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terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Guardem quem nos defende, joga com nosso dinheiro e nos cobra impostos


Segundo o Observador e o Correio da Manhã, a PJ (Polícia Judiciária) está a fazer buscas na IGF (Inspeção-Geral de Finanças), no MDN (Ministério da Defesa Nacional) e na CVP (Cruz Vermelha Portuguesa) por suspeita de subornos em troca de informação com inspetores do fisco.
Na origem desta investigação estarão várias denúncias na IGF, que visam também Vitor Braz, o seu inspetor-geral, por conflito de interesses e crimes de tráfico de influência.
As diligências foram, entretanto, confirmadas pela PGR (Procuradoria Geral da República), que informa, em comunicado, que o processo de inquérito, dirigido pelo DIAP (Departamento de Investigação e Ação Penal) de Lisboa, investiga fundadas suspeitas de “corrupção passiva, peculato e abuso de poder imputáveis, indiciariamente, a altos responsáveis de serviços centrais da Administração Pública do Estado”, havendo inclusivamente quem tenha vendido informações confidenciais para o exterior. Os inspetores da PJ estão a vasculhar casas e locais de trabalho. Durante a operação está previsto que sejam constituídos arguidos, embora se desconheça ainda em que número, mas não foram emitidos quaisquer mandados de detenção.
Segundo a PGR, o MP (Ministério Público) quererá apurar “responsabilidades individuais de dirigentes da administração pública da área de serviços com a missão designadamente do controlo financeiro e fiscal do Estado, da área ministerial, incluindo uma Instituição humanitária de utilidade pública e uma empresa privada – tendo em conta os indícios da prática de atos ilícitos em procedimentos concursais, em ações de fiscalização que lesaram gravemente o Estado nos seus interesses financeiros –, tendo como contrapartidas benefícios individuais dos visados”.
Haverá, segundo o Correio da Manhã (CM), “toupeiras” na IGF a aceitar subornos de interesses privados, pelo que a PJ está nestas entidades com a sua UNCC (Unidade Nacional de Combate à Corrupção) e vários magistrados (ao todo, 50 inspetores da PJ, peritos informáticos e financeiros da PJ, 6 magistrados do MP e 4 auditores) para também investigar altos responsáveis da IGF que poderão estar a acumular cargos remunerados em empresas públicas que têm como dever fiscalizar. Com efeito, vários diretores da IGF têm cargos em entidades e instituições com fundos públicos, como Vítor Braz, que é presidente do conselho de auditoria da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. E a PJ suspeita de que a IGF não fiscaliza com rigor entidades como o MDN e a CVP por conflitos de interesse similares. O mesmo CM refere que Filomena Bacelar, responsável da IGF, mulher dum empresário da construção civil que teve vários contratos com o Estado e uma das visadas no caso Swissleaks, tem uma conta num paraíso fiscal.
A agência Lusa também questionou o Mistério das Finanças, mas fonte oficial recusou pronunciar-se dizendo não comentar “processos judiais em curso”.
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Por seu turno, o ECO assinala que arriscam veto do BCE (Banco Central Europeu) 14 gestores que passaram pela CGD (Caixa Geral de Depósitos), o banco do Estado, e que Norberto Rosa terá sido a primeira vítima.
Na verdade, os gestores que passaram pela CGD entre 2005 e 2008 e que queiram mudar de emprego no setor bancário poderão ter dificuldades em obter o aval do BCE por causa da auditoria da EY à gestão do banco público. Com efeito, esta auditoria concluiu que, entre 2005 e 2008,  o banco do Estado aprovou várias “operações ruinosas”, como consta de documento já na posse do BCE, que tem utilizado, segundo o comentador Marques Mendes, a informação nele inclusa para avaliar a idoneidade dos gestores que passaram pela instituição nesse período, caso mudem de funções e precisem novamente de ter o ‘ok’ do BCE.
Segundo os relatórios e contas da CGD, entre 2005 e 2008, a que o ECO acedeu, passaram pela Caixa 14 administradores, entre os quais Norberto Rosa (esteve 6 meses à espera de luz verde do BCE para integrar a equipa do BCP, tendo acabado por desistir), o próprio Carlos Costa, governador do BdP (Banco de Portugal), e Faria de Oliveira, presidente da APB (Associação Portuguesa de Bancos). E a auditoria à gestão da CGD entre 2000 e 2015, que teve o custo de cerca de um milhão de euros, terá concluído que “o banco aprovou entre 2005 e 2008 várias operações ruinosas”, como revelou Marques Mendes no seu comentário semanal na Sic, que acrescentou:
Não é apenas nesse período. Mas esse período – 2005 a 2008 – é considerado pela auditoria o período mais negro da gestão da Caixa”.
Tal documento foi enviado “aos supervisores e às autoridades de investigação criminal, na eventualidade de conter indícios de práticas que possam configurar crime, mas não ao acionista Estado”, segundo avançou o Ministro das Finanças, que recusou enviá-lo à Comissão Parlamentar de Orçamento e Finanças, invocando o sigilo bancário.
Por outro lado, o relatório da auditoria já está, há alguns meses, no MP a pedido da própria instituição. A Caixa anunciou que tinha enviado a auditoria para o MP, mas recusava-se a enviar o relatório à predita comissão parlamentar. Por isso, Marques Mendes admite que se venham a desencadear “investigações e acusações por gestão danosa da Caixa”. E outra consequência da auditoria, ainda segundo Marques Mendes, é “que gestores que passaram pela Caixa naquele período [2005/2008] não vão conseguir no futuro a aprovação do BCE para voltarem a ser gestores de bancos em Portugal”, ficando, assim, uma “chamada de atenção para gestores cuja idoneidade tenha de ser avaliada ou reavaliada pelo BCE no futuro”. Porém, esta limitação só terá relevância prática para os administradores que pretendam mudar de funções e necessitem de uma nova avaliação por parte do BCE, o que não será o caso da maior parte dos administradores em funções no período em causa porque já estão próximos da idade da reforma ou sem perspetiva de nomeação para a administração de outro banco.
Os administradores em causa, segundo o ECO, são: Carlos Santos Ferreira, Maldonado Gonelha, Vítor Lopes Fernandes, Carlos Costa, Celeste Cardona, Norberto Rosa, Francisco Bandeira e Armando Vara, que integraram o conselho administração da Caixa em 2005 – que se manteve em funções no ano seguinte, exceto Carlos Costa que renunciou ao cargo em setembro de 2006, tendo sido substituído como vogal por José Joaquim Berberan; e, como o conselho de administração teve uma mexida mais significativa em 2008, Fernando Faria de Oliveira, que assumiu a presidência, tendo Francisco Bandeira como vice-presidente (mantendo-se Norberto Rosa como vogal), Rodolfo Lavrador, José Araújo e Silva, Jorge Tomé e Pedro Cardoso, que entraram, repetindo-se no ano seguinte.
Questionado o BdP pelo ECO sobre se o BCE já está a avaliar a idoneidade daqueles gestores (até porque Norberto Rosa estava, desde maio, à espera de uma resposta do BCE para integrar o conselho de administração do BCP, mas optou por aceitar o cargo de secretário-geral a APB), fonte oficial do regulador, que se escudou nos “deveres de segredo a que se encontra legalmente obrigado”, sublinhou:
No exercício das funções de supervisão e, em particular na avaliação da adequação para efeitos do exercício de funções em órgão de administração e fiscalização das instituições supervisionadas, as autoridades de supervisão tomam em consideração toda a informação relevante que seja do seu conhecimento”.
Também Pedro Cardoso, administrador financeiro a partir de 2007 e ex-líder do BNU (Banco Nacional Ultramarino), banco da CGD em Macau, espera a autorização do BdP para começar a exercer funções de CEO do Bison Bank, o antigo banco de investimento do Banif, não havendo qualquer informação disponível sobre a situação deste processo, que está em Lisboa porque este banco não é supervisionado pelo BCE.
De qualquer modo, uma fonte do setor bancário português mostrou-se convicta de que o BCE pode não estar a limitar o seu período de análise aos gestores da CGD em funções entre 2005 e 20108, então liderada por Carlos Santos Ferreira; poderá estar em causa mesmo todo o período sobre o qual incide a auditoria da EY, ou seja, entre 2000 e 2015.
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 Tendo em conta os casos investigados, os casos em investigação e outros que foram objeto de rumores a propósito dos fundos comunitários – por exemplo, a gestão ruinosa de fundos atribuídos à formação profissional, o desvio dos legítimos fins nas ajudas à agricultura e à indústria, a compra de jipes e carros de alta cilindrada com fundos do QREN… –, o PSD, na sua estratégia para os fundos estruturais, sugere a mudança de tutela, a reestruturação de recursos humanos nos organismos intermédios e a aposta nos resultados em detrimento da execução, pois entende que tais fundos devem ser orientados para resultados, e não norteados pelo “imperativo da execução”, e defende o “princípio da equidade” e o combate à corrupção nos fundos através da criação da figura da delação premiada.
A este respeito, Rui Vinhas da Silva, ex-gestor do Compete e coordenador do CEN (Conselho Estratégico Nacional) do PSD para a Economia, Trabalho e Inovação, apresentou hoje o documento “Recursos da União Europeia e Fundos Estruturais: Que caminho para o Futuro?”, em que defende o combate à corrupção nos fundos por “mecanismos de prevenção e deteção de fraude”, e pela delação premiada e por um sistema antifraude europeu assente no desenvolvimento, em cada Estado-membro da UE (União Europeia), de mecanismos eletrónicos de submissão de queixas pelos cidadãos em estreita cooperação com o OLAF (The European Anti-Fraud Office). E, para moralização da utilização dos fundos, defende que, em territórios de baixa densidade, sejam financiados pelos fundos estruturais só os projetos que criam emprego e riqueza cujas unidades produtivas (e não sedes fictícias) se situem nesses territórios (Pobre do Interior!).
Tais sugestões ganham nova premência já que o Expresso (acesso pago) denunciou, este fim de semana, que 8 funcionários do IAPMEI estão a ser investigados pela PJ  por suspeitas de corrupção e tráfico de influências na atribuição de fundos europeus, já que alegadamente exigiam dinheiro em troca da atribuição dos fundos às empresas.
Porém, as propostas socialdemocratas vão mais além. Em termos de arquitetura da gestão dos fundos, a mudança começa pela tutela, devendo ser o Primeiro-Ministro ou o Ministro da Economia a ter a tutela dos fundos, que está, de momento, com o Ministro do Planeamento e das Infraestruturas, sendo que as várias áreas setoriais se encontram sob a alçada dos respetivos ministérios: Economia, com as empresasPescas e Mar, com Ana Paula Vitorino; Agricultura, com Capoulas Santos; e o POSEUR (Programa Operacional Sustentabilidade e Eficiência no Uso de Recursos), com João Matos Fernandes. Por outro lado, o documento apresentado hoje, na sede do PSD, com a presença de David Justino e de Isabel Meirelles, respetivamente presidente do CEN e coordenadora do CEN para os Assuntos Europeus, propõe que as autoridades de gestão dos fundos e os organismos intermédios (Aicep, ANI, Iapmei, AEP, AIP, etc.) devem ser alvo da “reestruturação de recursos humanos”, introduzindo-se “sangue novo das universidades, empresas, associações setoriais e centros tecnológicos”. E as CCDR (Comissões de Coordenação e Desenvolvimento Regional), que atualmente têm a tutela conjunta do Planeamento, Ambiente e Ministro-Adjunto “devem ser instrumentos de política económica do Ministério da Economia”.
Em termos estratégicos, o PSD propõe uma cooperação mais estreita entre as empresas e as instituições de ensino superior de gestão e engenharia nacionais e estrangeiras, com um aumento de doutorados nas empresas; a criação de centros de exposição de produtos e serviços para grandes clientes e negócios de elevado valor acrescentado; e, ainda, o desenvolvimento e implementação dum núcleo de análise estatística, que assista ao planeamento estratégico e ao processo decisório, pela medição rigorosa do impacto dos fundos estruturais na economia.
Do ponto de vista mais macroeconómico, vem a sugestão de que a PAC (Política Agrícola Comum) seja racionalizada, “já que é a rubrica individual mais expressiva em todos os Quadros Financeiros Plurianuais”, e se aumente a sua eficiência, “enquadrando-a e interligando-a nos focos: valor acrescentado europeu; investigação e inovação, bem como sofisticação do tecido empresarial europeu”. E, na Política de Coesão, o Orçamento europeu, deve focar-se nas áreas com maior potencial de aportar valor acrescentado europeu (transnacional), como a investigação, a inovação, a segurança (interna e externa), a mobilidade de pessoas, bens e serviços (através de interligações físicas e digitais) e a competitividade da economia europeia.
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O exposto mostra que temos de encontrar mecanismos de controlo sobre quem tem o encargo da defesa e da segurança da República, sejam as Forças Armadas (vejam-se os casos de Tancos e os ocorridos na Armada), sejam a PSP, a GNR e a PJ, sejam os bombeiros.
Também está visto que aqueles que gerem os nossos dinheiros nem sempre estão revestidos do caráter escrupuloso que lhes merecem os contribuintes, os depositantes e os investidores. Não seria estranho que a sede do lucro tivesse levado ao descalabro a Banca, exigindo-se, porém, que o regulador e o judiciário atuassem em conformidade e com a prontidão exigível, mas é lamentável que os gestores do banco do Estado, que deveria ser o nosso banco, passem impunes. Que é isso de não poderem ser administradores de banco, se pretenderem mudar-se, mas poderem continuar a ser Governador do BdP ou ser secretário-geral a APB?!
Depois, como é que os trabalhadores do fisco não conseguem cobrar as dívidas e coimas por fraude de passageiros em transportes públicos, transportando a culpa para a informática, e se divertem a prevaricar por conflito de interesses e crimes de tráfico de influência, incluindo venda de informação para o exterior (isto, para não falar das fugas do segredo de justiça e do segredo profissional…)? Quem nos livra das tentações consumadas de quem nos cobra, tantas vezes em excesso, os impostos e contribuições e dos políticos que se governam à nossa custa, esbulhando-nos, em vez de nos governarem?
E, quanto às sugestões do PSD para os fundos estruturais, sem comentar o seu mérito, que o é em muitos aspetos, só me pergunto: Qual a diferença em sermos roubados pelo Ministro A, pelo Ministro B ou pelo Primeiro-Ministro ou por outrem sob a tutela de algum destes?
Haja quem nos defenda e haja quem guarde quem nos defende? Bastará confiar em Deus, mas quem não tem experiência de confiar no ser humano, que vê, como pode ter experiência de confiar em Deus, a quem não vê?
2018.12.11 – Louro de Carvalho

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Vergonhosa a disputa sobre gestão de produto da solidariedade incendiária

A disputa começou cedo com um autarca da região Centro a criticar o facto de a UMP (União das Misericórdias Portuguesas) fazer a gestão dos donativos doados para auxílio às vítimas dos incêndios de Pedrogão Grande e concelhos limítrofes, esquecendo que estavam em causa contributos resultantes da mobilização dos cidadãos em torno dum espetáculo de solidariedade apoiado pelos três operadores de televisão generalista. Argumentava que os dinheiros dos contribuintes tinham de ser administrados pelos poderes públicos e não ficar nas mãos de privados. Porém, o promotor do espetáculo definiu previamente quem geria tais fundos – facto de que, dada a sua publicitação, todos os cidadãos contribuintes tiveram conhecimento mais que suficiente. Poderia ter sido de outro modo, mas foi assim que a organização decidiu e com a maior transparência. E o Presidente da UMP interveio nesse espetáculo agradecendo e informando como iria ser gerido esse bolo de donativos.
Mais tarde, Valdemar Alves deu o braço a torcer, aduzindo que a UMP tinha aderido ao fundo criado pelo Governo, sem explicar em que sentido e quais as consequências de tal adesão.
Agora, a comunicação social dá como nota de relevo a informação de que “autarcas questionam onde está o dinheiro das contas solidárias”. Com efeito, autarcas de Pedrógão Grande, Castanheira de Pera e Figueiró dos Vinhos advertem que solicitarão ao Ministério Público (MP) que perceba junto do Banco de Portugal (BdP) onde pairam os donativos destinados às vítimas dos incêndios, pois dizem desconhecer o destino do dinheiro que foi doado para as vítimas dos incêndios que afetaram a região, pelo que entendem necessária a intervenção do regulador.
Valdemar Alves, Presidente da Câmara de Pedrógão Grande, afirmou ao jornal “I” que não sabem do paradeiro desse dinheiro e que há de haver contas abertas que desconhecem, defendendo que cabia ao Estado ter controlado e distribuído essas verbas. O autarca admite que os donativos de contas abertas no estrangeiro por parte de emigrantes possam também ter sido desviados, embora essas contas “sejam mais difíceis de controlar”.
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Suspeitando de que os donativos tenham sido desviados para outros fins, os autarcas interessados reuniram-se ontem, 5 de setembro, para discutir a questão. Entretanto, anunciaram que iriam solicitar ao MP que junto do BdP perceba para onde foi canalizado o dinheiro das contas solidárias. Segundo Valdemar Alves, só o dinheiro para a reconstrução das casas destruídas pelas chamas é que é do conhecimento dos responsáveis das câmaras.
É óbvio que esse dinheiro tem de ser do conhecimento da autarquia respetiva, porque a ela incumbe o ónus de aprovar a obra, de cujo projeto têm de constar, além da memória descritiva e justificativa, as diferentes peças desenhadas, bem como o orçamento ou, ao menos, uma estimativa orçamental. Por outro lado, se o Governo criou um fundo público, os autarcas que avoquem o direito de conhecer as contas desse fundo. Quanto aos donativos entregues a entidades privadas, estas devem, em primeiro lugar, geri-los de acordo com as necessidades debeladas ou entregá-los a entidades públicas competentes, se não tiverem essa capacidade de gestão; em segundo lugar, devem fazer espelhar na contabilidade da instituição respetiva a gestão dessas verbas e prestar contas a quem de direito – assembleia geral e, conforme os casos, à Conservatória de Registo Comercial ou ao Instituto de Segurança Social ou outra entidade competente; e, em terceiro lugar, ao poder judicial, se houver suspeitas ou indícios de desvio ou de má aplicação. De resto, francamente, cheira-me a eleitoralismo de proximidade que se torna vergonhoso por ser sintoma da ânsia pelo perfume do dinheiro, exprimir desconfiança sobre a honestidade dos outros, como se os autarcas fossem os únicos seres honestos, e configurar um ultraje às vítimas e um insulto aos gestores das entidades não públicas. E a que propósito vai o BdP, que supervisiona e fiscaliza bancos (e mal), fiscalizar a UMP, as Cáritas, as IPSS, etc.?
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Por seu turno, a vice-presidente do PSD Teresa Morais veio exigir esclarecimentos adicionais ao Governo sobre os donativos privados às vítimas dos incêndios florestais da região Centro, em junho, considerando o valor apurado “ridiculamente baixo”. Disse a deputada socialdemocrata, em conferência de imprensa, na sede nacional do PSD, em Lisboa:
“A resposta é a de que foram submetidos termos de adesão de donativos de 3,2 milhões, estando concretamente transferidos 1,9 milhões. Este valor é – julgo que toda a gente anuirá – muito baixo e ridiculamente baixo, se comparado com as expectativas criadas pelos números que foram divulgados.”.
Segundo esta dirigente após questões colocadas em julho e agosto pelo PSD, a resposta do executivo surgiu agora por intermédio do Ministro do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Vieira da Silva. E Teresa Morais insistiu:
“Esse número, que circulou na opinião pública e publicada, nunca teve confirmação oficial, mas a verdade é que ouvimos números que rondavam os 13 a 14 milhões [de euros]. Precisamente porque nunca foram confirmados pelo Governo e era importante saber qual o valor exato dos donativos dos portugueses, também das comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo, é que perguntamos qual o exato valor dos donativos de particulares.”.
As frentes de fogo, que afetaram as regiões de Pedrógão Grande, Castanheira de Pera e Figueiró dos Vinhos provocaram, pelo menos, 64 mortos e mais de 200 feridos. Por isso, desafiou:
“Cumpre ao Governo, que entendeu criar um fundo público, gerido por uma entidade pública e tutelado pelo Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, explicar cabalmente aos portugueses que valores são estes, onde estão os restantes donativos, quem os está a gerir e em que termos”.
A dirigente do PSD considerou que a discrepância apontada “revela total descoordenação e incapacidade” do Governo em gerir os donativos privados, afirmando:
“O Governo entendeu que devia ser ele a gerir os donativos que os portugueses fizeram na sua expressão de solidariedade e, no entanto, responde agora que há 1,9 milhões [de euros] no fundo que para isso criou. É absolutamente imperioso que esclareça o valor dos restantes donativos e dê uma explicação acerca dessas quantias e qual o destino que lhes está a ser dado.”.
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Também o Primeiro-Ministro veio a terreiro explicar-se, dizendo que o Estado, após a tragédia do incêndio de Pedrógão Grande, só organizou um fundo, o ‘Revita’, que tem 1,9 milhões de euros e é gerido conjuntamente com as autarquias e sociedade civil.
Falando aos jornalistas em Lisboa, antes da cerimónia de entrega do Prémio Champalimaud de Visão, presidida pelo Chefe de Estado, Marcelo Rebelo de Sousa, o líder do executivo declarou, sobre a controvérsia em torno da aplicação das verbas doadas por cidadãos às vítimas do incêndio de junho em Pedrógão Grande, no distrito de Leiria:
“Depois do extraordinário movimento da sociedade civil, é essencial que os portugueses tenham toda a informação sobre o destino das verbas que doaram generosamente”.
E explicou:
“As pessoas deram o dinheiro às entidades que entenderam. O Estado organizou um fundo, o ‘Revita’, que até ao momento só recebeu donativos no montante total de 1,961 milhões de euros. Relativamente às verbas do fundo ‘Revita’, as intenções de doação chegam até 4,9 milhões de euros, apesar de, efetivamente, só termos recebido até agora 1,9 milhões. Sendo um fundo público, é gerido em conjunto com as autarquias e com a sociedade civil.”.
Especificando a forma de gestão e funcionamento do “Revita”, António Costa apontou que o Conselho de Administração é constituído por: um elemento do Instituto da Segurança Social, o Presidente da Câmara de Castanheira de Pera (em representação das autarquias) e o Provedor da Santa Casa da Misericórdia de Pombal (este representando as entidades da sociedade civil). São estas três pessoas que gerem esse 1,9 milhões de euros.
De acordo com o líder do executivo, a verba de 1,9 milhões de euros destina-se prioritariamente a dois objetivos: o apoio à reconstrução das habitações, onde cerca de 19 já tem obras em curso ou concluídas após financiamento deste fundo; e o apoio a agricultores cujos prejuízos se situam entre 1053 e cinco mil euros”. Interrogado sobre as críticas feitas ao Governo pelo PSD a propósito do destino dos donativos para as vítimas do incêndio de Pedrógão Grande, Costa contrapôs que, no atinente ao Estado, “as regras são totalmente transparentes”. E alegou:
“É bom que se esclareça que grande parte dos donativos não foi recebida pelo Estado. Por exemplo, a RTP, que promoveu um espetáculo e recebeu bastante dinheiro, entregou-o a uma outra entidade – e só a RTP pode explicar o destino que lhe deu.”.
Aqui baralhou-se se não queria referir a conta solidária que a RTP abriu e atribuiu à Misericórdia de Pedrógão. Mas ainda, segundo Costa, para que ficasse claro que o “Revita” não era um fundo do Governo, o executivo decidiu avançar para uma gestão tripartida, incluindo as entidades representativas da sociedade civil, sustentando:
“O Estado só responde pelo dinheiro que lhe foi confiado e, nesse sentido, para que não haja mais dúvidas, pedi ao Ministro da Solidariedade [Vieira da Silva] que publicasse no site do fundo ‘Revita” um quadro com o montante doado e destino que está a ser dado a cada uma das verbas”.

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O Fundo “Revita”, a que se refere Costa, foi criado para gerir os donativos para apoio às vítimas do incêndio que começou em 17 de junho, em Pedrógão Grande, e conta com mais de 20 entidades aderentes, num total de cerca de 2 milhões de euros já recebidos, como refere um comunicado enviado à agência Lusa pelo MTSSS (Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social), que afirma:
“Até à data, aderiram ao fundo mais de duas dezenas de entidades, com donativos em dinheiro, em espécie e em prestação de serviços, tendo sido entregues donativos em dinheiro no valor de cerca de 2 milhões de euros”.
Segundo o comunicado, os donativos apenas são entregues ao “Revita” por decisão dos doadores, sendo que o Governo e o Conselho de Gestão do fundo têm também cooperado com a Cáritas Diocesana de Coimbra, a UMP e a Fundação Calouste Gulbenkian, que agregaram outros donativos. Por outro lado, o MTSSS explica que o fundo “Revita” foi criado para gerir os donativos entregues no âmbito da solidariedade demonstrada, “em estreita articulação com os municípios de Castanheira de Pera, Figueiró dos Vinhos e Pedrógão Grande”, frisando:
“A competência do Conselho de gestão do ‘Revita’ cinge-se aos donativos entregues ao Fundo ‘Revita’, sendo que estes donativos se destinam prioritariamente à reconstrução das habitações afetadas pelos incêndios e ao seu apetrechamento, bem como ao apoio aos agricultores”.
Questionado pela agência Lusa, o MTSSS afirmou que “não pode responder sobre outras contas solidárias e/ou outros donativos, uma vez que se trata de dinheiro de entidades privadas”, não sendo responsável pela abertura ou fiscalização dessas mesmas contas.
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A terreiro vem superiormente o Presidente da República afirmar que é preciso explicar aos portugueses o que lhe explicaram a ele: “de onde veio o dinheiro para fazer frente à tragédia, quem é que o está a gerir, como e quanto”. E, apelando a que sejam corrigidos eventuais “lapsos, duplicações ou insuficiências”, pediu que se “evite, nas três semanas que faltam [para as eleições autárquicas] converter [este assunto] em campanha eleitoral”. Mais afirmou que “isto tem de ser explicado por quem, a nível local, tenha uma visão de coordenação”.*
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O BE julga inacreditáveis problemas com os donativos, asserção que explicito por relevante. Diz Catarina Martins, coordenadora do Bloco de Esquerda (BE):

“As entidades privadas a quem toda a população de boa-fé entregou donativos, têm de saber explicar o que é que estão a fazer com esses donativos e, se houver algum problema, naturalmente as entidades competentes terão de investigar”.

A coordenadora do BE afirmou hoje, dia 6 de setembro, que acha inacreditável que haja problemas com os donativos para as vítimas dos incêndios de Pedrógão e reclamou explicações das entidades privadas que gerem fundos. Considerou ela à margem duma visita ao Complexo do Cachão, em Trás-os-Montes:
“Eu acho inacreditável que possa haver problemas naquilo que é pôr a generosidade de toda a população ao serviço de quem precisa de ser ajudado”.
Por isso, acrescentou:
“As entidades privadas que têm esses fundos devem explicar, porque o Governo já deu as explicações e não é no fundo público que há problema, é nas entidades privadas”.
Catarina Martins reiterou que “seria uma matéria de bom senso” as entidades privadas a quem foram entregues donativos darem explicações sobre o que recolheram e o que estão a fazer com o dinheiro, pois “ninguém no país compreende que não expliquem”. E, recordando que “o Bloco de Esquerda tem tido uma posição sobre esta matéria de uma enorme prudência”, afirmou:
“Nós temos dito que nestas questões do apoio social, das respostas às comunidades, é muito importante a presença do Estado. Eu julgo que este momento prova um bocadinho essa necessidade.”.
Para a coordenadora do BE, “com todas as dificuldades que possam existir com a presença do Estado, as pessoas compreendem bem que há mais escrutínio nos fundos públicos e que nos privados é que não está a haver esse escrutínio”. Pelo que isso deve-nos fazer pensar como é que estamos no terreno e como é que esta solidariedade é efetuada. E, considerando que “as entidades privadas têm de ser fiscalizadas se houver problemas” e que “têm a obrigação de dar explicações porque pediram donativos a toda a população”, declarou:
“E, sobretudo, as pessoas que foram vítimas de tragédia devem ser apoiadas e eu acho que quem foi vítima da tragédia e vê agora estas notícias, deve-se sentir insultado; não é assim que se devem tratar as pessoas”.
A líder do Bloco, para quem é “absolutamente lamentável a forma como este assunto está a ser tratado” concorda com o apelo de não aproveitamento político feito pelo presidente da República, vincando que “essa foi a opção do Bloco de Esquerda desde o primeiro momento”.
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Embora Catarina queira ver o Estado a supervisionar (e até a gerir) toda a matéria atinente a dinheiros e ações respeitantes à solidariedade (de que muitos discordam), tem a prudência de não exigir que as entidades privadas a quem os cidadãos confiaram verbas não as entreguem ao Estado. Exige – e bem – que sejam fiscalizadas em caso de suspeita e entende que essas entidades deveriam arranjar forma de prestar contas à sociedade pela forma quantificada e qualificada como administram tais fundos.
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Por mim, não tenho dúvidas de que é uma exigência plausível, mais do que pretender controlar ou mesmo abocanhar todos os donativos dos cidadãos. O Presidente disse o que tem de ser dito: explicação de tudo, segundo a responsabilidade de cada entidade (pública ou privada). E penso que, embora os privados não sejam obrigados a passar além do que foi dito acima sobre prestação de contas, bem como sobre a fiscalização em caso de dúvidas e o dever de cooperação pública, parece-me bem que inventem outras formas de se explicarem publicamente. Isto, sem exageros. Por exemplo, dispenso-os de me informarem em que pessoa, animal, casa ou planta investiram os meus 60 cêntimos +IVA (de chamada telefónica) ou o meu bilhete no Meo Arena. Entendidos?
2017.09.06 – Louro de Carvalho