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quinta-feira, 12 de setembro de 2019

A exposição “A viagem mais longa: a primeira volta ao mundo”


Foi inaugurada, em Sevilha, com a presença dos Reis de Espanha, Felipe e Letizia, a exposição indicada em epígrafe, através da qual o Arquivo Geral das Índias de Sevilha mostra, pela primeira vez, os principais documentos e crónicas que permitiram o estudo da primeira volta ao mundo efetuada há 500 anos, uma longa viagem. E esta exibição aporta uma nova forma de ver e sentir a proeza que começou na Península Ibérica e mudou a forma de entender o mundo.  
Financiada pela Unicaja e organizada pela Ação Cultural Espanhola e pelo Ministério da Cultura e Desporto, a propósito do V centenário da 1.ª circum-navegação de Fernão de Magalhães/Juan Sebastián Elcano, ficará no Arquivo Geral das Índias até 23 de fevereiro e viajará, depois, para o Museu São Telmo de São Sebastião. E há planos para fazer uma exposição em conjunto com Portugal, mas, segundo os comissários, “ainda é só uma ideia”.
A mostra exibe documentos reunidos que permitem acompanhar os 245 homens que iniciaram há 5 séculos a maior aventura marítima de todos os tempos. São 106 peças a compor a mostra que tem também apoio nos suportes audiovisuais e que, no caso dos documentos, quase na sua totalidade originais – testemunhos dos protagonistas, crónicas, apontamentos... – todo o conjunto ordenado cronologicamente dá uma visão completa desta proeza.
Os documentos pertencem a distintas instituições de outros países europeus, entre eles Portugal, que contribui com a carta de Maximiliano Transilvano e com a crónica da viagem de António Pigafetta, guardada na Biblioteca da Universidade de Coimbra. Do Arquivo Nacional da Torre do Tombo veio a carta do capitão António de Brito a Dom João III de Portugal, a relação de um piloto genovês, as instruções dadas a João de Cartagena e a Real Cédula a Magalhães.
E Antonio Fernández, historiador e um dos três comissários da exposição, referindo que “a colaboração com as entidades portuguesas tem sido perfeita, só temos palavras de agradecimento”, assegura: 
Não há um herói único e os protagonistas, de diferentes nacionalidades, devem partilhar a glória da proeza”.
A mostra, além de contar um acontecimento-chave da História, evidencia o lado humano dos navegantes e homenageia o “espírito explorador do homem e a sua atitude frente ao desconhecido”. Um português, Fernão de Magalhães, desenhou o projeto, mas seria um espanhol, Juan Sebastián Elcano, a completar uma viagem que durou três anos e que, em todo o seu conjunto, foi uma epopeia humana. A este respeito, Braulio Vázquez, também comissário da mostra e para quem é importante destacar que “só no momento em que a expedição esteve unida logrou continuar em frente”, sublinha que, através desta mostra, “queremos mostrar a verdade do que aconteceu, o lado mais escuro e o mais luminoso”.
A versão portuguesa do Tratado de Tordesilhas, guardada no Arquivo Geral de Sevilha, é o arranque da exposição que estará aberta até 23 de fevereiro. E Guillermo Morán, o terceiro comissário, afirma:
Desenhamos com os testemunhos mais significativas os documentos vertebrais da exposição”.
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As especiarias foram o motor da viagem quando as Molucas (ou Ilhas das Especiarias) causaram um conflito diplomático entre Portugal e Castela. Lembram os comissários que, de facto, Castela tem mais poder económico que Portugal e capta o talento de Magalhães que apresenta o seu projeto na Corte espanhola e se impõe aos outros pela sua competência e revela “o sonho de chegar ao Oriente pelo Ocidente”. Convicto de que as Molucas estavam na parte espanhola, Magalhães convence Carlos I (Carlos V de Áustria) e encontra o financiamento para a expedição. Como se lê nas Capitulações de Carlos V com Fernão de Magalhães e Rui Faleiro sobre a viagem às Molucas, “o rei advertiu-o muito para não entrar no território português”. E o comissário Guillermo Morán diz que este conjunto de documentos, que detalham todos os preparativos da viagem, a burocracia do momento, “é o que permitiu organizar um projeto desta dimensão e, por isso, o império do ultramar espanhol foi o maior e o mais duradouro” (diz ele).
O percurso pela exposição dá a conhecer muitos detalhes de uma viagem longa, difícil e com a tripulação dividida. Lembra Braulio Vázquez:
Magalhães praticou muito o secretismo e causou muitos problemas, teve muitos adversários. Foi um grande marinheiro e homem de ação, mas não foi bom como gestor de recursos humanos. Teve muitos dos homens contra ele.”.
O motim contra Magalhães, a passagem pelo estreito que tem o seu nome e a sua morte nas Filipinas são momentos de destaque na mostra, que dá detalhes do regresso da nau Vitória com Sebastián Elcano como capitão que completou a primeira circum-navegação. Os comissários, indicando que Pigafetta não dedica uma palavra a Elcano, ele era protegido de Magalhães, entendem que a sua narrativa “é uma fonte incompleta”, embora tenha sido o seu texto que teve uma grande divulgação mundial. Antonio Fernández sublinha em Magalhães a liderança:
Com as ideias claras, sabia o que queria, não desistiu e acreditou no seu projeto. Grande navegador com poucos amigos.”.
Entre os amigos não estava Juan Sebastián Elcano, que ficou do outro lado durante o motim. Mas na passagem pelo estreito que viria a ser de Magalhães não se tiveram em conta os factos passados e essa união foi determinante para cumprir o objetivo.
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Entre os documentos mais conhecidos encontra-se a carta de Maximiliano Transilvano, o secretário de Carlos I, “que permitiu que a notícia da primeira volta ao mundo fosse conhecida em todo lado”. E há outros mais desconhecidos, mas com informação que tem sido essencial no mundo náutico como a Rota de Francisco Albo, “piloto da nau Vitória”, cujas anotações “são essenciais para perceber como é o mundo hoje”, como sublinha Braulio Vázquez. A carta de González de Espinosa, da nau Trindade, tem a sua própria história: escrita na Índia para pedir ajuda ao Rei, entrou por contrabando por Portugal e chegou ao seu destinatário.
No balanço final desta aventura, chegaram a terra 18 homens acompanhados de dois nativos e, posteriormente, outros 13 homens que tinham sido feitos prisioneiros. Com 5% de rentabilidade económica da viagem, “o custo humano foi terrível”, segundo Morán, mas teve “uma grande dimensão intelectual, científica, heroica e tecnológica” e “foi o trunfo do Renascimento”.
A imagem da Virgem da Vitória, quase no fim da mostra, lembra o último capítulo da longa viagem. Os navegadores, um dia depois do regresso à terra, foram em procissão, descalços e com velas, até à Virgem da Vitória, no bairro de Triana, “porque, quando estavam à beira da morte, se tinham encomendado a ela”.
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Gianluca Barbera, jornalista italiano, inventa como narrador um Elcano velho, um companheiro de Pigafetta, e conta a seu modo a epopeia de Magalhães, que diz ser um drama shakespeariano. O DN entrevistou-o em Lisboa, em março, já a pensar no 10 de agosto, o dia em que fez 500 anos o início da viagem a partir de Sevilha. Na verdade, o jornalista esteve então em Lisboa a convite do Instituto Italiano de Cultura e deu uma palestra no auditório do Museu da Farmácia.
Agora a efeméride, a primeira de muitas da epopeia que durou três anos, serve de pretexto à publicação e, entretanto, saiu a edição portuguesa de “Magalhães” (Editorial Presença).
A 10 de agosto de 2019, fez 500 anos que partiram de Sevilha as 5 carracas da expedição de Magalhães ao serviço de Espanha. Entre as muitas biografias do navegador publicadas, a maior parte de historiadores, destaca-se agora a versão romanceada, de Gianluca Barbera, italiano como Antonio Pigafetta que escreveu o relato da viagem financiada por Carlos V e que terminou com a circum-navegação pelo espanhol Juan Sebastián de Elcano.
Tem havido polémica entre portugueses e espanhóis, sobretudo nos jornais, a propósito da celebração dos 500 anos da viagem. Espanha sustenta que a expedição foi 100% espanhola, paga por Carlos V, enquanto Portugal relembra que sem o génio do navegador nada teria sido possível e que este era português. Sobre isto, o italiano diz que é uma polémica um pouco como a existente em torno da nacionalidade de Cristóvão Colombo.
No respeitante a Magalhães, refere ter lido a “História Concisa de Portugal, de José Hermano Saraiva, que não menciona Magalhães. E diz que, apesar de se tratar de uma história concisa, Magalhães foi um grande português, e a viagem foi um grande feito de um português.
Revelando que ia editar o seu livro em Portugal, na Presença, e que notava interesse no Brasil, pela Autêntica, mas que não via interesse da parte de editoras espanholas, diz que escreveu sobre Magalhães, mas que este continua um mistério, “não a nível da nacionalidade, mas como pessoa”. E, depois de muito ter investigado, chega à conclusão de que “Magalhães é uma daquelas figuras que pertencem a todos, como acontece, por exemplo, com Leonardo Da Vinci, que acaba por ser muito mais do que um italiano”, é “património da humanidade”. E explicita:
São, pois, personagens que transcendem a sua nacionalidade. Magalhães é património da humanidade. Um português património da humanidade.”.
Curiosamente assegura que, “se perguntarmos hoje a um jovem de 20 anos em Itália de que país era Magalhães, irá responder que era italiano”, porque, segundo o uso da época, “o nome foi latinizado” e, depois “italianizado” em Magellano, “o que faz que muitas personagens pareçam italianas para quem estudou menos os assuntos”. Obviamente, “uma pessoa mais culta sabe que foi português, mas também que a expedição foi financiada inteiramente pelo rei de Espanha e por armadores espanhóis e que não foi investido um tostão que fosse de Portugal”.
Questionado pelo facto de ser um italiano a escrever sobre Magalhães, mas não escrever sobre Colombo ou Vespúcio, grandes marinheiros italianos, embora ao serviço de outros países, disse:
Quando quis escrever um romance que contasse a grande epopeia das descobertas geográficas do século XVI, pensei em construí-lo em redor de uma figura imaginária, que fosse um misto de Colombo, Vespúcio, Caboto, etc. Mas, quando me envolvi na história de Magalhães, disse que isto era puro Shakespeare, uma tragédia perfeita. Com a morte do herói. Magalhães é melhor do que qualquer herói imaginário.”.
Quanto ao facto de, além da liderança de Magalhães, os principais cartógrafos serem portugueses e se dizer que a Espanha pagou a expedição, mas que a comissão científica era portuguesa, o autor explica:
Na época, tanto Portugal como Espanha faziam grande segredo de tudo o que iam descobrindo sobre os mares. Os navegadores que regressavam com informações preciosas do resto do mundo eram levados a confiar ao arquivo régio esses documentos. Mas Magalhães, que, além de muito ter navegado ao serviço de Portugal, também teve acesso aos arquivos portugueses, consegue ser contratado pelo rei de Espanha por causa desse saber.”.
O essencial de Magalhães era conhecer a existência duma passagem pelo novo continente, uma passagem que estaria entre os paralelos 40 e 50, mas que, “na realidade”, estava ainda mais a sul”. Por outro lado, dizia ter encontrado tal informação em documentos portugueses, o que o tornou credível para Carlos V, que chegou a temer que se tratasse dum espião. E o livro, que é um romance histórico, retrata Magalhães como um herói, alguém que tem, não só o conhecimento científico e técnico, mas também “a coragem de liderar aquela tripulação multinacional e muitas vezes rebelde na travessia do estreito de Magalhães e, depois, a travessia do oceano Pacífico, que é por ele batizado”.
Sobre isso, o romancista afirma categoricamente que “o mérito da expedição é 100% de Magalhães”. Embora o financiamento seja de Espanha, “não só todo o projeto é de Magalhães” como “os espanhóis a bordo fizeram tudo para lhe pôr obstáculos, para o fazer falhar”. Com efeito, os três capitães espanhóis, da Concepcion, da San Antonio e da Victoria, Gaspar de Quesada, Juan de Cartagena e Luiz de Mendonza, fazem-lhe guerra desde o início (outro navio com capitão espanhol, a Santiago, de Juan Serrano, naufraga na Patagónia). E assegura Barbera:
Estão lá para vigiá-lo, porque o rei confiou nele, mas na corte houve conselheiros que sugeriram que o português ficasse sob vigilância porque havia muito dinheiro espanhol envolvido. É sobretudo Cartagena que tem esse papel de vigilante, como inspetor real, e tanto que em certo momento os dois homens disputam quem manda mais. E, se é evidente que quem manda é o almirante, o comandante da armada, na Trinidad, Cartagena exige um poder quase igual e o confronto tornou-se inevitável, com Magalhães a ter uma vitória absoluta.”.
Porém, Magalhães “mostra-se mais inteligente do que o outro, mas não só”, “mostra também que tem um objetivo, sabe o que quer, enquanto os outros estão ali por estar, sem convicção”. Por isso, o mérito é “todo da enorme força de vontade de Magalhães” e o livro diz que “Magalhães é um homem preso a um sonho, uma obsessão, que ao longo da viagem não escuta ninguém, não discute com ninguém”, pelo que “também há tripulantes que temem que o almirante não saiba para onde vai e se revoltam ou desertam”. 
Tratando-se de um homem tão inteligente, que morre nas Filipinas, “numa guerra que lhe é alheia, mas em que faz questão de intervir, em apoio de aliados que mal conhece”, “é vítima de um excesso de confiança, agora que já cruzou o Pacífico e está a chegar próximo das ilhas das especiarias, as Molucas”. E Barbera afirma taxativamente que “morre por exclusiva culpa sua” e explica o que decorre da sua personalidade e do que entende como sua missão:
É o único momento em que Magalhães põe de lado a prudência. Até então tinha-se revelado um calculista, um homem prudentíssimo, ousado, mas prudente. Antes de fazer qualquer coisa, estuda-a a fundo, calcula as possíveis consequências dessas ações. É um homem corajoso, não um temerário. O que é que acontece nas Filipinas? Pela primeira vez, naquele arquipélago que batiza como ilhas de São Lázaro e só mais tarde serão rebatizadas em honra do futuro Filipe II, este navegador profundamente católico convence-se de que Deus está ao seu lado na viagem, de que está a ajudá-lo.”.
E há outros motivos para o excesso de confiança: a experiência anterior de disparar armas de fogo e pôr grandes massas de indígenas; e a ideia generalizada de que os outros povos tinham um temor reverencial aos europeus, vistos como divindades ou semideuses. Porém, como diz Barbera, os habitantes das Filipinas eram diferentes, já conheciam, por exemplo, os árabes, pelo que “não podiam ser confundidos com os indígenas da Patagónia”. Este “foi o primeiro erro de Magalhães, desvalorizar o inimigo” e “o segundo foi não calcular bem a distância a que os navios tiveram de fundear por causa da maré baixa”. E o jornalista romancista explica:
Ficaram muito longe da costa, sem capacidade de bombardear a praia para proteger a fuga dos europeus. O rei da ilha de Cebu segue-o com 1500 guerreiros, e deveria intervir em seu auxílio, mas não o faz. É Magalhães que recusa a ajuda, para poder exibir o poder de fogo europeu. E chega a Mactan, pequena ilha junto a Cebu, sem ter também grandes informações. É a única vez em que passa de corajoso a temerário, até fanático. Deixou-se convencer de que era invencível.”.
Acabando por ser Elcano a assumir a liderança e a trazer o que resta da tripulação para a Europa a bordo da Victoria em 1522, o romance viola um pouco a história imaginando um velho Elcano a fazer a narrativa. O romancista, observando que dele se sabe pouco, considera que, ao chegar, se apropria um pouco do mérito de Magalhães e, para justificar as suas opções, tinha de desacreditar o português. Fora um dos amotinados, poupado por Magalhães por necessidade de gente para continuar a navegação. Os fugitivos da San Antonio no estreito de Magalhães, quando souberam que o almirante morreu, ficaram aliviados por Elcano ser um dos seus.
A narrativa romanceada dá Elcano a trair Magalhães por três vezes: a primeira, no motim; a segunda, quando Magalhães cai ferido e Elcano só pensa em salvar a pele; e a terceira, quando chega a Espanha e tenta ficar com todos os méritos. E Barbera desenvolve:
Recebe títulos e recompensas. Passa a ser o descobridor e circum-navegador do globo. E lança acusações de traição e de violência gratuita sobre Magalhães. Mas o seu destino fora da ficção estava traçado, não chegou a velho. Quando volta a seguir o rumo do Pacífico, poucos anos depois, morre. Morre no Pacífico. É a sua némesis. A vingança que acaba por chegar, a punição pela mentira.”.
Obviamente que Elcano puxa das suas credenciais de mérito: controlou os marinheiros num momento de desespero; e determinou a rota de regresso por mares controlados por Portugal, mas contra as ordens de Carlos V, que não queria provocar Dom Manuel I, pois tinha de ser assim: era uma rota bem mais conhecida.
Ora, para ajudar a esclarecer a verdade da expedição, é vital o relato de Pigafetta, que “está por sua conta, dá a volta ao mundo e escreve tudo o que se passa”. E Barbera vinca:
É o grande defensor da verdade histórica. Para Pigafetta, Elcano não existe. No que escreve dá pouca atenção aos aspetos políticos, mas mesmo assim afirma que os capitães espanhóis faziam guerra em permanência a Magalhães só por este ser português. A personagem central de toda a relação de Pigafetta é Magalhães. E, quando este morre, escreve que morreu quem os guiava. O relato de Pigafetta é entregue a Carlos V e desaparece.”.
A corte espanhola fez desaparecer o relato entregue por Pigafetta, pois “não tinha interesse em que se soubesse o que se passou”; e, em vez de promover a imagem de um português, quiseram fazer crer que foi Elcano a figura-chave. O relato conhecido resulta do facto de o cronista, quando regressou à Itália, ter contado a história e ter sido desafiado a reescrevê-la.
***
Enfim, Magalhães é o herói inquestionável. A viagem era muito longa. Não sei se se poderá dizer que era bom marinheiro e grande homem de ação, mas mau gestor de recursos humanos, como diz Braulio Vázquez. Penso que era difícil de liderar uma expedição tão eclética e com tanto tempo nos mares, mas sobretudo com tanto antagonista nas tripulações. Por outro lado, os grandes homens cometem erros táticos e não deixam de ser grandes. Excessivamente confiante e insuficiente no cálculo da distância a que os navios tiveram de fundear por causa da maré baixa, Magalhães não deixa de ser o homem grande, um dos grandes marcos da época com reflexo indelével no devir histórico.
2019.09.12 – Louro de Carvalho

quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Faleceu o coronel Diamantino Gertrudes da Silva, capitão de abril


A notícia, veiculada por comunicado da Associação 25 de Abril assinado pelo seu presidente coronel Vasco Lourenço, teve quase imediato eco nos diversos órgãos de comunicação social, na blogosfera e nas redes sociais a marcar este 10 de outubro.
Além da sua brilhante carreira militar e do seu desempenho na revolução de 1974, que derrubou a ditadura, Gertrudes da Silva escreveu vários livros e teve papel relevante na explicitação do ideal abrilino com debates em diversos fóruns, nomeadamente em escolas. 

Com efeito, o predito comunicado noticia que o coronel Diamantino Gertrudes da Silva morreu nesta quarta-feira, dia 10, com a idade de 75 anos, e destaca a atividade que desenvolveu no movimento dos capitães e nas operações militares da revolução. Além disso, a Associação 25 de Abril informou que o velório seria, deste dia 10 para o dia 11, na Igreja Nova, em Viseu, e o funeral se realizaria hoje, dia 11, às 16 horas no cemitério de Vila Nova de Paiva.
A respeito do finado, Vasco Lourenço escreve que Diamantino Gertrudes da Silva foi um “militar de Abril de todas as horas” e lembra que “foi o mais antigo dos quatro capitães que em Viseu, no RI14, desenvolveram grande atividade no Movimento dos Capitães”, atividade que “alargaram a toda a zona centro, como dinamizadores da conspiração”. Os outros três capitães subentendidos no texto do Presidente da Associação 25 de Abril eram os capitães António Luís Ferreira do Amaral, Aprígio Ramalho e Arnaldo Carvalhais da Silveira Costeira. Mas é ainda de mencionar o capitão Amândio Almeida Augusto (conhecido em quartéis como o capitão Silêncio).  
Refere ainda o coronel Vasco Lourenço que as militâncias daqueles capitães “envolveram então oficiais de Lamego, Guarda, Coimbra, Aveiro, para só referir as mais significativas”.
Nas operações militares do 25 de Abril, Gertrudes da Silva comandou a companhia que saiu de Viseu, juntamente com as forças oriundas de Aveiro e Figueira da Foz, constituindo o Agrupamento November e tendo um “papel determinante em Peniche”, onde controlou o Forte, que então era uma prisão com presos políticos (lugar de má memória) e, depois em Lisboa.
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Carlos Esperança, no blogue “Ponte Europa”, considera que o herói de Abril, o comandante das tropas sublevadas idas de Viseu, com companhias de Aveiro e da Figueira da Foz, foi uma figura decisiva na gesta heroica da inesquecível madrugada”. E acrescenta:
Não foi fácil a progressão até Lisboa nem pacífica a rendição dos esbirros que vigiavam o Forte de Peniche, que deixou cercado por uma companhia, antes de avançar sobre Lisboa no cumprimento da missão que lhe coube”.
E profere um lamento indireto sobre a forma como a revolução tratou alguns dos seus corifeus menos grados ao poder constituído, mas salientando a grandeza do perfil deste Capitão de Abril:
O melhor aluno do seu curso não foi general, foi um coronel fiel ao ideário de Abril, um capitão de Abril coerente, corajoso e modesto”.
E Vasco Lourenço, já citado, referindo-se ao “núcleo” do RI14, em que pontificou Gertrudes da Silva, diz que se constituiu “como um dos polos de onde irradiaram os valores e os empenhamentos que nos levariam à ação do 25 de Abril de 1974, onde libertámos Portugal e lançámos os alicerces para a Democracia, a Paz e o Desenvolvimento”. E prosseguiu:
Depois dessa manhã libertadora, Gertrudes da Silva empenhou-se profundamente – sempre no RI14 – no processo de consolidação da Liberdade e da Democracia, transformando-se num dos Capitães de Abril mais respeitados no seio dos seus camaradas”.
E, em conclusão, regista:
Portugal ficou mais pobre. Perdeu mais um dos pais da Liberdade e da Democracia. Os militares de Abril e a Associação 25 de Abril perderam um dos seus melhores. Pessoalmente, vejo partir mais um grande Amigo.”.
Também José Eduardo Ferreira, Presidente da Câmara Municipal de Moimenta da Beira, concelho de onde Gertrudes da Silva era natural, endereçou condolências à família referindo em comunicado que “foi um dos nossos maiores cidadãos, com um percurso de vida imaculado e um gosto especial por tudo o que era nosso” com uma notável “grandeza e nobreza de vida e de espírito” do coronel.
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Não será descabido evocar gestos significativos da parte de Viseu aos seus Capitães de Abril.
Assim, a Câmara Municipal, em sua reunião de 10 de dezembro de 2009, tomou conhecimento concordante do despacho do seu Presidente, de 25 de novembro, que atribui o topónimo “Avenida dos Capitães de Abril” ao arruamento com início na Rotunda da Manhosa (Palácio do Gelo) e fim na Rotunda da Poça das Feiticeiras (tendo de permeio a Rotunda Mestre José Loureiro, junto à entrada de Ranhados), em correspondência à proposta feita pela Associação dos Deficientes das Forças Armadas (ADFA) pelos seus 35 anos e pelos mesmos do 25 de Abril.
E a ADFA, na proposta de memória que fez aos capitães de Abril do RI14, relata o curso dos acontecimentos na noite de 24 para 25 de abril, de que se faz síntese (cf site da CM de Viseu):
Os Capitães de Abril de Viseu, constituídos em unidade de missão, comandaram todas as operações. Convocaram oficiais subalternos, a quem informaram da situação e nomeação de oficiais para controlar Central Telefónica, posto de rádio da ordem pública, posto de rádio do STM, reforço da vigilância periférica, montagem de guarda às viaturas e vigilância sob pessoal que pernoitava no Quartel. Depois, convocaram furriéis e cabos milicianos, informaram o resto das tropas e formaram a Companhia que avançaria para Lisboa, tomando o Forte de Peniche. Porque os militares do Forte não se renderam, foi cercado com Obuses apontados, deslocando-se o resto do agrupamento para Lisboa, até que, mais tarde, se conseguiu a rendição, assim se evitando um banho de sangue.
Estes homens, que tudo arriscaram – a vida, a carreira militar, o seu bem-estar e da família – na luta pelos valores da liberdade e democracia, “merecem e são credores do respeito, da admiração e reconhecimento de todos!”. Diz a história que antes, durante e nos dias seguintes à revolução, a missão destes capitães “foi muito difícil, dentro e fora do Quartel do RI14”.
A ação dentro do Quartel iniciou-se com a montagem dos Dispositivos de segurança por um piquete reforçado e com a constituição das forças de reserva, divididas em equipas, montagem de metralhadoras Breda e de Morteiros 81mm em pontos estratégicos.
Os militares que se encontravam dentro do Quartel e não aderiram, foram postos fora, outros dirigiram-se para o Tribunal Militar, aonde se apresentaram e onde alguns tinham julgamento. Aos que dormiam/pernoitavam fora do Quartel, ao chegarem, foi-lhes comunicada a situação, tendo sido vedada a entrada aos não aderentes.
É de anotar que, na tarde do dia 24 de abril, o Coronel José Azevedo, novo Comandante do RI 14, a mando do QG/RMC trazia diretrizes para demover os Capitães de Abril de participarem no movimento. No ato de posse, perante formatura geral, apelou insistentemente à necessidade de todos os militares lhe obedecerem, se as circunstâncias o viessem a exigir, “isto porque os Comandos da Região Militar desconfiavam de que algo estava em marcha”. Porém, “os Capitães de Abril de Viseu não temeram as pressões”, pois estavam decididos: “sabiam do viver do povo, do que se passava nos campos, que se trabalhava de sol a sol, nas fábricas, da miséria a que estava votado e da chacina que era a guerra colonial”. Ao sinal radiofónico, avançaram. E, fruto da ação da força e do querer, apesar de saberem que punham em risco carreiras, vidas e família, “cumpriram tudo a que se propuseram; e a revolução foi um êxito e tiveram no povo das Beiras de Viseu a aderência e o apoio total”. E a proposta termina referindo:
Foram dignos heróis das Beiras Centro do RI 14 de Viseu da bela cidade, cumpriram e são credores do reconhecimento público, com este pequeno gesto da atribuição em placa, do nome de uma Avenida de Viseu, em honra das suas personalidades que mais se distinguiram e este conjunto dos cinco magníficos, que foram os obreiros da liberdade e da democracia em Viseu e em Portugal merecem e são os Capitães de Abril de Viseu: Capitão Diamantino Gertrudes da Silva, Capitão Arnaldo Carvalhais da Silveira Costeira, Capitão Amândio Augusto, Capitão Aprígio Ramalho e Capitão António Luís Ferreira do Amaral”.
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Natural de Alvite, do concelho de Moimenta da Beira, Diamantino Gertrudes da Silva nasceu a 20 de fevereiro de 1943 e, depois dos estudos liceais, ingressou na Academia Militar em 1963, seguindo a carreira militar na arma de Infantaria, atingiu o posto de coronel (por promoção, não por simples graduação, como já vi escrito), em que passou à reserva. Cumpriu duas comissões de serviço na Guerra Colonial: a primeira em Angola; e a segunda na Guiné. Por várias vezes foi louvado e condecorado no âmbito militar, graças à sua coragem e espírito patriótico de missão, e foi agraciado com a Grã Cruz da Ordem da Liberdade pela participação especial no Movimento das Forças Armadas que gerou a revolução política abrilina.
Entretanto, em 1976, à margem da vida militar, começou a frequentar a Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra onde concluiu a licenciatura em História em 1980.
Segundo o Jornal do Centro – que publica o essencial da sua biografia e uma das suas últimas entrevistas – nas últimas décadas, o coronel, mais conhecido como o Capitão de Abril ou o Herói de Abril, foi um ativista cívico através da apresentação de comunicações em várias instituições, com especial incidência nas escolas. Neste âmbito, é de mencionar a extensa comunicação sob o título “A Guiné no Contexto da Guerra Colonial e do Regime do Estado Novo” na apresentação do “Diário da Guiné”, de Mário Beja Santos, que se pode ler no blogue “Luís Graça & Camaradas da Guiné” (https://blogueforanadaevaotres.blogspot.com/2008/03/guin-6374-p2632-guin-e-o-25-de-abril.html). Mas também publicou livros seus. Entre 2003 e 2007, uma trilogia que percorre a Guerra Colonial e a Revolução do 25 de Abril de 74, com os títulos: Deus, Pátria e... a Vida (2003), editado pela PalimageA Pátria ou a Vida” (2005), editado pela Palimage; e Quatro Estações em Abril” (2007), editado pela Palimage. E, em 2011, publicou “Tempos sem remição”, um livro que incide sobre sagas familiares na época do Estado Novo.
***
Enquanto capelão militar, conheci pessoalmente o Major Silva, comandante de batalhão, no então Regimento de Infantaria de Viseu (antigo e atual RI14) de 12 de outubro de 1981 a 16 de dezembro de 1982 (tempo em que ali prestei serviço). Confesso que o admirava pela postura disciplinada e disciplinadora, saudável compreensão da vida das pessoas, bom sentido de humor sem cair em exageros, respeitador das pessoas e instituições e um homem muito culto. Evoco a paciência com que me respondeu à questão provocatória “Como se justifica a legitimidade do Golpe de Estado?” que lancei ao ouvir a afirmação televisiva do Ministro da Defesa Freitas do Amaral de que as Forças Armadas eram só para a defesa contra eventual invasão externa e apoio às populações em calamidade pública – e a recomendação que me fez à minha partida para a 24.ª Peregrinação Militar Internacional a Lourdes, que rezasse por todos os pecadores, mesmo pelos aparentemente incorrigíveis.
2018.10.11 – Louro de Carvalho

sexta-feira, 22 de junho de 2018

O estatuto do herói: o herói em “Os Lusíadas”


0. Nota prévia
A presente reflexão foi motivada pelo exercício n.º 7 do grupo I da Prova Escrita de Português (cód. 639) do 12.º ano na 1.ª fase de exames nacionais neste ano letivo de 2017/2018.
Afigura-se, a meu ver, tarefa demasiado ingente pedir ao aluno que, num curto tempo de 120 minutos, “escreva uma breve exposição na qual distinga o herói em Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões, do herói em Mensagem, de Fernando Pessoa” – sem acesso ao texto. Também é temerário, nestas circunstâncias, determinar que a exposição deve incluir:
Uma introdução ao tema; um desenvolvimento no qual explicite, para cada uma das obras, uma caraterística que permita distinguir o herói em Os Lusíadas do herói em Mensagem, fundamentando as caraterísticas apresentadas em, pelo menos, um exemplo significativo de cada uma das obras; e uma conclusão adequada ao desenvolvimento do tema”.
Isto depois de ter o aluno respondido a quatro questões sobre um poemeto de “Mensagem” e duas sobre um excerto de “Frei Luís de Sousa” e sabendo que há de responder a 7 questões com base na leitura de um texto que virá a seguir e glosar um tema de interesse para a atualidade.
É certo que o IAVE,IP não é muito exigente. Basta, “para distinguir o herói em Os Lusíadas do herói em Mensagem, que o examinando aborde “um tópico relativo a cada uma das obras”. E, considerando que podem ser abordados outros igualmente relevantes, fornece os seguintes exemplos de tópicos:
Em Os Lusíadas, os heróis são apresentados na sua dimensão humana e histórica, o que é patente, por exemplo, nos protagonistas da viagem marítima até à Índia, nomeadamente Vasco da Gama e os marinheiros, cujos feitos permitiram o desvendamento dos mares desconhecidos; os heróis são os portugueses que, vencendo os seus medos e todos os perigos, foram capazes de superar a própria condição humana e de ascender ao plano dos deuses, como se comprova, por exemplo, quando são recompensados na Ilha dos Amores. Em Mensagem, os heróis não se inscrevem num tempo nem num espaço determinados, assumindo uma dimensão mítica/simbólica (caso de Dom Sebastião, enquanto símbolo da ambição que poderá fazer renascer a glória da pátria); os heróis situam-se na esfera da espiritualidade, como é o caso de Dom Fernando, que age como instrumento da vontade divina/de uma vontade superior.”.
Além disso,
O texto deve ser bem estruturado e constituído por três partes (introdução, desenvolvimento e conclusão) devidamente proporcionadas, assegurando, “adequadamente, a progressão e o encadeamento das ideias”.
Não será caso para quem passa por este exame ficar farto de heróis?
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Assim, vou fixar-me predominantemente no herói camoniano deixando para outra oportunidade outros tipos de herói, embora tendo em a contextualização histórico-literária
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1. O herói na Antiguidade
O que distingue o herói do homem comum está conexo com o universo do mito. A própria definição de herói remete para a mitologia clássica, como afirma Joel Schmidt no Dicionário de Mitologia Grega e Romana (Lisboa, Edições 70, 2002):
É chamada herói, na mitologia, toda a personagem que exerceu, sobre os homens e sobre os acontecimentos, uma determinada influência, que lutou com tanta bravura, ou realizou feitos de uma tal temeridade, que se elevou acima dos seus semelhantes, os mortais, e que pôde ousar aproximar-se dos deuses, merecendo assim depois da morte uma veneração e um culto particulares”.
Anote-se que, nos poemas hindus, a figura do herói era a incarnação de um deus. Assim, tudo nele, desde o aspeto físico até à ação, pode ser pensado ou decorrer fora de todos os moldes humanos, com proporções monstruosas desmedidas.
Já nos poemas homéricos, o herói assume feição humana, sucedendo quase o mesmo com os deuses, concebidos como realizações superiores de tipos humanos, sem limitações que impedem em cada um destes o realizar-se como desejaria. E, mesmo quando intervêm, os deuses fazem-no de forma discreta, levando a que a liberdade do herói seja salvaguardada: pode discutir a vantagem ou desvantagem do conselho do deus protetor, indo ao ponto de o contrariar.
Obviamente, como personagem relevante pela excecionalidade com que enfrenta os mais difíceis obstáculos, o herói está intimamente associado à epopeia, razão por que terá sido a poesia épica, a Ilíada em particular, a primeira a criar a ideia de herói. Assim, Aquiles, Ajax, Ulisses e muitos outros entregam-se, nos combates da guerra de Tróia, a autênticos prodígios de habilidade e coragem. Porém, já desde e por nascença, estes heróis são diferentes dos homens. Na maior parte, são filhos dum deus ou duma deusa de quem recebem, durante a sua existência, ajuda e proteção.
Foram, pois, os gregos quem primeiro definiu claramente o protagonista conhecido como herói épico. Esses heróis de tragédia devem evocar na e para a plateia um senso de heroísmo através de lendária e inspiradora sabedoria. O herói tem de ser um homem cuja fortuna é trazida por suas próprias caraterísticas admiradas. Os famosos poemas épicos gregos, A Odisseia e A Ilíada , contêm esses heróis e ações que são imensos.
Em Roma, a conceção de herói é um pouco diferente da grega. O herói virgiliano, o mais proeminente, difere dos heróis homéricos, pois ele traduz os principais valores romanos, pensando sempre na coletividade e no seu destino, não na glória pessoal, na aretê grega. Ao invés, ele possui, a “virtus” que todo o “vir romanus” possui, procurando ser um homem direito, honesto, reto e conveniente. A valentia e coragem são qualidades de caráter, não de força. Temos, assim, na Eneida, um herói que vai ao encontro do seu Destino, predito pela mãe Vénus, reiterado por Júpiter, mas retardado por Juno. É um herói estoico que transparece pela “pietas”. O “pius Aeneas” revela obediência irrestrita aos deuses e aos superiores, mesmo que isso possa trazer-lhe infelicidade. Apresenta-se como homem de missão e herói da paz, que apenas as circunstâncias levam à guerra. Não realiza as próprias ambições, apenas cumpre o seu dever com justiça, comiseração e fidelidade.
Assim, os ideais augustanos estão representados pela composição do herói Eneias, proveniente de Troia e destinado a fundar a Nova Troia que viria a ser Roma. Os seus conceitos morais são amplamente identificados com os do “Princeps”: a “virtus”, a “pietas” e a “humanitas”.
Este herói troiano, filho de Anquises e de Afrodite, por um lado, descende da deusa do amor e, por outro, tem a sua origem no próprio Zeus, como afirma Pierre Grimal: “(...) Por parte do pai, filho de Cápis, descende da raça de Dárdano e, por conseguinte, do próprio Zeus.”. Viveu nas montanhas até os 5 anos, sendo confiado a Alcátoo, marido de sua irmã Hipodamia, para ser educado. Na guerra de Troia, sobressai como um grande guerreiro, sendo somente inferior a Heitor. Desde o nascimento as predições revelam que será rei e terá grande descendência. Segundo Grimal, assim Afrodite profetiza a Anquises ao revelar-se-lhe, após partilhar seu leito. Assim também Poseidon relembra a profecia de Afrodite ao salvar o herói na Ilíada. Grimal (op. cit) sintetiza desse modo:
“Assim, desde os Poemas Homéricos, Eneias surge como um herói protegido pelos deuses, aos quais obedece respeitosamente, estando-lhe reservado um destino grandioso: nele repousa o futuro da raça troiana. Todos estes elementos serão retomados por Virgílio na “Eneida” e interpretados no quadro da lenda romana. Desse modo, após a queda de Troia, o herói parte com seu pai, seu filho Iulo e sua esposa Creúsa para o monte Ida onde teria construído, juntamente com os teucros dispersos, após o massacre dos gregos, uma nova cidade onde reinou, cumprindo-se, assim, a profecia de Afrodite.”.
Uma coisa é certa. Para os clássicos (literatura greco-latina) e, posteriormente, no Renascimento (em que se tomou o legado greco-latino como referência), o herói acumulava os dois domínios, o épico e o mítico. Basta pensarmos no herói d´Os Lusíadas (obra do Renascimento) para se dissiparem as dúvidas. O perfil deste herói coletivo, evidenciando “todas as capacidades de afirmação do Homem ao enfrentar a adversidade dos deuses e dos elementos” (Biblos, Enciclopédia das Literaturas de Língua Portuguesa, vol. II, Lisboa/São Paulo, Verbo, 1999), cujo comportamento se reparte “por um tríptico de grandes valores, no seio dos quais se move expeditamente: é a bravura militar destemida, a nobreza cavaleiresca e a excelsitude no Amor”.
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2. O herói épico
Assim, para se definir o herói épico importa não esquecer que este ganha vulto como protagonista de narrativas heroicas, sobretudo épicas que se distinguem pelo facto de nelas haver lugar especial para o desígnio religioso e profético (em favor duma coletividade), a fantasia, a inverosimilhança e o imprevisto, mas sucedendo que o terreno discursivo onde impera o heroísmo obedece a regras próprias.
Não obstante a centralidade exemplar do herói épico, a sua configuração foi-se transformando consoante o enquadramento histórico-cultural, visto que é personagem variavelmente construída e modulada segundo premissas ideológicas, literária e historicamente motivada e, assim, sujeita à própria estrutura técnico-compositiva do texto. Seja como for, há atributos inerentes ao conceito de herói que se mantêm – as caraterísticas de qualificação e exceção pelas quais se destaca das restantes figuras que povoam a história, definindo-se pela convergência de determinadas qualidades e pelo caráter inédito e exemplar que elas possam assumir perante o universo fictício ou real da história.
O herói épico tem, pois, de ser o homem cuja fortuna é trazida pelas suas próprias caraterísticas admiradas. Os famosos poemas épicos gregos, A Odisseia e A Ilíada , contêm esse tipo de herói com as ações que os celebrizam. Mas também Rei Arthur, Beowulf, Siegfried, Gilgamesh e Rama são exemplos de heróis épicos.
As caraterísticas do herói épico prendem-se com sete parâmetros, que é conveniente explanar. Pela nobreza de nascimento, este herói é um rei, príncipe, semideus ou nobre de alguma capacidade; no atinente às capacidades sobre-humanas, é o guerreiro com o potencial de grandeza baseado em seus relevantes atributos, como astúcia, bravura, humildade, sabedoria, virtude; no concernente a viagens, o herói épico ganha fama por fazer viagens para lugares exóticos por escolha ou chance, por via de regra, para lutar contra o mal; como guerreiro incomparável, este herói tem em geral a reputação de grande guerreiro, mesmo antes do começo da história; quanto à legenda cultural, deve referir-se que, antes de o herói épico poder ser universalmente conhecido, ele deve primeiro ser uma lenda na sua cultura; no capítulo da humildade, o herói realiza grandes feitos por si mesmos e não pela glória, podendo ser punidos e humilhados os heróis que se gabam ou exibem arrogância; e, no quadro das batalhas sobrenaturais, os oponentes e obstáculos que o herói enfrenta são normalmente seres sobrenaturais, como Grendel, Poseidon ou um ciclope ou forças da natureza grandemente personificadas.
Entretanto, a figura do herói foi-se tornando mais humana, mais real, sem com isso perder a grandiosidade, pois move-se num universo agridoce do perigo e aventura, mescla de sedução e sofrimento, presente entre as inúmeras motivações que o impulsionam para abraçar novos desafios e novas lutas. É um agente de fratura nas vivências comuns a toda a sociedade, que prefere enveredar por comportamentos e ações que inauguram novos trilhos que o desviam progressivamente das outras personagens e dos valores que partilham. Este herói não é necessariamente um guerreiro que enfrenta exércitos e que sai vencedor de todas as lutas vividas. É, acima de tudo, aquele que sobressai pela determinação e pela entrega a uma causa, esquecendo-se de si próprio em prol da luta por um sonho. Torna-se mito de outro modo, vencendo a morte pela projeção que ganhou como marca de referência para a sociedade, sendo assinalado como exemplo a seguir. 
Em suma, enquanto o herói épico é sempre um herói mítico, essa realidade não se mantém, obrigatoriamente, na configuração do herói mítico, pois este pode não ser um herói épico. Por exemplo, n’Os Lusíadas o herói é, sobretudo, épico (não entrando nesta classificação Inês de Castro), ao passo que em Mensagem surge o herói mítico por excelência, aquele cuja vida foi a entrega a uma causa, a um sonho, algo que permanece no espírito dos vindouros e lhes passa a mensagem de missão a cumprir (Dom Sebastião, Padre António Vieira…).
A este respeito diz Hernâni Cidade (in Luís de Camões, O Épico – 2001):
 “Os Portugueses do Renascimento levantaram a vida humana a maior altura, deram-lhe novas perspetivas e interesses, fizeram, no campo da ação navegadora e guerreira, o que no campo da arte fizeram os Italianos. Esses homens multímodos, navegantes e guerreiros, políticos e poetas, geógrafos e cronistas, aventureiros e apóstolos, constituem um momento insigne na história da personalidade.”.
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3. O herói em Os Lusíadas
Em Camões estão subjacentes dois tipos de herói: o nato, a quem nada é exigido para ascender ao estatuto da imortalidade, pois herda por nascimento os títulos que o libertarão da lei da morte – pelo que não é verdadeiramente herói; e o adquirido, mais concretamente aquele que tem de vencer os perigos e contratempos para se elevar ao plano do semideus. Este é, para o poeta épico, o verdadeiro herói, o ser excelente e excecional que alcança a sublimação. É, segundo o nosso épico, o povo português cujo estrato valoroso, na Ilha dos Amores, é conduzido pela mão dos deuses e levado por caminhos jamais pisados por humanos, símbolo da glória e da eternidade. O Homem, “bicho da terra” tão pequeno, conseguiu assim vencer o mar que o transcendia, graças à sua ousadia e capacidade de sacrifício, superando-se e indo “ mais alto e mais longe”.
3.1. A ação da obra e o herói épico
Como o título indica, o herói desta epopeia é coletivo, os Lusíadas ou filhos de Luso, os portugueses. Nas estrofes (ou estâncias) iniciais do discurso de Júpiter no Concílio dos deuses (I, est. 24-29), que abre a parte narrativa, surge a orientação laudatória do autor. O pai dos deuses afirma que desde Viriato e Sertório, o destino (fado) dos portugueses (forte gente de Luso) é realizar feitos tão gloriosos que façam esquecer os dos impérios anteriores (assírio, persa, grego e romano).
O desenrolar da sua história atesta-o, pois, além de ser marcada pelas sucessivas e vitoriosas lutas contra mouros e castelhanos, mostra como um país tão pequeno descobre novos mundos e impõe a sua lei no concerto das nações. E, no final do poema, surge o episódio da Ilha dos Amores (IX, est. 19-92 – X,1-141), recompensa ficcional da gloriosa caminhada portuguesa pelos tempos. E é confirmado o receio de Baco de as suas façanhas de conquista serem ultrapassadas pelas dos portugueses.
Camões dedicou a sua obra-prima ao rei Dom Sebastião de Portugal (I, est. 6-18; Xm 145-156). Os feitos inéditos dos descobrimentos portugueses e a bem-sucedida chegada ao “novo reino que tanto sublimaram” (I, est. 1) no Oriente, foram sem dúvida os estímulos determinantes para a tarefa, desde há muito ambicionada, de redigir o épico português.
Havia, pois um ambiente de orgulho e ousadia no povo português. Navegadores e capitães eram heróis recentes da pequena nação, homens capazes de extraordinárias façanhas, como o “Castro forte»” (o vice-rei Dom João de Castro), falecido poucos anos antes de o poeta aportar na Índia.
E principalmente o Gama, a quem se devia o descobrimento da nova rota para o Oriente numa viagem difícil e com poucas probabilidades de êxito, e que vencera inúmeras batalhas contra reinos muçulmanos em terras hostis aos cristãos. Esta viagem épica foi, por isso, tomada como história central da obra, à volta da qual vão sendo contados episódios da História de Portugal, cujo enaltecimento é o escopo do poeta.
Vejamos mais em detalhe.
3.1.1. Na Introdução
Na esteira da ideologia e da estética renascentistas, o poema camoniano coloca o homem português no centro do mundo ao atribuir-lhe caraterísticas humanas e sobre-humanas e ao utilizá-lo como símbolo da confiança nas capacidades humanas.
O primeiro momento da progressiva construção do herói em Os Lusíadas ocorre na Proposição (I, est. 1-3), em que o vate sintetiza o conceito de herói e cujos principais dados são os seguintes: a intenção do poeta, “cantando espalharei por tida a parte” (glorificar os feitos do povo português, através do seu canto épico); a imortalidade como traço essencial do conceito de herói – “As armas e os barões assinalados”; “Daqueles reis que foram dilatando / A Fé, o Império…”; “E aqueles que por obras valerosas / Se vão da lei da Morte libertando”; a assunção da dimensão coletiva, mas aristocrática, do herói da obra: “Que eu canto o peito ilustre lusitano” (não é a arraia miúda como na historiografia de Fernão Lopes); e a apresentação dos quatro planos do poema, na visão de Hernâni Cidade: (a Viagem – “As armas e os barões assinalados / Que, da ocidental praia lusitana, (…) / Passaram ainda além da Taprobana…”; a História de Portugal – “… reis que foram dilatando / A Fé, o Império…”; a mitologia – “Cessem do sábio Grego e do Troiano / As navegações grandes que fizeram; / (…) A quem Neptuno e Marte obedeceram. / Cesse tudo o que a Musa antiga canta…”; e as considerações do poeta – “Cantando espalharei por toda parte, / Se a tanto me ajudar o engenho e arte”.
Observa-se, desde já, a intenção do épico de imortalizar os portugueses pela grandeza dos seus feitos e por suplantarem os deuses antigos (“A quem Neptuno e Marte obedeceram”). Assim, inicia o processo de mitificação do herói, elevando-o a um plano superior e estatuto de imortal, que suplanta os heróis da Antiguidade, considerados modelos (Ulisses, Alexandre Magno, Trajano, Eneias).
Na Invocação (I, est. 4-5) subsequente à Proposição, Camões invoca as Tágides (ninfas do Tejo) solicitando-lhes que o auxiliem na tarefa que tem em mente. Ora, esta invocação é um outro dado que reforça o processo de engrandecimento e divinização dos heróis navegadores, dado que o próprio poeta considera que necessita dum estilo e dum talento superiores que sejam adequados à grandiosidade da tarefa. Daí que o poeta selecione as ninfas do rio português, divindades por ele criadas, a reforçar o caráter nacionalista do poema; adote o canto épico e um “som alto e sublimado”, um “estilo grandíloco e corrente”, uma “tuba canora e belicosa”, consentâneos com a grandiosidade do povo que se propõe cantar; e visione uma dimensão universal para o seu poema (“Que se espalhe e se cante no Universo”, já anunciada na Proposição – “Cantando espalharei por toda a parte”).
Dedicatória (I, est. 6-18) constitui outro momento de glorificação/imortalização heroica, mas que, neste caso, se projeta no próprio poeta, pois, ao cantar a imortalidade dos navegadores, ele se torna igualmente imortal (“Que não é prémio vil ser conhecido / Por um pregão do ninho meu paterno”).
3.1.2. Na viagem de Vasco da Gama e companheiros à Índia
A ação central do poema – a viagem de descoberta do caminho marítimo para a Índia – corporiza a luta dos navegadores, capitaneados pelo Gama, contra as adversidades que surgem no trajeto, bem como a recompensa dos seus feitos e heroísmo. Essas adversidades, esses obstáculos, são de natureza diversa. Assim, logo no episódio da partida das naus em Belém e no do Velho do Restelo, se evidencia bem o clima emocional que envolve a partida dos navegadores: dor, sofrimento, choro, mágoa, saudade, insegurança, oposição familiar e da voz do bom senso (a voz do Velho) a esta aventura.
Noutros momentos da viagem, destacam-se os perigos terríveis que o mar desconhecido oferece. É o caso das chamadas Cousas do Mar: após a passagem do Equador, apesar de a rota ser já conhecida, os nautas deparam-se com diversos fenómenos caraterísticos das águas quentes dos trópicos – o Fogo-de-Santelmo e a Tromba Marítima –, a que se soma a Tempestade. Ante estes fenómenos, o poeta valoriza o conhecimento e o saber experimentais, tecendo crítica implícita aos que possuem do mundo apenas um conhecimento livresco, teórico (“Vejam agora os sábios na escrita / Que segredos são estes de Natura!” – V, es. 22). Nestes episódios, a mitificação do herói reside na questão da superação do medo e no desvendar dos segredos da natureza.
Outro elemento considerar é a hostilidade dos povos indígenas, concretizada nomeadamente nas tentativas frustradas das gentes de Quíloa e Moçambique para a destruição da armada, a contrastar com o caloroso acolhimento do Rei de Melinde. De facto, com a exceção de Melinde, até à chegada à Índia, os marinheiros tiveram de se haver com as hostilidades dos chefes locais.
O simbólico episódio do Adamastor é o mais importante e significativo na mitificação do herói, já que os portugueses desvendam o seu esconderijo, até aí nunca descoberto (mais uma vez, a ação lusa é associada ao conhecimento, ao desvendar do desconhecido). Por outro lado, temos a coragem e a determinação do Gama, que não se deixa intimidar pelo gigante, nem mesmo face às suas profecias aterradoras, acabando por o derrotar e reduzir à sua destruição, depois de ele confessar ao herói toda a sua vida de amargura – facto que simboliza a vitória do humano sobre a divindade. De facto, este episódio liga-se ao da Ilha dos Amores, pois foi a paixão do gigante por Tétis que o levou ao castigo de Júpiter, transformando-o num rochedo, constantemente rodeado pelo mar, o lar da sua amada. Ora, quando os portugueses são recebidos como deuses na ilha divina, Tétis une-se a Vasco da Gama, a significar que os portugueses superaram os deuses na coragem, na determinação e também no amor.
E o episódio da Ilha dos Amores constitui o auge do processo de mitificação dos portugueses, construído ao longo do poema. Neste passo, o amor surge como o prémio e forma de atingir a imortalidade. De facto, são as próprias deusas que escolhem os navegadores para com eles se relacionarem, legitimando-lhes, assim, o estatuto de heróis, alcandorando-os ao estatuto divino e imortalizando-os. Por outro lado, a estruturação do episódio traduz a construção progressiva de um ambiente que potencializa a divinização e mitificação dos heróis: o aparecimento da Ilha, mágico e súbito (“Que Vénus pelas ondas lha levava / […] Pera onde a forte armada se enxergava”); a descrição idílica e sensorial da Ilha, fiel ao “locus amoenus” clássico; os jogos de sedução das ninfas, aconselhadas por Tétis, após o desembarque dos marinheiros; a coroação e sagração dos heróis através do amor total com as ninfas; a verificação de que o esforço e o sacrifício conduzem à fama e à glória; os deleites que a Ilha oferece (“deleitosas honras”, “preeminências gloriosas”, “os triunfos”, “a fronte coroada / De palma e louro”, “a glória e maravilha”).
Quer dizer que, superados todos os obstáculos (Repare-se que, perto do final da narração da viagem ao Rei de Melinde, o Gama relata, de forma emotiva e comovente, o sofrimento e a dor dos marinheiros que morreram devido ao escorbuto, outro elemento que contribui para a referida mitificação – o homem que dá a vida pela pátria), os navegadores recebem o merecido prémio, figurado no episódio da Ilha, culminando, em glória e prazer, o que se tinha iniciado com dor.
O protagonista deste plano narrativo é o Gama, que assume, no final, o estatuto de herói épico em representação do povo que integra. O seu heroísmo revela-se na determinação com que parte de Belém, da “praia de lágrimas”, não consentindo que o seu espírito e determinação sejam abalados pelo sofrimento e pela dor que testemunha. Revela-se, igualmente, na vontade férrea de cumprir a missão de que foi incumbido, embora consciente de que ela exigiria um esforço sobre-humano (“mais do que prometia a força humana”). Revela-se, por último, na capacidade demonstrada de superar as adversidades e de vencer o medo, eminentemente simbolizado no episódio do Adamastor – a síntese de todos os perigos (humanos, cósmicos e míticos) que espreitavam os nautas portugueses, só lhes valendo “Deus” e o “santo coro dos Anjos”, invocados pelo capitão (cf V, est. 60) ou a “Divina Guarda”, invocada em II, est. 31, e VI, est. 81.
3.1.3. O plano da História de Portugal e o herói
Se a Viagem é a ação central, o escopo do Vate é glorificar o povo português, o que faz cantando a sua História a partir do começo geográfico na ponta ocidental do mundo conhecido.
Assim, após situar geograficamente Portugal na Península Ibérica e na Europa, o Gama narra cronologicamente a História de Portugal, de Viriato ao rei Dom Manuel – narrativa em que predominam os feitos guerreiros protagonizados por heróis indivíduos que, no entanto, contribuem para o engrandecimento do verdadeiro herói do poema – o povo português, herói coletivo e aristocrático.
O primeiro protagonista e herói mitificado no plano da História é Viriato, figura histórica e simultaneamente mítica de “Pastor” e “homem forte” que “os feitos teve, / Cuja fama ninguém virá que dome”, ganhando o estatuto de protorresponsável pela génese deste “Reino ilustre”.
No canto III (estâncias 35 a 40), temos Egas Moniz, o aio fiel de Dom Afonso Henriques que, ao ver o amo cercado pelo inimigo, ofereceu a vida como penhor da lealdade a prestar pelo soberano ao rei de Castela, seu primo. Levantado o cerco e, como o monarca português tardou a cumprir a palavra dada por Egas Moniz, vindo mesmo a negar fazê-lo, este decide oferecer a sua vida e a dos familiares ao rei de Castela, cuja ira cede ante a dignidade e fidelidade do nobre português (“Mas o Rei vendo a estranha lealdade, / Mais pode, enfim, que a ira, a piedade.” – III, est. 40).
Ainda no canto III (estâncias 42 a 54), encontra-se o episódio da batalha de Ourique, onde é visível, novamente, o estatuto de herói dos portugueses que vencem corajosamente o exército mouro, muito superior em número ao português. Aqui, Afonso Henriques é eleito rei-herói, porque se lhe reconhece o estatuto de portador duma missão divina, outorgada por Cristo que lhe apareceu.
A batalha de Aljubarrota (IV, est 28 a 45), em cujo devir assume papel preponderante a figura de Nuno Álvares Pereira, o herói que desafia os compatriotas a pegar em armas contra o invasor. A postura adotada e o discurso proferido configuram em tudo o estatuto de herói: audácia / coragem, liderança, determinação, energia, sabedoria e defesa de um ideal, o da liberdade e da pátria. Por outro lado, este episódio faz ressaltar, mais uma vez, a valentia e a coragem dos portugueses que, não obstante se encontrarem em desvantagem numérica e menos apetrechados de armas, vencem os castelhanos, garantindo a liberdade e a independência da pátria.
No que diz respeito à figura real, a narração do Gama ao rei de Melinde engloba todos os reis portugueses até à data, mas não lhes dá igual destaque. Da 1.ª dinastia, destacam-se Dom Afonso Henriques, o primeiro monarca lusitano, e Dom Afonso IV, em razão da luta contra os mouros, espelhada nos episódios bélicos das batalhas de Ourique e do Salado, respetivamente. Já na 2.ª dinastia, ganham relevo a figuras de Dom João I, pelo papel desempenhado na defesa da independência nacional, retratado no episódio da batalha de Aljubarrota, e por ter iniciado a luta contra os mouros fora do território português, e a de Dom Manuel, o monarca que cumpriu o sonho do Oriente. Pelo exposto, se infere que a narração privilegia os monarcas e os reinados marcados pelos feitos guerreiros, ocupando outros soberanos um lugar secundário, exatamente por os seus reinados não terem sido caraterizados pelos feitos guerreiros ou pelas conquistas.
3.1.4. O plano das considerações do poeta
Também o poeta épico se considera elemento integrante do “peito ilustre lusitano”, o tal herói coletivo e aristocrático. Com efeito, sente-se dotado pelo engenho e a arte de cantar aqueles que “se vão da lei da morte libertando”, abandonando agora a “frauta rude” e tomando a “tuba canora e belicosa”. Por outro lado, sente-se incumbido de uma missão transcendente, a de não deixar que o dinheiro, a corrupção, o luxo, o poder ou a traição esvaziem a glória a que os ilustres lusos alcandoraram a Pátria. Assim, se fala da condição humana, também anatematiza os que ignoram o poder da cultura e erudição e desmerecem do ser homem, do ser português, do ser cristão. Por isso, faz a apologia do conhecimento colhido a partir da observação, da experiência e da inovação, queixa-se de ver o Reino sepultado “No gosto da cobiça e na rudeza / Duma austera, apagada e vil tristeza” (X, est. 145) e aconselha o rei a tomar as rédeas do poder para reconhecer as ações dos heróis, administrar na justiça e equidade e recompensar o trabalho feito, os sofrimentos passados e a defesa da vida, liberdade e soberania (cf X, est. 146-156).
Quanto ao mais, também ele fez o percurso do Gama e seus nautas, percorreu o Oriente numa fase posterior da História e salvou a nado a epopeia que havia escrito. É o herói pela epopeia, a qual faz que a multivalente gesta portuguesa exista na memória coletiva.
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4. A mitificação do herói
O mito é a forma adotada pelos povos para a criação de heróis, que procuram deificar, imortalizar, ganhando com eles um estatuto de exceção no mundo. E a mitificação resulta da eminente excecionalidade do herói, da convicção de que foi constituído numa missão providencial inerente ao feito heroico, sem a qual este não seria realizável, e da necessidade que o povo tem desta figura heroica para sustentáculo da sua identidade e subsistência como povo.
Note-se que, como já foi apontado atrás, o conceito de herói, em Os Lusíadas, não é apresentado de uma só vez, vai-se, antes, construindo ao longo do poema.
Logo na Proposição (I, est. 1-3), Camões enuncia o herói da epopeia: “Que eu canto o peito ilustre lusitano” (símbolo de forma e audácia, valor e heroicidade, características portuguesas), ou seja, o valoroso povo português, herói coletivo, mas aristocrático, que se vai manifestando por heróis individuais – Vasco da Gama, o navegador que concentra em si os esforços de 80 anos (1417-1497), atingindo a Índia (no plano da Viagem), os reis e os heróis, como Nuno Álvares Pereira (no plano da História de Portugal). A figura do herói épico nacional carateriza-se, pois, pelos feitos grandiosos, nunca antes realizados por humanos, pela conquista da imortalidade, devido a esses feitos, pela vulnerabilidade dos deuses em relação aos portugueses, num anúncio da ascensão dos homens à condição divina, como acontecerá na Ilha dos Amores, e também pela superação dos heróis das epopeias antigas: Cesse tudo o que a Musa antiga canta / Que outro valor mais alto se alevanta
Na Dedicatória (I, est. 6-18), o poeta dedica o poema a D. Sebastião, reafirmando a natureza histórica do seu canto; com efeito, a epopeia camoniana não apresenta um carácter lendário como acontecera nas epopeias antigas; à obra do poeta luso está subjacente um fundo histórico – a História de Portugal – que irá adquirir a forma de uma narração épica. 
Diz J. Oliveira Macedo (in Sob o Signo do Império, 2002):
Camões pretende celebrar feitos gloriosos, dignos de louvor, praticados por pessoas valorosas – navegadores, guerreiros, reis, missionários (…) –, votadas à dilatação da Fé e do Império, e que conseguiram ultrapassar todas as barreiras (espaciais e ideais) no mar e em terra, merecendo por isso ser recordadas através dos tempos, ou seja, imortalizadas – “se vão da lei da morte libertando” (I, est. 2).
Ao longo do poema, Camões mitifica este herói e inicia a tarefa na Introdução e prossegue-a nas reflexões feitas no final do canto I, quando se debruça sobre a fragilidade do ser humano, considerado “bicho da Terra tão pequeno” (est. 106), ante os perigos que o espreitam constantemente.
No Consílio dos Deuses no Olimpo (I, est. 19-41), o herói nacional é enaltecido, sobretudo, através da oposição de Baco. Na realidade, o facto de um deus temer que a sua glória seja destruída pelos humanos serve inevitavelmente a construção do herói: (...) O padre Baco ali não consentia / (...) conhecendo / Que esquecerão seus feitos no Oriente / Se lá passar a Lusitana gente. Com efeito, para lá de todo o mérito dos nautas lusos, que é reconhecido por outros deuses (Vénus, Marte, Júpiter, que, no final da reunião, decide que os portugueses seriam ajudados a alcançar "a terra que buscavam"), é o receio de Baco que engrandece a gente lusa, conferindo-lhe um estatuto que culminará com a superação da própria condição humana realizada pelo "bicho da terra tão pequeno”, frágil e impotente perante as forças cósmicas. 
Ora, nos cantos seguintes, a narração retrata um grupo de navegadores, comandado por Vasco da Gama, que enfrenta os diversos perigos que lhe surgem no caminho e no cumprimento da sua missão e que os supera com determinação, abnegação, coragem e audácia.
O discurso do Velho do Restelo, embora traduza a visão de uma parte dos portugueses, que se opunha à empresa dos Descobrimentos, e a condenação da versão oficial deste empreendimento, pode ler-se como mais um passo na construção do herói nacional. Na realidade, a comparação do ser humano a Prometeu, que roubou o fogo (símbolo da sabedoria) aos deuses e, por isso, foi castigado, e a Ícaro, que voou tão alto que se aproximou do Sol, o que originou a perda das suas asas de cera e a sua morte, constitui, mais uma vez, a negação da pequenez do ser humano através do desejo de alcançar algo aparentemente inatingível, e é o facto de assumir essa vontade que permitirá ao Homem renunciar à passividade e encetar a busca que o levará à realização das suas capacidades latentes. A vaidade e a cobiça situam-se num plano material e os feitos lusos alcançarão uma dimensão purificada, absoluta, no seu encontro com o universo. É, aliás, para a ambiguidade subjacente à forma de estar do Homem no mundo que remete o verso final do discurso do velho: "Mísera sorte! Estranha condição!", por enfatizar a dicotomia aqui (aliado à passividade) / além (que conduz à mísera sorte, apesar de funcionar como catalisador das pulsões humanas que levam à práxis. 
Já no Canto V, com o “Fogo-de-Santelmo” e a “Tromba marítima”, é a práxis, aliada à experiência da percepção dos fenómenos naturais, que é enfatizada, quando o Gama, que narra ao rei de Melinde a viagem da armada portuguesa de Lisboa a Melinde, afirma: Contar-te (...) / Causas do mar, que os homens não emendem', Os casos vi (...). Vi, claramente visto (...) e “Eu o vi certamente (...). A repetição da forma verbal “vi” redefine a conceção livresca de saber, ao propor um novo método de captação da realidade, baseado na observação, e liga-se à visão renascentista da génese do conhecimento científico. O herói é, então, progressivamente construído ao longo da epopeia, não só pela coragem e valentia, mas porque detém um novo saber, adquirido através das próprias vivências e, por esse motivo, engrandece o espírito humano. É também este o sentido do episódio do Adamastor, em que o gigante critica a ousadia do povo luso, por ter penetrado os seus domínios (“Os vedados términos”), fazendo referência à ação constante dos portugueses, que os levou a fazer “grandes causas”, pois “nunca repousa[m)”. E o discurso do Adamastor funciona como um elogio supremo aos nautas que, de início, o ouvem, receosos, escutando as suas acusações, para, progressivamente, questionarem a identidade do monstro, o que revelará a sua vulnerabilidade face aos marinheiros lusos, pois, simbolicamente, este representa o cabo das Tormentas, que os portugueses conseguiram dobrar, pelo que as lágrimas são transferidas para o Adamastor, que se afasta “cum medonho choro”, determinando a vitória dos humanos sobre a natureza. A chegada à Índia, no Canto VII, é um pretexto para as ilações do poeta sobre a missão de Portugal na História universal, ainda que relacionadas com os ideais cristãos e políticos dominantes na época. 
Os portugueses são, assim, ousados e revelam toda a sua ousadia ao navegarem por mares desconhecidos (“por mares nunca dantes navegados”) e, ao enfrentarem o símbolo desse desconhecido, o Adamastor. E resulta de tal confronto a vitória sobre o medo, personificada nas ameaças que são dirigidas ao Gama e que ele enfrenta, prosseguindo, depois, a sua caminhada.
Significa isto que a viagem que figura a espinha dorsal do poema é a da descoberta do caminho marítimo para a Índia, representa muito mais do que uma viagem geográfica. Na verdade, esta é a viagem do confronto do ser humano com os seus limites, do desvendamento dos segredos escondidos, a o percurso pela rota do conhecimento. Assim, ao superarem os obstáculos que surgem no seu percurso, os navegadores portugueses superam-se a si mesmos, no sentido de que ultrapassam a sua fragilidade, a sua condição de “bichos da Terra tão pequenos”. E, pela sua coragem, determinação e ousadia, enfim, por terem cumprido a sua missão heroica, os portugueses são premiados enquanto heróis. E o prémio que lhes é atribuído é a Ilha dos Amores, símbolo do sonho concretizado, onde o ser humano, alçado ao nível dos deuses, alcança o Amor, a Beleza, a Felicidade e a Harmonia absolutas. Neste contexto, assume especial significado a Máquina do Mundo, revelada a Vasco da Gama por Tétis, a que acedem apenas os que, superando a sua própria condição, como fizeram os nossos navegadores, que chegaram “além da Taprobana”, “mais do que prometia a força humana”.
E é na Ilha dos Amores que se realiza aquilo que constitui a essência da epopeia: o poeta torna imortais os feitos do herói nacional, elevando os nautas, que, metonimicamente, representam o povo português, à condição de deuses, pois Vénus Os Deuses faz descer ao vil terreno / E os humanos subir ao Céu sereno. Os nautas unem-se às deusas amorosas, que os recompensam após o seu percurso iniciático de superação de todas as provações, num espaço onde encontram o amor, onde as deusas As mãos alvas lhe davam como esposas” e “Divinos os fizeram, sendo humanos, pois esta ilha Outra cousa não é que as deleitosas / Honras que a vida fazem sublimada. E, seguindo a linha de pensamento de acordo com a qual concretiza o caráter épico da obra, o poeta deixa um convite à continuidade da ação dos portugueses, apontando-lhes o merecido prémio. 
O mito da Ilha dos Amores surge, assim, como algo que, de facto, não existe, mas que funciona ao nível do inconsciente coletivo como a realização dos desejos humanos associados ao ideal de uma recompensa merecida, pois o mérito é real. 
Finalmente, no Canto X, a ascensão dos heróis humanos na escala existencial é consumada, quando Tétis mostra ao Gama a máquina do mundo, constituída por onze esferas; no centro, encontrava-se a Terra, de acordo com a teoria de Ptolomeu, e os quatro elementos. 
Isto significa que a mitificação do herói resulta aqui da interação do plano da Mitologia com o plano da Viagem. A intriga dos deuses inicia-se com o primeiro Consílio dos Deuses no Olimpo e termina com o episódio da Ilha dos Amores. No Consílio, onde se discuta a abordagem dos deuses à viagem dos portugueses, Vénus, com Marte, seu amante, a seu lado, defende que os navegadores, seus protegidos, concretizem a viagem à Índia. No polo oposto, encontra-se Baco, a tentar impedi-los de concretizar os seus objetivos, por sentir ameaçado o seu domínio e fama no Oriente se ela se efetivar. Derrotada a sua posição no Consílio, Baco provoca a animosidade, contra os portugueses, por parte dos povos da costa oriental de África, leva as divindades marítimas a desencadearem uma tempestade e induz os mouros de Calecute a conspirarem contra o Gama e companheiros. Por seu turno, Vénus intervém, por sua vez, em auxílio dos navegadores, que finalizam a viagem com pleno sucesso. Para os recompensar, na viagem de regresso, auxiliada por Cupido, fá-los desembarcar na Ilha dos Amores, a Ínsua Divina, onde os aguardam as ninfas, que os recebem como heróis, ascendendo eles ao plano divino pela concretização dos seus amores com as deusas. Para completar a recompensa, Vénus proporciona ao Gama a contemplação da já referida Máquina do Mundo e, deste modo, a visão do cosmos.
Assim, através do plano da mitologia, que culmina com a mencionada união dos navegadores portugueses com as deusas do mar e a sua consequente divinização e mitificação, Camões exprime um dos ideais centrais do Renascimento: a confiança na capacidade humana para se opor e suplantar a tradição (os deuses e os heróis da Antiguidade), para superar, em suma, o obscurantismo e a prisão aos livros e para dominar o mundo e a natureza.
Ao unirem-se às ninfas, os marinheiros são recompensados com a imortalidade, simbolizada na união com as ninfas e na atribuição das coroas de louros dos heróis divinizados. Desta feita, os portugueses cumprem a missão para que foram escolhidos, enquanto povo predestinado desde o milagre da batalha de Ourique, e que é confirmada por Júpiter no Consílio dos Deuses. Por outro lado, o seu heroísmo fica associado a valores como a coragem, as virtudes militares, a experiência. Falta-lhes, contudo, o traço cultural, como Camões denuncia em diferentes momentos. Daí que o conceito de heroísmo assuma, em Os Lusíadas, a forma dum conceito abstrato, dum modelo teórico global: perfeição no plano moral e no intelectual, bem como no domínio da ação, “a imagem de um homem inteiro que impõe a sua vontade à natureza e que afirma a liberdade em face do destino.” (in MATOS, Maria Vitalina Leal, Tópicos para a Leitura de Os Lusíadas, 2014). No entanto, este modelo não se concretiza na obra camoniana na vertente intelectual e o aspeto moral, altamente presente na epopeia, decai com o desgaste do tempo. Basta atentar nas críticas que o poeta faz para se chegar a esta conclusão: à ignorância, à ingratidão, ao egoísmo, à cobiça, ao abuso de poder, à exploração dos mais fracos, etc. Com efeito, estamos na presença de um modelo teórico que Luís de Camões procura construir, mas que não se concretiza na prática, pelo menos na sua totalidade. Porém, o poeta não desarma e vê no rei a solução possível.
Neste sentido, Maria Vitalina Leal de Matos declara:
É verdade que a obra se apresenta como epopeia, inspirada pela euforia renascentista: a proeza dos portugueses realiza-se, os protagonistas alcançam os seus intentos. E o canto (como projeto que desde o início se apresenta, e como valor que se entrega ao Rei) também aí está, perfeito (X, est. 154-155). Nos dois planos ‑ o do conteúdo e o da poética ‑ Os Lusíadas parecem um poema de satisfação: neles encontramos heróis vitoriosos, inimigos derrotados, obras ditadas por valores superiores, lutas generosas, recompensa magnífica. Mas é verdade que a obra não esconde uma face de ceticismo, de amargura e de desconfiança.”.
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Em suma, o herói camoniano tem tanto de mítico como de verdadeiramente histórico. A vertente histórica situa-o na sua humanidade excecional, mas eventualmente fragmentada; a vertente mítica, que se lhe sobrepõe, torna-o vencedor de todos os obstáculos e gera a identidade inabalável dum povo que necessitava de tal herói e que o merece ter. Sendo um herói coletivo e aristocrático, fica, por um lado, despojado dos elementos que a degradação terrena impõe a este bicho homem e, por outro, capacitado para a superação – “Mais do que prometia (e permitia) a força humana” e alimenta a força e a memória coletivas. Um povo não vive sem mitos e sem heróis (sejam eles Afonso, Dinis, Pedro, João, Manuel, Sebastião, Marquês de Pombal, Salazar, Mário Soares ou Marcelo Rebelo de Sousa…).
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Cf Biblos (1999). Enciclopédia das Literaturas de Língua Portuguesa, vol. II. Lisboa/São Paulo: Verbo; Macedo, J. Oliveira (2002). Sob o Signo do Império. Porto: Ed. ASA; Matos, Maria Vitalina Leal (2014), Tópicos para a Leitura de Os Lusíadas. Coimbra: Ed. Almedina; Cidade, Hernâni (2001). Luís de Camões, o Épico. Queluz de Baixo: Editorial Presença; Raposo, Paulo: a mitificação do herói – http://paulo2raposo.blogspot.com/2012/11/mitificacao-do-heroi.html, ac. 2018, junho; Saraiva, A. J. e Lopes, Óscar (1978). História da Literatura Portuguesa. Porto: Porto Editora; Schmidt, Joel (2002). Dicionário de Mitologia Grega e Romana Lisboa, Edições 70
2018.06.22 – Louro de Carvalho