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sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Este ano de 2017 foi o ano que trouxe mais pessoas à Cova da Iria

Num dos balanços feitos do Centenário das Aparições de Fátima, fizeram-se contas. Assim, de acordo com a Lusa, o Público e o Jornal de Leiria, de 2 de novembro pp, bem como o website do Santuário, as comemorações do Centenário tiveram um custo de cerca de dois milhões e cem mil euros durante os sete anos de preparação e desenvolvimento das iniciativas.
O Padre Vítor Coutinho, vice-reitor do Santuário de Fátima, revelou que os gastos diretamente relacionados com a celebração do Centenário em projetos e iniciativas foram de mais de 1,5 milhões de euros e as despesas com a visita papal cifraram-se em 560 mil euros. Desta vez, como a visita não era de Estado, o Santuário arcou com as despesas inerentes à visita, com exceção das que envolveram as forças e logística da segurança do Papa no território nacional.
Segundo o vice-reitor, as opções tomadas tiveram em conta alguns critérios, nomeadamente:
Enriquecer o conjunto de propostas habituais do Santuário, abranger a diversidade de perfis e de interesses dos peregrinos e visitantes e criar património que permanece como herança para as gerações futuras”.
Durante estes sete anos, o Santuário manteve, em consonância com a sua missão, os apoios sociais em Portugal e no estrangeiro, no valor de 5,3 milhões de euros, e à Igreja em Portugal, a quem foi atribuído 4,9 milhões de euros – num total de 10,2 milhões de euros. Nestes custos “não se incluem algumas obras realizadas”, como o novo Altar do Santuário e o restauro da Basílica de Nossa Senhora do Rosário, como precisou o Padre Carlos Cabecinhas, reitor do Santuário, recusando a divulgação total dos números, enquanto “uma série de questões de caráter tributário”, nos termos da Concordata de 2004, “não estiverem devidamente esclarecidas” – aliás justificação para a não divulgação pública das contas gerais dos Santuário, que têm sido apresentadas ao Conselho Nacional do Santuário de Fátima, que funciona na dependência da Conferência Episcopal, entidade à qual é obrigatória a prestação das contas.
Um outro número revelado foi o número estimado de visitantes desde 2010. O Padre Vítor Coutinho anunciou que participaram em celebrações “cerca de 50 milhões de peregrinos”, sendo que a estimativa dos sete anos é a de que “terão passado pelo Santuário de Fátima mais de 70 milhões de pessoas”. E explicou:
O Santuário contabiliza apenas as pessoas em peregrinação, sendo que muitos milhares de pessoas vêm ao Santuário, fazem as suas devoções e não participam em nenhuma celebração. Fizemos um cálculo, que precisa ser ajustado, mas poderão ser 40% de pessoas que passam aqui e não vão a nenhuma celebração. Por isso, podemos falar com alguma segurança de 70 milhões de pessoas.”.
O reitor do Santuário, no pressuposto de que os números que habitualmente são divulgados correspondem ao dos peregrinos que se registam nos serviços do Santuário, adiantou que, apesar de tudo, existe “a perceção de que, neste ciclo de sete anos, este ano de 2017 foi, sem dúvida, o ano com mais peregrinos”. Segundo o Padre Carlos Cabecinhas, o Centenário: “
Consolidou a internacionalização de Fátima e vem sublinhar a dimensão mundial de Fátima, quer como Santuário quer como mensagem com uma participação que superou as expectativas mais otimistas”.
A variedade de proveniências de peregrinos que, a cada ano, acorrem a Fátima, comprova que este é, de facto um Santuário global”, disse o responsável, aludindo, em particular, ao “aumento significativo” de peregrinos estrangeiros e acrescentando que, agora, o “grande desafio” do Santuário é “manter a oferta cultural”, “diversificada e de qualidade”, a que ficaram habituados os peregrinos, aliás na esteira do que determina a Carta Apostólica em forma de Motu Proprio Sanctuarium in Ecclesia. E rematou:
Pretendemos mantê-la [a oferta cultural], não com este ritmo e com intensidade deste septenário, mas manter muitos dos pontos e dos aspetos desta oferta. Estamos precisamente na fase de programação de um novo ciclo pastoral a prever a manutenção de uma parte significativa dessa oferta.”.
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O reitor do Santuário de Fátima falou do ciclo celebrativo, construído em volta de três palavras, “memória, gratidão e compromisso” e referiu que, nestes anos, decorreram conferências, cursos, simpósios e congressos, concursos, exposições e espetáculos – que mostraram a “atualidade” da Mensagem de Fátima, traduzida em particular nas celebrações religiosas e nas peregrinações – tendo ficado justamente em destaque a “grande peregrinação” de 12 e 13 de maio, presidida pelo Papa, com a canonização dos Santos Francisco e Jacinta Marto.
Para o padre Carlos Cabecinhas, para quem estes sete anos ajudaram à “redescoberta, aprofundamento e vivência” da Mensagem de Fátima, que tem um forte “impacto” na vida de muitas pessoas, manifestou a intenção de “manter a oferta cultural” aos peregrinos após o Ano Jubilar em Fátima, que se conclui a 26 de novembro, encerrando o ciclo de celebrações do Centenário das Aparições. Assim, a partir do dia 3 de dezembro, começa um novo ciclo de três anos, que pretende dar continuidade a esta dinâmica. E, para o efeito, a jornada de abertura do novo ano pastoral decorrerá no dia anterior, no Centro Pastoral Paulo VI.
O reitor do Santuário de Fátima informou, além disto, que as consequências dos sismos na região central da Itália levaram a um “adiamento” da exposição prevista para 2018 na Praça de São Pedro, Vaticano.
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E, mostrando que a vida do Santuário de Fátima continua na sua pujança, grupos provenientes de Portugal, Alemanha, Espanha, Itália, França, Irlanda e Estados Unidos encheram por completo, no passado dia 5 de novembro, a Basílica da Santíssima Trindade que  acolheu a missa dominical das 11 horas, pois, durante o inverno, as missas que tinham lugar no Altar do Recinto de Oração passam habitualmente para esta grande Basílica, tal como não se faz a procissão do Santíssimo Sacramento aos domingos no Recinto e se cantam as vésperas às 17,30 horas na Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima.
Na sua homilia, o reitor do Santuário desafiou os milhares de peregrinos a serem coerentes, humildes e atentos aos irmãos.
Alertando para as “tentações que nos seduzem” e o “risco que todos corremos” de nos dizermos cristãos e as nossas ações e atitudes demonstrarem o contrário ao denunciarem “a nossa falta de coerência”, o Padre Cabecinhas sublinhou que o Evangelho proclamado este domingo desafia os cristãos a três atitudes: “coerência, serviço e humildade”.
Lembrando que a palavra do Evangelho convoca “à coerência, ao espírito de serviço por amor ao próximo e à humildade”, o responsável pelo Santuário interpelou os peregrinos:
É verdade que nos dizemos cristãos mas, porém, até que ponto as nossas atitudes e ações mostram que somos realmente cristãos ou, pelo contrário, nos desmentem mostrando a nossa falta de coerência”?
Assegurando que “precisamos de acolher a palavra de Deus trazendo-a para a vida, dando coerência à fé que professamos e à vida que levamos”, o sacerdote lembrou “um defeito” que acompanha todas as pessoas e que reside na motivação com que fazemos as coisas, que “não pode ser outra senão o amor a Jesus e ao próximo”:
Não devemos fazer as coisas para sermos vistos” nem para “merecermos o louvor e o reconhecimento dos outros, pois o que está verdadeiramente em causa é servir; o resto é engano e equívoco”.
E lamentou:
Quantas vezes estragamos as nossas ações por causa de uma motivação errada”!
O Padre Cabecinhas enunciou ainda um terceiro desafio colocado a todos os cristãos pelo Evangelho deste XXXI domingo do Tempo Comum e que passa pela “humildade”, deixando de parte a ideia de querer ser sempre o primeiro, para receber privilégios e honras. Com efeito, “a humildade conduz ao serviço”. E, invocando os Pastorinhos como exemplos vivos da coerência, da humildade e do serviço a Deus e ao próximo, disse:
Foram coerentes com a fé; foram fiéis aos apelos do Anjo e de Nossa Senhora e, na sua vida, procuraram sempre esta coerência”.
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Face à eloquente grandeza da espiritualidade fatimita, o Cardeal Pietro Parolin, Secretário de Estado do Vaticano, agradeceu, a 6 de novembro a recetividade que lhe foi prestada e afirmou que Fátima se tornou para elenuma meta espiritual” pessoal e que a “beleza”, a “simplicidade” do lugar e o “fervor” dos peregrinos são propiciadores de um verdadeiro encontro com Deus e com o próximo. A este respeito, escreveu o responsável pela diplomacia da Santa Sé numa carta dirigida ao Santuário de Fátima, na qual agradece a atenção que lhe foi dispensada durante a celebração do Centenário:
Fátima tornou-se para mim uma meta espiritual, onde a simplicidade e a beleza dos lugares, o silêncio e o fervor dos peregrinos ajudam a encontramo-nos connosco, para encontrar Deus e o próximo, sob o olhar materno e cheio de ternura da Virgem Maria”.
É de recordar que o Cardeal se deslocou a Fátima em duas ocasiões no contexto do Centenário: outubro de 2016, altura em que presidiu à última grande Peregrinação Internacional antes do ano do Centenário; e maio de 2017, acompanhando o Papa Francisco, sendo que, a 12 de maio, presidiu à Missa da Vigília, sublinhando que a mensagem de Fátima “é a mensagem central do Cristianismo, é o anúncio de que Jesus ressuscitou e de que é o Senhor da história”.
Na ocasião afirmou que  Fátima pede “perseverança na consagração ao Imaculado Coração de Maria” para alcançar a paz, na certeza de que a oração “nunca é inútil”. E disse:
Neste Centenário das Aparições, agradecidos pelo dom que o acontecimento, a mensagem e o Santuário de Fátima têm sido ao longo deste século, unimos a nossa voz à da Virgem Santa: ‘A minha alma glorifica ao Senhor, (…) porque pôs os olhos na humildade da sua serva. (…) A sua misericórdia estende-se de geração em geração’ (Lc 1, 46-50).”.
Já em outubro de 2016, quando presidiu à Peregrinação Internacional de outubro, afirmava:
Sinto-me feliz por estar aqui, peregrino com todos vós, neste lugar onde se encontram o coração da Virgem Mãe e o coração da Igreja”.
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Mostrando a vitalidade do Santuário e da mensagem no exterior – depois de uma imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima ter percorrido, durante 2 meses, as 12 dioceses da Coreia do Sul (dedicada a Nossa Senhora em 1841, quando a Santíssima Virgem Maria da Imaculada Conceição se tornou padroeira do país), quando os fiéis pediram pela paz na península coreana – a Imagem n.º 1 da Virgem Peregrina de Fátima viaja até ao Santuário italiano de San Giovanni Rotondo. Esta deslocação excecional prende-se com a ligação existente entre o Padre Pio de Pieltrecina e Fátima e ocorrerá no momento da peregrinação de 15 a 27 de novembro no Santuário italiano de San Giovanni Rotondo, onde se encontram os restos mortais daquele sacerdote, que tinha forte ligação a Fátima.
A peregrinação mariana contará com a participação de eminentes figuras da igreja local, com destaque para o Cardeal Fernando Filoni, Prefeito para a Congregação para a Evangelização dos Povos, que presidirá à Eucaristia dominical, no dia 19 de novembro pelas 10 horas, na igreja de São Pio de Pietrelcina, construída em 2004 e onde se encontram os restos mortais do Padre Pio.
Durante a peregrinação, além da Eucaristia, será meditado o Rosário e será feita a consagração do Santuário ao Coração Imaculado de Maria, nomeadamente no dia 17 de novembro, dia da festa de Santa Elisabetta  D'Ungheria, patrona da Ordem Franciscana Secular.
No dia 26 será translada uma relíquia do corpo do padre Pio, até à igreja de Santa Maria das Graças, e a Missa será presidida por Monsenhor Rino Fisichella, Presidente do Conselho Pontifício para a Nova Evangelização.
Recorde-se que, aos 72 anos, o padre Pio foi vítima de uma pleurisia que o obrigou a ficar imobilizado na cama durante vários meses, sem grande esperança de recuperação. Por coincidência, uma imagem da Virgem Peregrina de Fátima teve de fazer escala técnica em San Giovani Rotondo e,  ao vê-la da janela do quarto, acenou pedindo-lhe a sua intercessão para a melhoria do estado de saúde, o que acabou por suceder. Era agosto do ano de 1959 e o Padre Pio só viria a falecer em 1968, no seu quarto conventual, com o terço entre os dedos repetindo o nome de Jesus e de Maria. Foi beatificado no dia 2 de maio de 1999 pelo Papa João Paulo II e canonizado no dia 16 de junho de 2002.
Atualmente, na cidade onde passou grande parte de sua vida, San Giovanni Rotondo, ergue-se um Santuário mariano, visitado anualmente por centenas de milhares de peregrinos de todo o mundo. O antigo convento capuchinho, de 1540, onde viveu o santo, a igreja de Santa Maria das Graças e o moderno santuário dedicado ao místico santo Pio formam um complexo onde se vive uma forte piedade popular, assumindo-se como o segundo maior santuário de Itália.
A Imagem n.º 1 da Virgem Peregrina do Rosário de Fátima, feita segundo indicações da Irmã Lúcia, foi oferecida pelo bispo de Leiria e coroada solenemente pelo arcebispo de Évora, em 13 de maio de 1947. A partir dessa data, a Imagem percorreu, por diversas vezes, o mundo inteiro, levando consigo uma mensagem de paz e amor.
A génese deste percurso remete para o ano de 1945, após o fim da II Guerra Mundial, quando um pároco de Berlim propôs que uma imagem da Senhora de Fátima percorresse todas as capitais e cidades episcopais da Europa até à fronteira da Rússia. A ideia foi retomada em abril de 1946, por um representante do Luxemburgo no Conselho Internacional da Juventude Católica Feminina e, no ano seguinte, no dia da coroação, teve início a primeira viagem. Depois de mais de meio século de peregrinação, em que ela visitou 64 países dos vários continentes, alguns deles por diversas vezes, a Reitoria do Santuário de Fátima entendeu que não deveria sair mais, a não ser por alguma circunstância extraordinária.
Em maio de 2000, foi colocada na exposição Fátima Luz e Paz, onde foi venerada por dezenas de milhar de visitantes. Passados três anos, mais precisamente a 8 de dezembro de 2003, Solenidade da Imaculada Conceição, a Imagem foi entronizada na Basílica de Nossa Senhora do Rosário de Fátima, tendo sido colocada numa coluna junto do altar-mor. E voltou a sair, a 12 de maio de 2014, para visita às comunidades religiosas contemplativas existentes em Portugal, que decorreu até 2 de fevereiro de 2015, e, depois, a todas as dioceses portuguesas, de 13 de maio de 2015 a 13 de maio de 2016.
Acresce referir que Imagens Peregrinas da Virgem de Fátima, em ano centenário, visitaram vários países e regiões em dificuldade e/ou em grande devoção – como Venezuela, Brasil, França, Holanda, Angola, República Tcheca, Luxemburgo, em um total de 14 destinos.

2017.11.10 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 24 de agosto de 2017

As eleições em Angola e a semipassagem de testemunho

Eleições e resultados

Mesmo antes de serem conhecidos os resultados finais oficiais das eleições, o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola) anunciou ter a “maioria qualificada assegurada” e a eleição de João Lourenço para Presidente da República, o que a UNITA contesta, pelo que pede À CNE (Comissão Nacional Eleitoral) a divulgação dos resultados reais. O secretário do Bureau Político do partido ganhador para as questões políticas e eleitorais disse a este respeito:
“Temos vindo a fazer a compilação dos dados que os nossos delegados de lista nos têm remetido, das atas-síntese que obtiveram das assembleias de voto a nível de todo o país. E, numa altura em que temos escrutinado acima de cinco milhões de eleitores, o MPLA pode garantir que tem a maioria qualificada assegurada.”.
Tal declaração foi produzida no quadro da informação transmitida hoje, dia 24, cerca das 11,50 horas, na sede nacional do MPLA, em Luanda. Assim, João Martins assegurou:
“É com tranquilidade que podemos assegurar que o futuro Presidente da República será o camarada João Manuel Gonçalves Lourenço e o futuro vice-Presidente da República será o camarada Bornito de Sousa Baltazar Diogo”.
Este anúncio surgiu quando ainda decorria o escrutínio das 12 512 assembleias de voto, que incluem 25.873 mesas de voto, e quando a CNE, no seu pronunciamento, durante a madrugada, não avançava resultados provisórios nem prazos para o efeito, contra o que era expectável.
Na sede do MPLA, no centro de Luanda, está reunido o “estado-maior” da campanha eleitoral do partido que dirige os destinos de Angola desde 1975, tendo João Martins reconhecido a necessidade de passar uma mensagem de tranquilidade aos apoiantes, pelo que, apesar de os dados oficiais serem os que forem publicados pela CNE, aquando do anúncio dos resultados definitivos das eleições, assegurou:
“Nós constatamos essa necessidade. É por demais a pressão, quer da comunicação social, quer da nossa massa militante, de todos os que apostaram no nosso projeto, na proposta do MPLA, no nosso candidato, e tínhamos necessidade de os tranquilizar de que o MPLA tem assegurada a maioria qualificada”.
Cedo, o secretário daquele Bureau Político anunciava aos jornalistas que a vitória do partido nas eleições gerais do dia 23, é “inequívoca e incontornável”. Com efeito, logo após o cabeça de lista e vice-presidente do partido, João Lourenço, ter abandonado a sede do partido, João Martins disse aos jornalistas:
“A vitória do MPLA é inequívoca, praticamente incontornável, e ela está-se a consolidar em termos numéricos e acreditamos que nas próximas horas já podemos começar a anunciar os números que são ansiados pelos cidadãos”.
Os resultados anunciados pelo MPLA surgem à margem da contagem oficial da CNE, que informou, na noite de 23, que estava a decorrer a contagem nas mesas de voto das eleições gerais, processo que permitia a elaboração das atas de operações eleitorais e síntese do processo de votação. Em conferência de imprensa, Júlia Ferreira, porta-voz da CNE, disse que a contagem dos votos era feita nas mesas de voto e, depois, eram elaboradas as atas, que são também entregues aos delegados de lista das forças concorrentes presentes nas mesas. De facto, as atas são entregues às comissões municipais eleitorais e, posteriormente, remetidas às comissões provinciais eleitorais, para efeitos de apuramento provincial.
Relativamente à ata-síntese da assembleia de voto, a responsável deu a indicação de que
“tão logo seja enviada para os centros de escrutínio provinciais e para o centro de escrutínio nacional, a CNE estará em condições de passar a divulgar os resultados provisórios, que são feitos com base na ata-síntese das assembleias de voto”.
Para tanto, a CNE reunirá o seu plenário para um balanço daquilo que foi o ato eleitoral. Numa análise provisória do ato eleitoral em si, a porta-voz do órgão eleitoral afirmou que “o ato eleitoral correu sob feição”, destacando o “papel cívico, ordeiro, de respeito pela legalidade, pelas instituições angolanas”, assumidos pelos eleitores.
A votação decorreu entre as 7 e as 18 horas do dia 23, em todo o país (mas os eleitores que estivessem dentro das assembleias de voto tiveram a oportunidade de votar, pelo que as assembleias fecharam às 19,30 horas), e a CNE indicou dever anunciar nas próximas horas os resultados preliminares da eleição. Mais de 9,3 milhões de angolanos estavam inscritos para escolherem, entre 6 candidatos, o sucessor de José Eduardo dos Santos – que não integrou qualquer lista.
A estas quartas eleições gerais da história angolana (desde a independência, em 1975) concorreram: o MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), desde sempre no poder; a UNITA (União Nacional para a Independência Total de Angola); a CASA-CE (Convergência Ampla de Salvação de Angola – Coligação Eleitoral); o PRS (Partido de Renovação Social); a FNLA (Frente Nacional de Libertação de Angola); e a APN (Aliança Patriótica Nacional). O cabeça de lista pelo círculo nacional do partido (ou coligação de partidos) mais votado é automaticamente eleito Presidente da República e chefe do executivo, segundo a Constituição, moldes em que decorreram as eleições de 2012. Na verdade, a Constituição aprovada em 2010 prevê a realização de eleições gerais a cada 5 anos, elegendo 130 deputados pelo círculo nacional e mais 5 deputados pelos círculos eleitorais de cada uma das 18 províncias do país (total de 90).
***
Como ficou suposto, o vice-presidente da UNITA, Raúl Danda (segundo atrás de Isaías Samakuva), contestou o anúncio de vitória do MPLA nas eleições, exortando a CNE “a ter a coragem de divulgar os resultados provisórios reais” que chegam aos partidos. A isto, disse à agência Lusa:
“Não sei de onde o MPLA está a tirar este resultado. Nós estamos a falar daquele que é o resultado real, e que estamos à espera que a CNE tenha coragem de divulgar. Não sabemos porque não o fez até agora.”.
Assegurando que os resultados que lhe estão a chegar contradizem o anúncio, referiu:
“O resultado que nos está a chegar das mesas e das atas-síntese das assembleias de voto, que devem estar afixadas, contradizem completamente isso que o MPLA está a tentar dizer. […]. Não é só o MPLA que está a fazer contagem. A UNITA também se preparou para fazer contagem e estamos a fazê-lo com base nas atas, nas contagens feitas nas assembleias de voto.”.
De acordo com a contagem paralela e provisória do principal partido da oposição, o MPLA estava naquele momento com uma votação pouco acima dos 40%, seguido da UNITA com mais de 30%. E, segundo Danda, ainda estavam por processar resultados de áreas afetas à UNITA. Só em Luanda, tem de considerar-se o Cacuaco e Viana, com bastante expressão no voto da capital. À medida que os votos são contados, a tendência é o MPLA ir baixando e a UNITA ir subindo.
E aquele responsável da UNITA conclui:
“A informação que temos é que a Cidade Alta [Presidência da República] proibiu a CNE de divulgar os resultados. E porquê? É fácil de saber.”.
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O ambiente das eleições
A porta-voz da CNE, ao ser questionada, se naquelas zonas onde se registou atraso na abertura das assembleias de voto, por questões de logísticas, como avaria de helicópteros, nas zonas de difícil acesso, o prazo poderá ser estendido, rejeitou essa hipótese, aduzindo que, se tal sucedeu, foi uma diferença mínima de 10 a 15 minutos e o que interessa é que os eleitores estejam dentro da assembleia de voto. E referiu o lado positivo do ambiente das eleições, referindo que “os pressupostos e os procedimentos consignados na lei foram escrupulosamente observados”. Júlia Ferreira, que falava aos jornalistas no centro de divulgação dos resultados, após reunião plenária da CNE, frisou a “afluência massiva dos eleitores”, apesar dos relatos que foram divulgados na imprensa a dar conta do contrário.
Porem, apesar de as eleições deverem ocorrer em todo o território, 15 assembleias não tiveram votação, por motivos que se prendem com causas de natureza objetiva – condições climáticas adversas impediram a entrega do material logístico, o que “decorre de uma situação anterior, que teve a ver com o despenhamento de uma aeronave que fazia a distribuição logística”, despenhamento ocorrido  na província do Moxico, uma das afetadas. Assim, a CNE (que tinha até 8 dias para decidir sobre a realização do ato eleitoral nas províncias afetadas) deliberou que os 1.310 eleitores – de Moxico, Lunda-Norte e Benguela – que não votaram, vão poder fazê-lo a 26 de agosto.
Também a Polícia Nacional considerou “estável” o ambiente do ato de votação em todo o país, com o registo de 24 detenções. A situação da segurança ao ato de votação foi dada a conhecer em conferência de imprensa, em que a polícia informou que foram desenvolvidas ações de patrulhamento e vigilância para prevenção e segurança geral, com vista a assegurar a estabilidade da situação operativa no país. Segundo a polícia, procedeu-se à escolta do transporte da logística eleitoral às assembleias de voto e o retorno destas às sedes municipais e provinciais da Comissão Nacional Eleitoral.
No relatório de ocorrências, a polícia aponta a notificação de 27 infrações (24 foram esclarecidas) – que resultaram num total de 24 detidos, 13 por crimes comuns e 14 por infrações eleitorais – ocorridas nas províncias do Huambo, Lunda Norte, Cuanza Sul, Huíla, Moxico e Luanda, Namibe, Benguela, Bié, Uíge e Malange. E destaca como facto relevante a concentração de manifestantes junto de assembleias de voto nos municípios do Huambo, Cachiungo, Bailundo e Longonjo, na província do Huambo, para criar desacatos, tendo sido advertidos e dispersos.
Contudo, a oposição tem outra leitura. Além da UNITA, que vem contestando os resultados, a direção da CASA-CE queixou-se de casos de delegados de lista retirados das mesas de voto durante o escrutínio, situação que a CNE diz desconhecer. Esta posição foi assumida em declarações aos jornalistas três horas após o encerramento das urnas, na sede da segunda força da oposição angolana, pelo seu secretário executivo nacional Leonel Gomes, que classificou a situação como uma “violação gravíssima à lei”.
Também a UNITA, o maior partido da oposição, além da dúvida sobre a fiabilidade dos resultados, denunciou a detenção de varias pessoas pela polícia, em número ainda por apurar, na província do Huambo, no dia do processo de votação. A informação foi hoje avançada pelo secretário provincial do Huambo da UNITA, Liberty Chiaka, que fala igualmente em alegados disparos efetuados pela polícia para dispersar as pessoas.
Depois, o grande número de assembleias de voto e outros problemas levaram a alguma confusão. De facto, alguns eleitores no município do Cazenga, província de Luanda, passaram a manhã à procura das respetivas assembleias de voto. Gabriel Tchova disse à Lusa:
“Tenho aqui esta ficha na mão e até agora estou a circular para ver se consigo encontrar a minha assembleia de voto, porque não sei onde fica o bairro 11 de Novembro”.
Também Verónica Ngangula Nzuzi esteve com dificuldades em localizar a sua assembleia de voto, afirmando que nem mesmo os agentes de educação cívica eleitoral aos quais recorreu conseguiram esclarecer onde deve votar. E explicou:
“Estou aqui já a circular desde as 7 horas e ainda nem sei onde votar. Atualizei o meu cartão, mas não consigo localizar esta referência que meteram aqui no papel.”.
Porém, em ronda por outras assembleias de voto, no município do Cazenga, não foram constatados casos do género acima descritos. E, na assembleia de voto número 686, no distrito urbano do Hoji-Ya-Henda, a votação começou às 7,10 horas e decorreu sem sobressaltos, como atestou à Lusa o presidente da assembleia, Inácio Francisco Almeida:
“Até aqui, o processo está a decorrer normalmente, do jeito como nós esperávamos. Estamos a trabalhar com nove mesas e também nove cadernos eleitorais. A nossa previsão, à luz do que está nos cadernos eleitorais, é atender 500 eleitores por cada mesa.”.
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A posição da CEAST
A Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST) veio exortar o poder político a que “aceite o que o povo exprimiu de forma livre nas urnas”, depois da divulgação dos primeiros resultados das eleições presidenciais no país.
A posição dos bispos angolanos, expressa através do porta-voz da CEAST, José Imbamba, veio na sequência do anúncio de que o candidato do MPLA terá ganho as eleições por maioria qualificada e na da verificação de que a UNITA contestou os resultados alegando que os dados que estavam a chegar contradiziam a posição vitoriosa do partido no poder.
A Igreja Católica angolana exprimiu, hoje, dia 24, a importância de uma nação “unida” e em “paz”, independentemente dos resultados eleitorais.
Esta ida às urnas marcou o fim de quase 40 anos de governação do presidente cessante José Eduardo dos Santos. E o candidato agora apontado como vencedor, João Lourenço, tem 63 anos, é atualmente vice-presidente do MPLA e exerceu também os cargos de ministro da Defesa e chefe da direção política das Forças Armadas de Angola.
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Haverá mesmo uma mudança de ciclo político?
Angola votou para escolher o sucessor de José Eduardo dos Santos. Será que este sai mesmo? Dizem os observadores que tudo depende da perspetiva. Dos Santos deixa de ser Presidente da República de Angola. Todavia, não deixa de ser Presidente do MPLA. Ironicamente, vai ser Presidente do Presidente da República – o que leva alguns analistas a dizer que, apesar de se encerrar um ciclo com a saída de cena de José Eduardo dos Santos, pode não se inaugurar um novo, já que o presidente eleito estará rodeado das mesmas forças que o presidente emérito, tendo este, pelos vistos, acautelado o controlo político do território e das instituições, pondo em lugares-chave recentemente pessoas da sua inteira confiança. E, mais que os outros itens do estatuto do presidente emérito, de índole social, económica e logística (para si e família), choca a permanência da imunidade, o que não o deixa, como seria de desejar, acima de qualquer suspeita. O presidente eleito tem mantido um silêncio considerado prudente.
É, ainda, de recordar que a família Dos Santos controla algumas das mais importantes e valiosas empresas angolanas (e tem participação em importantes empresas portuguesas). E, a política, para ser eficaz, tem de gerir e melhorar as questões socioeconómicas e financeiras. Será o novo Governo capaz de inverter a crise económica angolana resultante da baixa drástica do peço do petróleo? Será o próximo Presidente capaz de fazer a total desminagem do território, pondo Angola a rendibilizar os seus recursos naturais, a produzir e a distribuir riqueza, a partir da policultura? Será o novo Presidente capaz de minorar o campo da corrupção?
Se assim não for, o 23 de agosto não passará de mera passagem de testemunho formal, provavelmente mais democrática, mas só isso. E então será uma semivitória do povo, uma semipassagem de testemunho político. Contribuirá para a verdadeira reconciliação almejada pela CEAST?

2017.08.24 – Louro de Carvalho