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domingo, 9 de fevereiro de 2020

Sal da terra e luz do mundo


São as duas marcas constitutivas do discípulo de Cristo segundo o texto mateano (Mt 5,13-16), proclamado e meditado na Liturgia da Palavra do 5.º domingo do Tempo Comum no Ano A.
Na sequência da proclamação das “Bem-aventuranças” (Mt 5,1-12) e no contexto do “Sermão da montanha” (cf Mt 5-7), Jesus no cimo do monte, depois de, qual novo Moisés, apresentar a nova Lei que rege a nossa caminhada de novo Povo de Deus na história, expõe as várias indicações práticas da aplicação da lei das bem-aventuranças, os “mandamentos” da nova aliança.
O texto de Mateus, neste discurso, inclui um conjunto de “ditos” de Jesus que, embora possivelmente tenham sido pronunciados em ocasiões diversas, se destinavam a oferecer à comunidade concreta a que o autor do 1.º Evangelho se dirigia um conjunto de ensinamentos basilares para a vida cristã.
As parábolas do sal e da luz põem em relevo o papel do discípulo de Cristo e de todo o povo de Deus no mundo. Por isso, elas devem ser lidas na perspetiva do “eu” e do “nós”, ou seja de cada um dos seguidores de Jesus e do conjunto dos seus seguidores, a Igreja, novo Povo de Deus.
Com as metáforas do sal e da luz, Jesus Cristo conseguiu a fórmula definidora da missão e do papel daqueles que respondem ao pelo a viver no espírito das bem-aventuranças.
Na verdade, o sal mistura-se na comida para lhe dar sabor, deixando ela de ser insípida, e também assegura a conservação dos alimentos e a sua incorruptibilidade, tal como os purifica das impurezas daninhas como os bichinhos que os querem atacar e contaminar.
Ora significando aquilo que é inalterável, no Antigo Testamento era usado para significar o valor durável dum contrato. Assim, falar duma “aliança de sal” (Nm 18,19) significava falar de um compromisso permanente, perene (cf 2 Cr 13,5). Também o profeta Eliseu transformou água ruim em água potável adicionando-lhe um punhado de sal (cf 2RS 2,19-22) e, no Levítico, lê-se:  
Deitarás sal em todas as oblações; e não permitirás que falte o sal da aliança do teu Deus sobre a tua oblação: a todas as tuas ofertas juntarás sal” (Lv 2,3).
Recorde-se que o rito do Batismo, antes da reforma conciliar, incluía a ministração do sal para que o neófito, com o sal da sabedoria, permanecesse incólume para a vida eterna, ministração que hoje é facultativa. Na verdade, o sal é para o gosto o que a luz é para a visão.
Nestes termos, se falta o sal, faltam as garantias da purificação, do sabor (da sapiência das coisas divinas), da conservação, da perenidade. E cabe aos discípulos, que o Senhor considera o sal da terra, ser esse sal e fornecê-lo ao mundo para impedir ou anular a corruptibilidade, o sensabor, as impurezas. Assim, dizer que os discípulos são “o sal da terra” significa que os discípulos são chamados a trazer ao mundo essa “qualquer coisa mais” que o mundo não tem e que dá sabor à vida dos homens; que da fidelidade dos discípulos ao programa de Jesus, as “bem-aventuranças”, depende a perenidade da aliança entre Deus e os homens e a permanência do projeto salvador e libertador de Deus no mundo e na história. Sobre o sal, Marcos regista:
Todos serão salgados com fogo. O sal é coisa boa; mas, se o sal ficar insosso, com que haveis de o temperar? Tende sal em vós mesmos e vivei em paz uns com os outros.” (Mc 9,49-50).
Todavia, o Mestre acautela quanto à possibilidade de o sal perder a sua força. É uma advertência forte aos discípulos. De facto, se o sal perder a capacidade de dar sabor, conservação e incorruptibilidade, é inútil: serve para deitar fora e ser pisado pelos homens. Por isso, esta referência à perda do sabor é um alerta aos discípulos para a necessidade de um compromisso efetivo com o testemunho do “Reino”: se os discípulos de Jesus recusarem ser sal e se demitirem das suas responsabilidades, o mundo guiar-se-á pelos critérios mundanos do egoísmo, da injustiça, da violência, da perversidade, da exploração do homem pelo homem. E estará cada vez mais distante da realidade do “Reino” que Jesus veio implantar. Nesse caso, a vida dos discípulos terá sido inútil. Não servem para servos, amigos, irmãos e apóstolos.
Para explicar a metáfora da luz, Jesus utiliza duas imagens. A primeira, a da cidade situada sobre um monte, que não podemos esconder, remete para Is 60,1-3, onde se evidencia a luz de Deus que deve brilhar sobre Jerusalém e de lá iluminar todos os povos. Os judeus aplicavam esta passagem a Israel: o Povo de Deus devia ser o reflexo da luz libertadora de Jahwéh diante de todos os povos da terra. A segunda imagem, a da lâmpada colocada sobre o candelabro para alumiar os que estão em casa reforça a mensagem da primeira (mas é mais familiar e manipulável): quem adere ao Reino deve ser uma luz que ilumina e desafia o mundo. E, como o discípulo não tem luz própria, poderá ver-se aqui uma referência ao Servo de “Servo de Jahwéh” de Is 42,6 e 49,6, apresentado como a “luz das nações” e uma aproximação ao dito de Jesus “Eu sou a luz do mundo. Quem me segue não andará nas trevas, mas terá a luz da vida(Jo 8,12).
O certo é que, na perspetiva de Jesus, a presença da luz de Deus para alumiar as nações dar-se-á, doravante, nos discípulos, isto é, naqueles que, aceitando o apelo do “Reino”, aderiram à nova Lei enunciada por Jesus. Agora identificam-se com a “nova Jerusalém” e com o novo “Servo de Jahwéh” (“como o Pai me enviou eu vos envio a vós”, Jo 20,21), de onde a proposta libertadora de Deus irradia e a partir de onde ela transforma e ilumina a vida de todos os homens.
Isto não quer dizer que o discípulo, à semelhança dos fariseus, dê dar nas vistas, se mostre, escolha lugares de visibilidade donde as massas o admirem e aplaudam. Pretende o Senhor sublinhar que a missão das testemunhas do Reino deve levá-las a dar testemunho, a questionar o mundo, a ser uma interpelação profética, a ser um reflexo da luz de Deus. Não pode cada um viver a sua vidinha deixando de se preocupar com os outros ou acumular cursos e leituras, mas ficar-se com a sua ciência, bem como acumular riquezas e fazê-las gravitar em torno de si mesmo. Os discípulos não podem esconder-se, demitir-se da missão, fugir às responsabilidades.
As boas obras que os discípulos devem praticar e deixar ver serão um testemunho do “Reino” para os homens, que hão de glorificar o Pai que está nos Céus.
Essas boas obras compreendem o que Isaías já prescreve como sendo uma luz no meio das trevas, a cura das feridas, a simpatia do Senhor para quando O invocarmos: repartir o pão com quem tem fome; dar pousada aos pobres sem abrigo; levar roupa a quem a não tem; não virar as costas ao semelhante; e deixar a opressão, os gestos de ameaça e as palavras ofensivas (cf Is 58,7-10). Mas é preciso ir mais adiante: cultivar a misericórdia (compadecer-se, amar, perdoar), a mansidão, a pureza de coração (honestidade, lealdade, verticalidade), a paz (recusar a lei do mais forte, promover a reconciliação) e a justiça. A missão dos discípulos é, pois, dar sabor e incorruptibilidade ao mundo e iluminá-lo, garantindo a perenidade da aliança entre Deus e os homens. É promover a eficácia do Reino e gravitar em torno dele e não do mundo ou de si mesmo.
O centro de interesse do discípulo é Cristo crucificado e não a retórica (1Cor 2,2); o testemunho tem de incidir sobre o Ressuscitado; o palco de atuação é a Terra dos homens; a meta é a Jerusalém celeste, que almejamos a partir desta peregrinação; e há muito caminho por desbravar e percorrer. Importa, para tanto, que o discípulo, sempre aprendiz, não saia da escola de Cristo.
2020.02.09 – Louro de Carvalho

terça-feira, 28 de novembro de 2017

O Evangelho de São Marcos no Ano B

O próximo dia 3 de dezembro, primeiro domingo do Advento, marca o início do Ano litúrgico, tendo o ano litúrgico anterior sido encerrado com a Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo Rei do Universo. Como é o Ano B, toma-se geralmente como leitura do Evangelho na celebração litúrgica da Eucaristia dominical o texto de São Marcos.
Apesar de escrito num grego simples e mesmo popular, o texto reveste-se de intenso encanto literário, o que desmente a ideia de alguns que veem neste Evangelho uma simples manta de retalhos com base em relatos soltos de que Marcos seria herdeiro e fiel depositário.
A tradição antiga, que remonta ao séc. II, atribui a obra do autor do segundo Evangelho canónico a Marcos, identificado com João Marcos, filho de Maria, em cuja casa os cristãos se reuniam para orar (vd At 12,12). Com Barnabé, seu primo, Marcos acompanha Paulo durante algum tempo na primeira viagem missionária (vd At 13,5.13; 15,37.39) e depois aparece com ele, prisioneiro em Roma (vd Cl 4,10), mas liga-se mais a Pedro, que o trata por ‘meu filho’ na saudação final da sua 1.ª Carta (1 Pe5,13). Marcos terá escrito o Evangelho pouco antes da destruição de Jerusalém, que aconteceu no ano 70 e talvez logo após o Apóstolo Paulo ser martirizado por volta de 64 d.C.
Apesar de não estar entre os discípulos originais de Jesus Cristo, Marcos ter-se-á convertido posteriormente e tornou-se assistente do Apóstolo Pedro e pode ter escrito seu Evangelho com base no que aprendeu com ele.
Marcos e sua mãe, Maria, viveram em Jerusalém; sua casa era um local de reunião dos primeiros cristãos (vd At 12,12). Marcos deixou Jerusalém para ajudar Barnabé e Saulo (Paulo) em sua primeira jornada missionária (vd At 12,25; 13,4-6.42-48). Mais tarde, Paulo escreveu que Marcos estava com ele em Roma (vd Cl 4,10; F1m 1,24) e elogiou Marcos como companheiro, que era “muito útil para o ministério” (2Tm 4,11). Pedro referiu-se a ele como “meu filho Marcos” (1Pe 5,13), sugerindo a proximidade do seu relacionamento.
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O livro, de redação tersa e ritmo veloz com frases carregadas de grande dramatismo, reflete a catequese que Pedro, testemunha presencial dos acontecimentos, espontâneo e atento, ministrava à sua comunidade em Roma. É o menos extenso dos quatro livros do Evangelho e situa-se no Cânon entre os dois mais extensos Mateus e Lucas e a seguir a Mateus, o de maior uso na Igreja. Até ao século XIX, Marcos foi pouco estudado e comentado, para não dizer praticamente esquecido. Santo Agostinho anacronicamente considerava-o como um resumo de Mateus. Agora, é comum afirmar-se que todos os outros Evangelhos, sobretudo os Sinóticos, supõem e utilizaram mais ou menos o texto de Marcos, assim como o seu esquema histórico-geográfico da vida pública de Jesus: Galileia, Viagem para Jerusalém, Jerusalém.
A investigação aprofundada desde o século XIX, em torno da origem e da génese dos Evangelhos, trouxe Marcos à luz da ribalta; hoje, é geralmente considerado o mais antigo dos quatro, embora se creia que antes circulavam em folhas soltas relatos e extratos de discursos escritos em aramaico tradicionalmente tidos como “os ditos do Senhor”. Na verdade, a obra do evangelista supõe uma fase mais primitiva da reflexão da Igreja acerca do Acontecimento Cristo, que a originou; e só ele conserva o esquema da mais antiga pregação apostólica, sintetizada em Atos 1,22: começa com o baptismo de João (1,4) e termina com a Ascensão do Senhor (16,19).
Inicia-se repentina e dramaticamente e mantém um ritmo rápido, relatando acontecimentos numa sucessão muito veloz. Marcos usa com frequência os termos logo e imediatamente, devido ao efeito do ritmo rápido e de ação. Apesar de mais de 90% do material de Marcos ser encontrado nos relatos de Mateus e Lucas, os relatos de Marcos incluem detalhes adicionais que nos ajudam a apreciar mais a compaixão do Salvador e a reação das pessoas ao Seu redor (vd Mc 9,14-27 e Mt 17, 14-18). Por exemplo, Marcos relatou a receção ampla e entusiástica do Salvador pelo povo da Galileia e em outros locais no início de Seu ministério (vd Mc 1,32-33.45; 2,2;3,7-9; 4,1). E narrou cuidadosamente a reação negativa dos escribas e dos fariseus, cuja oposição rapidamente passou de apenas ter pensamentos céticos (vd Mc 2,6-7) para conspirar a fim de destruir Jesus (vd Mc 3,6).
Entre os temas importantes vêm as questões sobre quem era Jesus e quem entendeu a sua identidade, bem como o papel do discípulo (diferente da multidão, embora recrutado de entre as mais pessoas) como alguém que precisa de “tomar a sua cruz e seguir Jesus” (Mc 8,34). Ademais, Marcos é o único a relatar a parábola da semente que cresceu sozinha (vd Mc 4,26-27), a cura dum surdo na região de Decápolis (vd Mc 7,31-37) e a cura gradativa dum cego em Betsaida (vd Mc 8,22-26).
Este Evangelho contém pormenores – como citações traduzidas do aramaico, expressões latinas e explicações dos costumes judeus – que parecem direcionados a um público de romanos e pessoas de outras nações pagãs, bem como os que se converteram ao cristianismo, mais provavelmente em Roma e por todo o Império Romano. Muitos creem que Marcos pode ter estado com Pedro em Roma durante o período marcado por duras provas de fé para muitos membros da Igreja que residiam em diversos locais do Império Romano.
Um terço deste Evangelho relata os ensinamentos e as experiências do Salvador durante a última semana da sua vida terrena. Marcos prestou testemunho de que o sofrido Filho de Deus finalmente triunfou sobre o mal, o pecado e a morte – testemunho que significou que os seguidores do Salvador não precisavam de ter medo, porque, ao enfrentarem perseguição, provações ou mesmo a morte, estariam a seguir o Mestre. Deviam perseverar com confiança, sabendo que o Senhor os ajudaria e que a suas promessas serão sempre cumpridas.

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Evidenciando alguma pobreza de vocabulário e uma sintaxe menos cuidada, Marcos é parcimonioso em discursos, apresenta apenas dois discursos de fôlego: o capítulo das parábolas (cap. 4) e o discurso escatológico (cap. 13). Mas é exímio na arte de contar, apresentando muitas narrações – o que faz com nítido realismo e sentido do concreto, enriquecendo os relatos com pormenores e dando-lhes vida e cor. A este respeito, são típicos os casos do possesso de Gerasa, da mulher com fluxo de sangue e da filha de Jairo, no cap. 5. Presta especial atenção às palavras textuais de Jesus em aramaico, por ex. “Talitha qûm” (5,42) e “Eloí, Eloí, lemá sabachtáni” (15,34). E é de referir o dia-tipo da atividade de Jesus, descrito na assim chamada “jornada de Cafarnaúm” (1,21-34). De entre as perícopas e simples incisos próprios de Marcos, menciona-se o único texto bíblico em que Jesus aparece como “o Filho de Maria” (6,3), ao contrário dos outros que falam de Maria, mãe de Jesus.
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Pode dizer-se, porventura de uma forma demasiado simples, que Marcos se torna espectador com os leitores acompanhando-os na realidade ora normal ora surpreendente. Como eles, acompanha e vive o drama de Jesus de Nazaré, desenrolado em dois atos, coincidentes com as duas partes deste Evangelho. Ao longo do primeiro, vai-se perguntando: Quem é Ele? E Pedro responderá por si e pelos outros, de forma direta e categórica: “Tu és o Messias!” (8,29). O segundo ato pode esquematizar-se com pergunta-resposta: De que maneira se realiza Ele, como Messias? Morrendo e ressuscitando (8,31; 9,31; 10,33-34).
Este Evangelho apresenta, assim, uma Cristologia simples e acessível: Jesus de Nazaré é verdadeiramente o Messias que, pela Morte e Ressurreição, demonstrou, como o reconheceu o centurião romano, ser verdadeiramente o Filho de Deus (15,39) que a todos possibilita a salvação. “Pois também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por todos” (10,45). Foi esta a finalidade da sua encarnação.
Este plano é desenvolvido ao longo das 5 secções em que podemos dividir o Evangelho de Marcos, segundo a Bíblia dos Capuchinhos: I. Preparação do ministério de Jesus (1,1-13); II. Ministério na Galileia (1,14-7,23); III. Viagens por Tiro, Sídon e a Decápolis (7,24-10,52); IV. Ministério em Jerusalém (11,1-13,37); V. Paixão e Ressurreição de Jesus: (14,1-16,20).
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Ou de outra maneira:
Do cap. 1 ao cap. 4, Jesus é batizado por João Batista e começa a pregar, chama discípulos e realiza milagres. Conforme a oposição contra Ele aumentava, ensinava mais por parábolas.
Do cap. 5 ao cap. 7, Jesus continua a realizar muitos milagres, demonstrando a sua compaixão pelas pessoas. Depois que João Batista é morto, Jesus alimenta mais de cinco mil pessoas e caminha sobre as águas. E ensina contra falsas tradições.
Do cap. 8 ao cap. 10,  Jesus Cristo continua a realizar milagres. Pedro testifica que Jesus é o Cristo. O Salvador profetiza três vezes sobre o seu sofrimento, a sua Morte e a sua Ressurreição, mas os discípulos não entendem plenamente o significado. Ele ensina-os sobre a humildade e o serviço exigidos aos discípulos.
E do cap. 1 ao cap. 4,  durante a última semana da sua vida terrena, o Salvador entra em Jerusalém, ensina os discípulos, sofre no Getsémani e é crucificado. Por fim, Jesus Cristo ressuscita e sobe aos Céus.
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Tal como os outros evangelistas, Marcos apresenta-nos a pessoa de Jesus e o grupo dos discípulos como primeiro modelo da Igreja.
Em relação ao Jesus Cristo, mais do que em qualquer outro Evangelho, Jesus, “Filho de Deus” (1,1.11; 9,7; 15,39), revela-se profundamente humano, de contrastes por vezes desconcertantes: é distante (4,38-39) e acessível (8,1-3), repele (8,12-13) e acarinha (10,16); impõe “segredo” acerca da sua pessoa e do bem que faz e manda apregoar o benefício recebido; manifesta limitações e até aparenta ignorância (13,32). É verdadeiramente o “Filho do Homem”, título da sua preferência. Desta sorte, a pessoa de Jesus torna-se misteriosa, porque encerra em si, conjunta e simultaneamente, um homem verdadeiro e um Deus verdadeiro. Vai residir aqui a dificuldade da sua aceitação por parte das multidões que O seguem e mesmo por parte dos discípulos.
Na primeira parte deste Evangelho (1,14-8,30), Jesus mostra-se mais preocupado com o acolhimento do povo, atende às suas necessidades e ensina; na segunda parte (8,31-13,37) volta-se preferencialmente para os Apóstolos que escolheu (3,13-19): e com sábia pedagogia vai-os formando, revelando-lhes progressivamente o plano da salvação (10,29-30.42-45) e introduzindo-os na intimidade do Pai (11,22-26).
Quanto ao Discípulo de Jesus, este Jesus, tão simples e humano, é também muito exigente para com os discípulos. Desde o início da sua pregação (1,14), arrasta as multidões atrás de si e alguns discípulos seguem-no (1,16-22). Porém, após a escolha dos Doze (3,13-19), começa a desenhar-se uma certa separação entre este grupo mais íntimo e as multidões. Todos seguem Jesus, mas de modos diferentes. Este seguimento exige esforço e capacidade de abertura ao divino, que se manifesta em Jesus de forma velada e indireta através dos milagres que Ele realiza. É por meio dos milagres que o discípulo descobre no Filho do Homem a presença de Deus, vendo em Jesus de Nazaré o Filho de Deus. Porque a pessoa de Jesus é essencialmente misteriosa, para o seguir, o discípulo precisa de fé a toda a prova: sente-se duvidoso, inseguro e tentado a abandoná-lo, vendo nele apenas o carpinteiro de Nazaré. Por isso, Jesus é também um incompreendido: os seus familiares pensam que Ele os trocou por uma outra família (3,20-21.31-35); os doutores da Lei e os fariseus não aceitam a sua interpretação da Lei (2,23-28; 3,22-30), nas questões do sábado e da expulsão dos demónios; os chefes do povo e dos sacerdotes veem-no como um revolucionário perigoso e dilemático para o seu “status quo” (11,27-33). Por isso, desde o início do Evangelho, se desenha o destino de Jesus: a morte (3,1-6; 14,1-2).
Mas, os discípulos “de dentro” não são muito melhores do que “os que estão de fora” (4,11). Também eles sentem dificuldade em compreender o mistério da pessoa de Jesus, que tem que lhes explicar as parábolas: parecem-se com os cegos (8,22-26; 10,46-53), que olham e não veem, e com os surdos que ouvem sem escutar (cf 4,11).
A incompreensão é uma das mais negativas caraterísticas do discípulo no texto de Marcos. É este o motivo por que, ao confessar o messianismo de Jesus (8,29), Pedro pensava num Messias (termo hebraico que significa “Cristo” em grego) mais político que religioso e que libertasse o povo dos dominadores romanos. Isso aparece claro quando Jesus desvia o assunto e anuncia pela primeira vez a sua Paixão dolorosa (8,31). Pedro, não gostando de tal messianismo, começa a repreender o Mestre, vindo este a mandar-lhe que se retire e a acusá-lo de defender os interesses dos homens e não os de Deus (8,31-33). O que ele queria era como todos os discípulos de todos os tempos um cristianismo sem esforço e sem grandes compromissos, quando o Mestre trazia um messianismo radical a mover inteligências, corações e atitudes. A revolução é de dentro para fora e não de fachada e transitória.
Apesar da incompreensão manifestada pelos discípulos em relação aos seus ensinamentos, Jesus não desanima e continua a ensiná-los na perspetiva da cruz e do serviço pela Vida (8,31-38; 9,30-37; 10,32-45). O efeito não foi muito positivo: no fim da caminhada para Jerusalém e depois de Ele lhes ter recordado as dificuldades por que iria passar a sua fé (14,26-31), ao verem-no atraiçoado por um dos Doze e preso (14,42-45), “deixando-o, fugiram todos” (14,50-52):
Então, os discípulos, deixando-o, fugiram todos. Um certo jovem, que o seguia envolto apenas num lençol, foi preso; mas ele, deixando o lençol, fugiu nu.”.
É Pedro negou-O, como o fazemos tantas vezes, que também o traímos e fugimos dele.
Este é, certamente, o Evangelho onde qualquer cristão se sentirá mais bem retratado.
2017.11.28 – Louro de Carvalho

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Os mandamentos de que dependem toda a Lei e os Profetas

A perícopa do Evangelho de Mateus (Mt 22,34-40; replicada em Mc 12,28-34 e Lc 10,25-28) assumida para 3.ª Leitura da missa do XXX domingo do Tempo Comum no Ano A versa o duplo mandamento do amor, que é a origem, o estilo e a meta de toda a missão da Igreja e dos cristãos no mundo que nos cerca e com que nos entrosamos. O anúncio audaz deste mandamento – promulgado pela excelência da vontade divina no Antigo Testamento, integrante do shema israelita lembrado e rezado todos os dias e consumado por Cristo no dinamismo neotestamentário (cf Mt 5,17-18) que Ele inaugurou – convoca a uma vida inteira de justiça na liberdade e na fraternidade. A sua recordação e proclamação na liturgia dominical de encerramento do mês missionário (outubro) é a declaração da pertinência da realização do mandamento do Senhor: amar a Deus acima de tudo e amar o próximo como a nós mesmos; e configura o propósito de transformação da vida para o desempenho cabal da missão.
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No Evangelho de Mateus, a abordagem do mandamento do amor vem no contexto da terceira controvérsia de Jesus com os grupos religiosos do judaísmo. A primeira foi, com os herodianos e fariseus, sobre a questão da licitude do pagamento do tributo a César (Mt 22,15-22); a segunda foi com os saduceus (Mt 22,23-33) sobre a ressurreição dos mortos, pois este grupo rejeitava-a em absoluto, visto que admitia apenas a lei escrita, o Pentateuco, e não os pontos de doutrina elaborados mais tarde pela tradição bíblica (vg: imortalidade da alma, ressurreição dos corpos e existência de seres espirituais). Por isso, colocaram-lhe uma questão banal do tipo da borût rabínica, querendo fazê-lo entrar numa discussão semisséria. Baseados no preceito moisaico da lei do “levirato”, de que, se um homem morrer sem filhos, o irmão deve casar com a viúva para lhe dar descendência (vd Dt 25,5), perguntaram ao Mestre o que se passaria no caso de haver 7 irmãos, em que o primeiro casou e morreu sem deixar filhos, vindo o irmão a casar com a viúva – o que sucedeu ao 2.º e sucessivamente até ao 7.º (caso improvável, mas evocado para demonstração de argúcia). Tendo morrido, depois, a mulher, a questão era a de saber de qual dos 7 será a mulher na ressurreição (ou seja, na vida ultraterrena), já que todos a tiveram. Jesus, acusando-os de não compreenderem as Escrituras nem o poder de Deus (censura pungente aos ouvidos dos saduceus), retorquiu que, na ressurreição, os homens não terão mulheres nem as mulheres, maridos; serão como os anjos de Deus no céu (o que, em certa medida, sucede na fase terrestre da Igreja com a virgindade por causa do Reino dos Céus, sinal profético da futura condição escatológica). E, quanto à ressurreição dos mortos, recordou-lhes, sem mencionar palavras dos livros recentes da sabedoria ou dos profetas, o que Deus disse logo a Moisés: Eu sou o Deus de Abraão, o Deus de Isaac e o Deus de Jacob (Ex 3,6), sendo que Ele não é Deus dos mortos, mas Deus dos vivos.
Registe-se que até a teologia do judaísmo rejeitava o materialismo grosseiro dos saduceus. Ora, caso se negue a ressurreição dos corpos e a imortalidade da alma, como se entende o poder vivificante de Deus para ressuscitar Jesus. E, se Jesus não ressuscitou, para que serve o Antigo Testamento e a fé da Igreja? Para que prestará o mandamento do amor?
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Voltando à 3.ª controvérsia, esta com os fariseus, admirados com a resposta de Jesus aos saduceus, vemos um deles, um doutor da Lei, a interrogar o Mestre. O Evangelho leva-nos, de novo, a Jerusalém, nos últimos dias de Jesus antes de padecer. Os líderes judaicos já tinham feito a sua escolha e estavam com ideias definidas acerca da proposta de Jesus: uma proposta que não vem de Deus, pelo que devia ser rejeitada. Jesus tinha, pois, de ser denunciado, julgado e condenado de forma exemplar. Para concretizar esse objetivo, os responsáveis procuravam argumentos com vista à acusação formal. É neste ambiente que Mateus situa as controvérsias entre Jesus e os grupos religiosos. Tais controvérsias apresentam-se como tramas bem urdidas, destinadas a surpreender afirmações polémicas de Jesus, passíveis de serem usadas em tribunal para obter a sua condenação. E vai-se de controvérsia em controvérsia até se chegar a uma suscitada pelo próprio Cristo – a 4.ª, em que Jesus desafiou os fariseus reunidos a responderem o que pensavam do Messias (Mt 22,41-46).
Ao perguntar a Jesus qual é o maior mandamento da Lei, os fariseus procuram demonstrar que Jesus não sabe interpretar a Lei e que, portanto, não é digno de crédito. De facto, a questão do maior mandamento da Lei, uma questão não pacífica, era, no tempo de Jesus, objeto de debates intermináveis entre os fariseus e os doutores da Lei. Era uma disputa segundo o modelo da derek eres rabínica, isto é, dizia respeito a normas de boa conduta. A preocupação em atualizar a Lei, para que ela respondesse a todas as questões da vida do dia a dia, tinha levado os doutores da Lei a deduzir um conjunto de 613 preceitos, dos quais 365 eram proibições “sob grave” e 248 ações a praticar, que obrigavam “sob leve”. Tal “multiplicação” casuística dos preceitos legais lançava a questão das prioridades nesta floresta preceptiva: Todos os preceitos têm a mesma importância ou há algum mais importante do que os outros? E este é o teor da pergunta feita a Jesus para o experimentar, numa intenção malévola, como aponta Mateus ou Lucas, embora este o faça noutro contexto: depois da oração de ação de graças ao Pai pela revelação dos mistérios do Reino aos humildes, com a subsequente conversa com os discípulos, regressados da missão que Jesus lhes confiara, e com prelúdio à parábola do bom Samaritano.
Ainda hoje nos questionamos, nem sempre com a melhor intenção, sobre o essencial cristão.
Já o Evangelho de Marcos apresenta o escriba como uma personalidade aberta, sensata e merecedora de elogio – pessoa, enfim, que não estava longe do Reino de Deus (cf Mc 12,34).  
Todavia, a resposta de Jesus, clara e inapelável, ultrapassa o estreito horizonte da pergunta e vai muito mais além, situando-se ao nível das opções profundas a que o homem deve pôr mãos. O importante, na ótica de Jesus, não é definir o mandamento mais importante, mas encontrar a raiz de todos os mandamentos. E essa raiz, na perspetiva de Cristo, gravita em torno de duas coordenadas: a das ordenadas, por onde cresce em altura e profundidades o amor a Deus; e a das abcissas, por onde se expande e intensifica o amor ao próximo. A Lei e os Profetas são apenas comentários a estes dois mandamentos. Repare-se que os cristãos a quem se dirige Mateus referenciavam a expressão “a Lei e os Profetas”, a significar todos os livros inspirados do Antigo Testamento, que apresentavam a revelação de Deus (cf Mt 5,17; 7,12). Dizer, portanto, que “nestes dois mandamentos se sintetizam a Lei e os Profetas” significa que encerram toda a revelação de Deus, contêm a totalidade da proposta de Deus para os homens.
A originalidade deste sumário da Lei não está na ideia de amor a Deus e ao próximo, bem conhecidas do Antigo Testamento. Jesus limita-Se a citar o Deuteronómio (Dt 6,5), no atinente ao amor a Deus, e o Levítico (Lv 19,18), no respeitante ao amor ao próximo. A originalidade do ensinamento de Cristo reside no facto de Ele os aproximar um do outro, pondo-os em perfeito paralelo e fazendo-os da mesma natureza, bem como no facto de Jesus simplificar e concentrar toda a revelação de Deus nestes dois mandamentos.
De acordo com as narrativas evangélicas, Jesus não se preocupou em excesso com os rituais da religião judaica, nem viveu obcecado com a oferta de dons materiais a Deus. A sua grande preocupação foi, em contraponto, discernir a vontade do Pai e cumpri-la fiel e amorosamente. “Amar a Deus” é pois, na ótica de Jesus, prestar permanentemente toda a atenção aos projetos do Pai e procurar concretizar, na vida quotidiana, os seus planos. Ora, na vida de Jesus, o cumprimento da vontade do Pai passa por fazer da vida uma oblação total de amor aos irmãos e, se necessário, até ao dom total de si mesmo. Assim, “amor a Deus” e “amor aos irmãos” estão intimamente associados, nunca inseparáveis sob pena de sermos mentirosos. Não se trata de dois mandamentos, mas duas faces do mesmo. “Amar a Deus” é realizar o seu projeto de amor, que se concretiza na solidariedade, partilha, serviço, dom da vida aos irmãos. Diz-nos Jesus:
Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei. […]. Vos sereis meus amigos se fizerdes o que eu vos mando.” (Jo 15,12.14).
Este texto limita-se a explicar que é preciso “amar o próximo como a si mesmo”. A expressão “como a si mesmo” não significa qualquer espécie de condicionalismo, mas a necessidade imperiosa de amar totalmente, de todo o coração. Porém, noutros textos de Mateus, Jesus explicita aos discípulos que é preciso amar os inimigos e orar pelos perseguidores (cf Mt 5,43-48). É, pois, de amor sem limites que se trata, amor sem medida, cálculo ou tabela, que não distingue entre bons e maus, amigos e inimigos. Aliás, Lucas, ao narrar o episódio, acrescenta-lhe, como ilustração pedagógica a história parabólica do “bom samaritano”, explicando que o “amor aos irmãos” pedido por Jesus é incondicional e deve atingir todo o irmão que encontrarmos nos caminhos da vida, mesmo que ele seja estrangeiro, marginal ou inimigo (cf Lc 10,25-37).
Já o preceito do amor a Deus, imposto a Israel no Antigo Testamento (vd Dt 6,4-5) não se esgota no cumprimento das exigências exteriores do culto, mas implica a parte mais interior do homem, coração, alma, mente. Este preceito basilar da religião hebraica era lembrado ao israelita na sua oração diária (que iniciava a liturgia da sinagoga e que todo o israelita piedoso a rezava três vezes ao dia voltado para Jerusalém), “shema, Israel” – Escuta Israel. Na verdade, a narrativa paralela de Marcos cita explicitamente o texto desta oração:
Ouve, Israel, o Senhor nosso Deus é o único Senhor; amarás ao Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todo o teu espírito e com todas as tuas forças”. 
E o outro mandamento, o do amor ao próximo como a si mesmo (citando Lv 19,18) é da mesma natureza que o primeiro. E Marcos atesta que não há mandamento maior que estes. Também o decálogo (que Jesus não cita) se resume nos mandamentos do amor a Deus (do 1.º ao 3.º mandamento) e do amor ao próximo (do 4.º ao 10.º mandamento). Com efeito, não podemos ficar nem no enunciado platónico do amor idealista nem no seu conceito romântico sentimentalista ou piegas. É preciso traduzi-lo em ação solidária orientada pela fé, baseada na esperança e no estilo da caridade assente, não só na esmola avulsa, mas sobretudo na dádiva estruturante que procura a justiça.
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O texto paralelo de Lucas termina com a pergunta do doutor da Lei: “E quem é o meu próximo?”, pois em Lv 19,18 o próximo é alguém do próprio povo. E Jesus responde com a parábola do Bom Samaritano: o próximo é aquele de quem me aproximo, podendo ser um estrangeiro, um inimigo, um marginal ou alguém desconhecido. Basta que precise do meu cuidado. João lembra que o mandamento do amor a Deus e ao próximo são inseparáveis: “Quem não ama o seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê” (1Jo 4,20).
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Também as outras Leituras deste XXX domingo ilustram o sentido do mandamento do amor.  
A perícopa do Êxodo tomada como 1.ª Leitura (Ex 22,20-26) apresenta-nos Deus como o defensor dos pobres, representados na viúva e no órfão. E adverte os israelitas: “Se fizerdes algum mal à viúva e ao órfão, minha cólera se inflamará contra vós” (cf Ex 22,21-23). Tal advertência surge no tempo subsequente à destruição de Samaria (722 a C) e anexação do Reino do Norte pela Assíria, momento em que muitos israelitas se refugiaram em Judá, especialmente em Jerusalém. Eram estrangeiros, refugiados de guerra e, sobretudo, viúvas e órfãos. Neste contexto, surge a lei que os protege. O motivo para este gesto de solidariedade é: “vós fostes estrangeiros na terra do Egito”. O próprio Deus apresenta-se como o provedor da viúva e do órfão. Da mesma forma, também os que pertencem ao próprio povo devem ser protegidos, sendo proibido cobrar juros por empréstimos ou tomar o manto do pobre como penhor. Condena-se aqui a usura ou onzena, que Gil Vicente chama feia e filha da maldição, bem como a penhora dos bens considerados essenciais para a sobrevivência, simbolizados no manto do pobre. E o motivo não é um capricho de Deus mas as suas entranhas de misericórdia: “porque sou misericordioso” (Ex 22,26). Jesus dirá, por isso: “Sede misericordiosos como vosso Pai é misericordioso” (Lc 6,36).
A 2.ª leitura (1Ts 1,5c-10) mostra-nos Paulo a alegrar-se com os Tessalonicenses, por terem acolhido “a Palavra com a alegria do Espírito Santo”. Abandonaram os ídolos, convertendo-se à mensagem do Evangelho, “para servirem o Deus vivo e verdadeiro”. Entre as perseguições, tornaram-se imitadores de Paulo e do próprio Cristo. O que os animava era a fé na ressurreição e a esperança da vinda do Senhor, que fez deles um exemplo, conhecido de todos na região:
Vós vos convertestes, abandonando os falsos deuses, para servir a Deus, esperando o seu Filho” (1Ts 1,9-10).
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Os preceitos do Senhor, que proclamam o amor, têm lugar apenas no contexto anti-idolátrico em que se evidencia a superabundância da misericórdia e da ternura de Deus, que nós temos de replicar, não por virtude própria, mas pela dinâmica da imitação que Deus nos permite e que nos aconselha. Por outro lado, seguir a Lei na perspetiva e no estilo de misericórdia e entrega sem reservas e sem medida dá a alegria que o mundo não pode dar e de que só o discípulo pode ter e que só o profeta pode testemunhar. É a verdadeira alegria nascida do amor misericordioso. Diz o Papa Francisco na sua Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, n. 7:
 “Posso dizer que as alegrias mais belas e espontâneas, que vi ao longo da minha vida, são as alegrias de pessoas muito pobres que têm pouco a que se agarrar. Recordo também a alegria genuína dos que, mesmo no meio de grandes compromissos profissionais, souberam conservar um coração crente, generoso e simples. De várias maneiras, estas alegrias bebem na fonte do amor maior, que é o de Deus, a nós manifestado em Jesus Cristo.”.
É a alegria livre, transformadora, incondicionada, seguidora da Matemática do Reino, em que, quando mais damos, mais ganhamos. É a alegria repleta da generosidade encarnada em gestos, transformadora da vida, produtora de entusiasmo, paz interior e vontade de viver. É alegria transbordante, que não se enclausura no coração de quem a possui, mas extravasa os limites, quaisquer que sejam, para se encarnar em ações que testemunham, que falam por si, sem necessidade de explicações verbalizadas, como expressa Paulo na 1.ª Carta aos Tessalonicenses:
Assim, nós já nem precisamos falar, pois as pessoas mesmo contam como vós nos acolhestes e como vos convertestes, abandonando os falsos deuses para servir ao Deus vivo e verdadeiro” (1Ts 1,8c-9).
Amar a Deus e amar ao próximo é um movimento único que conduz à plena realização. É o coroamento da Lei e dos Profetas, é a fonte da alegria – para que esta liturgia dominical no convoca como filhos e filhas a quem Deus tanto ama e de quem urge a relação da fraternidade.
2017.10.27 – Louro de Carvalho