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sexta-feira, 10 de janeiro de 2020

A esperança, para os cristãos, é uma virtude fundamental


Disse-o o Papa ao Corpo Diplomático acreditado junto da Santa Sé aquando das felicitações de ano novo, a 9 de janeiro, querendo que a esperança anime “o olhar com que sondamos o tempo que está diante de nós”, embora com o realismo que se exige.
Tal realismo implica a consciência dos problemas e desafios, a sua nomeação sem hipocrisia e a noção dos sinais e feridas das guerras que assolam a humanidade que se corporizam na “intensificação de tensões e violências”. Não obstante, impõe-se a coragem da espera ativa e o esforço incessante pela “pacífica convivência entre os povos”.
E, considerando que “a paz e o desenvolvimento humano integral são o objetivo principal da Santa Sé no campo do seu empenho diplomático”, Francisco fez a retrospetiva dos atos de 2019 salientando os acordos com Estados, as viagens apostólicas e as cimeiras – o que tem posto em evidência “realidades significativas” e “algumas questões problemáticas do nosso tempo”.
A par da satisfação por encontrar tantos jovens na XXXIV JMJ, vincou o drama dos adultos, incluindo clérigos, “responsáveis de delitos gravíssimos contra a dignidade dos jovens, crianças e adolescentes, violando a sua inocência e intimidade”, a que tentou obviar com a cimeira com os representantes do episcopado de todo o mundo e em razão do que pretende promover “um evento mundial a 14 de maio, com o tema Reconstruir o pacto educativo global, visando “reavivar o compromisso em prol e com as gerações jovens, renovando a paixão por uma educação mais aberta e inclusiva, capaz de escuta paciente, diálogo construtivo e mútua compreensão”. Depois, o Pontífice frisou o modo como muitos jovens estão a empenhar-se por “sensibilizar os líderes políticos para a questão das alterações climáticas”, pois “o cuidado da nossa casa comum deve ser uma preocupação de todos, e não objeto de contraposição ideológica entre diferentes visões da realidade e, menos ainda, entre as gerações”, pois “no contacto com a natureza, como recordava Bento XVI, a pessoa reencontra a sua justa dimensão, redescobre-se criatura, pequena, mas ao mesmo tempo única, ‘capaz de Deus’, porque interiormente aberta ao Infinito”, pelo que “a salvaguarda do lugar que nos foi dado pelo Criador para viver não pode ser negligenciada nem reduzida a uma problemática de elite”.
E referiu a XXV Sessão da Conferência dos Estados Parceiros da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (COP25), de se Madrid, como “um sério toque de alarme sobre a vontade que tem a Comunidade Internacional de enfrentar, com sabedoria e eficácia, o fenómeno do aquecimento global, que requer uma resposta coletiva, capaz de fazer prevalecer o bem comum sobre os interesses particulares”.
Considerou que o Sínodo para a Amazónia – um evento essencialmente eclesial, motivado pela vontade da escuta das esperanças e desafios da Igreja na Amazónia e da abertura de novos caminhos para o anúncio do Evangelho ao Povo de Deus, especialmente às populações indígenas – também teve necessariamente em conta as questões da ecologia integral, bem como a constatação da multiplicação de crises políticas num número crescente de países do continente americano, “com tensões e insólitas formas de violência que agravam os conflitos sociais e geram graves consequências socioeconómicas e humanitárias” como, aliás, em todo o planeta.
Relevou a assinatura conjunta com o Grande Imã de Al-Azhar, Ahmad al-Tayyeb, em Abu Dhabi, do Documento sobre a Fraternidade Humana em prol da paz mundial e da convivência comum, bem como a assinatura conjunta com o Rei Mohammed VI do Apelo sobre Jerusalém, “reconhecendo a singularidade e sacralidade de Jerusalém / Al Qods Acharif e tendo a peito o seu significado espiritual e a sua vocação peculiar de Cidade da Paz”.
Na evocação das crises de guerra e refugiados do Médio Oriente, da grande Ásia e da África, salientou “a recrudescência da tensão entre o Irão e os Estados Unidos que se arrisca, antes de tudo, a colocar a dura prova o lento processo de reconstrução do Iraque, bem como a criar as bases dum conflito de mais vasta escala que todos quereríamos poder esconjurar”. E não deixou de apelar, em termos europeus, ao diálogo e ao respeito da “legalidade internacional para resolver os ‘conflitos congelados’ que persistem no continente, alguns deles há já decénios”.
Recordou que, em 1949, na Europa ocidental, com a criação do Conselho da Europa e sucessiva adoção da Convenção Europeia dos Direitos do Homem, se lançaram “as bases do processo de integração europeia, que encontraram um pilar fundamental na Declaração de 9 de maio de 1950 do Ministro francês dos Negócios Estrangeiros de então, Robert Schuman”. E fez votos por que “a Europa não perca o sentido de solidariedade que, há séculos, a carateriza”, nem perca aquele espírito, “cujas raízes brotam, para além do mais, da pietas romana e da caritas cristã, que descrevem bem a alma dos povos europeus”.
Disse que o 30.º aniversário da queda do Muro de Berlim nos mostra “um dos símbolos mais dilacerantes da história recente do continente, lembrando-nos como é fácil erguer barreiras”.
Porém, o Papa sublinhou a evidência dos sinais de paz e reconciliação que pôde ver na viagem à África “a começar pelos renovados progressos realizados em Moçambique, com a assinatura do Acordo para a cessação definitiva das hostilidades no dia 1 de agosto passado”, com a possibilidade da construção da segurança em Madagáscar e com a junção das várias religiões, nas Ilhas Maurícias, a contribuir “para a paz social” e a recordar “o valor transcendente da vida contra todo o tipo de reducionismo”.
Evocou o recente início do trabalho do Painel de Alto Nível das Nações Unidas sobre Deslocamentos Internos, que espera “possa favorecer a atenção e o apoio global aos deslocados, formulando recomendações concretas”, almejando que os países em conflito interno enveredem pela via da paz e da prosperidade, do crescimento democrático e económico. E disse esperar ir este ano ao Sudão.
Da visita ao Japão inferiu que é possível e desejável “um mundo sem armas nucleares” devendo tornar-se disto cientes “quantos têm responsabilidades políticas, porque não é a posse dissuasora de poderosos meios de destruição de massa que torna o mundo mais seguro, mas o trabalho paciente de todas as pessoas de boa vontade que se dedicam concretamente, cada uma na sua própria área, a construir um mundo de paz, solidariedade e respeito mútuo”.
Referiu que 2020 oferece uma oportunidade importante neste sentido, porque, de 27 de abril a 22 de maio, se realizará em Nova Iorque a X Conferência de Revisão do Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares.
E dirigiu uma palavra de conforto a um país que ainda não visitou, a Austrália, “duramente flagelada nos últimos meses por persistentes incêndios, cujos efeitos se fizeram sentir também noutras regiões da Oceânia, certificando da sua proximidade e oração o povo australiano, em especial as vítimas, e quantos vivem nas regiões atingidas pelos fogos.
Falando da comemoração, neste ano, do 75º aniversário de fundação das Nações Unidas, disse:
Na sequência das tragédias experimentadas nas duas Guerras Mundiais, 46 países deram vida – com a Carta das Nações Unidas, assinada em 26 de junho de 1945 – a uma nova forma de colaboração multilateral. As quatro finalidades da Organização, delineadas no artigo 1.º da Carta, permanecem válidas ainda hoje e podemos dizer que o serviço das Nações Unidas nestes 75 anos foi, em grande parte, um sucesso, especialmente para evitar outra guerra mundial.”.
E considerou que “os princípios fundantes da Organização (o desejo de paz, a busca da justiça, o respeito pela dignidade da pessoa, a cooperação humanitária e a assistência) traduzem as justas aspirações do espírito humano e constituem os ideais que deveriam guiar as relações internacionais”. Por isso, entende que temos de reafirmar “o propósito de toda a família humana trabalhar pelo bem comum, como critério de orientação da ação moral e perspetiva que deve comprometer cada país a colaborar para garantir a existência e a segurança na paz de cada um dos outros Estados, num espírito de igual dignidade e efetiva solidariedade, no contexto dum ordenamento jurídico baseado na justiça e na busca de compromissos équos”.
Por fim, mencionou mais duas efemérides. A primeira é o V centenário da morte de Rafael Sanzio, de Urbino, que morreu em Roma a 6 de abril de 1520 e a quem devemos “um enorme património de beleza inestimável”, pois este filho do Renascimento – época, não isenta de dificuldades, mas animada pela confiança e a esperança, que enriqueceu toda a humanidade – ensina-nos que, “tal como o génio do artista sabe compor de maneira harmoniosa materiais toscos, cores e sons diferentes, tornando-os parte duma única obra de arte, assim também a diplomacia é chamada a harmonizar as peculiaridades dos vários povos e Estados para construir um mundo de justiça e paz, que é o belo quadro que gostaríamos de poder admirar”.
E, como um dos temas preferidos da pintura de Rafael era Maria, a quem dedicou numerosas pinturas, que hoje se podem admirar em vários museus do mundo, o Santo Padre encontrou espaço para evocar para este ano o LXX aniversário da proclamação dogmática da Assunção da Virgem Maria ao Céu (1 de novembro de 1950), o que lhe deu ensejo de “dirigir uma saudação particular a todas as mulheres, 25 anos depois da IV Conferência Mundial das Nações Unidas sobre a Mulher, realizada em Pequim no ano de 1995, com votos de que em todo o mundo se reconheça cada vez mais o precioso papel das mulheres na sociedade e cessem todas as formas de injustiça, desigualdade e violência contra elas”. E, a propósito, disse:
Toda a violência infligida à mulher é profanação de Deus. A violência exercida contra uma mulher ou a sua exploração não é um simples reato; é um crime que destrói a harmonia, a poesia e a beleza que Deus quis dar ao mundo.”.
Depois, falou aos diplomatas sobre a Assunção de Maria e as implicações da sua glorificação celeste para a esperança de paz e para a boa diplomacia com vista à sã convivência, vincando:
A Assunção de Maria convida-nos a olhar ainda mais além, para a conclusão do nosso caminho terreno, para o dia em que serão totalmente restabelecidas a justiça e a paz. Deste modo sentimo-nos encorajados – através da diplomacia, que é a nossa tentativa humana, imperfeita, mas sempre preciosa – a trabalhar zelosamente para antecipar os frutos deste desejo de paz, sabendo que a meta é possível.
***
Em suma, toda a atividade papal e da Santa Sé, incluindo a diplomacia e as artes, radica na missão da Igreja de estabelecer pontes de diálogo com vista à construção da paz e da edificação do Reino de Deus como consequência do anúncio da Boa Nova que é mister dos discípulos de Cristo. Se o Evangelho é anúncio da salvação aos homens, a diplomacia do diálogo e das boas relações entre os povos tem em vista a sã convivência e a arte manifesta a beleza de Deus que o artífice vê na natureza, no ser humano e nos espíritos angélicos e em tudo o que atinge Deus e as suas criaturas – tudo no horizonte do Reino que há de vir e que já está entre nós como semente que germina e cresce por todo o lado e que apela à nossa paciência e persistência. E, enquanto a esperança teologal gera a espera jubilosa, a esperança humana augura um futuro de equidade.  
2020.01.10 – Louro de Carvalho

sábado, 28 de setembro de 2019

Na semana do futuro, a terceira greve climática


De acordo com a Sky News, no dia 27 de setembro, em cerca de 170 países organizaram-se mais de seis mil eventos através das redes sociais, culminando uma semana de mobilização global pelas alterações climáticas.
A iniciativa global já não é de agora e partiu da adolescente sueca Greta Thunberg, de 16 anos, que se tornou a ativista de referência na luta contra as alterações climáticas, desafiando os decisores políticos de todo o mundo. Ficou conhecida por ter incentivado todos os estudantes a fazerem greve às “sextas-feiras, pelo futuro”, denunciando a inércia dos políticos nacionais e internacionais perante as alterações climáticas. “Eu não quero a vossa esperança. Eu não quero que sejam esperançosos. Eu quero que vós entreis em pânico”, dizia Greta, perante líderes mundiais reunidos em Davos, no Fórum Económico Mundial, em janeiro deste ano.
Segundo os observadores, o furacão Greta Thunberg começa a ter efeitos: milhões de pessoas, na sua maioria, jovens e estudantes, foram arrastadas e estiveram, a 27 de setembro, em greve pelo clima em todo o mundo, com milhares de iniciativas, e deram, assim, sequência a um movimento inspirado por aquela ativista sueca, que se tornou o rosto desta luta.
Estas manifestações culminaram uma semana de mobilização global pelas alterações climáticas que arrancou, no dia 23, com a Cimeira do Clima da ONU, convocada por António Guterres. Então a ativista, num discurso emocionado em que apontou o dedo aos governantes, clamou:
Aqui e agora é onde dizemos que basta. O mundo está a acordar. E a mudança está a chegar, quer gostem ou não.”.
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Porém, o dia 27 é só um dos dias da greve climática de setembro de 2019, também conhecida como Semana Global do Futuro, que se concretizou numa série de paralisações e protestos internacionais protagonizados por jovens e adultos para exigir que sejam tomadas medidas para combater as mudanças climáticas. As greves ocorreram entre 20 de setembro, três dias antes da cimeira climática das Nações Unidas, e 27 de setembro, termo da Semana Global do Futuro. Os protestos começaram a ocorrer em 4.500 locais em 150 países. O evento fez parte da greve escolar pelo movimento climático, inspirado pela ativista Greta Thunberg, referida.  
Os protestos de 20 de setembro foram provavelmente as maiores greves climáticas da história mundial, pois os organizadores relataram que mais de 4 milhões de pessoas participaram das greves em todo o mundo, incluindo 1,4 milhões de participantes na Alemanha. Estima-se que 300.000 manifestantes participaram em greves na Austrália, que outras 300.000 pessoas se juntaram a protestos no Reino Unido, que manifestantes em Nova Iorque – onde Greta Thunberg fez um discurso – totalizaram aproximadamente 250.000 e que mais de 2.000 cientistas em 40 países se comprometeram a apoiar as greves.
Uma segunda onda de protestos ocorreu em 27 de setembro, com mais de 2.400 protestos planeados. Foram relatados números: 1 milhão de manifestantes na Itália; e 170.000 pessoas na Nova Zelândia. No Canadá, onde Greta Thunberg falou, o conselho escolar de Montreal cancelou as aulas para os seus 114.000 alunos.
Esta é a terceira das greves escolares pelo movimento climático. A primeira greve, em março de 2019, teve 1,6 milhões de participantes de mais de 125 países. A segunda, de maio de 2019, foi marcada para coincidir com a eleição do Parlamento Europeu para o quinquénio de 2019-2024, consistindo em mais de 1.600 eventos em 125 países. A terceira ocorreu entre 20 e 27 de setembro. Foram programadas para durante as cimeiras das Nações Unidas: Cimeira do Clima para a Juventude (21 de setembro) e Cimeira da Ação Climática (23 de setembro). E 27 de setembro é também o aniversário da publicação de “Silente Spring”, um livro de 1962 que foi fundamental para iniciar o movimento ambientalista.
A 20 de setembro, no Brasil, nomeadamente no Rio de Janeiro, São Paulo, Belo Horizonte, Fortaleza, Maceió, Recife, São Luís e São Salvador, ocorreram diversas manifestações em que as pessoas protestaram contra os incêndios na Amazónia, contra as indústrias poluentes (termoelétricas), contra as mudanças climáticas e para que todos ajudem a “salvar o planeta”.
Centenas de estudantes na capital portuguesa de Lisboa protestaram para uma demanda do Governo por medidas ambientais, incluindo o encerramento de centrais de carvão e gás no país, além de várias outras questões sobre o meio ambiente em Portugal.
Os principais protestos ocorreram nos Estados Unidos, nomeadamente em Nova Iorque (onde se realizou a Cimeira do Clima da ONU) e em Washington, DC, a capital. Mas também houve protestos em dezenas de outros países. Na Austrália, cerca de 300 mil pessoas foram às ruas em mais de 100 cidades; em Londres (Inglaterra), o número foi de 100 mil pessoas. Na Alemanha, cerca de 1,4 milhões de pessoas compareceram nos protestos. Milhares e milhares de pessoas também foram às ruas em África do Sul, Bolívia, Dinamarca, Países Baixos, Oceânia, Índia, Noruega, Polónia, Lituânia, Ucrânia e em diversos outros países.
Alguns meios de comunicação previram que a greve fosse o maior protesto climático da história mundial, sendo que, posteriormente, os organizadores relataram que mais de 4 milhões de pessoas participaram nas ações de greve em todo o mundo, confirmando assim as expectativas.
E em 27 de setembro, foram planeados e realizados mais de 6.000 protestos em todo o mundo. Os principais protestos, como se referiu acima, ocorreram na Itália, onde houve mais de 1 milhão de manifestantes nas ruas, e na Nova Zelândia, onde houve mais de 170.000 pessoas a protestar. E, no Canadá, onde Greta Thunger falou, o conselho escolar de Montreal cancelou as aulas para os seus 114.000 alunos.
O líder espiritual, Dalai-Lama, publicou uma mensagem no Twitter a apoiar as manifestações:
Esta é provavelmente a geração mais jovem que tem sérias preocupações com a crise climática e seus efeitos no meio ambiente. Eles estão a ser muito realistas sobre o futuro. Eles veem que precisamos ouvir os cientistas. Nós devemos encorajá-los.” – afirmou.
O ator australiano Chris Hemsworth publicou um vídeo no Instagram em que aparece no meio da manifestação. E escreveu:
A crise climática está sobre nós. As crianças entendem a ciência básica de que, se continuarmos a poluir o planeta, as mudanças climáticas piorarão e elas não terão futuro.” – escreveu o ator.
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Na Nova Zelândia, o número de manifestantes atingiu valores recorde. Para os organizadores da greve pelo clima neste país, que citam “fonte credíveis”, foram mais de 170 mil as pessoas a aderir – o que significa que mais de 3,5% dos neozelandeses saíram à rua.
Na manhã do dia 27, uma carta assinada por 11 mil neozelandeses já tinha sido entregue no Parlamento a pedir que o Governo declarasse emergência climática. E Raven Maeder, coordenadora do School Strike 4 Climate, na Nova Zelândia, disse ao The Guardian:
Os nossos representantes precisam de nos mostrar medidas significativas e imediatas que salvaguardem o nosso futuro neste planeta”.
E acrescentou:
Nada mais importará se não pudermos cuidar da Terra para as gerações atuais e futuras. Esta é a nossa casa.”.
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Entretanto, a jovem ativista do clima Greta Thunberg e o líder yanomami Davi Kopenawa estão entre os 4 ganhadores, anunciados, no passado dia 25, do prémio Right Livelihood 2019, uma prémio sueco alternativo ao Nobel. Thunberg conquistou o prémio “por inspirar e ampliar as demandas políticas por urgente ação climática que reflete factos científicos”, informou a Fundação Right Livelihood em comunicado.
No dia 23, a jovem sueca acusou os líderes mundiais por não terem enfrentado as mudanças climáticas, num discurso no início da Cimeira do Clima da Organização das Nações Unidas (ONU) em Nova Iorque.
Thunberg iniciara solitários protestos semanais do lado de fora do Parlamento da Suécia há um ano. Inspirados por ela, no dia 27, milhões de jovens foram às ruas em todo o mundo a pedir que os governos presentes na cimeira tenham atitudes emergenciais.
E a conquista de Kopenawa deve-se à sua “corajosa determinação em proteger as florestas e a biodiversidade da Amazónia, e as terras e a cultura de seus povos indígenas”, segundo a fundação. O líder indígena, fundador e presidente da Hutukara Associação Yanomami, em Roraima, denuncia o garimpo ilegal nas terras da sua tribo.
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Portugal juntou-se, no dia 27, ao movimento global pelo clima lançado pela predita adolescente sueca. Desencadearam-se múltiplas iniciativas associadas a uma greve geral às aulas, ao trabalho e ao consumo, na tentativa de envolver a sociedade na defesa do planeta, incentivada pelos jovens. Alunos e professores trocaram  as aulas por atividades planeadas em dezenas de municípios e para participarem nas manifestações previstas para a tarde. Três sindicatos, entre os quais dois do setor da educação (Fenprof e STOP) entregaram pré-avisos de greve para efeitos da participação dos docentes.
Marcada paras as 15 horas, a concentração no largo lisboeta do Cais do Sodré contou com milhares de pessoas de todas e idades e variadas nacionalidades, que protestaram contra as “políticas falhadas” dos decisores políticos, como explicou à agência Lusa Sinan Eden, um dos responsáveis pela organização do evento. “Nós somos o plano B”, declarou à agência Lusa, durante a manifestação cujo slogan mais proclamado é “não há planeta B”.
Ao invés das últimas duas greves que se realizaram em Portugal no passado ano letivo, esta aconteceu poucos dias depois de ter arrancado o começo das aulas, o que dificultou a mobilização de estudantes, explicou Sinan Eden. Apesar disso, os jovens foram a maioria no protesto em Lisboa, que arrancou cerca das 15,30 horas e que teve como destino final o Rossio, num cortejo que juntou jovens de várias idades, idosos, várias famílias, grupos de amigos, pais e filhos – mais de 20 mil pessoas (na capital) – no encerramento da Semana Global pelo Clima. Em paralelo, centenas de pessoas juntaram-se no Campus de Benfica do IPL (Instituto Politécnico de Lisboa), na Praça da Saúde da ESTeSL e no Campus do ISEL. Em comunicado, o IPL referiu com notório orgulho:
Uma manifestação massiva da comunidade do Politécnico de Lisboa que deu provas do empenho da instituição para com questões das alterações climáticas, associando-se ao movimento #climatestrike”.
Na verdade, unidos pelo clima, professores, alunos e pessoal não docente juntaram-se 11 minutos num gesto simbólico.
Em Coimbra, a manifestação realizou-se da Praça Dom Dinis para a Câmara Municipal e em Ponta Delgada, o protesto realizou-se nas Portas da Cidade. Cerca de 30 localidades em Portugal aderiram a esta semana de ação global pelo clima, de Arcos de Valdevez a Lagos, passando por Viana do Castelo, Porto, Aveiro, Setúbal e Sines. E mais de 4 milhões de pessoas desfilaram pelo mundo, em milhares de iniciativas, dando sequência ao movimento de Greta.
Eu não quero viver nas cinzas. Quero ter um futuro. Quero ser professora e para isso preciso de ter alunos.” – diz Catarina Alpoim, lisboeta de 27 anos, que estuda Belas Artes e que foi uma entre milhares de pessoas que pedem aos políticos que ponham o ambiente nas suas agendas.
Na véspera, viu um documentário sobre a extinção de corais, depois lembrou-se do incêndio que fustigou milhares de hectares na Amazónia, Brasil, e decidiu fazer a caminhada pelo ambiente.
O ambiente não tem preço. Quero o mundo que mereço.” – pedem os manifestantes. Querem garantir a neutralidade de carbono até 2030, exigem o encerramento das centrais de carvão na próxima legislatura e o fim dos projetos que aumentem as emissões a nível nacional, como o aeroporto do Montijo. No manifesto, publicado na página oficial do movimento, reivindicam também a reforma da floresta e da agronomia, bem como a gratuitidade dos transportes públicos. Os principais visados são os políticos. Pede-se-lhes que tomem medidas concretas, “menos conversa e mais ação”. “O clima a aquecer e os políticos estão a ver”, acusam.
Bianca Castro, uma das organizadoras da manifestação, conclui:
Finalmente, conseguimos fazer a primeira greve global em Portugal e está a correr muito bem: temos o apoio dos mais velhos, estamos empenhados e há três sindicatos que estão do nosso lado”.
A principal diferença entre este protesto e os anteriores é que, desta vez, não são só os jovens quem desfilou entre o Cais do Sodré e o Rossio, em Lisboa: havia gente de todas as idades, apesar de os mais novos continuarem em maioria. A manifestação contou com o apoio de mais de 50 organizações, como a Zero ou a Amnistia Internacional, e foi aceite por três sindicatos, que entregaram pré-avisos de greve: a Fenprof (Federação Nacional dos Professores), o STOP (Sindicato de Todos os Professores) e o STSSSS (Sindicato dos Trabalhadores da Saúde, Solidariedade e Segurança Social). Pedro Neto, diretor da Amnistia Internacional em Portugal, disse ao DN:
Defender o planeta é como o artigo 0 da Declaração Universal dos Direitos Humanos e, por isso, temos de estar todos juntos nesta luta”.
Lucília Sutil, docente de Ciências Naturais da Escola IBN Mucana, em Cascais, trouxe duas turmas de nono ano à manifestação: “Eles pediram. Só diziam que queriam muito vir e não fazia sentido não os trazer: é isto que ensinamos na escola” – justificou.
Na capital, enquanto decorria a manifestação, a Extinction Rebellion Portugal – um movimento internacional que chegou a Portugal há um ano – juntou-se à Greve Climática Global através de um bloqueio na avenida Almirante Reis, marcado para as 17 horas. Às 20 horas estava ainda prevista uma vigília que partia do Príncipe Real para chegar à Assembleia da República. Era para lá que se encaminhavam muitos dos que participaram na manifestação. Outros propunham-se rever o caminho que fizeram em sentido contrário – Rossio para o Cais do Sodré – para recolha do lixo que encontrassem pelo caminho, “porque isto é uma manifestação pelo ambiente”. Houve quem optasse por sentar-se no chão da praça do Rossio para uma sessão de meditação em honra da Terra. E a PSP teve de retirar jovens que persistiam em permanecer em frente da sede do Banco de Portugal.
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Esta foi a terceira greve climática deste ano. Também em Portugal a primeira paralisação em defesa do ambiente aconteceu em março e contou com a presença de cerca de 20 mil jovens a lembrar que “não há planeta B”. Em maio, dois dias após as eleições europeias, os estudantes voltaram a trocar as salas de aula pela rua em nome do combate às alterações climáticas – um protesto que se estendeu por mais de uma centena de países. Só em Lisboa, em frente ao Parlamento, estiveram mais de 5.000, apoiados por associações ambientalistas como a Zero.
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Há, no entanto, que advertir que nem tudo depende do homem, que, diga-se a verdade, se descuidou e, na mira de grandes lucros e na ânsia desenfreada do progresso, estragou o planeta com aval de cientistas, que garantem a validade das escolhas (a ciência tem de considerar as diversas variáveise políticos, que decidem supostamente em nome do bem comum.
Assim, a subida do nível do mar não resulta apenas do aquecimento global, mas também do movimento das placas tectónicas, ventos, ondas, ciclo lunar, fenómenos de agradação (formação de praias) e de degradação (das costas).
O aquecimento não é só da responsabilidade do homem, mas também do Sol. Por outro lado, os ciclos lunares, interferindo com a gravitação da Terra, por vezes “puxam” os oceanos e estimulam as correntes marinhas quentes e frias, que afetam os climas locais e o clima global.
É preciso não esquecer o impacto nos microclimas e nos climas locais por parte dos incêndios (muitos, mas nem todos, por culpa do homem), derrocadas, inundações (estas habitualmente sem culpa do homem), tempestades, e indústrias (estas, sim, obra do homem, mas algumas tornaram-se necessárias).
O derretimento glacial resulta não apenas do aquecimento, mas também das ondas marítimas quentes provindas do sul que, entrando no Ártico, aquecem as águas profundas e descongelam a infraestrutura dos icebergues.
Há quem preveja que, a seguir a esta onda de aquecimento global, venha uma onda de arrefecimento até 2035.
E as chuvas, embora possam ser influenciadas pela vegetação existente aqui e ali, são fundamentalmente fenómenos cíclicos de variação da temperatura dos oceanos que originam precipitação nos continentes, não dependendo propriamente do aquecimento global.
Enfim, apesar de nem tudo o que de mau se passa na Terra ser culpa homem, este não pode deixar de fazer tudo o que pode e deve para evitar as catástrofes ambientais, mas também sem fundamentalismos e excessos, como, por exemplo, eliminar drasticamente o consumo de carne de certos animais. Não é por ser uma universidade a decretar a ausência de carne de vaca nas ementas estudantis que a medida tem suporte e justificação científicos. Quando não, para levarmos tudo às últimas consequências, proibíamos as pessoas de respirar para não se poluir o ambiente com a emissão de CO2, que, diga-se, também é necessário para a vida na Terra (sem ele as plantas não realizam a fotossíntese).
Por isso, ativismo, sim, mas fundamentalismo, não!
2019.09.28 – Louro de Carvalho  

sábado, 21 de abril de 2018

Dia Mundial da Terra 2018: clamor da Terra e clamor dos pobres


Todos os anos se celebra o Dia Mundial da Terra22 de abril. E cada vez mais há razão para celebrar a efeméride: são tantos os transtornos por que passa o planeta – desde os cataclismos naturais aos provocados pela força humana. Quanto de terrestre não se degrada e destrói com as guerras, com um “ordenamento” do território desregrado, a exploração desenfreada de recursos, o entupimento com lixos tóxicos e plásticos não biodegradáveis e contaminação de águas, ar e solos com pesticidas, herbicidas, fungicidas, dendricidas, o abuso de antibióticos…!
Investigadores e associações ambientalistas alertam para o perigo e consequências do aquecimento global da Terra, nomeadamente: aumento da temperatura global da Terra; extinção de espécies animais; aumento do nível dos oceanos; escassez de água potável; e maior número de catástrofes naturais, como tempestades, secas e ondas de calor.
A data foi criada em 1970, pelo senador norte-americano Gaylord Nelson, que resolveu realizar um protesto contra a poluição da Terra, depois de verificar as consequências do desastre petrolífero de Santa Barbara, na Califórnia, ocorrido em 1969.
Inspirado pelos protestos dos jovens norte-americanos que contestavam a guerra, Gaylord Nelson, envidou esforços para conseguir colocar o tema da preservação da Terra na agenda política norte-americana.
A população aderiu em força à manifestação e mais de 20 milhões de americanos manifestaram-se a favor da preservação da terra e do ambiente.
Todos os anos, no dia 22 de abril, milhões de cidadãos em todo o mundo manifestam o seu compromisso com a preservação do ambiente e da sustentabilidade da Terra. Neste dia de cariz educativo, ou a propósito deste dia, escrevem-se frases e poemas sobre a importância do planeta Terra nas escolas e em grupos de reflexão, entre outras atividades.
É possível juntar-se a atividades existentes, criar eventos próprios, por exemplo, doar dinheiro ou tomar simples atos como plantar uma árvore ou separar os lixos.
O Dia Mundial da Terra conta já com mais de mil milhões de atos realizados em prol do ambiente ao longo da história. É o maior dia do ano para o planeta Terra, desejando que todos os habitantes do mundo realizem algum ato que o proteja. Este ato será uma espécie de semente para regar durante o resto do ano.
Assim, para o ano de 2017, o tema das atividades foi “Instrução ambiental e climática” (Environmental and Climate Literacy).
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Em 12 de abril de 1961, o jovem cosmonauta russo Yuri Gagarin (1934-1968), a bordo da nave Vostok-1, o primeiro humano a viajar pelo Espaço (numa missão, uma volta em torno da Terra numa órbita a 315 km de altitude, durou 1 hora e 48 minutos) comentou, fascinado: “A Terra é azul!”.
A partir dessa primeira missão espacial, muitas outras se têm sucedido. Em 1990, a pedido do astrofísico e escritor Carl Sagan, a sonda Voyager 1 foi programada para obter várias fotografias do Sistema Solar. Uma delas mostra a Terra vista à distância de 6 mil milhões de km (vd em http://www.ecocidades.com/2011/01/09/palido-ponto-azul-nossa-casano-espaco/).
A propósito da referida foto Carl Sagan escreveu:
A Terra é um palco muito pequeno em uma imensa arena cósmica. [...] é um espécime solitário na grande e envolvente escuridão cósmica [...]  um pálido ponto azul. [...] Gostemos ou não, por enquanto, a Terra é o único lugar onde podemos viver [...].”.
Para lá de ser o nosso lar, o nosso planeta é extremamente belo. Quem nunca se extasiou perante a beleza de um pôr do sol? A este respeito, Antoine de Saint-Exupéry escreve em “O Principezinho”:
Gosto muito do pôr do sol. Vamos ver um... Um dia eu vi o pôr do sol quarenta e três vezes!”.
Para além da beleza do pôr do sol, do arco-íris, do céu, dos glaciares, temos uma natureza pródiga na sua diversidade animal, vegetal e mineral, em montes e planícies, em rios e mares... Somos uns privilegiados. Por isso, não podemos alijar a nossa grande responsabilidade de preservar e estimar o único lar que conhecemos, este pálido ponto azul.
Assim, em 2009, a ONU reconheceu a iniciativa tomada, a 22 de abril de 1970, pelo senador norte-americano Gaylord Nelson, e instituiu este como o Dia Internacional da Terra.
O objetivo principal deste dia é consciencializar todas as pessoas e todos os povos sobre a importância e a necessidade de conservar os recursos naturais do planeta e defender a harmonia entre todos os seres vivos. Só assim será possível assegurar às gerações presentes e futuras qualidade de vida ambiental, social, económica, cultural, estética.
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Das atividades sugeridas para a efeméride, destaco:
- As do programa do MUHNAC (Museus da Universidade de Lisboa) preparadas para toda a família: À Descoberta dos Animais”, 11,30 horas (diversidade animal nativa do nosso país e importância da sua conservação – atividade na Sala da Baleia); “Praças, Jardins e Água”, 15 horas (história associada à água e jardins na sétima colina: com início no átrio do MUHNAC para abordagem à história do Jardim Botânico de Lisboa, continua no jardim do Príncipe Real para entrada na galeria subterrânea do Loreto – Museu da Água – e término no Jardim de São Pedro de Alcântara); Compreender a Terra para compreender a Vida”, 16,30 horas (para explorar a exposição “Aventura da Terra: um planeta em evolução”, refletir sobre as evoluções do planeta e da Vida e compreender como a Terra, enquanto sistema, condiciona a forma como se vive o dia a dia).
Em parceria com o Museu de São-Roque, ainda no dia 22 de abril é realizada a atividade “Se eu fosse… Paleontólogo” – uma expedição que parte do Museu Nacional de História Natural e da Ciência, em busca de fósseis, com destino ao Convento de São Pedro de Alcântara e à Igreja de São Roque. Munidos de cadernos de campo, lápis, réguas, os visitantes registarão os vestígios de seres de outros tempos, presentes nas paredes à sua volta ou no chão que pisam.
- Do “catholic climate movement”, a propor que, neste Dia Mundial da Terra, ergamos juntos as nossas vozes, pois estamos unidos no enorme esforço global para pedir que as nossas dioceses reduzam a emissão de gases de efeito estufa, participando numa missa pela criação e, após a missa, escrevendo cartas para a respetiva diocese com o objetivo de incentivar a diocese a colocar a Doutrina da Igreja em prática pela redução da sua própria emissão de gases de efeito estufa, podendo mesmo criar uma comissão/pastoral dedicada ao cuidado da criação.
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Com efeito, os últimos Sumos Pontífices chamam a atenção para o cuidado do planeta. Assim, João Paulo II fala da crise ecológica como um problema moral:
Alguns elementos da crise ecológica atual revelam de maneira evidente o seu caráter moral. Entre esses elementos tem de se enumerar, em primeiro lugar, a aplicação sem discernimento dos progressos científicos e tecnológicos. Muitas descobertas recentes têm trazido inegavelmente benefícios para a humanidade; mais ainda, elas manifestam quanto é nobre a vocação do homem para participar de modo responsável na ação criadora de Deus no mundo. Já se verificou, porém, que a aplicação de algumas dessas descobertas no campo industrial e agrícola, a longo prazo produzem efeitos negativos. Isto pôs cruamente em evidência que toda e qualquer intervenção numa área determinada do’ ecossistema’ não pode prescindir da considerarão das suas consequências noutras áreas e, em geral, das consequências no bem-estar das futuras gerações.
O gradual esgotamento do estrato do ozónio e o consequente ‘efeito de estufa’ que ele provoca já atingiram dimensões críticas, por causa da crescente difusão das indústrias, das grandes concentrações urbanas e dos consumos de energia. Escórias industriais, gases produzidos pela combustão de carburantes fósseis, desflorestação imoderada, uso de alguns tipos de herbicidas, refrigerantes e propelentes, tudo isto, como se sabe, é nocivo para a atmosfera e para o ambiente. Daí resultam múltiplas mudanças meteorológicas e atmosféricas, cujos efeitos vão desde os prejuízos para a saúde até à possível submersão, no futuro, de terras baixas.
Enquanto nalguns casos a danificação já é talvez irreversível, em muitos outros casos ela pode ser ainda entravada. É um dever, portanto, que se impõe à inteira família humana – indivíduos, Estados e Organismos internacionais – assumir cada um seriamente as próprias responsabilidades (Mensagem para o Dia Mundial da Paz, n.º 6 – 1990).
Por seu turno, Bento XVI escrevia sobre a moralidade das decisões económicas e ambientais:
Temos de constatar que um grande número de pessoas, em vários países e regiões da terra, experimenta dificuldades cada vez maiores, porque muitos se descuidam ou se recusam a exercer sobre o ambiente um governo responsável. O Concílio Ecuménico Vaticano II lembrou que ‘Deus destinou a terra com tudo o que ela contém para uso de todos os homens e povos’. Por isso, a herança da criação pertence à humanidade inteira. Entretanto o ritmo atual de exploração põe seriamente em perigo a disponibilidade de alguns recursos naturais não só para a geração atual, mas sobretudo para as gerações futuras. Ora não é difícil constatar como a degradação ambiental é muitas vezes o resultado da falta de projetos políticos clarividentes ou da persecução de míopes interesses económicos, que se transformam, infelizmente, numa séria ameaça para a criação. Para contrastar tal fenómeno, na certeza de que ‘cada decisão económica tem consequências de caráter moral’, é necessário também que a atividade económica seja mais respeitadora do ambiente. Quando se lança mão dos recursos naturais, é preciso preocupar-se com a sua preservação prevendo também os seus custos em termos ambientais e sociais, que se devem contabilizar como uma parcela essencial da atividade económica. Compete à comunidade internacional e aos governos nacionais dar os justos sinais para contrastar de modo eficaz, no uso do ambiente, as modalidades que resultem danosas para o mesmo. Para proteger o ambiente e tutelar os recursos e o clima é preciso, por um lado, agir no respeito de normas bem definidas mesmo do ponto de vista jurídico e económico e, por outro, ter em conta a solidariedade devida a quantos habitam nas regiões mais pobres da terra e às gerações futuras.(Mensagem para o Dia Mundial da Paz, n.º 7 – 2010).
E Francisco coloca em sistema de paridade e complementaridade o clamor da terra e o clamor dos pobres, no quadro da abordagem ecológica em função da abordagem social e económica, numa ordem ética em prol do homem, seu beneficiário e seu responsável:
O clima é um bem comum, um bem de todos e para todos. A nível global, é um sistema complexo, que tem a ver com muitas condições essenciais para a vida humana. Há um consenso científico muito consistente, indicando que estamos perante um preocupante aquecimento do sistema climático. […] Se reconhecermos o valor e a fragilidade da natureza e, ao mesmo tempo, as capacidades que o Criador nos deu, isto permite-nos acabar hoje com o mito moderno do progresso material ilimitado. Um mundo frágil, com um ser humano a quem Deus confia o cuidado do mesmo, interpela a nossa inteligência para reconhecer como deveremos orientar, cultivar e limitar o nosso poder. […] Hoje, não podemos deixar de reconhecer que uma verdadeira abordagem ecológica sempre se torna uma abordagem social, que deve integrar a justiça nos debates sobre o meio ambiente, para ouvir tanto o clamor da terra como o clamor dos pobres.” (Encíclica Laudato Si’, n.os 23.78.49 - 2016).
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Por fim, é de recordar que, a 25 de setembro de 2015, os líderes políticos mundiais adotaram um conjunto de objetivos globais para erradicar a pobreza, proteger o planeta e assegurar a prosperidade, através da implementação da nova AGDS (Agenda Global de Desenvolvimento Sustentável). Cada objetivo é composto por metas específicas que devem ser alcançadas até 2030. Para se atingirem os objetivos definidos, todos temos que fazer a nossa parte: os governos, o setor privado, a sociedade civil e pessoas. Todos e cada um de nós, até os mais indiferentes e acomodados, somos parte da solução – para nosso benefício e para benefício dos outros, nomeadamente das gerações vindouras.
2018.04.21 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Papa Francisco recebeu em audiência privada Donald Trump

Na manhã de hoje, dia 24 de maio, pelas 8,30 horas de Roma, o Presidente dos Estados Unidos da América, Donald Trump, foi recebido em audiência pelo Papa Francisco e, sucessivamente, encontrou-se (acompanhado da sua delegação, que incluía o Secretário de Estado, Rex W. Tillerson, e o Conselheiro de Segurança Nacional, H. R. McMaster) com o número dois do Vaticano, o Cardeal Pietro Parolin, Secretário de Estado, que se fazia acompanhar do Arcebispo Paul Richard Gallagher, Secretário para as Relações com os Estados (um tipo de ministro das Relações Exteriores). O encontro marca o primeiro contacto oficial entre Trump e o líder de quase 1,3 milhões de católicos, que provavelmente apaziguará as tensões, fiel à tradicional linha diplomática do Vaticano de receber e ouvir todas as partes.
Os colóquios no Vaticano ocorreram no contexto da primeira viagem oficial do Presidente norte-americano ao estrangeiro. Assim, Trump foi à Itália para participar numa cimeira do G7, os sete países mais industrializados do mundo, que se realizará nos dias 26 e 27 de maio em Taormina, na Sicília. Entretanto, após o encontro com o Papa e o Secretário de Estado do Vaticano, o Presidente dos Estados Unidos encontrou-se com o Presidente italiano, Sergio Matarella, no Quirinal, após o que teve um almoço de trabalho com o Primeiro-Ministro italiano, Paolo Gentiloni, antes de seguir para Bruxelas, onde participará numa reunião amanhã, dia 25 de maio, da Organização do Tratado do Atlântico Norte (NATO), e donde regressará à Itália para tomar parte, na  cidade de Taormina, na Sicília, na dita cimeira do G7, a ter lugar nos dias 26 e 27 deste mês. 
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Tanto a Rádio Vaticano como a Sala de Imprensa da Santa Sé salientam a cordialidade dos colóquios, que evidenciam a satisfação pelas boas relações bilaterais existentes entre a Santa Sé e os Estados Unidos da América e pelo compromisso comum de cooperação em prol da vida e da liberdade religiosa, de consciência e de culto.
Por consequência, formularam-se votos por uma serena colaboração entre o Estado e a Igreja Católica nos Estados Unidos, comprometida no serviço das populações nos âmbitos da saúde, da educação e da assistência aos imigrantes. Naturalmente, os colóquios proporcionaram o intercâmbio de opiniões sobre alguns temas relativos à atualidade internacional e à promoção da paz no mundo através da negociação política e do diálogo inter-religioso, com referência particular à situação no Médio Oriente e à tutela das comunidades cristãs.
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Previa-se que o encontro se revestisse de uma certa delicadeza, já que pairavam no ar alguns fumos de tensão entre os dois líderes dos quais se conhecem posições muito diferentes sobre temas como migração e mudanças climáticas. Com efeito, o Presidente dos Estados Unidos e o primeiro Pontífice de origem latino-americana defendem modelos económicos e sociais opostos e colidiram em temas como a construção de um muro entre os Estados Unidos e o México para frear a migração e a necessidade de tomar medidas globais para obviar às mudanças climáticas.
O Papa, em 17 de fevereiro de 2016, no encontro com os jornalistas no voo de regresso do México a Roma, foi confrontado com uma afirmação de Phil Pulella, da “Reuters” sobre do candidato Donald Trump e a consequente pergunta:
“Hoje falou de forma muito eloquente sobre os problemas dos imigrantes. Entretanto, do outro lado da fronteira, está em marcha uma campanha eleitoral bastante dura; numa entrevista recente um dos candidatos à Casa Branca, o republicano Donald Trump, afirmou que o Papa é um homem político, chegando a dizer que talvez seja um peão, um instrumento do governo mexicano para a política de imigração. Declarou que, se for eleito, quer construir 2.500 km de muro ao longo da fronteira; quer deportar 11 milhões de imigrantes ilegais, separando assim as famílias, etc. Então, queria perguntar-lhe, antes de mais nada, que pensa destas acusações contra si e se um católico norte-americano pode votar em tal pessoa.”.
E Francisco replicou:
“Bem, graças a Deus, que disse que sou político, porque Aristóteles define a pessoa humana como ‘animal politicum’. Pelo menos sou uma pessoa humana! Quanto a ser um peão, bem, talvez seja melhor nem comentar… deixo isso ao vosso juízo, ao juízo das pessoas. E, depois, uma pessoa que só pensa em fazer muros, onde quer que seja, e não em fazer pontes, não é cristã. Isto não está no Evangelho. Quanto àquilo que me perguntava sobre o conselho que daria de votar ou não votar, não me intrometo. Digo apenas: se diz estas coisas, este homem não é cristão. É preciso ver se ele disse estas coisas; por isso, lhe dou o benefício da dúvida.”.
Donald Trump, que acusara, como se viu, o Pontífice de ser um “homem político” e um instrumento do governo mexicano para a política migratória (o que foi contestado com ironia) reagiu dizendo que Francisco não tinha legitimidade para se pronunciar sobre a fé de alguém.  
Quando faltavam apenas cinco semanas para a cimeira na Sicília, a Casa Branca ainda não havia solicitado oficialmente a audiência papal, o que suscitou muitas especulações, pois os presidentes costumam solicitar ao Vaticano com vários meses de antecedência audiências com o Papa, que em geral as concede. Porém, a 19 de abril, o próprio Papa Francisco manifestou a disposição de receber Trump, embora tenha confessado que ainda não havia recebido nenhuma solicitação oficial.
E, a 13 de maio, no voo de regresso de Monte Real (Portugal) a Roma, pronunciou-se sobre Trump assegurando não fazer juízos sobre uma pessoa sem a escutar e que, no encontro previsto, cada um dirá o que pensa. E, em relação ao que esperava do encontro com um Chefe de Estado que pensa diferente de si, garantia não ter portas fechadas, mas, ao menos, com alguma abertura para cada um poder dizer o que pensa, para cada um entrar e falar sobre problemas comuns e andar para a frente, passo a passo. Ademais, reiterou que a paz é artesanal, se constrói no dia a dia, como a amizade, o conhecimento mútuo, a estima. Escuta-se e diz-se o que se pensa, mas sempre com respeito. E, sobre a hipótese de o Presidente vir a modificar as suas decisões, Francisco disse tratar-se de um cálculo político que se abstém de fazer e que também no plano religioso não é proselitista.
Historicamente, todos os presidentes do século XX dos Estados Unidos solicitaram encontros com o Pontífice durante suas viagens à Itália. Barack Obama reuniu-se por duas vezes com o Papa Francisco, uma no Vaticano em 2014 e outra durante a viagem do Pontífice aos Estados Unidos em 2015. E fora recebido no Vaticano por Bento XVI, em 2009.
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Pelos vistos, o encontro começou com um aperto de mão e um sorriso de ambos.
Atravessando uma cidade blindada desde a sua chegada, na noite do dia 23, Donald Trump deixou a Villa Taverna, residência do embaixador dos Estados Unidos onde estava alojada sua delegação, e chegou ao Pátio de São Dâmaso às 8,20 horas sob fortes medidas de segurança e uma comitiva presidencial de dezenas de automóveis. O Presidente entrou no Estado do Vaticano através da porta do Perugino, depois de seguir pela Via da Conciliação sob os olhos de centenas de passantes e fiéis que estavam a caminho da Praça São Pedro, para participar da audiência geral com o Santo Padre.
Trump vinha acompanhado da esposa, Melania, a filha mais velha, Ivanka, o genro, Jared Kushner, e uma delegação de cerca de 20 pessoas, 12 das quais estiveram com o Papa. 
A audiência particular, a portas fechadas, na biblioteca privada, começou às 8,33 horas e teve a duração de 27 minutos. Foi possível ouvir Trump referir que esta era uma ‘grande honra’.
Durante a audiência, a esposa e a filha do Presidente dos EUA visitaram a Capela Paulina e a Sala Regia, tendo aguardado depois em conversa com a delegação e representantes do Vaticano numa sala adjacente.
Em seguida, a comitiva foi chamada para o momento da troca de presentes e os habituais cumprimentos diante dos fotógrafos. Porém, antes da sessão fotográfica, o Papa Francisco cumprimentou com cordialidade Melania Trump, a quem perguntou “se já haviam comido uma pizza” e abençoou um terço que a esposa do Presidente tinha nas mãos. Também a filha, Ivanka, disse algumas palavras ao Papa, que a escutou em silêncio.
O Papa ofereceu a Donald Trump as edições em inglês da sua mensagem para o Dia Mundial da Paz 2017 – dedicada à não violência como estilo de vida –, assinada especialmente para o Presidente dos EUA; das exortações “A Alegria do Evangelho” (Evangelii Gaudium) e “A Alegria do Amor” (Amoris Laetitia), sobre a família; e da carta encíclica “Laudato sí”, documento sobre o cuidado da casa comum, que abrange a questão ecológica. E, como é tradição em audiências a Chefes de Estado, Francisco ofereceu também um medalhão do seu Pontificado com dois ramos de oliveira entrelaçados, símbolo da paz que se sobrepõe à guerra, explicando o seu significado.
Por seu turno, o líder norte-americano presenteou o Papa com uma coletânea dos 5 livros escritos por Martin Luther King e uma peça do monumento de granito que honra o ativista afro-americano em Washington e uma escultura de bronze. Um dos livros, “The Strength to Love” (A Força do Amor”, 1963), traz a assinatura do próprio Luther King.
Segundo uma nota da Casa Branca, a peça do monumento em granito é uma “homenagem à esperança, visão e inspiração do ativista para as gerações vindouras”. Com a peça e os livros, Trump também entregou uma cópia do discurso que o Papa ofereceu a uma sessão do Congresso dos EUA em setembro de 2015, na qual foi celebrado o legado de Luther King. E a escultura de bronze foi feita à mão por um artista estadunidense não identificado e representa “a esperança de um amanhã pacífico”, pois evoca dois valores universais: a unidade e a resistência.
Segundo a programação, o Presidente e toda a delegação visitaram a Capela Sistina e a Basílica de São Pedro. E, na sequência, a primeira-dama foi até o Hospital Pediátrico Bambino Gesù (Menino Jesus), propriedade da Santa Sé, perto do Vaticano. E a filha de Trump, Ivanka, seguiu com o marido para a Comunidade de Santo Egídio, no bairro de Trastevere, tendo abordado a questão do tráfico humano.
O Hospital Bambino Gesù, o 1.º hospital pediátrico da Itália, foi criado em 1869 pelos Duques Salviati. Em 1924, foi doado à Santa Sé, tornando-se, para todos os efeitos, um hospital pontifício, um hospital de excelência. Em 2104, foi enriquecido com novos laboratórios de pesquisa que se estendem por 5000 m2 e dotados de modernas tecnologias de investigação genética e celular. É o maior policlínico e centro de pesquisa pediátrica na Europa. Tem 4 polos de internamento e cura em Itália, sendo a sede principal no gianícolo, perto do Vaticano.
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É de esperar que, em razão da resistência interna e depois deste encontro marcado pela bonomia esclarecedora, o Presidente estadunidense ganhe a postura de mitigação das suas políticas em prol da concórdia e da paz. Prosit!

2017.05.24 – Louro de Carvalho