em saber qual o objetivo da saída ou as ações que prioritariamente devem ser desencadeadas.

Poderá dizer-se que a saída é pautada pelo Evangelho. Certamente que sem Evangelho não é possível qualquer saída não errática. No entanto, o Evangelho implica que se perscrutem os sinais dos tempos e estes espelham, não só o que o mundo apresenta de pior, mas também o que há de melhor e o que é tendencialmente bom, se daí se partir para o seu reto ordenamento.
O Sínodo dos Bispos sob o tema ‘Os jovens, a fé e o discernimento vocacional’, que está a encerrar, consagrou um momento de escuta entre os participantes, mas também da parte dos jovens oportunamente reunidos em assembleia pré-sinodal e de todos os que houveram por bem dar o seu contributo através da internet, do correio eletrónico e das redes sociais.
Se pensarmos no panorama por que se move a juventude e o enquadrarmos no âmbito dos sinais dos tempos, talvez possamos verificar a indiferença, o distanciamento e até hostilidade em relação às Igrejas e mesmo às religiões, como podemos assinalar que muitas instâncias sociais, societárias, culturais, estéticas, económicas, políticas e desportivas tentam formatar os jovens capturando-os para os interesses poderosamente instalados. Mas também verificamos que surgem grupos de jovens inteiramente empenhados numa onda de reflexão e ações sérias, coerentes e norteadas pelos altos ditames do espírito com vista à realização pessoal, sim, mas também com vista à disponibilidade em favor do próximo. Tanto assim é que as grandes campanhas de sensibilização em nome de causas altruístas contam com numerosos grupos de jovens. E há aqueles jovens sem formação académica e/ou sem trabalho que não encontram sentido na vida e que se sentem à parte, porque ninguém se aproxima deles ou porque ninguém os convoca. Por outro lado, muitos quando ouvem linguagens ou lhes propõem comportamentos que não são do seu mundo ou se as linguagens utilizadas são herméticas ou obsoletas e os comportamentos propostos lhes soam a desajustados, não se sentem bem nos átrios da Igreja e nos seus espaços. Por isso, é urgente a escuta das suas vozes para se ajustarem as propostas em linguagens e instrumentos aceitáveis e se poder discernir até que ponto e de que modo as atitudes e comportamentos que se propõem se inserem no âmbito da mensagem evangélica ou em que medida foram impostos por força de tradições ou de construções humanas, embora com o fito de implantar o Evangelho entre as pessoas e nos povos.
***
Como foi referido, o Sínodo, embora tenha sido uma assembleia de Bispos, contou com a presença de umas dezenas de jovens. E, se os Padres Sinodais elaboraram uma Carta aos jovens do mundo inteiro, aprovada juntamente com o Documento Final do Sínodo, também os jovens auditores ofereceram ao Papa o compromisso de compartilharem o seu “sonho de uma Igreja em saída”. Com efeito, em mensagem lida no final da tarde do dia 26, após um momento de reunião dos Padres Sinodais e dos jovens auditores com música, dança e poesia – o próprio Cardeal Lorenzo Baldisseri, Secretário-Geral do Sínodo, deu um show a parte ao piano –, os jovens disseram ao Papa:
Estamos contigo e com todos os bispos da nossa Igreja, mesmo nos momentos de dificuldades. Pedimos-te para continuares o caminho que tomaste e prometemos-te o nosso total apoio e a nossa oração diária.”.
Depois de lida, a mensagem foi entregue ao Papa Francisco, assinada com canetas de cores diferentes. Ei-la na íntegra, de acordo com o Vatican News, com adaptações ao nosso português:
Nós jovens, presentes no Sínodo, queremos colher esta ocasião para te exprimir a nossa gratidão por nos teres dado o espaço para fazer, juntos, este pequeno pedaço da história. As ideias novas necessitam de espaço e tu deste-nos este espaço. O mundo de hoje, que nos apresenta a nós, jovens, oportunidades inéditas junto a tantos sofrimentos, tem necessidade de novas respostas e de novas energias de amor. Tem necessidade de reencontrar a esperança e de viver a felicidade que se experimenta no dar mais que receber, trabalhando por um mundo melhor.
Nós queremos afirmar que compartilhamos o teu sonho: uma Igreja em saída, aberta a todos, sobretudo aos mais vulneráveis, uma Igreja ‘hospital de campanha’. Já somos parte ativa desta Igreja e queremos continuar a comprometer-nos concretamente para melhorar as nossas cidades e escolas, o mundo sociopolítico e os ambientes de trabalho, difundindo uma cultura da paz e da solidariedade e colocando no centro os pobres, nos quais se reconhece o próprio Jesus.
Ao final deste Sínodo, desejamos dizer-te que estamos contigo e com todos os bispos da nossa Igreja, mesmo nos momentos de dificuldades. Pedimos-te para continuares o caminho que tomaste e prometemos-te o nosso total apoio e a nossa oração diária.”.
***
No briefing do dia 26 na Sala de Imprensa da Santa Sé sobre o evento sinodal, os intervenientes falaram em “grande sinal”, “momento de graça”, “orquestra maravilhosa”, como expressões classificativas deste Sínodo. E emergiu a esperança que o afirmado pelos jovens e bispos sobre as situações de sofrimento e de injustiça presentes nos seus países, encontre eco público.
Assim, declarou o Cardeal Christoph Schönborn (Arcebispo de Viena e Presidente da Conferência Episcopal Austríaca):
Faço votos por que também exista uma voz forte para dizer ao mundo político-económico quantas injustiças existem no mundo”.

Referindo que “o caminho sinodal é o do discernimento” e que, “no final falará o Papa, como já falou”, mas que “primeiro vem a escuta”, sublinhou que “o Sínodo é um grande sinal”, pelo que faz votos por que “seja visto, ouvido e transmitido”. E, recordando o que lhe disse um jovem africano proveniente dum país abalado pela guerra civil, vincou:

A Igreja é a nossa única esperança, lugar de acolhimento e de compreensão, onde nos podemos sentir em casa”.

Por sua vez, Dom Eamon Martin (Arcebispo de Armagh e Presidente da Conferência dos Bispos irlandeses) anotou que o Sínodo foi “um momento de graça” em que se sentiu “a presença e o poder do Espírito Santo”, devendo essa força e essa alegria ser transferidas para as várias dioceses. Neste sentido, propôs-se “ser um embaixador do Sínodo”, frisando que “a Igreja quer dirigir-se a todos os jovens do mundo”, “trabalhar com jovens, não somente para os jovens”. Por isso, Dom Martin volta para casa “com a ideia de que serão os jovens os agentes de evangelização”.

No briefing, elevou-se a voz da África mercê das reflexões de Dom Anthony Muheria (Arcebispo de Nyeri, Quénia), que espera que do Sínodo “possa surgir uma nova chama que entusiasme os jovens” e crê que os bispos poder “incendiar os jovens com o amor de Deus”.
Para o prelado, participar no Sínodo foi “como ouvir uma maravilhosa orquestra”, que parecia estar, no início, um pouco desafinada, mas que, depois, o Espírito Santo a guiou em direção a “uma grande sinfonia”.

Nesta linha de pensamento, o Padre Enrique Figaredo Alvargonzalez (Prefeito Apostólico de Battambang, Camboja), entendendo que do Sínodo vem “uma nova energia”, declarou:

Certamente o Sínodo tem no próprio coração os jovens, a vocação, o discernimento e, portanto,  teremos uma nova energia para os jovens entre os jovens”.

Esperando o rejuvenescimento da Igreja, sustenta que “será o Espírito Santo a guiar-nos”.

E Erduin Alberto Ortega Leal (jovem auditor e membro da Comunidade de Sant’Egidio, Cuba) frisou que, “na Igreja,  os jovens  não devem ser considerados como espectadores, mas verdadeiros protagonistas” e que “o mundo é atormentado por tantos  problemas” pois “está focado apenas no presente”. Ora, como observou, “os jovens, pelo contrário, precisam de olhar para o futuro”. E “o Sínodo deu-nos a oportunidade de ouvir e ser ouvidos”.

No briefing também foram apresentadas as estatísticas gerais sobre o Sínodo e dados sobre as redes sociais – facebook, twitter e Instagram – além de dados sobre o L’Osservatore Romano durante Sínodo.
Também Dom Zeca Martins (Bispo de Huambo, Angola) falou ao Vatican News sobre a sua experiência durante o encontro sinodal, dando o seu testemunho sobre a experiência vivida neste período de dedicação à juventude do seguinte modo.
Foram trabalhos muito fecundos e realmente uma experiência única, uma experiência de uma vida partilhada, sobretudo de uma vida que olha para os jovens nas suas muitas dificuldades, mas também nos seus anseios, nas suas esperanças. Essas esperanças que foram apresentadas que, de facto, a Igreja aqui reunida em torno do Santo Padre, tantos bispos de várias partes do mundo reunidos em torno do Santo Padre, vai naturalmente dar uma resposta espiritual, uma resposta teológica e uma resposta pastoral capaz de indicar um caminho no qual, os jovens cristãos – e não só, devem ir trilhando para se sentirem seguros consigo mesmos, na sua fé em Cristo e naquilo que vai sendo discernimento da sua vocação, na vida profissional, na vida familiar, mas sobretudo na vida à chamado ao seguimento de Cristo como consagrados, como religiosos missionários e como aqueles que, de facto, anunciam Cristo diante dos homens.”.
***
No contexto do Sínodo, marcado pela escuta em ordem ao discernimento, se pronunciou a teóloga Marinella Perroni (professora de Novo Testamento no Pontifício Ateneu Santo Anselmo) sobre a questão em aberto referente à relação Igreja-mulheres, fazendo remontar a sua reflexão à revolução cultural de 1968, que deu, na sua ótica, um impulso decisivo às reivindicações do mundo feminino que incubavam há tempos sob as cinzas, sendo útil, 50 anos depois, refletir nesta linha sobre tal período de luzes e sombras.
Trata-se dum período histórico, de 50 anos, muito particular, ao menos no Ocidente, de grande fermento em todos os âmbitos da vida civil, política, social com profundos reflexos na vida do quotidiano. No quadro do sonho com uma mudança geral, “os jovens clamavam pelo direito ao estudo para todos, as mulheres exigiam a igualdade de direitos em relação aos homens, a família era com frequência lugar de conflito entre as gerações”. Foi um surto de contestações que abalou a sociedade e as Igrejas. Entraram sacerdotes em crise, diminuíram as vocações religiosas e decresceu a adesão à fé. Porém, hoje, na linha do que acima ficou dito é possível “ver com maior clareza o que houve de positivo e negativo, os prejuízos causados e as conquistas, as contradições e os condicionamentos ocorridos”.
E, falando particularmente das reivindicações das mulheres e do movimento feminista na relação com Igreja Católica, Perroni verifica:
Oficialmente a Igreja Católica, no sentido magisterial e hierárquico, repeliu qualquer reivindicação ligada ao adjetivo ‘feminista’. De facto, Paulo VI começa a ouvir vozes sobre o assunto… recordo-me de um discurso seu que disse: ‘Ouvem-se vozes longínquas às quais mais cedo ou mais tarde teremos que dar atenção: são as vozes de mulheres’. Também não podemos esquecer-nos de que foi João XXIII, em 1963, que recordou, na sua encíclica Pacem in Terris, que o reconhecimento da dignidade, pretendido pelas mulheres, era um sinal dos tempos com o qual os que creem e, portanto, a Igreja, deviam absolutamente ter atenção.”.
***
Continua em agenda o debate sobre os direitos das mulheres, do seu papel e da contribuição dentro da sociedade e da Igreja. Francisco volta recorrentemente ao tema reconhecendo a necessidade de nova e profunda reflexão sobre a matéria. Assim, na sua exortação apostólica Evangelium gaudium (a primeira), escreve:
As reivindicações dos legítimos direitos das mulheres, a partir da firme convicção de que homens e mulheres têm a mesma dignidade, colocam à Igreja questões profundas que a desafiam e não se podem iludir superficialmente”.
E, analisando a história dos últimos 50 anos, a distinta teóloga admite:
A posição da Igreja com relação à questão feminina depois de 1968 foi bem diferente. Exatamente por esta recusa de dar atenção a um movimento certamente difícil, confuso, complexo e anárquico, como o das mulheres, a tentação foi de propor uma visão toda católica da figura feminina e das reivindicações das mulheres.”.
As mulheres que mais sentem necessidade de espaço e maior reconhecimento na Igreja Católica são as Religiosas. Há dias, no Sínodo, foi abordado tema e pedida a igualdade de direitos entre as Superioras religiosas presentes nos trabalhos e os seus homólogos não sacerdotes em relação à possibilidade de votar documentos sinodais que por enquanto não é reconhecida às Religiosas.
Neste âmbito, muitas consagradas mostram um certo desencorajamento em relação ao que esperavam, ou seja, uma mudança, que não ocorreu.
Não obstante algo mudou. Por exemplo, no passado não existia a possibilidade de mulheres lecionarem nos institutos académicos de teologia. Agora, abriu-se para elas o múnus de ensinar. E Peroni refere:
É verdade, a partir do Concílio houve a abertura das faculdades teológicas e, portanto, a possibilidade de dar aulas, obter títulos académicos, mesmo as leigas. Por isso, hoje temos um grande número de teólogas nas cátedras universitárias. E isso tem um peso, foi uma mudança significativa.”.
***
A este respeito, o Cardeal Reinhard Marx (Arcebispo de Munique e Freiburg e Presidente da Conferência Episcopal da Alemanha), no briefing do dia 24 sobre o Sínodo dos Bispos, sustentou que “seríamos tolos se renunciássemos ao potencial das mulheres”, que devem fazer parte ‘hoje, e não amanhã’, dos processos decisionais referentes à Igreja”. E enfatizou que é fundamental “entender a evolução dos tempos, como já fez João XXIII”.
E Marinella Perroni, registando que estas são palavras de um dos expoentes da Igreja Católica, reconhece que muitas outras de teor semelhante foram pronunciadas nestes dias por outros expoentes da Igreja, que dão boas esperanças. Por isso, faz uma declaração de assumida esperança de alteração do status quo a longo prazo e coloca no trilho certo a responsabilidade das mulheres teólogas, discorrendo:
Acredito que devemos aceitar as estratégias de longo prazo. Certamente há responsabilidade histórica da nossa parte em assumir e aceitar. Mas também há os que sempre, homens e mulheres, quiseram viver a sua fé e a sua pertença eclesial dentro da história e não com uma espiritualidade individual. Portanto, eu entendo que a nossa responsabilidade histórica como teólogas é esta: servir a nossa Igreja na verdade e na liberdade.”.
***
Enfim, dois desafios que se colocam à Igreja que emergiram no Sínodo: os jovens e as mulheres. Os jovens, para poderem ser agentes da evangelização, têm de ser mobilizados pela via da autenticidade humana e evangélica e duma linguagem catequética descodificada em relação à origem e ajustada aos seus códigos juvenis, mais ouvidos, mais chamados à participação nas decisões e menos afrontados no que é acessório. Por sua vez, as mulheres, embora devam ter a paciência de esperar pela mudança de médio e longo prazo, têm o direito e o dever de ganhar espaço no tríplice múnus de ensinar, santificar e governar. No ensino, basta seguir em frente, ganhar mais competências e caldear a ciência com a sabedoria, articulando o academismo com o sensus Ecclesiae; no governo, basta dar sequência às competências adquiridas e a adquirir no âmbito do ensino (quem está preparado tem ferramenta para governar); e, no quadro da santificação, há que puxar pelo ser e dinamismo inerentes ao estatuto que o Batismo nos dá e chegar à ponderação teológica dos fatores que têm sido impeditivos da participação almejada. Não se trata de substituir o trabalho de padres, de ganhar direitos inadequados, de obter protagonismo, mas unicamente de servir mais e melhor o Reino de Deus.

2018.10.27 – Louro de Carvalho

terça-feira, 23 de outubro de 2018

O Sínodo dos Bispos de 2018 em metodologia da Ação Católica


Um texto de Solange Pereira (diretora da JOC) e do Padre Valentim Gonçalves (CJP-CIRP - Comissão Justiça e Paz da Conferência dos Institutos Religiosos de Portugal) publicado, no passado dia 21 no site do jornal “Voz da Verdade”, na secção “Doutrina Social” aborda alguns pontos do Sínodo dos Bispos que está a decorrer no Vaticano segundo a tríplice categorização metodológica da Ação Católica: Ver, Julgar e Agir – assumindo esta abordagem com a Visão da JOC.

Começa por registar as três novidades do Sínodo: “a presença de jovens, a presença de dois bispos chineses depois da assinatura de um acordo provisório para a nomeação de bispos e ainda a I Assembleia com o novo enquadramento jurídico apresentado pelo Papa na constituição apostólica “Episcopalis Communio”, reforçando o papel do Sínodo na linha do Vaticano II”.
Depois, na categoria do Ver, sublinha-se, da declaração do Cardeal Baldisseri, dias antes da assembleia, a asserção, no âmbito dos desafios que se lhe colocam, de que “a Igreja não tem medo de enfrentar esses desafios que são sempre difíceis e cheios de obstáculos”. E transcreve-se a afirmação do Papa Francisco num encontro com jovens de diversas religiões aquando da visita aos países bálticos:
Sabemos que muitos jovens não nos pedem nada, porque não nos consideram interlocutores significativos na sua existência. Alguns pedem expressamente para serem deixados em paz, porque sentem a presença da Igreja como algo molesto e irritante. É verdade. Ficam indignados com os escândalos sexuais e económicos contra os quais não veem uma clara condenação. O não saber interpretar adequadamente a vida e a sensibilidade dos jovens por falta de preparação ou simplesmente pelo papel passivo que lhes atribuímos. Estes são alguns dos vossos pedidos. Queremos dar-lhes resposta, queremos ser uma comunidade transparente, acolhedora, honesta, atraente, comunicativa, acessível, alegre e interativa.”.
Sendo este o tom para o percurso sinodal, os jovens presentes contribuem, no quadro desta problemática e de outras, “com um grande impacto social como o desemprego, as redes sociais, a pobreza e a educação”.
Na categoria do Julgar, atenta particularmente aos problemas do trabalho, desemprego, educação e pobreza, a JOC (Juventude Operária Católica), apesar da sua presença minoritária e, por vezes, suspeita na Igreja, não desiste de lidar com as magnas questões do trabalho, precariedade, horários, desemprego, política de salários, justiça social – lutando por um trabalho digno e justo segundo a batuta de Francisco:
O problema é não levar o pão para casa, isto tira a dignidade… temos que trabalhar e defender a dignidade que nos dá o trabalho”.
Por isso, a preocupação da JOC é “denunciar situações que ofendam a dignidade dos jovens” e alertar “para que estes fiquem despertos para outras semelhantes”.
Com efeito, para os articulistas, a falta de dignidade surge já na procura do primeiro emprego e nas dificuldades sentidas na tentativa de inserção no mundo do trabalho: trabalho a recibos verdes ou a contratos a termo e de curto-prazo, sem o exercício de direitos fundamentais como férias, baixa por incapacidade e subsídio de desemprego; instrumentalização empresarial dos jovens para obtenção da produtividade desejada; excesso de trabalho, horas extraordinárias (muitas vezes não remuneradas); clima de competitividade; salários precários; e bullying por parte dos colegas e da entidade patronal – a prejudicar a saúde física e mental dos jovens e os seus projetos de vida.
São estas as chagas sociais que, não sendo exclusivas dos jovens, os atingem logo ao despertar para a vida ativa, gerando a desilusão e a falta de esperança.
E, na linha do Agir, a JOC declara:
Ansiamos que o Sínodo leve esperança aos jovens que se encontram em situações de precariedade e de indignidade e lhes dê coragem de denunciar o que asfixia a vida. Que as palavras RESPEITO, LIBERDADE e DIREITOS sejam um pilar neste Sínodo. Esperamos que seja um Sínodo, não só para escrever um documento a falar dos jovens, mas sim um momento em que se pense a juventude com os jovens.”.
Escudado na afirmação do Papa no terceiro dia de Sínodo de que os jovens “não são mercadorias num leilão”, pedindo que não se deixem comprar, não se deixem seduzir, não se deixem escravizar pelas colonizações ideológicas” e exortando a que se apaixonem “pela liberdade de Jesus”, este movimento eclesial de juventude assegura:
Trabalhamos para que eles não sejam vistos como objeto, mas como meio para levar Jesus Cristo a outros jovens, como dizia o nosso fundador Joseph Cardijn: ‘Cada trabalhador e cada trabalhadora deve viver a experiência do amor de Deus. Não se pode respeitar a Deus, se não se respeitar os trabalhadores e as trabalhadoras, que são a imagem de Deus’..
***
Vistas bem as coisas, é de referir que em todos os documentos atinentes ao Sínodo está subjacente esta metodologia da Ação Católica, obviamente não como se fora em compartimentos estanques, mas no sistema de predomínio a par da transversalidade temática e da permeabilidade e atitudinal.
***
Assim, logo o Documento Preparatório, sob o lema “Nos passos do discípulo amado”, distribui as matérias por três capítulos:
I – Os jovens no mundo de hoje (é a categoria do Ver) desdobra-se em três subcapítulos: 1. Um mundo que se transforma rapidamente; 2. As novas gerações, com os itens “pertença e participação”, pontos de referência pessoais e institucionais e rumo a uma geração (hiper)conectada”; e 3. Os jovens e as escolhas.
II – Fé, discernimento e vocação (é a categoria do Julgar) desdobra-se em quatro subcapítulos: 1. Fé e vocação; 2. O dom do discernimento (discernir é julgar à luz da Palavra de Deus devidamente escutada e meditada), com os itens “reconhecer”, “interpretar e “escolher”; 3. Percursos de vocação e missão; e 4. O acompanhamento.
III – A ação pastoral (é a categoria do Agir ou indicações de planeamento da ação) desdobra-se em cinco subcapítulos: 1. Caminhar com os jovens, com os itens “sair”, “ver” e “chamar”. 2. Sujeitos, com os itens “todos os jovens, sem exclusão alguma”, “uma comunidade responsável” e “ as figuras de referência”. 3. Lugares, com os itens “a vida quotidiana e o compromisso social”, “os âmbitos específicos da pastoral” e “o mundo digital”. 4. Instrumentos, com os itens “as linguagens da pastoral”, “a atenção à educação e os percursos de evangelização” e “silêncio, contemplação, oração”. E 5. Maria de Nazaré, pois “cada jovem pode descobrir na vida de Maria o estilo da escuta, a coragem da fé, a profundidade do discernimento e a dedicação ao serviço” (cf Lc 1,39-45).
***
Por seu turno, o Documento final da Reunião Pré-sinodal, da passada primavera, estrutura-se em três partes, em que se podem ver, respetivamente as categorias do Ver ou análise da realidade, com os desafios e as oportunidades; do Julgar ou a reflexão à luz da Palavra de Deus e na atenção aos Sinais dos Tempos; e do Agir ou do encontro de elementos para planear a ação pastoral eficaz. É, entretanto, de advertir que este julgamento não pode ser pautado por critérios meramente humanos, mas pela consonância tanto quanto possível com o juízo de Deus.
Parte I – Desafios e oportunidades dos jovens no mundo de hoje, com os itens: (1) A formação da personalidade; (2) Relação com os outros; (3) Os jovens e o futuro; (4) Relação com a tecnologia; e (5) A busca de sentido de vida.
Parte II – Fé e vocação, discernimento e acompanhamento, com os itens: (6) Os jovens e Jesus; (7) A Fé e a Igreja; (8) O sentido vocacional da vida; 9) Discernimento vocacional; (10) Jovens e acompanhamento.
Parte III – Atividades formativas e pastorais da Igreja, com os itens: (11) O estilo da Igreja; (12) Jovens Protagonistas; (13) Lugares preferenciais; (14) Iniciativas a serem reforçadas; e (15) Instrumentos a serem usados.
Como é de esperar, a fase da ação tem de considerar as descobertas da análise da realidade.

***

Por fim, o Instrumentum Laboris, que é o documento de referência para os trabalhos sinodais, estrutura-se em Introdução (com as finalidades do Sínodo, o método do discernimento e explicação da estrutura do texto), três partes (Reconhecer, Interpretar, Escolher), Conclusão (com os itens: a vocação universal à santidade; a juventude, um tempo para a santidade; e jovens santos e juventude dos santos) e Oração pelo Sínodo (dirigida ao Senhor Jesus). 
IRECONHECER: A IGREJA À ESCUTA DA REALIDADE. É um momento de análise da realidade ou Ver, distribuída por cinco capítulos, com vários itens:
I. SER JOVEM HOJE – uma abrangente variedade de contextos; diante da globalização; o papel das famílias; as relações intergeracionais;  as escolhas de vida; educação, escola e universidade; trabalho e profissão; e juventude, fé e religiões. 
II. EXPERIÊNCIAS E LINGUAGENS – compromisso e participação social;  espiritualidade e religiosidade; os jovens na vida da Igreja; a transversalidade do continente digital; a música e as outras formas de expressão artística; e o mundo do desporto. 
III. NA CULTURA DO DESCARTE – a questão do trabalho; os jovens migrantes; as várias formas de discriminação; e doença, sofrimento e exclusão. 
IV. DESAFIOS ANTROPOLÓGICOS E CULTURAIS – o corpo, a afetividade e a sexualidade; novos paradigmas cognitivos e busca da verdade; os efeitos antropológicos do mundo digital; a deceção institucional e as novas formas de participação; a paralisia decisória na superabundância das propostas; e além da secularização. 
V. À ESCUTA DOS JOVENS – a fadiga de escutar; o desejo de uma “Igreja autêntica”; uma Igreja “mais relacional”; uma comunidade “comprometida com a justiça”; a palavra dos seminaristas e dos jovens religiosos. 
II – INTERPRETAR: FÉ E DISCERNIMENTO VOCACIONAL. É um momento da procura do confronto de realidade analisada com as exigências e alegrias da Fé, o discernimento sobre como responder àquilo a que Deus nos chama – o Julgar, distribuído por quatro capítulos, com vários itens:
I. A BÊNÇÃO DA JUVENTUDE – Cristo “jovem entre os jovens”; a chamada universal à alegria do amor; vigor físico, fortaleza de alma e coragem de arriscar; incerteza, medo e esperança; queda, arrependimento e acolhimento; disponibilidade para ouvir e necessidade de acompanhamento; amadurecimento da fé e dom do discernimento; e projeto de vida e dinâmica vocacional. 
II. A vocação à luz da fé – a vida humana no horizonte vocacional; chamados em Cristo; a sair de si mesmos; para a plenitude da alegria e do amor; a vocação a seguir Jesus; a vocação batismal; a chamada dos apóstolos; a vocação da Igreja e as vocações na Igreja; os diferentes caminhos vocacionais; a família; o ministério ordenado; a vida consagrada; profissão e vocação; e a condição inédita dos solteiros. 
III. O DINAMISMO DO DISCERNIMENTO VOCACIONAL – o pedido de discernimento; o discernimento na linguagem comum e na tradição cristã; a proposta do discernimento vocacional; reconhecer, interpretar, escolher; o papel da consciência; e o confronto com a realidade. 
IV. A ARTE DE ACOMPANHAR – “acompanhamento” pode ser dito em vários modos; acompanhamento espiritual; acompanhamento psicológico; acompanhamento e sacramento da reconciliação; acompanhamento familiar, educacional e social; acompanhamento na leitura dos sinais dos tempos; acompanhamento na vida quotidiana e na comunidade eclesial; as qualidades daqueles que acompanham; e acompanhamento dos seminaristas e jovens consagrados.
III - ESCOLHER: PERCURSOS DE CONVERSÃO PASTORAL E MISSIONÁRIA.  
I – UMA PERSPETIVA INTEGRAL – o discernimento como estilo de uma Igreja em saída; Povo de Deus num mundo fragmentado; e uma Igreja generativa. 
II – IMERSOS NO TECIDO DA VIDA QUOTIDIANA – o acompanhamento escolar e universitário; a exigência de um olhar e de uma formação integra; as especificidades e a riqueza das escolas e universidades católicas; economia, trabalho e cuidado da casa comum; à procura de novos modelos de desenvolvimento; o trabalho perante a inovação tecnológica; colaborar na criação de empregos para todos; na trama das culturas juvenis; formar para a cidadania ativa e para a política; aprender a habitar o mundo digital; a música entre interioridade e afirmação da identidade; desporto e competição; a amizade e o acompanhamento entre pares; proximidade e apoio na dificuldade e na marginalização; deficiência e doença; dependências e outras fragilidades; com jovens prisioneiros; em situações de guerra e violência; jovens migrantes e a cultura do acolhimento; perante a morte; e acompanhamento e anúncio. 
III. Uma comunidade evangelizada e evangelizadora – uma ideia evangélica de comunidade cristã; uma experiência familiar de Igreja; o cuidado pastoral para as jovens gerações; a família, sujeito privilegiado da educação; à escuta e em diálogo com o Senhor;  na escola da Palavra de Deus; o gosto e a beleza da liturgia; nutrir a fé na catequese; acompanhar os jovens rumo ao dom gratuito de si; e comunidade aberta e acolhedora para todos. 
IV. Animação e organização da pastoral – o protagonismo juvenil; a Igreja no território; a contribuição da vida consagrada; associações e movimentos; redes e colaborações a nível civil, social e religioso; o planeamento pastoral; a relação entre eventos extraordinários e vida quotidiana; rumo a uma pastoral integrada; e seminários e casas de formação. 
***
Face ao exposto, pergunto-me como é que a Ação Católica em Portugal (que formou tão boa gente e a capacitou para a intervenção no apostolado, até com mandato da Hierarquia) ficou reduzida a uns pequenos grupos, ainda que persistentes e aguerridos. Se a sua metodologia passou aos documentos do Magistério e se acomoda, à boa maneira jesuítica, a matéria de reflexão em três partes ou capítulos, como é que o movimento qua tali quase sumiu? Foi a Hierarquia que lhe retirou o mandato ou o deixou cair? Foi ele que se partiu em os/as que entendiam que lhes cabia o aprofundamento da doutrina sem tirar as consequências práticas (e sem o apelo da ação perdeu ânimo) e os/as que se submergiram no mundo da ação olvidando o fervor evangélico? É de pensar, não?
2018.10.23 – Louro de Carvalho




quinta-feira, 4 de outubro de 2018

O Sínodo que fala dos jovens intenta o reencontro das razões da esperança


Realizou-se no início da tarde de hoje, dia 4 de outubro, na Sala de Imprensa da Santa Sé, o primeiro briefing sobre à XV Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos, com o tema “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”, que se iniciou no Vaticano no dia 3 e prosseguirá até o próximo dia 28.
O Sínodo abriu com a celebração da Santa Missa presidida pelo Santo Padre na Praça de São Pedro e os trabalhos na Aula sinodal tiveram início com a oração e a saudação do mesmo Papa Francisco, fazendo votos para que o Sínodo desperte os corações.Na homilia da Missa, o Pontífice, sabendo que Jesus oferece aos discípulos a garantia de que acompanhará todo o trabalho missionário que lhes confia e que o Espírito Santo é o primeiro a guardar e manter sempre viva e atual no coração dos discípulos a memória do Mestre, fazendo com que “a riqueza e beleza do Evangelho seja fonte de constante alegria e novidade” exortou a que se invoque insistentemente o Paráclito para que “ajude a trazer à memória e a reavivar as palavras do Senhor que fazem arder o coração (cf Lc 24,32) num “ardor e paixão evangélica que geram o ardor e a paixão por Jesus” e numa “memória que possa despertar e renovar em nós a capacidade de sonhar e esperar”. Na verdade, “sabemos que os nossos jovens serão capazes de profecia e visão, na medida em que nós, adultos ou já idosos, formos capazes de sonhar e assim contagiar e partilhar os sonhos e as esperanças que trazemos no coração” (cf Jl 3,1).
***
Como refere o Vatican News, estiveram presentes no predito briefing o Prefeito do Dicastério para a Comunicação e Presidente da Comissão sinodal para a Informação, Paolo Ruffini, a colaboradora do secretário especial do Sínodo e docente de sociologia e processos culturais e comunicativos da Universidade Católica de Milão, Chiara Giaccardi, o Bispo de Quilmes e padre sinodal eleito pela Conferência episcopal argentina, Dom Carlos José Tissera, e o jovem vietnamita, auditor no Sínodo, Joseph Cao Huu Minh Tri.
Paolo Ruffini, apresentou aos jornalistas os muitos temas tocados: o descarte, a afetividade e sexualidade, as migrações, a vocação “no sentido mais amplo da vocação à dimensão mais bonita e espiritual da vida, a relação com Deus e, por último, a “credibilidade da Igreja”.
Dos 25 pronunciamentos feitos até à 2.ª Congregação Geral na Sala do Sínodo ficou evidenciado o “desejo constante de sonhar com os jovens, para fazer a Igreja caminhar com eles”. Por outro lado, alguns testemunhos, como precisou Ruffini, reiteraram um pedido de perdão, não somente pela questão “dos abusos”, mas também por todas as vezes que a Igreja “não esteve à altura de seus deveres”.
Em uníssono, os participantes do Sínodo expressaram a sua satisfação pelo pedido do Papa de um intervalo de silêncio de três minutos entre um pronunciamento e outro, o que, segundo Dom Tissera, constitui uma escolha “útil” para discernir e “caminhar realmente juntos”. Com efeito, para o Padre Antonio Spadaro SJ, Diretor da revista jesuíta “La Civiltà Cattolica” e Secretário da Comissão sinodal para a informação, “o Sínodo não é um parlamento, mas um lugar de discernimento; um lugar espiritual, não um debate de ideias”.
Já o Bispo de Quilmes precisou que este Sínodo “é um momento privilegiado para a Igreja” para se colocar à “escuta” dos jovens, que representam “uma bênção”, uma escuta capaz também de perceber seus silêncios. Para o prelado, esta “oportunidade” deve sobretudo permitir à Igreja oferecer aquela coerência que os jovens buscam, ajudar e favorecer “o encontro entre Jesus e os jovens”. E, sendo os bispos e os sacerdotes “intermediários” desta amizade, devem recordar aos jovens que a vida deles é preciosa e que não estão sozinhos.
Por seu turno, Chiara Giaccardi, ao tomar a palavra no briefing, evidenciou o caráter concreto dos testemunhos pronunciados na Sala do Sínodo e a tangível vontade de colocar-se à escuta. E o jovem auditor vietnamita expressou a alegria de participar neste encontro sinodal e fez votos para que a Igreja ajude sempre mais os jovens, para além das muitas dificuldades, a encontrar “as verdadeiras paixões” da vida.
***
O Irmão Alois, Prior da Comunidade Ecuménica de Taizé, que participa no Sínodo dos Bispos, no Vaticano, como convidado Especial do Papa, falou sobre o evento num encontro com Anne Thibout, do Setor de Serviço nacional para a Evangelização dos Jovens e as Vocações, da Igreja na França, de que nos dá conta o L’Osservatore Romano.
É a terceira vez que o Irmão Alois participa no Sínodo dos Bispos. A sua experiência, bem como os debates e encontros com os milhares de jovens, que são acolhidos na Comunidade francesa de Taizé, na colina de Cluny, permitem-lhe oferecer o seu testemunho sobre o pertinente tema da Assembleia sinodal, expondo a sua experiência pessoal com a Juventude e passando em revista os diversos temas a abordar na Assembleia Sinodal como corolário de todo um trabalho de preparação feito desde o anúncio do Sínodo.
Diz o Prior da Comunidade Ecuménica de Taizé que “os jovens, consultados sobre as suas expectativas, em regime de preparação do Sínodo, apontaram unanimemente a necessidade serem ouvidos e acolhidos pela Igreja”.
De facto, as diferentes Conferências episcopais, que participaram das reflexões pré-sinodais, afirmam que os jovens desejam “uma Igreja menos institucional e mais relacional, capaz de acolher e sem julgar precipitadamente, uma Igreja amiga e próxima, uma comunidade eclesial que seja uma família, onde possam ser acolhidos, ouvidos, protegidos e integrados”.
O Irmão Alois frisa que esta dimensão fraterna não deve ser uma opção apenas entre os cristãos. Na verdade, “os irmãos da comunidade de Taizé descobrem um lugar onde a disponibilidade e a confiança são possíveis” e que “uma sociedade sem perdão não pode sobreviver”, pois, “sem perdão não há futuro, porque reinam a suspeita e a desconfiança”.
Um dos principais assuntos que serão debatidos na Assembleia Sinodal é a dimensão missionária do cristianismo, um tema que a Igreja católica no mundo destaca, anualmente, no mês de outubro. E a este respeito, o Prior vinca:
Não é suficiente falar. A missão é feita por contágio e não apenas com palavras. É preciso encorajar o contacto pessoal que permite a escuta.”.
Esta recomendação faz eco do que os jovens procuram para a sua vida espiritual. No encontro “pré-sinodal”, realizado em Roma, ficou evidente que “os jovens querem ser testemunhas autênticas; homens e mulheres que pretendem dar uma imagem viva e dinâmica da sua fé e da sua relação com Jesus; pessoas que levam os outros a aproximarem-se, a encontrarem-se e a apaixonarem-se por Jesus”.
O documento preparatório para o Sínodo reafirma a relação do conceito de vocação com a felicidade, que Jesus Cristo dá a cada pessoa. E o Irmão Alois partilha o seu ponto de vista:
Os jovens têm um grande desejo: a sede de um amor para sempre, que vai além das numerosas separações, que os jovens assistem nas famílias, mas também na Igreja”.
A resposta ao apelo vocacional de cada jovem ancora-se na escolha renovada de seguir a Cristo: “Cabe-nos a nós mostrar-lhes que o ‘Sim’ é possível, apesar das nossas fragilidades” – disse.
Segundo o documento preparatório “o acompanhamento das jovens gerações não é um dever opcional, na educação e evangelização dos jovens, mas um dever da Igreja e um direito da pessoa”. A este respeito, o Prior de Taizé frisou “a necessidade de que todo o ‘Sim’ a Cristo seja acompanhado”. É por isso que “a Igreja deve encontrar novos meios para acompanhar todas as etapas da vida, para discernir sobre a vocação de cada um, seja a religiosa seja a matrimonial”.
***
Por seu turno, no discurso que proferiu na abertura do Sínodo, o Papa Francisco disse que este “é um momento de partilha” e que, ao entrar naquela Sala “para falar dos jovens, já se sente a força da sua presença, que exala positividade e entusiasmo capazes de invadir e alegrar não só esta sala, mas toda a Igreja e o mundo inteiro”.
Agradecendo a todos ali presentes por terem acreditado que “vale a pena sentir-se parte da Igreja ou entrar em diálogo com ela”, assegurou:
Vale a pena ter a Igreja como mãe, como mestra, como casa, como família, capaz, não obstante as fraquezas humanas e as dificuldades, de fazer resplandecer e transmitir a mensagem sem ocaso de Cristo; vale a pena agarrar-se à barca da Igreja que, mesmo através das tempestades implacáveis do mundo, continua oferecendo a todos refúgio e hospitalidade; vale a pena colocar-se à escuta uns dos outros; vale a pena nadar em contracorrente e aderir a valores altos, como a família, a fidelidade, o amor, a fé, o sacrifício, o serviço e a vida eterna”.
Sendo o Sínodo “um momento de partilha”, o Papa garantiu que “só o diálogo nos pode fazer crescer” e que “uma crítica honesta e transparente é construtiva e ajuda, ao contrário das bisbilhotices inúteis, das murmurações, das ilações ou dos preconceitos”.
Por outro lado, o Pontífice advertindo que é preciso saber escutar com humildade, disse:
A  escuta aberta requer coragem para tomar a palavra e fazer-se voz de tantos jovens no mundo que não estão presentes. É esta escuta que abre espaço ao diálogo. O Sínodo deve ser um exercício de diálogo, sobretudo entre os que participam nele. E o primeiro fruto deste diálogo é cada um abrir-se à novidade, estar pronto a mudar a sua opinião diante do que ouviu dos outros. Isto é importante para o Sínodo.”.
Exortando que nos sintamos “livres para aceitar e compreender os outros” e “para mudar as nossas convicções e posições” – “sinal de grande maturidade humana e espiritual”, sustentou:
O Sínodo é um exercício eclesial de discernimento. Franqueza no falar e abertura no ouvir são fundamentais para que o Sínodo seja um processo de discernimento. Sejamos sinal duma Igreja à escuta e em caminho. A atitude de escuta não se pode limitar às palavras que trocaremos entre nós nos trabalhos sinodais. Uma Igreja que não escuta mostra-se fechada à novidade, fechada às surpresas de Deus, e não poderá ser crível, especialmente para os jovens, os quais, em vez de se aproximar, irão afastar-se inevitavelmente.”.
Para o Papa, “o primeiro passo rumo à escuta é libertar as nossas mentes e os nossos corações de preconceitos e estereótipos”, pois, se “pensamos já saber quem é o outro e o que quer”, temos “verdadeiramente dificuldade em ouvi-lo seriamente”. Nesta ótica, “os jovens são tentados a considerar ultrapassados os adultos” e “os adultos são tentados a julgar os jovens inexperientes, a saber como são e sobretudo como deveriam ser e comportar-se” – o que pode representar “um forte obstáculo ao diálogo e ao encontro entre as gerações”. E Francisco, frisando que a maioria das pessoas presentes no Sínodo “não pertence à geração dos jovens”, alertou para o cuidado a ter “sobretudo com o risco de falar dos jovens a partir de categorias e esquemas mentais já superados” e exortou ao contributo “para tornar possível uma aliança entre gerações”.
A propósito do clericalismo, o Pontífice disse que “é preciso, por um lado, superar decididamente” este “flagelo”“o clericalismo é uma perversão e é raiz de muitos males na Igreja: destes devemos pedir humildemente perdão e sobretudo criar condições para que não se repitam” – e, por outro lado, tem de se “curar o vírus da autossuficiência e das conclusões precipitadas de muitos jovens”.
Em termos da necessidade petrina de sabermos explicar as razões da nossa esperança (cf 1Pe 3,15 – “No íntimo do vosso coração, confessai Cristo como Senhor, sempre dispostos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la peça.”), o Papa, desejando “que o Sínodo desperte os nossos corações”, observou:
 Precisamos de reencontrar as razões da nossa esperança e sobretudo transmiti-las aos jovens que estão sedentos de esperança. O encontro entre as gerações pode ser extremamente fecundo para gerar esperança.”.
Contra uma visão negativista do mundo, do futuro e dos resultados do Sínodo acautelou:
Não nos deixemos tentar pelas ‘profecias de desgraças’, não gastemos energias a ‘contabilizar falências e recordar amarguras’, mantenhamos o olhar fixo no bem que muitas vezes não faz barulho”.
E, pelo lado positivo, exortou:
Esforcemo-nos para fazer sair deste Sínodo não só um documento, que geralmente é lido por poucos e criticado por muitos, mas sobretudo propósitos pastorais concretos, capazes de realizar a tarefa do próprio Sínodo, que é fazer germinar sonhos, suscitar profecias e visões, fazer florescer a esperança, estimular confiança, faixar feridas, entrançar relações, ressuscitar uma aurora de esperança, aprender um do outro e criar um imaginário positivo que ilumine as mentes, aqueça os corações, restitua força às mãos e inspire aos jovens – a todos os jovens, sem excluir nenhum, a uma visão de futuro repleto da alegria do Evangelho”.
***
Em suma, um sínodo vivido em partilha tem de produzir frutos com a ajuda do Espírito Santo e a docilidade dos crentes, na linha do discernimento eclesial, como exercício permanente, e da credibilidade da Igreja, da caminhada em conjunto como estilo de vida e de ação, na coerência e concretude ou testemunho concreto e comprometido, no encontro das “verdadeiras paixões da vida por parte dos jovens”, na vocação fundamental à felicidade (podendo especificar-se na vida matrimonial, na vida religiosa ou na vida consagrada na secularidade), nas alianças intergeracionais (superando barreiras e preconceitos) e, enfim, no reencontro das razões da nossa esperança.     
2018.10.04 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 5 de julho de 2018

A Instrução “Ecclesia Sponsae Imago”, sobre o Ordo virginum


A “Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica” publicou, a 3 de julho, a Instrução “Ecclesiae Sponsae Imago”, sobre a Ordem das Virgens – um documento em italiano, inglês, francês e espanhol que vem assinado pelo prefeito do dicastério, o Cardeal João Braz de Aviz, e pelo secretário, o Arcebispo José Rodriguez Carballo.
O cardeal apresentou o documento, que vem na sequência do decreto pelo qual, a 31 de maio de 1970, a Sagrada Congregação para o Culto Divino, sob mandato do Beato Papa Paulo VI, promulgou o novo Rito da consagração das virgens, considerando que “as virgens consagradas são imagem da Igreja  esposa de Cristo” e assim plasmando tal enunciado no Ordo virginum.
Como sucedia nas comunidades apostólicas e na época patrística, após alguns séculos, passou a ser concedida a possibilidade de receber esta consagração também a mulheres que permanecem no seu contexto de vida ordinário, deixando de ser reservada às monjas.
Agora a Instrução Ecclesiae Sponsae Imago retoma aquela definição. Depois do Rito litúrgico e das normas nele contidas, a Instrução (o último é oração a Mariaé o primeiro documento da Sé Apostólica que aprofunda a fisionomia e a disciplina desta forma de vida.
Dentro de dois anos, em 2020, o Rito retomado celebrará o 50.º aniversário da sua instituição pós-conciliar. Neste meio século, com a resposta das Igrejas particulares, esta peculiar vocação feminina foi conhecida e amada em todo o mundo.
As virgens consagradas estão presentes em todos os Continentes, em numerosas Dioceses, oferecendo o seu próprio testemunho de vida em todas os âmbitos da sociedade e da Igreja. Em 2016, durante o Ano da Vida Consagrada, uma estatística aproximada estimava a presença de mais de cinco mil virgens consagradas no mundo, em contínuo crescimento.
E a presente Instrução pretende responder aos pedidos que numerosos Bispos e virgens consagradas nestes últimos anos têm apresentado à Congregação para a Vida Consagrada sobre a vocação e o testemunho da Ordo virginum, a sua presença na Igreja universal, e – em particular – sobre a formação vocacional e discernimento. Assim, a Ecclesiae Sponsae Imago quer ajudar a descobrir a beleza desta vocação e contribuir para mostrar a beleza do Senhor que transfigura a vida de tantas mulheres que diariamente a experimentam.
Além disso, o Prefeito da predita Congregação aproveitou para exprimir o desejo de organizar e concordar e ver reunidas em Roma virgens consagradas de todo o mundo para um novo encontro internacional em 2020, para celebrar com Pedro, o 50.º aniversário do Rito de 1970.
***
Em primeiro lugar, o documento tem uma “Introdução” onde se refere que “a imagem da Igreja Esposa de Cristo aparece, no Novo Testamento, como ícone eficaz da revelação da íntima natureza da relação que o Senhor quis estabelecer com a comunidade dos crentes” e que “desde os tempos apostólicos, esta expressão do Mistério da Igreja encontrou una manifestação peculiar na vida das mulheres que, obedecendo ao carisma evangélico suscitado em si pelo Espírito Santo, com amor esponsal, se dedicam ao Senhor Jesus na virgindade, para experimentarem a fecundidade espiritual da íntima relação com Ele e oferecerem os frutos à Igreja e ao mundo”. Além disto, faz a resenha da evolução histórica da vivência destas mulheres consagradas quer na contemplação, quer na vida ativa, evidenciando nomes que são assumidos como referência eclesial e mundial. Depois, a Instrução desenvolve-se em três grandes capítulos: I. “A vocação e o testemunho do Ordo virginum”; II. “A configuração do Ordo virginum nas Igrejas particulares e na Igreja universal”; e “O discernimento vocacional e a formação para o Ordo virginum”.
***
No atinente ao tema A vocação e o testemunho do Ordo virginum”, o documento, num primeiro momento, evidencia: “O fundamento bíblico da virgindade consagrada”, tomando o exemplo de alguns profetas, as referências do próprio Jesus e as indicações paulinas, bem como o testemunho da dialética do Reino já inaugurado, mas ainda não totalmente realizado agora pelos homens, mas que se consumará na escatologia; “O carisma e a vocação”, pois, renunciando à experiência matrimonial, recebem a graça da singular vocação para participarem de modo mais próximo no mistério da entrega nupcial de Cristo pela sua Igreja; “O propósito, a consagração e o estado de vida”, frisando que, pela consagração, as virgens fazem o propósito de viver perpetuamente a castidade e unem-se, não apenas a Cristo, mas também à Igreja particular e à Igreja universal, assumindo assim um novo estado de vida e um peculiar estilo de serviço de acordo com o carisma de que instituto são dotadas; “A fisionomia espiritual”, nos termos da qual a virgem consagrada tem como referência primordial o modelo da Igreja virgem pela integridade da fé, esposa pela união indissolúvel com Cristo, mãe pela multidão de filhos que gera para a vida da graça. Depois, “A forma de vida” das consagradas implica a manifestação inequívoca do seguimento evangélico e dos carismas pessoais, que devem ser colocados ao serviço da comunidade; a assunção da oração como alma da vida consagrada e como via de ascese com vista à íntima união com o Senhor. Por outro lado, a Instrução regula as condições de vida a imprimir ao quotidiano no sentido de as consagradas não parecerem distantes e diferentes das demais, com a óbvia exceção das celebrações litúrgicas. Assim, por exemplo, devem usar a aliança como as casadas e usar (ou não) o véu como o fizerem as demais mulheres. De facto, devem considerar que estão sempre em ligação estreita com a Igreja particular em que se inserem, atendendo às indicações do Bispo diocesano, e que, embora não pertençam ao mundo, não se retiram dele. Devem ter o estilo de proximidade e de serviço.    
***
No capítulo intitulado “A configuração do Ordo virginum nas Igrejas particulares e na Igreja universal” insiste-se na vertente de que as consagradas estão Arreigadas na diocese por um vínculo especial de amor e pertença, afastando-se de vez a ideia da isenção (que era a subtração à autoridade diocesana). Sobressai o sentido da Comunhão e corresponsabilidade no Ordo virginum diocesano, o que implica a relação entre as diversas consagradas que vivem e agem na diocese, podendo ali estabelecer-se o serviço ou a equipa do discernimento vocacional e formação prévia à consagração, bem como o serviço ou a equipa da formação permanente. A este respeito, a Responsabilidade do Bispo diocesano, em nome da qual, por exemplo, deve acolher as consagradas como dom do Espírito e ser para elas o sacerdote dispensador das graças divinas, o mestre que indica e confirma o caminho da fé e o pastor que cuida amorosamente das pessoas que lhe foram confiadas.
No quadro das Colaborações na atenção pastoral do Ordo virginum, o Bispo diocesano deve atribuir uma função pastoral consentânea com o carisma de cada uma ou de cada grupo de consagradas e com as necessidades da diocese. Por outro lado, por si e/ou através de delgado (eleito pelos presbíteros) ou delegada (eleita entre as consagradas), o Bispo ajudará cada aspirante, candidata e consagrada a desenvolver os dons recebidos do Senhor, a promover a comunhão entre todas e o sentido de corresponsabilidade no acolhimento da legítima diferença, a favorecer o acolhimento inteligente e responsável do magistério e das opções pastorais do Bispo diocesano, promovendo o conhecimento do Ordo virginum entre o povo de Deus.
No atinente à Comunhão e corresponsabilidade entre as consagradas de várias dioceses, é de ter em conta que todas as consagradas receberam a mesma consagração e que o enraizamento diocesano “se harmoniza com o sentido de pertença a um ordo fidelium que tem as mesmas caraterísticas constitutivas em toda a Igreja católica”. Assim, terão de organizar-se iniciativas compartilhadas, que testemunhem o serviço de comunhão e, embora cada bispo em sua diocese possa e deva organizar um programa de ação pastoral com as suas consagradas, a Conferência Episcopal designará um bispo que signifique a proximidade e o acompanhamento do colégio episcopal e promova a ação em dinamismo de sinodalidade. Por outro lado, as consagradas hão de manter a referência à Sé Apostólica e ao Secretariado para o Ordo virginum a constituir na respetiva Congregação romana.   
Ainda neste capítulo, a Instrução estabelece normas sobre a Permanência em outra Diocese e a transferência; as Fundações, associações e opções de vida em comum; a Pertença ao Ordo virginum e referência a outros grupos eclesiais; e à Separação do Ordo virginum. Assim, fica assente que o enraizamento da consagração na diocese não impede, antes pode permitir ou aconselhar a transferência, ao menos temporária, para outra diocese – pois, a Igreja é una em qualquer lugar onde viva e aja – por exemplo por motivos de trabalho, ação pastoral, família e outras razões plausíveis e proporcionadas, devendo o Bispo informar as consagradas sobre a transferência de alguma ou algumas para outra diocese, bem como sobre o acolhimento de alguma que haja de ser acolhida na Diocese. Por outro lado, com vista à subsistência económica ou à capacidade organizacional, pode o Bispo instituir uma fundação canónica e autorizar a petição do seu reconhecimento civil, como podem as consagradas organizar-se em associações e solicitar o seu reconhecimento canónico e inclusive decidir livremente viver em comum.
Por outro lado, embora a consagrada esteja imersa numa espiritualidade própria do seu carisma, pode beneficiar da especificidade dos carismas concedidos pela liberdade do Espírito a outros grupos eclesiais – para o que deve usar do devido discernimento a conselho do Bispo ou de seu Delegado. E, se uma consagrada, depois de uma reflexão orante e amadurecida em diálogo com o diretor espiritual, entender que é chamada ao ingresso num Instituto de vida consagrada ou Sociedade de vida apostólica, comunicá-lo-á por escrito ao Bispo diocesano, que remeterá o pedido à Santa Sé, devendo o ingresso ser feito de acordo com as indicações da Santa Sé dadas ad casum. Algo parecido sucederá no caso de a consagrada entender que deve ser dispensada da continuação das obrigações inerentes à situação de consagrada. Só que o Bispo não tem de o comunicar à Sé Apostólica, mas oferecer-lhe-á a ajuda adequada e tempo para o discernimento, acedendo à dispensa só depois de examinar a fundo as motivações do pedido. E, se o Bispo souber que uma consagrada abandonou a fé católica ou contraiu matrimónio, mesmo que apenas civilmente ou que é acusada de gravíssimos delitos ou faltas graves externas contra o estado de consagração, reunirá as provas (dando oportunidade de defesa no caso dos graves delitos ou faltas e de recurso) e declarará a demissão para que conste juridicamente. Em qualquer dos casos de separação do Ordo virginum, o facto deve ser anotado no livro próprio e comunicado às demais consagradas e o pároco respetivo para efeitos de anotação no livro de Batismos.
***
No 3.º capítulo, O discernimento vocacional e a formação para o Ordo virginum”, ficam evidenciados os seguintes itens: i) O compromisso do discernimento e a formação, relevando o “caminho de fé, discernimento vocacional e itinerários formativos” e “a prática do acompanhamento espiritual”; ii) O discernimento vocacional e itinerário formativo prévio à consagração, relevando “a dinâmica do discernimento e da formação prévia à consagração”, “os requisitos e critérios de discernimento”, “o recurso a peritos com competência psicológica”, “o período propedêutico”, “o itinerário formativo prévio à consagração” e “a admissão à consagração e o cuidado da sua celebração; e iii) A formação permanente, com relevo para “a atenção à formação permanente”, o “compromisso pessoal e dimensão de comunhão” e “indicações sobre o conteúdo e o método”.        
A vida eclesial da consagrada parte da consagração batismal, da vocação carismática à virgindade e de outros carismas presentes na própria pessoa. Para responder em termos eclesiais é necessário o permanente discernimento em que se empenha a própria, com o acompanhamento de alguém que garanta o sentir comunitário e espiritual da Igreja. Mais: é necessário um empenhamento pessoal na formação, quer na preparação para a consagração, quer para a sustentabilidade, incremento e aperfeiçoamento do estilo de vida e atividade inerente a este estado eclesial – o que implica o desejo pessoal de aprendizagem e a docilidade atitudinal ao Espírito e seus adjuvantes espirituais e formativos, sempre num sentido de compromisso pessoal e de inserção num dinamismo de comunhão.
A candidata à consagração deve saber dos requisitos de admissibilidade, sobressaindo: a maturidade humana e espiritual; e o propósito de não contrair matrimónio nem de viver em situação contrária a castidade. No âmbito da experiência espiritual, relevam: a relação pessoal com Cristo e o desejo de configuração da vida com Ele numa atitude de oblação sem reservas; o sentido de pertença à Igreja; o cuidado da dimensão contemplativa; a assiduidade do caminho penitencial, ascético e espiritual; o interesse pela Sagrada Escritura, conteúdos da fé, liturgia, e história e magistério da Igreja; a paixão pelo Reino de Deus; e a intuição da própria vocação. No âmbito da maturidade, importam: o conhecimento de si mesma; a capacidade de integrar relações sadias; a integração da sexualidade no quadro global da personalidade; a fidelidade à palavra dada; a capacidade de trabalho; a resistência ao sofrimento e às contrariedades; e o uso responsável dos bens, dos meios de comunicação social e do tempo.
A admissão à consagração é decidida após o período de formação prévio, a juízo do Bispo, decorrerá conforme as indicações do Pontifical e será documentada pela inscrição num registo do Ordo virginum. E deve continuar o interesse pela formação mediante o empenho pessoal, a dimensão comunitária, o estabelecimento de programas formativos e o recurso a peritos.
***
Por fim, vem a “Conclusão” em que se reitera o acolhimento pela Igreja do dom da virgindade consagrada sob a égide de Maria – estrela e protetora das virgens – e se declara:
Precedidas e sustentadas pela graça de Deus, estas mulheres são chamadas a viver em docilidade em docilidade ao Espírito Santo, a experimentar o dinamismo transformante da Palavra de Deus que faz de tantas mulheres diferentes uma comunhão de irmãs, e anunciar o Evangelho da salvação com a palavra e a vida, para chegar a ser imagem da Igreja Esposa que, vivendo unicamente para Cristo Esposo, o torna presente no mundo”.
E assim se incrementa um poderoso e fecundo modo de florescimento da Igreja!
2018.07.05 – Louro de Carvalho