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segunda-feira, 16 de setembro de 2019

O preço do petróleo está a disparar nos mercados internacionais



Foi já o quinto ataque com drones às instalações petrolíferas daquela que é a maior companhia petrolífera do mundo, a Saudi Aramco, empresa estatal do reino da Arábia Saudita. Só que, desta vez, os estragos provocados com drones, nas instalações da empresa em Abqaiq e Khurais, foram brutais. Imagens de satélite exibem enormes nuvens de fumo provocadas pelos incêndios de grandes dimensões que deflagraram (essas extensas nuvens de fumo parecem revelar estragos mais significativos do que aqueles que a empresa está a admitir) e que vão obrigar à paragem de boa parte do fornecimento da matéria-prima por parte deste país para todo o mundo. E o mundo vai sentir os efeitos destas explosões através da subida das cotações nos mercados.
Os ataques levados de rebeldes do grupo Houthi (do Iémen, mas com apoio do Irão) comprometeram metade da produção diária de petróleo da Arábia Saudita e 5% de toda a oferta mundial.
De súbito, metade da produção diária de petróleo da Arábia Saudita ficou comprometida, pois o ataque provocou extensos danos, eliminando da oferta do país, que é o maior produtor do mundo, cerca de cinco milhões de barris de petróleo diários, num total de 20 milhões de barris que os produtores da matéria-prima colocam diariamente no mercado, de forma a dar resposta à procura global pelo “ouro negro”. Entretanto, a Saudi Aramco está a tentar restabelecer a produção, o que poderá demorar bastante tempo.
É um rombo que a Arábia Saudita procura suprir ao admitir enviar para o mercado o equivalente da produção diária das suas reservas da matéria-prima, o que poderá responder à quebra com as reservas que detém tanto no reino como no Egito, no Japão e até na Holanda, mas que pode não chegar. Daí que os Estados Unidos da América, em segundo lugar no ranking da produção, estejam também já no “terreno” a disponibilizar ao mercado as suas reservas.
E poderá haver um esforço global que será coordenado pela AIE (Agência Internacional de Energia) para que vários países coloquem parte dos barris que detêm no mercado para evitar uma escalada em espiral das cotações.
Em Portugal, enquanto as ações da GALP valorizaram em 3%, a ENSE (Entidade Nacional para o Setor Energéticos) disponibilizou-se igualmente para mobilizar reservas de petróleo caso se prolongue o corte temporário. Em comunicado, a ENSE afirma que “dispõe de reservas estratégicas que podem ser mobilizadas para suprir uma falta eventual” e precisa que tem “à sua disposição 538,1 mil toneladas de crude em reservas físicas e 373,5 mil toneladas em tickets que representam direitos de opção sobre crude armazenado em Portugal e noutros países da União Europeia”. “Estas quantidades estão à disposição da ENSE para mobilização imediata, caso se entenda necessário”, sublinha a entidade, acrescentando:
É importante destacar neste momento que, caso o impacto sobre a oferta seja persistente e os operadores que importam petróleo para Portugal tenham alguma dificuldade temporária para obter crude, o país através da ENSE dispõe de reservas estratégicas”.
A Saudi Aramco poderá “levar meses” a retomar a produção em pleno, após os ataques. E não há capacidade, no mundo, para tapar o “buraco” de mais de cinco milhões de barris diários.
Criou-se um “buraco” na oferta de petróleo mundial, sendo que não há capacidade extra no mundo para o “tapar”. Só as reservas podem mitigar o desequilíbrio entre a oferta e a procura, mas invariavelmente os preços vão ficar mais caros.
De cerca de dez milhões de barris diários, a Saudi Aramco viu a sua capacidade de produção de petróleo reduzida a metade após o ataque às instalações da empresa. Apesar de a empresa ter tentado acalmar os receios dos investidores, com o imediato anúncio duma rápida reparação das instalações afetadas, surgem agora várias fontes a alertarem que será complicado que se consiga voltar ao normal em breve. As nuvens de fumo vistas do espaço mostram que o impacto dos ataques foi significativo.
À Reutersduas fontes próximas da Saudi Aramco, revelaram que foram informadas de que o regresso à produção em pleno poderá “levar meses”. E, enquanto isso não acontece, procuram-se formas de tentar compensar a redução da produção por parte do maior produtor de petróleo do mundo. Mas a tarefa não é fácil.
Não há, no mundo, “almofada” para absorver um impacto na produção como este. De acordo com dados da AIE, a OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) tinha, em junho passado, uma capacidade de produção de petróleo extra em torno dos 3,2 milhões de barris por dia, mas inferior à perda agora registada. E destes 3,2 milhões, cerca de dois milhões de barris extra vinham da Arábia Saudita. Sobra menos de um milhão de barris de capacidade adicional. E, mesmo outros países fora da OPEP, como a Rússia, têm pouca margem para aumentar a oferta, sendo que para muitos outros não é de todo viável explorar poços de petróleo simplesmente porque o custo não é compensado com o preço atual da matéria-prima. Entre esses produtores estão os de petróleo de xisto, dos EUA.
Enquanto prossegue um “apontar de dedo” ao Irão como sendo o responsável pelos ataques, o Departamento de Energia norte-americano, além de dizer que está preparado para recorrer aos recursos das Reservas Estratégicas de Petróleo, de 630 milhões de barris, para compensar quaisquer interrupções no mercado, deu orientações para se trabalhar com a AIE para avaliar possíveis opções para uma ação global coletiva se for necessário.
Estas movimentações demonstram a importância das instalações situadas em Abqaiq e Khurais no normal abastecimento do mercado mundial de petróleo. E são reveladoras do interesse tanto da Arábia Saudita como dos EUA de manterem o preço do petróleo em torno dos níveis atuais, os 60 dólares por barril, pois uma valorização expressiva das cotações poderá ter um impacto muito negativo na economia global, quando são cada vez maiores os receios do abrandamento económico e a guerra comercial entre os EUA e a China está a castigar todo o mundo.
Olhando para os esforços feitos e a fazer, o impacto nas cotações poderá, em teoria, ser limitado, já que a oferta de petróleo poderá manter-se inalterada e o contexto é de abrandamento no crescimento da procura pela matéria-prima. Porém, na prática, há margem para que os preços subam. Por um lado, porque os mercados tenderão a ressentir-se a uma quebra momentânea da oferta, levando à subida dos preços. Por outro, haverá a dúvida sobre quanto tempo será necessário para que as instalações afetadas voltem a funcionar, restabelecendo a oferta da matéria-prima. É que as reservas dos países são finitas.
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Os preços da matéria-prima, a 70 dólares, dispararam nos mercados internacionais, o que pode agravar preço dos combustíveis até 12 cêntimos por litro. É uma valorização histórica. Da última vez que estiveram nos níveis atuais, os combustíveis estavam bem mais caros.
Tendo o preço do petróleo chegado à fasquia dos 70 dólares, deixando antever um impacto expressivo nos preços dos combustíveis no mercado nacional, há margem para subidas de vários cêntimos no valor por litro do gasóleo e ainda mais no caso da gasolina, caso a tendência de subida se mantenha. Com efeito, o Brent (que serve de referência às importações nacionais) esteve a subir mais de 19% para 71,95 dólares por barril  nas primeiras negociações da madrugada de hoje. Entretanto, aliviou ligeiramente a valorização, mas continua acima dos 65 dólares em Londres, estando ligeiramente acima dos 60 dólares em Nova Iorque.
A última vez que o Brent atingiu a fasquia dos 70 dólares foi há 6 meses. Em todo o mês de maio, o barril fechou abaixo desta barreira apenas em 3 sessões, o que se refletiu nos preços nas bombas. O preço médio da gasolina simples de 95 octanas foi de 1,599 euros, enquanto o do gasóleo de 1,424 euros, com base no histórico da DGEG (Direção-Geral de Energia e Geologia).
O preço de referência da gasolina situa-se atualmente em 1,475 euros por litro, após 5 semanas de queda. Ou seja, há uma diferença de 12,4 cêntimos por litro. No caso do gasóleo (que está em máximos desde o início de agosto), a diferença é menor, mas expressiva: são 6,7 cêntimos entre os valores de maio e os atuais 1,357 euros por litro.
Os preços dos combustíveis em Portugal são atualizados semanalmente, com base na evolução média dos preços do petróleo e derivados nos mercados internacionais na semana anterior, pelo que este tipo de aumentos só acontecerá se a tendência de subida das cotações se mantiver. 
Este ajustamento feito pelas petrolíferas tem também em conta as variações nas moedas. A diferença entre o dólar (divisa em que se transaciona o petróleo) e o euro (em que os combustíveis são comprados nas bombas) também não deverá ajudar os consumidores. Em maio, um euro equivalia a 1,12 dólares, enquanto agora vale 1,10 dólares, penalizado pelos novos estímulos anunciados pelo BCE (Banco Central Europeu). Ou seja, é preciso um montante mais elevado em euros para comprar a mesma quantidade de petróleo em dólares e as empresas fazem refletir esse agravamento nos preços finais. Assim, se o valor do barril continuar a subir, os consumidores esperarão que se torne mais caro abastecer o carro na próxima semana. A evolução irá depender da capacidade dos produtores de acalmarem os receios com um desequilíbrio entre a oferta e a procura. Porém, mesmo com os esforços para manter a oferta, as perspetivas de menor produção de petróleo nos próximos tempos estão a levar as cotações da matéria-prima a disparar. O Brent chegou a ganhar quase 20%, a maior subida de 1991, para superar os 70 dólares, tendo aliviado, entretanto, a tendência positiva, mas segue nos 65 dólares. E nos EUA, o West Texas Intermediate está nos 60 dólares.
A escalada das cotações reflete, pois, os receios em torno de um desequilíbrio entre a oferta e a procura, apesar de a Saudi Aramco estar a procurar restabelecer rapidamente a produção. Chegou a avançar que poderia voltar a ter as instalações operacionais esta segunda-feira de manhã, mas a data tem vindo a ser adiada.
Depois, vem a questão da segurança das instalações petrolíferas, especialmente as da Arábia Saudita, que deverá passar a ser tida em conta como um risco, levando o mercado a incluir um prémio nas cotações do petróleo.
Quem não se lembra de que Saddam Hussein jurou que, se fosse expulso do Kuwait pela força, o país iria arderia? E cumpriu a palavra colocando fogo em tudo. Durante a evacuação, as tropas iraquianas incendiaram aproximadamente 700 poços de petróleo pelo caminho.
Efetivamente, quando Saddam Hussein invadiu o Kuwait a 2 de agosto de 1990, colocou em movimento um conflito político que resultaria numa catástrofe ambiental devastadora causada pela ação do homem. Foi em janeiro de 1991 que o fogo começou e o último foco só foi extinto dez meses depois. No total, o fogo consumiu seis milhões de barris de petróleo por dia (por estimação). Devido ao grande número de poços em chamas, era impossível para uma ou mesmo várias equipas de bombeiros apagar todo o fogo no tempo necessário para evitar uma catástrofe global. Então, o governo do Kuwait pediu ajuda internacional. E responderam cerca de 50 países de todo o globo, incluindo a Inglaterra.
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Enfim, são ataques irresponsáveis que perturbam a ecologia e a economia mundial e que podem ser focos de alteração das condições de paz onde a guerra na sua expressão clássica ainda não chegou. Eis uma boa razão para as diplomacias estarem atentas e ativas, porque, se elas falham, a guerra fica iminente e o mundo precisa de paz, que passa pela vontade política, pelo diálogo e pelo desenvolvimento.
2019.09.16 – Louro de Carvalho

terça-feira, 18 de setembro de 2018

Em prol da normalização e melhoria das relações Portugal-Angola


Com o objetivo espelhado em epígrafe António Costa está em visita oficial a Angola, com empresários e economistas a valorizar a viagem, mas a pôr reservas ao combate do Presidente angolano João Lourenço à corrupção.
Costa foi recebido, a 17 de novembro, no aeroporto de Luanda pelo Ministro das Relações Exteriores angolano, Manuel Augusto, com a ideia da rápida retoma dos níveis anteriores a 2014 nas relações económicas e da normalização dos contactos bilaterais político-diplomáticos. Com o Primeiro-Ministro, que se apresentou com roupa informal (o que provocou críticas por se tratar de visita oficial e sem explicações do seu gabinete) viajaram os ministros dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, e da Agricultura, Capoulas Santos, bem como os secretários de Estado Teresa Ribeiro (Negócios Estrangeiros e Cooperação), Eurico Brilhante Dias (Internacionalização) e Ricardo Mourinho Félix (Adjunto e das Finanças). Acompanham também o Chefe do Governo os presidentes dos conselhos de administração da Lusa, Nicolau Santos, e da RTP, Gonçalo Reis.
No primeiro dia da visita, que coincidiu com o feriado do Dia do Herói Nacional, o programa de Costa teve sobretudo uma componente económica, com um encontro à porta fechada com empresários portugueses que operam no mercado angolano. E, além deste encontro, o Primeiro-Ministro teve visitas com significado histórico, como a deslocação à Fortaleza de Luanda, onde está o recém-recuperado Museu Nacional de História Militar, passeou pela Baía de Luanda e terminou o dia num encontro com a comunidade portuguesa residente na capital angolana. Este encontro decorreu no Centro Cultural Português depois da visita à obra do hospital materno-infantil da Camama, que está a cargo da empresa portuguesa Casais, num projeto avaliado em 194 milhões de dólares (cerca de 166 milhões de euros).
No dia 18, após a reunião, às 11 horas locais (mesma hora em Portugal), entre o Presidente de Angola e o Primeiro-Ministro português, os dois governos deverão assinar cerca de uma dezena de acordos, entre os quais uma convenção para o fim da dupla tributação e um memorando para a progressiva regularização de dívidas de entidades públicas angolanas a empresas portuguesas, cujo montante global se estima entre os 400 e os 500 milhões de euros, mas de que só estão certificados 90 milhões. E os governos de Lisboa e de Luanda vão ainda ampliar linhas de crédito, estabelecer um plano de cooperação no setor da agricultura e assinar um Programa Estratégico de Cooperação 2018/2022, que integra formação e cooperação em áreas como a defesa, a segurança e a justiça, além da economia, ciência, educação e saúde.
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A cooperação económica merece a atenção dos jornais angolanos na cobertura da visita de dois dias do Primeiro-Ministro a Angola. O jornal O País fez capa e publicou na íntegra a entrevista dada ao diário português DN, em que se destaca a afirmação de Costa de que Angola tem todas as condições para ser uma grande potência em África e por si reiterada em entrevista publicada no Jornal de Angola, no dia 17. Esta entrevista, em que António Costa diz que “nunca teremos uma relação com outros países como a que temos com Angola, merece destaque na capa com foto do Primeiro-Ministro e o título “Portugal ambiciona relações profícuas e estreitas com Angola”, acrescentando o texto da 1.ª página que essas relações devem ser focadas “nos grandes desafios e nas grandes oportunidades do século XXI”. E o jornal O País, o segundo maior de Angola destaca na 1.ª página e publica na íntegra a entrevista do Primeiro-Ministro ao DN antes do embarque para a visita. No jornal O Guardião, destaca-se a chegada de Costa a Luanda, em que o Chefe do Governo português afirmou que Portugal e Angola têm uma história “longa” e que o foco tem de estar centrado no futuro e não no passado.
Também a visita merece atenção no Expansão, um jornal mais focado na economia, ficando ressaltados como temas de manchete o fim da dupla tributação e maior cooperação económica. Merece ainda destaque neste jornal a assinatura de acordos nas áreas de educação e ciência, ficando afastada a possibilidade de ser discutida a isenção de vistos, já que Portugal integra o espaço de Schengen, não podendo assim exercer reciprocidade com Angola.
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Marca a visita do Primeiro-Ministro português, sobretudo, o desanuviamento da tensão política provocada pelo processo judicial em Lisboa em que um dos visados era o ex-vice-Presidente da República angolano, Manuel Vicente. Mas, a pari, assinala o desenlace das medidas que João Lourenço vem introduzindo na realidade angolana, tais como o afastamento da família de José Eduardo dos Santos e a tentativa de combate à corrupção que mais desperta a curiosidade da generalidade dos empresários e economistas, que se interrogam se as medidas anunciadas são para manter ou se os vícios construídos ao longo de décadas se sobreporão à confessada boa vontade de Lourenço. Assim, o professor do ISEG Manuel Enes Ferreira dá “o benefício da dúvida” ao líder angolano, e, para o empresário Eduardo Rangel, presidente do conselho de administração do grupo Rangel, com forte presença em Angola, “as alterações que têm sido feitas credibilizam Angola a nível internacional, nomeadamente junto do Fundo Monetário Internacional, o que acaba por dar confiança aos investidores”. Este empresário, cujo grupo emprega 270 pessoas no total e fatura perto de 18 milhões de euros em Angola, não consegue “ainda transferir o dinheiro que fatura nem os dividendos, mas os salários já têm vindo a ser transferidos”, o que “é um bom sinal”. O grupo detém ali um projeto logístico idêntico, ao que tem em Portugal, sobretudo ao nível do frio, bem como o transporte marítimo e aéreo, além de ser o representante da FEDEX para aquele país.
Manuel Enes Ferreira, que tem opinião favorável quanto ao impacto das medidas do Presidente angolano sobre as empresas portuguesas, adianta:
A gestão mais criteriosa das receitas cambiais vai resolver de forma mais célere os atrasos em questões de pagamentos”.
E este é um dos pontos da agenda da visita do Primeiro-Ministro, sendo neste sentido assinado um memorando para o início do processo de regularização de dívidas a empresas portuguesas, cujo montante global é estimado no mínimo (embora não oficialmente) entre os 400 e os 500 milhões de euros e que atinge, sobretudo, as áreas da construção e obras públicas.
O predito especialista em questões angolanas refere mesmo:
Se a política económica começa a funcionar de forma mais aberta e dinâmica, isso terá impacto nas empresas exportadoras e também ao nível da mão-de-obra que trabalha em Angola”.
Não obstante, mantém-se o risco adveniente da concorrência internacional, em que o Presidente tem demonstrado empenho, mas que não fará “perigar as empresas portuguesas que, de resto, são muito bem consideradas em Angola, quer seja na indústria, quer seja nos serviços”.
Entre os dossiês sobressai o fim da dupla tributação entre os dois países, pelo que  deverá ser assinada, durante a visita, uma convenção destinada a acabar com a dupla tributação. 
Jorge Armindo, de momento com interesses em Angola “congelados” e defendendo claramente a importância “da normalidade das relações com Angola”, diz que é uma “medida muito positiva para as empresas portuguesas”. Opinião idêntica é a de Carlos Barbot, presidente das Tintas Barbot, que afirma ser isso ótimo “porque deixamos de pagar nos dois lados”.
Mesmo não conhecendo os temas a discutir com o Governo angolano, Eugénio Costa Almeida, investigador do centro de estudos internacionais do ISCTE, acredita que temas como “as transferências dos expatriados, as dívidas aos exportadores portugueses, nomeadamente as dívidas à TAP, ainda que já tenham afirmado que a mesma está em resolução, vão ser discutidas”. E, ainda no âmbito da questão económica, crê que poderá ser abordada a proteção angolana dos créditos de exportadores portugueses, bem como as questões bancárias (sobretudo a participação de bancos portugueses em bancos angolanos), tendo em conta as normas comunitárias e do BCE, e ainda as relações dentro da CPLP.
Luís Marques Mendes, no seu comentário semanal na SIC, defendeu que “Portugal precisa de intensificar a sua relação económica com Angola, para investir e para exportar”, já que, há uns anos, Angola era o 4.º destino das nossas exportações. Por isso, vaticinou que haverá “o reforço em 500 milhões de euros da linha de crédito para apoiar as exportações portuguesas para Angola” – o que o plano da visita parece confirmar, embora para somas mais elevadas. 
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Na verdade, os dados do INE permitem inferir que Angola é um mercado importante para as exportações nacionais, embora, segundo os números, tenham vindo a decair nos últimos anos. Em 2017, por exemplo, as exportações para Angola atingiram os 2.786 milhões de euros. E, em julho passado, voltaram a registar uma diminuição de 21,4% face ao período homólogo – tendência que já se sentira no 1.º semestre, em que as exportações tinham decrescido em 135 milhões de euros (o mercado angolano pesa nas exportações agroalimentares, de máquinas e de aparelhos, sendo o 8.º maior destino). Porém, se as exportações decresceram, tal não sucede com as importações, com Portugal a importar de Angola mais 315 milhões (Portugal compra a Angola sobretudo petróleo). E é de referir que o decréscimo nas exportações tem sido acompanhado pela contração do investimento português em Angola. Segundo dados da AICEP, com base nos dados do Banco de Portugal, relativos a 2016, o investimento direto português em Angola registou um valor negativo de 84,8 milhões de euros, enquanto o investimento angolano em Portugal foi de 19,3 milhões de euros, sendo que, de 2012 a 2017, o investimento português ali caiu à média anual de 43,9%, ao passo que o investimento direto de Angola em Portugal evoluiu positivamente a uma média anual de 62,9%.
Mira Amaral, ex-ministro dos governos de Cavaco Silva e ex-presidente do BIC, adianta que “as visitas de membros do Governo a Angola são sempre importantes”. E, sobre otiming em concreto desta, sublinha:
O enquadramento político é sempre muito positivo e precisamos de entrar numa nova fase, assim como é positiva a vinda, em novembro, do Presidente de Angola a Portugal”.
E o Presidente da República português declarou que a visita do Primeiro-Ministro é ocasião única para a normalização e a melhoria das relações entre os dois países.
De resto, em Angola, a visita é também considerada importante, prova disso é a visita recíproca que João Lourenço fará a Portugal em novembro, nos dias 23 e 24.
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A preponderante dependência das receitas petrolíferas fez com que o país entrasse numa crise profunda e tenha de recorrer à ajuda do FMI (Fundo Monetário Internacional), estando em negociação um programa de financiamento de 3.700 milhões de dólares. Porém, com o preço do petróleo novamente com a tendência de subida, embora longe dos 150 dólares que chegou a atingir, Isabel dos Santos questiona a estratégia do Governo por não tirar partido da valorização do preço do petróleo. A empresária fustiga Lourenço com críticas recorrentes, mas desvalorizadas em Portugal. Enes Ferreira, já referido, é contundente em relação à empresária:
As críticas de Isabel dos Santos são ridículas, são de mau perdedor. Nem que o petróleo estivesse a 200 dólares, Angola não vai beneficiar disso no curto prazo.”.
Além disso, o professor do ISEG aponta:
As críticas da empresária são até contraproducentes, uma vez que ela tem interesses em Angola e um mau ambiente só a vai prejudicar”.
Aliás, a Moody’s adianta que, apesar de o preço do crude “ter subido para valor superior a 70 dólares (59,78 euros) por barril”, face aos 46 dólares (39,28 euros) de junho de 2017, o Orçamento de Angola “continua sob pressão e o crescimento é anémico”. E diz que o programa de ajuda do FMI permitirá a Angola reforçar as reformas estruturais. Por seu turno, Jorge Armindo (também já referido) desvaloriza a guerra entre a filha de Eduardo dos Santos e Lourenço, preferindo falar nos benefícios para a economia angolana da subida do preço do petróleo. Nesse sentido refere:
A alta do preço do petróleo é favorável à resolução dos compromissos da economia angolana, mas a seu tempo”.
E foi baseada em estimativas do preço do petróleo que, em agosto, a FocusEconomics estimou o crescimento de 1% da economia angolana para 2018 e de 2,3% para 2019.
Sobre a hipótese de os investimentos de Isabel dos Santos em Portugal virem a ser motivo de conversa entre Costa e Lourenço, Eugénio Costa Almeida adianta que é possível. E justifica:
Sabendo-se que Isabel dos Santos terá tido algumas ajudas bancárias, de bancos nacionais, nem que seja, em termos de cartas de conforto para usufruir de condições de crédito e de empréstimos em bancos portugueses – para os seus empreendimentos no exterior, no caso concreto, em Portugal – e, dado que alguns dos apoios governamentais angolanos (recordo o caso Efacec) foram retirados é possível que isso também seja abordado”.
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Polémicas à parte, Costa disse ao DN que gostaria que os encontros entre Portugal e Angola assumissem uma periodicidade anual, na convicção de que “Angola tem um papel fundamental porque vai ser um dos grandes motores do desenvolvimento do continente africano”. E discorre:
O facto de ela ter uma presença forte na Europa reforça a sua posição. Angola tem condições para não estar virada sobre si mesma, abrir-se ao mundo e ao continente. Todos temos uma enorme expectativa de que, com o Presidente João Lourenço, Angola afirme esse papel de liderança.”.
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Em suma, os resultados da visita de Costa são sobretudo de ordem política, ressaltando mesmo a probabilidade de Marcelo visitar Angola já em 2019, como adiantou o Primeiro-Ministro. Os temas estratégicos e as questões económicas têm a via aberta, embora marcada pela lentidão. Não obstante, o Governo angolano compromete-se a terminar o processo de reconhecimento da dívida às empresas portuguesas até novembro. A estimativa angolana é a de que a dívida chegue aos 100 mil milhões de kwanzas (cerca de 330 milhões de euros), enquanto o executivo português estima uma verba entre os 400 e os 500 milhões de euros.   
Lourenço destacou o papel relevante que Portugal pode ter em Angola, mas deixou o pedido de bom senso e pragmatismo. E Costa elogiou a mudança em curso em Angola e prometeu voltar.  
Falta, contudo, realizar-se o que o eurocomissário Carlos Moedas sustenta de que as relações com Angola se inscrevam no quadro da parceria que a UE (União Europeia) pretende estabelecer com África, podendo Portugal e Angola protagonizar o desenvolvimento da relação entre os dois continentes.
2018.09.18 – Louro de Carvalho