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sábado, 2 de novembro de 2019

Depois e a par de Todos os Santos, Todos os Fiéis Defuntos


Após ter cantado a glória e a felicidade dos Santos que gozam em Deus a serenidade da vida imortal, a Liturgia, desde o início do século XI, consagra este dia à memória dos fiéis defuntos.
É continuação lógica da Solenidade de Todos os Santos. Se nos limitássemos a lembrar os irmãos Santos, a Comunhão de todos os crentes em Cristo não seria perfeita. Quer os fiéis que vivem na glória, quer os que vivem na purificação, a preparar-se para a visão de Deus, são todos membros de Cristo pelo Batismo. Continuam todos unidos a nós. Assim, a Igreja peregrina não podia, ao celebrar a Igreja da glória, esquecer a Igreja que se purifica no Purgatório.

É certo que a Igreja, todos os dias, na Missa, ao tornar sacramentalmente presente o Mistério Pascal, lembra “aqueles que nos precederam com o sinal da fé e dormem agora o sono da paz” (Anáfora I; cf expressões análogas nas outras anáforas). Mas, hoje, a recordação é mais visível e sentida.
O Dia dos Fiéis Defuntos não é dia de luto e tristeza. É dia de mais íntima comunhão com aqueles que “não perdemos, porque simplesmente os mandámos à frente” (São Cipriano). É dia de esperança, porque sabemos que eles ressurgirão em Cristo para uma vida nova. É dia de oração, que se revestirá da maior eficácia, se a unirmos ao Sacrifício de reconciliação, a Missa.

Com efeito, no Sacrifício, Memorial e Banquete da Missa, o Sangue de Cristo lavará as culpas e alcançará a misericórdia de Deus para os nossos irmãos que adormeceram na paz com Ele, de modo que, acabada a Sua purificação, sejam admitidos no Seu Reino.
Assim, na Comemoração de Todos os Fiéis Defuntos, a Igreja exorta-nos a sufragar, com jejuns, esmolas e orações, as almas dos que padecem no Purgatório, tal como aproveita o ensejo para nos recordar a doutrina dos novíssimos, à luz da qual importa saber que, após a morte, a alma humana se apresenta diante de Deus para receber a sentença do juízo particular, por força da qual irá, de forma definitiva e irreformável, ou para o céu, se estiver totalmente preparada para a visão beatífica, ou seja, se partiu deste mundo em estado de graça, para o inferno, caso tenha morrido em pecado mortal, ou para o Purgatório, onde remirá a pena temporal dos seus pecados ainda não satisfeita e se purificará das imperfeições que a impedem de entrar na glória. Por isso, não rezamos para que os mortos se salvem, porque, depois da morte, já está selado o destino de cada um deles, mas rezamos pelo fim dos seus sofrimentos e para que intercedam por nós.
Também o Purgatório não é momento de “indecisão” em que a alma, em última oportunidade, poderia decidir amar a Deus e ir para o céu, onde “não entrará nada de impuro ou profano” (vd Ap 2,27). Quem vai para o Purgatório já está salvo: tem garantida a eterna bem-aventurança, mas só tem acesso a ela depois de se ter purificado, padecendo sem mérito na outra vida o que poderia ter lucrado nesta, da pena temporal devida aos pecados já perdoados quanto à culpa. Essas almas pobres e benditas podem, contudo, ser ajudadas pelos nossos sufrágios, na forma de missas, orações, esmolas, jejuns e outras obras de piedade. 
Na verdade, nós, como membros do Corpo Místico de Cristo, unidos numa só família pela Comunhão dos Santos, podemos oferecer a essas pobres e benditas almas uma série de socorros espirituais. Com efeito, sabemos quanto as almas do Purgatório padecem pela dor que suportam e sobretudo pela sede do Deus por que tanto anseiam. Assim, viver despreocupados e desatentos quando podemos ajudá-las com tantos meios ao nosso alcance diz da nossa falta de justiça e de caridade solidária. É bom pedirmos ao Deus de misericórdia que as nossas humildes e insistentes preces sejam úteis às almas dos seus servos falecidos, para que se vejam livres dos seus pecados e repousem no lugar da paz eterna. É a isso que nos exorta a Igreja, é ao cumprimento deste dever sagrado de caridade para com os irmãos mortos na fé que ela hoje nos induz. É verdade que, a não ser por especial revelação, não saberemos se um parente ou amigo, falecido, talvez repentina e tragicamente, sem chance de receber os sacramentos (Deus conhece o íntimo e tem várias formas de perdoar), foi para o Inferno, para o Purgatório ou para o Céu. No entanto, essa incerteza, sustentada pela esperança de que Deus não nega a ninguém os auxílios necessários e suficientes à salvação, deve-nos impelir a rezar por todos os fiéis que, mortos na graça divina, necessitam agora do nosso auxílio para que se lhes aliviem as penas que suportam e se lhes abrevie o tempo de padecimento, mas também por todos aqueles que, mesmo sem dar nesta vida sinais visíveis de se terem convertido, podem, em ato supremo da misericórdia de Deus, estar hoje no Purgatório, onde permanecerão por mais tempo, se não abrirmos nossas mãos para auxiliá-los generosamente. E Deus, que sabe do fim que tiveram os mortos, fará bom uso dos sufrágios que oferecermos e lhes dará a melhor e mais sábia aplicação.
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É antiga e entronca no Antigo Testamento a ideia e a prática de rezar pelos mortos. Desde o século III, os cristãos rezavam pelos falecidos, visitando sobretudo os túmulos dos mártires. No século V, a Igreja dedicava um dia do ano à oração por todos os mortos, pelos quais ninguém rezava e de que ninguém lembrava. Também o abade Odilo de Cluny, em 998, pedia aos monges que orassem pelos mortos. Desde o século XI, os Papas Silvestre II (1009), João XVII (1009) e Leão IX (1015) levaram a comunidade a dedicar um dia aos mortos. No século XIII, esse dia anual passa a ser comemorado em 2 de novembro, porque a 1 de novembro é a Festa de Todos os Santos. A doutrina católica  evoca algumas passagens bíblicas para fundamentar esta sua posição (cf Tb 12,12; Job 1,18-20; Mt 12,32 e 2Mac 12,43-46) e apoia-se numa prática ininterrupta de quase dois mil anos.
Após a Reforma Protestante, a celebração do Dia de Finados foi fundida com a Festa de Todos os Santos na Igreja Anglicana, ainda que tenha sido posteriormente desmembrada em certas igrejas coesas pelo Movimento de Oxford no século XIX. A observância da comemoração foi restaurada, todavia, em 1980, com a publicação do livro litúrgico The alternative Service Book, que define a data como festividade menor intitulada “Comemoração dos Fiéis Defuntos”.
Entre os protestantes históricos da Europa, a tradição foi tenazmente mantida, não tendo sido suficiente a forte influência de  Martinho Lutero para abolir a sua celebração na Saxónia durante a sua vida e, apesar da sanção oficializada pela Igreja Luterana, a sua memória sobrevive fortemente no costume popular.
Em 1816, a Prússia introduziu uma nova data para a lembrança dos mortos, com feriado, entre os cidadãos luteranos: era o Totensonntag, ou seja, o Domingo dos Mortos, celebrado no último domingo antes do Advento, costume que foi mais tarde adotado também pelos protestantes alemães, embora não se tenha espalhado muito além das regiões de maioria luterana alemã.
Para a Igreja Metodista, são santos todos os fiéis batizados, de modo que, no Dia de Todos os Santos, a congregação local honra e recorda seus membros falecidos.
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Porém, a lembrança dos mortos e um dia típico para ela não são exclusivos do cristianismo. Segundo Léon Denis, autor e médium espírita, o estabelecimento de uma data específica para comemoração dos mortos foi iniciativa dos druidas, encarregados das tarefas de conselho, ensino, jurídicas e filosóficas na sociedade celta, os quais acreditavam na continuação da existência depois da morte. Reuniam-se nos lares, e não nos cemitérios, no primeiro dia de novembro, para homenagear e evocar os mortos.
É conhecido o carinho com que a cultura greco-romana recordava os deuses Lares, Manes e Penates – os protetores respetivamente das habitações, das almas dos antepassados e dos sonos.
No México, o Dia dos Mortos é celebração de origem indígena, que honra os falecidos a 2 de novembro. Começa a 31 de outubro e coincide com as tradições católicas do Dia dos Fiéis Defuntos e do Dia de Todos os Santos. Além do México, é celebrada noutros países da América Central e em algumas regiões dos Estados Unidos, onde a população mexicana é grande.
A celebração no México é anterior à chegada dos espanhóis. Há relatos que mostram que praticavam este culto os astecas, os maias, os puerépechas, os náuatles e os totonacas . Os rituais que celebram a vida dos ancestrais realizavam-se nestas civilizações pelo menos há três mil anos. Na era pré-hispânica, era comum a prática de conservar os crânios como troféus e mostrá-los nos rituais que celebravam a morte e o renascimento.
O festival que se tornou o Dia dos Mortos era comemorado no 9.º mês do calendário solar asteca, por volta do início de agosto, e durava um mês completo. As festividades eram presididas pela deusa Mictecacíhuatl, a “Dama da Morte” – atualmente relacionada com a La Catrina, personagem de José Guadalupe Posada – e esposa de Mictlanteccuhtli, senhor do reino dos mortos. As festividades eram dedicadas às crianças e aos parentes falecidos. É uma das festas mexicanas mais animadas, pois os mortos vêm visitar os seus parentes. É festejada com comida (sobretudo bolos e doces preferidos dos mortos), festa, música. Os preferidos das crianças são as caveirinhas de açúcar. Segundo a crença popular, nos dias 1 e 2, de Días de Muertos, os mortos têm permissão divina para visitar parentes e amigos. Por isso, enfeitam-se as casas com flores, velas e incenso, e preparam-se as comidas preferidas dos antepassados. Fazem-se máscaras de caveira, vestem-se roupas com esqueletos pintados ou fantasiam-se de morte.
Em várias comunidades estadunidenses com imigrantes mexicanos, o Dia dos Mortos é celebrado de maneira semelhante à forma como é celebrado no México. Em algumas destas comunidades, como as do Texas e as do Arizona, as celebrações são mais tradicionais. Por exemplo, a Procissão de Todas as Almas é um evento anual de Tucson desde 1990. O evento combina elementos do tradicional Dia dos Mortos com outros de festivais pagãos das colheitas. Pessoas com máscaras carregam sinais de homenagem aos mortos e uma urna em que se podem colocar pedaços de papel com orações para queimar. Em outras comunidades, a interação entre as tradições mexicanas e a cultura estadunidense resulta em celebrações em que se misturam com as tradições mexicanas manifestos artísticos e políticos. Por exemplo, em Los Angeles (Califórnia), o centro cultural Self Help Graphics & Art Mexican-American apresenta uma celebração do Dia dos Mortos que inclui tanto elementos tradicionais como políticos. Por exemplo, são levantados altares em honra das vítimas da Guerra do Iraque, enfatizando o alto número de soldados latinos. Também está a desenvolver-se uma versão intercultural do Dia dos Mortos num cemitério próximo de Hollyood. Numa mescla de tradições mexicanas e atitudes modernas, são levantados altares convencionais ao lado de altares a Jayne Mansfield e Johnny Ramone. Misturam-se dançarinos e músicos nativos com artistas de performance, ao mesmo tempo que pranksters tocam músicas tradicionais. Tradições similares e modernizações interculturais da celebração mexicana ocorrem em São Francisco, por exemplo através da Galería de la RazaSomArts Cultural CenterMission Cultural Centerde Young Museum; em Oakland (Califórnia), no Museu de Oakland e com aulas da antiga arte da Cartonería no centro de educação de artes The Crucible; e em Missoul (Montana), onde celebrantes esqueléticos desfilam pela cidade em pernas de pau, pequenas bicicletas e esquis. Isto também ocorre no histórico Forest Hills Cementery, em Boston. Patrocinado pela Forest Hills Educational Trust e pelo grupo folclórico La Piñata, o Dia dos Mortos celebra o ciclo de vida e morte. As pessoas trazem ofertas de flores, fotos, memórias e comida para os defuntos, que são colocadas em belos e coloridos altares. E um programa de música e dança tradicionais acompanha o evento.
O Dia dos Mortos ao estilo mexicano espalhou-se também pela Europa. Assim, em Praga (República Checa), os moradores celebram o Dia dos Mortos com máscaras, velas e caveiras de açúcar. O evento, apoiado pela Embaixada Mexicana, é realizado pelo teatro Alfred Ve Dvore.
E, em vários outros países com uma herança católica, no Dia de Todos os Santos e/ou no Dia dos Fiéis defuntos, as pessoas vão aos cemitérios com velas e flores e dão presentes às crianças, normalmente doces e brinquedos. Na Espanha, é tradicionalmente apresentada a peça Don Juan Tenorio. Na Espanha, Portugal, Itália, Bélgica, Países Baixos, França e Irlanda, as pessoas trazem flores para as sepulturas dos parentes mortos e fazem orações, muitas vezes coletivas e até enquadradas por sacerdotes.
Na Polónia, Eslováquia, Hungria, Lituânia, Croácia, Eslovénia, Roménia, Áustria, Alemanha, Suécia e Noruega, é tradição acender velas e visitar os túmulos dos parentes falecidos. Na região do Tirol, são deixados bolos sobre a mesa e é mantida quente a sala para o conforto dos mortos. Na Bretanha, as pessoas vão aos cemitérios ao anoitecer para ajoelharem ante as lápides dos entes queridos e as ungirem com água benta ou fazerem libações de leite nela. Na hora de deitar, é deixado na mesa o jantar para as almas.   
As celebrações guatemaltecas do Dia dos Mortos são marcadas pela construção e uso de pipas gigantes, além das tradicionais visitas aos túmulos dos ancestrais. O consumo de fiambre – uma comida típica da Guatemala – também é um grande acontecimento, pois é o único dia que é preparado durante o ano.
O Dia de Finados, no Brasil, é celebrado no dia 2 de novembro. As pessoas vão aos cemitérios e igrejas, com flores, velas e orações. A festa tem intenção positiva, celebrar os que morreram.
No Haiti, tradições vudu  misturam-se com as observâncias católicas do Dia dos Mortos, como, por exemplo, barulhentos tambores e músicas são tocados por toda a noite em celebrações pelos cemitérios para acordar Baron Samedi, o senhor dos mortos, e o seu descendente, o Gede.
O Dia de los ñatitas (do espanhol, Dia das Caveiras) é um festival celebrado em La Paz (Bolívia), a 9 de novembro. Nos tempos pré-colombianos, os indígenas andinos tinham o costume de partilhar um dia com os ossos de seus antecessores no terceiro ano após o sepultamento, contudo, somente as caveiras são usadas atualmente.
Tradicionalmente, a caveira de um ou mais membros da família são mantidas em casa para tomar conta da família e protegê-la durante o ano. No dia 9 de novembro, a família coroa a caveira com flores frescas, às vezes também as vestindo com peças de roupa e fazendo oferendas de cigarros, folhas de coca, álcool, e vários outros itens em agradecimento pela proteção durante o ano. As caveiras também são, por vezes, levadas ao cemitério central em La Paz para uma missa especial e bênçãos.
Nas Filipinas, o Araw ng mga Patay (Dia dos Mortos), Todos los Santos ou Undas (os últimos dois por serem celebrados a 1 de novembro), têm a atmosfera de reunião familiar. São limpas ou repintadas as tumbas, acendem-se velas e oferecem-se flores. Acampam em cemitérios famílias inteiras e, às vezes, passam uma noite ou duas junto às tumbas dos parentes. Jogos de cartas, comidas, bebidas, cantos e danças são atividades comuns no cemitério. É um feriado de muita importância para os filipinos (depois do Natal e Semana Santa), e dias de folga são normalmente adicionados ao feriado, mas apenas o dia 1 é considerado um feriado regular.
Muitas outras culturas no mundo têm tradições similares a respeito de um dia especial para visitar as sepulturas dos familiares falecidos. Muitas vezes, estão inclusas em festas, algumas celebrações com comidas e bebidas, além de orações e recordações sobre os que já morreram.
Em Wellington (Nova Zelândia), também pode ser encontrado o Dia dos Mortos mexicano com altares homenageando os falecidos com flores e presentes.
Bon Odori é um feriado budista japonês em honra dos ancestrais mortos. Existindo há mais de 500 anos, tornou-se reunião familiar em que as pessoas dos grandes centros voltam às suas cidades de origem para visitar e limpar as sepulturas de seus ancestrais. Inclui danças típicas.
Coreia, o Chuseok, também conhecido como Hankawi (do arcaico a significar ótimo meio), é um dos principais feriados tradicionais. As pessoas vão aonde estão consagrados os espíritos dos ancestrais e fazem-lhes culto pela manhã; visitam as tumbas dos ancestrais imediatos para poda das plantas e limpeza da área ao redor da sua tumba e ofertas de comida e bebida para eles.
O Festival de Ching Ming é um festival tradicional chinês que ocorre por volta de 5 de abril no calendário gregoriano. Juntamente com o Festival do Duplo Nove (no 9.º dia do 9.º mês do calendário chinês) é uma época em que os chineses cuidam dos túmulos dos ancestrais. Além do que, pela tradição chinesa, o 7.º mês no calendário chinês é chamado de mês fantasma, em que os fantasmas e espíritos saem do Além para visitar a terra.
Durante o feriado nepalês do Gai Jatra (festival da vaca), toda a família que tenha perdido um membro no ano anterior faz uma construção de babus, panos, papéis decorativos e retratos dos falecidos, chamada gai. Tradicionalmente, uma vaca guia o espírito do morto no outro mundo. Dependendo dos costumes locais, é usada uma vaca viva ou uma réplica. O festival também é a época de se fantasiar, incluindo temas tanto de manifestos políticos como de sátiras.
Em algumas culturas da África, fazem parte de importantes rituais tradicionais as visitas às tumbas dos ancestrais deixando comidas e presentes e pedindo por proteção. Um exemplo são os rituais que ocorrem antes do início da temporada de caça.
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Enfim, se o Dia dos Mortos criou tantas ramificações e usos em culturas diferentes, é porque é importante e significativo do ponto de vista antropológico. Não podem, por consequência, os crentes – individualmente e em Igreja – deixar de cumprir com o seu dever solidário para com os que nos precederam na fé e, em homenagem a eles, banir a cultura negativa sobre a morte.
2019.11.02 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 14 de março de 2018

Orações pelo Papa são parte integrante da mensagem de Fátima


A asserção é do Padre Carlos Cabecinhas, Reitor do Santuário de Fátima, e foram proferidas no 5.º aniversário do Pontificado do Papa Francisco, que o Santuário fez questão de evocar na celebração da missa na Basílica da Santíssima Trindade no quadro do programa da peregrinação mensal de março (dia 13), tendo-se feito anunciar dois grupos de peregrinos nos serviços do Santuário.
Sobre o 5.º aniversário da eleição de Francisco pelo conclave dos cardeais, o Padre Cabecinhas afirmou que é uma data que “não pode ser ignorada” e que nos desafia a rezar pelo Santo Padre, pois, como lembrou, “as orações pelo Papa são intenção permanente neste lugar, como parte integrante da mensagem de Fátima”.
O Reitor do Santuário, na homilia, falou do modo como o Evangelho proclamado (Jo 19, 25-27) apresenta Maria, “junto à cruz do seu Filho e esse extremo ato de amor de Jesus que nos confiou aos cuidados da Sua e nossa Mãe”. E fez a seguinte ilação: “é porque Jesus nos confiou aos cuidados de Nossa Senhora, que os cristãos recorrem confiantes à sua ajuda e proteção”; e isso é visível aqui em Fátima, onde se “manifesta esse cuidado materno de Maria por nós”.
O Padre Carlos Cabecinhas explicou que, nas Aparições de 1917, na Cova da Iria, Nossa Senhora “apresentou o seu Coração Imaculado como nosso refúgio, como lugar materno que nos acolhe nas tempestades da vida”. E reiterou:
É esse conforto materno que encontramos aqui em Fátima, junto dela. Por isso, lhe apresentamos as nossas súplicas e pedimos a sua ajuda para as nossas dificuldades.”.
O Presidente da celebração da Eucaristia esclareceu que “receber Maria na nossa vida significa imitá-la nas suas atitudes, acolher a sua mensagem e as suas exortações” e que receber Nossa Senhora é também “acolher o veemente apelo à conversão que ela aqui veio trazer-nos”. E, em consonância com a espiritualidade da Quaresma, que os crentes estão a celebrar, disse que “a exortação à conversão atravessa toda a mensagem de Fátima e está patente no pedido repetido para que os homens não ofendam mais a Deus e no apelo à oração e aos sacrifícios pelos pecadores, que marcam a mensagem de Fátima do primeiro ao último momento”.
Referindo que o pequeno Francisco – hoje São Francisco Marto – afirmava: “Gosto tanto de Deus! Mas Ele está tão triste, por causa de tantos pecados! Nós nunca havemos de fazer nenhum”, garantiu: “É isto a conversão!
Na oração dos fiéis, o Papa Francisco foi novamente lembrado, numa prece para que “Nossa Senhora o proteja na sua missão”. E também esteve presente nesta celebração a oração pela paz, para que “os que procuram a concórdia e a paz suspendam a guerra”.
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Porém, o mês de março teve, em Fátima, outros momentos significativos.

Assim, o Santuário acolheu a primeira peregrinação nacional a de pessoas com doenças raras no dia 3 de março, primeiro sábado. E explicou:

A I Peregrinação Nacional de Pessoas com Doenças Raras é uma resposta a uma interpelação feita pela DRAVET, uma associação de doentes com esta síndrome, e que posteriormente foi sendo trabalhada com as duas federações: a FEDRA e a Aliança Portuguesa de Associações de Doenças Raras, para dinamizar este evento”.
Segundo aquele centro mariano, a peregrinação teve como tema “Únicos no olhar da Mãe de Jesus” e começou às 10,30 horas, com o acolhimento na Basílica da Santíssima Trindade, prosseguindo com a celebração da missa, meia hora mais tarde, no mesmo local.
Às 14 horas, realizou-se um encontro onde o tema da peregrinação esteve em reflexão, tendo-se seguindo-, uma hora depois, na Capelinha, a despedida e bênção dos doentes.
No Santuário de Fátima, esta peregrinação foi dinamizada pelo Departamento de Peregrinos e pela Pastoral da Fragilidade e do Cuidado que integra o Departamento de Pastoral da Mensagem de Fátima. Esta é uma linha de ação pastoral que o santuário quer desenvolver, como lugar materno de convergência de tanto sofrimentos, alguns muito novos.
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Também no passado dia 11, domingo, realizou-se a XVI Peregrinação Nacional de Folclore na qual se inscreveram 146 grupos de todo as regiões, à exceção das Regiões Autónomas. E o Reitor disse que um dos grandes desafios da Quaresma é a conversão da imagem que temos de Deus e a confiança no Seu “grande amor” independentemente de cada fragilidade.

Disse o Padre Carlos Cabecinhas, na sua homilia da missa a que presidiu na Basílica da Santíssima Trindade, que nos habituámos “a imaginar Deus como Alguém que nos exige isto e aquilo; Alguém que torna pesada a nossa vida com as Suas exigências, normas e mandamentos” e salientou que muitas vezes nos esquecemos de que Deus “não é aquele que nos pede, mas o que nos dá” e que exerce o “Seu poder para salvar e não para condenar, porque nos ama e quer dar-nos vida e vida em abundância”.
No comentário que fazia do trecho da Liturgia da Palavra tomado do capítulo 3 do Evangelho de São João, em que se relata o núcleo central da conversa de Jesus com Nicodemos, o Reitor frisou que, neste caminho quaresmal, talvez o que “precise mais urgentemente de conversão seja a nossa imagem de Deus”. E sublinhou:
É a consciência do amor de Deus por nós que torna possível este caminho de conversão, a que a Quaresma nos desafia. É este horizonte de misericórdia que dá sentido ao tempo litúrgico da Quaresma, como `tempo favorável´ para nos aproximarmos de Deus. […] É quando tomamos consciência do amor com que Deus nos ama, é quando confrontamos a nossa vida com o Seu amor, que nos damos conta do quanto precisamos de conversão.”.
E concluiu que a esperança “no grande amor” de Deus,  “rico em misericórdia” é o maior consolo que os cristãos podem experimentar, mesmo “nos tempos em que vivemos, com os seus dramas e dores”.
Aos milhares de peregrinos, na sua maioria participantes na Peregrinação Nacional de Folclore, deixou uma palavra no final da celebração para que continuem a ser a expressão da festa e da alegria cristãs que é “saber sempre que Deus nos ama”.
Segundo dados da Federação Portuguesa de Folclore, entidade que organizou esta peregrinação anual à Cova da Iria, inscreveram-se 146 grupos, dois deles da diáspora – Principado de Andorra e Suíça – que mobilizaram mais de 3 mil pessoas.
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À tarde, o Santuário, mais propriamente a Basílica de Nossa Senhora do Rosário, acolheu ainda a segunda sessão dos “Encontros na Basílica”, às 15,30 horas, com uma conferência do Padre João Paulo Quelhas, capelão do Santuário, sobre “O reconhecimento eclesial das Aparições de Fátima”, seguida de recital com Eva Braga Simões, Hugo Sanchez e Carmina Repas Gonçalves.

O predito capelão investigou documentação inédita sobre o tempo que mediou entre a data das Aparições e a Carta pastoral sobre o culto de Nossa Senhora de Fátima. E, no segundo de cinco “Encontros na Basílica”, com a conferência referenciada, o Padre Quelhas acentuou que Fátima não foi uma invenção da Igreja, a qual, durante muito tempo, adotou uma atitude “passiva e expectante” em relação às Aparições.

Este sacerdote da diocese de Beja, doutor em Teologia Dogmática, que se encontra atualmente em Fátima, percorreu toda a cronologia e os documentos publicados no período que medeia as Aparições e a publicação da primeira Carta Pastoral, de 13 de outubro de 1930, sobre o culto de Nossa Senhora de Fátima, assinada por Dom José Alves Correia da Silva.
As Aparições tinham ocorrido três anos antes de o prelado entrar na Diocese como o primeiro bispo da Diocese restaurada. Os documentos existentes revelam que não se interessou de imediato pelo assunto, mas que foi aos poucos tomando algumas iniciativas, indiciadoras das suas convicções mais pessoais e íntimas.
Segundo o orador, a distância prudente usada da Igreja contrastou, num primeiro momento, com o fervor e a “teimosia da fé” de milhares de pessoas que anualmente peregrinavam à Cova da Iria, como foi noticiando a imprensa da época. Assim, o reconhecimento eclesial das Aparições “foi progressivo”  e manifestou-se por alguns atos como visitas, correspondência trocada entre prelados e até entre o Núncio Apostólico em Portugal e a Santa Sé, a nomeação duma comissão canónica para averiguação dos factos. E, só depois, se declarou que as Aparições são dignas de crédito, permitindo oficialmente o culto de Nossa Senhora de Fátima, centrado numa Mensagem que era cada vez mais reconhecida como dirigida ao mundo inteiro – uma mensagem que nos remete para o Amor e a Misericórdia de Deus.
E, para o orador, “a mensagem específica das aparições comprova que Deus, na sua misericórdia, através da mãe do seu filho, vai levantando os corações e avivando a sua fé, evitando que a sua ira se abata sobre o mundo”, porque a sua bondade “é maior” do que os pecados cometidos pelos homens.
Além da conferência, a mesma Basílica acolheu, como se disse, um recital com Eva Braga Simões, Hugo Sanches e Carmina Repas Gonçalves, centrado em Maria, figura importante no pensamento teológico ocidental.
Durante os séculos XVI e XVII, os hinos gregorianos de louvor a Maria serviram de base para uma miríade de elaborações polifónicas de enorme beleza e, neste recital, foram apresentados alguns dos mais importantes cantos marianos da liturgia como o “Ave Maris Stella” e “Stabat Mater”, trabalhados por quatro dos mais importantes polifonistas portugueses do Renascimento e Barroco: Pedro Escobar, Dom Pedro de Cristo, António Carreira e Duarte Lobo.
À voz de Eva Braga Simões juntou-se o alaúde de Hugo Sanches e a viola de gamba de Carmina Repas Gonçalves, num formato intimista que convidou ao recolhimento, introspeção e elevação espiritual, como referia a folha de sala.
O próximo “Encontro na Basílica” ocorrerá no dia 3 de junho com André Pereira, que proferirá a conferência “Graça e Misericórdia: as aparições de Pontevedra e Tuy”. E o recital será realizado pelo Grupo Coral Sol Nascente, com a direção de Vianey da Cruz.
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Também se iniciou, no dia 12, o 1.º turno dos Encontros de Espiritualidade para Aposentados, da Escola do Santuário, uma proposta de descoberta da Mensagem de Fátima pela reflexão e experiência, direcionada para o público sénior.

O itinerário arrancou ao final da manhã com um momento de acolhimento, onde os participantes partilharam as suas expectativas para os quatro dias que se seguiram. Luís Portugal, um dos participantes neste primeiro turno, disse à Sala de Imprensa do Santuário:
Esta proposta para aposentados pareceu-me muito boa porque pode acrescentar valor. Como tenho tempo livre, aproveitei para aprofundar o meu conhecimento sobre a Mensagem de Fátima.”.
Na tarde do primeiro dia, decorreu a visita à casas dos Videntes, em Aljustrel, à Loca do Cabeço, nos Valinhos, e à Igreja Matriz de Fátima – que pretendeu fornecer uma propedêutica do acontecimento. O Padre Francisco Pereira, orientador dos participantes na visita, explicou:
O que se pretende é fazer perceber que os acontecimentos têm um determinado contexto. Para tal, fomos dar a conhecer o início da vida dos Pastorinhos: primeiro, na casa dos Videntes, com a experiência de vida em família; depois, na Loca do Cabeço, no primeiro momento em que eles foram preparados, pelo Anjo, para as Aparições de Nossa Senhora; e, num terceiro momento, na igreja paroquial, para, a partir da pia batismal, termos a referência da dimensão eclesial e comunitária dos Pastorinhos.
A ponte com a visita ao contexto familiar e comunitário dos Videntes fez-se à noite, num momento de reflexão partilhada. E o referido sacerdote adiantou:
A partir desta experiência, vamos refletir, em grupo, sobre a origem de cada um dos que aqui está, para percebermos o caminho para onde vamos, à luz do acontecimento de Fátima”.
No regresso ao Santuário, os aposentados participaram num momento formativo que relacionou o acontecimento Fátima com a “História da Salvação”. Antes do jantar, foi celebrada a Missa. O dia terminou com a recitação do Rosário.
No dia seguinte, fez-se um percurso por diferentes espaços do Santuário que refletem o impacto histórico do acontecimento Fátima. Após o almoço, decorreu a visita aos túmulos dos Videntes, e à Via Mariae, uma proposta de lectio divina a partir dos vitrais da Basílica de Nossa Senhora do Rosário, que passa pelas cinco estações ali apresentadas.
A partir do tema “Aqui está o meu caminho”, inspirado no escrito “Como vejo a Mensagem através dos tempos e dos acontecimentos”, da Irmã Lúcia, os Encontros de Espiritualidade para Aposentados propõem uma releitura do século passado, suas memórias e dramas, apresentando um olhar de esperança realista sobre o século XXI.
Esta proposta de crescimento espiritual apresenta-se, assim, como uma oportunidade para amadurecer a reflexão sobre o sentido da vida e aprofundar a experiência de Deus, a partir de Fátima, que é uma Mensagem sobre o Coração de Deus e o coração do homem na imagem terna do Coração da Senhora do Rosário.
Está prevista a realização de um segundo turno, já na próxima semana, entre 19 e 22 de março, para o qual estão abertas inscrições.
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E, sim. Que seja sempre um Santuário que nunca para. Muitas ações evangelizadoras, cultuais e culturais e de disponibilidade acolhedora e solidária para com todos, em especial para com os mais fragilizados e com aqueles que têm dificuldade em centrar-se na vida e vida em plenitude!
2018.03.14 – Louro de Carvalho