quinta-feira, 6 de agosto de 2020

Resultados dos exames nacionais ou comparação mais que manca?

Com base nas conclusões do JNE (Júri Nacional de Exames) sobre os resultados dos exames nacionais do ensino secundário, o ME (Ministério da Educação) apressou-se a divulgar, logo a 3 de agosto, dia em que foram conhecidas as classificações nas provas, indicações de resultados comparativamente com o ano anterior, o que foi uma pérola informativa para os nossos meios de comunicação social. Assim, os sinos e campainhas governamentais repicaram: “As médias nos exames nacionais deste ano subiram em todas as disciplinas em relação ao ano passado, com exceção de duas provas, segundo dados oficiais hoje divulgados”.

E, logo a seguir, se esmiúça a informação: em conformidade com os dados do JNE, as notas médias nos exames do 12.º ano realizadas pelos alunos internos, ou seja, os que frequentaram as aulas durante o ano letivo, subiram em quase todas as disciplinas, com algumas a registarem um aumento superior a três valores (na escala de 0 a 20). As médias nacionais às 24 disciplinas sujeitas a exame variam entre um mínimo de 9,5 valores em Matemática Aplicada às Ciências Sociais até um máximo de 16 a várias línguas, como Alemão e Espanhol, e 16,9 no Mandarim.

Depois, vem a especificação por disciplina. Na prova de Biologia e Geologia, a mais realizada este ano e importante para os alunos que querem entrar em Medicina, a média aumentou em 3,3 valores, registando uma classificação média de 14 valores, quando no ano anterior era de 10,7. Em Física e Química os alunos conseguiram melhorar os resultados em relação ao ano anterior em 3,2 valores, passando a nota média dos 10 valores para os 13,2 valores. Português e Matemática A, duas das provas mais importantes, registaram também melhorias, ainda que não tão significativas: em Português, a média subiu dos 11,8 valores em 2019 para os 12 valores (mais duas décimas) e em Matemática A subiu dos 11,5 valores para os 13,3 valores. E acresce referir que Filosofia passou de 9,8 valores para 13 valores.

Releva-se que a maior subida foi registada em Francês, que passou dos 11,3 valores em 2019 para os 15,1 (mais 3,8 valores), vindo a seguir Alemão com 16,1 valores (mais 3,5), Geografia A com 13,6 valores e Biologia e Geologia (ambas registaram mais 3,3 valores).

E aflora a joia de resultados, o Mandarim (iniciação), que registou a média mais elevada em exame, 16,9 valores. Porém, não se pode dizer que a informação não seja honesta, pois deixa perceber que o universo dos estudantes que se sujeitaram a exame se circunscreve a 6 alunos.

Por outro lado, é referido que, entre as disciplinas com um número de alunos superior a 2.500, foi a Inglês que os estudantes conseguiram a melhor classificação média, com 15 valores.

Não deixa de se destacar a recuperação da subida em duas disciplinas, a História A e História da Cultura das Artes, que voltaram a subir este ano, depois de em 2018 terem registado uma queda para valores negativos, registando agora a média de 13,4 valores e 13,6 valores, respetivamente.

Obviamente que a publicitação de resultados não escamoteia a tendência oposta verificada nas duas únicas ovelhas negras do painel de exames, a Geometria Descritiva A, cuja classificação média caiu em 2,3 valores, e a Matemática Aplicada às Ciências Sociais (MACS), que registou este ano a única classificação média negativa: 9,5 valores, menos 1,5 em relação a 2019.

Todavia, tinha que vir alguém estragar um panorama tão bonito e agradável ao olfato e ao tacto, dando a já conhecida chave do segredo de tão faustoso sucesso. Num comunicado também divulgado no mesmo dia, o IAVE (Instituto de Avaliação Educativa, IP), responsável pela elaboração e aplicação das provas, sublinhava que, este ano, os alunos realizaram os exames finais nacionais apenas nas disciplinas que elegeram como provas de ingresso, justificando assim os resultados positivos. E não escondia que as novas regras, aplicadas agora como medida excecional devido à pandemia da covid-19, explicam também o menor número de inscritos, em relação ao ano anterior, que se refletiu no número também menor número de provas realizadas.

Assim, este ano e na 1.ª fase (a 2.ª realizar-se-á em setembro), os exames realizaram-se em 643 escolas de todo o território nacional e nas escolas no estrangeiro com currículo português, com 257.330 inscrições na primeira fase dos exames nacionais (menos 70.300 em relação a 2019) e 227.962 provas realizadas (menos 93.871). Mais informa o comunicado que, “entre as 24 disciplinas sujeitas a exame nacional, a que registou um maior número de provas realizadas foi a de Biologia e Geologia, com 41 460 provas, logo seguida por Física e Química A, com 39 444 provas, Português, com 36 622 provas, e Matemática A, com 35 724 provas”.

Por outro lado, a classificação das provas envolveu 9.400 docentes do ensino secundário e, na 1.ª fase dos exames nacionais, que ficou concluída em 23 de julho, colaboraram 10 mil professores vigilantes e pertencentes aos secretariados de exames das escolas.

***

Compreende-se que o ME queira fazer estatística, que pode dar um contributo significativo para a avaliação do sistema, mas estabelecer, num ano atípico, uma comparação pura e simples com resultados de um ano normal é propagandear a banha da cobra na feira das vaidades. Não fora o IAVE a recordar que houve regras específicas para este ano, que levaram à diminuição do número de estudantes inscritos nas provas e consequentemente na sujeição às mesmas, e tínhamos o JNE a tapar o sol com a peneira, dando a impressão de um ano excecional em sucesso académico, o que poderia ser lido como sendo um benefício da pandemia.

Dizem os antigos que “toda a comparação é manca”, mas é de acentuar que esta é manca e cota. 

Na verdade, em ano letivo sem paralelo, as regras dos exames nacionais foram ajustadas, com os estudantes do 11.º e do 12.º a terem de realizar apenas os exigidos para os cursos superiores a que iriam candidatar-se, de modo que os exames não foram necessários para a conclusão do ensino secundário, como dantes, e quem não tenciona ir para o ensino superior não teve de fazer qualquer prova, incluindo as obrigatórias para todos (como Português), que deixaram de o ser.

A própria estrutura das provas ajuda a explicar esta subida. Além de questões de resposta obrigatória e obrigatoriamente assumida para classificação, havia a obrigatoriedade de resposta a todas as demais, mas destas havia umas tantas de que o sistema selecionaria para classificação as mais bem cotadas pelo professor/classificador – para garantir que os estudantes não eram testados a matérias que não tivessem rodado por causa da suspensão das aulas presenciais. Por outro lado, a valorização de blocos com respostas de escolha múltipla ajudam a explicar os melhores desempenhos.

Uma das consequências de todas estas mudanças – e de a nota final de cada disciplina contar só com a classificação interna e sem qualquer ponderação da nota do exame – será uma subida as notas de entrada no ensino superior, em particular nos cursos mais procurados.

As candidaturas ao ensino superior, para os alunos com todas as provas feitas na 1.ª fase, decorrem entre 7 e 23 de agosto e os resultados são conhecidos a 28 de setembro.

Por fim, é de salientar que as instituições do ensino superior nem neste ano atípico saíram do seu lugar para colaborar no recrutamento e seleção dos seus alunos, ficando a assobiar para o lado. Mais uma vez foram os milhares de professores do ensino secundário que gratuitamente, sem serem dispensados dos seus outros múnus na escola, fizeram todo o trabalho de secretariado, vigilância, coadjuvância, correção e classificação de provas. E, se for preciso, lá virá o látego exclusivista nos primeiros anos de estudos superiores (levando alunos a desistir dos cursos) a virar-se contra os professores do secundário que alegadamente preparam mal os estudantes para o ensino superior, sem se atentar no parasitismo com que fustigam as escolas secundárias e seus docentes, que este ano tiveram de dar o litro para garantia da aprendizagem.

Porque não faz o Ministério da Ciência, da Tecnologia e do Ensino Superior um estudo comparativo com o ano anterior sobre o desempenho em exames universitários e politécnicos?

2020.08.06 – Louro de Carvalho


quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Para reuniões com sucesso

As organizações precisam obviamente de reuniões, pelo que a tendência é multiplicá-las e carregá-las de agenda. E, não raro, as organizações limitam-se, quando não podem escapar-se, ao estabelecido na lei ou nos regulamentos. Quer isto dizer que a maior parte das reuniões são uma maçada e o êxito é reduzido. Agora, o contexto da covid-19 multiplicou o número e as modalidades de reunião: videoconferência, sessões síncronas, reuniões presenciais com máscara e distanciamento físico (dizem distanciamento social, mas esse já existe há séculos), etc.  

Algumas reuniões fracassam porque não eram necessárias, pois os assuntos a tratar não exigiam reunião ou porque o momento não era oportuno. E pode acontecer que uma reunião se tenha realizado por motivos errados, por exemplo, se o conteúdo se esgotou em falar, discutir, criticar, desfazer, impor poder, impressionar, resolver assuntos pessoais, concitar o ámen dos outros, ou se não foram definidos objetivos concretos e resultados a produzir. Também podem os objetivos não ter sido claros ou adequados ou ter constituído obstáculos e não desafios.

Podem não ter sido convocadas as pessoas certas: em vez de decisores, vieram substitutos que não podem tomar decisões. E pode ter havido falta de controlo adequado ou ter o programa sido insuficientemente detalhado, horários vagos, ausência de fio condutor, tratamento desadequado de conflitos surgidos, falta de liderança, exclusivo cumprimento de calendário.

E ainda pode o ambiente físico não ter sido apropriado: local desconfortável, recursos que não funcionam, interrupções que desconcentram.

Ora, para que as reuniões tenham o êxito desejado, não têm de multiplicar-se, mas devem ser bem preparadas, bem conduzidas e muito participadas. Enfim, devem ser como o sal na comida. Torna-se evidente que a adequada preparação e condução duma reunião é condição do seu sucesso e da obtenção dos resultados pretendidos, ao mesmo tempo que permite uma gestão mais eficaz do tempo por parte dos órgãos competentes e dos participantes envolvidos.

Necessidade da reunião

As reuniões são necessárias para mobilizar ideias e energias, para coordenar atividades e para atingir desempenhos coletivos. Contudo, fazer uma reunião absorve vários tipos de recursos, e não apenas o recurso raro que é o tempo, o que implica um dispêndio considerável que tende a passar despercebido. Por isso, a grande questão a colocar-se é a de saber se o tema ou assunto justifica a realização da reunião ou se ela é dispensável.

Em caso de se justificar a realização da reunião, importa desde logo estabelecer os objetivos e os resultados a que se quer chegar, definir, se a lei ou os regulamentos o não tiverem estabelecido, o tipo e o número de participantes, fixar a duração, o dia, a hora e o local da mesma.

Preparação da reunião

Uma reunião eficaz não se improvisa, precisa de ser cuidadosamente preparada.

Verificada a necessidade da reunião, importa escolher o tipo de reunião, pois há vários tipos de reuniões, consoante os objetivos: reunião de informação, de formação ou de sensibilização; reunião de discussão e debate, vulgarmente chamada ‘reunião de trabalho’, para programação de atividades futuras, troca de pontos de vista, procura de um acordo ou, simplesmente, produção de ideias; reunião de consulta, de negociação, de resolução de problemas, de validação de situações e de tomada de decisões.

A sua preparação é um trabalho exigente, mas essencial para o sucesso, na medida em que pressupõe um conjunto diversificado de ações que obedeçam aos princípios seguintes: planificação segundo as necessidades; escolher o tipo de reunião de acordo com os objetivos e os grupos visados; dirigir a reunião eficazmente em função de objetivos concretos e resultados mensuráveis; exercer a liderança através da animação e da dinâmica do grupo; saber gerir espaços, assegurar a organização do material e dos instrumentos de apoio.

Para tanto, há que estabelecer uma lista de controlo de tarefas: fixação clara dos objetivos e dos resultados a atingir; elaboração de uma ordem de trabalhos anotada a enviar com a respetiva convocatória (ou convite) a todos os participantes; programação da condução de cada assunto, segundo um esquema de apresentação, justificação, diálogo e decisão; designação de secretário ou relator para elaboração da ata ou relatório; reserva da sala e marcação da data; definição da composição da mesa de presidência, se aplicável; disponibilização de bebidas, se for caso disso; entrega da lista de participantes externos à receção, PBX e parque de estacionamento; e verificação do funcionamento dos equipamentos e preparação do restante material de apoio.

Ordem de trabalhos

Para lá da habitual ordem de trabalhos, poderá ser preparada uma ordem de trabalhos anotada, que incluirá: descrição sucinta dos objetivos e dos resultados globais a alcançar; indicação dos diversos assuntos a tratar em cada etapa, com previsão da duração total da reunião e de cada ponto da agenda; priorização dos temas, prevendo os que possam ser retirados em caso de falta de tempo; menção dos documentos a ler previamente e, eventualmente, dos documentos a trazer ou a apresentar; referência à atribuição de trabalho preparatório a determinados participantes.

Uma ordem de trabalhos deverá discriminar suficientemente os diversos assuntos, evitando-se colocar um item sob a designação de “outros assuntos”; deverá ser atempadamente afixada e/ou publicada nos termos legais e regulamentares e enviada aos destinatários; e deverá ser acompanhada de texto a motivar a participação dos participantes e a incentivar, para tanto, a preparação por parte de cada participante.

Convocatória

Da convocatória (ou convite, no caso de os destinatários não serem obrigados a compadecer), a afixar nos lugares de estilo ou a publicar nos boletins previstos nos regulamentos, deve constar informação sobre: data da reunião (local, dia, mês e hora de início e conclusão); indicação das condições de início; agenda anotada, acompanhada de eventuais documentos e/ou de informação de contexto; resultados esperados; participantes; e modos de intervenção, se for o caso.

Na fase de preparação poderá ser importante: enviar a convocatória por correio eletrónico, com vista à agilização de todo o processo de organização e preparação da reunião; telefonar aos convocados/convidados com a antecedência de um ou dois dias, a fim de garantir a sua participação; enviar convite pessoal de modo a garantir a presença específica dum participante.

Abertura da reunião

O presidente (moderador ou facilitador) abre a sessão à hora prevista, dá as boas-vindas e agradece o tempo a presença dos participantes; pede aos presentes, se for caso disso, que se apresentem ou, no caso de se tratar dum grupo grande, refere a diversidade e heterogeneidade dos participantes fazendo-os sentir-se confortáveis e motivados para participarem e alcançar um objectivo comum; não perde demasiado tempo com a aprovação de atas anteriores, apresenta claramente os objetivos da reunião, faz aprovar a agenda e expõe os respetivos pontos, recorda os resultados a que se quer chegar, explicita o método de trabalho, sublinha a duração prevista da reunião e informa sobre aspetos práticos de organização; e avisa se haverá registo, ata ou relatório, indicando previamente o relator ou secretário da reunião, sublinha a necessidade de liberdade e concisão nas intervenções e pode fazer uma breve abertura, moderando o excesso de entusiasmo, insistindo na circunscrição aos temas centrais da agenda e exprimindo firmeza e segurança.

Condução da reunião

O presidente ou moderador é um elemento central para o sucesso da reunião, competindo-lhe: congregar a atenção dos participantes e envolvê-los no clima da reunião; facilitar a troca de pontos de vista, assegurar a participação de todos e, sempre que se justifique (mas só nesse caso, evitando a monopolização), dar um contributo sobre o tema a ser tratado; assegurar a organização das intervenções e a objetividade dos contributos; gerir o tempo, alocando-o aos diferentes pontos da agenda, evitando desvios à ordem de trabalhos e deixando cair pontos da agenda, se for caso disso; dinamizar a reunião, mostrando flexibilidade sobre tópicos controversos ou questões de difícil acordo; mobilizar o máximo de opiniões individuais para o espaço coletivo; formular posições de consenso ou pedir a um dos participantes que apresente uma posição que reflita a posição geral do grupo; sintetizar ou fazer sintetizar cada um dos pontos da agenda tratados, salientando os pontos de consenso adquiridos e elencando os obstáculos apontados; assegurar que sejam tomadas todas as decisões necessárias; e terminar com uma síntese mencionando expressamente os resultados alcançados e evitando que a reunião termine sem tomada decisões ou sem definição de prazos e responsabilidades.

Não deve monopolizar o debate, devendo suscitar a participação dos presentes, respeitando as diversas opiniões e gerindo equanimemente os tempos de intervenção a ponto de sinalizar desvios dos temas em agenda. E não deve deixar de pôr a votação as propostas que tiverem de ser apresentadas para tal por si ou por outrem, depois da devida discussão.

Participação na reunião

O desempenho do presidente (moderador ou facilitador) e dos participantes são os pilares do êxito da reunião. Ao participante na reunião compete:

Antes da reunião, analisar os documentos recebidos com a convocatória; equacionar o modo como irá intervir ativamente; recolher informações que sejam úteis para o sucesso da reunião; e produzir algum apontamento importante.

Durante a reunião, tomar notas sobre dúvidas e pontos importantes; intervir de modo claro e conciso sobre os temas da agenda, focando o seu contributo e grau de envolvimento para a consecução dos objetivos; saber escutar bem ideias e opiniões, interessar-se pelos avanços conseguidos, ponderar as críticas a fazer; intervir de modo assertivo sobre a agenda, com economia de tempo, sem pretender dominar a discussão.

Após a reunião, verificar e assumir os conteúdos da versão final da ata, empenhando-se na concretização das determinações da reunião.

Conclusão e encerramento

Cabe ao presidente ou moderador proceder ao encerramento da reunião. Para que o faça com sucesso, importa: sumariar as decisões tomadas, realçando os respetivos prazos; fazer breve balanço dos aspetos positivos adquiridos, bem como das divergências evidenciadas e dos obstáculos a superar; informar da elaboração cuidada e abrangente da ata/relatório/nota/síntese que constitui a memória escrita dos resultados e o guia para a futura monitorização e acompanhamento da execução das decisões – a qual, sempre que possível, é apresentada no final da reunião, para, após os pertinentes comentários, ser aprovada para envio posterior, podendo ser conveniente enviar cópia a pessoas que não participaram na reunião (por exemplo, o responsável de um setor que desempenha um papel importante na implementação das medidas decididas ou que será afetado pela concretização das mesmas); e concluir agradecendo a presença e a participação.

Anote-se que devem ser aceites as declarações de voto, que devem ser transcritas para a ata ou a ela anexadas e com a menção no corpo da ata.

A ata, depois de lida, deve ser aprovada em minuta no fim da reunião, sobretudo se houver deliberações a entrar imediatamente em vigor, ou no início da reunião seguinte, se esta estiver no horizonte da organização a curto ou médio prazo, podendo ser dispensada a leitura da ata em voz alta, neste caso, se o texto tiver sido efetivamente distribuído pelos participantes.

Acompanhamento dos resultados da reunião

O êxito da reunião depende do acompanhamento dos seus resultados. E, porque, sem o seu acompanhamento, pode perder-se parte do trabalho nela realizado, no final da reunião terá de haver uma lista de tarefas a realizar, cuja responsabilidade pode ser distribuída por cada participante, com um prazo de execução e indicação clara de quem monitoriza o processo.

Por outro lado, impõe-se assegurar que o relator/secretário prepare a ata ou relato o mais cedo possível após a reunião; enviar cópia da ata provisória aos participantes, com pedido de observações e comentários dentro de um prazo útil e com agradecimento pelos contributos; remeter a todos e, se for caso disso, a pessoas relevantes que não puderam estar na reunião a ata definitiva, da qual constem: decisões consensuais, conclusões assumidas e recomendações formuladas; indicação dos compromissos e da partilha de responsabilidades pelas tarefas específicas de acompanhamento a realizar nos prazos acordados;

Uma vez concluída a ata, o presidente (moderador ou facilitador) poderá organizar um calendário com notas e lembretes relacionados com a concretização das decisões tomadas; antes da reunião seguinte, deverá assegurar-se que os participantes redijam curtos relatórios de avaliação sobre o grau de implementação das medidas e decisões tomadas; e deverá manter sempre os participantes informados e motivados relativamente ao desenvolvimento dos trabalhos.

 

Referências

Barker, Alan, Reuniões que funcionam, Mem Martins, Lyon Edições, 1996

Dressler, Larry, Reuniões eficazes, Lisboa, Actual Editora, 2008

Noyé, Didier, Réussir vos réunions, Paris, Insep Consulting éditions, 2009

Tropman, E. John, Making meetings work: achieving high quakity group decisions, London, Sage Publications Inc., 2003

Rebori, Marlene. K., How to organize and run effective meetings, Cooperative Extension, Bringing the University to you,Fact Sheet 97-29, University of Nevada, Reno

2020.08.05 – Louro de Carvalho


terça-feira, 4 de agosto de 2020

O BES/GES: de corpo pluricelular a unicelular reproduzível por divisão

O Novo Banco (NB) continua na berlinda pelos piores motivos e parece difícil dar a volta a isto.

Sendo um dos produtos da resolução do BES como banco bom e deixando para trás o banco mau, denominado Banco Espírito Santo, fez crer que teria força anímica para funcionar com boa saúde financeira, alegadamente sem pesar na carteira dos contribuintes, pois os produtos incómodos ou os lixos ficavam por conta do banco mau.

Porém, na sequência do que todos pensávamos, o Tribunal de Contas (TdC), em recente relatório, concomitante com um relatório internacional em que Portugal não fica bem na fotografia, confirma que os contribuintes estão a entrar na solução dos inúmeros e sucessivos problemas do NB, ao arrepio do que se dizia oficialmente. E isso acontece através do Fundo de Resolução (FR), que, presidido por um vice-presidente do Banco de Portugal (BdP) e que de acionista único passou a ter uma participação de 25% após o negócio com o fundo americano Lone Star, vai injetando convenientemente as verbas em conformidade com os termos contratuais e mediante empréstimos a muito longo prazo concedidos pelo Ministério das Finanças, assim recaindo sobre os contribuintes, pelo menos, o custo de oportunidade, não se sabendo se o FR ou a entidade que lhe suceda alguma vez pagará ao Estado. Ao todo, já lá vão 8000 milhões de euros, faltando injetar 900 milhões nos termos contratuais se o exigirem os termos do mecanismo de capitalização contingente, acordado em 2017.

Só que o TdC fixa-se, a meu ver, num ponto menos interessante. Em vez de “censurar” a resolução do BES, escandalosamente exposto ao grupo GES, talvez com mais poder dilapidador que o banco e gerido superiormente pelo mesmo DDT, frisa o conflito de interesses evidenciado na resolução, pois alegadamente o supervisor BdP não podia intervir na resolução, não lhe cabendo supervisionar e intervir. Mas, logo a seguir, parece desculpar o supervisor por não ter ainda sido criada a ANR (Autoridade Nacional de Resolução). Afinal em que ficamos? Podia ou não o BdP ter criado o FR?

Se bem me lembro, o Conselho de Ministros aprovou um decreto-lei numa sexta-feira para viabilizar a resolução, complementado por um outro aprovado e promulgado no domingo para o NB entrar em funcionamento logo na segunda-feira. Ora, se o BdP interveio na resolução, foi porque o Governo de então o permitiu. E sobre isso o relatório não se pronuncia ou a comunicação social fez orelhas moucas ao caso. Porventura o TdC deveria ter apontado ao Governo e ao BdP uma sujeição servil ao BCE (Banco Central Europeu), não?

Depois, ninguém explicou de forma cabal e inequívoca – se calhar, não existe – como é que o FR vende 75% do NB ao Lone Star e aceita ficar responsável pelas perdas, ou seja, vender e pagar por vender? E é pena que o TdC não se tenha metido a analisar este aspeto.

Outros dados da evolução mostram que, tendo surgido dúvidas sobre o desempenho dos administradores do NB no atinente ao não cumprimento de objetivos, antes registando a prejuízos e aumentando remunerações e prémios, sobretudo aos gestores, o Governo pediu uma auditoria à Deloitte, cujos resultados ainda não são conhecidos. Não obstante e apesar de o Primeiro-Ministro haver garantido no Parlamento que o FR não injetaria mais dinheiro no NB antes do conhecimento dos resultados da dita auditoria, isso aconteceu com a autorização do Ministro das Finanças observando os termos contratuais, mas que alegadamente não tivera em conta a situação excecional e não avisara o Chefe do Governo, que se obrigou a pedir desculpa.

Recentemente, perante a interpelação parlamentar do líder do PSD pela venda de imóveis ao desbarato, a par do engrossamento dos prejuízos, o Primeiro-Ministro enviou uma carta à PGR para analisar a situação, quando se veio a saber que o FR autorizara tais vendas ao desbarato e sem que fosse analisada a situação do destinatário final dos imóveis, tendo aqui falhado a comissão de acompanhamento do próprio NB. O Governo pode não ter tido conhecimento formal da autorização, mas o FR tem na sua composição um representante do Ministério das Finanças, que deveria informar o Governo da iminência da deliberação. É óbvio que um banco na posse dum imóvel que servia de garanta a um crédito pouco se importa com o valor patrimonial e comercial do imóvel, desde que o preço da venda cubra largamente o crédito por satisfazer e as despesas adicionais. Só que a situação do NB é excecional. A par da sua condição de credor, tem a de devedor perante o Estado. Ora, quem hipoteca um imóvel no âmbito do crédito à habitação, não vende sem autorização do banco credor, que não a concede sem que tudo esteja devidamente estudado e garantido.

Entretanto, Diogo Cavaleiro, no Expesso online, de 3 de agosto, interroga-se sobre “o que nos dizem os prejuízos do Novo Banco” e responde que “a ‘parte boa’ já está a sofrer com a pandemia”. E é caso para perguntar o que isso da ‘parte boa’.

O articulista afirma que o NB continua mergulhado em prejuízos, que ficaram mais profundos no 1.º semestre deste ano que no de 2019. E diz que a ‘parte boa’ do banco é a que ficará quando o banco se desfizer dos ativos tóxicos, a qual até “obteve resultados positivos, mas bem abaixo do que alcançado um ano antes”.

E aqui passo a explicar o enunciado em epígrafe. O BES/GES é comparável a um gigantesco corpo pluricelular, que em termos biológicos se reproduzia por multiplicação de entes em diáspora de acordo com os interesses do grupo. Com a Resolução, o BES descolou do GES e passou a ser uma célula quase insignificante que se dividiu em banco mau e banco bom. Pensava-se que o banco mau iria resolver o problema dos lesados do BES. Mas o banco mau não tinha fundo, era um cesto roto. E, por determinação do BdP, provavelmente em articulação com o Governo, em teoria o NB teria que responder pelos danos dos descontentes, encargo que acabou por passar para o NB. E, há anos, António Ramalho decidiu dividir o NB em dois na hora de apresentar contas: o banco recorrente; e o legado. O último é o depositário da herança do BES e o causador das perdas; o outro é o da atividade que se irá manter depois de o NB se desfazer da toxicidade. E não sabemos se a reprodução por divisão celular ficará por aqui.

Assim, no 1.º semestre, o banco recorrente, o agora bom, obteve um resultado positivo de 34 milhões de euros, mas que representa uma quebra de 70% face aos 113 milhões do semestre homólogo do ano anterior, acompanhando o sucedido em todos os restantes grandes bancos nacionais: um deslize dos resultados por obra da pandemia. As imparidades para crédito, na sua maioria decorrentes da pandemia de covid-19, penalizaram os resultados, mesmo da ‘parte boa’ do que, há 6 anos, a 3 de agosto de 2014, foi considerado o ‘banco bom’ do BES.

E, na área tóxica, as perdas foram de 493,7 milhões de euros, até aliviando 3,8% em relação ao registo do 1.º semestre de 2019.

Ao todo, o prejuízo do banco ascendeu a 555 milhões de euros no 1.º semestre, para o que terá havido várias razões. Além das imparidades para crédito de 289,5 milhões, há a perda de 260,6 milhões para que o banco ajustasse o valor a que tem registado fundos de reestruturação (para onde passou alguns dos ativos tóxicos); e o banco foi prejudicado pela cobertura de risco (swaps) da taxa de juro da dívida portuguesa, no montante de 78,7 milhões de euros. Mas o NB fechou o semestre com um rácio de capital de 12%, o que terá de ser garantido por tais injeções.

Contudo, há um reforço da provisão que o NB tem reestruturação. O Expresso noticiou, no dia 1, que a instituição está a contactar 115 funcionários para r saídas até ao final do ano, a somar aos 138 que deixaram o banco entre julho de 2019 e junho deste ano, estando o quadro nos 4.855 colaboradores.

Tendo em conta os resultados, sobretudo o desempenho dos ativos que estão cobertos pelo mecanismo de capitalização contingente, o banco antecipa que poderá solicitar 176 milhões de euros ao FR – pedido que só acontecerá no fim do ano, quando houver contas de 2020 inteiro.

Ao todo, o NB poderá solicitar, como é sabido, mais 900 milhões de euros ao FR, ao abrigo do predito mecanismo que cobre ativos tóxicos, como malparado e imóveis. Tem ainda 4000 em carteira, que serão objeto de venda só depois de conhecidos os resultados da auditoria em curso.

O balanço mostra que os recursos de clientes (à cabeça, os depósitos) somaram 1,7% para 35 mil milhões e a carteira de crédito cresceu 1,4% para 27 mil milhões, sendo esta a boa notícia.

Em dezembro, 11,8% do crédito estava em incumprimento (NPL, de ‘non performing loans’), ao passo que, no fim de junho, o rácio desceu aos 10,2%. O crédito malparado ascende a 3,1 mil milhões de euros, aproximando-se, pela primeira vez, do rácio dum só dígito, marca importante para um banco que em 2016 tinha um rácio NPL insustentável de 33,4%. Não obstante, o NB mantém-se com uma das carteiras com pior qualidade do seu ativo, o que é objeto da auditoria.

Enfim, entre perdas e menos lucros, o NB passa pelos pingos da chuva, dividindo-se e repartindo as culpas dos resultados discutíveis pelo FR e pelo Estado. Que resultará da análise da PGR se tudo foi atempadamente autorizado? Que nos dirá o TdC a destempo daqui por uns anos num tempo de justiça excessivamente longo e, nestes casos, ineficaz?

E os cidadãos, nomeadamente os contribuintes, continuam a confiar estoicamente no Estado e na sua justiça, bem como no nosso sistema financeiro que nos defrauda pagando juros de miséria, cobrando juros altíssimos pelo crédito ao consumo, estabelecendo pagamento exorbitante por comissões por serviços e manutenção de conta, sem Estado que nos valha. Que remédio! Depois, queixam-se da abstenção em eleições…

2020.07.04 – Louro de Carvalho


segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Divisão na hierarquia católica no Brasil vem à tona com Bolsonaro

Há uns tempos a esta parte, dois bispos apontavam a existência duma articulação entre os integrantes da ala progressista da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) para uma frente de modo a influir no debate com o Governo de Jair Bolsonaro. E recentemente, 152 bispos, arcebispos e bispos eméritos divulgaram a Carta ao Povo de Deus, com duras críticas ao Presidente, sobretudo face à pandemia de covid-19, e ao bolsonarismo, referindo:  

Assistimos sistematicamente a discursos anticientíficos, que tentam naturalizar ou normalizar o flagelo dos milhares de mortes pela covid-19 (...) e os conchavos políticos que visam a manutenção do poder a qualquer preço. Esse discurso não se baseia nos princípios éticos e morais, tampouco suporta ser confrontado com a Tradição e a Doutrina Social da Igreja.”. 

Segundo os bispos, tal movimentação não está restrita à CNBB, mas tem encontrado eco em paróquias e igrejas do país, onde padres se reclamam objeto de perseguição política, devido às críticas ao Governo em missas ou em conversas com fiéis.

O texto é assinado por hierarcas de peso, entre outros, Dom Claudio Hummes, Arcebispo emérito de São Paulo, Dom Angélico Sandalo Bernardino, Bispo emérito de Blumenau, Dom Edson Taschetto Damian, Bispo de São Gabriel da Cachoeira (AM), Dom Alberto Taveira Corrêa, Arcebispo de Belém (PA), Dom Erwin Krautler, Bispo emérito do Xingu (PA), Dom Joaquim Giovani Mol, Bispo auxiliar de Belo Horizonte (MG), e Dom Leonardi Ulrich, Arcebispo de Manaus (AM) e ex-secretário-geral da CNBB.

Escreveram a Carta, “interpelados pela gravidade do momento em que vivemos, sensíveis ao Evangelho e à Doutrina Social da Igreja, como um serviço a todos os que desejam ver superada esta fase de tantas incertezas e tanto sofrimento do povo” e convictos de que “a proposta do Evangelho não consiste apenas numa relação pessoal com Deus” e de que a reposta de amor não pode ser entendida “como uma mera soma de pequenos gestos pessoais a favor de alguns indivíduos necessitados” ou “uma série de ações destinadas apenas para tranquilizar a própria consciência, mas de que “a proposta é o Reino de Deus”, que “é dom, compromisso e meta”.

Sem “interesses político-partidários, económicos, ideológicos ou de qualquer outra natureza”, o único interesse destes bispos “é o Reino de Deus, presente na nossa história, na medida em que avançamos na construção de uma sociedade estruturalmente justa, fraterna e solidária, como uma civilização do amor”, aqui e agora num dos períodos mais difíceis da história, “comparado a uma ‘tempestade perfeita’, que dolorosamente, precisa de ser atravessada” e que é causada pela “combinação de uma crise de saúde sem precedentes, com um avassalador colapso da economia e com a tensão que se abate sobre os fundamentos da República”, “resultando numa profunda crise política e de governança”.

Este cenário, segundo os bispos, “exige de suas instituições, líderes e organizações civis muito mais diálogo do que discursos ideológicos fechados” e a apresentação de “propostas e pactos objetivos” para superar os “grandes desafios, em favor da vida”, sobretudo dos “segmentos mais vulneráveis e excluídos, nesta sociedade estruturalmente desigual, injusta e violenta”.

Não comportando indiferença esta realidade, quem se coloca na defesa da vida tem de posicionar-se claramente em relação a este cenário. As recentes escolhas políticas e “a narrativa que propõe a complacência frente aos desmandos do Governo Federal não justificam a inércia e a omissão no combate às mazelas que se abateram sobre o povo”. São “mazelas que se abatem também sobre a Casa Comum”, ameaçada pela ação “inescrupulosa” de “madeireiros, garimpeiros, mineradores, latifundiários e outros defensores dum desenvolvimento que despreza os direitos humanos e os da mãe terra”, sendo que todos “seremos julgados pelas ações ou omissões neste momento tão grave e desafiador”.

E os bispos denunciam o absurdo e a inutilidade dos “discursos anticientíficos, que tentam naturalizar ou normalizar o flagelo dos milhares de mortes pela covid-19, tratando-o como fruto do acaso ou do castigo divino, o caos socioeconómico que se avizinha, com o desemprego e a carestia que são projetados para os próximos meses, e os conchavos políticos que visam a manutenção do poder a qualquer preço”. São discursos não baseados nos princípios éticos e morais e não suportam o confronto com a Tradição e a Doutrina Social da Igreja, no seguimento d’ Aquele que veio “para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).

Percebem claramente os bispos a incapacidade e inabilidade do Governo Federal em enfrentar estas crises e sustentam que a reforma trabalhista e a previdenciária se mostraram “como armadilhas que precarizaram ainda mais a vida do povo”. Com efeito, quando o Brasil precisa de “medidas e reformas sérias, mas não como as que foram feitas, cujos resultados pioraram a vida dos pobres, desprotegeram vulneráveis, liberalizaram o uso de agrotóxicos antes proibidos, afrouxaram o controlo de desmatamentos”, o atual sistema governativonão coloca no centro a pessoa humana e o bem de todos”, mas a defesa intransigente dos interesses duma “economia que mata”, centrada “no mercado e no lucro a qualquer preço”. Antes, colocando-se contra a ciência, os estados, os municípios e os poderes da República, aproxima-se do totalitarismo e utiliza “expedientes condenáveis, como o apoio e o estímulo a atos contra a democracia, a flexibilização das leis de trânsito e do uso de armas de fogo pela população e o recurso à prática de suspeitas ações de comunicação”.

Ficam os bispos signatários da carta estarrecidos pelo desprezo pela educação, cultura, saúde e pela diplomacia” – desprezo visível na demonstração de raiva pela educação pública e no apelo a ideias obscurantistas; na repugnância pela consciência crítica e pela liberdade de pensamento e de imprensa; na desqualificação das relações diplomáticas com vários países; na indiferença pelo facto de o Brasil ocupar um dos lugares cimeiros em número de infetados e mortos pela pandemia; na tensão com os outros entes da República na coordenação do enfrentamento da pandemia; e na falta de sensibilidade para com os familiares dos mortos pelo novo coronavírus e profissionais da saúde que adoecem nos esforços para salvar vidas.

Na economia, o Ministro desdenha dos pequenos empresários e privilegia os grandes grupos económicos, quando a recessão iminente poderá fazer o número de desempregados ultrapassar 20 milhões de brasileiros. Descurando os apelos de entidades nacionais e internacionais, o Governo demonstra omissão, apatia e repulsa pelos mais pobres e vulneráveis, os mais atingidos pela pandemia, a ponto de o Presidente, no Plano Emergencial para Enfrentamento à covid-19, aprovado no legislativo federal, ter vetado o acesso a água potável, material de higiene, oferta de leitos hospitalares e de terapia intensiva, ventiladores e máquinas de oxigenação sanguínea aos territórios indígenas. Até a religião serve para manipulação de sentimentos e crenças, provocação de divisões, difusão de ódio, criação de tensões entre igrejas e seus líderes.

Neste tempo da pandemia que obriga ao distanciamento social e ensina um “novo normal”, os bispos sentem que o povo está a redescobrir a casa e a família como Igreja doméstica e espaço do encontro com Deus e com os irmãos e irmãs. Por isso, apelam ao despertar do sono que imobiliza e faz das pessoas “meros espectadores da realidade de milhares de mortes e da violência que nos assolam”. E, com o apóstolo Paulo, alertam que “a noite vai avançada e o dia se aproxima; rejeitemos as obras das trevas e vistamos a armadura da luz(Rm 13,12).

***

A Carta não foi publicada de imediato, mas aguardou o parecer do Conselho Permanente da CNBB, que remeteu do teor da mesma para a responsabilidade dos signatários.  

A seguir, o panorama eclesial divide-se: bispos da ala progressista dizem que o Presidente “incita o ódio” e um padre chama-o de “bandido”; os donos de emissoras católicas oferecem “notícias positivas” ao Governo em troca de subsídios; e a cúpula da hierarquia demarca-se.

Entretanto, 1058 padres do país assinaram um manifesto a favor da carta dos 152 arcebispos e bispos sublinhando “a omissão, apatia e ‘rechaço’ pelos mais pobres”, além da “incapacidade para enfrentar crises” e o “desprezo pela educação, cultura, saúde e diplomacia”, gerando uma “crise sem precedentes na saúde” e “um avassalador colapso na economia” graças “à tensão provocada em grande medida pelo Presidente da República”.

O professor Flávio Sofiati, especialista em sociologia da religião da Universidade Federal de Goiás, disse ao DN que “não é novidade a divisão política da igreja católica” mas que agora, por o Governo ter caraterísticas fascistas, ela está a intensificar-se, tornando-se “mais mediática”.

E não é só a Carta que está a mostrar a divisão. Na missa de 2 de julho na cidade de Artur Nogueira, a 150 km de São Paulo, o Padre Edson Tagliaferro disse que “este Governo não presta” e que quem votou em Bolsonaro deveria confessar-se e “pedir perdão pelo pecado que cometeu, elegendo um bandido” – mensagem que chegou à internet. E, entre os ataques e as perseguições, Tagliaferro foi criticado por Dom José Palau, o Bispo da região, que pediu desculpa aos atingidos “até porque as opiniões não representam a diocese”. Porém, o padre recebeu apoio de 300 párocos.

A 21 de maio, Bolsonaro fizera uma videoconferência com proprietários de emissoras de televisão católicas, que pediram mais investimentos do Governo em troca de “media positiva” nos seus noticiários, “levando ao conhecimento da população católica, ampla maioria desse país, aquilo de bom que o governo pode estar a realizar e fazendo pelo nosso povo”, como disse o Padre Welinton Silva, da TV Pai Eterno, secundado pelo Padre Reginaldo Manzotti, da TV Evangelizar. Tudo isto deixou Bolsonaro “fortalecido” e a prometer ajuda. Todavia, a CNBB disse desconhecer a realização da reunião.

Diana Maia, da Articulação das Pastorais Sociais de Fortaleza, reagiu negativamente:

Para nós é trair o próprio evangelho, uma vez que o atual Presidente demonstra ser insensível com a dor de milhares de famílias que estão a perder os seus entes por conta da pandemia da covid-19, desempregados, indígenas que são assassinados, pessoas em situação de rua (...). Não podíamos ficar calados diante dum ato que atenta contra a própria fé católica, por isso, decidimos de início expressar nossa indignação e posicionamento nessa carta.”.

Flávio Sofiati sustenta que a CBNN está muito dividida: o presidente, Dom Walmor de Azevedo, é de esquerda; o secretário-geral, Dom Joel Amado é de direita. E, adianta que, em sua opinião, um terço da CNBB é de esquerda, outro de direita e um terceiro é moderado. E adverte que “é importante notar que temos, não um, mas alguns catolicismos, tendências, faces, modelos, cenários”. E distingue 4 correntes: a tradicionalista, conservadora no método e no conteúdo; a carismática, conservadora no conteúdo, mas moderna no método, que integra padres cantores e faz ações simpáticas; a reformista, com padres ligados a setores da educação ou dos direitos humanos; e a radical, da teologia da libertação (corrente sul-americana ligada à esquerda). Mais refere que esta última “foi muito próxima de Lula”, ao passo que a ala da renovação carismática se aproximou de Fernando Henrique Cardoso – embora se trate de “uma questão política”, pois, “na prática, na vida real, na missa comum, estas fronteiras transbordam”.

Outro divisor claro é o Papa Francisco. Lula, em recente entrevista aos correspondentes estrangeiros em são Paulo, disse que “ele sabe do que fala, ele tem lado, o lado dos pobres e desprotegidos”, enquanto Bolsonaro acentua que “o Papa é argentino, mas Deus é brasileiro”.

A título de curiosidade, mas com significado político, anote-se que Bolsonaro se aproximou do protestantismo aquando das últimas eleições que acabaria por vencer, por ter sentido pontos de contacto entre o seu programa e as pregações da maioria dos pastores e reverendos.

No início de 2018, em pré-campanha eleitoral, católico de formação, foi batizado pela segunda vez, agora pelo Pastor Everaldo, presidente do Partido Social Cristão, nas águas do rio Jordão, em Israel. E, em setembro de 2019, teve um terceiro batismo, com Edir Macedo, Bispo da IURD, que o chamou ao altar num culto e, pondo-lhe as duas mãos na cabeça, disse “fazer uso de toda a autoridade concedida por Deus para abençoar este homem, para lhe dar sabedoria, para que este país seja transformado, para que faça um novo Brasil”.

Sofiati alerta para o facto de “o mundo, sobretudo o Sul Global, estar em processo de pentecostalismo, estimando-se que dos 2,2 mil milhões de cristãos, 600 milhões (uns 25%) sejam pentecostais. E, no Brasil, segundo um estudo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, no próximo ano, fiéis do Papa podem somar menos de metade da população do ainda “maior país católico do mundo”, sendo que, em 2032, o estudo aponta para uma ultrapassagem dos católicos pelos pentecostais.

E Sofiati recorda que “as lideranças evangélicas estão com ​​​​​​Bolsonaro mas, ao invés das católicas, estão sempre com o poder”, pois estiveram com Fernando Henrique Cardoso e Lula.

***

É pena que a hierarquia eclesiástica esteja dividida em momento de crise e que a causa da divisão seja política e mercantilista. Não pode a sujeição ao poder ou ao dinheiro, para sobrevivência de instituições, fazer o jeito informativo ao Governo manipulando as pessoas mais fragilizadas. Onde está a força do Reino de Deus, quando a mesquinhez do comodismo e do servilismo faz abandonar as ovelhas às garras do lobo? Em vez da divisão, precisava-se de união e, pelo fulgor do Reino, precisa-se de audácia, da audácia dos mártires se necessário for.   

2020.07. 03 – Louro de Carvalho


domingo, 2 de agosto de 2020

Deus quer cuidar de nós e insta a que tomemos o cuidado dos outros


Sou dos tempos em que os livros de piedade fora da caixa recusavam o Deus pensado pelos filósofos por ser poderoso, distante e inacessível, talvez por confiarem demasiado no raciocínio de quem, olhando para a admirável obra da criação, não vê mais do que o arquiteto, o demiurgo, o motor imóvel, na linha da transcendência, ou mesmo o deus confundido com o universo, o deus ex machina, na linha da imanência do panteísmo.
Deus assim entendido dava azo a que muitos questionassem a sua presença no mundo e mesmo a sua existência, o que, face à cómoda tentação do ateísmo despertava nos crentes a busca de argumentos para provar a existência de Deus. Mesmo havendo filósofos que afastavam a possibilidade de chegar ao conhecimento de Deus pela razão, restando a via da fé, a maior parte dos filósofos cristãos encontrou caminhos racionais de chegar ao conhecimento da existência de Deus, obviamente vias indiretas, e às suas caraterísticas, a estas pela via da negação dos defeitos humanos em Deus e pela exaltação e sublimação da qualidade conhecidas pelo ser humano.  
Aliás, o conhecimento de Deus pela obra criada é atestado na Carta de Paulo aos Romanos:
Porque o conhecido de Deus (tò gnóstòn toû Theoû) está manifesto entre eles (os homens), pois Deus lho manifestou. As coisas invisíveis (aórata) d’Ele desde a criação do mundo são vistas enquanto coisas inteligíveis (noûmena) nas suas obras, sendo elas o seu eterno poder e divindade, pelo que eles (os pagãos) não se podem desculpar. Porque, tendo conhecido Deus, não O glorificaram como Deus nem lhe deram graças. Pelo contrário, tornaram-se fúteis nos seus pensamentos e obscureceu-se o seu coração insensato. Afirmando-se como sábios, tornaram-se absurdos (emôránthêsan – de móros, tolo) e transformaram a glória de Deus incorrutível numa parecença de figura humana corrutível de aves de quadrúpedes e de répteis.” (Rm 1,19-23).      
Mais tarde, surgiu o agnosticismo que, estribado na negação do conhecimento racional de índole positivista reservando aos sentidos o monopólio do conhecimento, não queria saber se Deus existe ou não, o que praticamente dá na atitude ateísta. E, não contentes com isso, surgiram as correntes antiteístas a combater Deus. Porém, com o laicismo, na versão tendente a proscrever a religião ou a remetê-la para o campo da consciência, começou a campear o indiferentismo.  
Entretanto, no campo das ciências, que em certos momentos se opôs à existência Deus e sua intervenção no mundo por não haver mostras no campo da observação e da simulação, surge, pelos vistos com Einstein, a ideia de provar a existência de Deus pela via científica.
Einstein, com muitos outros, não cria no Deus da Bíblia por alegadamente campear guerras, destruições e mortes e permitir o mal no mundo. Até se enuncia o trilema: se é bom, não pode permitir o mal; se não permite o mal, não dá liberdade ao homem; se não dá liberdade ao homem, não é liberal e omnipotente. Isto é entendível, se se ler o Antigo Testamento somente pela vertente mais escura e desligado da cultura em que foi gerado e fixado ao longo do tempo.
É a insuficiência da mecânica, da termodinâmica, da eletromecânica e da eletrodinâmica, que põe os cientistas na rota da descoberta de Deus para explicar a génese, manutenção e destino do universo. A isto ajudaram paradoxalmente as teorias da relatividade, o princípio da incerteza, a física quântica e a teoria do tudo. Não obstante, o que os cientistas buscam não é o Deus transcendente, mas uma partícula que tenha gerado o universo, o explique na vertente determinista e indeterminável, nas leis e nos aspetos não lineares. Enfim, trata-se de um Deus matéria, massa, energia. Chegaram a proclamar, há uns anos a esta parte, que estava descoberta a partícula de Deus, o bosão, que é a chave explicativa do universo. Não são fáceis em aceitar o Deus que ajuda e de quem nos lembramos apenas quando nos sentimos impotentes ou aflitos perante as agruras e fragilidades com que a vida presenteia a humanidade. 
Porém, Einstein, não aceitando o Deus bíblico, entendia que a chave estava no Génesis: “no princípio, em seis dias, Deus criou o mundo…”. E atribuía a cada um dos dias uns bons milhões de anos segundo a contagem hodierna.
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Ora, já a linha veterotestamentária evidenciava a tutela providente de Deus para com o povo escolhido, com o qual estabelecera uma aliança ante todos os povos, mas que o povo britava a cada passo caindo na idolatria. E, ao mesmo tempo, o Deus de Israel mostrava que também inspirava outros povos e outras entidades na via do bem como é o caso de Ciro II, da Pérsia.
Assim, a passagem do livro de Isaías (Is 55,1-3), proclamada no XVIII domingo do Tempo Comum no Ano A, mostra o profeta a convidar os exilados a cumprirem um novo êxodo, deixando a Babilónia, que se tornara terra da escravidão, e dirigindo-se para a terra da liberdade – a nova Jerusalém que Deus vai reconstruir para o seu Povo, onde Judá redescobrirá o Deus pessoal e libertador, que faz abundar a justiça, a prosperidade, a abundância e a paz. Através da imagem dum “banquete”, à roda da mesa de Deus, o Povo sofredor, encontrará trigo, “vinho”, “leite” e “manjares suculentos”. Por isso, o convite à aquisição, gratuita e abundante, de água, vinho e leite para que, saciados, prestem atenção a Deus e as suas almas vivam.
Não era fácil deixar a relativa segurança babilónica de 40 anos para encarar uma terra devastada e recomeçar. Com efeito, muitos exilados, correspondendo ao apelo de Jeremias (cf Jr 29), tinham construído as suas casas e refeito as suas vidas no solo babilónico. Por isso, agora Isaías faz referência ao gasto do “dinheiro no que não alimenta” e ao “trabalho no que não sacia”, o que parece dizer respeito ao facto de muitos exilados pretenderem continuar na Babilónia, em vez de arriscarem o regresso às raízes. E o profeta adverte para a necessidade da coragem de arriscar e partir ao encontro do sonho. E aos que forem capazes de abrir o coração ao dom, Deus oferecerá, gratuita e incondicionalmente, a vida em abundância, a felicidade infinita, apoiada numa aliança eterna, que nada nem ninguém poderão romper. Quem aceitar o dom de Deus viverá uma relação nova com Deus e integrará, em definitivo, a comunidade do Povo de Deus.    
E o Evangelho, que é tão abundante nas manifestações do cuidado que Deus tem com as suas criaturas, também na perícopa mateana proclamada na liturgia desta dominga (Mt 14,13-21), nos apresenta Cristo como o rosto misericordioso e providente do Pai que ama efetiva e afetivamente os seus filhos. E este Deus interessa muito mais que o dos filósofos e os dos cientistas, porque apostar n’Ele e com Ele, gera vida que não acaba, felicidade que não falha.
Na verdade, Mateus anota que Jesus se retirou para o deserto, seguido por uma “grande multidão”, e, impressionado pela fome de vida dessa gente, Se encheu “de compaixão e curou os seus doentes”. Era, de facto, necessário que o novo Moisés libertasse o Povo da escravidão e o conduzisse pela mão paterna e materna à terra da liberdade e da vida.
O deserto por onde Moisés levou o Povo ficou na memória pessoal e coletiva como tempo e espaço do encontro com Deus. Aí, Israel soube despir-se de suas seguranças e autossuficiência e descobriu que cada passo rumo à liberdade é um “milagre” que é preciso acolher de coração agradecido ao amor de Deus. Mais: o deserto é o lugar e o tempo da partilha e da igualdade. É a experiência de deserto que Jesus convida os discípulos a fazer, ensinando-lhes que tudo é um dom e que o dom de Deus é para ser partilhado, colocado ao serviço dos irmãos. E, deste processo de dom, nascerá a comunidade do Reino. A primeira multiplicação dos pães – ou melhor, a divisão, condivisão ou partilha – realizada, neste caso, no mundo judaico apresenta todas as caraterísticas duma lição destinada a mostrar como deve viver quem adere ao Reino na fidelidade ao projeto de salvação oferecido pelo Pai em Jesus.
O primeiro momento deste processo pedagógico é marcado pela verificação da fome do mundo e pela responsabilização da comunidade nesse problema. Com efeito, quando os discípulos Lhe pedem que mande a multidão embora, para que encontre comida, Jesus desafia: “dai-lhes vós de comer”. De facto, o episódio evidencia o comportamento compassivo, acolhedor, hospitaleiro, inclusivo e de partilha de Jesus em contraste com o comportamento insensível, não acolhedor, exclusivista, frio, mercantilista, consumista, egoísta e egocêntrico dos discípulos, que propõem a Jesus que mande as pessoas embora, para que cada um compre de comer para si mesma.
Isto quer dizer que eles têm uma responsabilidade indeclinável face ao grito dos pobres, de modo que nunca o verdadeiro discípulo de Jesus dirá que não tem nada a ver com a fome, com a miséria, com as necessidades dos mais desfavorecidos. Ao invés, qualquer irmão necessitado é da responsabilidade dos discípulos de Jesus, não podendo ser votado ao “salve-se quem puder”.  
Num segundo momento, Jesus ensina a responder ao desafio. Pede aos discípulos a listagem dos bens disponíveis; depois, toma os “cinco pães e dois peixes”, recita a bênção e manda repartir por todos os presentes. Todos comeram até ficarem saciados e ainda houve sobras. O verbo grego usado para dizer “sobrar” é perisseúô, que implica o excesso que ultrapassa toda a medida e a abundância que transborda, tornando inadequadas todas as nossas pequenas medidas.
Isto quer dizer que, face ao apelo dos pobres, a comunidade tem de aprender a partilhar na totalidade. Efetivamente “cinco pães e dois peixes” são sete, pelo que significam a totalidade do que se tem e com que se responde à carência dos irmãos – totalidade fracionada e diversificada, mas que sacia a fome do mundo, uma vez colocada ao serviço dos irmãos. A comunidade do Reino é, pois, uma comunidade de coração aberto e que, vencida a escravidão do egoísmo, está disposta a repartir tudo o que tem, numa dinâmica de experiência da partilha que sacia e que torna irmãos todos os homens.
A questão está em partilhar mais, de preferência tudo. O que Jesus ensina a estes discípulos de mentalidade consumista é que condividir, partilhar, é a melhor maneira de multiplicar. Não é preciso produzir mais para partilhar mais. A grande operação com o sinal de dividir é na lousa do coração que se faz. É isto o que sublinha Dom António Couto, Bispo de Lamego.
E, num terceiro momento, Jesus dá a razão para a partilha. “Tomou os cinco pães e os dois peixes, ergueu os olhos ao céu e recitou a bênção”. A bênção é uma fórmula de ação de graças, que significa reconhecer que algo que se possui é um dom recebido de Deus em favor de todos os filhos de Deus. Na verdade, quem recebeu o dom não é o dono, mas um administrador a quem Deus o confiou, para que o pusesse ao serviço dos irmãos com a mesma gratuitidade com que o recebeu. É isto o que implica a relação pessoal entre Deus e nós.
E diz Dom António Couto que a celebração da Eucaristia, com Jesus sempre no meio de nós, partindo e repartindo o seu pão, reclama de nós que ensaiemos novas maneiras de fazer, pois o milagre não consistiu em aumentar a quantidade, mas em abrir os olhos aos discípulos que só conhecem a lógica consumista e não saboreiam a lógica da gratuitidade, que é a do nosso Pai celeste que faz nascer o sol para os bons e para os maus, que cuida de todos nós e insta ao nosso cuidado para com todos, já que nos criou à sua imagem e semelhança. Aprenderemos?
2020.08.02 – Louro de Carvalho

sábado, 1 de agosto de 2020

Morreu o académico e historiador Joaquim Veríssimo Serrão



Como referiu hoje, dia 1 de agosto, à agência Lusa Vítor Serrão, o seu pai Joaquim Veríssimo Serrão, de 95 anos, faleceu ontem, dia 31 de julho, num lar em Santarém
O defunto, que estava doente há vários anos, foi, nas palavras do filho, “um eminente historiador, pedagogo, investigador e académico que deixa uma obra monumental, como a História de Portugal, editada pela Editorial Verbo, que contribuiu para renovar a historiografia em Portugal e a formar muitos jovens investigadores”.
Para Vítor Serrão, o legado que fica da obra do pai, “além da abundante bibliografia, é justamente a marca pedagógica, pois formou uma quantidade de alunos, incluindo futuros investigadores, arquivistas, gente ligada à Cultura”, que teve o privilégio de conviver com ele.
Joaquim Veríssimo Serrão nasceu em Tremês, no Ribatejo, a 8 de julho de 1925, e deixa dois filhos, Vítor e Adriana, ambos docentes na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Vítor Serrão salienta que, nas mensagens que recebeu, se evidencia “o elogio unânime de quem o teve como professor e com ele aprendeu a amar a História”, sendo que a obra do pai se estende “além-fronteiras e contribuiu para destacar o perfil da História de Portugal no contexto ibero-americano e no contexto geral da Europa”.
Veríssimo Serrão é autor de uma vasta obra historiográfica, na qual avulta a sua História de Portugal, em 19 volumes, que terminou em 2011, mas que ainda não foi publicado por carecer de revisão, esperando-se que veja em breve a luz do dia.
O foco da investigação histórica de Veríssimo Serrão foi a participação dos humanistas portugueses na cultura europeia do século XVI, a história local, com particular atenção por Santarém, concelho de onde era natural (nunca olvidando as suas raízes), a formação do Brasil, a questão epistemológica da historiografia portuguesa, algumas personagens que se destacaram na vida política portuguesa nas últimas décadas do Antigo Regime (século XVIII) e o início do Liberalismo (século XIX).
Licenciou-se em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra em 1948. Um ano antes dera à estampa “Ensaio Histórico sobre o Significado da Tomada de Santarém aos Mouros em 1147”, e estreou-se, em 1948, como conferencista, apresentando “A mundividência na poesia de Guilherme de Azevedo”.
Em 1950 partiu para Toulouse, no sudoeste de França, onde foi leitor de Cultura Portuguesa da universidade local. Neste período, contactou com lusitanistas como Paul Teyssier, León Bourdon e Jean Roche. Durante esta estada, publicou “A Infanta Dona Maria (1521-1570) e a sua Fortuna no Sul da França” e deu a conhecer investigações sobre António de Gouveia, Francisco Sanches, Diogo de Teive, Manuel Álvares e outros letrados portugueses que frequentaram aquela universidade.
Em 1957, defendeu a tese de doutoramento na Universidade de Coimbra, intitulada “O Reinado de Dom António Prior do Crato: 1580-88”, e iniciou funções docentes na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
Na década seguinte, o historiador foi particularmente profícuo: além de dar aulas e conferências, publicou trabalhos sobre humanistas portugueses nas universidades de Salamanca, Montpellier e Toulouse, as relações externas entre Portugal e as cortes europeias no século XVI, o Brasil colonial (séculos XVI e XVII) e a crise dinástica de finais do século XVI.
Integrou o grupo de colaboradores da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira e do Dicionário da História de Portugal, dirigido por Joel Serrão, onde assinou dezenas de entradas.
Entre 1967 e 1972, suspendeu a atividade docente, por ter sido nomeado diretor do Centro Cultural Português da Fundação Calouste Gulbenkian em Paris, função em que se destacou na divulgação dos estudos portugueses, tendo, entre outros títulos, publicado “Arquivos do Centro Cultural Português”.
Em 1973 regressou a Portugal e ocupou a cátedra de História na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, da qual foi reitor até 1974, cargo do qual saiu após a Revolução de 25 de Abril, tendo sido exonerado a seu pedido.
Pouco depois, deu testemunho da sua amizade com Marcello Caetano, último presidente do Conselho de Ministros do regime corporativista, publicando “Confidências no Exílio(1985) e “Correspondência com Marcello Caetano 1974-1980(1994). Era sócio efetivo da Academia Portuguesa da História e da Academia das Ciências de Lisboa. E de 1975 até 2006 presidiu à Academia Portuguesa da História, tendo recebido os prémios Alexandre Herculano (1954), Dom João II (1965) e Príncipe das Astúrias de Ciências Sociais (1995).
Foi sócio de mérito, membro honorário e correspondente de inúmeras sociedades científicas, portuguesas e estrangeiras, tendo recebido diferentes distinções, condecorações e prémios, bem como doutoramentos “honoris causa” por universidades francesas, espanholas e portuguesas.
Foi ainda um dos fundadores do Instituto Politécnico de Santarém e foi desde sempre colaborador da imprensa regional como o “Correio do Ribatejo”, “Vida Ribatejana” e “O Ribatejo”.
Há cerca de três semanas, o “Jornal Correio do Ribatejo” havia lançado uma edição de homenagem ao seu antigo colaborador, para comemorar os 95 anos do historiador, nascido em Santarém. Amigos, familiares e académicos associaram-se então à iniciativa do jornal.
A relação com Santarém e o Ribatejo – privilegiou desde sempre o resgate da memória ribatejana – ficou ainda mais evidente quando o historiador doou a Santarém a sua biblioteca particular com mais de 35 000 obras, livros e fontes de investigação utilizados ao longo da sua carreira de professor universitário e investigador. Esta doação contemplou ainda noventa caixas com documentação manuscrita, quadros, telas, condecorações, moedas e ficheiros.
Com base neste fundo documental, conta o “Correio do Ribatejo”, foi construído o Centro de Investigação Professor Doutor Joaquim Veríssimo Serrão, inaugurado oficialmente a 25 de Maio de 2012. Joaquim Veríssimo Serrão declarou, naquela altura ser sua intenção, com esta doação, “agradecer à terra da sua naturalidade todo o carinho e apoio que dela recebeu ao longo da vida”, desejando que sirva para “fortalecer os laços espirituais que se criaram entre o doador e a terra que lhe serviu de berço”.
As cerimónias fúnebres têm início com uma cerimónia religiosa na Igreja da Piedade (um desejo manifestado em vida pelo Professor), pelas 9,30 horas do dia 3 de agosto, sob a presidência do Bispo de Santarém, Dom José Traquina. No final, o corpo segue para o Cemitério dos Capuchos, pelas 11,30 horas, onde será sepultado numa cerimónia restrita à família.
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O Presidente da República, lamentando hoje, dia 1 de agosto, a morte do historiador e recordando um “amigo de muitos anos”, que deixou “numerosos discípulos, em particular na Academia Portuguesa de História, de que foi presidente”, apresentou “condolências à família do professor doutor Joaquim Veríssimo Serrão, historiador, professor e académico ilustre, antigo Reitor da Universidade de Lisboa”, como pode ler-se numa nota divulgada no ‘site’ da Presidência da República.
Também a Ministra da Cultura destacou, em comunicado, o “autor de uma obra historiográfica de referência” e descreveu-o como “um historiador exemplar, um homem de cultura e um professor que marcou”. Lamentando a sua morte, Graça Fonseca frisou que “foi autor de uma obra historiográfica de referência”, que formou “muitas gerações de historiadores e investigadores” e que o seu impacto na historiografia e na cultura portuguesa “são inestimáveis”, pois foi “um historiador exemplar, um homem de cultura e um professor que marcou e influenciou aqueles que com ele aprenderam”.
Graça Fonseca adiantou que o historiador deixou “uma vasta bibliografia”, destacando a sua “História de Portugal”, que classificou como uma “obra panorâmica e de referência, tanto para historiadores como para aqueles que querem conhecer a história” do país.
A governante referiu também que a obra de Joaquim Veríssimo Serrão “reflete os diversos interesses” da sua investigação e lembra a importância dos “trabalhos dedicados à História de Portugal dos séculos XV a XVIII e à História do Brasil dos séculos XVI e XVII”.
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Não deixo de reconhecer a vastidão da sua obra, de que se referiu aqui uma ínfima amostra, mormente a sua História de Portugal, cujos 18 volumes (ainda não vi publicado o 19.º), têm servido para mim de consulta assídua, pela abundância de informação, leveza narrativa e sustentabilidade documental – a que gosto de juntar “Portugal e o Mundo nos séculos XII a XVI”, que tem o subtítulo “um percurso de dimensão universal”, “evocando os laços políticos e militares, religiosos e culturais, económicos e artísticos entre Portugal e o Mundo”.
2020.08.01 – Louro de Carvalho