segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

O real alcance e interesse dos acordos ditos de regime

A entrada em cena de Rui Rio apregoa novo momento em Portugal: sem Passos, serão mais fáceis os entendimentos com o PS em matérias estruturais. Porém, nada garante que tal suceda, apesar de estar a formar-se um curioso trio dos pactos de regime: ao desafio de Marcelo, o patrocinador de consensos (por apelo de Nuno Morais Sarmento) junta-se Costa e o líder do PSD.
Alegadamente com o intuito de Rio e Costa fecharem dois acordos até ao próximo verão, Pedro Marques, Ministro do Planeamento e das Infraestruturas, encontrar-se-á, no próximo dia 27, segundo o Expresso do passado dia 24, com uma delegação do PSD, liderada por Manuel Castro Almeida, ex-Secretário de Estado do Desenvolvimento Regional, para abordar a preparação do quadro comunitário pós-2020, naquela que é a primeira de várias reuniões para encontrar consensos entre o PSD e o Governo. E, para abordar a problemática da descentralização, Álvaro Amado foi o escolhido do PSD para reunir com Eduardo Cabrita, Ministro da Administração Interna. Os principais temas em que os dois partidos querem acertar agulhas são o plano para o quadro comunitário pós-2020 e a descentralização, bem como a reprogramação do quadro de fundos da UE Portugal 2020, mas Justiça e Segurança Social também estão em cima da mesa.
A seguir ao 37.º Congresso do PSD, António Costa reuniu com o novo líder socialdemocrata com vista a entendimentos possíveis até ao verão. Apesar do prazo apertado para a negociação, os dois dirigentes parecem entender-se, tendo classificado o encontro como “muito construtivo”. Segundo o Expresso, na reunião de duas horas e meia, Costa e Rio falaram de fundos europeus, descentralização e também de Justiça e Segurança Social.
Todavia, Costa esclareceu que os acordos com o PSD não servirão para pôr em causa o acordo parlamentar de esquerda, não havendo “nenhuma razão para mudar nada”. Ao invés, assinalou que, sobre certos temas, “é desejável que não se limite a haver um acordo entre os partidos da maioria, mas que possa ser alargado a outras forças políticas, designadamente ao PSD”.
Nestas matérias e apesar de estarmos em ano pré-eleitoral, creio que os acordos podem resultar, já que, em matéria de descentralização, também os partidos à esquerda acordam em princípio, embora entendam que o Governo não vai tão longe como devia; e, no respeitante ao quadro comunitário, não concordam, mas não se metem para não inviabilizar esta solução de governo.   
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É óbvio que os dois ex-presidentes das duas principais câmaras do país têm, sem surpresas, a descentralização como o tema mais consensual. Também poder haver pontes nos fundos comunitários. Mais difícil, apesar dos objetivos aparentemente comuns, será o acordo na estratégia para a Educação, Saúde e Segurança Social, ainda que Rio tenha deixado o apelo no congresso e Costa tenha confirmado essa vontade, dizendo ser “positivo para o país a nova disponibilidade do PSD”. Não há dúvidas de que Rui Rio quer dialogar:
       “Tenho como muito relevante, senão mesmo decisivo para o futuro de Portugal, o diálogo entre os partidos”. 
Não há bloco central, mas haverá mais diálogo do que com Passos. Rio até deixou um aviso subtil ao PS, antecipando uma posição negativa dos socialistas:
     “Do ponto de vista eleitoral é de salutar evidenciar e explicar as nossas diferenças, mas quando levamos para lá da própria realidade e, dessa forma, nos fechamos completamente, só estamos a prejudicar o interesse nacional”.
Após o encontro com o Primeiro-Ministro em São Bento, Rio garantiu que existe “uma nova fase entre o PS e o PSD”, considerando “imprescindível que haja em Portugal este ambiente de cooperação entre os dois maiores partidos”, embora não baste. E o líder do PSD assinalou que os consensos serão “mais fáceis” com o CDS do que com o BE, embora não queira excluir “ninguém”, querendo, antes, “introduzir uma cultura diferente em que, desde que não haja grandes divergências, se consiga dialogar em prol do país”.
E, a completar o trio, Marcelo garantiu a sua disponibilidade para “acompanhar de forma empenhada” a convergência entre partidos em matérias estruturais, dizendo:
    “Se eu ando há dois anos a apelar a esse estado de espírito, é porque sem dúvida o Presidente da República considera que é útil para Portugal que se procurem domínios, primeiro que se apure quais são os domínios, e, dentro dos domínios, se procure formas de diálogo entre os vários partidos”.
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A crítica ao caso da “Google”, que optou por Lisboa, não afetará o objetivo de Rio e Costa na descentralização. Já antes, enquanto autarcas, defendiam uma desconcentração do Estado em Lisboa. Como lembrou Costa, tinham “pontos de vista comuns em matéria de descentralização”. Agora espera continuar “a ter esses pontos de vista comuns”. E Rio confirmar essa esperança do Primeiro-Ministro: “A reunião fez-me lembrar outras que tivemos no passado”.
No congresso, o líder do PSD sugeriu o Tribunal Constitucional e a Provedoria da Justiça em Coimbra. Mas agora propõe uma descentralização calma, evitando casos como o do Infarmed:
    “Não pode ser mudado, obviamente, de um dia para o outro, mas tem de se inserir numa estratégia de médio e longo prazo, consistente, coerente e convicta. […] Os países mais atrasados são aqueles que concentram e tudo centralizam. Os países desenvolvidos são os que descentralizam e menos concentram.”.
Porém, Rio não está a pensar na regionalização, ideia que não mais repetiu.
No final de 2017, o Primeiro-Ministro disse querer o pacote da descentralização aprovado até 2019, ou seja, antes das eleições e realçou que não quer que esta seja uma reforma do PS, mas de toda a AR. Contudo, nos detalhes é que está o problema. Como o processo tem vários intervenientes – a ANMP (Associação Nacional de Municípios Portugueses) e a ANAFRE (Associação Nacional de Freguesias), por exemplo – não será fácil chegar rapidamente a consensos. Até outubro passado, as eleições autárquicas impediam avanços. Depois, a instabilidade no PSD. Agora parece ser o momento, antes do início do clima pré-eleitoral das eleições europeias e legislativas, dando o PS sinais positivos com Carlos César a classificar Rio de interlocutor mais “válido” face ao passado recente do PSD. Porém, não será fácil equilibrar o financiamento e o alargamento das competências, mantendo as finanças públicas sãs e a transparência.
As obras públicas foram o único ponto em que foi explícita a vontade do Governo de fazer um pacto com o PSD – o apelo chegou no verão, mas foi recusado. Rio não falou do tema no congresso, apesar de ser um dos primeiros dossiês onde pegará. Também na sua moção de estratégia global, não há qualquer referência a fundos comunitários, mas o tema será discutido, até porque Rio já tem em mãos um documento do Governo. E Costa frisou que a definição da estratégia para o pós-Portugal 2020 “deve ter um acordo e um apoio o mais vasto possível”.
Uma notícia do Público em janeiro revelava que o PSD não quererá mais estradas, devendo a aposta ser um aeroporto e as ferrovias, nem investimentos para satisfazer lobbies. A incidência será na investigação científica e na criação de infraestruturas necessárias à gestão mais eficaz do Estado, incluindo informação estatística e sobre o território, sendo que a questão dos fundos comunitários está ligada à da descentralização, uma vez que o Presidente da República já apelou à inclusão dos “Portugais demasiadas vezes esquecidos”. Já em janeiro, o Conselho de Estado “realçou o papel crucial da coesão social e territorial para Portugal, papel esse necessariamente presente nas complexas negociações do Quadro Financeiro Plurianual da União Europeia”. O Governo definiu o primeiro semestre deste ano como meta para a definição de consensos nos fundos. E Rio disse, à saída do encontro com António Costa:
    “O imediato é a questão do próximo quadro comunitário de apoio, o Portugal 2030 como lhe chamou o Governo, e temos de andar rápido. E a questão da descentralização ou municipalização.”.
Contudo, é de registar que o orçamento comunitário vai encolher com a saída do Reino Unido e, se as soluções que aumentem as receitas não chegarem a tempo, Portugal será um dos prejudicados enquanto país que beneficia do Fundo de Coesão.
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Há, porém, três matérias que suscitam mais divergências: a Segurança Social, a Saúde e a Educação. A Segurança Social é uma preocupação que está na cabeça de Costa e de Rio, mas onde o acordo será difícil. Rio explicou no congresso:
    “No espaço de uma geração teremos, para cada idoso, apenas um trabalhador e meio no ativo, e teremos três idosos para cada jovem. Esta realidade vai exercer uma grande pressão sobre a Segurança Social.”.
Até o Ministro da Segurança Social admitiu que a sustentabilidade do atual sistema começará a estar em risco a partir de 2030. O líder do PSD não quer fazer alterações de curto prazo, mas a pensar no longo prazo. Assim, declarou, no passado dia 20, que “não estão em causa alterações à situação presente”, mas que é preciso “tomar medidas e reformar para o futuro, para o que vai ser a Segurança Social daqui a 10 anos, tendo em conta a situação demográfica”.
Se há consenso nas preocupações, nas soluções o acordo será crítico. Dificilmente o PS alinhará na proposta de Rio sobre uma parcela da pensão variável, em função do crescimento económico, até mesmo na diversificação das fontes de receita. E Rio foi crítico, por exemplo, do aumento da derrama estadual cuja receita reverte para a Segurança Social. Em contraponto, se o Governo continuar a optar por tributar o capital – Costa já disse que “tem de haver novas formas que não dependam só dos salários”. Ora, dificilmente o novo PSD apoiará esta linha de ação.
Na Saúde, o PS está mais perto do PSD do que do PCP ou BE, mas o legado deixado pelo anterior Governo é frequentemente alvo de críticas. Por seu turno, a oposição socialdemocrata tem utilizado as situações dramáticas dos hospitais para criticar a atual solução governativa. Para Rio “tem de haver investimento no apetrechamento humano, nos equipamentos e na sensibilização da população em termos de cuidados de saúde”. Costa também quer isso, mas diz que os investimentos não podem ser feitos todos de imediato e aproveita para criticar o anterior Governo. Na comemoração dos 40 anos do SNS, Costa disse que esta é “uma excelente altura” para se refletir sobre o sistema público de saúde – um bom indicador para futuros consensos com Rio. Ambos partilham a ideia da coexistência entre o SNS e um serviço privado, o que os distingue da extrema-esquerda. Mas isso poderá não será suficiente para os juntar na reforma.
Na Educação, o caso será ser mais fraturante. Rio acusou o Governo de “experimentalismo pedagógico” e de causar instabilidade no sistema de ensino: 
    “Reverte-se, subverte-se e lança-se a instabilidade nas escolas só porque se teima que tudo tem de mudar sem diagnóstico rigoroso, sem avaliação do que foi feito e sem compromisso com as principais forças políticas e sociais”. 
Para o líder socialdemocrata importa “dignificar o papel dos professores através de uma formação inicial mais exigente e de uma profissionalização mais rigorosa”. E uma das frases mais aplaudidas do discurso do último dia do Congresso não cairá bem no eleitorado socialista:
    “Os professores são profissionais do conhecimento e não animadores de salas de aula”.
Será que, no atinente à Justiça, Rio seguirá a linha da sua vice-presidente Elina Fraga revertendo o atual mapa judiciário (que é o de Passos com retoques de cosmética) e gerado por Sócrates?
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Ora, do Bloco de Esquerda vem a informação de que no investimento público não se “sente necessidade” de diálogo com PSD. Foi o que afirmou em Leiria Catarina Martins, ali presente para as jornadas parlamentares do BE, quando foi questionada pelos jornalistas. E sublinhou que se tem ficado “aquém do que é possível”, no que diz respeito ao investimento público, nos Orçamentos do Estado. Interpelada sobre o impacto da aproximação do PSD ao PS, Catarina respondeu secamente, segundo a RTP3, que “mais importante do que debater reuniões, encontros ou desencontros [com os laranjas], é debater propostas políticas concretas” para o país.
A coordenadora do BE frisou que só acordo à esquerda “pode permitir opções de investimento público que combatam os problemas estruturais da economia portuguesa”. E deixou um aviso:
    “Se um acordo à esquerda permitiu uma recuperação de salários e pensões, algum crescimento económico e criação de emprego também só um acordo que seja com a esquerda pode permitir opções de investimento público que combatam os problemas estruturais da economia portuguesa, nomeadamente combatam os setores rentistas, o endividamento externo, a assimetria do território e o défice social que tem o nosso país”.
E, no discurso de hoje, dia 26, sustentou que a ferrovia pode ser o motor da reconversão energética do país; isto é, o investimento nas linhas férreas pode, segundo a bloquista, ser sinónimo do combate ao aquecimento global, bem como da diminuição do endividamento externo e diminuição das assimetrias do território nacional.
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Marques Mendes, por sua vez, disse no comentário dominical do dia 25, na SIC que a primeira semana de Rio não foi brilhante. Mas percebeu-se a ideia central: Rio foi um líder anti-Passos. E especificou alguns pontos: o diálogo com António Costa, a escolha de Elina Fraga, a ideia (vazia) de uma política de justiça (para todos) e o confronto com os deputados. E frisou que esta estratégia “tem alguns problemas”. Os contactos entre o líder da oposição e o Governo são positivos, mas Rio admitiu negociar alguns acordos, mas que são a agenda de Costa. E Mendes considera que há um falhanço nestas negociações: ficou de fora o desenvolvimento do Interior, a coesão”. Por isso, tem de haver um terceiro acordo na discussão do governo e do PSD. E o que Rio disse da justiça e da segurança social é quase nada.
O comentador político afirmou que Rio faz bem em demarcar-se de Passos Coelho, “mas tem de ser por causas e não por casos”. Um deles é o da eleição de Fernando Negrão. E sobre isto disse:
    “Negrão é mais vítima do que réu. No lugar dele, tinha vindo embora, mas tem legitimidade para ficar. O principal teste e desafio são os debates com o primeiro-ministro. Se não estiver bem, fragiliza-se ainda mais.”.
E Marques Mendes, também esquecendo a Justiça, atira:
    “Já é tempo de o PSD começar a fazer oposição, o que se passa na saúde, na dívida pública”.
Segundo ele, o estado de graça do Ministro da Saúde acabou (mas não vai cair), porque as críticas são generalizadas: hospitais queixam-se da falta de médicos, há dívidas a fornecedores. Também no setor, “não foram feitas reformas, nem vão ser feitas”, diz Mendes, que julga estar o Governo a gerir o quotidiano. Ao fim de dois anos de governação, os problemas vêm ao de cima e vai suceder noutros setores, como na educação, sendo que, para o comentador, o problema está na própria geringonça e na ditadura das finanças. E “o PSD e o CDS andam distraídos.
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Não percebo a lógica de acordo de regime em temas basilares e chutar o bloco central, como é difícil acordo estável e alargado em temas como Justiça, Saúde e Educação. Quanto ao investimento público, não é esperar o apoio de 2/3 dos deputados. Quem governa deve buscar decidir o apoio suficiente para decidir e não defraudar com recuos o interesse público.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

Queimada viva por supostamente estar possuída pelo diabo


O texto que se segue resulta da leitura dum longo artigo-reportagem de Rita Cipriano no Observador, tendo a trama servido de base à peça “O Crime da Aldeia Velha”, de Bernardo Santareno, e ao filme homónimo, de Manuel Guimarães. Cinjo-me ao essencial do relato, ainda vivo na memória de algumas pessoas, mas sem referências usuais visíveis na aldeia.
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Duas noites havia que se ouviam gritos na casa de Joaquina de Jesus Couto, no lugar de Oliveira, freguesia de Soalhães. Doente há cerca de um ano, o seu estado piorara nos últimos tempos, levando o povo a chamá-la de “Joaquina, a tola”. Sem esperança de melhoras, um padre foi chamado a lhe dar a extrema-unção e os amigos e familiares revezavam-se-lhe à cabeceira em oração e fazendo defumadouros com folhas de oliveira.
O dia 25 de fevereiro de 1933 não foi diferente. O vizinho Anastácio Pereira chegou a casa da “tola” e do marido António de Queiroz Correia durante a tarde com o Livro de S. Cipriano, em que a doente tinha muita fé. Segurando um Crucifixo, Anastácio começou a ler excertos do livro de magia, que os vizinhos, ali reunidos, repetiam em coro, contra as indicações do abade.
Pelas sete da tarde, chegou o cunhado Alexandre de Oliveira, que morava na Lameira, freguesia de Tabuado, que, sabendo que Joaquina não andava bem de saúde, fez-lhe uma visita. Encontrou a casa cheia: a doente, Anastácio, o marido, os seis filhos (o mais velho tinha 14 anos e o mais novo era bebé de colo), Francisco e Manuel de Queiroz Correia, irmãos de António, a mulher deste último, Virgínia de Jesus, José Monteiro e a irmã, Arminda de Jesus Pereira, vizinha e amiga, que tomava conta da doente por ocasião das crises. Embora pobre, a casa de Joaquina e António tinha uma sala espaçosa, com grande lareira, onde o casal dormia com as crianças.
Joaquina gritava descontroladamente, clamando que era santa e que o espírito do sogro falava através dela. Os vizinhos rezavam segundo as indicações de Anastácio. Apenas Alexandre observava em silêncio. O agricultor de 39 anos não acreditava naquilo que a cunhada dizia. De súbito, Joaquina ordenou que se deitassem no chão Virgínia de Jesus e o marido Manuel de Queiroz Correia, os quais pareceram deixar de respirar, ficando todos a acreditar quando Joaquina bradou que estavam mortos, mas que voltariam à vida. Quando o casal se ergueu, a “tola” recaiu em ataque. Arminda de Jesus, que não andava bem, caiu para o lado, desmaiada. E, uma vez no chão, começou a rir sem parar, batendo palmas de braços no ar. Então, Joaquina ordenou que a pusessem “lá fora”. Estava “excomungada”, pois “trazia o diabo dentro dela”.
O facto encheu as páginas dos jornais e deixou em choque a população de Soalhães: seguindo as ordens de Joaquina, os vizinhos e familiares espancaram, com paus de marmeleiro Arminda de Jesus, queimando-a, em seguida, numa fogueira que fizeram a céu aberto por acharem ser essa a única maneira de expulsar o demónio que ela tinha dentro de si. Apesar de tal barbaridade, nunca os homicidas acreditaram magoar a vítima. No dizer de Joaquina, a mulher ressuscitaria de alma limpa na manhã seguinte. E, ao amanhecer no dia 26 de fevereiro, o domingo antes do Carnaval, um dos algozes passou pelo corpo carbonizado de Arminda a chamá-la para a missa.
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Joaquina não andava bem. De há 3 ou 4 anos, tinha estranhos ataques, que se manifestaram a primeira vez quando estava a trabalhar no campo com o marido. Apesar de ter melhorado, a doença voltou em força em 1932, piorando consideravelmente em maio desse ano. Por isso, a mulher de 37 anos começou a ser chamada por todos de “Joaquina, a tola”. 
Apesar das ameaças, Arminda não abandonou a vizinha quando esta mais precisou. A mulher, que vivia na casa ao lado com os dois filhos pequenos (o marido, Joaquim Pereira Alves, estava emigrado no Brasil), decidiu encarregar-se da “tola”. E Joaquina confiava nela: era a vizinha e comadre que costumava tomar conta dos seus filhos pequenos.
Em tempo em que as idas ao médico eram raras e a superstição respondia a quase tudo, atribuía-se o mal de Joaquina a “espíritos maus”. O pároco, Joaquim Monteiro, que foi ouvido pelo juiz de Marco de Canaveses durante a investigação, admitiu às autoridades que a sua freguesia era “um foco de crendice e superstição” e que, apesar de todos os esforços feitos, não conseguira “ainda convencer aquela gente da inutilidade e falsidade da prática de benzeduras e bruxedos” a que recorriam “quando se encontram doentes”.
De tanto ouvir dizer que a sua doença era diabólica, Joaquina convenceu-se de que era esse o problema. Por isso, começou a organizar em sua casa rezas noturnas, coordenadas pelo vizinho Anastácio Pereira, um dos poucos habitantes de Oliveira que sabia ler e escrever. Tinha uma edição do Livro de S. Cipriano, que insistia em manter apesar das recomendações do abade, que já lhe tinha tirado um outro exemplar, mas que o “devoto” substituíra por outro.
Apesar das rezas e dos defumadouros, feitos com ingredientes que vinham descritos no Livro de S. Cipriano, a  22 de fevereiro de 1933, Joaquina piorou. Como as orações não surtiam efeito, a família consultou as bruxas da freguesia. Emília de Jesus (que vivia no lugar de Ferreira) e Ana Pereira (de Pinheirinho) foram as primeiras. Engrácia Coelho, conhecida como a “bruxa de Baião”, a terceira. Terá sido, porém, Olívia Emília, que visitou a casa de Joaquina a 22 de fevereiro, que terá tido um papel mais relevante no tratamento da doente.
Olívia conheceu António quando se deslocou a Oliveira para levar um saquinho de S. Solimão à vizinha de Joaquina, Maria da Glória, que tinha conhecido no ano anterior na apanha do linho. Olívia, que prometera a Maria levar-lhe um amuleto quando passasse pela zona, chegou a Oliveira por volta das 10 da manhã de 22 de fevereiro. Ao passar por casa de António, este chamou-a para ver a mulher. Depois de ver a doente, Olívia concluiu que o mal de Joaquina não era de médicos, mas de duas almas que a assombravam, uma boa e outra má. Estas eram tão poderosas que até causavam dores no corpo a Olívia que, tremendo e chorando, explicou à “tola” não haver outro remédio: ia “sofrer sempre por determinação de Deus”. O mal acabaria quando morresse. Mesmo assim, Olívia aconselhou Joaquina a fazer defumadouros com folhas de oliveira e incenso nos momentos de maior aflição – durante três dias, sem interrupções.
Perdida a esperança de melhoria, a mulher pediu, a 23 de fevereiro, ao marido que chamasse o padre para se confessar. O abade, que morava no lugar de Eiró, deslocou-se a Oliveira nessa manhã. De nada valeram as rezas: mal saiu porta fora, Joaquina de Jesus começou a cantar o “Bendito”, dando mostras de estar pior. E Arminda passou a noite com a comadre, que reiterava que, durante os ataques, “via alminhas boas e alminhas más”. Anastácio também lá esteve a ler excertos do Livro de S. Cipriano. As rezas foram retomadas na tarde do dia seguinte.
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Como nos dias anteriores, na tarde do dia 25, reuniram-se em casa de Joaquina amigos e familiares. Todos rezavam seguindo as indicações de Anastácio, que lia o Livro de S. Cipriano. Era já noite quando se deu a cena da morte e ressurreição e o estranho ataque de Arminda, que todos atribuíram a forças do mal. Foi Alexandre, com a ajuda de Manuel de Queiroz Correia e José Monteiro, que levou a mulher para fora de casa, enquanto Joaquina gritava que a comadre estava “excomungada”. Dentro, ficaram Anastácio e os parentes de Joaquina, que continuaram a ler o Livro de S. Cipriano como se nada se tivesse passado. Rezavam de joelhos, enquanto Anastácio segurava um crucifixo com uma das mãos. Joaquina ordenou-lhe “que fosse dar duas pancadas com uma vara de marmeleiro na Arminda”. E ele saiu para a rua. Chegando ao pé de Alexandre, Manuel e José, o homem de 45 anos ordenou aos três homens que largassem a mulher. Depois, sem mais explicações, começou a bater em Arminda. Interpelado sobre o porquê daquela cena, replicou que ia espancá-la até que ela dissesse “ai meu Deus”, sinal de que já estaria livre de todo o mal. Dentro de casa, Joaquina apelava a que o vizinho lhe “batesse enquanto ela bulisse”. E, assim que Arminda gritou “ai meu Deus”, os homens voltaram a levá-la para dentro. Segundo Anastácio, “depois das pancadas”, a mulher “continuou a gritar com uma voz esquisita”, inexplicável, mas entendida como sinal de continuar com o diabo dentro de si. Joaquina, de facto, insistia que a vizinha estava possuída, o que levou Anastácio a bater novamente em Arminda, levando-a depois “aos empurrões” para fora de casa.
Anastácio acendeu o lume com a ajuda de Francisco: primeiro, um fósforo, que se apagou; depois, um segundo que usaram para pegar fogo à lenha. E com uma candeia de petróleo incendiaram a caruma. Enquanto Arminda ardia, o lavrador lia passagens do Livro de S. Cipriano. Os restantes gritavam que estavam a queimar o diabo. E todos acreditavam que a mulher ressuscitaria. Depois do ritual, os vizinhos reuniram-se em casa de Anastácio, que, embalado pelo exorcismo que acabara de praticar, confessou aos restantes que a sua filha Deolinda, de 16 anos, tinha o diabo no corpo. E, sem ter como escapar, Deolinda foi espancada. Porém, a jovem teve mais sorte: sobreviveu à sova, mas, a partir de então, jamais foi a mesma.
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Vários habitantes de Oliveira e de lugares próximos, ao aperceberem-se de fogo junto à casa de Joaquina e de António, deslocaram-se até ao local com vasilhas cheias de água. Apesar do que viram, ninguém disse nada, ninguém fez queixa. José Pereira, um deles, estava em casa, que ficava a uns cinco ou seis minutos a pé do sítio onde morava Joaquina. Depois de ouvir “dois gritos”, chegou ao local e viu Arminda ser atirada porta fora pelo grupo de homens, enquanto gritava “não me levais”. Ao aproximar-se, Anastácio disse-lhe logo, com ar de ameaça: “Retire-se”. Temendo pela vida, José decidiu voltar para trás.
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O dia seguinte amanheceu frio. Joaquim Pereira, que morava no lugar de Lardosa, saiu cedo de casa. Sabia que Joaquina não andava bem e que recebera a extrema-unção, pelo que se convenceu de que os gritos que ouvira naquela noite, eram devidos ao facto de a mulher ter morrido, tendo sido esse o motivo da gritaria. Ao chegar ao pé da casa de Joaquina, deparou-se com um cadáver carbonizado, “impossível de reconhecer”. Nas casas ao lado, as janelas estavam todas fechadas e não havia ninguém na rua. E, dirigindo a casa da “louca”, encontrou Joaquina viva e de saúde, “com o lume aceso”. E, perguntando-lhe o que se tinha passado, esta respondeu que não sabia. Foi Joaquim Monteiro, que apareceu entretanto, que contou ao visitante que o corpo carbonizado que estava junto à casa de Joaquina era o da sua irmã Arminda, que tinha sido assassinada durante a noite. E explicou que não tinha chamado a polícia “por não ter quem lá mandar” e por “não poder abandonar a sua casa por sua mulher estar também doida”. Foi Joaquim Pereira que tomou a iniciativa de ir chamar o regedor.
Os habitantes de Oliveira começaram a sair de casa, ao mesmo tempo que o sino anunciava a primeira missa do dia. A maioria, porém, nem chegou a sair da aldeia. Joaquim Monteiro Soares, o regedor, chegou ao local por volta das 8 da manhã, acompanhado pela polícia e pelo regedor substituto. Confirmada a história, o regedor procedeu à detenção dos criminosos. Dos cinco suspeitos, apenas Anastácio tentou evitar a detenção, chegando mesmo a agredir Joaquim Monteiro Soares, “que teve de ser enérgico para efetuar a prisão”. Obviamente, os detidos, ao serem interrogados, invocavam para o ato praticado a ideia de expulsão do diabo.
Detidos os culpados (a que foi adicionada Joaquina), começaram as investigações sob a direção do Administrador de Marco de Canaveses. E a polícia, tendo dificuldade em acreditar que este crime tão violento tivesse sido cometido apenas por superstição, começou a explorar outras possibilidades, nomeadamente roubo ou algo mais relacionado com dinheiro.
A Joaquina, considerada “louca” pelas múltiplas ocorrências antes da prisão e durante ela, os médicos diagnosticaram “histero-epilepsia” e, mais tarde, concluíram que o crime resultou dum “somatório de fatores que dificilmente” se poderiam “conjugar de novo”.
 À personalidade mórbida da arguida, juntaram-se a superstição, a ignorância, a rudeza intelectual de todos os figurantes deste drama sombrio e medievo, não devendo esquecer-se a influência nefasta das sugestões da bruxa Olívia, que sempre negou ter-lhe feito alguma coisa.
Apesar dos vários suspeitos que a polícia chegou a ter detidos, só quatro chegaram a julgamento. Joaquina foi considerada louca e um dos suspeitos foi ilibado por falta de prova.
A audição das testemunhas acabou ao final da tarde de 23 de maio. Porém, a última sessão foi marcada para o dia 30. Nesse dia, a multidão que se juntou em frente ao Tribunal de Marco de Canaveses foi ainda maior. Entre os curiosos, havia advogados, médicos e até sacerdotes. O tribunal condenou os réus a 6 anos de prisão maior celular, seguida de 10 anos de degredo ou, em alternativa, 20 anos de degredo em possessão de primeira classe. A defesa decidiu recorrer com base no estado de inconsciência aquando da prática do ato. Porém, o tribunal decidiu manter a pena. Só passados 12 anos, em finais de 1946, é que Anastácio Pereira, António, Manuel e Francisco Queiroz Correia voltaram a ver Soalhães.
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Em 1959, Bernardo Santareno (pseudónimo de António Martilho do Rosário) inspirou-se no “Crime de Soalhães” para a peça “O Crime da Aldeia Velha, onde uma jovem, possuída pelo diabo, é queimada viva para expulsar os demónios que existiam dentro dela. A peça deu origem ao filme homónimo, de Manuel Guimarães, em 1964. A longa-metragem é em parte responsável pela persistência da história na memória dos portugueses. “O Crime da Aldeia Velha, há muito esgotado, teve recentemente nova edição pela “E-Primatur, em abril de 2017.
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Mas não vale a pena acusar hipocritamente aqueles longínquos tempos de processos medievos. A bruxaria ainda não faliu. Os psiquiatras nem sempre atendem os doentes com o humanismo desejado. Os exorcistas reaparecem. E que dizer das cerimónias satânicas e dos homicídios e suicídios coletivos por motivos religiosos? E que dizer dos malefícios da “baleia azul”? A barbárie ora mantém as mesmas formas de antanho ora inova. O que é preciso é pôr juízo na cabeça das pessoas!
2018.02.25 – Louro de Carvalho

Fez da Santidade o seu caminho, sempre ao lado dos mais necessitados


É a grande referência que o Presidente da República fez ao Padre Dâmaso Lambers, sacerdote luso-holandês que se distinguiu pela pastoral das prisões e pela comunicação através da Rádio Renascença e que faleceu no Hospital da Ordem Terceira, em Lisboa, no passado dia 22 de fevereiro, com 87 anos de idade. Escreveu Marcelo Rebelo de Sousa em nota publicada na página Web da Presidência da República:
Morreu um Homem Bom, que fez da Santidade o seu caminho, sempre ao lado dos mais necessitados; o Padre Dâmaso Lambers, nascido na Holanda mas que morreu, como era seu desejo, em Portugal, país que fez seu há mais de seis décadas”.
O Chefe de Estado prestou, assim, homenagem ao homem que viveu “uma vida feita de constante dádiva, mas também de combate pela Liberdade” e que, a 10 de junho de 2009, o então Presidente da República, Cavaco Silva, agraciou com o grau de Grande-Oficial da Ordem do Mérito. Marcelo conclui, na mensagem divulgada através da Presidência da República:
O Padre Dâmaso deixa, na Rádio Renascença e nos seus ouvintes, nos ex-reclusos que quis reintegrar através d’O Companheiro, em cada um dos que foram tocados pela sua Alegria, um testemunho vibrante de Fé e de amor pelo próximo”.
Era inconfundível o sotaque arranhado e o entusiasmo com que falava da vida. “Jesus é fantástico!”, não se cansava de repetir. Dâmaso Lambers nasceu na Holanda, sofreu a II Guerra Mundial e, aos 27 anos, passou a dedicar a vida a Portugal. Conhecido como o padre das prisões, nunca aceitou a normalização da pobreza, fez da Renascença a segunda paróquia e a sua cátedra. Morreu deixando por onde passou um rasto de amor paciente, não interesseiro.
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Hermano Nicolau Maria Lambers – de seu nome de nascimento e de Batismo – nasceu a 9 de junho de 1930 na Holanda, ainda na ressaca na I Guerra Mundial. Sendo o mais novo de seis irmãos, adoecera aos poucos meses de idade; e os pais consagraram-no a Deus e entregaram-no aos cuidados de Santa Teresinha. Salvou-se. Aos 7 anos, fez a Primeira Comunhão e desde aí recebeu o Senhor todos os dias da sua vida.
Tinha 10 anos quando as tropas nazis de Adolf Hitler invadiram o país. Cruzava-se com os soldados alemães na missa de domingo e passava os dias a procurar lenha para aquecer os idosos e doentes, porque os invasores roubavam todo o carvão. No meio da guerra, da destruição e da morte de vizinhos, amigos e conhecidos, Hermano começou a refugiar-se na fé, desaparecendo, muitas vezes, de perto dos irmãos para ser encontrado pouco depois, de joelhos, a rezar no quarto. Ainda Hitler não se tinha rendido quando manifestou a intenção de ser padre. Porém, ao atingir a idade de preparação para concretizar tal desígnio (18 anos), os seminários holandeses estavam totalmente destruídos pelos bombardeamentos. Foi, pois, orientado pelos padres da Congregação dos Sagrados Corações de Jesus e de Maria – à qual se juntou mais tarde – e foi ordenado em 1955, aos 25 anos. Foi nessa altura que adotou o nome Dâmaso.
A 7 de maio de 1945, em Reims, os alemães assinaram a rendição. Era a capitulação do regime nazi e o fim da II Guerra Mundial. Dâmaso passou os anos da guerra na Holanda ocupada pelos alemães. Tinha 15 anos quando o conflito acabou, mas foi no último dia de combates, junto à sua cidade, Breda, que viveu os verdadeiros horrores da guerra.
O jovem queria ser missionário em terras exóticas: segundo alguns, na América Latina, segundo outros, na Polinésia, e ainda, segundo outros, nas ilhas Cook e na Nova Zelândia. Porém, o superior provincial disse-lhe que o Cardeal-patriarca de Lisboa precisava de três padres para as missões populares na Província. E, embora tendo visto a mudança de planos com um natural desagrado, tal como fez sempre, obedeceu. Assim, em 1957, veio para Portugal, donde nunca mais se foi embora. Instalou-se num convento na Penha de França, onde estava a congregação dos “Sagrados do Coração de Jesus e Maria” de que era membro. Aquela zona da cidade era pobre. Eram muitas as barracas, que se espalhavam pelas encostas dos arredores. Começou na JOC com o trabalho social de acolhimento aos pobres e acabou a construir uma pequena capela para celebrar missa para eles e no meio deles. Um pouco mais tarde, viveu o seu período mais feliz como pregador dos Cursilhos de Cristandade cujo movimento ajudou a introduzir em Portugal. Dois ou três anos depois de chegar a Lisboa já era um pregador conhecido e o Padre João Gonçalves, que participara no movimento em Espanha, pediu-lhe ajuda para trazer o movimento para Portugal. Fê-lo durante muitos anos e experimentou com isso uma felicidade crescente, mas sem porquê a hierarquia afastou-o desse trabalho.
Sentiu-se injustiçado a ponto de nem o sentido de perdão e o apurado senso de obediência terem permitido que tal ferida sarasse totalmente, pois, sempre que falava do assunto, parecia que se lhe turvava o olhar – parecendo esta a única coisa “imperdoável” para este padre luso-holandês.
Entretanto, dois anos depois de estar a viver em Portugal, foi convidado para dar uma conferência na prisão feminina de Tires: correu tão bem que o convidaram para repetir a exposição noutras cadeias, um pouco por todo o país. Embora, a princípio, nem achasse grande ideia o ser-lhe confiado, como se de paróquia itinerante se tratasse, o serviço nas prisões, a sua índole pragmática de nórdico fez-lhe perceber que tinha ali encontrado a sua principal vocação, pelo que acolheu obedientemente o pedido do Prelado.
Primeiro como visitador, depois como capelão, ajudou inúmeros homens e mulheres a encontrar Jesus dentro de quatro paredes. Ficou conhecido como o “padre das prisões”.
Porém, a dada altura, reconheceu que pregar a Boa Nova e ajudar com bens ou com o próprio dinheiro deixou de ser suficiente. Decidiu, por isso, fundar, em 1987, “O Companheiro”, uma organização que ainda existe e que se dedica a ajudar ex-reclusos a reintegrar-se na sociedade. Entretanto, conheceu o Monsenhor Lopes da Cruz, fundador da Rádio Renascença, e tornou-se colaborador da Emissora Católica até ao fim da vida. Foi presença diária com o programa “Caminhos da Vida” e mentor para muitos que por lá passaram. Nas novas instalações da Rádio Renascença, na Quinta do Bom Pastor, na Buraca, existe uma sala com o seu nome. Na verdade, além da obra relacionada com a Pastoral penitenciária, de que foi pioneiro, que incrementou e a que deu pernas para andar – trabalho que, marcou profundamente a sua vida, segundo confessou à agência Ecclesia, por ocasião dos 60 anos da sua ordenação sacerdotal, em 2015, quando foi lançado o livro Uma vida de Doação –, tornou-se conhecido como “Voz da Rádio Renascença”.
Esta voz finou-se aos 87 anos. O corpo esteve em câmara ardente na Igreja de Nossa Senhora do Amparo de Benfica a partir das 16 horas do dia 23. O Cardeal-patriarca de Lisboa, Dom Manuel Clemente, presidiu ali à celebração das exéquias solenes às 10,30 horas do passado dia 24 – celebração que juntou diversas personalidades, entre elas o anterior e o atual presidente do Conselho de Gerência da Rádio Renascença, os cónegos João Aguiar e Américo Aguiar.
O corpo do Padre Dâmaso Lambers passou às 16,30 horas pelo estabelecimento prisional do Linhó, onde acompanhou vários reclusos e seguiu, depois, para o cemitério de Alcabideche onde foi cremado.
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O Cardeal-patriarca de Lisboa agradeceu hoje ao padre Dâmaso Lambers o seu “testemunho” do que é uma vida “verdadeiramente apanhada por Jesus Cristo”. Dom Manuel Clemente, que visitou o sacerdote hospitalizado, recordou, na homilia, os “sinais e incentivos” de uma “alma cheia de Jesus Cristo”. E especificou:
Não só na sua cama, mas na cama ao lado, eu via livros, Evangelho e orações… tudo cheio de sinais e incentivos para esta vida fantástica de Jesus Cristo, que lhe enchia a alma e, por isso, lhe preencheu a vida”.
A vida do sacerdote “iniciada há muitos anos na Holanda, desde cedo marcada por uma forte vocação” foi relembrada durante a celebração que juntou diversas pessoas que acompanharam “na terra uma vida que já se completa no céu”.
Dom Manuel Clemente recordou as vezes em que, “já noite muito andada, tínhamos o Padre Dâmaso, sacerdote holandês que se tornou cidadão português com a alvorada evangélica”, aos microfones da Renascença, ou no acompanhamento “aos seus reclusos, como dizia”. E frisou:
A consciência de que estivesse onde estivesse, nas prisões, nas pregações, também nesta igreja onde ele tantas vezes pregou a Paixão e Via-Sacra, esta convicção de que não estava por ele, mas por aquele que lhe enchia a vida”. […] Que magnifico exemplo e testemunho forte do que é a vida de Jesus Cristo quando é verdadeiramente apanhada.”.
Na celebração, que “ele quis que fosse já de ressurreição”, aliás como quer a Igreja, as leituras foram antecipadamente escolhidas. E o presidente da celebração declarou e explicou:
Damos graças a Deus. Ele também quis que esta celebração fosse de ação de graças, disse-o e escreveu-o. Que não fosse uma celebração de pesar, mas que fosse já de ressurreição.”.
E Dom Manuel Clemente finalizou com um “Muito obrigado ao Padre Dâmaso”.
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Do Padre Dâmaso Graça Franco, da Renascença diz que “só é difícil explicar o que é um Santo aos que nunca tiveram a sorte de, muitas vezes e ao longo de vários anos, tomar o pequeno-almoço ao lado do padre Dâmaso Lambers”. Com efeito, “quem o conheceu ficou a saber que ‘Jesus é fantástico!’ e que a sua presença real na Eucaristia, ‘ainda é mais fantástica’!”. Era um padre “muito feliz”! Era o que ele repetia vezes sem conta. De facto, “nas suas mãos via a maravilha de trazer ‘um pouco do céu para oferecer a cada um e a cada uma na terra’ e essa maravilha era a causa da sua imensa felicidade”.
Depois, “a cada um e a cada uma repetia ‘sejam felizes’, como se fosse a nossa primeira obrigação nesta passagem pela Terra”. E, tal como o Papa se despediu do povo, logo na sua entrada no papado com um simples “adeus e bom almoço”, ele despedia os fiéis da missa não se limitando ao litúrgico “Ide em paz…” mas adicionando-lhe um “E sejam felizes!”. Assim, “não admira que os seus melhores amigos fossem os que ainda estavam ou já tinham saído da prisão: “gente fantástica” pelo simples facto de ser gente, fosse o que fosse que tivessem feito.
Graça Franco chama “nosso” ao Padre Dâmaso e diz que, “se houve prova encarnada do Amor infinito e misericordioso de Deus, foi o nosso padre Dâmaso”. Na verdade, esteve na Rádio Renascença desde 1976. “Primeiro numa série semanal de três programas (dirigidos aos doentes, aos reclusos e ao cidadão comum) depois nos mais diversos programas incluindo madrugada dentro numa conversa de tu a tu com os ouvintes”.
Diz Graça Franco que Dâmaso “não queria ir depressa”, que gostava muitíssimo de “estar vivo” e que gostava de que “a sua vida fosse o mais longa possível, porque aqui dava ideia de já estar plenamente com o Pai” – “essa pessoa ‘fantástica’ com a qual parecia ter-se encontrado num exato momento como se fosse desde sempre”.
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Educado em país protestante, muitas coisas lhe faziam “confusão” no catolicismo “folclórico” português. Pré-conciliar por formação e pós-conciliar por temperamento, não havia carimbo que se lhe pespegasse (esquerda/direita, conservadorismo/progressismo): “era simplesmente ele”. Indignado com os gastos supérfluos enquanto os pobres precisavam de ajuda, não foi à inauguração do Cristo Rei em Almada. A vivência e sobrevivência na II Guerra Mundial marcaram-lhe a vida: recebia mal “um certo aparato ostensivo tido por natural na década de 50/60”. O Rei que ele servia dispensava colunatas de milhares que poderiam ser utilizados para ajuda aos pobres.
Grande devoto de Maria, para ele era quase incompreensível a excessiva religiosidade popular em torno de Nossa Senhora de Fátima. Escandalizava-o, ao levar anos a fio aos pobres a Imagem peregrina, que se reduzisse a Mãe de Deus a uma ‘santinha’ a quem se pedem graças, quando ela viera implorar orações pelos outros, pela paz, pela conversão dos pecadores. Recorde-se o que disse o Papa Francisco em Fátima sobre o culto de Nossa Senhora e veja-se como Dâmaso Lambers tinha razão no seu desconforto e no incómodo que suscitava. “Tinha um amor a toda a prova pela Mãe de Deus, mas no centro da sua fé estava o filho Salvador. É o acento cristológico do culto mariano do “Per Mariam ad Iesum”.
Se ele “mandasse”, deviam ser proibidas as festas e romarias, pois, na sua ótica, eram “um disparate” que “fazia muito mal ao povo”, dando-lhe a falsa ideia de um Deus caricatural. E era-lhe muito difícil de aceitar os Santos Populares, pois, das marchas às sardinhas, ficavam esquecidas, apagadas, a verdadeira figura de Pedro, o primeiro Papa, a de João Batista, o grande precursor de Jesus Cristo, e a de Santo António, o primeiro santo da ordem franciscana e Doutor da Igreja - três homens que nada têm a ver com bailaricos e bebedeiras ou festanças fúteis.
Homens como Dâmaso, em testemunho de humildade, e fé, arrastando pelo exemplo e pela palavra e capazes de nos mover, aproximando o nosso coração de Cristo, são mesmo ‘Santos’ no verdadeiro sentido – “mesmo sem processo de beatificação ou de canonização, mesmo sem nenhum milagre relatado ou provado, e mesmo que tais processos nunca venham a ocorrer”.
O Padre Lambers que não gostava de pedir nada para não incomodar ninguém, nem a Deus porque só via razões para lhe dar graças, partiu com uma série de pedidos de todos nós para apresentar ao Pai do Céu. Fá-lo-á por puro Amor – paciente, prestável, sem inveja ou orgulho, sem inconveniências, não interesseiro, sem ressentimento, justo, alegre com a verdade e tudo desculpando, crendo, esperando e suportando (cf 1Cor 13,4-7) – que foi o segredo e o motor da sua vida. (cf Graça Franco, Rádio Renascença, 22 fev, 2018 - 20:23).
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Da minha parte, devo-lhe especial preito de homenagem. Para lá do que foi referido, orientou, de forma agradável, em setembro de 1979, o retiro do clero de Lamego, em que participámos os que iríamos ser ordenados de sacerdotes a 29 de setembro. Por isso, daqui a minha saudação aos Padres Adriano Alberto Pereira, António Lemos de Almeida e Armindo da Costa Almeida.
E as ideias que ele na ocasião deixou sobre a devoção Maria, o desconforto com o aparato eclesiástico e a crítica ao excesso de despesas com bens materiais em detrimento dos necessitados coincidem com o que diz Graça Franco. Todavia, no atinente às romarias e aos santos populares, embora advertisse para o grave perigo do resvalo para a caricatura de Deus e para o esquecimento do fundamental, pugnava então, contra o que pensávamos nós, pela purificação destes eventos. Seja como for, trata-se dum lutador, dum apóstolo, dum santo!
2018.02.25 – Louro de Carvalho

sábado, 24 de fevereiro de 2018

Salvos na esperança, transfigurados na esperança!


No 2.º Domingo da Quaresma, a liturgia da Igreja faz ressoar nos nossos ouvidos dos cristãos aquela voz vinda do Céu, no alto da montanha da Transfiguração, que dizia a Pedro, Tiago e João e a que os primeiros discípulos de Jesus aderiram: Escutai-O!”.
Porém, escutar o Filho de Deus postula uma atitude de absoluta confiança na Palavra de Deus. E a perícopa veterotestamentária assumida como 1.ª leitura (Gn 22,1-2.9a.10-13.15-18), neste domingo do Ano B, mostra-nos como Abraão confiou inteiramente na Palavra de Deus e seguiu sem hesitar todas as suas indicações; e Paulo (2Tm 1,8b-10), que ensina como temos de tomar a sério o chamamento de Deus à santidade de vida, deixando-nos transfigurar à imagem de Jesus, que revela a sua glória divina no mistério da Transfiguração, garante que, se Deus está por nós, ninguém poderá estar contra nós (cf Rm 8,31b-34). De facto, fazendo a vontade do Pai, Jesus morreu, ressuscitou e está à direita de Deus a interceder por nós.
O Senhor falou a Abraão (Gn 12,1-4a) nas origens do antigo povo de Deus, como preparação do caminho do Evangelho. Diz a Dei Verbum que, “no devido tempo, Deus chamou Abraão para fazer dele um grande povo” (DV,3)E a aliança com Deus implicava grandes exigências: deixar terra, família, casa e atirar-se ao desconhecido, “a terra que Eu te indicar, fiando-se apenas na palavra de Deus. É assim que Paulo há de insistir no exemplo de fé e de obediência ao Deus de Abraão (cf Rm 4; cf Heb 11,8-19).
Nesta dominga, a Palavra de Deus define o caminho que o verdadeiro discípulo deve seguir para chegar à vida nova: o caminho da escuta atenta de Deus e dos seus projetos, da obediência total e radical aos planos do Pai.
Agora, a 1.ª leitura (Gn 22,1-2.9a.10-13.15-18) continua a apresentar a figura do patriarca Abraão como paradigma da atitude do crente diante de Deus. Abraão é o homem de fé, que vive numa constante escuta de Deus, que aceita os apelos de Deus e que lhes responde com a obediência total (mesmo quando o plano de Deus parece ir contra os seus sonhos e projetos pessoais). Nesta linha de rumo, Abraão é o modelo do crente que percebe o projeto de Deus e o segue de todo o coração. E, na 2.ª leitura (Rm 8,31b-34), Paulo lembra aos crentes que Deus os ama com um amor imenso e eterno. A melhor prova desse amor é Jesus Cristo, o Filho amado de Deus que morreu para ensinar ao homem o caminho da verdadeira vida. Sendo assim, o cristão nada tem a temer e deve enfrentar a vida com serenidade fundada na esperança, mesmo que tenha de sofrer pela causa do Evangelho. Com efeito, Deus, por desígnio gratuito, a todos chamou à salvação. É um chamamento santo, não só por ser e vir de Deus, mas também por levar a Deus; daí o enunciado menos formal: “Deus chamou-nos a todos à santidade.
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O Evangelho apresenta-nos a cena da transfiguração do Senhor. E o facto de isto suceder todos os anos no 2.º Domingo da Quaresma evidencia um sentido a ter em conta para a nossa vida. Assim como para os discípulos daquele tempo a Transfiguração de Jesus serviu de preparação para se confrontarem com a sua desfiguração na agonia do Getsémani e ganharem a esperança da ressurreição, assim também nós temos de nos dispor com olhos de fé para a celebração do tríduo pascal, em que se celebra a vitória de Cristo sobre o pecado e a morte, reerguendo a Vida.
O texto (Mc 9,2-9) situa-se no princípio da segunda parte do evangelho, em que Jesus começa lentamente a revelar-Se. O momento de viragem está no diálogo entre Pedro e Jesus (Mc 8,27-30). A resposta de Pedro, amigo e discípulo mais preparado e mais próximo dele, não satisfez Jesus (vd Mc 8,30). O próprio Jesus começa então uma catequese que se desenvolverá através dos três anúncios da Paixão (Mc 8,31-33; 9,30-32; 10,32-34), mas a encontrar acolhimento difícil.
No tríplice anúncio da Paixão o tema do sofrimento e morte prevalece, mas não está só; todo o anúncio termina com o aceno à ressurreição. A transfiguração é colocada pouco depois do primeiro anúncio e seguida quase imediatamente do segundo. Nela prevalece o tema da glória, mas também marca notória presença o tema da dor, sendo que o pressentimento da morte serve de fundo a esta perícopa, que figura uma página de catequese construída sobre elementos simbólicos tirados do Antigo Testamento e destinada a ensinar que Jesus é o Filho de Deus e que o projeto que Ele propõe vem de Deus. Jesus, o Filho muito amado de Deus, vai concretizar o seu projeto libertador em prol dos homens através do dom da vida. E aos discípulos, desanimados e assustados, assegura que o caminho do dom da vida não conduz ao fracasso, mas à vida plena e definitiva. Por isso, quer que os discípulos sigam também esse caminho.
O monte remete para o contexto de revelação: é no monte que Deus Se revela; e, em especial, é no cimo do monte que Ele estabelece a aliança com o seu Povo (Sinai, Tabor, Calvário).
A mudança do rosto e as vestes brilhantes, muitíssimo brancas, recordam o resplendor de Moisés ao descer do Sinai (cf Ex 34,29) depois do encontro com Deus e de ter as tábuas da Lei. A brancura, tal como a luz, faz parte do simbolismo da época. Brancura resplandecente é própria das personagens do céu. O anjo que anuncia a ressurreição aparece vestido de branco; e vestidos de branco estão os dois homens que aparecem na ascensão de Jesus a interpelar os discípulos.
A nuvem indica a presença de Deus: era na nuvem que Deus manifestava a sua presença, quando conduzia o seu Povo através do deserto.
O Antigo Testamento (Elias representaria os profetas; Moisés a Lei) insere-se na vida de Jesus, participando, em certa medida, no cumprimento das profecias e na inauguração da nova era; e, além disso, aquelas duas personagens, segundo a catequese judaica, deviam aparecer no “Dia do Senhor”, aquando da manifestação da salvação definitiva.
Por seu turno, o temor e perturbação dos discípulos (tão naturais) são a reação lógica de qualquer homem ou mulher ante a manifestação da grandeza, da omnipotência e da majestade de Deus.
As tendas parecem aludir à “festa das tendas”, em que se celebrava o tempo do êxodo, quando o Povo de Deus habitou em “tendas”, no deserto.
A mensagem fundamental, amalgamada com todos estes elementos, visa dizer quem é Jesus. Recorrendo a simbologias veterotestamentárias, o autor sagrado frisa que Jesus é o Filho amado de Deus, em quem se manifesta a glória do Pai. Ele é o Messias libertador e salvador esperado por Israel, anunciado por Moisés (a Lei) e por Elias (a Profecia). Ele é o novo Moisés, Aquele através de quem o próprio Deus dá ao seu Povo a nova lei e propõe aos homens uma nova Aliança. A partir de agora, é a Ele que devemos escutar.
A cena da transfiguração une-se ao episódio do Batismo de Jesus: a mesma voz sobre-humana (do céu – da nuvem), a mesma declaração do Pai (Tu és – este é). Porém, a presença dos três discípulos e o fundo das predições sobre a Paixão remetem para o episódio da Agonia de Jesus no Getsémani, onde Se dirige a Deus com o nome de Abba, Pai. Esta é a única vez, em Marcos, em que Jesus invoca Deus com o nome de Abba (vd 14,36). No termo da sua vida pública e no início da Paixão, aquela súplica a Deus parece ser a resposta de Jesus à dupla voz do céu, no Jordão e no Monte da transfiguração, que O tinha proclamado “o meu filho amado”. É a correspondente à expressão “Filho de Deus”, colocada no início do Evangelho de Marcos (Mc 1,1) e que o evangelista põe na boca do centurião no momento em que Jesus expirou (Mc 15,39).
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Se a segunda parte do Evangelho de Marcos, em que se insere a narrativa da transfiguração, começa com um anúncio da Paixão, posto na boca de Jesus (cf Mc 8,31-32), é para desfazer o conceito que os discípulos tinham do messianismo de Jesus. Com efeito, eles já tinham percebido que Ele era o Messias libertador que Israel esperava (cf Mc 8,29), como ficou bem evidenciado na confissão de fé de Pedro. Todavia, ainda acreditavam que a missão messiânica de Jesus se concretizaria num triunfo militar sobre o opressor romano. Por isso, Marcos explica aos crentes a quem o seu Evangelho se destina que este projeto messiânico não se concretizará em triunfo humano, mas na cruz – no amor e no dom da vida. E, por isso, o relato da transfiguração é antecedido do primeiro anúncio da paixão (cf Mc 8,31-33) e duma instrução sobre as atitudes próprias do discípulo (instado a renunciar a si mesmo, a tomar a sua cruz e a seguir Jesus no seu caminho de amor e de entrega da vida – cf Mc 8,34-38). Após terem ouvido falar do “caminho da cruz” e terem constatado o que Jesus pede aos que O querem seguir, os discípulos estão desanimados e frustrados, pois a aventura em que apostaram parece encaminhar-se para o fracasso: veem esfumar-se, na cruz a plantar numa colina de Jerusalém, o sonho de glória, honra e triunfo e perguntam-se se vale a pena seguir um mestre que apenas oferece a morte na cruz (Não veem tudo; não veem a luz ao fundo do túnel). É neste contexto que Marcos coloca o episódio da transfiguração. A cena constitui uma palavra de ânimo para os discípulos (e para a generalidade dos crentes), pois nela se manifesta a glória de Jesus e se atesta que Ele, apesar da cruz que se aproxima, é o Filho amado de Deus. Os discípulos recebem, pois, a garantia de que o projeto de Jesus vem de Deus; e, apesar das suas próprias dúvidas, recebem um complemento de esperança que lhes permite “embarcar” e apostar nesse projeto. E esta esperança radica-se na escuta do Filho de Deus.
Do ponto de visa literário, esta narração configura uma teofania, ou seja, uma manifestação de Deus. Assim, o autor sagrado coloca no quadro todos os ingredientes que, no imaginário judaico, acompanham as manifestações de Deus (que se encontram nos relatos teofânicos veterotestamentários): o monte, a voz do céu, as aparições, as vestes brilhantes, a nuvem e mesmo o medo e a perturbação dos que presenciam o encontro com o divino. Isto quer dizer que não estamos perante um relato fotográfico ou cinematográfico de acontecimentos, mas ante uma catequese construída de acordo com o imaginário judaico com vista a ensinar que Jesus é o Filho amado de Deus, que traz aos homens um projeto que vem de Deus.
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Como vimos, o relato tem como destinatários os discípulos, um grupo desanimado e frustrado porque no horizonte próximo do líder está a cruz e porque o mestre exige dos discípulos que aceitem fazer um percurso similar. Porém, a cruz não é o fim; é o trampolim para a ressurreição, ora anunciada pela glória de Deus que se manifesta em Jesus, pelas “vestes brilhantes, muitíssimo brancas” (a evocar a túnica branca do “jovem” sentado junto do túmulo de Jesus, que anuncia às mulheres a ressurreição – cf Mc 16,5) e pela recomendação de Jesus (“que não contassem a ninguém o que tinham visto, enquanto o Filho do Homem não ressuscitasse dos mortos” – Mc 9,9). A cruz não será, pois, a palavra final, pois no fim do caminho de Jesus (e dos discípulos que seguirem Jesus) está a ressurreição, a vida plena, a vitória sobre a morte. E, quanto ao desejo de Pedro de ali, no cimo do monte, se construírem três tendas, como se pretendesse acampar, é de considerar que o pormenor significará que os discípulos queriam deter-se nesse momento de revelação gloriosa, tentando ignorar o destino do sofrimento dramático de Jesus. E, por conseguinte, Jesus nem respondeu à proposta. É que Ele tem a certeza absoluta de que o plano misterioso de Deus – o projeto de construir um novo Povo de Deus e de o conduzir da escravidão para a liberdade – tem de passar pela via do dom da vida, da entrega total, do amor até às últimas consequências.
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Em suma, a reflexão a partir da Liturgia da Palavra do 2.º domingo da Quaresma pode sintetizar-se como segue:
- O núcleo fundamental do episódio da transfiguração consiste em revelar que Jesus é o Filho amado de Deus, que vem concretizar o projeto salvador e libertador do Pai em prol dos homens pelo dom da vida, pela entrega total de Si próprio por amor – demonstrando aos crentes de todas as épocas e lugares que uma existência tornada dom não é fracassada, mesmo que desemboque na cruz, pois, a seguir a esta, brilhará em todo o esplendor a vida plena e definitiva.
- É preciso que todos sejam capazes de escutar o que o Filho de Deus tem para dizer e propor, que não é algo diferente do que Ele assume para Si mesmo, sendo que entraremos no Reino bebendo com Ele do cálice que o Pai Lhe destinou e, que passando pela obediência até à morte e morte de cruz, abre, no final da caminhada, os cofres da glória a todos aqueles e aquelas que forem, como Jesus, capazes de pôr a sua vida ao serviço dos irmãos.
- É verdade que os homens do nosso tempo, aliás como os do tempo de Cristo, têm dificuldade em perceber esta lógica. Com efeito, para muitos, a vida plena não está no amor levado até às últimas consequências, até ao dom total da vida, mas na preocupação egoísta com os interesses pessoais, com o seu orgulho, com o seu pequeno mundo privado, com a sua carreira; não consiste no serviço simples em prol dos irmãos (sobretudo dos mais débeis, marginalizados, infelizes), mas em assegurar para si próprio uma boa dose de poder, de influência, de autoridade, de domínio e de sensação de pertença ao clã dos vencedores. O que leva a questionar quem terá razão: o Evangelho ou a visão mundana e mesquinha do homem?
- É frequente sermos tentados pelo desânimo, porque não percebemos o alcance dos esquemas de Deus ou porque parece que, seguindo a lógica de Deus, seremos sempre perdedores. A isto vem a transfiguração de Jesus proclamar do alto do monte que não desanimemos, pois a lógica de Deus conduz, não ao fracasso, mas à ressurreição, à vida definitiva, à felicidade sem fim.
- Os três discípulos, testemunhas da transfiguração, não têm grande vontade de “descer à terra” e enfrentar o mundo e os problemas dos homens. São o protótipo daqueles que vivem de olhos postos no céu, alheados da realidade concreta do mundo, sem vontade de intervir para o renovar e transformar. Porém, o seguimento de Jesus implica “regressar ao mundo” para testemunhar aos homens que a realização autêntica está no dom da vida e, longe do angelismo vazio, mas também sem um hiperativismo que não olhe para o Céu, obriga a atolarmo-nos no mundo, com seus problemas e dramas, para contribuirmos para a edificação de um mundo mais justo e mais feliz. Na verdade, a religião não é ópio que nos adormeça, mas fulcro dum compromisso com Deus, que se faz compromisso de amor com o mundo e com os homens.
Resta saber se queremos embarcar neste mar de esperança transfiguradora e salvadora em Deus sem fugir do mundo e sem a ele nos agarrarmos!
2018.02.24 – Louro de Carvalho