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domingo, 7 de junho de 2020

A revelação de Deus uno e trino, ou seja, da Santíssima Trindade


Embora a Solenidade da Santíssima Trindade não nos convoque diretamente para a perceção do mistério de Deus Uno e Trino, mas para a celebração festiva de Deus que é amor (Deus é amor: Ho Theòs agápê estín. – 1Jo 4,8), é pertinente que reflitamos sobre o mistério, que não compreendemos. Para tanto, será oportuna a leitura dos nn. 232-267 do CIC (Catecismo da Igreja Católica) e dos nn. 44-49 do CCIC(Compêndio do Catecismo da Igreja Católica), além da Lumen Gentium do Vaticano II.
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O mistério da Santíssima Trindade é o mistério central da fé e vida cristãs. Com efeito, como acentua o n.º 44 do CCIC, “os cristãos são batizados no nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo” e não “nos nomes” dos mesmos (cf nn. 232 e 233 do CIC). Por isso, toda a vida de Jesus revela este Deus Triuno: na anunciação, no nascimento, no episódio da Sua perda e encontro no Templo aos 12 anos e na sua morte e ressurreição, Jesus revela-Se como Filho de Deus de forma nova relativamente à filiação conhecida por Israel. No Batismo, ao iniciar a vida pública, o Pai testemunha ao mundo que Jesus é o seu Filho Amado em quem pôs todo o enlevo (cf Mt 3,13-17 e par.) e desceu sobre Ele o Espírito em forma de pomba. A esta primeira explicitação da Trindade corresponde a paralela na Transfiguração, que introduz o mistério Pascal (cf Mt 17,1-5 e par.). E, ao despedir-Se dos discípulos, Jesus envia-os a batizar em nome da Trindade, para que seja comunicada a todo o mundo a vida eterna do Pai, do Filho e do Espírito Santo (cf Mt 28,19).
No Antigo Testamento (AT), Deus revelou a sua unicidade e o seu amor pelo povo eleito: o Senhor era como um Pai. Mas, tendo falado muitas vezes pelos profetas, falou por meio de seu Filho (cf Hb 1,1-2), revelando que o Senhor não só é como um Pai, mas que é Pai (cf CCIC, 46). Jesus dirige-Se-Lhe na oração com o termo aramaico Abba, usado pelas crianças israelitas para se dirigirem ao próprio pai (cf Mc 14,36) e distingue sempre a Sua filiação da dos discípulos. Tanto assim é que que a verdadeira razão da crucifixão é o facto de Se chamar a Si mesmo Filho de Deus em sentido único. É revelação definitiva e imediata, porque Deus Se revela com a Sua Palavra: não podemos esperar outra revelação, enquanto Cristo é Deus (cf vg: Jo 20,17) que Se nos dá, enxertando-nos na vida que emana do colo do Pai. Por Cristo e em Cristo, Deus abre e entrega a Sua intimidade, per se inacessível ao homem. Esta revelação é um ato de amor, porque o Deus pessoal do AT abre livremente o seu coração e o Unigénito do Pai vem ao nosso encontro para Se fazer uma só coisa connosco e levar-nos de regresso ao Pai (cf Jo 1,18) – algo que as filosofias não podiam adivinhar porque apenas pode ser conhecido mediante a fé.
Deus não só possui uma vida íntima, mas Deus é a Sua vida íntima, uma vida caraterizada por eternas relações vitais de conhecimento (ação cognitiva) e de amor (ação volitiva), que nos levam a exprimir o mistério da divindade em termos de processões. Com efeito, os nomes das três Pessoas divinas postulam que se pense em Deus como o proceder do Filho do Pai e na mútua eterna relação do Amor que “procede do Pai” (Jo 15,26) e “toma do Filho” (Jo 16,14), que é o Espírito Santo. A Revelação fala, assim, de duas processões em Deus: a geração do Verbo (cf Jo 17,6) e a processão do Espírito Santo, sendo ambas relações imanentes, porque estão em Deus e são o próprio Deus, enquanto Deus é Pessoal.
Falando de processão, pensamos em algo que sai de outro implicando mudança e movimento. Porém, como o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus Triuno (cf Gn 1,26.27), a melhor analogia com as processões encontra-se no espírito humano, onde o conhecimento que tem de si não sai para o exterior: o conceito que fazemos de nós é distinto de nós, mas não está fora de nós. E o mesmo se diz do amor que temos para connosco. De modo parecido, em Deus o Filho procede do Pai e é Imagem Sua, do mesmo jeito que o conceito é imagem da realidade conhecida. Só que esta Imagem em Deus é tão perfeita que é Deus mesmo, com toda a infinitude, eternidade, omnipotência: o Filho é uma só coisa com o Pai, o próprio Algo. Essa é a única e indivisa natureza divina, embora seja outro Alguém. O Símbolo de Fé Niceno-Constantinoplitano exprime-o com a fórmula “Deus de Deus, Luz de Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro(Theòn ek Theoû, Phôs ek Phôtós, Theòn alêthinòn ek Theoû alêthinoû). Assim, o Pai gera o Filho dando-Se a Ele, entregando-Lhe a sua substância e natureza, não em parte, como sucede na geração humana, mas perfeita e infinitamente. O mesmo se diz do Espírito Santo, que procede como o Amor do Pai e do Filho, pois é o Dom eterno e incriado que o Pai entrega ao Filho gerando-O e que o Filho devolve ao Pai como resposta ao Seu Amor. Este Dom é dádiva de si, porque o Pai gera o Filho comunicando-Lhe total e perfeitamente o Seu próprio Ser mediante o Seu Espírito. Portanto, a terceira Pessoa é o Amor mútuo entre o Pai e o Filho. Seguindo a analogia do conhecimento e do amor, diz-se que o Espírito procede como a vontade que se move para o Bem conhecido (espiração).
Estas processões são imanentes e diferenciam-se radicalmente da criação, que é transeunte, ou seja, é algo que Deus faz para fora de Si. E dão conta da distinção em Deus, mas, porque são imanentes, dão razão da unidade. Por isso, o mistério do Deus Triuno não pode ser reduzido a uma unidade sem distinções, como se as três Pessoas fossem três máscaras, ou a três seres sem unidade perfeita, como se se tratasse de três deuses juntos.
As processões são o fundamento das diversas relações que em Deus se identificam com as Pessoas divinas: o ser Pai, o ser Filho e o ser espirado por Eles. E, como não é possível ser pai e ser filho da mesma pessoa, no mesmo sentido, também não é possível ser ao mesmo tempo a Pessoa que procede pela espiração e as duas Pessoas das quais procede. Se no mundo criado as relações são acidentes, pois não se identificam com o seu ser, embora o caraterizem no que é mais profundo como no caso da filiação, em Deus, nas processões é doada toda a substância divina, as relações são eternas e identificam-se com a própria substância.
Estas relações eternas caraterizam as três Pessoas divinas e identificam-se com Elas, visto que ao Pai pensar quer dizer pensar no Filho; e pensar no Espírito Santo quer dizer pensar naqueles a respeito dos quais Ele é Espírito. Assim as Pessoas divinas são três Alguém, mas um único Deus. Não como se dá entre três homens, que participam da mesma natureza humana sem a esgotar. As três Pessoas são cada uma toda a Divindade, identificando-Se com a única Natureza de Deus: as Pessoas são Uma na Outra. Por isso, Jesus diz a Filipe que quem O vê a Ele vê o Pai (cf Jo 14,6), enquanto Ele e o Pai são uma só coisa (cf Jo 10,30; 17,21). Esta dinâmica, chamada pericorese ou circumincesio – dois termos que se referem a um movimento dinâmico em que um se intercambia com o outro como na dança em círculo – ajuda a perceber que o mistério do Deus Triuno é o mistério do Amor. E, a este respeito, diz o n.º 221 do CIC):
Ele próprio é eternamente comunhão de amor: Pai, Filho e Espírito Santo; e destinou-nos a tomar parte nessa comunhão”.
Sendo Deus eterna comunicação de Amor, é compreensível que o Amor transborde para fora d’Ele na sua atuação. Toda a atuação de Deus na história é obra conjunta das três Pessoas, pois apenas se distinguem no interior de Deus. Contudo, cada uma imprime nas ações divinas “ad extra” a sua caraterística pessoal. Com uma imagem, pode dizer-se que a ação divina é sempre única, como a dádiva recebida de uma família amiga, que é fruto de um só ato. Mas quem conhece as pessoas que formam tal família pode reconhecer a intervenção de cada uma, pela marca pessoal deixada por ela na prenda única. Também é possível tal reconhecimento em Deus, uma vez que conhecemos as Pessoas divinas na Sua distinção pessoal mediante as missões, quando Deus Pai enviou juntamente o Filho e o Espírito Santo na história (cf Jo 3,16-17; 14,26) para se fazerem presentes entre os homens. Com efeito, “são sobretudo as missões divinas da Encarnação do Filho e do dom do Espírito Santo que manifestam as propriedades das pessoas divinas” (CIC, 258). Eles são como que as duas mãos do Pai a abraçar os homens de todos os tempos para os levarem ao seio do Pai. Se Deus está presente em todos os seres enquanto princípio do que existe, com as missões do Filho e do Espírito faz-se presente de forma nova. A própria Cruz de Cristo manifesta ao homem de todos os tempos o eterno Dom que Deus faz de Si mesmo, revelando na Sua morte a íntima dinâmica do Amor que une as três Pessoas.
Isto significa que o sentido último da realidade, o que todo o homem deseja e que é almejado pelos filósofos e pelas religiões de todos os tempos é o mistério do Pai que eternamente gera o Filho no Amor que é o Espírito Santo. Assim, na Trindade reside o modelo original da família humana e a Sua vida íntima é a aspiração verdadeira de todo o amor humano. Deus quer que todos os homens sejam uma só família ou uma só coisa com Ele próprio, sendo filhos no Filho. Cada pessoa foi criada à imagem e semelhança da Trindade (cf Gn 1,27) e está feita para viver em comunhão com os outros e com o Pai Celeste. E este é o fundamento último do valor da vida de cada pessoa humana, independentemente das suas capacidades ou riquezas.
Mas o acesso ao Pai só se encontra em Cristo, Caminho, Verdade e Vida (cf Jo 14,6): mediante a graça, os homens podem chegar a ser um só Corpo na comunhão da Igreja. Pela contemplação da vida de Cristo e pelos sacramentos, acedemos à vida íntima de Deus. Pelo Batismo somos enxertados na dinâmica de Amor da Família das três Pessoas divinas. Por isso, na vida cristã, tem de se descobrir que, a partir da existência corrente, das relações que estabelecemos e da nossa vida familiar, que vislumbra o seu modelo perfeito concretizado na Sagrada Família de Nazaré, de facto, podemos chegar a Deus, à vida íntima com as três Pessoas: Deus Pai, Deus Filho, Deus Espírito Santo. E, para chegar à Santíssima Trindade, é conveniente passar por Maria que Se deixou habitar pelo Senhor (O Senhor contigo: ho Kírios metà soû – Lc 1,28). Assim, pode descobrir-se o sentido da história como caminho da trindade à Trindade, aprendendo da trindade da terra (Jesus, Maria e José) a elevar o olhar para a Trindade do Céu.
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E é este Deus, clemente e compassivo, que, a pedido de Moisés, caminha no meio de nós, seu povo, disposto a compreender-nos e a perdoar-nos sem limitações (vd Ex 34,4-6.8-9). É este Deus (vd Jo 3,16-18) que amou tanto o mundo que entregou o seu Filho Unigénito para que o mundo, crendo, seja salvo por Ele (ína sôthê ho kósmos di’ autoû). É este Deus, digno de louvor e de glória para sempre (Dn 3,52b), que, estando connosco, nos faz viver na alegria e trabalhar pela nossa perfeição ajudando-nos uns aos outros, na graça (kháris) do Senhor Jesus Cristo, no amor (agápê) do Pai e na comunhão (koinônía) do Espírito Santo (vd 2Cor 13,11-13), em quem é preciso crer.
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Por fim, aqui se deixa a tradução de um dos símbolos primitivos em cinco artigos:
Creio no Pai senhor do universo, e em Jesus Cristo [salvador nosso], e no Espírito Santo [Paráclito], e na santa Igreja, e na remissão dos pecados” (Epistola Apostolorum – recentio aethiopica). 
2020.06.07 – Louro de Carvalho

domingo, 16 de junho de 2019

Na Solenidade da Santíssima Trindade ou do Deus Triuno (2019)


O mistério na vida dos crentes
Celebrar a solenidade da Santíssima Trindade é meditar e festejar o mistério central da fé e da vida cristã. A Santíssima Trindade identifica-nos como cristãos. Somos os únicos crentes que adoram um Deus único em três pessoas, um Deus que não é solitário nem quer a solidão, mas que é solidário, é família, é comunidade e se inquieta por que os seus filhos o sejam entre si e com Ele. Desde que batizados em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, a Santíssima Trindade passou a ocupar o primeiro lugar nas nossas vidas e ações.
Assim, não se concebe um cristão que não inicie ou não termine o dia sem fazer o sinal da cruz, invocando a Trindade Santa. Ao iniciar e ao encerrar qualquer oração, pública ou particular, as pessoas invocam a Santíssima Trindade. Muita gente inicia e termina o trabalho sob o olhar de Deus Uno e Trino.
Na verdade, a Bíblia usa claramente as palavras ‘Pai, Filho e Espírito Santo’ e, de cada uma, diz sempre o Pai, o Filho, o Espírito Santo. Foi assim que Jesus ordenou aos Apóstolos: ‘Ide por todo o mundo e batizai em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo’. Não se diz ‘nos nomes’ deles, porque não há mais que o Deus verdadeiro e único Pai omnipotente, Filho unigénito e Espírito Santo (cf CIC/Catecismo da Igreja Católica, n. 233). Na sua vida diária, a Igreja usa, umas vezes, os termos bíblicos, outras, os da reflexão dos concílios. Na Missa da Santíssima Trindade, usam-se quase sempre os termos bíblicos, exceto no prefácio, em que se usam os termos dos concílios. Os santos usam as palavras da Bíblia – Pai, Filho e Espírito Santo. Foi assim que rezou o Anjo de Portugal em Fátima, em 1916, e nós rezamos no rosário e no Sinal da cruz. Na nossa vida pessoal, começamos a professar a fé e a unir-nos à Santíssima Trindade no dia do Batismo. E será em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo que o sacerdote aspergirá o nosso corpo antes da sepultura. As orações da Missa e dos Sacramentos concluem-se invocando, por meio de Jesus, a Santíssima Trindade. Começamos e terminamos o dia fazendo o Sinal da Cruz porque vimos e vamos para a Santíssima Trindade como a fonte e fim de toda a vida. A oração dos salmos termina sempre pela invocação da Santíssima Trindade. E cada mistério do rosário conclui-se invocando a Santíssima Trindade.
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A doutrina – mistério e apelo a vida nova
Embora tão invocada, nem sempre os cristãos têm consciência do que é a Santíssima Trindade, verificação que perdura desde os tempos de Santo Agostinho, que em “As Confissões” exclama:
Quem poderá compreender a Trindade omnipotente? E quem não fala dela, ainda que não a compreenda? É rara a pessoa que, ao falar da Santíssima Trindade, saiba o que diz. Discute-se, debate-se, mas ninguém é capaz de contemplar esta visão sem paz interior”.
Segundo o CCIC (Compêndio do Catecismo da Igreja Católica), este é um mistério inacessível à pura razão humana – mistério revelado por Jesus Cristo e que é a fonte de todos os outros mistérios da fé cristã (cf CCIC n. 45). A Igreja explica que o Pai, o Filho e o Espírito Santo não são três princípios das criaturas, mas um só princípio (Concílio de Florença em 1442). No entanto, cada pessoa divina realiza a obra comum segundo a sua propriedade pessoal (CIC n. 258).
No decurso dos 1.os séculos, a Igreja preocupou-se com formular a fé trinitária para aprofundar a sua inteligência e para a defender contra os ataques que a deformavam. Para a formulação do dogma da Trindade reuniu concílios e teve de empregar palavras da cultura humana, tais como ‘substância’, ‘pessoa’ ou ‘hipóstase’, ‘relação’, ‘essência’ e ‘natureza’ – linguagem técnica, que foi necessária então e ainda hoje é útil. O termo ‘Trindade’ não foi usado por Jesus, nem aparece na Bíblia, como não aparecem a palavras ‘Missa’, ‘substância’ e ‘natureza’. São termos criados para tentar explicar o conceito de Deus triuno. A palavra ‘pessoa’ não tem aqui o significado das suas formas físicas da pessoa humana. Temos de nos libertar dessa carga física para podermos dizer que em Deus há três pessoas sem ser um grupo como nós.
Para os Padres, o termo ‘Theologia’ designa o mistério da vida íntima de Deus-Trindade e o termo ‘Oikonomia’ designa as obras de Deus pelas quais Ele Se revela e comunica a sua vida (É a ‘Oikonomia’ que nos revela a ‘Theologia’; mas é a ‘Theologia’ que esclarece toda a ‘Oikonomia’) (vd CIC n. 236).
No Ocidente, Tertuliano, do século II, foi o primeiro a usar a palavra “Trindade” para se referir a Deus em três Pessoas. No Oriente, esta tarefa coube a Teófilo de Antioquia, do século II.
A doutrina da Santíssima Trindade foi explicitada nos 1.os séculos e definida no Concílio de Niceia (325 d.C.), onde ficou esclarecida a divindade de Jesus; e no Concílio de Constantinopla (381 d.C.), quando se defendeu a divindade do Espírito Santo. O objetivo da Igreja foi aprofundar a fé e defendê-la de três erros que então eram propagados: o modalismo, o subordinacionismo e o triteísmo. Pelo modalismo, alguns teólogos (Noeto e Praxeias, no século II e Sabélio, no século III) reduziam as três Pessoas da Santíssima Trindade a um modo de expressão do único e mesmo Deus; pelo subordinacionismo, o Bispo Paulo de Samósata e o Padre Ario de Alexandria. Eles ensinavam que o Pai é o único Deus, enquanto o Filho e o Espírito Santo são criaturas subordinadas ao Pai; e pelo triteísmo, ensinava-se que o Pai, o Filho e o Espírito Santo são três substâncias independentes e autónomas, ou seja, a Trindade são três deuses.
Como diz Santo Atanásio, a nossa fé é esta: cremos na Trindade santa e perfeita, que é o Pai, o Filho e o Espírito Santo; não há n’Ela mistura de nenhum elemento estranho; não Se compõe de Criador e criatura; mas toda Ela é criadora e eficaz; uma só é a sua natureza, uma só é a sua eficiência e ação. O Pai cria todas as coisas por meio do Verbo, no Espírito Santo; e deste modo se afirma a unidade da Santíssima Trindade. Por isso, se proclama na Igreja um só Deus, que está acima de tudo, atua em tudo e está em tudo. Está acima de tudo como Pai, princípio e origem; atua em tudo por meio do Verbo; e está em tudo no Espírito Santo.
O apóstolo São Paulo, escrevendo aos coríntios acerca dos dons espirituais, tudo refere a Deus Pai como princípio de todas as coisas, dizendo: 
Há diversidade de dons espirituais, mas o Espírito é o mesmo; há diversidade de ministérios, mas o Senhor é o mesmo; e há diversidade de operações, mas é o mesmo Deus que realiza tudo em todos”.
Os dons que o Espírito distribui a cada um vêm do Pai pelo Verbo. De facto, tudo o que é do Pai é do Filho; e as graças concedidas pelo Filho, no Espírito Santo, são dons do Pai. E, quando o Espírito está em nós, em nós está o Verbo de quem recebemos o Espírito; e com o Verbo está o Pai. Assim se realiza o que diz a Escritura: O Pai e Eu viremos a ele e faremos nele a nossa morada. De facto, onde está a luz, está o esplendor da luz; e onde está o esplendor, está a sua graça eficiente e esplendorosa. – Homiliário patrístico (Cartas de Santo Atanásio, bispo – Século IV).
A Bíblia não pretende explicar o mistério íntimo de Deus, até porque isso seria impossível para nós, mas revela o que Deus fez por nós e é, nessa ação salvadora, que percebemos a existência de cada uma das pessoas divinas (cf CIC n. 236): Deus é chamado Pai enquanto criador do mundo e enquanto acompanha a história do mundo com uma ternura que podemos dizer de pai e de mãe (cf CIC nn. 238 e 239); Jesus revelou que Deus é Pai num sentido íntimo e inédito: é Pai de Jesus num sentido único, e Jesus é Filho de modo único (cf CIC n. 240); antes da sua Páscoa, Jesus anuncia o envio de um ‘outro’ Consolador, o Espírito, como outra pessoa divina em relação ao Pai e ao Filho. E esse envio, após a glorificação de Jesus, revela em plenitude o mistério da Santíssima Trindade (cf CIC n 240-244).
Leonardo Boff lembra que a Santíssima Trindade deve ser considerada a partir da dimensão mistérica e da dimensão sacramental. Face à dimensão mistérica, a melhor atitude é o silêncio e a adoração; e face à dimensão sacramental cabe a celebração e o esforço para assumir o que ela significa para a nossa vida de fé e de relação com Deus, com os outros e o mundo. Neste ultimo sentido, o Papa Francisco tem feito apropriadas pregações. Em 2018, na hora do Angelus, disse:
Hoje, domingo depois de Pentecostes, celebramos a Solenidade da Santíssima Trindade. Uma solenidade para contemplar e louvar o mistério do Deus de Jesus Cristo, que é um na comunhão de três Pessoas: o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Para celebrar com sempre novo espanto Deus-Amor, que nos oferece sua vida de graça e nos pede para espalhá-lo no mundo. (…). Portanto, a Solenidade da Santíssima Trindade faz-nos contemplar o mistério de Deus que incessantemente cria, redime e santifica, sempre com amor e por amor e a toda criatura que o acolhe, dá a oportunidade de refletir um raio de sua beleza, bondade e verdade.”.
Em 2017, na hora do Angelus, na Solenidade da Santíssima Trindade a mensagem foi:
Deus é uma ‘família’ de três Pessoas que se amam tanto a ponto de formar uma só. Esta ‘família divina’ não está fechada em si mesma, mas está aberta, comunica-se na criação e na história. Entrou no mundo dos homens para chamar todos a fazer parte dela. O horizonte trinitário de comunhão envolve-nos a todos e estimula-nos a viver no amor e na partilha fraterna, na certeza de que onde há amor, há Deus.”.
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Esta solenidade e os outros domingos
Todos os domingos são, de algum modo, dias da Santíssima Trindade, pois neles celebramos a obra do Pai Criador, do Filho Redentor e do Espírito Santo Santificador. Nos sete dias da criação, o 1.º foi o da criação da luz, a marca esplendorosa de Deus (como se viu no Tabor); a ressurreição deu-se no 1.º dia da semana; e, no 1.º dia, desceu o Espírito Santo sobre os Apóstolos. O 1.º dia da semana é, pois, o dia da obra de todas e cada uma das pessoas divinas.
Este domingo está colocado depois das festas da Páscoa, o que nos ajuda a perceber que pela vida de Jesus Cristo chegámos ao conhecimento da Santíssima Trindade. Não conhecemos este mistério pela filosofia, mas só pela pessoa e obra de Jesus. Por outro lado, o facto de esta solenidade estar no recomeço do Tempo Comum ajuda a compreender que a Trindade Santa é a fonte primeira e o fim último de toda a história do mundo e da nossa vida humana.
Sem os factos históricos passados com Jesus e as palavras da Anunciação do Anjo, do Batismo no Jordão, da Transfiguração no Tabor, da última Ceia, da ordem final de Jesus de batizar todos os povos ‘em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo’, não conheceríamos o mistério íntimo de Deus: teríamos ficado na fé em um só Deus, sem mais explicações, como sucede com os Judeus e os Muçulmanos. Este mistério é especificamente cristão e define a nossa fé, pois as palavras de Jesus, mantendo a fé num só Deus, deram-nos a conhecer o mistério íntimo de Deus. Dizemos que Deus é comunidade, que é família, que “há em Deus três pessoas”, o que é um apelo a vivermos em comunidade e um desafio a que entremos na comunidade divina.
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A Liturgia da Solenidade no Ano C
Esta Solenidade não é um convite a decifrar a mistério escondido num Deus em três pessoas, mas é um convite a contemplar o Deus amor, família, comunidade e que criou os homens para os fazer comungar neste seu mistério. A 1.ª leitura (Pr 8,22-31), marcada por um tom poético, carregado de imagens e simbolismo, sugere a contemplação do Deus criador, cuja bondade e amor se manifestam aos homens na beleza e harmonia das obras criadas (Cristo é a ‘sabedoria’ de Deus e o revelador do amor do Pai). A 2.ª leitura (Rm 5,1-5) convida à contemplação do Deus que nos ama e que nos ‘justifica’ de forma gratuita e incondicional. É pelo Filho que o dom do Pai se derrama sobre nós e nos oferece a vida em plenitude. E o Evangelho (Jo 16,12-15) convoca-nos para contemplar o amor do Pai, que Se manifesta na doação e entrega do Filho e acompanha a nossa caminhada histórica através do Espírito Santo. A meta final desta história de amor é a nossa inserção na comunhão com o Deus-amor, o Deus-família, o Deus-comunidade.
Dos provérbios (“mashal”), ditos, sentenças e máximas (do Livro dos Provérbios), resultantes da reflexão e experiência dos sábios (israelitas e alguns não israelitas), empenhados em definir as regras de viver bem para ser feliz, alguns podem ser do século X a. C., mas outros são mais recentes.
O texto da 1.ª leitura da Solenidade integra um bloco de instruções e advertências que vai de Pr 1,8 a 9,6. É a parte mais recente do livro (não é anterior ao séc. IV ou III a. C.). E o capítulo 8 (donde é retirado o trecho em referência) apresenta um discurso da própria Sabedoria como sendo ela uma pessoa. É o artifício pelo qual o autor dá força e intensidade dramática à exortação que lança a acolher e amar a Sabedoria. Na 1.ª parte do discurso (vv. 1-11), o autor apresenta os púlpitos donde a Sabedoria vai pregar (cume das montanhas, encruzilhada dos caminhos, entradas das cidades, umbrais das casas) e os alocutários do discurso (todos os homens), apelando à escuta das palavras que vai enunciar; na 2.ª parte (vv. 12-21), vêm as credenciais da Sabedoria (reflexão, ciência, conselho, equidade, força) e o prémio reservado aos que a acolhem; e, na 3.ª parte (vv. 8,22-31), o autor sagrado reflete sobre a origem da Sabedoria e a sua função no plano de Deus.
Antes de mais, a sabedoria tem origem em Deus. O hagiógrafo põe na boca da Sabedoria o termo hebraico “qânâny” (“gerou-me”) para exprimir a responsabilidade de Deus na origem e génese da sabedoria (v. 22). É a primeira das obras de Deus: antes de serem lançadas as estruturas do cosmos, já existia a Sabedoria (vv. 24-29); tinha o papel de arquiteto (“amon”) interveniente na criação, ou seja, era o assistente ativo de Deus na obra criadora. Ou, como referem certas versões que liam como “amun” – “criança” – ali estava a Sabedoria como uma criança feliz que brinca e se deleita no meio da obra criada (Também o arquiteto se deleita com a obra que concebe e gere!). Seja como for, a Sabedoria afirma o seu interesse e deleite em estar “junto dos filhos dos homens” (v. 31), pelo que se lhes dirige com o objetivo de “ser para os homens” e desempenhar um papel em prol dos homens, tornando-os sábios e felizes.
Para se entender esse papel, anote-se que a perícopa está marcada por três palavras, que aparecem no princípio, no meio e no fim: “Jahwéh” (v. 22), “sabedoria” (“eu” – v. 30) e “homens” (v. 31). Então o objetivo do hagiógrafo, ao dizer que a sabedoria tem origem em Jahwéh, está em íntima relação com Deus e se destina aos homens, é sugerir que ela é capaz de pôr os homens em contacto com Deus e criar relação e reciprocidade. Através da realidade criada que viu nascer, a Sabedoria espevita a inteligência dos homens, leva-os a Deus, atrai-os para Ele. A Sabedoria, presente desde sempre na criação, revela aos homens a grandeza e amor de Deus.
A tradição judaica identifica Sabedoria com a Torah. Os autores do Novo Testamento, bem conhecedores dos livros sapienciais, atribuem a Jesus algumas das caraterísticas que este texto atribui à Sabedoria: Paulo chama a Jesus sabedoria e sabedoria de Deus (cf 1Cor 1,24.30); considera que Jesus, como a sabedoria de Pr 8, existe antes de todas as coisas e desempenhou um papel privilegiado na criação do mundo (cf Cl 1,16-17); e o “prólogo” do 4.º Evangelho atribui ao Lógos (Jesus) as marcas da sabedoria criadora de Pr 8 (diz que Jesus é anterior à criação – cf Jo 1,1) e que Ele deu existência a todas as obras (cf Jo 1,3; credo de Niceia). Os Padres da Igreja, por seu turno, veem nesta sabedoria, pré-criada e anterior à restante obra de Deus, traços de Jesus Cristo ou do Espírito Santo, só faltando dar o passo para a conceção de Sabedoria incriada!
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A terminar a sua 3.ª viagem missionária (ano 57 ou 58), e preparando-se para partir para Jerusalém, Paulo escreve aos romanos. Com efeito, terminada a sua missão no oriente (cf Rm 15,19-20), queria levar o Evangelho ao ocidente. E aproveita a carta para contactar a comunidade de Roma e dar-lhe conta, bem como a todos os crentes os problemas que o ocupavam (sobretudo o da unidade, problema bem presente na comunidade de Roma, afetada por alguma dificuldade de relacionamento entre judeo-cristãos e pagano-cristãos).
Paulo sublinha que o Evangelho é a força que congrega e salva todo o crente – judeu, grego ou romano –, sem distinção. E, vincando que todos os homens vivem imersos no pecado (cf Rm 1,18-3,20), acentua que é a “justiça de Deus” que dá vida a todos sem distinção (cf Rm 3,1-5,11). No texto da 2.ª leitura da Solenidade, Paulo, partindo da ideia de que todos os crentes (judeus, gregos e romanos) foram justificados pela fé, enaltece a ação de Deus, por Cristo e pelo Espírito, no sentido de “justificar” todo o homem.
Na linguagem bíblica, a justiça, mais do que um conceito jurídico, representa um conceito relacional. Define a fidelidade a si próprio, ao seu modo de ser e aos compromissos assumidos no âmbito duma relação. Nestes termos, se Jahwéh Se manifestou na história do Povo como o Deus da bondade, misericórdia e amor, falar da sua justiça não quer dizer que Ele aplique os mecanismos da Lei se o homem infringir as normas; significa, antes, que a bondade, a misericórdia, o amor, próprios do divino ser, se manifestam sempre e em todas as demais circunstâncias, ainda que o homem tenha procedido incorretamente. Ora, o Apóstolo, ao falar do homem justificado, refere-se ao homem pecador que, por iniciativa do amor e da misericórdia de Deus, recebe um juízo de graça que o liberta do pecado e lhe dá, gratuitamente, acesso à salvação, sendo-lhe apenas pedido que acolha, humilde e confiadamente, uma graça que não depende dos seus méritos e se entregue todo nas mãos de Deus. Este homem, objeto da graça de Deus, é nova criatura (cf Gl 6,15): é o homem ressuscitado para a vida (cf Rm 6,3-11), vive do Espírito (cf Rm 8,9.14), é filho de Deus e coerdeiro com Cristo (cf Rm 8,17; Gl 4,6-7), de quem se tornou irmão, é potencialmente o espelho da Trindade Santa na vida pessoal e de relação.
Este acesso gratuito à salvação, que é dom de Deus, tem os seus frutos, em que sobressaem a paz, a esperança e o amor. A paz não se entende no sentido usual – psicológico e social – de tranquilidade e serenidade, mas no sentido teológico semita de relação com Deus, de plenitude de bens, pois Deus é a fonte de todo o bem. A esperança é o dom que nos leva a superar as dificuldades e a dureza da caminhada, apontando para o futuro glorioso da vida em plenitude. Não é o otimismo fácil e evasivo, mas a certeza de que as forças da morte não terão a última palavra e que as forças da vida triunfarão. E o amor de que fala Paulo é o amor de Deus ao homem (vv. 5-8), pois o cristão é alguém a quem Deus ama e, como prova desse amor que age em nós pelo Espírito, está Jesus de Nazaré que Deus “Se entregou à morte por nós quando ainda éramos pecadores”. Tudo o que enche a vida do crente e lhe dá sentido é dom do Pai que, por Jesus, mostra o seu amor e que, pelo Espírito, derrama esse amor continuamente sobre nós.
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No contexto da última ceia e do subsequente discurso de despedida que antecede a “hora” de Jesus, depois de constituir a comunidade do amor e do serviço (cf Jo 13,1-17) e apresentar o mandamento fundamental que dá corpo à vida dessa comunidade (cf Jo 15,9-17), Jesus define a missão da comunidade no mundo: testemunhar acerca de Jesus, com a ajuda do Espírito (cf Jo 15,26-27). No entanto, adverte que o caminho do testemunho deparará com a oposição decidida da religião estabelecida e dos poderes letais que dominam o mundo (cf Jo 16,1-4a). Em contrapartida, os discípulos contarão com o Espírito Santo, que os ajudará e lhes dará segurança e coragem na perseguição (cf Jo 16,8-11). Mais: a comunidade peregrina pela história encontrar-se-á diante de circunstâncias históricas novas, ante as quais terá de fazer opções. E aí verá a presença do Espírito, que ajudará a responder novos desafios e, como Paráclito que é, ajudará a interpretar as circunstâncias à luz da mensagem de Jesus (cf Jo 16,12-15), como interpretará junto do Pai a nossa linguagem e junto de nós a linguagem de Deus.
Na perícopa evangélica da Solenidade o tema fulcral tem a ver com a ajuda do Espírito aos discípulos em marcha pelo mundo e pela história. Diz Jesus que há muitas outras coisas que eles não podem compreender de momento (v. 12). Porém, o Espírito da verdade que os guiará para a verdade comunicar-lhes-á tudo o que ouvir a Jesus e interpretará o que está para vir (v. 13). Isto não quer dizer que Jesus não tenha revelado tudo o que havia para revelar ou que a sua proposta de salvação tenha ficado incompleta. As palavras de Jesus acerca da ação do Espírito referem-se ao tempo da existência cristã no mundo, o que vai da morte de Jesus à “parusia”. Assim, os discípulos, no tempo da Igreja, continuarão a captar, na fé, a Palavra de Jesus e a guiar a vida por ela através do Espírito da verdade, que fará com que a proposta de Cristo continue a ecoar todos os dias na vida da comunidade e no coração de cada crente. Ademais, o Espírito ensinar-nos-á a entender a nova ordem que se segue à cruz e à ressurreição e a discernir, a partir das circunstâncias concretas em que a vida nos coloca, como proceder para continuar fiel a Jesus.
De facto, o Espírito não apresenta nova doutrina, fará, antes, com que a Palavra de Jesus seja a referência da comunidade e que esta saiba aplicar a cada circunstância a proposta de Jesus. Para tanto, o Espírito vai buscar ao próprio Jesus (“receberá do que é meu e vo-lo anunciará” – v. 14) essa verdade que transmite continuamente aos discípulos. Nestes termos, Jesus continuará presente e em comunhão com os discípulos, como prometeu, comunicando-lhes a sua vida e amor. Assim, a função do Espírito é realizar a comunhão entre Jesus e os discípulos em marcha pela história. Tal como é o abraço de comunhão entre Pai e Filho, é o abraço de comunhão entre Jesus e os discípulos e o disseminador do Lógos Spermaticós, de modo que, segundo Justino, o Verbo de Deus está, como que em semente, inculcado nos corações de todas as pessoas tornando-as a todas “membros”, ao menos potenciais, da única Igreja de Cristo. 
A última expressão deste texto (v. 15) assinala a comunhão entre o Pai e o Filho, que atesta a unidade entre o plano salvador do Pai, espelhado nas palavras de Jesus e tornado realidade na vida da Igreja, por ação do Espírito, que nos torna espelhos da Trindade Santa, vivendo na lucidez e na força evangélicas e construindo comunidade incrementadora e difusiva do bem.
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Por fim, a reciprocidade Deus-Homem
Como recorda Santo Agostinho, o nosso coração é um coração inquieto que não se satisfaz com nada menos do que Deus e não descansa enquanto não repousar em Deus. Contudo, como afirmou Bento XVI na homilia da Epifania, de 2012: Também o coração de Deus vive inquieto relativamente ao homem e não descansa enquanto não nos tiver encontrado.
2019.06.16 – Louro de Carvalho

sábado, 11 de março de 2017

Em ano de centenário, apraz-me recordar Luciano Paulo Guerra

O semanário Ecclesia, do dia 10 de março, evoca os 35 anos de Monsenhor Luciano Paulo Guerra como reitor do Santuário de Fátima com a publicação de excertos de uma entrevista realizada em outubro de 2008 em vésperas de deixar o cargo.
Confesso que me soube a pouco essa referência, já que, sem deslustrar o trabalho dos antecessores e o dos dois sucessores, é de relevar que o percurso de Fátima não seria o mesmo sem Paulo Guerra. Sem o mínimo de desvio em relação à História de Fátima e à sua Mensagem, o “reitor” revolucionou Fátima na vertente humana e espiritual, no aspeto luzido das celebrações, na administração colegial do Santuário, na criação de serviços, na multiplicação de iniciativas no dimensionamento das infraestruturas, no aumento dos equipamentos de utilização coletiva e nas acessibilidades.
Em relação à predita entrevista, fui-lhe no encalço e reli-a. E há aspetos que julgo marcantes.
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Sobre a disposição de espírito ao deixar a reitoria, assegura que nunca teve “saudades” dos tempos onde esteve, “embora fossem sempre bons”, declarando que, “se estivermos bem no presente, não teremos saudades do passado”. Por outro lado, garante que o Padre Virgílio Antunes (o atual Bispo de Coimbra) “tem dons suficientes para que as celebrações corram bem”.
No respeitante ao modo do exercício do cargo, frisa que “o grande peso desta responsabilidade passa pelo decidir”, dando-se conta com o tempo da responsabilidade de “dar a resposta do sim ou do não”. Porém, reconhece que Deus lhe deu o grande dom de “consultar” e lembra que “os capelães foram o grande suporte da administração das finanças do Santuário”, sendo que “as grandes questões foram decididas em colégio”. Acha natural o trabalho em equipa, porque gosta muito de “conversar com as pessoas numa base da razão” e é-lhe “muito agradável conversar com pessoas desprovidas de preconceitos”. E, em relação ao gosto pelo diálogo, em especial no atinente à facilidade em dialogar com os peregrinos, sentencia:
“Se conseguirmos conversar com as pessoas, na base do que há mais básico em nós, percebemos os contextos. É evidente que há um nível de abstração que as pessoas não estão habituadas, mas, quando escrevo e falo, procuro relacionar a abstração com o concreto. Gosto imenso de dialogar com os peregrinos.”.
No entanto, sabe que as pessoas têm a ideia de que é um homem distante, pelo que explica:
“Fui sempre uma pessoa programada e estou sempre a fazer qualquer coisa. Portanto, se não previ conversar com uma pessoa que encontro pelo caminho começo a ficar impaciente. Quando atravesso o recinto do Santuário, é porque tenho alguma coisa para fazer no outro lado. Não sou uma pessoa que esteja vaga. Por isso, muito raramente, na minha vida me senti só. Tenho sempre algo para fazer e alguma dificuldade de mudar de atenção.”
Admite que gosta de contar até dez antes de tomar uma decisão, mas diz que “o impulso imediato é para agir e responder”. E, assentindo que é “um ‘bocadinho’ impulsivo”, reconhece que foi com a idade que se tornou convicto de que “as pessoas devem evitar, a todo o custo, a precipitação”, sendo que “precipitar-se é a passagem à fase da ação ou da palavra antes de ter o pensamento bem apurado”. E, como diz, com a idade, o seu temperamento “tornou-se cada vez mais secundário”. 
Do que refere da sua infância, destaco o facto de, ao ter ouvido o seu pároco cantar a Oração Eucarística (ao tempo, o prefácio), ter desejado um dia poder cantar como ele (mimetismo infantil que marca). Depois, esse gosto de cantar, aliado à vocação sacerdotal, levou-o a fazer o possível “para favorecer o canto no Santuário de Fátima e, mesmo, fora dele”.
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Questionado sobre a assistência às aparições de outubro de 1917 por parte da avó e do pároco que o batizou, relata a memória que o pároco retinha daquele dia 13:
“Ele era natural do Reguengo do Fetal (situa-se a 10Km de Fátima) e foi com alguns peregrinos que ficaram na casa dos seus pais naquela noite. Aparelhou a égua e meteu-se ao caminho com os peregrinos. Choveu toda a noite e toda a manhã. Num determinado momento, um indivíduo tira o relógio e diz para os outros que era meio-dia: hora da aparição. Nessa altura, começou ver o Sol a desandar, a desandar, a desandar... Tira-se do céu e vem contra mim... Só tive tempo de me ajoelhar na lama e dizer: ‘Meu Deus, perdoai-me que eu morro aqui’. E foi assim que se passou o Milagre do Sol para o meu pároco.”.
E, referindo que havia os críticos das aparições, “mas os jornais da época nem tiveram a coragem de dizer que aquilo era forjado”.
Evocando o ambiente mariano em que viveu e a oração em família, aliada ao trabalho, sustenta que “a sociedade está desintegrada porque o seu elemento fundamental – a família – está em desintegração”. Na verdade, “com as movimentações das pessoas assiste-se à aquisição de outros amores e ligações que acabam por prejudicar a família”. Por outro lado, julga que “esta sociedade não se vai aguentar porque não terá filhos suficientes” e que, depois, “as crianças, quando chegam a adultos, não querem reproduzir no seu casamento o sofrimento a que assistiram nas suas casas”, acabando por não se casar ou por viver um casamento a prazo. Neste aspeto, aponta o dedo a governos que vão “onda” da desintegração e da facilitação do divórcio.
Gosta de viajar e tirar proveito humano, cultural e linguístico das inúmeras viagens feitas, sobretudo das viagens ao estrangeiro, registando que “somos pequenos e estamos encostados de flanco à Espanha”, havendo “um histórico muito duro entre nós e os castelhanos”.
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Da sua permanência de 4 anos em Paris como capelão dos emigrantes e estudante de Filosofia, revela que fez o curriculum “ad lauream” para Filosofia, mas que não fez a “laurea” porque sempre pensou que, a escrever algo, deveria ser de si mesmo. Diz gostar de “refletir sobre as últimas causas”. E tem pena do “abandono a que se votam os alicerces das casas porque eles são o suporte de tudo”. É claro que está a metaforizar a relevância da Filosofia. Não obstante, se fosse a construir uma tese de doutoramento, escolheria o tema da liberdade de pensamento.
E, questionado sobre se foi isso que o levou a escrever uma carta aberta a Salazar, explica o verdadeiro motivo da carta, que o Jornal da Marinha Grande censurou e não publicou:
“Durante os meus tempos de Paris, via as condições dos nossos emigrantes. Muitos deles não sabiam se tinham trabalho ou onde dormiriam. Perante estes factos, escrevi a Salazar a dizer-lhe da necessidade que havia de olhar para estes compatriotas.”.
Não era propriamente uma questão de política interna, mas “era sobretudo sobre a falta de assistência e a miséria dos emigrantes”, dada a sua sensibilidade aos problemas sociais. Ora, se tinha uma posição crítica em relação à política salazarista, não deixa de a posicionar no tempo, salientando uma antiga admiração pelo governante devido aos melhoramentos em obras públicas, lembrando que “o povo só sentiu a miséria antes de Salazar e o progresso depois de Salazar”. Porém, ele “demorou tempo demais”. Sobre os militares de abril, não esquece o móbil do pronunciamento, o aspeto profissional, mas reconhecendo que “o fruto estava maduro” e obviamente caiu. E, em relação à guerra colonial, pensa que “Salazar concebeu a possibilidade de uma unidade entre nós e as províncias ultramarinas”, que foi um erro e que o seu isolamento “não o deixou perceber a realidade exterior”, porque “faltou-lhe viajar”. Porém, aponta a incoerência dos que acham Mouzinho de Albuquerque um herói, que defendia o colonialismo. 
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Recusa falar de uma Fátima antes de ser reitor e outra Fátima após a sua saída. Não costuma “demorar nada no passado”. E diz que só gosta da história “para captar dela o que acontece no presente”. Porém, realça que, quando chegou, “estávamos no Pós-Concílio” – o que diz tudo. E confessa que teve “algum abalo com o Concílio”, explicando-se:
“Como tenho uma grande tendência para refletir, também tenho dificuldade em concordar com os meus mestres. Não foi fácil concordar com tudo aquilo que me ensinavam. Sobretudo, com o dogma porque não temos tempo. É necessário muito tempo para assimilar uma doutrina tão complexa, rica e elaborada como é a doutrina da igreja. Em 2000 anos, a Igreja conseguiu uma estrutura óssea dogmática tremenda. Tive necessidade de me retirar para rever novamente a minha vida e os compromissos. Cheguei a França e encontrei um ambiente muito diferente. Pessoas livres que continuavam católicas.”.
E engrandece a necessidade do diálogo inter-religioso, pois, “se as religiões não se entenderem como se entenderão os sem religião?”. Porém, não se furta a falar do Santuário de Fátima.
É em mais do dobro o número de funcionários. De 2 milhões de peregrinos passou-se ao cálculo de entre 4 a 5 milhões. Purificou-se o ambiente e apurou-se mais a palavra. Criou-se o Centro Pastoral Paulo VI. As duas casas de retiros (Dores e Carmo) foram renovadas. As peregrinações estrangeiras passaram a ser convenientemente acolhidas. Começou a concretizar-se a publicação da Documentação Crítica de Fátima. Fez-se a cobertura da Capelinha das Aparições. Temos a Igreja da SS.ma Trindade (não era basílica em 2008). Além disso, foram acarinhados os Valinhos (foram comprados cerca de 40 hectares) e Aljustrel, tendo as casas dos videntes sido restauradas com fidelidade. E foram comprados terrenos junto à casa da irmã Lúcia com a intenção de fazer lá um Centro Pastoral sobre a Família, para “acolher grupos” e promover a reflexão sobre os problemas da família. E poderia ter referido o altar do Recinto de Oração, cenário preparado para a primeira visita do Papa João Paulo II e agora reformulado para o centenário.
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Quanto à vinda de João Paulo II a Fátima, o Papa das surpresas – um grande homem que o marcou muito pela seriedade, integridade e profundidade –, não se furta a informação:
“Tenho uma certa presunção de pensar que também contribuímos para que o Papa João Paulo II viesse logo no primeiro aniversário do atentado. Um cardeal que estava no Vaticano veio ao Santuário – suponho que em Novembro de 1981 – e, através dele, enviámos as memórias da Irmã Lúcia a João Paulo II com um abaixo-assinado de todos os trabalhadores do Santuário para que viesse cá celebrar o primeiro aniversário. O Papa adensou o mistério de Fátima.”.
Sobre o atentado ao Papa, Papa que reforçou a índole de Fátima como Altar do Mundo, diz:
“Tenho para mim que foi um meio que Deus usou para colocar em relevo o segredo que prometia a conversão da Rússia. A partir deste momento, João Paulo II abriu os olhos ao segredo de Fátima e abriu o segredo de Fátima. Um homem como ele pôde ter inspirações interiores na sua oração, reflexão e nas pessoas que o acompanham. Ele entendeu que Deus o queria como homem da passagem do milénio e, também, da libertação dos países comunistas.”.
Tendo voltado a Portugal e a Fátima dez anos após o atentado em Roma, voltou pela última vez em 2000 para beatificar Jacinta e Francisco – uma visita onde João Paulo II furou os protocolos e entregou o anel a Nossa Senhora. A este respeito, Paulo Guerra historia:
“O anel tinha escrito o lema dele: ‘Totus Tuus’. Foi oferecido pelo cardeal Wyszynski, após a eleição dele. Como enviámos o guião da celebração para o Vaticano, onde o cântico inicial era o ‘Totus Tuus’, eu imagino que ele pensasse que era uma boa ocasião para oferecer o anel.”.
Relativamente à visita de Paulo VI, numa época em que as aparições eram desvalorizadas, frisa:
“Foi uma visita com muito impacto e dramática. Ele veio em 1967 – dois anos após o encerramento do II Concílio Vaticano – e Paulo VI quis satisfazer (em 1964) o pedido de várias centenas de bispos que lhe fizeram um abaixo-assinado para que ele atendesse o pedido de Fátima e consagrasse o mundo ao Imaculado Coração de Maria. Em 1964, Paulo VI proclamou Nossa Senhora como Mãe da Igreja.”.
E acrescenta:
“Paulo VI tomou a decisão de vir a Fátima por um impulso muito pessoal, mas amargurado. Ele teve quem se manifestasse contra a sua vinda. Veio somente a Fátima – não quis ir a Lisboa – e se Salazar quis falar com ele teve de vir a Fátima.”.
Não estava esquecida a visita a Bombaim e fora impedida a ida do Papa a Goa.
E da causa das colónias e movimentos de libertação, estava no ar o facto de Holden Roberto ter sido recebido pelo Papa – acontecimento que Salazar não tolerou. 
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Diz que o marcou muito mais a beatificação de Jacinta e Francisco que a inauguração da Igreja da Santíssima Trindade, porque a beatificação “foi lançar um selo quase definitivo sobre a integridade psíquica, moral, ascética e espiritual daquelas crianças” e porfia que, quanto mais lê os escritos da irmã Lúcia, mais o encanta “o relato que ela faz das duas crianças”.
Olhando para a Igreja da Santíssima Trindade, confessa que nada o deslumbra: nem o todo nem uma peça em especial, explicitando:
“São obras interessantes, mas nenhuma daquelas obras é de deslumbrar. O painel com aquelas cores é muito belo. Fica muito bem ali porque concentra a atenção das pessoas. Tenho pena de não ter tido coragem de pedir para que as cores fossem mais marcadas. O Cristo é um belo Cristo, mas não tem nada de Salvador Dalí ou Picasso. É um Cristo humano que olha para as pessoas com a consciência de que está inocente. É um Cristo que sabe que tem por trás a Jerusalém celeste. O que me alegra mais é a simplicidade daquele edifício.”.
E, sobre a fonte, sente que “de noite tem um ar de mistério”.
Recorda que deixou programada uma Via-Sacra entre o Centro Pastoral e os Valinhos, pensando que seria uma oportunidade para fazer um museu ao ar livre, e assegura que gostava de publicar algo sobre a Igreja da Santíssima Trindade e que estava a escrever um livro – tinha já cerca de 350 páginas escritas – sobre os “Papas e Fátima”.
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Finalmente, aduzo a minha outra razão para a relevância da figura de Monsenhor Luciano Paulo Guerra. Fátima, na sua mensagem inteiramente conexa com o Evangelho, coincide com a dinâmica da Quaresma. Como esta, pela escuta da Palavra e envolvimento na penitência, nos leva para a Páscoa, também Fátima se centra, pela mão de Maria, na Páscoa da Eucaristia. Ora com Paulo Guerra passamos da Basílica de Nossa Senhora do Rosário (da oração e penitência) para a da Santíssima Trindade, voltando ao início das aparições do Anjo: Eucaristia e Trindade.
Mais: se a Quaresma prescreve, no apelo ao arrependimento/penitência, a oração, o jejum e a esmola, com Paulo Guerra, o Santuário, que falava da oração e da penitência (arrependimento do pecado e a mortificação) e apelava à esmola para dentro, passou a falar também da esmola do Santuário para fora, para os pobres e as Igrejas. Não é uma reviravolta, mas é uma mais-valia!
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“Na minha terra rezava-se o Terço todos os dias”. “Ao jantar rezávamos um bocadinho – dois a três minutos – e aos domingos íamos à missa”. (Paulo Guerra)

2017.03.11 – Louro de Carvalho