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sábado, 26 de janeiro de 2019

Os venezuelanos despertaram do pesadelo para sonhar

Quem o disse foi o líder da Assembleia Nacional (AN), que, a 23 de janeiro passado, se declarou presidente encarregado da Venezuela, diante duma multidão de apoiantes em Chacao. Com efeito, hoje, dia 25, ao anunciar que domingo convocará nova grande manifestação, sustentou:
A 23 de janeiro, os venezuelanos despertaram do pesadelo para sonhar, para fazerem dos seus sonhos realidade”.
Efetivamente, a generalidade dos países americanos reconheceu-o como Presidente interino. E a UE (União Europeia), defendendo a legitimidade democrática da AN venezuelana e frisando que “os direitos civis, a liberdade e a segurança de todos os membros da Assembleia Nacional, incluindo o seu Presidente”, devem “ser plenamente respeitados”, instou à abertura imediata de “um processo político que conduza a eleições livres e credíveis, em conformidade com a ordem constitucional”. A mesma postura teve o nosso chefe da diplomacia, que, advogando eleições livres e esperando que Maduro reconheça que o seu tempo passou e respeite a vontade do povo, referiu que a prioridade de Portugal são os milhares de portugueses residentes na Venezuela, pois residem ali cerca de 300 mil portugueses ou luso-descendentes. E o chefe da diplomacia espanhola declarava reservar a posição do seu país para o posicionamento conjunto da UE.         
Mas, a par das manifestações de apoio (algumas bem suspeitas como a dos EUA e a do Brasil), o México, Cuba, a Bolívia, a Turquia, a Rússia e a China declararam-se a favor e Nicolás Maduro.
E Maduro reagiu acusando o apoio dos imperialistas e exigindo que a justiça julgue e puna os que ilegalmente lançaram a insurreição, no que recebeu o apoio do Conselho Nacional Eleitoral, do PSUV (Partido Socialista Unido da Venezuela) e parece que também o dos militares. 
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A postura do Presidente interino
Consciente da diversidade de apoios e apostando na mobilização das massas, Juán Guaidó (engenheiro de formação, que uniu várias sensibilidades da oposição) deu hoje uma conferência de imprensa na praça Bolívar de Chacao, rodeado de apoiantes e da Mesa da Direção da AN, iniciada com um minuto de silêncio em homenagem às vítimas da violência dos últimos dias. E anotou:
Foi o silêncio com que arrancámos este ano, mas também o silêncio que calámos a 23 de janeiro”.
Referindo, que “mais do que um libertador” quer ser “um servidor público”, declarou:
Em Miraflores, acreditam que este movimento se vai esvaziar, que nos vamos cansar. Mas aqui ninguém se rende. A Venezuela despertou para nunca mais dormir, mas para sonhar com a Venezuela que merecemos.”.
Sobre o apoio da comunidade internacional, Guaidó diz que o reconhecimento do “planeta inteiro”, “quase unânime”, significa a confiança de que a Venezuela vai mudar e a legitimidade do movimento, “não só porque fazemos cumprir a Constituição, mas porque estamos a tentar ajudar o povo”. E lembra que já conseguiu desbloquear o envio de ajuda humanitária – “em apenas dois dias conseguimos o que eles não conseguiram em seis anos” – anunciando que, nas próximas horas, haverá medidas para conseguir a proteção dos ativos da Venezuela.
Às Forças Armadas, Guaidó deixa o recado: 
Irmãos, é convosco, chegou o momento de vos pordes ao lado da Constituição, chegou o momento de vos pordes ao lado do povo da Venezuela. […] É hora de Cuba sair das Forças Armadas. É hora de os cubanos saírem das forças de decisão. Soberania e respeito à tomada de decisões.”.
Em relação a próximas ações, Guaidó convoca para sábado assembleias populares em todo o país a fim de honrar as vítimas e passar a palavra das medidas que já estão a ser aplicadas. Pede que imprimam a proposta de amnistia civil e militar disponível nas redes sociais e, no domingo, entreguem o documento a amigos militares, a vizinhos militares e que, em pequenos grupos, vão até aos quartéis. E assegurou anunciar, domingo, uma grande mobilização para a semana:
Há muita gente nas ruas até conseguirmos o fim da usurpação, o governo de transição e as eleições livres”.
Pediu também que a embaixada dos EUA fique na Venezuela, ao invés de Maduro, que deu ordem de saída do país a todos os diplomatas. E pediu aos trabalhadores dos consulados venezuelanos nos EUA, que Maduro mandou regressar a casa, que desconheçam o “usurpador” e “continuem a atender o povo”.
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O atual posicionamento de Portugal de Espanha
Agora, o Ministro dos Negócios Estrangeiros português, que falou à imprensa à margem do almoço-debate organizado pelo American Club of Lisbon, garante que, se Maduro “mantiver a intransigência, deixará de ser um interlocutor válido”. Isto é, ou Maduro aceita realizar “eleições livres no mais breve prazo possível”, ou a UE reconhecerá que só Juan Guaidó o pode fazer.
Questionado sobre qual é o prazo dado ao Presidente venezuelano para aceitar realizar eleições, Santos Silva frisou que “o tempo urge”, ante a crise social e humanitária na Venezuela, mas que esse prazo será anunciado possivelmente ainda hoje, esclarecendo:
A única razão por que agora, 15 horas de Lisboa, não digo o prazo é porque ele ainda está a ser objeto de ajustamento entre os 28, mas certamente ao longo da tarde de hoje a nossa declaração conjunta será publicada e as coisas serão mais claras”.
Precisando que essa declaração “insiste naquelas que são as exigências dos 28 às autoridades venezuelanas, especificou:
Que respeitem integralmente a legitimidade e os poderes da Assembleia Nacional, que restaurem os poderes da Assembleia Nacional e que respeitem a integridade e a liberdade de todos os deputados e, evidentemente, do seu presidente, Juan Guaidó”.
E reiterou que, para a UE,
A única solução pacífica é a realização, no mais breve espaço possível, de eleições livres e justas, organizadas por uma comissão independente e segundo regras democráticas”.
Questionado sobre se a declaração dos comandos militares da Venezuela de apoio a Maduro, não configura o risco de a situação degenerar num conflito armado, o Ministro apontou sinais de que tanto as forças policiais como as militares querem evitar a violência. Porém, disse:
“É verdade que o controlo das Forças Armadas está ainda formalmente do lado de Nicolas Maduro, [mas os 28] tomam boa nota de que o mesmíssimo comunicado do Ministro da Defesa venezuelana e dos comandos militares que expressa apoio a Maduro faz questão de dizer que as Forças Armadas apelam ao diálogo e não provocarão uma guerra civil”.
Santos Silva frisou que a posição de Portugal, concertada na UE, é:
Apelar a que transição seja pacífica e que não haja recurso à violência, seja ela proveniente de qualquer intervenção externa, seja ela gerada internamente”.
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O Primeiro-Ministro espanhol, que está em Davos (Suíça), no Fórum Económico Mundial, conversou ontem por telefone, durante dez minutos, com o autoproclamado Presidente interino, a quem transmitiu a mensagem de que eleições democráticas e transparentes são a solução “ideal e natural” para a crise. Segundo fontes do Governo, Pedro Sánchez questionou Guaidó sobre como pretende proceder e manifestou o apoio da UE à AN venezuelana, cuja legitimidade considera “indiscutível”. E Guaidó confirmou, no Twitter, ter recebido uma chamada telefónica do chefe do Governo espanhol, detalhando que pode expressar-lhe “a luta que empreendida por toda a Venezuela, para conseguir um governo de transição e eleições livres” acrescentando que perante isto, ele lhe confirmou total apoio. Contudo, o Primeiro-Ministro espanhol referiu que o apoio a Guaidó não foi explícito, visto que pretende manter a unidade europeia e que a posição da UE é definida em Conselho dos Negócios Estrangeiros.
E Josep Borrell, Ministro do Exterior, recusando-se a indicar se a Espanha é a favor de um reconhecimento de Juan Guaidó, considerou que as eleições são “a única” solução “possível” para sair da crise a Venezuela, país que enfrenta uma grave crise política e económica que levou 2,3 milhões de pessoas a fugir do país desde 2015, segundo dados da ONU.
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O percurso da Venezuela nas duas últimas décadas
Em termos políticos, a Venezuela, num contexto de protestos contra e pró regime, chegou ao fim do dia 23 com dois homens a reclamar para si o cargo de presidente: Juan Guaidó e Nicolás Maduro, o delfim de Hugo Chávez, que lançou a Revolução Bolivariana.
Com efeito, enquanto os indefectíveis fiéis de Maduro se uniam em volta do líder instalado, muitos apoiantes da oposição pediam democracia nas ruas de Caracas. E Guaidó, o delfim do opositor Leopoldo López, preso há três anos, proclamou-se presidente interino.
Hugo Chávez, que venceu as eleições presidenciais de 6 de dezembro de 1998 e lançou a Revolução Bolivariana na Venezuela, foi presidente desde 2 de fevereiro de 1999 até à data da sua morte, a 5 de março de 2013. Tinha 58 anos e morreu vítima de cancro, tendo apontado como sucessor Nicolás Maduro, um ex-condutor de autocarros, seu vice-presidente.
Os seus quatro mandatos ficaram marcados por um período inicial de confiança, por ataques ao setor privado, aos media e aos opositores, desvalorização da moeda face ao dólar, vários referendos para reforço do poder, protestos nas ruas, ganhos crescentes da oposição nalguns atos eleitorais e, em 2002, uma tentativa de golpe de Estado.
A comparação estabelecida por Maduro, dia 23 entre Guaidó e Pedro Carmona não é inocente. Carmona participou com um grupo de generais e empresários na tentativa de golpe contra Chávez naquele ano e declarou-se presidente interino, tal como o presidente da AN agora.
Falhado o golpe, Carmona refugiou-se na embaixada da Colômbia, país que, depois, lhe deu asilo. Carmona ainda é vivo e tem 77 anos. Na altura tinha 60. Guaidó, por seu lado, tem 35.
Chávez nacionalizou desde o setor petrolífero (a Venezuela é um dos maiores produtores de petróleo do mundo) ao setor agroalimentar e da grande distribuição, desencadeando ações judiciais de grupos norte-americanos. Várias vezes trocou insultos com a liderança máxima dos EUA.
Maduro, sucessor de Chávez no Palácio de Miraflores, venceu as eleições de 14 de abril de 2013 por 50,61%, tendo sido, depois, empossado perante a AN, com a presença de vários líderes estrangeiros, entre os quais Dilma Rousseff, então presidenta do Brasil, (que acabaria por cair na sequência do processo de impeachment).
Em fevereiro de 2014, uma onda de protestos contra o regime, por falta de segurança nos estados de Tachira e Merida alastrou a Caracas e ocorreram na capital várias manifestações com o apoio dos partidos da oposição. E o Governo acusou a oposição de golpe de Estado e reprimiu os protestos. O balanço foi de 43 mortos. Leopoldo López, ex-prefeito de Chacao, no Estado de Miranda, um dos rostos da oposição, preso e condenado posteriormente a quase 14 anos de prisão, foi para a cadeia de Ramo Verde, tendo sido posto em prisão domiciliária em 2017, por breve período e reconduzido à prisão a 1 de agosto desse ano – dia em que a esposa, Lilian Tintori, anunciou a gravidez do terceiro filho do casal. E Tintori tem feito digressões pelo mundo, incluindo a Europa, para denunciar a situação em que se encontram o marido e o país. Depois, por pressão internacional e mediação de Rodríguez Zapatero (então ex-Primeiro-Ministro espanhol), López, agora com 47 anos, voltou à prisão domiciliária e é o mentor de Guaidó.
O presidente da Câmara de Caracas, Antonio Ledezma, suspeito de tentativa de golpe de Estado contra Maduro e preso em fevereiro de 2015, encontra-se atualmente exilado em Madrid, onde vive depois de ter fugido através da Colômbia. Em março de 2015, por via da sua detenção, os EUA impuseram sanções a funcionários venezuelanos acusados de violar direitos humanos. E as sanções norte-americanas, que já vinham pelo menos desde 2006, têm vindo a agravar-se contra o regime, o que tem levado Maduro a justificar a escassez de alimentos, medicamentos ou outros bens no país.
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No atinente à economia, a Venezuela tem uma economia muito dependente do petróleo, vindo daí 96% das receitas. Apesar da retórica e do corte de relações diplomáticas ora anunciado, em 2017, a Venezuela realizava um terço das suas vendas de petróleo aos EUA, o que representa, para os norte-americanos, 8% das suas compras. Mas a economia venezuelana entrou em queda livre em 2014 quando o preço do petróleo caiu. E a falta de divisas derrubou as importações de alimentos e outros bens. O que fez agravar a escassez de produtos básicos para as famílias.
Em fevereiro de 2016, para obviar à crise económica, Maduro anunciou o aumento do preço dos combustíveis, o que sucedeu pela primeira vez na Venezuela em 20 anos. Juntou-se-lhe a desvalorização da moeda.
Surgia novamente a questão política atrelada à crise económica. Com efeito, poucos meses antes, em dezembro de 2015, o presidente e o partido tinham sofrido duro revés a nível político, ao ver a MUD (Mesa da Unidade Democrática), coligação opositora, vencer as legislativas e obter dois terços da AN, pondo fim a 16 anos de hegemonia do PSUV. E a oposição tentou, sem sucesso, organizar um referendo revogatório do mandato de Maduro, mas foi barrada pelo Supremo Tribunal, que se manteve do lado do Chefe de Estado, aprovando uma lei para limitar os poderes da AN e retirar-lhe a supervisão das autoridades judiciais, eleitorais e civis.
Em setembro de 2016, surgiu nova vaga de protestos, com manifestantes a sair às ruas a denunciar a deriva autoritária do Presidente e o mau estado a que chegou a economia.
Em dezembro de 2016, os países fundadores do Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai) suspenderam oficialmente a Venezuela, por não cumprir importantes obrigações previstas pelo bloco comercial sul-americano, de caráter político, económico e de direitos humanos. E, em março do ano seguinte, o secretário-geral da OEA (Organização dos Estados Americanos), Luis Almagro, recomendou aos países membros a suspensão da Venezuela até à realização de eleições monitorizadas por observadores internacionais.
Milhares de venezuelanos saíram às ruas em abril de 2017 a exigir o afastamento dos juízes do STJ (Supremo Tribunal de Justiça), manifestações que, desde então, se tornaram constantes, tal como os confrontos com as forças de segurança. E Henrique Capriles, ex-candidato presidencial da oposição e ex-governador de Miranda, foi inabilitado de exercer funções públicas ao longo dos 15 anos seguintes. Em maio, Maduro anunciou a convocação de uma AN Constituinte, para mudar a Lei Fundamental, vigente desde 1999, ação que a oposição boicotou, mantendo-se firme nas manifestações e avisando que haveria marchas até serem convocadas eleições para tirar Maduro do poder. Em 4 meses, o número de mortos chegou aos 125.
A 16 de julho de 2017, votaram 7,1 milhões de eleitores numa consulta simbólica contra o projeto de Assembleia Constituinte, segundo os opositores. Mesmo assim e apesar do boicote da oposição e da condenação internacional, a eleição para a Constituinte aconteceu, a 30 de julho. Em agosto, a Venezuela foi suspensa do Mercosul. A procuradora-geral Luís Ortega, exilada e expulsa do partido, acusou o regime de querer silenciar as suas investigações sobre corrupção e violações dos direitos humanos. E a inflação disparou, o PIB afundou e mais de 2,3 milhões de venezuelanos tentavam fugir do país e da escassez aflitiva que nele se vive.
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A Mesa de Unidade Democrática, denunciando fraude, decidiu boicotar as eleições de 20 de maio de 2018, antecipadas por decisão da Constituinte depois de fracassar o diálogo com a oposição, e que Maduro (atualmente com 56 anos) formalmente venceu.
O candidato da oposição Henri Falcón, dissidente do chavismo, demarcara-se e decidira lançar a sua candidatura de qualquer forma. Porém, Maduro foi eleito com 68% e 52% de abstenção, a maior de sempre numas eleições na história democrática da Venezuela. O resultado não foi reconhecido nem pelos EUA, nem pela UE, nem por vários países da América Latina. Em resultado da instabilidade, a produção petrolífera caiu para os níveis mais baixos em três décadas, ou seja, 1,4 milhões de barris por dia.
Em agosto, o Presidente Maduro denunciou uma tentativa para o assassinar com drones durante uma intervenção televisiva, acusando a Colômbia, os EUA e a extrema-direita de conspiração para o eliminar fisicamente. Cortou 5 zeros à moeda antiga e rebatizou-a de bolívar soberano para controlar a inflação galopante. A ONU alertou para a grave “crise” migratória vinda da Venezuela rumo aos países vizinhos, o que fez aumentar ainda mais a tensão na região.
A 10 de janeiro de 2019, Maduro tomou posse, contra tudo e contra todos, ou seja, com o boicote da oposição e sem o reconhecimento da comunidade internacional. Os países do Grupo de Lima, organização que já não tinha reconhecido a Constituinte, não reconheceram a posse. Cinco dias antes da posse de Maduro perante o Supremo Tribunal, Guaidó tinha tomado posse como presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, dominada pela oposição. No dia 23, sob convocatória de Guaidó, dezenas de milhares de opositores de Maduro saíram às ruas de Caracas e de outras cidades venezuelanas a exigir “um governo de transição”, novas eleições e o fim do apoio dos militares a este presidente.
Por sua vez, o chavismo também mobilizou milhares de apoiantes de Maduro para defendê-lo, denunciando um plano liderado pelos EUA para o tirar do poder. Muitos países, com os EUA de Trump e o Brasil de Bolsonaro à cabeça, declararam que reconhecem Guaidó como Presidente interino; outros, como o México e Cuba, recusaram fazê-lo; e outros, como Portugal e Espanha, esperam para ver se a Venezuela terá ou não eleições livres e internacionalmente escrutinadas.
Entretanto, as Forças Armadas venezuelanas indicaram manter o apoio a Maduro.
Assim, continuarão as populações a encher as ruas e os bens essenciais a faltar? Estarão os militares dispostos a atirar contra as populações, que ripostarão com meios artesanais? Teremos cenário similar do Abril português, da Praça Sintagma na Grécia, da queda do Muro de Berlim?  
O futuro parece incerto para um povo cansado de sofrer.
2019.01.25 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Juan Guaidó declara-se presidente interino da Venezuela. Futuro Incógnito


No decorrer de uma forte manifestação contra Nicolás Maduro em Chacao, Juan Guaidó, o presidente da Assembleia Nacional (AN) da Venezuela e líder da oposição, com maioria neste órgão de soberania, proclamou-se, nesta quarta-feira, dia 23 de janeiro, “presidente interino” do país, jurando “assumir as competências do executivo nacional”.  
Com a Constituição na mão e diante dos manifestantes que participavam num ato de protesto contra Nicolás Maduro, em Caracas, Guaidó pronunciou uma declaração formal:
Levantemos a mão, hoje 23 de janeiro, na minha condição de presidente da Assembleia Nacional, ante Deus e a Constituição da Venezuela, em respeito aos meus colegas deputados, juro assumir formalmente as competências do executivo nacional como como Presidente Encarregado da Venezuela, para conseguir o fim da usurpação, um governo de transição e eleições livres”.
E acrescentou, como cita o jornal El Nacional:
Assumo a responsabilidade ao abrigo do artigo 333 e do 350. Juro assumir o compromisso da não violência.”.
Antes, Guaidó tinha perguntado se contava ou não com o apoio da multidão e recebeu uma sonante resposta positiva. Depois, a multidão cantou o hino nacional.
O autoproclamado Presidente interino fez referência àqueles artigos da Carta Magna venezuelana e induziu os manifestantes a jurarem comprometer-se em “restabelecer a Constituição da Venezuela”. “Hoje, dou um passo convosco, entendo que estamos numa ditadura” – disse vincando saber que a sua autoproclamação “terá consequências”.
Por outro lado, dirigiu-se ao Presidente Nicolás Maduro, sublinhando:
Aos que estão a usurpar o poder, digo, com o grito de toda a Venezuela: vamos insistir até que regresse a água e o gás, até que os nossos filhos regressem, até conseguir a liberdade”.
Para Guaidó, “não se trata de fazer nada paralelo”, pois tem “o apoio da gente nas ruas”.
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O artigo 333 da Constituição venezuelana, o das garantias do texto legal, estabelece:
[esta] “não perderá a sua validade se deixar de ser observada por força de lei ou porque é revogada por qualquer outro meio que não aquele previsto nela. Em tal eventualidade, qualquer cidadão investido ou cidadão com ou sem autoridade, terá o dever de colaborar no restabelecimento da sua validade efetiva.”.
Já o artigo 350 da Constituição estabelece:
O povo da Venezuela, fiel à sua tradição republicana, à sua luta pela independência, a paz e a liberdade, desconhecerá qualquer regime, legislação ou autoridade que contrarie os valores, princípios e garantias democráticas ou mine os direitos humanos”.
Ora, à luz destas disposições constitucionais, um dia após a tomada de posse de Nicolás Maduro para um segundo mandato, não reconhecido por parte da comunidade internacional (incluindo EUA e União Europeia), Guaidó tinha-se mostrado disponível para assumir a presidência interina do país, caso contasse com o apoio dos militares.
Guaidó terá ainda dito aos apoiantes que não temia ser preso: “Não tenho medo disso, tenho medo pela nossa gente que está a passar muito mal”, referia o El Nacional. Porém, foi detido no dia 20 e, quase de imediato, libertado graças à pressão de 13 países americanos.
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Por seu turno, o Governo de Nicolás Maduro, que não reconhece o Parlamento, também não reconhece o autoproclamado Presidente interino. Com efeito, Maduro respondeu cerca de duas horas depois, afirmando em declarações a partir do Palácio Miraflores, sede da presidência:
Esta é a casa do povo, da soberania popular. Aqui há um povo bolivariano a governar-se. Somos a maioria, somos a alegria, somos o povo de Hugo Chávez.”.
Recusando-se a abandonar o poder – “neste palácio presidencial estamos e estaremos com o voto do povo. Só o povo põe, só o povo tira” – Maduro acusou as manifestações que saíram à rua, esta quarta-feira, de serem instrumentalizadas pelos Estados Unidos e proclamou:
Não queremos voltar ao século XX. O povo venezuelano diz não ao golpismo, não ao imperialismo.”.
E o PSUV (Partido Socialista Unido da Venezuela) reiterou nas redes sociais o apoio a Maduro, com imagens das manifestações pró presidente que também ali decorrem. Lê-se Twitter oficial:
Junto com o povo revolucionário ratificamos o nosso apoio contundente e irrestrito ao presidente Nicolás Maduro. Venceremos!”.
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Entretanto, a ARC (Assembleia da Resistência Cubana) expressou nesta quarta-feira, em Miami, nos Estados Unidos, apoio aos protestos que estão a decorrer na Venezuela com o objetivo de “expulsar do poder” o Presidente Nicolás Maduro. “Não há espaço para as ditaduras no nosso hemisfério” – realçou Sylvia Iriondo, presidente da organização MAR (Mães e Mulheres Contra a Repressão), que integra a ARC – “Apoiamos a Assembleia Nacional (AN) da Venezuela e o seu presidente, Juan Guaidó, como legítimos representantes da nação sul-americana e unimo-nos ao povo venezuelano na sua justa e corajosa reivindicação de liberdade”.
Também Orlando Gutiérrez, secretário-geral da Direção Democrática Cubana, mostrou a sua solidariedade com o povo venezuelano no seu “pleno direito de sair às ruas em protesto para acabar com a ditadura assassina de Maduro”, “uma ditadura “promovida e dirigida pelo regime totalitário cubano”.
Assim, a Assembleia da Resistência Cubana, formada por organizações no exílio e oposição cubana, expressou a sua determinação em “continuar a apoiar a luta do povo venezuelano para alcançar a liberdade, a democracia e a soberania”. A esse respeito, também apoiaram as manifestações em frente ao consulado venezuelano em Miami, assim como na cidade vizinha de Doral, na Flórida, onde se encontra uma grande comunidade de imigrantes daquele país.
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Os apoiantes do chavismo, no poder, e os da oposição venezuelana voltaram, nesta quarta-feira, a manifestar-se nas ruas do país, uns a apoiar outros a questionar a legitimidade de Nicolás Maduro, que o Parlamento e grande parte da comunidade internacional não reconhece.
Os opositores venezuelanos mobilizaram a população dos 23 estados do país para solicitar a “cessação da usurpação” na Presidência da República. O presidente da AN da Venezuela, Juan Guaidó, escreveu na sua conta da rede social Twitter que hoje “os olhos do mundo estarão” na Venezuela e reiterou o seu apelo às Forças Armadas para apoiarem “o caminho” com o qual esperam acabar com a chamada revolução bolivariana, no poder desde 1999.
O FPV (Fórum Penal Venezuela) anunciou que pelo menos 43 pessoas foram detidas na Venezuela nas últimas 48 horas, quando participavam em protestos contra o Governo do Presidente Maduro. E, pelo menos, 4 pessoas morreram nos protestos da última noite contra o Presidente da Venezuela, um dos quais em Caracas e três no Estado venezuelano de Bolívar.
Segundo o OVCS (Observatório Venezuelano de Conflituosidade Social), uma das mortes, a de um jovem de 16 anos, teve lugar em Caracas, devido a um ferimento por arma de fogo, durante uma manifestação em Cátia (centro). As outras três mortes ocorreram no Estado venezuelano de Bolívar, a 600 quilómetros a sudeste de Caracas, durante protestos prévios às manifestações convocadas para esta quarta-feira. Na localidade de San Félix, neste Estado, a população incendiou uma estátua do antigo Presidente socialista Hugo Chávez (presidiu ao país entre 1999 e 2013) da qual cortou o busto que foi pendurado na ponte da Av. Guayana.
Segundo o OVCS, os protestos contra o novo mandato do Presidente Nicolás Maduro multiplicaram-se durante a última noite, passando de 30 na noite de segunda-feira para 63, na noite de terça-feira, na grande Caracas (capital e os estados vizinhos de Miranda e Arágua).
Nos protestos, a população manifesta o seu descontentamento a bater em panelas e através de assembleias nas ruas.
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Em reação à autoproclamação do Presidente interino, o Presidente norte-americano declarou apoiar Juan Guaidó como Chefe de Estado do país, já o reconheceu oficialmente como Presidente interino da Venezuela e desafiou a comunidade internacional a seguir também a mesma posição. Escreveu no Twitter:
Os cidadãos da Venezuela já sofreram demasiado nas mãos do regime ilegítimo de Maduro. Hoje, reconheci oficialmente o Presidente da Assembleia Nacional da Venezuela, Juan Guaidó, como Presidente interino da Venezuela.”.
Os Estados Unidos fizeram, entretanto, saber que mantêm “todas as opções sobre a mesa” se o Presidente Nicolás Maduro responder com violência ao anúncio do Presidente da Assembleia Nacional. A este respeito, um alto funcionário norte-americano, numa chamada telefónica com a Reuters e a Efe, declarou:
Se Maduro e os seus amigos decidirem responder com violência, prejudicar a Assembleia Nacional ou outros eleitos temos de adotar todas as opções que estão em cima da mesa”.
Depois dos Estados Unidos, também o Canadá, o Brasil, o Peru, o Equador, a Costa Rica, o Paraguai, a Colômbia, o Chile, a Argentina e o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos reconheceram Guaidó como presidente interino da Venezuela. Já o México anunciou que não o reconhecerá “por enquanto”.
O chefe da diplomacia portuguesa, Augusto Santos Silva, sublinhou em Madrid que a sua “prioridade” é garantir a “segurança física” dos portugueses que vivem na Venezuela, esperando que as manifestações neste país sejam “pacíficas”. “Respeito a decisão dos outros países [...], mas a segurança física dos portugueses que vivem na Venezuela é a prioridade número um” da diplomacia portuguesa, disse numa conferência de imprensa acompanhado pelo chefe da diplomacia espanhola, Josep Borrell. E explicou que Lisboa tem “um elemento nacional” específico quando se trata do relacionamento com a Venezuela: haver cerca de 300 mil portugueses ou luso-descendentes nesse país, sendo essa a “primeira preocupação”. E apelou:
Peço a todas as partes que se manifestam muito legitimamente, como é próprio das democracias, que o façam pacificamente sem pôr em causa a segurança dos bens e das pessoas”.
Por seu turno, o Ministro do Exterior espanhol preferiu sublinhar a importância de “preservar a unidade de ação” da UE (União Europeia) antes da crise institucional venezuelana. E apelou a um debate de todos os chefes da diplomacia europeia. Enquanto o Governo espanhol não toma qualquer decisão, alguns venezuelanos juntam-se nas Portas Del Sol, em Madrid, pedindo ao Governo que reconheça Guaidó. E os partidos da oposição acompanham esse pedido.
E a  UE pede novas eleições “confiáveis e transparentes”.
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O desfecho é incógnito. Alguns dos apoios são suspeitos em relação à sua finalidade genuína. É certo que a solução Maduro (que já ameaçou com o corte de relações com os EUA) se esgotou, como se esgotaram os recursos, a liberdade e a paz social. Mas uma solução puramente igual à anterior ao chavismo seria funesta. Tudo depende da tendência da população nas ruas e do lado de que estiverem os militares. No entanto, uma invasão norte-americana, a avaliar pelas declarações dos EUA, pode estar nos planos, o que seria mau, mas condicente com o estilo de concretização da segurança nacional. De todo, guerra civil ou invasão externa são indesejáveis e não trazem solução sem sangue, dor e miséria. E espera-se que o discurso em torno de Guaidó não se venha a reduzir a uma expressão populista. Deus adiuvet!
2019.01.23 – Louro de Carvalho