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sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

A visita do Presidente chinês a Portugal


O Presidente chinês, Xi Jinping, esteve em visita de Estado a Portugal nos passados dias 4 e 5 deste mês de dezembro, tendo terminado com a assinatura de 17 acordos bilaterais, dos quais 7 são de âmbito empresarial – uma visita que visou também antecipar o início das comemorações do Ano da China em Portugal e do Ano de Portugal na China e recordar os 40 anos das relações diplomáticas entre os dois países e que aconteceu na fase final dum périplo por vários países. Em relação a este último aspeto, salientou o próprio Xi Jinping:
Portugal é a minha última paragem desta visita à Europa, América Latina e Caraíbas, e a participação na cimeira do G20 em Buenos Aires. Senti as aspirações e expectativas dos povos de todos os países de paz, estabilidade e prosperidade mundiais.”. 
E, no contexto dum mundo a que são lançados grandes desafios, asseverou:
“Embora o mundo atual esteja a enfrentar diversos desafios, a China vai aderir sempre ao princípio do respeito mútuo e vai persistir no desenvolvimento pacífico. Vai conjugar esforços com Portugal e todos os países para promover a paz e a estabilidade.”. 
No primeiro dia da visita, ao Presidente chinês, acompanhado do Presidente português Marcelo Rebelo de Sousa, foram prestadas as usuais honras militares na Praça do Império e o visitante depôs uma coroa de flores no túmulo de Luís de Camões no Mosteiro dos Jerónimos, a que se seguiu a visita ao Mosteiro. Depois, foi recebido no Palácio de Belém pelo Presidente da República a quem endereçou o convite para visitar Pequim no próximo ano, convite que Marcelo aceitou, ficando previsto para o próximo mês de abril. 
“Acabei de realizar um encontro a sós [com Marcelo], onde chegámos a vários consensos”, sublinhou Xi, que disse haver cada vez mais pontos de convergência entre Portugal e China, existindo “confiança política e cooperação pragmática” entre os dois países.
O resto do primeiro dia em Lisboa decorreu no Palácio Nacional da Ajuda, em Lisboa, onde o Presidente da República Portuguesa Marcelo Rebelo de Sousa ofereceu um jantar em honra de Xi Jinping e da mulher, Peng Liyuan. 
No segundo dia, antes da reunião com António Costa em Queluz ao final da manhã, o Chefe de Estado chinês foi recebido na Assembleia da República com honras militares e esteve reunido com Eduardo Ferro Rodrigues, presidente do Parlamento português. 
Na reunião em Queluz, horas antes da despedida do Presidente chinês, foram assinados 17 acordos bilaterais, incluindo o memorando de entendimento sobre cooperação no quadro da iniciativa chinesa “Uma Faixa, Uma Rota” e, ainda, um memorando sobre cooperação em matéria de comércio de serviços, tendo o visitante prometido empenhar-se no reforço do “multilateralismo e do livre comércio”.  
Sete dos entendimentos assinados inserem-se na área empresarial e incluem o acordo para a implementação do STARLAB (um laboratório conjunto de investigação e desenvolvimento tecnológico para o Espaço e para os oceanos que vai ser criado por Portugal e a China), e ainda acordos na área agroindustrial, ou acordos entre a CGD (Caixa Geral de Depósitos) e o Banco da China, a EDP e a China Three Gorges, a State Grid e a REN, e ainda um acordo entre o BCP (Banco Comercial Português) e a Union Pay, e a MEO e a Huawei (empresa multinacional de equipamentos para redes e telecomunicações sediada na cidade de Shenzhen, localizada na província de Guangdong, na China. É a maior fornecedora de equipamentos para redes e telecomunicações do mundo, tendo ultrapassado a Ericsson em 2012). 
Para lá destes, foram rubricados entendimentos para a cooperação na programação de festivais culturais, um entendimento entre a RTP e um grupo de media chinês para a produção conjunta de documentários; e três acordos na área do Ensino Superior, nomeadamente para o ensino do mandarim em Universidades, acordos no domínio da água e da exportação de carne de porco, vinho e uva de mesa. Por fim, foi também assinado um documento para a cooperação entre as câmaras municipais de Tianjin e de Setúbal. 
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No final da visita de Estado de Xi Jinping a Portugal, foram assinados, como se disse, 17 acordos entre os dois países (dos 19 previstos) que preveem relações bilaterais em várias áreas, desde a cultura à ciência, à indústria e comércio, com ênfase na educação, turismo, ciência, tecnologia e media. Em declarações aos jornalistas no Palácio de Queluz, o Primeiro-Ministro português António Costa salientou os “passos concretos” no estreitamento das relações sino-portuguesas (“Subimos mais uns degraus na nossa relação”, disse), enquanto o Presidente chinês prometeu preservar o “princípio de respeito mútuo” num mundo cheio de desafios.
E Costa, na declaração conjunta sem direito a perguntas por parte da comunicação social, assegurou que, “no quadro bilateral e da União Europeia, somos sempre um garante da relação de confiança com a República Popular da China”. 
O Chefe de Governo português assinalou os “passos concretos” dados durante esta visita para o “estreitamento de relações”, sublinhou a diversidade dos acordos assinados, que “mobilizaram não só entidades do Governo mas também universidades, empresas e municípios”, e observou que “a relação entre Portugal e a China não é só uma excelente relação bilateral, de Governo para Governo, mas no conjunto da sociedade portuguesa”. 
O Primeiro-Ministro não deixou de fazer referência à “importância estratégica” de Portugal na articulação da iniciativa “One Belt, One Road” (Uma Faixa, Uma Rota), que prevê um avultado investimento em infraestruturas na interligação entre a Europa e a Ásia. No entanto, sustentou:
A conectividade entre a Europa e a Ásia deve traduzir-se não só ao nível da rota marítima, mas também se deve desenvolver ao nível das ligações aéreas entre os dois países”.
Sem fazer menções diretas, Costa lembrou a suspensão de voos diretos entre Lisboa e Pequim pela companhia chinesa Capital Airlines. Mas, em relação às relações comerciais com Pequim, destacou o “salto em frente” na abertura de vários mercados, desde logo os da carne de porco e uva de mesa. Por outro lado, enfatizou a importância do investimento chinês em Portugal, dando o exemplo concreto da STARLAB, que prevê a elaboração conjunta de microssatélites e – vendo uma relação de “confiança mútua” entre os dois países, fundada e reafirmada “ao longo de 5 séculos de convivência” – lembrou que será assinalado em fevereiro de 2019 o 40.º aniversário do estabelecimento de relações diplomáticas entre Lisboa e Pequim, bem como o 20.º aniversário desde a transferência da soberania de Macau.
Ora, se o Primeiro-Ministro português vê um relacionamento bilateral “cada vez mais profícuo e cada vez mais estreito” entre Lisboa e Pequim, o Presidente da República Popular da China considerou que a reunião com António Costa foi “amistosa e proveitosa”, numa referência aos 17 documentos para a cooperação que foram assinados e aos outros dois que serão assinados.
Com os vários “consensos” em plano de fundo, Xi Jinping voltou a afirmar – à imagem do que fizera no primeiro dia da visita a Portugal, ao lado do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa – que as relações entre os dois países “se encontram no seu melhor momento histórico”.  
No segundo e último dia da visita a Portugal, o líder chinês lembrou também o 40.º aniversário do estabelecimento das relações bilaterais e a importância de expandir as áreas de colaboração entre os países. Palavras fortes de Xi Jinping, que mostrou a vontade de “elevar incessantemente o nível de confiança mútua” e fomentar “ganhos partilhados” entre os países.  

Tudo isto consta da Declaração Conjunta entre a República Portuguesa e a República Popular da China sobre o Reforço da Parceria Estratégica Global, em 23 pontos e em que se afirma:
Os dirigentes dos dois países avaliaram como muito positivos os desenvolvimentos crescentes no relacionamento entre Portugal e a China, caraterizado por uma amizade tradicional, e trocaram impressões sobre as relações bilaterais, as relações China-União Europeia e os temas internacionais e regionais de interesse comum, alcançando amplo consenso”.
(vdhttp://www.presidencia.pt/?idc=10&idi=157549).
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Para os observadores, a visita oficial do Presidente chinês a Portugal em dezembro é uma oportunidade para garantir investimento em portos e na ferrovia, mas também em projetos tripartidos em África e América Latina. Os portos de Leixões e de Sines, a modernização da linha ferroviária que pode até passar pela privatização parcial ou total da CP, cooperação tripartida entre a China, Portugal e países africanos ou da América Latina para assegurar investimentos de grande escala, foram alguns dos exemplos dados por docentes e investigadores numa antevisão da visita oficial do Presidente chinês, Xi Jinping, a Lisboa. A este respeito, Arnaldo Gonçalves, presidente do Fórum Luso-Asiático e professor de Ciência Política e Relações Internacionais do Instituto Politécnico de Macau, frisou que “esta é uma oportunidade para se passar das palavras aos atos, de dar uma expressão económica às boas relações entre Portugal e a China”, lembrando que “Portugal, só entre 2010 e 2016, se tornou no sétimo país europeu em que se registou mais investimento chinês”. E sustentou:
Na área das infraestruturas, está em cima da mesa a possibilidade de a China investir nos portos portugueses. O porto de Roterdão está sobrecarregado. Se a China quer prosseguir o esforço no âmbito da iniciativa ‘Uma Faixa, Uma Rota’ vai ter que ter um porto alternativo. Os portos de Leixões e Sines podem ser alternativas interessantes.”.
Por outro lado, acrescenta que “Portugal precisa, mais tarde ou mais cedo, de modernizar a sua linha ferroviária”, defendendo que o país necessita de adotar uma postura mais proativa.
E o investigador adianta que, “além dos portos, a privatização total ou parcial da CP poderia ser uma opção”, mas lembra que a aposta chinesa em vias de comunicação terrestres e marítima “coloca problemas políticos delicados à União Europeia”, sobretudo “num quadro de re-emergência do poder russo e da aproximação entre Xi e Putin”. Ou seja, como explica, “Portugal tem que ter algum cuidado” e “acertar bem as agulhas com a União Europeia para, no fundo, não ser uma ‘lebre’ posta a correr por Pequim contra a própria política externa da UE”.
Em sintonia com o investigador, o Presidente do Instituto de Estudos Europeus de Macau, José Sales Marques, acredita que ainda há espaço “para reforçar de forma significativa a cooperação” e que, também por isso, a visita de Xi Jinping a Portugal “é de grande simbolismo” porque “acontece num momento em que as relações estão num ponto muito alto” e após uma década “de forte expressão económica”. E expressa a convicção de que a assinatura dum “memorando de entendimento no âmbito da iniciativa Uma Faixa, Uma Rota” durante a visita de Xi Jinping, possibilitaria a verificação dum entendimento conjunto “sobre projetos como o porto de Sines e a ligação ferroviária [de alta velocidade] até Espanha”.
O docente e investigador alerta, também, que os compromissos entre Portugal e a China não podem colidir com os interesses europeus, devendo “estar sujeitos a regras definidas pelo Tratado de Lisboa relativas a acordos sobre investimento estrangeiro”.
O presidente do Instituto de Estudos Europeus de Macau destaca a importância da “nova realidade ao nível das relações bilaterais entre os dois países”, mas admite que será interessante verificar “até que ponto podem surgir, em concreto, projetos de investimento trilateral entre Portugal, China e um país africano, lusófono ou não” – opinião partilhada pelo presidente do Fórum Luso-Asiático, Arnaldo Gonçalves, acima referido, que junta a possibilidade de Lisboa e Pequim poderem acordar “investimentos tripartidos (…) não só em África, como também na América Latina”. Com efeito, como exemplifica, “houve investimentos brutais chineses que fizeram disparar a dívida interna brasileira e que aparentemente vão ser congelados pelo Presidente Bolsonaro”, pelo que “Portugal pode limar, aí, algumas arestas”.
E José Sales Marques, que enumera as manifestações das relações sino-portuguesas, como os ‘vistos gold’, aquisição da EDP, crescente fluxo turístico e até as celebrações em Portugal do Dia da China e do Ano Novo chinês como provas de que Lisboa “tem de continuar a olhar sem preconceitos e com naturalidade para o investimento” de Pequim.
Por sua vez, Arnaldo Gonçalves conclui que “a visita coloca Portugal no mapa”, mas alerta para uma outra prioridade, a de que os responsáveis políticos portugueses têm de acautelar situações como a entrada de empresas lusas no mercado chinês.
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A visita de Xi Jinping terá sido um sucesso diplomático e com enormes possibilidades económicas para os sois países, mas Portugal, enquanto país do dito mundo livre, calou-se face ao tema dos direitos humanos, nomeadamente no atinente às condições de vida e de trabalho e à participação política na China – aspetos em que tem sido muito crítico em relação a países com défice nestas matérias. Marcelo, ao ser questionado sobre o tema, respondeu que disse tido quanto devia ter dito, quando afinal as suas intervenções se circunscreveram grosso modo aos aspetos históricos, geográficos e diplomáticos. Ora, a política de não ingerência não é tudo!
Estaremos na linha da submissão por causa da asfixia que a dívida soberana nos impõe ou acreditamos mesmo na liberalização económica ou no alívio do controlo político dos cidadãos e dos grupos na China? Mikhail Gorvatchov (na URSS) lançou a Glasnost (transparência, participação e debate franco), no campo político, e a Perestroika (abertura à iniciativa e propriedade privadas), no campo económico, mas Xi Jinping não o fez nem parece estar na disposição de o fazer. O regime é de partido único e a transparência funciona a favor do Estado centralista, embora haja as províncias, mas em que os chefes recebem ordens do centro, sem que este receba contributos da base (a não ser “colaboração”). As câmaras de vigilância amplamente disseminadas pelo território (lugares de ajuntamento, ruas de bairro e de aldeamento) refletem os comportamentos morais (ou não) de cidadãos e grupos segundo os ditames do Partido, que os sancionará. Economicamente, a pusilânime iniciativa privada e a propalada abertura ao mercado livre são trunfo para a legitimação da ação no exterior, pois, na realidade, é o Estado que manda. Assim, privatizámos a EDP, a REN e seguradoras, que ficam telecomandadas pelo poder político chinês através de companhias de rosto privado, ou seja, privatizámos nacionalizando a favor de outro Estado soberano mas poderoso. Queremos fazer o mesmo aos portos e à ferrovia “reprivatizando” a CP (parcial ou totalmente)? A visita deu luz verde às OPA sobre a EDP e as energias renováveis? Terão razão os críticos que anunciavam a visita de Xi como o novo “dono disto tudo”? Mudamos de dono por não nos sabermos governar ou por estarmos com a corda ao pescoço. Pena!
2018.12.07 – Louro de Carvalho    

segunda-feira, 12 de março de 2018

Presidente da República na Grécia em visita de Estado


Depois de assinalar o termo dos seus dois anos de mandato na Presidência da República – com o lançamento do livro “Dois anos depois: júbilo e tragédia” (com imagens a preto e branco dos incêndios de 2017 e a cores de momentos como a visita papal a Fátima), uma aula a alunos duma escola secundária e a visita a Oliveira do Hospital, zona de incêndios em outubro passado (que não fez na passagem de ano devido à intervenção cirúrgica a que teve de submeter-se), Marcelo Rebelo de Sousa chegou a Atenas para uma visita de Estado, a 1.ª ao estrangeiro no alvorecer dos 60% do mandato restantes e a primeira visita de Estado que Portugal faz à Grécia desde a presidência de Jorge Sampaio, que visitou a República Helénica em 2002.
Num comunicado divulgado na semana passada, a Presidência da República indicou como objetivos desta visita “reforçar os sólidos laços de amizade e cooperação” entre Portugal e a Grécia e “também transmitir um sinal político de apoio às autoridades gregas na gestão da crise migratória e de refugiados”.
A propósito da crise de migrantes e refugiados, o Chefe de Estado chega à Grécia pouco mais de uma semana depois de Alexis Tsipras, ter promovido uma remodelação no Governo, fazendo sair, entre outros, o responsável pela gestão da crise migratória de 2015, Yannis Mouzalas, ex-Ministro para a Imigração, que foi substituído por Dimitris Vitsas, deputado e dirigente do Syriza que, até agora, ocupava o cargo de Ministro-Adjunto da Defesa.
A visita presidencial, a convite do Presidente grego, Prokópis Pavlopoulos, decorrerá até ao dia 14, com os refugiados e a Europa na agenda. Chegado a Atenas às 18 horas locais (16 horas em Lisboa), é acompanhado pelo Ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, e por deputados dos cinco maiores partidos com assento parlamentar. Assim, integram a comitiva desta visita, além do chefe da nossa diplomacia, os deputados Amadeu Albergaria, do PSD, Sofia Araújo, do PS, Álvaro Castelo Branco, do CDS-PP, Paulo Sá, do PCP, e José Manuel Pureza, do BE, que é vice-presidente da Assembleia da República.
No dia de hoje, o único ponto do programa é uma receção à comunidade portuguesa, que, segundo os registos oficiais, é composta por aproximadamente 600 pessoas, cerca de 80% das quais residem na região metropolitana de Atenas. De acordo com dados da Embaixada de Portugal na Grécia, prevalecem na comunidade emigrante portuguesa profissionais da indústria farmacêutica, da hotelaria e representantes de empresas nacionais. Mas um terço desta comunidade trabalha por conta própria. No dia 13, depois de depositar uma coroa de flores no monumento ao soldado desconhecido, na Praça Syntagma, Marcelo Rebelo de Sousa terá encontros com o Presidente da República Helénica, Prokopios Pavlopoulos, com o Primeiro-Ministro grego, Alexis Tsipras, e com o presidente do parlamento helénico, Nikos Voutsis. À tarde, será agraciado com o título de doutor honoris causa pela Universidade Nacional de Atenas, seguindo-se um jantar oficial organizado em sua honra pelo Presidente da República Helénica. No dia 14, Marcelo Rebelo de Sousa irá visitar um campo de refugiados em Tebas, a uma hora de carro de Atenas, e um centro de apoio social a refugiados na capital da Grécia (um centro com capacidade para cerca de 700 refugiados e migrantes que ocupa hoje as instalações de uma antiga fábrica do setor têxtil), onde se encontrará com a coordenadora do campo de refugiados da Organização Internacional para as Migrações.
No mesmo dia e depois de um almoço com personalidades do mundo académico e cultural – muitas delas com ligações a Portugal –, o Presidente da República visita ainda, em Atenas, o Serviço Jesuíta aos Refugiados, um centro de apoio social que tem como missão “acompanhar, servir e defender” os refugiados. Aqui, adianta Belém, Marcelo encontra-se com “um grupo de voluntários portugueses que tem vindo a desenvolver diversas atividades”. No mesmo dia, a questão migratória também deve estar em cima da mesa, no Palácio Presidencial, durante um debate aberto sobre “As raízes e o futuro da Europa”, com a participação de Marcelo Rebelo de Sousa e Prokopios Pavlopoulos.
Na verdade, segundo a Presidência da República, durante esta visita de Estado estarão em cima da mesa “temas relevantes para ambos os países nos contextos europeu e multilateral”.
O Presidente da Grécia, Prokópis Pavlopoulos, esteve em Portugal em janeiro do ano passado, numa visita de Estado de dois dias que começou em Coimbra, onde recebeu um doutoramento honoris causa.
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Após ter conseguido descrispar Portugal, Marcelo vai ver se descrispa a Grécia. Com efeito, o Presidente da República considerou, no passado dia 9, que os primeiros dois anos de mandato foram cenário de intervenções explicativas com funções preventivas, contribuindo para descrispar o clima político. No dia em que completou dois anos na chefatura do Estado, assinalou a data com o lançamento de um livro intitulado “Dois anos depois: júbilo e tragédia” e falou sobre o seu desempenho no exercício de funções, porfiando que não vai mudar e que não se melindra com as críticas.
E, em resposta a questões dos jornalistas (na Sala de Jantar do Palácio de Belém), assegurou que não se meterá “em domínios que não são os seus, não se vai pôr no plano dos partidos, ou do Governo, ou da oposição”, pois “não tem um papel a desempenhar, nem na oposição, nem no Governo”.
Quanto às críticas, declarou:
A coisa mais natural em democracia é que haja críticas. O unanimismo não existe senão em ditaduras. Como é que eu reajo? Pois eu passei a minha vida como comentador a criticar, seria estranho que como Presidente da República eu me melindrasse quando os outros me critiquem quando eu critiquei os outros”.
Nesse aspeto revela a coerência da reciprocidade da aceitação. Na verdade, Marcelo chegou a atribuir notas ao desempenho de políticos, foi duro, displicente. E reagia, pelo menos aparentemente, com frieza ao retorno que lhe chegava. Agora, o Chefe de Estado refere que recebera “críticas iniciais sobre uma extroversão excessiva”, frisando que a atividade intensa “foi intencional, tinha a ver com a proximidade, decorre da maneira de ser do Presidente e decorria da situação vivida pelo país”, e foi reforçada devido a “momentos trágicos em que isso foi mais necessário”. E frisou que “o facto de intervir muito não quer dizer que não seja tudo devidamente pesado” e que o fez “muitas vezes com funções preventivas”. Depois, acrescentou:
Quando entendo que há certas realidades que precisam de ser explicadas rapidamente, antes que se convertam numa bola de neve de difícil explicação ou de efeitos mais complexos, mais vale não deixar que se convertam numa bola de neve e intervir rapidamente”.
Do seu ponto de vista, nestes dois anos houve “um número muito pequeno de vetos” face à quantidade de diplomas que lhe chegaram e o seu relacionamento com os outros órgãos de soberania tem sido “muito pacífico – mais do que pacífico, muito cordial”. E considerou:
Como tem sido com os partidos políticos, todos eles. O facto de nos encontrarmos com periodicidade desdramatizou os encontros: não é para dissolver o parlamento, não é por causa de uma crise, é para falarmos do país, naturalmente. E o mesmo com os parceiros sociais. Isso foi positivo. Foi aquilo que se chamou descrispar.”.
Sente haver quem entenda que “deveria ser muito mais duro” ou que “foi violento a mais numa ou noutra intervenção em relação ao Governo”. Sobre a relação com o Governo, esclareceu:
Entendi que, no dia a dia, era muito importante haver um trabalho conjunto, como continuo a entender, perante os desafios que o país tem pela frente. Em momentos críticos em que senti que havia o risco de descolagem do país em relação ao poder político, aí, fui, se quiserem, um pouco mais incisivo, para que não houvesse uma abertura para riscos populistas.”.
Frisou que “o Presidente é o fusível de segurança do sistema” e que, se “não está lá nesses momentos cruciais, que são poucos, por natureza, são excecionais, aparece alguém a estar”.
E, ainda acerca das críticas ao seu exercício do cargo, sustentou que “quem não está preparado para estar muito impopular, então o melhor é dedicar-se a outra atividade que não à atividade política”. Mas prometeu, para os próximos dois anos, “manter exatamente o mesmo tipo de comportamento”, defendendo que o Presidente “tem de ser frio a pensar, tem de ser medido nas declarações e medido no pensamento, e depois tem de ser muito presente, muito próximo das pessoas e muito próxima em termos afetivos”.
Reiterando que, no essencial, não vai mudar o seu comportamento, elencou as suas prioridades:
Quer estabilidade, lutará pela estabilidade. Quer Governo até ao final da legislatura, lutará por Governo até ao final da legislatura. Quer uma área de Governo forte, lutará por área de Governo forte. Quer oposições fortes, lutará por oposições fortes. Quer prestígio das instituições, lutará por prestígio das instituições. Quer mais crescimento, quer mais igualdade onde há desigualdades, lutará por isso.”.
***
É perigoso que o Presidente diga que não vai mudar. Como qualquer mortal singular, também o detentor dum alto cargo público – e o seu é o do vértice da pirâmide do Estado – deve fazer o permanente exercício de autocrítica. Não vejo clara legitimidade para o Chefe de Estado se colocar em rota de querer oposições fortes ou fracas. Deve é aceitar que elas existam e tenham espaço, mas não deve promovê-las. Oxalá que não vá agora também fazer isso para a Grécia.
E não se percebe o furo jornalístico que diz que o Presidente dá um tempo a Rui Rio, pois, equacionará a hipótese de fazer presidências abertas. Porquê dar um tempo ao líder do maior partido da oposição? E as suas digressões pelo país têm sido presidências fechadas? 
Reconheço que o Presidente dá a mão ao Governo muitas vezes, mas comenta demasiado, entra e detalhes. Embora veladamente, substitui-se algumas vezes ao TC escorado na sua formação académica de Professor de Direito Constitucional e de Ciência Política, quando a função de julgar a constitucionalidade da Lei ou de decreto do Governo não é do Presidente, mas de outro órgão de soberania. Ao Presidente cabe fazer um juízo político, o que dá azo à promulgação ou ao veto. E este é que deve ser fundamentado no caso de se tratar de diploma do Parlamento.
E o Chefe de Estado intervém muitas vezes sem necessidade e sem dar conta que a sua atitude condiciona, por vezes previamente, o teor de uma iniciativa legislativa ou o seu andamento. E é esquisito perder-se em explicações sobre diplomas que promulga a propósito de insuficiências. Se são insuficientes, que vete! Se promulga, promulga. A não ser em casos muito excecionais…
É certo que Marcelo faz autocrítica, mas esta, elenca os atos, explica-os e justifica-os, mas raramente reconhece erros e não dá ensejo a mudança, mesmo que cirúrgica.
A autocrítica, mesmo a presidencial, deve redundar em satisfação e em melhoria.
Já agora, que não faça na Grécia o que fez em São Tomé: levar o Primeiro-Ministro por aqui ou por ali. Que respeite o protocolo. É mais elegante e mais seguro.
2018.03.12 – Louro de Carvalho