Mostrar mensagens com a etiqueta Presente. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Presente. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 28 de maio de 2019

Biblioteca Vaticana, um local para frequentar o futuro


O Arcebispo Dom José Tolentino Mendonça, em entrevista à agência Ecclesia, publicada a 26 de maio, assinala a importância do património documental postado em 50 quilómetros de prateleiras da Biblioteca Apostólica Vaticana (num Salão de 70m x 11m) para o conhecimento dos saberes do cristianismo e dá conta da sua colaboração com o programa do pontificado de Francisco pelo trabalho das suas duas equipas, a da Biblioteca e a do Arquivo Secreto. 
***
Considerando uma biblioteca como um “grande património” e um “lugar de identidade”, em que os livros e objetos similares documentam e contam “uma história” de família, enfatiza:  
A nossa história vem de longe, são dois mil anos de história. É evidente que os primeiríssimos documentos, hoje conservados na Biblioteca Apostólica, são do final do século II. Mas remontam a uma tradição que pretende conservar as palavras, os ditos, os gestos do próprio Jesus.”.
E essa tradição estriba-se em dois lugares teológicos: a escuta da Palavra e a ação em memória de Jesus. E o prelado vinca os dois aspetos exemplificando: 
Aquela passagem de São Lucas que diz que Maria conservava no seu coração aquilo que a Jesus dizia respeito – o esforço é esse, que a Igreja sempre fez e é um esforço que se liga à Eucaristia, onde se diz ‘Fazei isto em memória de mim’. A conservação da memória foi sempre algo muito importante para as comunidades cristãs. Ao longo dos séculos a conservação da memória teve formas muito diferentes.”.
Em relação à memória da Biblioteca que lidera, testemunha o fraquinho do cristianismo pela pessoa humana e pela História contextualizando:
Esta [história], de que a Biblioteca Apostólica do Vaticano é diretamente herdeira, tem cinco séculos, nasce no meio de uma grande cultura humanista, onde o interesse pela teologia e as ciências sagradas se alia ao interesse por tudo o que é humano. É uma biblioteca 360º, tem uma latitude desde o saber teológico, à astronomia, matemática, arquitetura, medicina… Tudo o que é humano está dentro desta biblioteca e, neste sentido, é um espelho muito fiel da paixão do cristianismo pela pessoa humana e pela História.”.
Relata que, apesar de, após a sua entrada em funções, já ter sido incorporado um colaborador, é o mais novo de quantos ali trabalham, pelo que pediu a todos que o ajudassem a “entender a Biblioteca Apostólica”, e que tem encontrado “um testemunho muito grande” em todos, que “são um tesouro a par dos livros”, “os quais são de efetivamente tesouros “intermináveis”.
Sendo uma das tarefas da Biblioteca a catalogação e o estudo do próprio “material”, regista que “isso é uma tarefa para séculos”, que “sabemos, mais ou menos tudo, o que temos”, mas que é extraordinário ver o “significado de cada um dos volumes” e “as relações entre eles”. E, exemplificando com um exemplo português, observa:
Na Biblioteca nós temos uma quantidade muito significativa de livros de ciências e de marinhagem, da arte de navegar, do século XVI. É evidente que, dentro do amplo património da Biblioteca Apostólica do Vaticano, isto são coisas marginais. Mas, para um português que percebe que aqueles livros são exemplares raríssimos, que aqueles livros serviram para a obra da expansão marítima, que foram impressos em Lisboa ou Chaves, ou em Leiria, que têm nomes que estão no coração e na cultura, damos imenso valor às obras. Ver uma obra do Pedro Nunes, uma obra matemática ou ver o tratado de marinhagem, folheá-lo ou ver o cancioneiro galaico-português…”.
***
É de anotar que na sua crónica “Tesouros Portugueses”, na Revista do Expresso, de 24 de maio, no âmbito da rubrica “Que coisa são as nuvens”, apontava que é fácil “que qualquer cultura ou nação encontre na Biblioteca Apostólica um seu tesouro representado que esse seja um primeiro motivo para cultivar curiosidade, afeto e colaboração científica com este organismo”. E, falando de Portugal, menciona como “um dos documentos portugueses mais icónicos”, o “Cancioneiro da Vaticana” (copiado na Itália no final do século XV ou no início do século XVI), que reúne 1205 composições da lírica trovadoresca galaico-portuguesa (de todos os géneros), “tornando-se assim uma das fontes essenciais que documentam a emergência da nossa língua e literatura”. Depois, menciona, no quadro da literatura científica ligada a Portugal, o caso clamoroso do “Regimento do astrolábio e do quadrante”, “o mais antigo opúsculo conhecido e impresso com regras náuticas, por onde gerações de pilotos se iniciaram nas ciências da cosmografia e navegação e que teve uma edição na oficina de Herman de Campos, nos inícios de 1500”. E frisa:
Há cem anos que a historiografia portuguesa, partindo da descoberta que Joaquim Bensaúde fez na Biblioteca estatal de Munique fala apenas desse exemplar e de uma outra versão depositada na Biblioteca Municipal de Évora, desconhecendo o exemplar, em excelente estado de conservação, que se encontra na Vaticana”.               
E formula uma esperançosa hipótese:  
“Quem sabe se uma nova geração de historiadores portugueses se interessará, com o afinco e os meios necessários, em trabalhar os fundos da Biblioteca Apostólica e do Arquivo Secreto, tão decisivos para a explicação de Portugal”. 
***
Voltando à entrevista, diz que sente “grande alegria quando lá vão portugueses”. E, se lá vai um escritor, faz questão de lhe mostrar “o nosso cancioneiro do Vaticano” e comenta:
É maravilhoso ver a profunda emoção ao perceber como este interesse pelo humano e a ligação que a cultura permite, que é uma ligação que toca até á alma, está bem patente na Biblioteca Apostólica do Vaticano”.
Um antigo colaborador, já reformado, confessou-lhe:
Penso sobretudo que a Biblioteca é um cartão de visita ótimo do que é o Cristianismo ou do que é a Igreja, para um ateu ou para um não crente, porque ele entra aqui e fica em sentido, fica em alerta e cheio de perguntas”.
Ali fica-se “a pensar sobre o que é o Cristianismo ou a Igreja”. A Biblioteca “é um projeto tão grandioso e tocante, tão amplo e abrangente que não deixa ninguém indiferente”.
***
A Biblioteca (hoje existente) mais antiga da Europa (não a primeira biblioteca papal) construiu-se ao longo do tempo, com muitas doações. E os Papas são os grandes benfeitores da Biblioteca que é deles. “Foi o Papa Nicolau V (1447-11455) que ofereceu os 150 volumes iniciais” e a instalou a Biblioteca no Palácio dos Papas (Sisto V transferiu-a para o Salão Sistino no final do século XVI). Agora são 1 600 000 volumes impressos, a partir da aquisição de “vários fundos de família, fundos célebres, como da rainha Cristina da Suécia” (E “hoje continuamos a acolher” – diz o Arcebispo). E tem mais de 180 mil volumes de manuscritos e arquivos, 8,6 mil incunábulos, 300 mil moedas e medalhas, 150 mil gravuras e desenhos e 150 mil fotografias. (Os arquivos secretos do Vaticano foram separados da Biblioteca no início do século XVII). Os muitos volumes mostram o interesse, nos vários pontificados, por todos os saberes e todos os Papas têm contribuído para o aumento do património da Biblioteca. E José Tolentino fala sobre os livros que tem recebido de Francisco:
Ele tem oferecido coisas muito pessoais, como livros de etnologia da América Latina, da Argentina, coisas linguísticas que são muito preciosas para aquela zona do mundo de onde provém o Santo Padre. Depois, também livros que o apaixonam. Ele até contou isso na viagem para a JMJ no Panamá: antes de partir, tinha enviado uns livros preciosos sobre Santo António de Pádua e eu, na resposta à oferta, disse ‘agradeço muito, Santidade, os livros de Santo António de Pádua e Lisboa’. Para dizer como os livros que ele oferece é aquilo que ele considera como o mais precioso que pode estar na sua Biblioteca, refletindo muito os encontros que ele tem, aquilo que as pessoas sabem que é o gosto dele, o que tem mais a ver com o carisma dele.”.
Porém, a maior oferta foi a visita do Papa ao espaço, foi a primeira visita de Francisco ao seu Arquivo, à sua Biblioteca. E diz Dom José Tolentino:
Foi um momento de grande comoção para todos nós, que ali trabalhamos. Preparamos uma série de objetos, andamos pelos espaços, mostramos algumas coisas do tesouro da Biblioteca, uma das quais as moedas que aparecem citadas nos Evangelhos. Ele deteve-se, especialmente, sobre duas pequeninas moedinhas, aquelas [de] que se diz que a viúva pobre ofereceu tudo quanto tinha ao tesouro do Templo. Jesus disse que ela ofereceu mais do que todos os outros.”.
E o Papa, amante dos livros como qualquer habitante de Buenos Aires, disse “que nós, ali, apesar de sermos uma biblioteca patrimonial, onde a dimensão do passado e da memória está muito presente”, temos de ali “em cada dia frequentar o futuro”. De facto, “a Biblioteca tem de estar ligada ao futuro do Cristianismo”.
Também o Papa emérito, “homem dos livros, do estudo, da racionalidade”, queria ser bibliotecário da Biblioteca Apostólica – assim o pediu, quando era Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé a São João Paulo II –, mas não o foi, foi Papa.
O bibliotecário e arquivista da Santa Sé tem “dois governos, o da Biblioteca e o do Arquivo Secreto, que são duas equipas, integrando ambas com cada prefeito e vice-prefeito”. Em cada semana, há uma manhã dedicada ao governo da Biblioteca e do Arquivo, onde se passam em revista os principais projetos, as questões, a agenda da semana, o que é preciso fazer, as programações. E o bibliotecário tem o gabinete próprio, donde vai acompanhando todas as questões internas que se põem à instituição. Há um trabalho de ligação da Biblioteca à Cúria Romana, à Secretaria de Estado, ao Santo Padre e ao exterior. E o Arcebispo dá um exemplo:
Só em 2019, a Biblioteca emprestou muitos dos seus manuscritos, volumes, para dezenas de exposições no mundo. Até chegar a isso, tudo começa com um encontro com o embaixador dessa nação, ou seja, todas as semanas um dos meus trabalhos é receber um embaixador, perceber a natureza dos projetos, começá-los, acompanhar esse interesse – muitas vezes, suscitar, aprofundar o interesse pelo nosso mundo –, dar a conhecer a Biblioteca Apostólica, para que ela seja verdadeiramente um serviço da Igreja Católica, naquele lugar, aos milhares de estudiosos que, por ano, vão ali estudar, mas também àquelas pessoas que nunca entraram na Biblioteca Apostólica e que vão ver um volume, numa exposição, nos seus países.”.
Sobre as afinidades dos dois espaços – Biblioteca e Arquivo – Dom Tolentino explica:
De um lado, temos livros; do outro, documentos. De um lado, temos uma amplitude maior de estudiosos (um cientista pode interessar-se por livros da Biblioteca Apostólica, mas também um filólogo, alguém da literatura, um arquiteto: são pessoas muito diferentes), no Arquivo, não quer dizer que não haja pessoas a fazer pesquisas a partir de outros pontos de vista, mas temos prevalentemente o nível da história e da escrita da história.”.
Quanto ao Arquivo Secreto, o arquivista não é parco em enaltecer-lhe o papel, a ponto de reconhecer que, sem ele, é impossível, por exemplo, compreender “a aventura da modernidade”, em particular a história da Europa, embora o Arquivo tenha muitas coisas da Idade Média. E o chefe do Arquivo explicita:  
Enquanto, muitas vezes, as nações nem sequer têm embaixadores em todos os países, ou o percurso dos embaixadores fica muito dependente dos ciclos políticos, a Santa Sé mantém uma continuidade com os núncios, por exemplo, muito marcada. Isso quer dizer que nós temos uma documentação, um olhar muito constante, muito homogéneo ao longo dos séculos. E temos recolhas fabulosas de informação, que são uma chave fundamental para a história, para entender não só o passado, mas também o presente.”.
***
Questão atualíssima é a referente à decisão de Francisco decidiu abrir os arquivos relativos ao pontificado de Pio XII (1939-1958) para esclarecer o papel da Igreja Católica durante a II Guerra Mundial, sobretudo na relação com os judeus. José Tolentino esclarece que “o Arquivo organiza a sua abertura, não por anos, mas por pontificados”. Assim, a abertura destes arquivos será em março de 2020 – sobre um longo pontificado, num período crucial da história contemporânea.
Efetivamente, “um momento central é o da II Guerra Mundial, da perseguição aos judeus”, mas várias questões, como a preparação do Concílio (1961-1965) – que surgirá no pontificado de São João XXIII –, “o clima, a relação com a teologia, a aspiração das várias Igrejas”, aparecem já no pontificado de Pio XII, pontificado muito rico, nomeadamente para Portugal, e interessante também pela questão de Fátima, pela questão do regime político e por aquilo que se vivia nas várias dioceses. E a abertura muito esperada do arquivo atrairá, na certa, muitos historiadores.
No atinente às acusações de que Pio XII é alvo e se a abertura do Arquivo mostrará não terem fundamento as acusações, nomeadamente a de falta de proteção aos judeus, o arquivista explica:
A nossa posição, no Arquivo, é abrir os documentos. Foram 13 anos de trabalho, eu cheguei há meses, mas existe uma larga equipa a trabalhar todos os documentos. Eles serão abertos, tornados acessíveis, as pessoas poderão ler e tirar as suas conclusões.”.
Não obstante, adianta:
Há notas muito impressionantes, que são algumas já conhecidas, mas que ali ganham uma ligação documental muito forte. Duas delas, para referir: uma, a grande ajuda do Papa e da Santa Sé aos prisioneiros de guerra, é um trabalho incrível. No Arquivo Secreto temos uma quantidade de documentação verdadeiramente extraordinária.”.
A seguir, destaca “a dimensão da caridade de Pio XII”, sendo “verdadeiramente assombroso” o seu perfil neste capítulo. E José Tolentino explana:
Das milhares e milhares e milhares de pessoas que escreviam ao Papa, a pedir uma ajuda, uma ajuda material, não houve nenhuma que não fosse atendida. E o registo desse trabalho, muitas vezes silencioso, que, se calhar, o grande público não sabia, porque é uma relação pessoal, que se estabelece com o Papa, é uma coisa verdadeiramente impressionante.”.
Com razão diz o Papa Francisco que “a Igreja não tem medo da história”. E é esta atitude que levou Francisco a decidir abrir o pontificado de Pio XII, porque “não tem medo da história e temos submeter-nos também, com humildade, ao juízo da própria história”.
***
Questionado por sustentar, numa conferência em Lisboa, que uma biblioteca é uma “farmácia da alma”, asserção aplicada à Biblioteca Apostólica, responde com a tradição egípcia:  
Quando os faraós abriam bibliotecas nas partes mais remotas do reino, colocavam no pórtico da biblioteca essa bela frase: ‘Farmácia da alma’. Uma biblioteca é, de facto, uma farmácia da alma: por um lado, porque uma biblioteca com a dimensão da Biblioteca Apostólica dá-nos uma noção da história. Às vezes, nós pensamos que um problema ou uma questão é apenas do presente e lidamos com isso com o dramatismo de ser um caso único, mas uma biblioteca dá-nos uma profundidade de olhar, mesmo em relação à história da Igreja.”.
Depois, a Biblioteca Vaticana tem uma enorme amplitude. E o Arcebispo Tolentino explana:
O Cristianismo (…) interessa-se por tudo aquilo que é humano, é uma polifonia, não é uma monodia. Nós temos ali uma diversidade polifónica, de vozes, de estilos, de endereços, de correspondências, que acaba por ser uma grande riqueza.”.
Contra o drama da Igreja do pecado da autorreferencialidade da Igreja, denunciado pelo Papa, a Biblioteca “recentra a Igreja na sua missão fundamental” de serviço, em nome de Deus, “à pessoa humana”. E a vontade de servir a humanidade “está ali bem patente”.
***
Encarando o serviço da Biblioteca e do Arquivo como serviço de colaboração com o Papa, o Arcebispo diz que o trabalho do bibliotecário é colocar este tesouro, este património “em sintonia com as linhas-mestras deste pontificado” e porfia, à semelhança do mister colaborante dos outros serviços da Cúria Romana:
Nós queremos fazê-lo ali, também de forma humilde, na Biblioteca e no Arquivo, colocando-os como expressão daquilo que é o desígnio e o programa deste pontificado, que tem sido uma verdadeira primavera para a Igreja”.
Anuindo à opinião de Paulo Rocha, o entrevistador, de que tudo ocorre a partir do perfil tolentino “de diálogo com outros saberes, de pontes com outras culturas…”, assegura que “na Biblioteca é muito difícil ter outro perfil”, pois ela, “por sua natureza, é dialógica, é um lugar de diálogos” e “o trabalho de política cultural é suscitar encontros”. Depois, confessa:
Para mim, são águas que me são muito familiares, de certa forma a minha vida preparou-me para este desafio, muito inesperado, muito surpreendente, que o Papa Francisco me colocou. Sinto também que estou a aprender muito, neste lugar, que também me desafia muito, me inspira a ir mais longe.”.
Por fim, sente-se completamente ao serviço do Papa, dado que a Biblioteca e o Arquivo são dele. E, no espírito das duas comunidades que trabalham diariamente naquelas instituições, há o serviço de colaboração com o Pontífice, o que dá um sentido à missão destes trabalhadores, “que não teria se fosse só um projeto individual”: estão “todos juntos a colaborar para que o Papa possa governar a Igreja e ser a figura de Pedro, hoje”.
***
Resta que os historiadores e outros homens da ciência pesquisem e produzam conhecimento.
2019.05.27 – Louro de Carvalho

segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Deve rever-se a forma como Gil Vicente é mostrado nos dias de hoje

A edição de hoje, dia 15, do JN noticia que José Augusto Cardoso Bernardes – professor catedrático na Faculdade de Letras de Coimbra, membro integrado do Centro de Literatura Portuguesa, membro do Atomium Culture (desde 2009), Diretor da Biblioteca Geral da Universidade de Coimbra (desde 2011), membro do Conselho Nacional de Educação (desde 2011) e consultor para o ‘Programa Língua Portuguesa’ da Fundação Calouste Gulbenkian (desde (2013) – vem ao Porto proferir uma palestra sobre a obra de Gil Vicente.
Como janeiro é o mês de Gil Vicente no Teatro Nacional São João, até ao próximo domingo, dia 21, a obra vicentina está realçada na Cidade por meio de peças de teatro, leituras, oficinas e uma conferência.
O título da conferência que o renomado especialista vicentino vai concretizar hoje, segunda-feira, às 21 horas no Teatro Carlos Alberto é “Gil Vicente no seu tempo e no nosso tempo”. Para já, de acordo com uma entrevista que o professor deu ao Jornal de Notícias, sabemos que, em sua opinião, a reaproximação popular à obra de Gil Vicente só poderá acontecer com o regresso das suas peças aos palcos, novas edições – “rigorosas, sistemáticas e acessíveis” – e uma reformulação do ensino.
A aludida entrevista antecipa algumas das asserções constantes da conferência. Por isso, aqui ficam algumas linhas, necessariamente fragmentárias.
***
Começa por assentir que se alimenta a ideia de que “um autor clássico mantém por norma a sua atualidade intacta”, o que, de certo modo, se aplica ao célebre dramaturgo. Mas avisa:
Por vezes, na Escola costumamos acentuar o caráter de quase adivinhação que distinguiria as grandes obras. Mas existe algo de demagógico nessa crença. Só em parte se pode dizer que a atualidade transita de umas épocas para as outras. O maior desafio que um artista enfrenta é o de corresponder aos desafios do seu próprio tempo. Perscrutar o mundo, identificando as grandes questões que o habitam em cada circunstância não é coisa pouca.”.
Com efeito, tem de entender-se, do meu ponto de vista, que um autor só conseguirá mérito como tal se conseguir penetrar nas grandes linhas problemáticas do seu tempo, mesmo que, por motivos táticos e até de fidelização ao património histórico da civilização, tenha de conferir à sua produção literária uma roupagem de tempos passado ou de premonição de tempos futuros. De facto, o presente não se entende só por si.
Quanto às asserções acima enunciadas, o especialista dá um exemplo aplicável a Vicente, o da Justiça como “um dos temas mais recorrentes nos seus autos”. Ora, tal não quer dizer que o dramaturgo tenha antecipado a relevância que a Justiça havia de vir a ter nas sociedades democráticas dos séculos XX e XXI. Simplesmente, a ordem por ele defendida e proclamada nos reinados de Dom Manuel e de Dom João III “requeria uma Justiça forte e impoluta”, pelo que o pioneiro criador de teatro e diretor de atores se empenhou “em denunciar a venalidade dos magistrados”. Tanto assim é que a sua última peça – “Floresta de enganos” – evidencia ainda a existência de um juiz corrompido.
Isto não significará que não se possa, mercê da intemporalidade da condição e do drama humanos, fazer a aproximação acomodatícia entre as realidades daquele tempo e as de hoje no que apresentam de similar, mas sem confundir as coisas e acentuando as diferenças. Assim, podemos notar claramente, por exemplo, no “Auto da Barca do Inferno”, o realce emprestado a um procurador e a um corregedor que vão parar ao Inferno pela enviesada promoção e administração da Justiça, ou a um onzeneiro (usurário ou agiota) que lá foi parar por ter enriquecido ilicitamente a emprestar dinheiro a altos juros. Ora, no lugar destes, poderemos ver agentes da justiça ou banqueiros do nosso tempo. Porém, tal não pressupõe que Gil Vicente tenha antecipado algum dos megaprocessos de hoje. Quer apenas dizer que, há quinhentos anos, já “o dramaturgo identificou a Justiça como base essencial para o funcionamento das sociedades humanas”, sendo este “um dos muitos desafios do seu tempo que, desde então, nunca mais deixou de nos interpelar”.
***
Sendo assim, é natural que “um homem tão firmemente enraizado no seu tempo”, como foi Gil Vicente, assim espelhado naquilo que escreveu (conteúdo e forma), que a sua obra suscite potencialmente um enorme grau de interesse, tantos séculos depois.
Diz o entrevistado que “devemos alimentar a curiosidade por épocas diferentes daquela em que vivemos”, pois “o passado nunca está verdadeiramente passado”. Ao invés (e confirma-se o que acima afirmei), “cada época cria a necessidade de uma memória que vamos mantendo e renovando”. No entanto, em Gil Vicente, é preciso ter em conta “um fator especial”: “a sua voz vem do século XVI e os portugueses gostam (e precisam) da ampla e minuciosa ‘reportagem’ que ele lhes oferece desse tempo mítico”. Com efeito, a memória coletiva vive em muito boa parte de mitos, heróis e tempos de grandiosidade tidos como arquétipos do hoje que ora nos satisfaz ora nos insatisfaz.
Não importa muito “conhecer os acidentes particulares que encontram eco no teatro vicentino”. Até “é possível que, por exemplo, o fidalgo Dom Anrique ou o frade”, do “Auto da Barca do Inferno” se inspirem “em modelos reais, hoje desconhecidos”. Porém, para lá de tais “referências concretas, sobressai o teatro das atitudes e dos valores”. De facto, é importante conhecer o modo de ser e de estar “próprios de um período que, porventura mais do que qualquer outro, condicionou a nossa identidade”. Na verdade, “de uma maneira ou de outra, os portugueses gostam especialmente de espreitar o que se passa no primeiro terço do século XVI” – o tempo da expansão e da grandiosidade mítica do país com algum lastro real que ficou para a História a iluminar o devir do povo.
***
Reconhece a dificuldade em aproximar os espectadores de hoje da arte de Gil Vicente, desde logo em ambiente escolar. O texto vicentino (e o texto literário, em geral) “requer esforço de leitura e de atenção para o qual os jovens não estão naturalmente disponíveis”. Hoje estamos rodeados de “solicitações bem mais imediatas, mesmo no plano literário e artístico”. Ora, não podendo “sustentar a ideia de acessibilidade (a linguagem dos autos pode parecer muito afastada da capacidade de reconhecimento dos alunos), resta tentar a demonstração de que “essa aproximação vale a pena”. E o entrevistado justifica:
“São muitos os ganhos que o espectador comum pode extrair em contacto com uma peça como o ‘Auto da Barca do Inferno’ ou o ‘Auto da Alma’, por exemplo. São ganhos de alteridade, quase sempre, ou seja, são ganhos de quem encontra e fica a conhecer situações, aspirações e valores diferentes daqueles que encontra no seu quotidiano. Não têm que ser tomados como exemplo mas podem ser apreciados pela diferença e isso é precioso.”.
Constata-se que, em geral, “os portugueses conhecem Gil Vicente na Escola” e quase não voltam a encontrá-lo. “É muito menos representado do que deveria ser”. E “as companhias que correm riscos e procuram levar Gil Vicente aos palcos com honestidade e criatividade cumprem uma missão patrimonial e deveriam beneficiar de algum tipo de apoio do Estado”. Contudo, há boas exceções, como “o caso concreto do Centro Dramático de Évora e da Escola da Noite (de Coimbra), companhias que têm (uma e outra) com Gil Vicente uma convivência bem sucedida, de muitos anos”. Arriscaram “conjugar recursos para levar a Barca do Inferno em digressão nacional”.
Tendo em conta que “é sempre desejável que haja surpresa” e que “um adolescente de 15 anos só muito parcialmente pode gostar” de Gil Vicente (e Camões) e compreendê-los, Cardoso Bernardes sustenta a importância de as aulas de Português não procurarem “ser exaustivas”, pois, “quando se lida com Arte, a busca da exaustividade não é um bem”, sendo “sempre preferível deixar nos alunos margem para descobertas posteriores”.
***
Sobre as obscuridades que impendem sobre a personalidade de Gil Vicente, o especialista opina que este desconhecimento revela, “antes de mais, que o dramaturgo não era uma pessoa especialmente importante”. Sabe-se que servia o Rei “com uma independência que ainda hoje nos surpreende”. Porém, diz que “o seu estatuto social não seria muito elevado”.
Como “o século XIX não se conformou com esse desconhecimento”, “procurou supri-lo, recorrendo a especulações e fantasias”. E aponta como “a mais conhecida dessas especulações” a da pretensa coincidência numa só pessoa do dramaturgo “que compôs e encenou cerca de 50 peças (em 35 anos) e o ourives que concebeu a célebre Custódia de Belém, entre outras peças de execução particularmente exigente”. Assegura que “não existe nenhum indicador seguro de que essa tese seja verdadeira”.
Explica o diminuto interesse de hoje pela biografia de Gil Vicente com o facto de muito provavelmente ter vivido “uma vida comezinha”, não tendo sido, “pelo menos, um amador arrebatado e aventuroso como Camões”.
***
A paixão de Cardoso Bernardes pela obra vicentina é por si explicada do seguinte modo:
Conjugaram-se dois fatores: queria trabalhar na literatura do século XVI e gosto simultaneamente de literatura e de teatro. A escolha de Gil Vicente surgiu assim de forma natural. Havia uma dificuldade maior, devo reconhecê-lo. Logo a seguir a Camões, Gil Vicente é, ainda hoje, o autor que mais bibliografia crítica inspirou: em Portugal sobretudo; mas também em Espanha, Brasil, França, Reino Unido e Estados Unidos. Dizer alguma coisa de novo (e a inovação é necessária quando se trata de investigação académica) implicava, pois, um longo e cuidado exame do que se tinha já escrito. Em contraponto, havia e há um estímulo muito forte. A obra de Gil Vicente é vastíssima e diversa. Nessa medida, o seu estudo nunca pode dar-se por terminado. As perguntas que hoje temos para fazer à Compilação são novas porque, em boa parte, a nossa curiosidade se renova em cada época.”.
Revelou ter coordenado, em parceria com José Camões, “excelente vicentista e responsável pela melhor e mais recente edição da obra completa do dramaturgo”, um Compêndio de Gil Vicente, que deverá ser publicado ainda este ano: “uma obra extensa e abrangente, que conta com a participação de cerca de duas dezenas de investigadores de diferentes nacionalidades. E disse que os dois tencionam publicar, em 2019, uma edição conjunta das três Barcas, como “excelente forma de assinalar os cinco séculos de representação desse conjunto peças, que Gil Vicente fez representar sequencialmente na corte de Dom Manuel, entre 1517 e 1519”.
***
Interpelado sobre o aspeto da obra vicentina em que mais se nota a falta de estudos, diz:
A obra de Gil Vicente nunca pode ser dada por satisfatoriamente estudada. Durante muitos anos, predominou largamente a perspetiva literária. Só muito recentemente os estudos teatrais começaram a aproximar-se do autor. São ainda muito incipientes os estudos de que dispomos sobre a vertente cénica e performativa que pode ser reconstituída a partir dos textos e de outros elementos de pesquisa. Mas também se sente a falta de estudos em domínios específicos como a afinidade de Gil Vicente com a tradição do teatro europeu, a substância teológica que se reveste de importância tão marcante nas moralidades, por exemplo.”.
E à questão se é lícito considerar Gil Vicente um autor genuinamente português ou se será acima de tudo ibérico, replica com segurança que o dramaturgo “é um escritor e um homem de teatro português”. Todavia, entende que “esta caraterização não deve ser entendida em sentido restrito” já que “ele é também um grande intérprete da tradição lírica e teatral da Península Ibérica, estando mesmo, de algum modo, na génese da fantástica produção que assinala o teatro barroco espanhol (Lope de Vega e Calderón de la Barca)”. E mais: “Gil Vicente é, por direito próprio, um nome destacado da história do teatro ocidental”, pois que se situa “na linha dos modelos medievais e é, nesse plano, o dramaturgo mais coeso que essa tradição produziu”.
***
Por fim, tem opinião sobre o que poderia ser feito para que a obra de Gil Vicente chegasse a ainda mais leitores.
Nesta ordem de ideias, distingue três necessidades: “o ensino, as edições e os palcos”. No âmbito do ensino, considera “necessário rever a forma como Gil Vicente é apresentado aos alunos do 9.º ano, pondo em primeiro plano a promoção da “criatividade fundamentada”, até porque já “existem boas práticas a este respeito, mas não existe maneira fácil de as divulgar”. Depois, vem “a necessidade de editar Gil Vicente de forma sistemática, rigorosa e acessível (com textos bem fixados e bem anotados, sobretudo)”, como “sucede em Espanha, a propósito de autores de grandeza equivalente”. Por fim (mas não menos importante), “é necessário assegurar a presença assídua de Gil Vicente nos palcos portugueses, em registo de qualidade artística”.
É certo que se trata de “empreendimentos não lucrativos”, mas entende que “o Estado existe também para zelar pelo nosso património, permitindo que ele permaneça vivo e possa ser dado a conhecer às diferentes gerações”.
***
Complementarmente e porque Cardoso Bernardes não se refere a este tipo de produção brasileira sobre o dramaturgo, refiro o conjunto de obras editadas e comentadas por Noêmio Ramos, que, além da análise e da crítica interna, dão a perspetiva da interligação de Gil Vicente com autores e outros homens de relevo, seus contemporâneos, e com célebres pensadores da Antiguidade: Gil Vicente – O Velho da Horta (motivações ideológicas das obras de Erasmo presentes neste e em outros Autos); Gil Vicente – Auto da Visitação (com a apresentação das metodologias de análise das Obras de Gil Vicente e dos usos e costumes ligados ao tema); Auto da Alma, Erasmo, o Enriquirídion e Júlio II (com a interpenetração com os pensadores e líderes da Europa de então); Gil Vicente – Carta de Santarém, 1531 (com o significado, intenções e motivações do texto, relação com outros autos e ligação com as políticas europeias); e Gil Vicente e Platão – Arte e Dialéctica (com a dialética e o conceito de Arte e de Belo em Platão e a Arte Dramática de Gil Vicente).
***
E, sim, temos no dramaturgo um homem bem mais erudito e culto do que os autos deixam transparecer. Vale a pena voltar a Gil Vicente, para fruição e conhecimento.

2018.01.15 – Louro de Carvalho

sábado, 6 de janeiro de 2018

Procura, indiferença e medo ou olhar ao Alto, caminhar e oferecer!

Hoje, 6 de janeiro, o Papa Francisco, abordou o mistério da Solenidade da Epifania do Senhor na homilia da Missa e por ocasião da recitação do Angelus e apresentou o outro lado misterioso do Natal e as atitudes que os crentes devem apresentar, cultivar e desenvolver ante o mistério do Deus encarnado e exposto aos homens.
Entretanto, é de lembrar o sentido literal e originário da solenidade. A Epifania do Senhor (do grego: Ἐπιφάνεια: aparição; fenómeno miraculoso) ou Teofania (do grego: Θεοφάνια: manifestação de Deus) é a festividade cristã que assinala a manifestação de Jesus Cristo como o Deus Emanuel (Deus-connosco), ou seja, Cristo como Deus encarnado, feito homem ou tornado visível.
No cristianismo ocidental, a festividade recorda primariamente a visita dos magos (como vem narrado em  Mt 2,1-12), enquanto no Oriente evoca o Batismo de Jesus. A data tradicional da Epifania é a de 6 de janeiro, mas, quanto à Igreja Latina, desde a reforma do Calendário Romano em 1969, é possível que a solenidade seja transferida para um domingo, o que acontece no caso português, que se celebra no domingo que ocorra entre 2 e 8 de janeiro (este ano, a 7 de janeiro); e, quanto à Igreja Ortodoxa e à Igreja Católica Oriental, o uso do calendário juliano antigo por algumas jurisdições faz com que a solenidade seja transferida para o dia 19 de janeiro, sendo amanhã, dia 7, ali festejado o Natal.
A Epifania é relacionada com o momento da manifestação de Jesus Cristo como o enviado de Deus, quando o mesmo se autoconclama filho do Criador. Na narração bíblica, Jesus deu-se a conhecer a diferentes pessoas e em diferentes momentos. Porém, o mundo cristão ocidental celebra como epifania três eventos: a Epifania propriamente dita perante os magos do Oriente e que é celebrada no dia 6 de janeiro ou, como foi referido, no domingo entre 2 e 8 de janeiro; a Epifania a João Batista no Jordão durante o Batismo de Jesus; e a Epifania aos seus discípulos e início da sua vida pública com o milagre de Caná, quando começa o seu ministério.
Assim, a solenidade da Epifania do Senhor, celebra a tríplice manifestação do nosso grande Deus e Senhor, Jesus Cristo: em Belém, o Menino Jesus foi adorado pelos magos (cf Mt 2,11); no Jordão, Jesus, já adulto, foi batizado por João Baptista, ungido pelo Espírito Santo e chamado Filho de Deus Pai (cf Mt 3,13-17; Mc 1,9-11; Lc 3,21-22; Jo 1,29-34); em Caná da Galileia, numa festa de núpcias, transformando a água em vinho, Jesus manifestou a sua glória (cf Jo 2,1-11).
***
Antes da recitação do Angelus perante a multidão reunida na Praça de São Pedro, o Papa soube anotar três atitudes com que foi acolhida a vinda de Jesus e a sua manifestação ao mundo.
O Natal aconteceu em lugar inóspito, porque não havia lugar para o Senhor e seus pais na cidade, mas os anjos vêm cantar a glória de Deus e a paz para os homens e anunciam a alegria do mistério aos pastores que se apressam a correr a Belém, ficando contentes por tudo ter acontecido como lhes fora dito pelo anjo. Abandono, alegria, procura, contemplação. Porém, na Epifania sentida pelos magos, as coisas sucedem um pouco na inversa: a procura e procura pressurosa; a indiferença; e o medo.
Quando veem a estrela do Rei dos Judeus, os magos não hesitam em pôr-se a caminho na procura do Messias. Este é o primeiro apontamento de Francisco. Chegados a Jerusalém, após “uma longa viagem”, dirigem-se a Herodes a perguntar onde nasceu o Rei dos Judeus, porque viram despontar a sua estrela e vieram adorá-lo.
A esta procura pressurosa responde a indiferença. Herodes convocou os sacerdotes e escribas para se informar sobre o lugar onde deveria nascer o Messias. Estes zelosos guardas da Lei e do culto – diz o Papa – estavam mui comodamente instalados, conheciam as Escrituras e estavam em condições de fornecer a resposta adequada (“Em Belém da Judeia, porque assim está escrito pela mão do profeta”). Sabem-no, mas não se desinstalam para irem à procura do Messias, quando Belém fica a poucos estádios de Jerusalém. Mais negativa, porém, é a postura de Herodes: o medo. É o medo de que o recém-nascido o desaloje do poder. E o medo gera nele a hipocrisia, o disfarce:
Ide e informai-vos cuidadosamente acerca do menino; e, depois de o encontrardes, vinde comunicar-mo para eu ir também prestar-lhe homenagem” (Mt 2,8).
Na verdade, Herodes queria saber onde se encontrava o menino, não para o adorar, mas para o eliminar. O assassinato pode ser um terrível fruto do medo, do medo de perder posição, poder, riqueza. O menino constituía para Herodes um rival. E o Papa adverte:
O medo comporta sempre hipocrisia. Os hipócritas são assim, porque têm medo no coração.”.
Perante as posturas encontradas no Evangelho – procura pressurosa, indiferença e medo – colocam-se a cada crente questões existenciais que mexem com a pessoa. Pode um crente procurar pressurosamente Jesus. Mas, como não O sente e não vislumbra resposta dele, pode cair na tranquilidade da indiferença ou na indiferença da tranquilidade. Pode ter medo de Jesus no coração e tentar expulsá-lo da vida… Com efeito, como refere o Pontífice, o egoísmo pode induzir a consideração da entrada de Jesus na nossa vida como uma ameaça. Quando se erigem “as ambições humanas”, “as perspetivas mais cómodas”, “as inclinações para o mal, Jesus é tido como “um obstáculo” e tenta-se suprimi-lo ou fazer calar a sua mensagem.
Por outro lado, é de ter em conta que nos persegue sempre a tentação da indiferença, pois, como refere o Papa Francisco, sabendo-se que Jesus é o Salvador de todos nós, prefere-se viver como se não o fosse e, em vez de nos comportarmos em coerência com a fé cristã, seguimos os critérios do mundo que levam à prepotência, à sede de poder e às riquezas. Porém, adverte:
Somos chamados a seguir o exemplo dos magos: ser pressurosos na procura, prontos para o esforço por encontrar Jesus na nossa vida. Procurá-Lo, para O adorar, para reconhecer que Ele é nosso Senhor, ele que indica a verdadeira vida a seguir. Se temos esta postura, Jesus realmente nos salva e podemos viver uma vida bela, podemos crescer na fé, na esperança, na caridade para com Deus e para com os nossos irmãos.”.
No término da sua alocução mariana, o Santo Padre invocou a Mãe de Jesus e nossa Mãe, “estrela da humanidade peregrina” para que, com a sua intercessão, possamos encontrar Cristo, “Luz da Verdade”, a fim de progredirmos no caminho da justiça e da paz.
***
Na homilia da Santa Missa, Francisco entendeu que “o nosso percurso ao encontro do Senhor, que hoje Se manifesta como luz e salvação para todos os povos, é elucidado por três gestos dos magos”, os quais “veem a estrelapõem-se a caminho oferecem presentes”.
Segundo o Pontífice, “ver a estrela” constitui “o ponto de partida”. E só os magos a viram, porque, talvez como poucos, “levantaram o olhar para o céu”. Muitas vezes, na vida, “contentamo-nos com olhar para a terra”. Basta-nos “a saúde, algum dinheiro e um pouco de divertimento”. E o Papa interroga-se e interpela-nos:
Sabemos nós ainda levantar os olhos para o céu? Sabemos sonhar, anelar por Deus, esperar a sua novidade, ou deixamo-nos levar pela vida como um ramo seco pelo vento?”.
Com os magos, que “não se contentaram com deixar correr, flutuando”, mas “intuíram que, para viver de verdade”, aprendemos que é necessária “uma meta alta” e que “é preciso manter alto o olhar”. Mas poderíamos e deveríamos interrogar-nos:
Porque é que muitos outros, dentre aqueles que levantavam o olhar para o céu, não seguiram aquela estrela, ‘a sua estrela’ (Mt 2,2)?”.
E Francisco tem a resposta:
Talvez porque não era uma estrela deslumbrante, que brilhasse mais do que as outras. Era uma estrela que os magos viram – diz o Evangelho – ‘despontar’ (cf Mt 2,2.9). A estrela de Jesus não encandeia, não atordoa, mas gentilmente convida. Podemos perguntar-nos pela estrela que escolhemos na vida. Há estrelas deslumbrantes, que suscitam fortes emoções, mas não indicam o caminho. Tal é o sucesso, o dinheiro, a carreira, as honras, os prazeres procurados como objetivo da existência. Não passam de meteoritos: brilham por um pouco, mas depressa caem e o seu esplendor desaparece.”.
Não é assim a estrela do Senhor. Se nem sempre é fulgurante, contudo não é uma estrela cadente, perecível; está sempre presente e, na sua meiguice, guia e acompanha. Não prometendo recompensas materiais, garante a paz, dá enorme alegria (cf Mt 2,10) e incita a caminhar.
E caminhar “é essencial para encontrar Jesus”. Mas implica “a decisão de se pôr a caminho”, o que origina a fadiga de todos os dias, em que a pessoa tem de “se libertar de pesos inúteis e sumptuosidades embaraçantes, que estorvam, e aceitar os imprevistos que não aparecem assinalados no mapa da vida tranquila”. No entanto, o Papa sublinha a maravilha esforçada:
Jesus deixa-Se encontrar por quem O busca, mas, para O buscar, é preciso mover-se, sair. Não ficar à espera; arriscar. Não ficar parados; avançar. Jesus é exigente: a quem O busca, propõe-lhe deixar as poltronas das comodidades mundanas e os torpores sonolentos das suas lareiras. Seguir a Jesus não é um polido protocolo a respeitar, mas um êxodo a viver. Deus, que libertou o seu povo mediante o trajeto do êxodo e chamou novos povos para seguir a sua estrela, dá a liberdade e distribui a alegria, sempre e só, em caminho.”.
Na verdade, “para encontrar Jesus”, tem de se “perder o medo de entrar em jogo”, desvalorizar “a satisfação do caminho andado”, vencer “a preguiça de não pedir mais nada à vida”. Enfim, “encontrar aquele Menino” e “descobrir a sua ternura e o seu amor” é encontrarmo-nos a nós mesmos. Mas a decisão de se pôr a caminho não se torna fácil: exige lucidez, coragem, isenção, falta de medo e de hipocrisia; implica reta intenção.
O Papa mostra-nos esta dificuldade através das várias personagens do Evangelho da Epifania.
Herodes, perturbado pelo medo dum rei que venha ameaçar o seu poder, “organiza reuniões e envia outros a recolher informações”, mas ele próprio fica imóvel, fechado no seu palácio. E “toda a Jerusalém” (Mt 2,3), com ele e como ele, “tem medo”, mesmo “das coisas novas de Deus”. Preferem que tudo fique como antes (“fez-se sempre assim”); não se decidem pôr a caminho.
Por sua vez, em posição mais subtil, estão os sacerdotes e escribas: “conhecem o lugar exato e indicam-no a Herodes, citando inclusive a profecia antiga”, mas não dão o passo para Belém.
O Pontífice vê aqui a tentação de quem é crente há muito tempo:
Discorre-se da fé, como de algo que já é conhecido, mas que não se compromete pessoalmente com o Senhor. Fala-se, mas não se reza; lastima-se, mas não se faz o bem.”.
Já os magos, que falam pouco, caminham muito. E, embora desconhecessem “as verdades da fé”, a sua ânsia levou-os a pôr-se a caminho. Os verbos utilizados nesta perícopa evangélica são verbos de postura positiva, de atividade e de movimento: “viemos adorá-lo”, “puseram-se a caminho”, “entraram na casa”, “prostraram-se”, “regressaram”.
Depois das atitudes da perspicácia de ver a estrela e da coragem de se porem a caminho, vem o Oferecer. Efetivamente, como diz o Evangelho, os magos, ao chegarem junto de Jesus, fazem como Ele: “dão”. Jesus oferece a vida: dá-Se. Os magos, vindos do oriente em longa viagem, “oferecem as suas preciosidades: ouro, incenso e mirra”. E diz Francisco, a este propósito:
O Evangelho está cumprido, quando o caminho da vida chega à doação. Dar gratuitamente, por amor do Senhor, sem esperar nada em troca: isto é sinal certo de ter encontrado Jesus, que diz ‘recebestes de graça, dai de graça’ (Mt 10,8). Praticar o bem sem cálculos, mesmo se ninguém no-lo pede, mesmo se não nos faz ganhar nada, mesmo se não nos apetece. Isto é o que Deus deseja. Ele, que Se fez pequenino por nós, pede-nos para oferecermos algo pelos seus irmãos mais pequeninos. E quem são? São precisamente aqueles que não têm com que retribuir, como o necessitado, o faminto, o forasteiro, o preso, o pobre (cf Mt 25,31-46).”.
Como se vê, o Papa Bergoglio não deixa de pôr o acento epifânico nas consequências que a busca, a caminhada e a contemplação do mistério têm na sociedade e nas suas franjas mais deserdadas, nas relações interpessoais, nas estruturas sociais e políticas de pecado:
Oferecer um presente agradável a Jesus é cuidar dum doente, dedicar tempo a uma pessoa difícil, ajudar alguém que não nos inspira, oferecer o perdão a quem nos ofendeu. São presentes gratuitos, não podem faltar na vida cristã; caso contrário, como nos recorda Jesus, amando apenas aqueles que nos amam, fazemos como os pagãos (Mt 5,46-47).”.
E o Papa Francisco não descura o discurso exortativo no sentido de que “olhemos as nossas mãos muitas vezes vazias de amor” e, como compensação e reforço, procuremos “pensar num presente gratuito, sem retribuição, que possamos oferecer”, que seja “agradável ao Senhor”. Depois, é salutar pedir: “Senhor, fazei-me redescobrir a alegria de dar”.
Por fim, vem o apelo a que “façamos como os magos: olhar para o Alto, caminhar e oferecer presentes gratuitamente”.
***
Após a oração do Angelus, Francisco passou a saudar os diversos grupos de fiéis presentes na Praça São Pedro. Antes de tudo, recordou que algumas Igrejas orientais, católicas e ortodoxas, celebram, este domingo, o Natal do Senhor:
A estas Igrejas dirijo as minhas felicitações mais cordiais. Que esta celebração seja fonte de novo vigor espiritual e de comunhão entre todos os cristãos, que reconhecem Jesus como Senhor e Salvador.”.
E exprimiu, em especial, a sua proximidade aos cristãos ortodoxos coptas, saudando o irmão, o Papa de Alexandria Tawadros II, na jubilosa ocasião da consagração da nova Catedral do Cairo.
A seguir, recordou o Dia da Infância Missionária, que se celebra neste sábado (6 de janeiro). E a todas as crianças e adolescentes missionários convidou a dirigir os seus olhares ao Menino Jesus, para que Ele seja a guia preciosa no seu compromisso de oração, fraternidade e partilha entre seus coetâneos mais necessitados.
Por fim, dirigiu aos participantes na manifestação folclórica da XXIII edição de “Viva a Epifania”, promovida pela Associação Famílias Europeias, cujo objetivo é reafirmar e transmitir o verdadeiro significado espiritual e os valores da Epifania do Senhor, bem como o Cortejo dos Magos que se realiza em muitas das cidades da Polónia com larga participação de famílias e associações.
***
Enfim, para encontrar Jesus é preciso entrar em ação. Com efeito,
Deus, que libertou seu povo, por meio do êxodo, e chamou novos povos para seguir a sua estrela, concede a liberdade e a alegria somente a quem está a caminho. Para encontrar Jesus, é preciso entrar em ação, pôr-se a caminho, sempre e sem cessar. Para encontrar o Menino, é preciso arriscar: descobrindo a sua ternura e o seu amor nós nos encontramos”.

2018.01.06 – Louro de Carvalho