terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Carta aberta apela à reabertura das escolas já em março

 

 

Alguns órgãos da comunicação social estão a dar voz a uma carta aberta, que nas redes sociais surge em forma de petição a assinar por quem o desejar, em que uma centena de personalidades se dirige ao Governo e ao Presidente da República a defender a urgência de abrir escolas (a começar pelos mais novos), mas com condições de segurança reforçadas, que especifica.

Um mês após novo fecho das escolas e quando os números da epidemia estão a ceder, o grupo de “cidadãos e cidadãs”, de proveniência multidisciplinar de diversas áreas da intervenção académica e social, mas com inúmeras referências ligadas à pediatria, à saúde mental, à epidemiologia e à pedagogia, pede a reabertura, para quanto antes, embora faseada, dos estabelecimentos de educação e ensino, “com segurança e de forma contínua, começando pelos mais novos”, ancorado no pressuposto de que a escola é um “bem essencial” e é possível “conciliar os direitos à saúde e à educação”.

O Governo assumiu que o desconfinamento se iniciará pela escola e defende que, ao invés do ano letivo anterior, o regresso ao ensino presencial começará pelos mais novos, menos autónomos e a quem a falta de contacto direto com os professores mais prejudica. Porém, não apontou qualquer data, tendo a Ministra de Estado e da Presidência declarado que “é prematuro falar para esta próxima quinzena de desconfinamento, nomeadamente em matéria de escolas”.

A pari, os subscritores da carta creem que é possível e desejável as creches e jardins de infância reabrirem já no início de março, seguindo-se, de forma gradual e também no início do próximo mês, os restantes níveis de ensino, a começar pelos 1.º e 2.º ciclos do básico (1.º ao 6.º ano).

A missiva sustenta igualmente que as crianças e jovens beneficiários da ação social escolar, os sinalizados pelas comissões de proteção de crianças e jovens e aqueles para quem a escola considere ineficaz o ensino à distância, regressem já ao ensino presencial, tal como previsto nas orientações do Ministério da Educação para este ano letivo. Os poucos que têm ido (apenas 3300 que as escolas consideraram não ter condições para estudar em casa e mais 2300 que necessitam de terapias, segundo os últimos dados da tutela) muitas vezes limitam-se a ter “meras aulas à distância na escola”.

É ainda a pensar na falta de condições de milhares de famílias e crianças para eficaz estudo em casa e na penalização que o ensino à distância exerce nos mais desfavorecidos que se justifica a urgência de voltar às aulas presenciais, ainda mais quando no ano letivo passado os alunos do ensino básico foram para casa a 16 de março e não voltaram mais às salas de aula, num dos mais longos confinamentos registados na UE. E os subscritores da carta alertam:

Estudos em vários países e a experiência clínica de alguns dos signatários da carta mostram o aumento de problemas psicológicos e psiquiátricos das crianças e jovens associados ao confinamento e ao fecho das escolas (depressão, ansiedade, perturbação alimentar, autolesões etc.).”.

A argumentação apresentada na carta reconhece que o encerramento de escolas torna mais fácil a redução dos contactos e controlo da epidemia, mas contrapõe que “não é indispensável” para isso acontecer, sustentando-se na experiência do 1.º período letivo, em que as medidas nas escolas e um “rígido protocolo sanitário” impediram “numerosos casos e clusters”, tendo havido apenas 800 turmas que tiveram de fechar em todo o país neste período.

Todavia, para evitar o reagravamento da situação pandémica, os subscritores propõem a várias medidas a acrescentar às já existentes para circulação e permanência na escola.

Por exemplo, a máscara deve ser obrigatória a partir dos 6 anos, em vez dos atuais 10, como devem proibir-se as concentrações fora da escola e – digo eu – ao portão e fazer-se rastreios periódicos na comunidade escolar para detetar infeções assintomáticas ou pré-sintomáticas e permitir que os professores de risco fiquem em casa a dar aulas ou sejam substituídos.

Recomenda-se o reforço dos transportes públicos e maior desfasamento de horários de entrada e saída. E defende-se a inclusão de professores e funcionários na fase 1 do plano de vacinação, devendo ser vacinados, concluída a proteção do pessoal de saúde, idosos e grupos de risco.

E os signatários da carta porfiam que estas medidas “estão ao alcance do Governo e que o seu custo é infinitamente menor que o retorno no curto, médio e, principalmente, no longo prazo”.

***

Numa análise mais detalhada da carta intitulada “Prioridade à Escola”, vejamos:

Os subscritores apresentam-se como “cidadãos e cidadãs, pais, professores, epidemiologistas, psiquiatras, pediatras e outros médicos, psicólogos, cientistas e profissionais de diferentes áreas” e, considerando “a escola um serviço essencial”, querem que “reabra rapidamente em moldes presenciais, com segurança e de forma contínua, começando pelos mais novos”.

Sabem que é imperativo “conter a epidemia e reduzir as infeções” e “dotar medidas, com base na ciência e nos dados, capazes de proteger a escola como um bem essencial”.

Sustentam que “a escolha entre a vida dos mais velhos e a educação das crianças e jovens é um falso dilema e que é possível conciliar os direitos à saúde e à educação”.

Asseguram que o sucesso duma política não se mede com os números, mas pesando também as “consequências de saúde, física e mental, no presente e no futuro”.

Consideram que as escolas aplicam “rígidos protocolos sanitários, que garantem o uso correto dos dispositivos de segurança individuais durante grande parte do dia e que evitam a formação de agrupamentos”, ao invés do que sucede nas famílias e na rua, e que “a aprendizagem dos gestos de proteção na escola promove a aplicação de medidas preventivas na comunidade”.

Referem que, no 1.º período, “as medidas sanitárias nas escolas impediriam numerosos casos e clusters” (só 800 turmas fecharam em todo o país) e que, em fevereiro, “nas 700 escolas que estão em funcionamento para acolher os filhos dos profissionais essenciais, só 25 casos positivos resultaram dos 13 mil testes realizados” – o que mostra a possibilidade de manter a pandemia sob controlo e com as escolas abertas, “desde que com as devidas precauções”.

Admitem que “o encerramento de escolas se associa a uma diminuição dos casos na população” mas aduzem que tal “não é indispensável para controlar a epidemia, sendo possível fazê-lo mantendo as escolas abertas”, pois as investigações mostram que “as escolas não são contextos relevantes de infeção” e que, no 1.º período, “as medidas sanitárias em vigor nas escolas provaram que o curso da epidemia foi independente de as escolas estarem abertas”.

Apontam que “não estão otimizadas ferramentas” de controlo da epidemia igual ou até mais eficaz do que o fecho das escolas, por exemplo o rastreiro em massa.

Declaram que estudos e a experiência clínica de alguns signatários da carta mostram “o aumento de problemas psicológicos e psiquiátricos das crianças e jovens associados ao confinamento e ao fecho das escolas” (depressão, ansiedade, perturbação alimentar, autolesões, etc.).

Relatam que pesquisas em psicologia do desenvolvimento mostram que “a educação pré-escolar e a escola permitem melhorias cognitivas, mas também motoras, sociais e emocionais” (“mais motivação académica, menos agressividade, menor prevalência de comportamentos de risco e de dependência”), o que indicia que “as escolas são fundamentais para o desenvolvimento harmonioso, o desempenho académico, a participação no mercado de trabalho e a cidadania responsável”.

Dizem que “o ensino a distância é menos eficaz do que o ensino presencial” e é “multiplicador de desigualdades de todos os tipos, não apenas educacionais, penalizando os mais vulneráveis”, podendo “o atraso na aquisição de aprendizagens” levar à “reversão do avanço das últimas décadas na diminuição da desigualdade social e no abandono escolar precoce”.

Defendem que o encerramento de escolas em Portugal em 2020 foi dos mais longos da UE, sobretudo no ensino básico, “o que comprometeu o direito à educação de crianças e jovens” e o direito à infância (entendido em sentido lato), como o direito à relação e à convivência com os pares.

Verificam que o nosso é um dos países da UE com menos condições para ensino a distância, mercê do baixo nível de qualificações dos pais (só um em 4 no ensino público até ao 9.º ano frequentou o ensino superior), às condições de privação material de muitas famílias com crianças, sofrendo de pobreza energética e habitacional, e à cobertura desigual da rede de 4G e de fibra. Por consequência, mais de 1/4 das crianças até aos 12 anos vive em casas com problemas de humidade e infiltrações, 16% em alojamentos sobrelotados, 13% em casas não adequadamente aquecidas. Há 9% das crianças abaixo dos 12 anos cujas famílias não têm capacidade financeira para oferecer uma alimentação saudável. E a privação material das crianças é superior em certas áreas do país, como as regiões autónomas ou o Algarve.

Tendo em conta o exposto e visando o rápido regresso à escola, os subscritores propõem:

- Providenciar meios às escolas para, cumprindo as orientações, permitir o regresso ao ensino presencial para todas as crianças e jovens beneficiários da ação social escolar, sinalizadas pelas Comissões de Proteção de Crianças e Jovens ou para as quais a escola considere ineficaz o ensino a distância e estejam em risco de abandono escolar;

- Reabrir as creches e os estabelecimentos de educação pré-escolar no início de março;

- Abrir o ensino básico a partir do início de março, gradualmente, a começar pelos 1.º e 2.º ciclos;

- Dar prioridade às componentes práticas do ensino artístico e profissional;

- Manter e reforçar as medidas existentes – arejar os espaços, manter distâncias entre assentos, manter os mesmos lugares de assento nas salas de aula, evitar o agrupamento de pais e alunos reforçar o rastreamento e assegurar a quarentena de crianças e jovens em risco;

- Tornar a máscara cirúrgica obrigatória desde os 6 anos fornecida pela escola;

- Insistir na proibição, em tempos de grande pressão, de reuniões fora da escola;

- Incentivar o uso de meios de transporte alternativos, como bicicletas, para ir à escola e aumentar a oferta de transporte público durante o horário escolar;

- Desfasar ainda mais os horários de entradas e saídas para evitar agrupamentos nestes horários;

- Fazer o rastreio periódico da infeção em amostras da população escolar de modo o identificar infecções assintomáticas ou pré-sintomáticas;

- Incluir professores e auxiliares de ação educativa nos grupos prioritários de vacinação, após o pessoal de saúde, idosos e grupos de risco;

- Permitir que os professores de alto risco sejam substituídos por outros ou deem aulas remotamente (com os alunos na escola) até que estejam vacinados;

- Reforçar ou criar um espaço específico em cada escola ou agrupamento de escolas para aplicar testes rápidos de antigénio e iniciar os procedimentos de isolamento e quarentena;

- Fazer a vigilância de contágios nas escolas publicitando regularmente a sua frequência e tomar atitudes com base nesses e outros dados, agindo em função do risco na região, tipo de escola e idade dos alunos;

- Manter contacto regular entre os diretores das escolas e as estruturas de saúde pública por forma a melhorar a gestão dos surtos, evitando medidas gerais e tardias que abrangem todas as escolas.

Ademais, pedem os subscritores, para já, a elaboração dum plano de reabertura das escolas e a canalização dos recursos suficientes para colmatação do atraso acumulado por alguns alunos em competências-chave e tutela da saúde física e mental das crianças e jovens. E mostram-se convictos todas as medidas enunciadas estão ao alcance do Governo sendo o seu custo infinitamente menor que o retorno no curto, médio, e, principalmente, no longo prazo, como se sabem cônscios da gravidade da situação sanitária a pedir que as escolhas do Governo estejam à altura dos desafios de hoje e de amanhã, para as crianças, os jovens e os idosos, na esperança de que serão protegidos “os direitos de setores da população que já pagaram caro pela crise atual e aos quais atualmente apenas garantimos o papel de devedores perpétuos”.

Obviamente a carta, que também subscrevi apesar da minha insignificância social, mas certo do imperativo de cidadania educacional, merece a minha inteira concordância.

Suponho, no entanto, que pouco importa o desfasamento de horários se os transportes escolares não forem desamarrados dos restantes transportes públicos e se a sua lotação não for controlada. De igual modo, tenho reservas sobre alguns comportamentos escolares, nomeadamente sobre a permanência contínua em sala de aula, podendo os alunos conversar sem máscara comendo e bebendo. E, quanto aos ajuntamentos nas imediações da escola (rua e portões), o “Programa Escola Segura” da PSP e da GNR deveria ser convenientemente reforçado em efetivos e competências de modo que a permanência na escola e o percurso casa-escola-casa fosse o mais impermeável possível ao contágio viral.

De resto reabrir a escola – comunidade de aprendizagem e socialização – para reabrir as comportas à pandemia, não. Mas é possível e desejável combater a pandemia com a escola aberta e a levar a cabo a sua missão educadora e humanizante na linha da cidadania ativa genuína e proativa.

2021.02.23 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Das dificuldades da vacinação massiva contra o SARS CoV-2

 

Os diversos países e as organizações interestatais como a UE houveram por bem proceder à vacinação massiva da população para obviar à pandemia, pois, é quase certo que havendo 70% da população imunizada em cada país, o surto ficará praticamente debelado e quiçá erradicado.

É comum registar-se a rapidez com que a ciência respondeu à necessidade da vacinação, como se critica o facto de a produção de vacinas ter ocorrido mais no regime de competição que no de convergência, sabendo-se que tal campanha produtiva só começou a acontecer quando os Estados e as organizações interestatais abriram os cordões à bolsa e incentivar as indústrias farmacêuticas, do que resultou o súbito enriquecimento de alguns próceres do setor.

Nesta matéria a UE não ficou a leste, antes investiu e contratualizou uns bons milhões de doses de entre as várias marcas que se disponibilizaram. Por conseguinte, planeou a distribuição pelos diversos Estados-membros segundo a lógica da proporcionalidade e função do número de habitantes em cada país. Não obstante, as expectativas criadas em alta foram parcialmente goradas e a Comissão Europeia teve de reforçar a contratualização. Várias razões contribuíram para o facto, de que ressaltam a dificuldade de obtenção de matérias-primas, a de arranjar frascos suficientes e a sedução das farmacêuticas por quem pode oferecer mais dinheiro.

À semelhança do que se fez noutros países, Portugal fez um planeamento da vacinação que se arrumou em três fases por grupos de 1.ª prioridade, 2.ª e 3.ª.  

Assim, a 1.ª fase previa dois momentos: a partir de dezembro de 2020, para profissionais de saúde envolvidos na prestação de cuidados a doentes, profissionais das forças armadas, forças de segurança e serviços críticos, profissionais e residentes em ERPI (Estruturas Residenciais para Pessoas Idosas) e instituições similares e profissionais e utentes da RNCCI (Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados); e a partir de fevereiro de 2021, pessoas de idade ≥50 anos com pelo menos uma das seguintes patologias – insuficiência cardíaca, doença coronária, insuficiência renal (Taxa de Filtração Glomerular < 60ml/min), DPOC ou doença respiratória crónica sob suporte ventilatório e/ou oxigenoterapia de longa duração – e pessoas com 80 ou mais anos de idade.

A 2.ª fase, a partir de abril de 2021, contemplará as pessoas de idade ≥65 anos que não tenham sido vacinadas anteriormente; e as pessoas entre os 50 e os 64 anos de idade, inclusive, com pelo menos uma das seguintes patologias: diabetes, neoplasia maligna ativa, doença renal crónica (Taxa de Filtração Glomerular >60ml/min), insuficiência hepática, hipertensão arterial, obesidade e outras patologias com menor prevalência que poderão ser definidas posteriormente, em função do conhecimento científico.

E a 3.ª fase, em data a determinar após a conclusão da segunda fase, abrangerá toda a restante população elegível, que poderá ser priorizada de modo semelhante.

É claro que não há planeamento perfeito e, mais tarde, pensou-se em incluir na 1.ª fase políticos e detentores de cargos públicos cujo desempenho se revele mais em risco. Faltou incluir os professores, que lidam sistematicamente com público que se lhe apresenta como um risco.

Registaram-se casos de vacinação ministrada a pessoal adventício para evitar inutilização de doses, uma vez que os frascos não são unidose, devendo extrair-se de cada um seis doses. E também houve vacinação a gente oportunista e a entidades sobre as quais recaía a dúvida se podiam ser ou não vacinadas na 1.ª fase. Perante a falta do estabelecimento duma lista de suplentes dentro do mesmo grupo prioritário, por falta de definição prévia e clara de algumas situações e por situações abusivas não acauteladas nem explicadas, o primeiro líder da Task Force depôs as armas e foi-se embora, sendo sucedido por um militar com alto saber logístico. 

Entretanto, o JN deste dia 22 de fevereiro, a páginas 20 e 21, traz uma reportagem que mostra a fragilidade deum largo setor da nossa população, situação que não foi prévia e devidamente acautelada, sobretudo no atinente aos idosos especialmente os acamados, sem retaguarda familiar, sem telemóvel ou, tendo-o, sem capacidade de ler as mensagens para agendamento da vacinação. Com efeito, as indicações do Ministério da Saúde são:  

O seu médico ou enfermeiro de família poderá informá-lo sobre a fase em que será vacinado. Espere até ser contactado. O processo de vacinação irá decorrer ao longo do ano de 2021. Não é possível pedir a marcação da sua vacina para a COVID-19. Será contactado pelo Serviço Nacional de Saúde para esse efeito. Agradecemos que aguarde e não contacte o SNS 24 por este motivo.”.

Não é crível que o Governo e os respetivos departamentos não saibam que a maior parte dos idosos é infoexcluída. Muitos até para marcarem um número de telefone ou atenderem uma chamada mexem em não sei quantos papéis, falam alto e confundem as coisas. E, se não têm quem os ajude, a situação torna-se dramática, porque se ensimesmam no sofrimento e na solidão não pedem ajuda e até a recusam quando lha querem dar.

Depois, muitos vivem a considerável distância do centro de saúde, da USF ou do centro de vacinação, não têm transporte público, não têm dinheiro para táxi, não têm quem os oriente.      

Vale-lhes o movimento local solidariedade (autarquias, centros de saúde, coletividades…) que está a desenhar-se um pouco por todo o país. Como refere o JN, há dezenas de câmaras municipais, juntas de freguesia e agrupamentos de centros de saúde “a fazer das tripas coração para que ninguém fique excluído do processo de imunização contra a covid-19”.

Vão buscar os idosos a casa e levam-nos aos centros de vacinação alguns em pavilhões nos centros das cidades. Nalguns casos, são os próprios autarcas que fazem esse transporte, outros disponibilizam autocarros ou acordam com empresas de táxi e outros criaram “call centers” para o agendamento da vacinação. E várias instituições de solidariedade social e juntas de freguesia batem às portas de utentes que não têm meios de comunicação ou cujas moradas estão desatualizadas nos registos do SNS.

E, como adianta o Ministério da Saúde, desde que o início do processo de vacinação para idosos com 80 ou mais anos e para pessoas acima dos 50 anos com doenças graves, já foram enviadas 4336 mensagens de agendamento, mas só responderam 2288 pessoas (metade).

No entanto, o JN dá conta, exemplificando, de quem sofre a ansiedade por causa da vacinação contra a covid-19. Esperam ser contactados pelo médico. Ligam para a Junta de freguesia, que tenta dar resposta, prometendo apoio, informando e transportando as pessoas para o respetivo centro de vacinação, pois considera a ação social mais necessária e relevante que fazer obra física como “pavimentar caminhos e tapar buracos”.

Na verdade, a vacinação dos maiores de 80 anos e pessoas com mais de 50 com saúde débil, exige a intervenção das autarquias e das outras coletividades de vocação solidária. As pessoas serão contactadas pelo médico de família e, se este não conseguir estabelecer os necessários contactos, muitas autarquias estão disponíveis para intermediar de modo que ninguém fique por vacinar por falta de contacto, de vacina ou de transporte. Também há pessoas que estão no dilema entre a covid-9 e a vacina. Têm receio das duas coisas: a covid pode matar ou deixar sequelas graves; a vacina, em que se colocou tanta esperança, agora está sujeita à dúvida sobre a sua eficácia, havendo quem diga que o vacinado pode vir ainda a ficar infetado e a transmitir o vírus e não se sabendo qual o prazo de validade da imunização com a vacina. Todavia, as pessoas, regra geral, querem a vacina escudando-se no “seja o que Deus quiser”, pois “nós sempre temos de morrer, porque andamos aqui de passagem” e ninguém cá fica.

Câmaras municipais como a da Lousã escalam funcionários, supervisionados por um técnico superior, para telefonarem aos idosos do concelho que estão na lista para ser vacinados. Estão instalados numa sala, devidamente assinalada como “call center”, no local da vacinação. Este trabalho é feito sobretudo nas primeiras horas da manhã dos dias de vacinação, entre as 9 e as 11 horas. Confirmam-se os contactos que estão na base de dados, insiste-se na ligação para as pessoas, confirmam a sua comparência e verificam se precisam de transporte para se deslocarem. E, se precisarem, as viaturas do município levam-nas à vacinação e retornam-nas ao domicílio. Se as pessoas não atenderem o telefone, os funcionários deslocam-se a casa delas, sendo esta fase articulada com as juntas de freguesia e outros parceiros da Rede Social do concelho. Obviamente o ritmo de vacinação e o número dependem do ritmo e do número da chegada das doses das vacinas que vierem.

O referido “call center” serve de complemento às outras formas de avisar os utentes quanto ao dia em que devem tomar a vacina. Com efeito, em pessoas dessas idades, o aviso por mensagens telefónicas (SMS) poderá não ser o mais eficaz.

Lousã é apenas um dos muitos exemplos que abundam no país. O JN fala de mais casos exemplares, exibindo uma pequena amostra do que se passa no país.

Em Viana do Castelo, todas as juntas de freguesia foram chamadas a ajudar. O município de Famalicão cede funcionários ao centro de vacinação para garantia de segurança, vigilância, higienização dos espaços e acolhimento aos utentes, tal como disponibiliza computadores, internet e linhas telefónicas. O de Santo Tirso oferece transporte, equipamentos informáticos, material logístico e três colaboradores para o funcionamento do centro de vacinação instalado na Fábrica de Santo Thyrso. O de Lousada pôs a Equipa Multidisciplinar de Apoio, constituída por elementos da Autarquia, a fazer um primeiro contacto com os idosos para diagnóstico das dificuldades. O de Cabeceiras de Basto garantiu “as condições de comodidade e climatização” na tenda que funciona como sala de recobro, junto ao centro de saúde, e assegura o transporte com apoio dos bombeiros e da Cruz Vermelha de Arco do Baúlhe. O de Peso da Régua cria um centro de vacinação, numa sala anexa ao pavilhão multiusos, para evitar a deslocação dos idosos a Vila Real, onde está o atual posto de campanha. O de Cantanhede promete “cooperação logística” na criação de postos de vacinação e assegurará transporte até ao pavilhão onde funciona o centro da campanha de imunização. Os de Braga e Leiria, em colaboração com as respetivas juntas de freguesia, ajudam no contacto com os idosos a vacinar e disponibilizam transporte. O de Proença-a-Nova põe a Unidade Móvel de Saúde e a Bibliomóvel a realizar um trabalho de proximidade com as aldeias de Proença-a-Nova, estando na linha da frente do apoio à população e esclarecimento de dúvidas. E os de Lisboa e Oeiras suportarão a despesa de transporte até aos centros de vacinação para os residentes com mais de 65 anos, o que passa pela celebração de protocolos com associações do setor do táxi.

E assim se levará a cabo a vacina não obrigatória, mas incentivada, gratuita e universal.

2021.02.22 – Louro de Carvalho

domingo, 21 de fevereiro de 2021

Da prática bimilenar e sacramental de cristãs/ãos cobrirem a cabeça

 

Muitas mulheres, com base na tradição cristã (católica, ortodoxa, anglicana, luterano, calvinista e metodista), usam véu no culto público (algumas ligadas a essas tradições também o usem fora do templo). E alguns, como os cristãos anabatistas, sustentam que as mulheres devem cobrir a cabeça o tempo todo. Certas passagens bíblicas (como Gn 24,65; Nm 5,18; e Is 47,2) do AT (Antigo Testamento) indicam que as mulheres cobriam a cabeça.

Porém, a prática feminina de cobrir a cabeça para orar e profetizar inspira-se na interpretação literal da 1.ª Carta aos Coríntios (1Cor 11,2-16), a única passagem do NT (Novo Testamento) que refere a cabeça coberta de mulheres e a cabeça descoberta de homens. Como sinal de obediência, modéstia, recato e decência, o véu escuda-se na tradição oral, pois São Paulo (cf 1Cor 11,13-16) pretende que a mulher use cabelos compridos por modéstia. E, em carta a Timóteo, diz:

Do mesmo modo, as mulheres usem trajes decentes, adornem-se com pudor e modéstia, sem tranças, ouro, pérolas ou vestidos sumptuosos, mas como convém a mulheres que fazem profissão de piedade, por meio de boas obras” (1Tm 2,9-10).

Os estudiosos sustentam que os vv. 4-7 da 1.ª Carta aos Coríntios se referem a véu ou cobertura de pano, respeitando o v. 15 ao cabelo comprido da mulher por modéstia. Embora cobrir a cabeça tenha sido prática de muitas cristãs na era moderna, agora é prática minoritária em cristãs no Ocidente, ao invés de outras partes do mundo (vg: Roménia, Rússia, Ucrânia, Etiópia, Índia, Paquistão, Coreia do Sul…), em que se mantém. O estilo de tal cobertura varia consoante a região. E o véu faz parte do hábito em ordens monásticas e congregações femininas católicas.

Escritores dos primeiros séculos atestam que a cobertura da cabeça era, regra geral, praticada pela mulher na Igreja primitiva. Assim, Clemente de Alexandria (c. 150 – c. 215) escreve:

A mulher e o homem devem ir à igreja vestidos decentemente..., pois este é o desejo da Palavra, visto que é conveniente para ela orar velado. (…) Também foi ordenado que a cabeça fosse velada e o rosto coberto, pois é coisa perversa que a beleza seja armadilha para os homens. Nem é apropriado que a mulher deseje tornar-se visível usando um véu roxo.”.

Tertuliano (150 – 220), referindo que a Igreja de Corinto praticava o uso do véu – isto apenas 150 anos após a 1.ª Carta de Paulo aos Coríntios, diz:

Da mesma forma, os próprios coríntios entenderam [Paulo]. Na verdade, atualmente os coríntios cobrem as suas virgens com véu. O que os apóstolos ensinaram, os seus discípulos aprovam.”.

Hipólito de Roma (170-236), dando instruções para as reuniões da Igreja, diz:

Todas as mulheres tenham as suas cabeças cobertas com um pano opaco. (...) A história da Igreja primitiva dá testemunho de que, em Roma, Antioquia e África, o costume [de usar o véu] se tornou a norma [para a Igreja].”.

Orígenes de Alexandria (c. 184 – c. 253) escreve:

Há anjos no meio da nossa assembleia... Temos aqui uma Igreja dupla, uma de homens, a outra de anjos... E, visto que há anjos presentes... as mulheres, quando rezam, recebem a ordem de cobrir a cabeça por causa daqueles anjos. Elas ajudam os santos e alegram-se na Igreja.”.

Na 2.ª metade do século III, mulheres a orar com a cabeça coberta com véu ou lenço são mencionadas como prática da Igreja por São Vitorino no comentário do Apocalipse.

Mais tarde, no século IV, São João Crisóstomo (347 – 407) declara:

“… o negócio de cobrir a cabeça foi legislado pela natureza (vd 1Cor 11,14-15). Quando digo ‘natureza’, quero dizer ‘Deus’. Pois ele é quem criou a natureza. Observe, portanto, que grande dano pode advir de derrubar esses limites! E não me diga que isso é um pequeno pecado.”.

São Jerónimo (347 – 420) observa que as cristãs usam gorro e véu de oração​​ no Egito e na Síria:

Não andem com a cabeça descoberta em desafio à ordem do apóstolo, mas usem uma touca, um lenço ou um véu”.

Santo Agostinho de Hipona (354 – 430) escreve sobre a cobertura da cabeça:

Não convém, mesmo nas mulheres casadas, descobrir os cabelos, visto que o apóstolo ordena às mulheres que mantenham a cabeça coberta”.

Além da conotação religiosa, o véu tem um fim utilitário de proteção e o de distinção social.

A arte cristã primitiva confirma que as mulheres usavam a cabeça coberta. E, até pelo menos ao século XVIII, a cobertura na cabeça, tanto em público como na frequência da igreja, era costumeira para mulheres cristãs nas culturas mediterrânea, europeia, do Oriente Médio e da África. Mulher que não usasse cabeça coberta era interpretada como prostituta ou adúltera. Na Europa, a lei estipulava que mulheres casadas descobrirem o cabelo em público era evidência de castigo por sua infidelidade.

Igrejas Católicas Orientais e Ortodoxas Orientais (vg: a Igreja Ortodoxa Russa) exigem que a mulher cubra a cabeça na igreja. Na Albânia, a mulher cristã usa véu branco, embora os olhos sejam visíveis; e, nos edifícios da sua igreja ortodoxa, as mulheres são separadas dos homens por divisórias de treliça durante o serviço religioso. As mulheres pertencentes à comunidade dos Velhos Crentes usam tapa-cabeças opacas; e as casadas usam gorro de tricô, o povoinik. Noutros casos, a escolha pode ser individual ou variar dentro do país ou jurisdição. Entre as ortodoxas orientais na Grécia, a prática de cobrir a cabeça na igreja diminuiu gradualmente no século XX. Nos EUA, o costume varia consoante a denominação e congregação. As católicas na Coreia do Sul ainda usam a cabeça coberta.

O clero ortodoxo oriental cobre a cabeça, às vezes, com véus no caso de monges ou celibatários, que são colocados e removidos em certos pontos dos serviços. Nas igrejas dos EUA, são usados ​​com menos frequência. As monjas ortodoxas orientais usam uma cobertura na cabeça chamada apostólnik, usada o tempo todo, que é a única parte do hábito monástico que as distingue dos monges ortodoxos orientais do sexo masculino. Na Europa Ocidental e na América do Norte, no início do século XX, mulheres de algumas denominações cristãs (anglicanas, batistas, católicas, luteranos, metodistas, presbiterianas) cobriam a cabeça durante os serviços religiosos.

Historicamente, as mulheres eram obrigadas a usar véu ao receber a Eucaristia após os Concílios de Autun e Angers. E, em 585, o Sínodo de Auxerre (França) declarou que as mulheres deviam usar cobertura na cabeça na Missa. O Sínodo de Roma, em 743, fez uma declaração canónica, mais tarde adotada pelo Papa Nicolau I em 866, para os serviços religiosos:

Uma mulher orando na igreja sem a cabeça coberta traz vergonha sobre a sua cabeça, de acordo com a palavra do apóstolo”.

Santo Tomás de Aquino (1225-1274) distinguiu:

O homem, que existe sob Deus, não deve ter uma cobertura para mostrar que está imediatamente sujeito a Deus, mas a mulher deve usar uma cobertura para mostrar que além de Deus ela está naturalmente sujeita a outro”.

O CIC (Codex Iuris Canonici), de 1917, exigia que as mulheres cobrissem a cabeças na igreja:

As mulheres, entretanto, devem ter a cabeça coberta e estar vestidas com recato, especialmente quando se aproximam da mesa do Senhor”: (Mulieres autem, capite cooperto et modest vestitae, maxime cum ad mensam Domincam accedunt, Codex Iuris Canonici, 1917, can. 1262).

A cobertura da cabeça para mulheres foi unanimemente mantida pela Igreja católica latina até à entrada em vigor do Codex Iuris Canonici (CIC) de 1983. O véu não foi abordado na revisão de 1983 do CIC, que declarou o CIC de 1917 revogado. Segundo o novo CIC, a lei anterior só tem peso interpretativo nas normas repetidas no CIC de 1983, tendo sido todas as outras revogadas e não havendo previsão de normas que não sejam repetidas no CIC de 1983:

A lei posterior ab-roga ou derroga a anterior, se expressamente o declara, se lhe é diretamente contrária, ou se reordena inteiramente toda a matéria da lei anterior; a lei universal, porém, de nenhum modo derroga o direito particular ou especial, salvo determinação expressa em contrário no direito” (CIC, 1983, can. 20). “O costume é o melhor intérprete da lei” (Ibid., can. 27). “Salva a prescrição do can. 5, o costume contra ou à margem da lei é revogado por um costume ou lei contrários; mas, se não fizer expressa menção deles, uma lei não revoga costumes centenários ou imemoriais, nem a lei universal, costumes particulares” (Ibid., can. 28).

Lutero incentiva as esposas a usar véu na adoração pública. As Rubricas Gerais da Conferência Sinódica Luterana Evangélica da América do Norte, contidas na “Liturgia Luterana”, declaram na secção “Capacete para Mulheres”:

É um costume louvável, baseado em uma injunção das Escrituras (1Cor 11,3-15), para que as mulheres usem uma cobertura adequada para a cabeça na Igreja, especialmente no momento do serviço divino”.

Calvino, fundador das Igrejas Reformadas, e  Knox, fundador da Igreja Presbiteriana, convocam as mulheres a cobrir a cabeça na adoração pública. E John Wesley, fundador do Metodismo, sustenta que a mulher, “sobretudo na assembleia religiosa”, deve “manter o véu”.

Em nações como a Europa Oriental e o subcontinente indiano, quase todas as cristãs cobrem a cabeça nos serviços religiosos. No Reino Unido, é comum as mulheres cobrirem a cabeça nos serviços religiosos formais, como casamentos na igreja. Na adoração, no mundo ocidental, muitas mulheres passaram a usar gorro, lenço, mantilha e chapéu, que têm também função utilitária, estética e social. Entretanto, na América do Norte e em lugares da Europa Ocidental, essas práticas começaram a declinar, com algumas exceções, incluindo cristãos que usam roupas simples, como quacres conservadores e muitos anabatistas (incluindo menonitas, huteritas, irmãos batistas alemães antigos, cristãos apostólicos e amish). As mulheres da Morávia usam uma cobertura de renda chamada haube na cabeça, especialmente quando servem como dieners.

Católicos tradicionalistas e cristãos que praticam a doutrina da santidade exterior cobrem a cabeça: além da Igreja Luterana Laestadiana, os Irmãos de Plymouth e as igrejas Presbiterianas Escocesas e Irlandesas e Reformadas Holandesas mais conservadoras. Mulheres crentes das Igrejas de Cristo e as Igrejas pentecostais, como a Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo da Fé Apostólica, a Missão Pentecostal, a Congregação Cristã e a Igreja dos Crentes impõem o véu às mulheres. Mulher Testemunha de Jeová só lidera a oração e o ensino quando homem batizado não está disponível, e fá-lo cobrindo a cabeça. Freiras das tradições católica romana, luterana e anglicana usam o véu como parte do seu hábito religioso.

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O Apóstolo introduz a mencionada passagem da 1.ª Carta aos Coríntios elogiando os cristãos por se lembrarem dos “ensinos” (“tradições” ou “ordenanças”) que lhes havia transmitido. Explica o uso cristão de cobertura ou não da cabeça pelos motivos de chefia, glória, anjos, comprimentos naturais de cabelo e a prática das igrejas. O que diz sobre esses temas induziu diferenças na interpretação dos comentaristas da Bíblia e nas assembleias cristãs. São Paulo fala da obrigação do véu e a sua argumentação relaciona a cobertura da cabeça da mulher com a glória, pois, a natureza ensina que, para o homem, é vergonhoso deixar o cabelo crescer, ao passo que, para a mulher, é honroso ter os cabelos compridos (cf vv. 14-15), mostrando que não se trata só de algo cultural, mas natural. É próprio do feminino a elegância, a busca da expressão da beleza interior pelo cuidado com a aparência. Assim, é tipicamente feminino o cuidado com os cabelos.

Diante disso, a mulher cobrir a cabeça no momento dar glória a Deus é esconder a sua própria reverenciando Aquele que merece toda a glória. Usar o véu em atenção aos anjos significa que está com eles a participar num culto de adoração a Deus. Todas as criaturas, homens, mulheres e anjos, se prostram diante de Deus para adorá-Lo e, nesse momento, todas devem esconder a sua glória e dar glória a Deus. Cobrindo a cabeça, a mulher realiza isso de forma ritual. Por isso, quando cobre a cabeça na igreja, simboliza a sua dignidade e humildade ante Deus. O véu cobre o que o Senhor chama de “glória da mulher”: o cabelo. Cobrir o cabelo é gesto da mulher para mostrar a Deus que reconhece que a sua beleza é menor que a d’ Ele e que a glória d’Ele está muito acima da sua, bem como para mostrar a sua vontade de se manter velada a fim de que só Deus seja glorificado e de O adorar no oratório interior do seu coração, a sua alma.

O véu confere à mulher um sentido de dignidade e beleza. Identifica-a com a maior criação de Deus, a Virgem Maria, Mãe de Deus. Na Liturgia, cobre-se delicadamente a dignidade dos seus diversos elementos: o véu frontal cobre o Sacrário, um véu cobre o cálice e o cibório, a toalha branca cobre o altar, a casula cobre o sacerdote que oferece o Sacrifício da Missa. Assim o véu cobre a mulher, chamada a ser, pela Sagrada Comunhão, como a Virgem Maria, Sacrário vivo do Corpo de Deus. A mulher contém em si, atributos (honra, fama e beleza) que saíram de Deus e nela estão como canal da graça para o homem, pois Ele assim quis ao criar o ser humano. A este respeito, escrevia o Cónego Constant Tonnellier:

A Beleza Suprema não podia senão criar a beleza. No cosmos tudo era equilíbrio e reflexo da Beleza criadora. Que olhares podiam descobrir o Belo? Os do homem e da mulher, criados a imagem de Deus, a quem Deus insuflou seu hálito de vida, capazes de se maravilharem um diante do outro, num face a face que conduz ao olhar criador que faz o outro existir. Eis a obra primordial de Deus, o seu primeiro olhar de amor: o homem elevado na beleza de Deus e, pelo homem, todas as criaturas, feitas para ele, e ele a ter parte comum com esse universo. Uma criação manando de mil graças.”.

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Afora, alguns protocolos civis e eclesiásticos, não é obrigatório o uso feminino do véu. Com efeito, a interpretação das disposições paulinas não pode ser desligada do contexto cultural, não podendo a ideia de secundarização e submissão (embora diferentes de sujeição) femininas ofuscar a ideia de igual dignidade fundamental preconizada pelo Apóstolo. Nem as ideias de recato, beleza e dignidade se vinculam ao véu, gorro, boné, bivaque, barrete, boina ou chapéu. Importa, antes, o culto em espírito e verdade.

Em todo o caso, é bom que não se percam as motivações que presidiram à prescrição da cobertura da cabeça. Por conseguinte, tal como o cardeal, o bispo, o abade e o presbítero usam o barrete em situação coral, o bispo e outros prelados usam o solidéu (judeus e muçulmanos usam objeto parecido), exceto diante do Santíssimo Sacramento, e o bispo usa a mitra em certos momentos da ação litúrgica, também a mulher, recebida a devida bênção sacerdotal, pode usar o véu ou o gorro como sacramental. Na verdade, como refere o Catecismo da Igreja Católica (n.º 1667), a Igreja instituiu os sacramentais como são sinais sagrados pelos quais, à imitação dos sacramentos, são significados efeitos espirituais que dispõem os fiéis a receber o efeito principal dos sacramentos e a santificar as diversas circunstâncias da vida.

Os sacramentos, instituídos por Cristo, conferem a graça santificante que apaga o pecado ou aumentam a graça que já se possui; os sacramentais, criados pela Igreja não conferem a graça em si, mas são vias que conduzem a ela. Assim, como crucifixo, água benta, medalha, terços, escapulário, imagem do Senhor, da Virgem e de santos são sacramentais, o véu também o será.

Não há regra sobre a cor, mas recomenda-se o branco (ou outra cor clara) para moças solteiras e preto (ou outra cor escura) para senhoras casadas ou viúvas. Não é contraindicado véu colorido, mas há de imperar bom senso evitando cor berrante, que chame demasiado a atenção.

Por fim, é de recordar que Paulo fez as susoditas advertências porque as assembleias coríntias estavam a funcionar mal (causando “mais prejuízo que proveito”). Fazendo o banquete de festança, esqueciam que tomavam o Corpo do Senhor e comiam e bebiam a própria condenação. Ora, segundo São Boaventura a Missa é a obra em que Deus coloca sob os nossos olhos todo o amor que nos tem, a síntese dos benefícios que Ele nos faz. Portanto, toda e atenção no essencial e que os acessórios constituam uma via de melhor acesso ao essencial e de seu testemunho!

2021.02.21 – Louro de Carvalho

As tentações de Jesus em chave de leitura da condição humana

 

O curtíssimo trecho do Evangelho de Marcos (Mc 1,12-15) assumido para proclamação e meditação no 1.º domingo da Quaresma no Ano B consta de dois minúsculos fragmentos narrativos: um centrado no deserto, para onde o Espírito Santo impeliu Jesus; e outro, na Galileia para onde Jesus partiu e começou a pregar a Boa Nova.

Seria absurdo o Espírito levar Jesus à tentação. Levou-o ao deserto, porque o deserto era o lugar privilegiado do encontro com Deus, pois ali o povo de Israel experimentou o amor e a solicitude do Senhor, que ali lhe propôs uma Aliança bilateral. Ao mesmo tempo, é o lugar onde o tentador se aproxima do homem fragilizado para ensaiar sedutoramente o seu aprisionamento. Porém, se o povo escolhido cedeu à tentação, Jesus, inserido no deserto, sujeito à condição humana permeável à tentação, soube-lhe resistir: não pecou. Enfim, sujeito à condição frágil e pecadora do homem, não caiu no pecado, garantindo que o pecado seria erradicado do mundo.

O deserto para onde o Espírito impeliu o recém-batizado por João Batista, Aquele que acabou de ser proclamado o Filho dileto do Pai, é o lugar do encontro com Deus e do discernimento do seu desígnio e o lugar de purificação e prova, em confronto com a tentação de abandonar Deus e de seguir outros rumos, mas onde se pode criar a resiliência e sair da crise como fez Jesus.

Dom António Couto adverte que o deserto figurado no texto não se ajusta à noção dicionarista ou enciclopédica. Não é lugar geográfico, mas teológico, pois apresenta-se com muita água (Jo 3,23), cumprindo Isaías 35,6-7, 41,18 e 43,19-20, com árvores (canas) (cf Mt 11,7; Lc 7,24)relva verde (Mc 6,39), cumprindo Isaías 35,1.7 e 41,19. É lugar provisório e preambular, onde se está a céu aberto com Deus, onde troará a voz do seu mensageiro (Is 40,3), de João Batista (Mt 3,1-3), do Messias segundo uma tradição judaica recolhida em Mateus 24,26. O deserto é o lugar onde se pode começar a ver a obra nova de Deus, um caminho (Is 43,19). E, como lugar provisório, onde se está de passagem, e não definitivo para se habitar como pensavam os Essénios, aponta para o definitivo, a Terra Prometida, onde Deus fará habitar e descansar o povo. O deserto é, pois, metáfora da nossa vida, onde sabemos que estamos de passagem. E, não tendo pontos de referência nem marcos de sinalização, só podemos caminhar se tivermos um bom guia. E esse guia é o Filho de Deus que se deixa impelir pelo Espírito, querendo que nós assim procedamos deixando-nos conduzir pelo Espírito, que nos ensinará, guiará e fortalecerá.  

Jesus ficou ali “40 dias”. O número 40, recorrente no AT (Antigo Testamento), evoca a longa caminhada de Israel pelo deserto (40 anos), da terra da escravidão para a da liberdade, como pode referir-se à vida toda (a esperança média de vida, na época, rondava os 40 anos). Sendo assim, a estada de Jesus no deserto assume a caminhada do seu povo rumo à liberdade, que dá sentido à vida, e prenuncia que a vida “terrena” do Messias estará por um fio (faltam 3 anos).

Nesse tempo, Jesus foi tentado por Satanás. Satanás, o adversário que, no contexto do julgamento, apresentava a acusação (cf Sl 109,6), passou a ser a personagem que, integrando a corte celeste, acusava o homem diante de Deus (cf Jb 1,6-12; 2,1-6). Porem, na época de Jesus, era considerado um espírito mau, inimigo do homem, que procurava destruir o homem e frustrar o plano de Deus. Assim, tenta levar Jesus a esquecer o projeto divino e fazer escolhas mundanas, como milagres caprichosos e espetaculares, acumulação de riquezas e detenção de poder.

Com efeito, no deserto se refugiavam e preparavam os agitadores e os rebeldes com pretensões messiânicas. A convivência com as feras, registada por Marcos tanto pode evocar o tempo em que Adão vivia em paz completa com todos os animais, como pode sugerir a tentação da luta pela delimitação de espaço próprio com recurso à violência. Não obstante, ao invés de Adão, que cedeu à tentação usando mal a liberdade com que Deus o exornou, e do povo de Israel, que se revoltou clamando pela carne das panelas e cebolas podres que deixou no Egito e caiu na idolatria, o Nazareno fez da liberdade – provada e purificada – instrumento de resposta negativa à tentação e de adesão incondicional e definitiva ao desígnio do Pai. Por isso, os anjos O serviam, aliás como sevem na corte celestial e como serviam Adão no paraíso terreal. Isto significará que Jesus restabelecerá a harmonia primeva (Is 2,4; 11,6-9) que o primeiro homem rompeu com o pecado em que fez vingar a autossuficiência humana para desafiar Deus.

Com Jesus, chegou o tempo messiânico de paz sem fim, chegou o tempo de o mundo regressar a essa harmonia que era o plano inicial de Deus.

Marcos sugere que, ao longo de toda a sua existência (“40 dias”), Jesus se confrontou com dois caminhos de vida: viver na fidelidade ao projeto do Pai, fazendo da sua vida uma entrega de amor; ou frustrar o plano salvífico do Pai, enveredando por um caminho messiânico de poder, de violência, de autoridade, de despotismo, ao jeito dos grandes do mundo. E Jesus escolheu viver na obediência o Pai, surgindo desta opção um mundo que reproduz o plano de Deus.

No segundo fragmento narrativo, Marcos transporta-nos para a Galileia, onde Jesus aparece a concretizar o plano salvador do Pai que decidira concretizar.

Começa por anunciar que “chegou o tempo”, o “tempo” do “Reino de Deus”, expressão que nos leva a um dos grandes sonhos do Povo de Deus.

Dom António Couto, chama a atenção para a circunstância de isto suceder depois da entrega do Batista à prisão: “Depois de João ter sido entregue (paradothênai: infinitivo aoristo passivo de paradídômi) (Mc 1,14). Trata-se duma prolepse que já nos faz divisar o que vai suceder a Jesus, acerca de quem o verbo será usado 13 vezes.

Por outro lado, salienta a vinculação de Jesus ao anúncio, com “o uso do verbo anunciar (kêrýssô) para traduzir o afazer primeiro de Jesus” (Mc 1,14), o que sucedeu com o precursor e sucederá com os futuros arautos da Boa Nova.

Os profetas alimentavam a esperança do Povo anunciando a chegada dum tempo futuro em que o Senhor voltaria a reinar sobre Israel restabelecendo a situação ideal da época de David. Tal missão, em ótica profética, será confiada a um “ungido” (em hebraico, “messias”; em grego, “cristo”) que Deus enviaria ao Povo para estabelecer um tempo de paz, justiça, abundância, felicidade sem fim (vd Is 25,6-9) – isto é, o tempo do “reinado de Deus”.

Esta esperança está viva no coração de Israel quando Jesus surge a dizer: “cumpriu-se o tempo e está próximo o reino de Deus”. E Ele começa a construção do Reino pedindo aos conterrâneos a conversão (“metanoia”) e o acolhimento da Boa Nova (“evangelho”).

Na verdade, o primeiro dizer de Jesus vem articulado em duas declarações indissociáveis: “Foi cumprido (peplêrotai: perfeito passivo de plêróô) o tempo (ho kairós),/ e fez-se próximo (êggiken: perfeito de eggízô) o Reino de Deus (hê basileía toû theoû)(Mc 1,15). O acento cai sobre os dois perfeitos que abrem as declarações de Jesus, e revelam que o Evangelho é, antes de mais, o anúncio da iniciativa divina, Deus em ação, que abre ao homem novas perspetivas. O perfeito passivo (peplêrotai), que carateriza o kairós, mostra que Jesus não se refere a qualquer segmento de tempo cronológico, mas ao específico do cumprimento, posto expressamente sob a intervenção definitiva de Deus, pois só Deus pode agir sobre o tempo cronológico, tornando-o kairós, tempo de alegria e esperança. O anúncio precede o apelo: Jesus não começa com normas e exigências, mas assinala quanto Deus já fez e está a fazer em nosso favor, por sua gratuita iniciativa. E, como normal consequência, surgem na boca de Jesus dois imperativos: “Convertei-vos” (matanoeîte) e “acreditai (pisteúete) no Evangelho” (Mc 1,15), que traduzem o que incumbe aos homens fazer.

“Converter-se” significa transformar a mentalidade, atitudes e comportamentos, reformular os valores que orientam a vida; é reequacionar a vida, de modo que Deus passe a estar no centro da existência do homem e ocupe sempre o primeiro lugar, não sendo possível que esse mundo novo se torne realidade sem que o homem renuncie ao egoísmo e autossuficiência e passe a escutar, de novo, Deus, que deixa as suas marcas e anseios no mundo dos homens.

“Crer” não se cinge a acatar um conjunto de verdades intelectuais; é, sobretudo, aderir à pessoa de Jesus, escutar a sua Palavra e acolhê-la no coração, fazendo dela o guia da própria vida.
“Conversão” e “adesão ao projeto de Jesus” são duas faces de mesma moeda: a construção do homem novo, com nova mentalidade, com novos valores; e postura vital inteiramente nova.

E as tentações e provações da fé, condição humana a que Jesus se sujeitou para nos ensinar a ultrapassá-las, constituem o teste quotidiano à nossa capacidade de resiliência e, purificando-nos, podem constituir a vitória da liberdade sobre a libertinagem.  

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A Nova Aliança do Reino de Deus que Jesus anuncia é prefigurada de muitos modos no AT. E o texto que esta dominga tem como 1.ª leitura (Gn 9,8-15) é um segmento do pós-dilúvio.

No quadro das tradições sobre as origens do mundo e dos homens que preenchem os 11 primeiros capítulos do Livro do Génesis, episódios carregados de lenda mesopotâmica que o hagiógrafo utiliza para dizer que na origem de tudo e na condução de tudo está a voz e a mão de Deus, emerge o episódio do dilúvio (Gn 6,1-9,17), um cataclismo de águas, que teria eliminado toda a humanidade, exceto Noé e a sua família.

O mais provável é que o dilúvio descrito no Génesis (quase copiado de textos mesopotâmicos) se refira a uma das inúmeras inundações do Tigre e do Eufrates. Não se tratou de um dilúvio universal, no sentido da universalidade como se entende hoje, mas em “toda a terra”, a que o olhar do homem mesopotâmico abrangia (mesopotâmia = entre rios: Tigre e Eufrates). Porém, com o tempo, a fantasia popular teria atribuído tais inundações a um “castigo universal” que atingiu o conjunto da humanidade. O autor bíblico, conhecedor dessas lendas antigas, usa-as como pano de fundo para fazer catequese e transmitir uma mensagem religiosa.

O catequista javista e o sacerdotal querem dizer ao Povo que o Senhor não fica de braços cruzados quando os homens se lançam por vias de corrupção e de pecado. E, porque Deus não castiga cegamente bons e maus, propõem a salvação do justo Noé e da sua família.

O trecho desta liturgia situa-nos na fase subsequente ao dilúvio, quando já havia deixado de chover e quando Noé e a família tinham desembarcado. Os sobreviventes erigiram um altar e ofereceram holocaustos sobre o altar. E Deus comprometeu-Se a não mais “castigar os seres vivos” de forma tão radical (cf Gn 8,13-22), abençoou Noé e a sua família (cf Gn 9,1-7) e fez uma Aliança com eles. O texto apresenta-nos os termos de uma Aliança oferecida por Deus à nova humanidade, representada por Noé e sua família, presente e futura, e a todos os seres criados, representados pelos animais que saíram da Arca. Nela, Deus compromete-Se a depor o seu “arco de guerra” e a garantir a perenidade da ordem cósmica. É uma Aliança diferente da Aliança com Abraão, da Aliança com Israel no Sinai e de qualquer outra Aliança com os homens. Nas outras Alianças, a pessoa ou Povo eram chamados a uma relação de comunhão com Deus e aceitavam ou não esse desafio; se o indivíduo ou o Povo em causa não aceitassem, não haveria relação e, portanto, não haveria Aliança. Aqui, a Aliança não implica nenhuma adesão da parte do homem, nem implica qualquer promessa. É um puro e incondicional dom de Deus, um fruto do seu amor e da sua misericórdia.

O sinal desta Aliança é o arco-íris. Em hebraico, a palavra “qeshet” designa o arco-íris e o arco de guerra. Evocando tal duplicidade, o teólogo sacerdotal sugere que o Senhor pendurou na parede do horizonte o seu arco de guerra para mostrar ao homem a sua intenção pacífica. O arco-íris – arco-da-velha (aliança) – sinal belo que toca céu e terra, é o arco do Senhor, pelo qual a bondade de Deus, abraçando o mundo e os homens, oferece a paz a toda a criação.

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O texto da 1.ª Carta de Pedro tomado como 2.ª leitura (1Pe 3,18-22) releva que Jesus Cristo veio ao mundo e partilhou as nossas dores e limitações para concretizar o desígnio de salvação do Pai em prol dos homens. Aquele que é justo e bom aceitou morrer para levar todos os homens à vida verdadeira. A sua morte não foi um fracasso, pois a sua vida não terminou no sepulcro, mas, vivificado pelo Espírito, alcançou de novo a vida e a glória (1Pe 3,18) e “foi pregar aos espíritos que estavam na prisão da morte e tinham sido rebeldes” (1Pe 3,19-20). A afirmação refere-se provavelmente à verdade proclamada no credo cristão de que o Ressuscitado desceu “à mansão dos mortos” para libertar todos aqueles que eram prisioneiros da morte. A morte e a ressurreição de Cristo têm uma dimensão salvadora que atinge toda a humanidade, mesmo a humanidade pecadora que conheceu o dilúvio, no tempo de Noé, que anteviu a redenção.

No dilúvio, o pecado foi afogado e da água ressurgiu a nova humanidade. A água do dilúvio é, para os crentes, figura do Batismo, pelo qual os crentes aderem a Cristo e à salvação que Ele veio oferecer. Na água do Batismo, os crentes nascem para a vida do bem, da justiça e da verdade (1Pe 3,21). Portanto, se Cristo propiciou, mesmo aos injustos, a salvação, também os cristãos devem dar a vida e fazer o bem, mesmo quando são perseguidos e sofrem. Comprometidos com Cristo pelo Batismo, nasceram para a vida nova, que devem testemunhar diante de todos, mesmo diante dos maus e dos perseguidores.

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A Quaresma prepara especialmente para a Ressur­reição do Senhor. Porém, todos os tempos e todos os domingos do Ano Litúrgico (portanto, também a Quaresma e seus domingos) – estão depois e por causa da Ressurreição. E à luz do Ressusci­tado com o Espírito Santo (Batismo consumado: Lc 12,49‑50) que a Igreja – e cada um de nós – pode celebrar a fé, proceder à correta leitura das Escri­turas e encetar a caminhada quaresmal. Assim, todos os batizados são chamados a refazer com Cristo bati­zado no Espírito o seu programa batismal, cujo conteúdo e itinerário se conhece: do Batismo no Jordão, pela Trans­figuração/Confirmação no Tabor, até à Cruz e à Glória da Ressurreição (Batismo consumado), escutando e anunciando sempre e cada vez mais intensamente o Evangelho e fazendo sempre e cada vez mais intensamente as obras do Reino (At 10,37-43).

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Com efeito, se as tentações fazem parte da condição humana, também pertence à condição humana a capacidade de regeneração. Cristo, sem cair em tentação, ensinou a sair dela. Submeteu-se ao Batismo de João e ofereceu-nos o seu Batismo de Cruz e Ressurreição.

2021.02.21 – Louro de Carvalho