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sábado, 2 de novembro de 2019

Os santos ajudam-nos a enfrentar a vida com coragem e esperança


É uma das grandes asserções do Papa Francisco proferida hoje, dia 1 de novembro, em que a Igreja Católica celebra a Solenidade de Todos os Santos, ofuscada pelo reforço das tradições do Halloween de realização de validade duvidosa, pelo menos nos termos em que é levada a cabo, e secundarizada pela atenção dada, tantas vezes folclórica, aos defuntos nos cemitérios.
Digo isto com a sensação de que muitos crentes não conseguem hierarquizar os valores cristãos. Com efeito, a 1 de novembro, as celebrações da Missa de Todos os Santos decorrem em templos semidesertos mercê das deslocações aos cemitérios apinhados, para o que muitos fazem longas e louváveis viagens. É certo que o dia 2 costuma ser dia de trabalho, pelo que as romagens aos cemitérios e algumas celebrações dos Finados se antecipam para a tarde do dia 1, mas convém não incorrer em excessos e subvalorizar a Solenidade de Todos os Santos pelo peso que deve ter na vida da Igreja e dos crentes.   
É óbvio que rezar pelos defuntos é extremamente salutar – “um santo e piedoso pensamento” – como se lê no 2.º Livro dos Macabeus (vd 2Mac 12,43-46). Por isso, Judas Macabeu “mandou oferecer um sacrifício de expiação pelos mortos, para que fossem libertos do seu pecado”.
Porém, antes deste desiderato, importa valorizar o culto dos Santos, não por eles, mas por Deus, que merece ser louvado, bendito e glorificado nos seus Anjos e nos seus Santos, e por nós, que necessitamos deles como candeias que iluminam a nossa vida e a quem será útil a sua intercessão junto do Senhor.
Na verdade, como ensina São Bernardo de Claraval, de nada serve aos Santos o nosso louvor, a nossa glorificação e mesmo esta Solenidade. De nada lhes vale a nossa tributação das honras terrenas, pois o Pai celeste os glorifica segundo a promessa do Filho. De nada lhes aproveitam os nossos panegíricos, que são, por vezes tão ocos. E “os Santos não precisam das nossas honras e nada podemos oferecer-lhes com a nossa devoção”. Todavia, devemos louvá-los, glorificá-los, fazer-lhes Solenidade, honrá-los e tecer-lhes edificantes panegíricos, pois “venerar a sua memória interessa-nos a nós e não a eles”. O primeiro desejo que a recordação dos Santos excita ou aumenta em nós é o de gozar da sua companhia, ser concidadãos e comensais dos bem-aventurados, integrar a assembleia dos Patriarcas, Profetas, Apóstolos, Mártires, Confessores, Pastores, Doutores, Religiosos, Virgens, Educadores, Dedicados às Obras de Misericórdia, Leigos, Santos e Santas Comuns. E um outro desejo nos inflama: “que tal como a eles, Cristo, nossa vida, Se nos manifeste também e que nos manifestemos nós com Ele revestidos de glória”. (cf São Bernardo, abade, Sermo 2, in 2.ª Leitura do Ofício de Leitura da Solenidade de Todos os Santos).
De facto, nesta Solenidade, a Igreja peregrina neste mundo vê-se por antecipação envolvida na plena participação na assembleia triunfante constituída pela imensa multidão dos que provêm de todos os confins da Terra – os que vieram da grande tribulação, lavaram as suas túnicas e as branquearam no sangue do Cordeiro (vd Ap 7,2-4.9-14). Os crentes sentem-se verdadeiramente filhos de Deus, graças ao seu imenso amor por nós e almejam, com os Santos, ver a Deus tal como Ele é e não de modo confuso como que através de um espelho baço (vd 1Jo 3,1-3). Esta Igreja peregrina anseia por ver realizada a compensação da bem-aventurança: a felicidade da pobreza em espírito, da humildade, do choro pelas grandes causas, da fome e sede da justiça, da misericórdia, da simplicidade de coração, da paz e do sofrimento da perseguição – que nos dá o Reino de Deus, a posse do mundo, o consolo, a saciedade, a misericórdia de Deus, a visão de de Deus, a filiação divina (vd Mt 5,1-12a).  De facto, “a Igreja proclama o mistério pascal, realizado na paixão e glorificação deles [os Santos] com Cristo, propõe aos fiéis os seus exemplos, que conduzem os homens ao Pai por Cristo; e implora, pelos seus méritos, as bênçãos de Deus. Segundo a sua tradição, a Igreja venera os Santos e as suas relíquias autênticas, bem como as suas imagens. É que as festas dos Santos proclamam as grandes obras de Cristo nos Seus servos e oferecem aos fiéis os bons exemplos a imitar.” (Constituição Litúrgica, n.º 104 e 111).
O prefácio da Missa de Todos os Santos explicita bem as razões do nosso louvor de hoje a Deus pelos Santos, que, tendo atingido pela multiforme graça de Deus a perfeição e alcançado a salvação eterna, cantam hoje a Deus no Céu, o louvor perfeito e intercedem por nós:
Hoje nos dais a alegria de celebrar a cidade santa, a nossa mãe, a Jerusalém celeste, onde a assembleia dos Santos, nossos irmãos, glorificam eternamente o vosso nome. Peregrinos dessa cidade santa, para ela caminhamos na fé e na alegria, ao vermos glorificados os ilustres filhos da Igreja, que nos destes como exemplo e auxílio para a nossa fragilidade.”.  
Hoje é dia de honrar os Santos a quem a Igreja reconhece o mérito do martírio, das virtudes heroicas e, como refere a exortação apostólica Gaudete et exsultate, do Papa Francisco, sobre a chamada à santidade no mundo atual (eco e desenvolvimento do capítulo V – Vocação de todos à Santidade na Igreja – da Lumen Gentium), aqueles que se distinguiram pela contínua oferta da vida, os santos de ao pé da porta – Santos que, por alguma ou todas estas razões, foram inscritos no catálogo dos Beatos e, eventualmente, no catálogo dos Canonizados. Mas hoje é sobretudo o dia de honrar e glorificar aqueles e aquelas que, em número incontável, apesar de anónimos para o mundo, integram, por dom de Deus e por correspondência pessoal e articulação com a comunidade, a grande assembleia dos filhos de Deus que, encontrando-se totalmente purificados, já o contemplam tal como Ele é. Ou seja, sem excluir os Santos que já têm, no calendário litúrgico, um dia para solenidade, festa ou memória na Igreja Universal (canonizados), ou nalguma ou nalgumas comunidades mais vinculadas à vida e obra deles (beatos), hoje a atenção dos fiéis incide sobretudo nos santos e santas anónimos, mesmo que não tenha sido propostos ao povo cristão como referência de vida pela Igreja nem estejam a caminho dessa proposta. São filhos de Deus e contemplam-No face a face e isso é tudo.
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Ao rezar com os fiéis a oração mariana do Angelus na Praça São Pedro, por ocasião da Solenidade de Todos os Santos, disse o Papa Francisco que “a recordação dos Santos leva-nos a erguer os olhos para o Céu: não para esquecer as realidades da terra, mas para enfrentá-las com mais coragem e esperança”. E enfatizou: “Somos todos chamados à santidade”.
É efetivamente a tese plasmada na Lumen Gentium, Constituição Dogmática sobre a Igreja e na mencionada exortação apostólica. Aliás, não podemos esquecer que, antes do Concílio Vaticano II, houve muitos arautos da santidade que enunciaram esta vocação universal à santidade, com especial incidência no laicado que instila Evangelho no quotidiano e no mundo do trabalho. É justo destacar o Cardeal Newman, recentemente canonizado, Monsenhor José Maria Escrivá de Balaguer, fundador do Opus Dei, o Padre Virgínio Rotondi, fundador do Movimento Oásis, e o Padre Ricardo Lombardi, fundador do Movimento por um Mundo Melhor. Foi com esta sementeira que o Concílio Vaticano II pode declarar:  
Cada leigo deve ser, perante o mundo, uma testemunha da ressurreição e da vida do Senhor Jesus e um sinal do Deus vivo. Todos em conjunto, e cada um por sua parte, devem alimentar o mundo com frutos espirituais (cf Gl 5,22) e nele difundir aquele espírito que anima os pobres, mansos e pacíficos, que o Senhor no Evangelho proclamou bem-aventurados (cf Mt 5,3-9). Numa palavra, ‘sejam os cristãos no mundo aquilo que a alma é no corpo’.” (Lg n. 38).
Os Santos e as Santas de todos os tempos não são simplesmente símbolos, seres humanos distantes, inalcançáveis. Pelo contrário, são pessoas que viveram com os pés no chão.” – afirmou  o Sumo Pontífice, que explanou:
Eles experimentaram a fadiga diária da existência com os seus sucessos e fracassos, encontrando no Senhor a força para se levantar e continuar o caminho. Isso demonstra que a santidade é uma meta que não pode ser alcançada apenas pelas próprias forças, mas é o fruto da graça de Deus e da nossa livre resposta a ela.”.
E o Papa sublinhou que a santidade é simultaneamente dom e chamamento. E explicou:
Enquanto graça de Deus, isto é, dom, é algo que não podemos comprar ou trocar, mas acolher, participando assim da mesma vida divina através do Espírito Santo que habita em nós desde o dia do nosso Batismo. Trata-se de amadurecer sempre mais a consciência de que estamos enxertados em Cristo como o ramo está unido à videira e, por isso, podemos e devemos viver com Ele e Nele como filhos de Deus.”.
Por conseguinte, “a santidade – diz o Santo Padre – é viver em plena comunhão com Deus, já agora, durante a peregrinação terrena”.
E, além de ser um dom, disse ainda Francisco, a santidade é também chamamento, vocação comum dos discípulos de Cristo; é o caminho de plenitude que cada cristão é chamado a percorrer na fé, caminhando para a meta final: a comunhão definitiva com Deus na vida eterna.
A santidade torna-se assim uma resposta ao dom de Deus, porque se manifesta como assunção de responsabilidade. “Nesta ótica, é importante assumir um sério e quotidiano compromisso de santificação nas condições, deveres e circunstâncias da nossa vida, procurando viver tudo com amor, com caridade”, assegurou o Papa.
E, olhando para as vidas dos Santos, prosseguiu Francisco, somos encorajados a imitá-los. Entre eles, estão muitas testemunhas de uma santidade “da porta ao lado, daqueles que vivem perto de nós e são reflexo da presença de Deus”. E insistiu referindo que “a recordação dos Santos leva-nos a erguer os olhos para o Céu: não para esquecer as realidades da terra, mas para enfrentá-las com mais coragem e esperança”.
Ao final da oração mariana, falando ainda da Solenidade de Todos os Santos e também do Dia de Finados, o Pontífice disse que essas duas festas cristãs nos recordam o vínculo que existe entre a Igreja da terra e a do céu e “entre nós e os nossos entes queridos que passaram para a outra vida”. E anunciou que, a 2 de novembro, celebrará a Eucaristia nas catacumbas de Priscila, “um dos lugares de sepultura dos primeiros cristãos de Roma”.
Terminou a convidar os fiéis a que, “nestes dias, em que, infelizmente, circulam também mensagens de cultura negativa sobre a morte e sobre os mortos”, a não negligenciarem, se possível, uma visita e uma oração ao cemitério”.
Até neste aspeto, o Papa se mostra pontífice, o homem de pontes.
2019.11.01 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Vem aí uma nova Exortação Apostólica, a “Gaudete et Exsultate”


Na próxima segunda-feira, dia 9 de abril, será apresentada a nova Exortação Apostólica do Papa Francisco “Gaudete et Exsultate” sobre o chamamento à Santidade no mundo contemporâneo.
Em conformidade com o aviso de hoje, dia 5, da Sala de Imprensa da Santa Sé, os jornalistas acreditados no Vaticano foram informados de que, na próxima segunda-feira, dia 9 de abril, se realizará a Conferência de Imprensa, na referida Sala de Imprensa, na Via della Conciliazione 54, para a apresentação da Exortação Apostólica do Santo Padre Francisco “Gaudete et Exsultate”, sobre o chamamento à Santidade no mundo contemporâneo.
Intervirão: Mons. Angelo De Donatis, Vigário Geral de Sua Santidade para a Diocese de Roma; Gianni Valente, jornalista; e Paola Bignardi, da Ação Católica.
A Exortação Apostólica “Gaudete et Exsultate” deve considerar-se sob embargo absoluto até às 12 horas de segunda-feira, 9 de abril. Os jornalistas acreditados encontrarão o texto em formato pdf da Exortação Apostólica na área reservada da página web do Boletim da Sala de Imprensa a partir das 8 horas de segunda-feira, 9 de abril, em italiano, francês inglês, tedesco, espanhol, português, polaco e árabe. Além disso, encontrarão sempre na área reservada uma versão breve da mesma Exortação Apostólica. O texto em papel da Exortação (em italiano) estará à disposição dos jornalistas acreditados na Sala de Imprensa a partir das 9 horas de segunda-feira, 9 de abril.
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O Papa Francisco, em suas homilias, mensagens e documentos, vem reforçando a vocação de todos os cristãos à busca duma vida de santidade. Neste sentido, chegou a afirmar:
Todos os cristãos, enquanto batizados, têm igual dignidade diante do Senhor e são unidos na mesma vocação que é a santidade. É um dom que oferece a todos, ninguém se exclui. Por isso, constitui o caráter definitivo de cada cristão. Para ser santo, não se precisa de ser bispo, padre ou religioso, todos somos chamados a ser santos..
É com este sentimento que o Papa deseja apresentar a nova exortação apostólica sobre a santidade no mundo contemporâneo. A apresentação oficial, como foi referido, dar-se-á primeiro aos jornalistas dos 5 continentes credenciados junto da Sala de Imprensa da Santa Sé; e, depois, a todo o mundo.
Convém recordar que Francisco, neste aspeto, vem alinhado com o capítulo V da Lumen Gentium (LG), a Constituição Dogmática sobre a Igreja, intitulado “A vocação de todos à santidade na Igreja”. Pela sua pertinência e atualidade transcreve-se o seu n.º 39, com o subtítulo “Proémio: chamamento universal à santidade”:
A nossa fé crê que a Igreja, cujo mistério o sagrado Concílio expõe, é indefetivelmente santa. Com efeito, Cristo, Filho de Deus, que é com o Pai e o Espírito o único Santo, amou a Igreja como esposa, entregou-Se por ela para a santificar (cf Ef. 5,25-26) e uniu-a a Si como Seu corpo, cumulando-a com o dom do Espírito Santo, para glória de Deus. Por isso, todos na Igreja, quer pertençam à Hierarquia quer por ela sejam pastoreados, são chamados à santidade, segundo a palavra do Apóstolo: ‘esta é a vontade de Deus, a vossa santificação’ (1Ts. 4,3; cf Ef 1,4). Esta santidade da Igreja manifesta-se incessantemente, e deve manifestar-se, nos frutos da graça que o Espírito Santo produz nos fiéis; exprime-se de muitas maneiras em cada um daqueles que, no seu estado de vida, tendem à perfeição da caridade, com edificação do próximo; aparece dum modo especial na prática dos conselhos chamados evangélicos. A prática destes conselhos, abraçada sob a moção do Espírito Santo por muitos cristãos, quer privadamente quer nas condições ou estados aprovados pela Igreja, leva e deve levar ao mundo um admirável testemunho e exemplo desta santidade.”.
Depois, o capítulo avança com outros subtítulos: Jesus, mestre e modelo; a santidade nos diversos estados; a caridade, o martírio, os conselhos evangélicos, a santidade no próprio estado. Dá-se uma palavra sobre cada um destes tópicos.
Na verdade, quem nos ensina a fundo a santidade é Jesus, que é o modelo de santidade; os outros já percorreram o caminho à imitação e sob o impulso de Jesus.
Jesus pregou a santidade de vida, de que Ele é autor e consumador, a todos e a cada um dos discípulos, de qualquer condição, apelando: ‘sede perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito’ (Mt 5,48). Enviou a todos o Espírito Santo, que nos move interiormente a amarmos a Deus com todo o coração, com toda a alma, com todo o espírito e com todas as forças (cf Mc 12,30) e a amarmo-nos uns aos outros como Cristo nos amou (cf Jo 13,34; 15,12). Assim, os seguidores de Cristo, chamados por Deus e justificados no Senhor Jesus, não por mérito próprio, mas pela vontade e graça de Deus, são feitos, pelo Batismo da fé, verdadeiramente filhos e participantes da natureza divina e, por conseguinte, realmente santos. É necessário, pois, que, com o auxílio divino, conservem e aperfeiçoem, vivendo-a, esta santidade que receberam. (cf LG 40).
“Nos vários géneros e ocupações da vida, é sempre a mesma a santidade que é cultivada pelos que são conduzidos pelo Espírito de Deus e, obedientes à voz do Pai, adorando em espírito e verdade a Deus Pai, seguem a Cristo pobre, humilde, e levando a cruz, a fim de merecerem ser participantes da Sua glória. Cada um, segundo os próprios dons e funções, deve progredir sem desfalecimento pelo caminho da fé viva, que estimula a esperança e atua pela caridade.” (LG 41).
Deus é caridade e quem permanece na caridade, permanece em Deus e Deus nele (1 Jo 4,16). Ora, Deus difundiu a sua caridade nos nossos corações, por meio do Espírito Santo, que nos foi dado (cf Rm 5,5). Sendo assim, o primeiro e mais necessário dom é a caridade, com que amamos a Deus sobre todas as coisas e ao próximo por amor d’Ele. [] O martírio, pelo qual o discípulo se torna semelhante ao mestre, que livremente aceitou a morte para salvação do mundo, e a Ele se conforma no derramamento do sangue, é considerado pela Igreja como um dom insigne e prova suprema de amor. [] A santidade da Igreja é também especialmente favorecida pelos múltiplos conselhos que o Senhor propõe no Evangelho aos Seus discípulos. [] Todos os cristãos são, pois, chamados e obrigados a tender à santidade e perfeição do próprio estado. Procurem, por isso, ordenar retamente os próprios afetos, para não serem impedidos de avançar na perfeição da caridade pelo uso das coisas terrenas e pelo apego às riquezas, em oposição ao espírito da pobreza evangélica, segundo o conselho do Apóstolo: os que usam o mundo façam-no como se dele não usassem, pois é transitório o cenário deste mundo (1Cor 7,31). (LG 42).
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Com o anúncio da publicação da Exortação do Papa “Gaudete et Exsultate” sobre o chamamento à santidade no mundo de hoje, o Vatican News propõe alguns pronunciamentos significativos do Pontífice sobre a santidade. E Alessandro Gisotti, fazendo um apanhado dos principais momentos discursivos de Francisco sobre a Santidade, sustenta que a Igreja precisa de Santos, não de super-heróis. E refere que o Pontífice, desde a eleição à Cátedra de Pedro deu grande importância à santidade na Igreja e, em várias ocasiões, falou sobre o que define o ser Santo, tal como indicou o que não é ser Santo. A 2 de outubro de 2013, numa das audiências gerais do seu 1.º ano de Pontificado, afirmou que a Igreja “oferece a todos a possibilidade de percorrer o caminho da santidade, que é o caminho do cristão”, para o encontro com Jesus. A Igreja “não rejeita os pecadores”, acolhe-os e convida-os a que se deixem “contagiar pela santidade de Deus”. No final dessa catequese, o Papa citou o escritor francês Léon Bloy que nos últimos momentos da sua vida, dizia: “só existe uma tristeza na vida, a de não ser santo”.
Os Santos não são super-heróis, mas amigos de Deus. De facto, a 1 de novembro de 2013, na 1.ª Solenidade de Todos os Santos como Papa, Francisco frisou que os Santos são “os amigos de Deus”, porque nas suas vidas, “viveram em comunhão profunda com Deus”. Portanto, o Santo Padre traça um perfil dos Santos, explicando que “não são super-heróis, nem nasceram perfeitos”. Para o Papa, os Santos “são como nós, como cada um de nós”, “viveram uma vida normal”, mas “conheceram o amor de Deus” e o “seguiram com todo o coração, sem condições e hipocrisias”. A santidade reconhece-se por este sinal: “os Santos são homens e mulheres que têm a alegria no coração e a transmitem aos outros”. A alegria é, pois, o que distingue os Santos, ao passo que a “cara de funeral” é caraterística dos que não vivem bem a sua fé. Outra caraterística dos Santos é a humildade. Na homilia em Santa Marta, a 9 de maio de 2014, Francisco observou que São João Paulo II, “o grande atleta de Deus”, acabou aniquilado pela doença, humilhado como Jesus”. O seu testemunho mostra que a regra da santidade “é diminuir a fim de que o Senhor cresça” e por isso é precisa “a nossa humilhação”. Portanto, bem longe da imagem de pessoas com “superpoderes”. “A diferença entre os heróis e os Santos – explicou nessa homilia – é o testemunho, a imitação de Jesus Cristo: percorrer o caminho de Jesus”.
Todos os cristãos são chamados à santidade, sem excluir ninguém. Para o Pontífice, alinhado com o cap. V da Lumen Gentim, há também outro tema muito importante, “a vocação universal à santidade” sobre o que falou na audiência geral de 19 de novembro de 2014. “Todos os cristãos, enquanto batizados – sublinhou – têm igual dignidade diante do Senhor e são irmanados pela mesma vocação que é a santidade”. “A santidade é um dom – continuou – oferecido a todos, sem excluir ninguém, por isso constitui o cunho distintivo de cada cristão”. E acrescentou: “para ser Santo, não é preciso ser bispo, sacerdote ou religioso”, “não, todos somos chamados a ser Santos”.
Os Santos também têm os seus pecados, mas sabem arrepender-se e pedir perdão. Neste sentido, o Pontífice alerta para a ideia dos Santos com “cara de santinho”. É algo muito mais profundo e alimentado por gestos, “muitos pequenos passos”, que cada um pode cumprir no lugar onde vive e trabalha. Segundo as suas palavras, “cada condição de vida leva à santidade, sempre!”. A 1 de novembro de 2015, na Missa celebrada no Cemitério de Verano, elegeu a santidade como “o caminho para chegar à verdadeira felicidade”. E observou que os santos são mansos e pacientes. É o caminho da mansidão e paciência, que foi percorrido por Jesus. Em 2016, voltou a falar sobre o tema nas missas em Santa Marta. A 19 de janeiro, falando de David, referiu que também na vida dos santos há tentações e pecados. A vida do rei de Israel é eloquente sobre isso: santo e pecador. Tinha pecados, “foi até um assassino”, mas, no fim, reconheceu-os e pediu perdão. Para Francisco “não existe algum santo sem passado, mas nem pecador sem futuro”. Na missa de 24 de maio, advertiu que “a santidade não se pode comprar e nem vender”. É um dom a acolher, um dom e um caminho. “A santidade – sublinhou Francisco – é um caminho na presença de Deus” e “não pode ser feita por alguém em meu nome”, “um caminho a percorrer com coragem, esperança e com a disponibilidade de receber esta graça”.
No Twitter, o Papa exorta a que não tenhamos o medo de ser Santos. Com efeito, os Santos são “testemunhas e companheiros de esperança”. São palavras papais na audiência geral de 21 de junho de 2017. Na ocasião, disse que para ser santo “não precisa de rezar o dia todo”. A santidade está também “na doença e no sofrimento”, no trabalho e na “proteção dos filhos”. “Que o Senhor nos dê a esperança de ser Santos – foi a sua invocação – e não pensemos que é algo difícil. Podemos ser Santos porque o Senhor nos ajuda”. O Papa falou de santidade também pelas redes sociais. No Twitter, a 1 de novembro de 2017 evidenciou que “o mundo precisa de santos e todos nós, sem exceção, somos chamados à santidade”. E não devemos “ter medo” de caminhar no caminho da santidade, que é dos humildes e não dos arrogantes.
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Por fim, é referir o Motu proprio sobre a oferta da vida, caminho de santidade, uma novidade de Francisco a acrescentar às clássicas vias de acesso à Santidade canonizada: o martírio e a heroicidade de virtude.
O documento constitui uma chamada de atenção e uma exortação que ressoou também nas 15 cerimónias de canonizações celebradas por Francisco, a partir de Madre Teresa, João XXIII e João Paulo II. Também na beatificação de Paulo VI, quando Francisco chamou a atenção principalmente para a sua humildade, virtude própria das testemunhas e não dos “super-homens”. De modo significativo Francisco abriu o caminho da beatificação, também aos que, levados pela caridade, ofereceram a própria vida pelo próximo. É a temática do Motu proprio intitulado Maiorem hac dilectionem, publicado em julho de 2017, que se inicia com as palavras de Jesus tiradas do Evangelho de João: “Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a sua vida pelos seus amigos” (Jo 15,13).
Em suma, a visão de Francisco sobre a Santidade sintetiza-se no seguinte: ser amigos de Deus e do próximo até a dom da vida.
Aguardemos pela Exortação Apostólica para leitura e meditação.
2018.04.05 – Louro de Carvalho