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domingo, 1 de setembro de 2019

“Convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos e serás feliz”


É a recomendação de Jesus ao fariseu que o convidara para um banquete e em que compareceu. Aí, como se pode ler na passagem do Evangelho tomada para a proclamação e meditação na Liturgia da Palavra do 22.º domingo do Tempo Comum no Ano C (Lc 14,1.7-14), o Senhor dá a lição da humildade aos comensais: que não procurem os primeiros lugares nos banquetes, mas que tentem ocupar os últimos. É uma questão de bom senso. Se alguém ousa ocupar os lugares cimeiros, pode o anfitrião vir a rogar-lhe que desça, pois aquele lugar era para outrem; mas, se ocupa um dos últimos lugares, pode o anfitrião vir a convidá-lo a subir um pouco. E ficou a máxima de sabedoria: “Quem se exalta será humilhado e quem se humilha será exaltado”.
E ao anfitrião Jesus dá a lição da gratuitidade e da dádiva generosa e sem retorno:
Quando ofereceres um almoço ou um jantar, não convides os teus amigos nem os teus irmãos, nem os teus parentes nem os teus vizinhos ricos, não seja que eles, por sua vez, te convidem e assim serás retribuído. Mas, quando ofereceres um banquete, convida os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos; e serás feliz por eles não terem com que retribuir-te: ser-te-á retribuído na ressurreição dos justos.”.
A humildade, como bom senso, alia-se ao dom da verdade, da gratuitidade, da generosidade – virtudes que edificam o homem (homo, hominis, em latim), ou seja, o ser que vive no ambiente terreno, o húmus (em latim, húmus, húmus ou humi significa “terra fértil”). De humus derivou-se a palavra humanus, a, um (humano, que vive na terra, que dela foi tirado) e a palavra humilis,e (humilde; em grego, tapeinós, ligado à terra) e a palavra humilitas, humilitatis (humildade; em grego, tapeinótês).  
A humildade é dote de quem se julga terreno, embora com ânsia de céu: aceita a condição de viver na terra para entrar no céu: “Vós aproximastes-vos do monte Sião, da cidade do Deus vivo, a Jerusalém celeste” (Heb 12,22). É bom que seja cada um a reconhecer a sua condição, não o rebaixe alguém a nível inferior ao da terra. Quem o faz humilha, rebaixa, espezinha, ofende.
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Este banquete em dia de sábado, na casa de um dos chefes dos fariseus é mais uma etapa do caminho de Jerusalém. Era a refeição solene de sábado que se tomava por volta do meio-dia, ao voltar da sinagoga. Para ela se convidavam os hóspedes, continuando-se a discussão sobre as leituras escutadas no ofício sinagogal.
Lucas é o único evangelista que mostra os fariseus próximos de Jesus a ponto de o convidarem para casa e a sentar-se à mesa com eles (cf Lc 7,36; 11,37), ao passo que Marcos e Mateus apresentam os fariseus como os grandes adversários de Jesus. Os fariseus formavam um dos principais grupos religioso-políticos da sociedade palestina da época. Dominavam os ofícios sinagogais e estavam presentes em todos os passos religiosos. A sua preocupação fundamental era transmitir a todos o amor pela Torah, escrita e oral. Era um grupo sério, empenhado na santificação do Povo. Porém, ao absolutizarem a Lei, esqueciam as pessoas e passavam por cima do amor e da misericórdia. Ao considerarem-se como “puros” (por viverem de acordo com a Lei), desprezavam o “am aretz” (o “povo do país”) que, pela ignorância e dureza de vida, não cumpria integralmente os preceitos da Lei. Conscientes das suas capacidades, integridade e superioridade, não eram modelos de humildade, o que explica a procura dos lugares de honra.
O “banquete” é, no mundo semita, o espaço do encontro fraterno, onde os convivas partilham o mesmo alimento e estabelecem laços de comunhão, proximidade, familiaridade, irmandade. Jesus aparece, muitas vezes, envolvido em banquetes, não porque fosse “comilão e bêbedo” (cf Mt 11,19), mas porque, ao ser sinal de comunhão, de encontro, de familiaridade, o banquete anuncia a realidade do Reino de Deus.
O texto desenvolve-se em duas partes. A 1.ª (vv. 7-11) enaltece a humildade; a 2.ª (vv. 12-14), a gratuitidade e do amor desinteressado. Ambas estão unidas pelo tema do Reino.
As palavras que Jesus dirigiu aos convidados que disputavam os primeiros lugares não são novidade, pois já o AT aconselhava a não ocupar os primeiros lugares (cf Pr 25,6-7); mas o que era uma exortação moral converte-se numa apresentação do Reino e da lógica do Reino: o Reino é espaço de irmandade, fraternidade, comunhão, partilha e serviço, que exclui qualquer atitude de superioridade, de orgulho, de ambição, de domínio sobre os outros. Para entrar nele, é necessária a pequenez, a simplicidade, a humildade, com a renúncia à pretensão de ser o melhor, o mais justo, o mais importante. O próprio Jesus, na “ceia de despedida” com os discípulos na véspera da sua morte, lavou os pés aos discípulos e constituiu-os em comunidade de amor e de serviço, avisando que, na comunidade do Reino, os primeiros serão os servos de todos (cf Jo 13,1-17). É reconhecer a verdade da vida e do homem para chegar à verdade do Reino.
Por outro lado, Jesus põe em causa – em nome da lógica do Reino – a prática de convidar para os banquetes apenas os amigos, os irmãos, os parentes, os vizinhos ricos. Os fariseus escolhiam cuidadosamente os convidados para a mesa. Nas refeições, não convinha haver alguém de nível menos elevado, pois a “comunidade de mesa” vinculava os convivas e não convinha estabelecer laços com gente desclassificada e pecadora (por exemplo, nenhum fariseu se sentava à mesa com alguém pertencente ao “am aretz”, ao “povo da terra”, desclassificado e pecador). E os fariseus tinham a tendência (própria de todas as pessoas, de todas as épocas e culturas) de convidar os que podiam retribuir da mesma forma. Era o intercâmbio de favores e não a gratuitidade e dádiva desinteressada.
Jesus, denunciando esta prática em nome do Reino, vai mais além e apresenta uma proposta subversiva: é preciso convidar “os pobres, os aleijados, os coxos e os cegos” – que eram considerados pecadores notórios, amaldiçoados por Deus, pelo que estavam proibidos de entrar no Templo (cf 2Sm 5,8) para não profanar o lugar sagrado (cf Lv 21,18-23). Ora, são esses que devem ser os convidados para o “banquete”.
Jesus já não fala simplesmente dessa refeição em casa dum fariseu, na companhia de gente distinta; mas fala do que esse “banquete” anuncia e prefigura: o banquete do Reino. Jesus traça os contornos do Reino: é apresentado como um “banquete”, onde os convidados estão unidos por laços de familiaridade, irmandade, comunhão: para ele são convidados todos sem exceção (incluindo os que a cultura social e religiosa exclui e marginaliza); as relações entre os que aderem ao banquete não são marcadas pelos jogos de interesses, mas pela gratuitidade e pelo amor desinteressado; e os participantes do “banquete” devem despir-se de qualquer atitude de superioridade, orgulho, ambição, para se colocarem numa atitude de humildade, de simplicidade, de serviço – uma atitude de autenticidade, mostrando a verdade da vida.
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Já o livro de Ben-Sirah nos dá a lição da humildade contra a soberba (Sir 3,19-21.30-31): “Filho, em todas as tuas obras procede com humildade e serás mais estimado do que o homem generoso”.
No início do séc. II a.C., quando os selêucidas dominavam a Palestina e o helenismo tinha começado a ação de minar a cultura e os valores tradicionais de Israel, muitos judeus (incluindo membros de famílias de origem sacerdotal), deixando-se seduzir pelo brilho da cultura helénica, abandonavam os valores dos pais e aderiam aos valores da cultura invasora. Então surge Jesus Ben-Sirah, um judeu tradicional, orgulhoso da sua fé e dos valores israelitas, e, consciente de que o helenismo ameaçava as raízes do Povo, escreve para defender o património religioso e cultural do judaísmo. Tenta convencer os compatriotas de que Israel possui, na Torah revelada por Deus, a verdadeira “sabedoria” e muito superior à “sabedoria” grega. Aos israelitas atraídos pela cultura grega lembra a herança comum, vincando a grandeza dos valores judaicos e demonstrando que a cultura judaica não fica a dever nada à cultura grega.
O texto tomado como 1.ª leitura pertence à primeira parte do livro (cf Sir 1,1-23,38), em que se apresenta a “sabedoria”, criada por Deus e oferecida a todos os homens. Aí predominam os “ditos” e “provérbios” que ensinam a arte de bem viver e de ser feliz.
O texto apresenta-se como uma “instrução” que um pai dá ao seu filho e cujo tema fundamental é a humildade. Para Ben-Sirah, a humildade é uma das qualidades fundamentais que o homem deve cultivar, porque lhe garantirá estima perante os homens e “graça diante do Senhor”. Não se trata de uma forma de estar e de se apresentar reservada aos mais pobres e menos preparados, mas de algo que deve ser cultivado por todos os homens, a começar pelos considerados mais importantes. De facto, enquanto “a desgraça do soberbo não tem cura, porque a árvore da maldade criou nele raízes”, “o coração do sábio compreende as máximas do sábio, e o ouvido atento alegra-se com a sabedoria”. O hagiógrafo, que não entra em grandes pormenores, limita-se a afirmar a importância da humildade e a propô-la. O “sábio” autor destas “máximas” não tem dúvida de que é na humildade e na simplicidade que reside o segredo do êxito e da felicidade. E o Salmo 68 diz-nos que o Pai dos órfãos e defensor das viúvas estabeleceu a sua grei numa terra que a sua bondade preparou ao oprimido.
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Não gostamos de ouvir falar de humildade, porque temos dentro de nós uma falsa imagem desta virtude. Para um vivente do século XXI, falar dela parece fora de moda, quando se louvam os interventivos, os ciosos dos seus direitos (não tanto dos deveres) os que gostam de se apresentar com dignidade. E imaginamos uma pessoa humilde como acanhada, triste, apoucada, à margem da vida, inconsciente dos seus direitos, que não defende nem reivindica, e sem iniciativa em favor dos outros. Para alguns, a pessoa humilde é quase um débil mental. Ora, a imagem da humildade que muitas pessoas têm não é a de que nos fala o Evangelho. A humildade é a verdade: acerca de Deus, dos irmãos e de nós mesmos e a aceitação desta verdade (somos limitados e os nossos dotes vêm de Deus e da comunidade). O demónio sabe que é criatura, mas não aceitou essa verdade e quis ocupar o lugar de Deus. É o pai da mentira, a soberba personificada.
Paulo considera-se “como um ser abortivo” diante de Deus, mas defende-se contra as mentiras com que o difamam e faz valer os seus direitos de cidadão romano. Maria proclama-se a humilde “serva do Senhor”, mas tem perfeita consciência de que o Senhor fez n’Ela grandes coisas (tem forte autoestima, mas sabe que o que tem lhe vem de Deus), pelo que é proclamada “ditosa”.
A humildade é uma virtude difícil, árdua, que nunca está conseguida enquanto não terminar a prova desta vida terrena. Em geral, temos uma imagem exagerada de nós mesmos. Alguém escreveu que o melhor negócio do mundo seria comprar as pessoas pelo que valem na realidade e vendê-las pelo que julgam valer. Obviamente não nos referimos ao valor que Deus nos atribui, pois valemos todo o Sangue de Cristo.
Quanto mais importante fores, mais deves humilhar-te e encontrarás graça diante do Senhor. Porque é grande o poder do Senhor e os humildes cantam a sua glória.”. Os textos sagrados desvalorizam a importância que nos pode dar aos olhos dos outros o cargo que ocupamos, a fortuna de que dispomos ou a inteligência e conhecimentos que nos foram dados. O importante é que realmente participamos da mesma vida divina que nos torna filhos de Deus e herdeiros do Céu; iluminados pela mesma luz da fé, vamos a caminho da mesma felicidade eterna no Paraíso; e o que podemos fazer é pedir perdão de administrarmos tão mal os talentos recebidos.
No desempenho da nossa missão neste mundo parecemo-nos com os que representam uma peça teatral. Uns aparecem vestidos de reis, outros de soldados, donas de casa, empregados ou com outras funções. Mas, quando acaba a representação teatral e se despem das vestes, aparecem todos vestidos de cidadão vulgar aos olhos das pessoas. No livro “O triunfo dos porcos”, estes, depois de terem “democratizado” a quinta, começam a afixar cartazes que pretendem instaurar a nova ordem. Num deles escreveram: “Todos os animais são iguais”. E um anónimo escreveu por baixo: “Mas alguns são mais iguais do que os outros”. É a tal incoerência da vida!
Não há super-homens na terra. O dinheiro e os cargos não aumentam o nosso valor diante de Deus: somos administradores e um dia prestaremos contas da nossa administração. No entanto, temos falsos complexos de superioridade. Somos tentados a julgarmo-nos superiores aos outros em algum aspeto – no dinheiro, no vestir, no saber, no carro, na casa –; e pensamos que poderíamos fazer melhor do que eles fazem. A contradizer esta igualdade fundamental, somos exigentes para os outros e condescendentes para connosco. Exigimos trato e atenções especiais e melindramo-nos com a maior facilidade. Aos nossos ouvidos soa a palavra da Escritura:
Que tens tu que não hajas recebido? E, se o recebeste, porque te glorias como se não o houveras recebido?” (1Cor 4,7).
Ora, devemos tratar-nos como iguais que somos, respeitando-nos e ajudando-nos mutuamente nesta aventura da terra ao Céu.
O mestre da humildade é Jesus. Quando entrou em casa de um dos principais dos fariseus, para tomar uma refeição para a qual tinha sido convidado, todos O observavam.
Encontramos aqui diversas espécies de olhares, como podem ser os nossos. O olhar de Jesus é cheio de bondade e de amor e exprime um desejo divino de ajudar todos os presentes. Assim era quando olhava os doentes e aflitos que Lhe apareciam nos caminhos da Terra Santa. Aproveita o momento para dar a todos uma lição prática de humildade muito apropriada ao momento que estão a viver. O olhar de alguns presentes era de orgulho e importância, com um falso complexo de superioridade, como se não houvesse no mundo honras e homenagens capazes de os deixar contentes. Alguns eram simples curiosos: tinham ouvido contar muitas maravilhas acerca de Jesus e estavam na esperança de poderem testemunhar alguma delas. E outros olhavam Jesus com uma atitude inquisitorial, à procura de O surpreenderem em alguma coisa que servisse de pretexto para o condenar. Mas Ele, que é de condição divina, esvaziou-se a si mesmo, tomando a condição de servo, tornando-se semelhante aos homens (cf Fl 2,6.7).
Jesus convida-nos a imitá-Lo, não na realização de milagres, mas na humildade:
Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e Eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o Meu jugo, e aprendei de Mim, que sou manso e humilde de coração, e achareis alívio para as vossas almas, pois o meu jugo é suave e o Meu fardo é leve.” (Mt 11, 29-30).
As pessoas humildes encontram sempre motivos para se edificarem com os outros e alimentam um desejo grande de as ajudar, têm um olhar cheio de complacência que as faz aprender sempre com o que veem, movidas pelo desejo sincero de ajudar os outros. Aceitam com simplicidade cargos e tarefas em prol do próximo sem se envaidecerem ou ensoberbecerem. Dão de graça o que recebem de graça. Sabem ser discretas como o sal e o açúcar que se diluem.
2019.09.01 – Louro de Carvalho

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Bem-aventurados os pobres, que não a pobreza em si


Lucas, num dos trechos do seu evangelho (Lc 6,17.20-26), declara os pobres bem-aventurados, sem especificar, como faz Mateus, os pobres em espírito, tal como considera felizes os que têm fome, os que choram e os que sofrem perseguição, o insulto ou a infamação. Terão o reino de Deus como herança, serão saciados, hão de rir de alegria e terão a recompensa no Céu.
A razão por que o evangelista, ao invés de Mateus, não acentua os pobres que o são no seu íntimo, terá a ver com o facto de Lucas colocar o discurso de Jesus dirigido aos seus discípulos (olhou-os, falou-lhes) ali presentes e à multidão que ali acorrera para o Ouvir. É certo que o Mestre invetiva os ricos por contraste. Alguns dos discípulos presentes eram ricos e alguns mesmo estavam de coração apegado às riquezas. Tanto assim é que o apostolo Judas Iscariotes, o homem da bolsa, era ladrão e não se coibiu de vender o Senhor por trinta moedas de prata.
A exaltação do pobre, que não da pobreza, sobretudo se constituir um estilo que prostra a pessoa na miséria donde é difícil sair como de prisão de alta segurança, tem o grande significado de que o pobre está recetivo à novidade, ao segredo de Deus, à promessa de bem-estar; não tem quem ou o que o entretenha ou aprisione definitivamente; e está despojado para poder entrar no dinamismo do Reino.  
Algo de semelhante se passa com aquele que chora lágrimas que podem ser purificadoras e preparatórias do consolo; algo parecido sucede com aquele que tem fome e sede, ou seja, a insatisfação com a penúria ou com a falsa abundância, pois tem a capacidade de sonhar com a mudança, de desejar um futuro melhor para si e para os seus (e seus podem vir a ser todos os homens e mulheres); e algo similar ocorre com o perseguido, insultado ou infamado por causa do Evangelho, pois sentir-se-á compensado por ser tratado como os autênticos profetas de outrora.
Na segunda parte do trecho evangélico, Jesus dirige-se aos ricos denunciando a consolação egoísta e avara de que desfrutaram perdidos no labirinto dos bens materiais: mais quiseram ter que ser. Dirige-se aos saciados, que já não querem mais nada, nada anseiam, nada esperam, pois, estando a matar o futuro, podem estiolar e ter fome e sede e não saber onde encontrar a saciedade para a sua penúria. Dirige-se aos que estão contentes, aos que mergulham no folguedo esquecidos dos demais ou então considerando-os o inferno neste mundo, na linha concetual de Nietzsche, a servir de tormento a todos, pois hão de ser vítimas das suas distrações e folguedos, bem como da rejeição que fazem dos semelhantes que nem para rir têm jeito. E dirige-se aos que são elogiados por todos, pois são fúteis, egocentristas e hipócritas, assemelhando-se aos antigos falsos profetas que hoje estão reeditados um pouco por toda a parte a pregar a sua doutrina e não a do Evangelho da paz. Com estas inventivas alinha Tiago ao advertir os ricos, cuja riqueza degrada, impede de cumprir a justiça e leva à condenação do inocente à morte:
Vós, ó ricos, chorai em altos gritos por causa das desgraças que virão sobre vós. As vossas riquezas estão podres e as vossas vestes comidas pela traça. O vosso ouro e a vossa prata enferrujaram-se e a sua ferrugem servirá de testemunho contra vós e devorará a vossa carne como o fogo. Entesourastes, afinal, para os vossos últimos dias! Olhai que o salário que não pagastes aos trabalhadores que ceifaram os vossos campos está a clamar; e os clamores dos ceifeiros chegaram aos ouvidos do Senhor do universo! Tendes vivido na terra, entregues ao luxo e aos prazeres, cevando assim os vossos apetites… para o dia da matança! Condenastes e destes a morte ao inocente, e Deus não vai opor-se?” (Tg 5,1-6).
Por outro lado, o afogamento na riqueza e a paixão pelo ter e por ser superior originam rixas:
Donde vêm as guerras e lutas que há entre vós? Não vêm das vossas paixões que se servem dos vossos membros para fazer a guerra? Cobiçais, e nada tendes? Então, matais! Roeis-vos de inveja, e nada podeis conseguir? Então, lutais e guerreais-vos!” (Tg 4,1-2). 
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O texto em referência situa-se na parte do Evangelho de Lucas que aborda a “atividade de Jesus na Galileia” (Lc 4,14–9,50), em que o evangelista Lucas pretende apresentar um primeiro anúncio sobre Jesus e definir, a partir da sinagoga de Nazaré, o programa libertador que o Messias vai cumprir em favor dos pobres e oprimidos: “o Espírito do Senhor está sobre Mim porque Me ungiu, para anunciar a Boa Nova aos pobres; enviou-Me a proclamar a libertação aos cativos…” (Lc 4, 18-19). E as bem-aventuranças lucanas inserem-se no quadro pautado por esta linha condutora: a libertação chegou com Jesus e dirige-se aos pobres e aos débeis. Numa planície (ao invés de Mateus, que situa o discurso das bem-aventuranças numa montanha), rodeado dos discípulos e pela multidão “que acorrera para O ouvir e ser curada dos seus males” (Lc 6,18), Jesus proclama as bem-aventuranças e as correspondentes invetivas.
As quatro bem-aventuranças do “discurso da planície” equivalem às nove da montanha e têm como destinatários os pobres, os que têm fome, os que choram, os que são perseguidos. É de reparar que tanto Lucas como Mateus colocam à cabeça das bem-aventuranças os pobres.
O vocábulo grego utilizado por Lucas e por Mateus para “pobres” (ptôchói) traduz os termos hebraicos (‘anawim, dallim, ebionim) que, no Antigo Testamento, definem a classe de pessoas sem bens, à mercê da prepotência e da violência dos ricos e poderosos: os desprotegidos, os explorados, os pequenos e sem vez e voz, as vítimas da injustiça, que a arbitrariedade dos poderosos recorrentemente priva dos seus direitos e atenta contra a sua dignidade. Por isso, têm fome, choram e são perseguidos. E, embora a oferta libertadora de Deus não seja exclusivamente para um grupo social, são os pobres e oprimidos, os desprotegidos, os explorados, os pequenos, sem vez e sem voz os destinatários preferidos da boa nova da salvação de Deus, por estarem numa situação intolerável de debilidade e necessitam de que Deus, na sua bondade, derrame sobre eles a sua bondade e misericórdia. A salvação de Deus dirige-se preferencialmente a estes porque, na sua simplicidade e despojamento, estão mais abertos a acolher a oferta que Deus lhes faz em Jesus.
As bem-aventuranças fazem sair do círculo limitado da sinagoga o programa do Messias, agora proclamado aos apóstolos, discípulos e multidão. Ele é enviado do Pai ao mundo dos oprimidos, pequenos, privados de direitos e de dignidade, simples e humildes, que Ele ama de uma forma especial e com insólita deferência, como se vê noutro capítulo do Evangelho lucano:
Jesus estremeceu de alegria sob a ação do Espírito Santo e disse: Bendigo-te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos inteligentes e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado. Tudo me foi entregue por meu Pai; e ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, nem quem é o Pai senão o Filho e aquele a quem o Filho houver por bem revelar-lho.’. Voltando-se, depois, para os discípulos, disse-lhes em particular: ‘Felizes os olhos que veem o que estais a ver. Porque – digo-vos – muitos profetas e reis quiseram ver o que vedes e não o viram, ouvir o que ouvis e não o ouviram’! (Lc 10,21-24).
As invetivas aos ricos são o reverso da medalha. Denunciam a lógica do opressor, do instalado, do avaro, do poderoso, do que pisa os outros, do orgulhoso, do autossuficiente do indisponível para acolher a novidade subversiva do “Reino”. Já nada têm a esperar, pois têm o futuro assegurado no mundo. Deus, no entanto, tem para eles a mesma oferta de salvação, mas eles, se persistirem na lógica do egoísmo, prepotência, injustiça e autossuficiência, não têm lugar no “Reino”. “É difícil para quem tem riquezas entrar no Reino de Deus! Sim, é mais fácil um camelo passar pelo fundo duma agulha do que um rico entrar no Reino de Deus!” (Lc 18,24-25).
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Todavia, a pobreza não pode continuar a ser estatuto de ninguém, a não ser a pobreza que despoja para deixar a pessoa livre para o serviço do Reino. Ou seja, uma pessoa pode querer abraçar a pobreza, mas não pode ser condenada à pobreza. É urgente erradicar a pobreza situacional – a miséria – que deprime e asfixia o ser humano, degrada a vida social e não permite a construção da comunidade, mas há que deixar liberdade para abraçar a virtude instrumental da pobreza para a defesa das grandes causas, para a luta pelo Reino de Deus.
A virtude da pobreza eleva, ao passo que a situação de pobreza pode aniquilar, ofuscar e imunizar contra a abertura à novidade se os pobres caírem na atitude resignatária e fatalista. Aí urgirá a tarefa da conscientização e da criação da convicção da capacidade para sair do labirinto da miséria e da situação de desumanidade.
A felicidade de que fala Jesus está inscrita nos rostos dos discípulos. É a olhá-los que os declara “felizes”, e não, como em Mateus, a falar de quem é feliz. Repare-se que, em Mateus, a última bem-aventurança é dirigida aos discípulos na 2.ª pessoa do plural: “Felizes sereis vós…” (Mt 5,11-12). E eles já são felizes, porque são pobres: deixaram tudo, família e o barco ou o telónio, a fim de estarem livres para a inauguração com Jesus do seu Reino e para pregarem em nome Dele a sua carta magna. São felizes porque são já cidadãos do Reino. São felizes porque são, como o Mestre, rejeitados, insultados por causa do seu discurso que tem de incomodar, porque insta a uma mudança, a um regresso a Deus, pois amar é sair de si mesmo.
Os critérios do mundo proclamam “feliz” quem tem dinheiro, mesmo quando esse resulta da exploração dos pobres, na linha duma economia que mata e duma finança sem rosto; que tem poder, mesmo que esse seja exercido de forma prepotente e arbitrária, não em prol do bem comum, mas em prol do titular do poder; quem influencia, mesmo que essa influência seja obtida à custa da corrupção e de meios ilícitos. Ao invés, a lógica de Deus exalta os pobres, os desfavorecidos, os débeis. E o anúncio libertador que Jesus traz enche de alegria os corações amargurados, os marginalizados, os oprimidos. Com o “Reino” de Deus estabelece-se um mundo de irmãos e de irmãs, que bane a prepotência, o egoísmo, a exploração e a miséria e dá um lugar aos pobres que assumem o estatuto de filhos iguais e amados de Deus. É o sinal e o cume da fraternidade, a alegria da filiação comum, o sabor da herança do Céu.
Resta saber se nós, testemunhas e arautos de Jesus, conseguimos passar aos pobres e aos marginalizados essa oferta libertadora e se temos dado conta desta obrigação testemunhal e pregoeira com suficiente convicção e radicalidade, de forma a criar um impacto real na história dos homens ou se, ao invés, nos temos limitado a guardar a sete chaves o depósito da fé e deixar que só os pretensamente “dignos” tenham acesso a ele. É preciso crer e dar; ter a pobreza suficiente para receber; e fazer crer e fazer dar e receber – com alegria, generosidade, dedicação e esperança.  
***
Talvez seja adequada, para a releitura da perícopa evangélica referenciada no início, a leitura dum trecho de Jeremias (Jr 17,5-8), que censura “quem confia no homem e põe na carne toda a sua esperança, afastando o seu coração do Senhor” e bendiz “quem põe a sua confiança no Senhor e Nele assenta a sua esperança”. São palavras ao jeito das máximas sapienciais, através das quais o profeta, recorrendo a antíteses, desenvolve o tema da confiança/esperança.
O reinado de Joaquim (609-597 aC) desenvolve uma política aventureirística de alianças com potências estrangeiras e confia a segurança do povo, não a Jahwéh, mas aos exércitos egípcios. E o profeta ataca essa política enquanto grave sintoma de infidelidade ao Deus da Aliança, pois já não coloca a sua confiança e esperança em Deus, mas sim nos homens.
Jeremias denuncia o homem que se apoia noutro homem e prescinde de Deus. Tal denúncia não postula que não confiemos em quem nos rodeia – Com efeito, quem não confia no irmão que vê, como confia em Deus, a quem não vê? –, mas constitui a censura da autossuficiência dos homens que julgam que não precisam de Deus. Aliás, quem não confia em Deus, como pode confiar noutro homem? Depois, prescindir de Deus e não contar com Ele significa construir uma existência efémera e raquítica, a que falta o essencial, como o cacto ou o arbusto plantados no deserto, condenados previamente à morte precoce.
A seguir, o profeta sustenta imageticamente o estilo de vida daquele que põe em Deus a sua confiança e a sua esperança. É o arbusto plantado à beira da água a mergulhar as raízes bem fundo. A imagem sublinha a segurança, a solidez, a paz, a fecundidade, a abundância de vida. Se Israel confiasse unicamente em Deus, lançaria as suas raízes de forma permanente na Terra Prometida e não experimentaria a trágica aventura do exílio.
A experiência da confiança frustrada pode invadir-nos nalguns momentos da vida e pode criar-nos a sensação de que o mundo se abate sobre nós. Ora, se é certo que tudo o que é humano é efémero e finito, também é certo que em Deus encontramos o rochedo forte e o abrigo acolhedor que não falham e que não dececionam.
É fácil espantarmo-nos com a evolução e as maravilhas da ciência, da arte e da técnica, com as comodidades civilizacionais de que dispomos e com o acesso fácil ao dinheiro, ao poder ou ao protagonismo. Porém, se, prescindindo de Deus, viermos a sentir na pele a efemeridade, e até a monstruosidade, de tudo isso, ficaremos vazios e sem norte.
Se calhar, é útil espiritualmente refletir a mensagem do Salmo 1, o dos dois caminhos que o Senhor nos põe à frente para opção – meditação, com claras conotações éticas, a mostrar que o livro dos Salmos, que abre com o termo “feliz”, para lá de ser uma antologia de orações pessoais e litúrgicas, constitui um espelho de vida e de moral, sublinhando a polarização de caminhos ou comportamentos, que representam dois modos de vida com resultados diferentes (Dt 30,15-18).
Se o caminho da impiedade torna o homem como palha, que o vento leva, e atira com ele para a perdição, o caminho da justiça garante a felicidade porque inculca a confiança no Senhor, radica Nele a esperança humana, que assegura o futuro com Deus e em Deus. O homem pobre e desnudado diante de Deus, sujeito ao juízo de Deus, não segue o caminho da iniquidade, mas é como árvore plantada à beira das águas: dá fruto no devido tempo, a sua folhagem não murcha e tudo quanto fizer terá pleno sucesso. Feliz, pois, o homem que pôs a sua esperança no Senhor!
2019.02.17 – Louro de Carvalho